Dar a volta

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  • karine
    Fazedor de Chuva
    • Jul 2012
    • 1595

    #61
    Três fronteiras num só dia

    Começamos o dia com os pés bem assentes no Brasil, em Foz do Iguaçu, e os olhos postos lá ao longe, do outro lado do rio – à esquerda, a Argentina, à nossa direita, o Paraguai. Começamos o dia no Marco das Três Fronteiras que, trocado por miúdos, não é mais do que um obelisco que estabelece o limite territorial entre os três países. As chegadas e partidas rápidas e constantes de camionetas repletas de olhos em bico e câmaras com a sede do disparo fizeram-nos apressar o passo.

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    Uns cartazes publicitários espalhados por Foz do Iguaçu afirmam que, já ali ao lado, a uns breves quilómetros de distância, se pode presenciar uma das sete maravilhas do mundo. Não é uma das sete, mas bem poderia ser. As Cascatas de Iguaçu constam dos guias turísticos por uma razão simples e óbvia – a beleza natural.

    Por linhas travessas, em esquinas e ruelas da cidade, ouvimos dizer que o lado argentino das cascatas “é bem mais bonito” que o lado brasileiro. Deixamos o Brasil, para logo voltar, e a Walentina entrou, pela primeira vez, em solo Argentino. Pelo meio da mata, de lombas e pequenos coatis a atravessar a estrada em modo apressado, demos de caras com a entrada para a reserva natural. Com a casa-ambulante no estacionamento, água na mochila e a curiosidade em punho, começamos a calcorrear os pequenos trilhos por entre os arbustos. Ao longe, ouve-se água a resvalar em queda livre. Uns segundos depois, é de perder a respiração.

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    Fonte: Daravolta.com

    Um pequeno comboio, apinhado de turistas, conduz-nos para o derradeiro final: a Garganta do Diabo. A capacidade da construção humana faz-nos caminhar algumas centenas de metros por passadiços de ferro sobre a água castanha que corre sem dó nem piedade. Quando finalmente se avista ao longe, as palavras calam-se e o tempo não mais faz sentido. Um misto de arrepio e fascínio percorre-nos o corpo – a água é engolida por si mesma num buraco sem fim. Aqui, onde a mãe-natureza se sobrepõe às construções humanas, o barulho é ensurdecedor, abafa o clique das máquinas fotográficas, os gritos excitados e os passos apressados dos turistas menos pacientes. É avassalador presenciar o que a natureza por si só sabe calar.

    Deixamos, por ora, a Argentina para trás e rumamos em direcção ao Paraguai. A literatura berra alto “para se ter cuidado” neste país. Não andar de janelas abertas e, na Ponte da Amizade (a saída do Brasil e entrada no Paraguai), não sair do carro pois o perigo espreita à porta.

    Para melhor suportar o calor, as janelas iam abertas. Os poucos carros a percorrer a Ponte da Amizade permitiram-nos, num instante, chegar ao Paraguai, a Ciudad del Este. À primeira vista, senti a Índia a correr-me no sangue.

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    Fonte: Daravolta.com

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    • karine
      Fazedor de Chuva
      • Jul 2012
      • 1595

      #62
      Um país vale mais do que mil palavras

      Em Ciudad del Este, à primeira vista, senti a Índia a correr-me no sangue. Após deixarmos a fronteira para trás, carimbar o passaporte e documentos necessários, com um sorriso tímido mas aberto, de quem procura confiança, deixámo-nos levar pelo trânsito caótico. Pequenas casas aglomeradas ao longo da estrada, cartazes publicitários a ornamentarem a fachada das mesmas e luzes exageradamente prepotentes iluminavam uma cidade, para nós, ainda desconhecida.

      Diz-se que Ciudad del Este é a capital mundial do contrabandismo, dos shoppings, lojas de rua e do mercado negro. Diz-se também que o que ainda não está à venda, Ciudad del Este já tem. O famoso Burger King, por estes lados, apelida-se de Burger Inn e os equipamentos (falseados) da Apple podem ser encontrados nas lojas Pinneapple – em que o símbolo é, nada mais, nada menos, que um ananás recortado.

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      Fonte: Daravolta.com

      Honestamente, entrei com o pé-direito meio torto na cidade. O que lemos e ouvimos sobre o Paraguai deixou-me arrepiada e não deu tréguas ao meu pensamento, dando lugar a acontecimentos sugestivos na minha mente. “Inácio, fecha a janela e não peças indicações a ninguém, vão assaltar-nos, tenho a certeza”. A cada esquina, os olhares cruzavam-se connosco e seguiam-nos até desaparecermos de vista. Será que estamos nus? Porque nos olham assim? A resposta era clara – a nossa casa-ambulante salta à vista e, de alguma forma, somos alvo de dedos em riste, sobrolhos arqueados e “adeus” tímidos – mas com a mente sugestionada pela literatura e dizeres de outros, o meu pensamento estava toldado. Em pouco tempo, e porque o relacionamento humano assim o exige, estávamos à conversa com o povo-temido.

      Sinto-me na obrigação, desde já, de admitir que estava errada. Em Ciudad del Este, ofereceram-nos sorrisos abertos e acolhedores, palavras encorajadoras e apenas um aviso que nos acompanhou nos três dias por lá vividos: “nos mercados não devem andar de máquinas em punho”. Uma regra que seguimos à risca, não fosse o diabo tecê-las. Percorremos, de manhã à noite, as ruas empoeiradas e as bancas apetecíveis com o objectivo de comprar, ao preço da chuva, o restante equipamento que nos faltava para a Walentina.

      De cinquenta em cinquenta quilómetros, em direcção a Asunción, somos parados pela polícia de trânsito. Essa sim, é aberta e assumidamente corrupta. Faces sérias e antipáticas exigem-nos os documentos pessoais e da viatura. Está tudo em ordem. Levantam os olhos, em dúvida, entre nós e a papelada e calmamente afirmam: “A Kombi estava a 90 km/h numa zona urbana, têm que pagar multa”. Incrédulos e com cara de parvos, afirmamos “90 km/h? Mas a Kombi não anda a mais de 80 km/h…”. Por falta de opção, contrariados e sem disfarçar, deixam-nos seguir caminho.

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      Fonte: Daravolta.com

      A chegada a Asunción ficará, sem dúvida, sulcada na nossa memória. É uma cidade relativamente grande e, quando vista de noite, o caso muda de figura. Havíamos visto no Lonely Planet uma pequena pensão familiar onde pensávamos pedir para estacionar a casa-ambulante durante umas noites. Numa qualquer rua da cidade, avistámos um vulto ao longe e encostámos a Walentina para pedir indicações. Os olhos dele iluminaram-se quando nos viu, explicou-nos que já tinha sido dono de uma Kombi mas, devido a problemas financeiros, tivera de a vender. Providenciou-nos todas as informações necessárias e continuámos caminho. A dona da pensão, além de pouco simpática, exigiu uma quantia exorbitante e, quando demos por nós, estávamos a questionar a polícia por um local seguro. “O único sítio seguro é em frente à esquadra”. A certa altura, desanimados e perdidos, lembrámo-nos de voltar atrás e procurar o rapaz-simpático a quem havíamos pedido indicações. Após muitas voltas e algumas ruas em contra-mão, conseguimos encontrar a rua. Nada. Nenhum movimento. Para nosso espanto, quando desligamos a Walentina, o rapaz-simpático estava a descer a rua a correr ao nosso encontro. “Voltaram! Quando se foram embora, bati em mim próprio por não vos ter pedido o contacto!”. Em dez minutos, estávamos animadamente à conversa com o Geron e com sítio para “pousar” a casa-ambulante.

      O mundo é pequeno. Demasiado pequeno. O cunhado do Geron, mora na porta ao lado, estava em Ciudad del Este em trabalho e, no regresso a Asunción, cruzara-se com uma Kombi na estrada. Desajeitadamente, tirara uma foto para mostrar ao cunhado. No dia seguinte, ao entrar na casa do Geron, depara-se com a Kombi que havia visto no dia anterior na estrada. “Puta mierda!” exclamou incrédulo. Éramos nós.

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      • karine
        Fazedor de Chuva
        • Jul 2012
        • 1595

        #63
        O coração da América do Sul está a sangrar…

        A história contemporânea do Paraguai, “trocado por miúdos”, não é mais do que o reflexo da América Latina contemporânea. Paraguai está no meio da América do Sul, tem forma de coração, faz fronteira com o Brasil, Argentina e Peru, é o caminho mais rápido entre as principais capitais dos países do sul e um lugar estratégico que, há uns anos, encontrou … petróleo.

        Alfredo, nascido no Brasil e descendente de Alemães toma o poder do Paraguai com um golpe de estado e dá início a um “reinado” de 35 anos, pouco democrático, fratricida com privilégios pouco distribuídos, explorando os pobres e enchendo os bolsos dos ricos. O partido do poder era o Colorado. Em 1989, dá-se um novo golpe de estado que pode ser consequência de uma discussão à mesa da família de Alfredo.

        Num dia de verão, Alfredo chateou-se com o sogro. O sogro Andrés, para não ser piegas, promoveu um golpe de estado e subiu ao poder prometendo um novo Paraguai democrático. Como as democracias são susceptíveis de outros apetites, o mesmo Partido Colorado a que pertenceram os anteriores presidentes, manteve-se no poder até … imagine-se só … 2008. Em 2008, uma estrela cadente, uma fada dos dentes, um anjo na terra, apresentou-se como candidato a presidente. Um padre, de nome Fernando, candidatou-se pelos Liberais a presidente do país e, depois de 54 anos de “coloradismo”, o Partido Colorado cai (pelo menos esperava-se nas ruas da amargura). Fernando renunciou ao seu cargo de padre para exercer o poder no seu país, descobriram-se cinco mulheres, sete filhos (só reconhece dois) e voltou à rua, expulso do poder, quatro anos depois.

        Dia 21 de Abril, tentou-se, mais uma vez, fazer história no coração da América do Sul. As eleições presidenciais de domingo passado voltaram a trazer o poder aos colorados, mas, desta vez, o eleito chama-se Horácio. É o maior narcotraficante da América do Sul e, a primeira vez na vida que votou foi há dois dias. Deve ser o único presidente do mundo que, pela primeira vez que vota, ganha uma eleição para o mais alto cargo de uma nação.

        Entretanto o país está entregue “aos bichos”. A corrupção domina o dia-a-dia da polícia, dos organismos públicos e das eleições. E tudo isto é tão evidente e tão claro como a água, que, não bastou cinco minutos dentro do Paraguai para sermos abordados por um polícia corrupto.

        No dia das eleições tentamos perceber como tudo funciona. Refugiados em amigos que fomos conhecendo, fomos ao interior rural do Paraguai para ver como é o processo eleitoral. As mesas de voto funcionam com normalidade e têm uma particularidade curiosíssima. Para ter a certeza que ninguém vota duas vezes, cada eleitor, depois de colocar o seu voto na urna, pinta o dedo com uma tinta que demora semanas a sair.

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        Numa carrinha alugada percorremos centenas de quilómetros para chegar a Villa Florida. Por entre picadas de terra batida e caminhos duvidosos, transportamos pessoas para as levar a votar. Por estes lado o voto vale 60 dólares e, cada um, depois de haver cumprido o seu dever, recebe a sua maquia. Nós fomos assistir à compra de votos para nos entranharmos no coração da América do Sul e, pela primeira vez, nestes dois meses, sentimos que estávamos lado-a-lado com a realidade.

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        Fonte: Daravolta.com

        No poder está Horácio, mas numa conversa em casa de um candidato a deputado liberal, confidenciaram para a lente da nossa câmara. Os verdadeiros amigos do Paraguai são Morales, Chávez e Castro. Assim é a América do Sul!

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        • Proftel
          Fazedor de Chuva
          • Apr 2013
          • 343

          #64
          Minha criança!

          Não se exponha tanto!

          Brasil Argentina e Uruguai acabaram com 2/3 da população do Paraguai (isso foi fomentado pelos ingleses na época) mas, os Paraguaios (são gente boníssima) nunca nos perdoaram por esse genocídio.

          Eu, se fosse Paraguaio, falando Tupi-guarani, também não perdoaria.

          É a tal da "empatia" que a gente precisa sentir de vez em quando.

          Bom, você está no Paraguai, a nordeste muitos brasileiros plantando soja, mais ao norte uma fazenda do George Bush (melhor não chegar perto), há também uma base militar norte-americana em algum lugar, evite.

          Melhor eu parar de falar.

          Boa sorte a vocês.

          :-)

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          • karine
            Fazedor de Chuva
            • Jul 2012
            • 1595

            #65
            Eleições políticas, tertúlias à porta fechada e coisas que tal

            Estamos a duzentos quilómetros de Villa Florida, uma pequena povoação a sul de Asunción, e a conversa no carro gira entre os políticos do país e o tempo da ditadura, dos presos políticos e da opressão. Tempos de sofrimento, recordados por quem de perto não os viveu mas por quem de perto assistiu à transformação e perdas na herança familiar.

            Acalentamos tudo com atenção e uma certa dose de espanto. O país está ao lado de uma mudança, ou assim se espera. O que os nossos companheiros de viagem vão fazer a Villa Florida é simples (se bem que para nós, Portugueses, ilegal) – vão “buscar” pessoas a sua casa, de nível social baixo e literacia quase inexistente, para votarem. No partido para o qual estão a “trabalhar”. E pagam a cada pessoa uma quantia considerável. Das dezassete listas candidatas, todas elas sem empenham financeiramente nestas acções.

            Nós estamos em Villa Florida por várias razões: assistir ao processo eleitoral na escola, conhecer um dos candidatos a deputado e a sua família e presenciar a vitória e comemoração de um dos dezassete partidos. Villa Florida é pequena quanto baste mas bonita o suficiente para servir de pátria de veraneio no Paraguai. Ao final da tarde, o povo sai à rua em jeito de comemoração – já se sabe quem venceu as eleições. Ver os nossos amigos cabisbaixos fez-nos tirar as nossas próprias conclusões sem questionar. “O país vai retroceder ainda mais nos próximos cinco anos, o povo escolheu quem mais rouba”, asseguram-nos.

            Um escritor estrangeiro, não me recordo a nacionalidade, australiano ou americano, inglês ou alemão, ou de outra qualquer nação, estudou a fundo a cultura paraguaia. Um dos aspectos que salientou, e provámos isso bem de perto, prende-se com a hora-paraguaia. Aqui, neste país quase esquecido pelo mundo, os cidadãos são conhecidos por chegar aos encontros entre meia hora a quarenta e cinco minutos atrasados. É assim a hora-paraguaia.

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            Fonte: Daravolta.com

            O encontro-jantar estava marcado para as 19h. A essa hora estávamos lá com o Geron, o nosso anfitrião. Aos poucos, e tal como dita a hora-paraguaia, foram chegando os restantes. Christian Kent, o editor da revista gastronómica À La Carte. Esteban Aguirre, publicitário de profissão. Sebastian Saavedra, chef Chileno. Os três referidos, juntamente com outros dois, não presentes, iniciaram o movimento-gastronómico apelidado de Guarará. Patrick Altamirano, realizou a banda sonora do filme 7 Cajas (Sete Caixas) – não foi nomeado para os Óscares pela inexistência de um comité de cinema no Paraguai. E, por fim, Giovanni MBA’e, o detentor da guitarra clássica.

            Abraços e felicitações. As apresentações estavam feitas. Um Ceviche (prato típico peruano) de comer e chorar por mais. Com a ressaca das eleições ainda bem presente, não se inibiram de (en)cantar, a plenos pulmões, os ladrões da pátria. Contaram-se histórias. Aprenderam-se tradições. Fecharam-se as portas do restaurante para nós. Discutiu-se política, música e cultura. Entranharam-se emoções de um povo calado pelo tamanho do mundo. Ao final da noite, senti que presenciara uma tertúlia digna da Natália Correia.

            Fiquei sem bateria no início do encontro-jantar. Não consegui registar visualmente o momento. Esta foto foi tirada há dois anos no mesmo restaurante, na mesma mesa e com parte das mesmas pessoas.

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            Fonte: Daravolta.com

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