Dar a volta

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  • karine
    Fazedor de Chuva
    • Jul 2012
    • 1595

    #16
    17.Novembro.2010

    Pequeno-almoço tardio no Leopold Café. Tínhamos planeado para este dia várias coisas importantes, acabamos por não fazer nenhuma. A preguiça e o cansaço falaram mais alto.

    Sempre quis entrar num certo edifício situado na zona de Colaba que, pela sua imponência e estilo tipicamente britânico e colossal, sempre me atraiu. Descobri, ao transpor o aprazível pórtico de entrada, que é uma biblioteca – David Sassoon Library. Reconhecer que sou apaixonada por livros não faz jus ao meu sentimento e esta foi, sem sombra de dúvidas, das bibliotecas mais bonitas onde já estive. A entrada só é possível para os sócios, viemos a descobrir neste dia. Demos cabo da cabeça ao porteiro e, dez minutos depois, lá nos deixou subir a imensa escadaria atapetada. A sala de consulta/estudo é maravilhosamente bonita. Mesas de madeira compridas e antigas. Móveis encostados às paredes, do chão ao tecto, repletos de livros, com aspecto gasto. Na varanda exterior podemos deitar-nos a ler nas apetecíveis espreguiçadeiras. Tive vontade de lá ficar a tarde toda.

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    Fonte: Daravolta.com

    Decidimos ir jantar ao Woodside, tínhamos saudades das maravilhosas pizzas e pão de alho. É um restaurante caro e com um ambiente um pouco diferente do Leopold’s e do Mondegar: não se vê tantos indianos, talvez por ser ainda mais dispendioso. No entanto, neste dia estava quase vazio, apenas com alguns turistas. Este e todos os restaurantes em Bombaim. “Dry Day” como tinham afixado nas portas dos estabelecimentos, ou seja, não há bebidas alcoólicas para ninguém. Neste dia, a comunidade muçulmana festejava o Eid ul-Adha e, entre outras restrições, a proibição de bebidas alcoólicas impera. Comemos a pizza, deixámos a cerveja para outro dia.

    18.Novembro.2010

    O ano passado, numa das minhas longas investidas aos livros da Fnac, deparei-me com um que prendeu toda a minha atenção: Sorrisos de Bombaim, de Jaume Sanllorente. Retrata, em primeira mão, com toda a simplicidade desprovida de ligeireza, a fundação da ONG, com o mesmo nome, e que actua em Bombaim. E reservámos este dia para a visitar.

    Nessa noite falei com o Amjad Khan – para mais um Retrato Indiano – um dos quatro agentes que “caçam” turistas pelas ruas de Colaba para serem figurantes em filmes de Bollywood.

    Assista ao vídeo feito por Inácio sobre a ONG Sorrisos de Bombaim:

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    • karine
      Fazedor de Chuva
      • Jul 2012
      • 1595

      #17
      Segue mais um retrato indiano, escrito por Helena Pimentel:

      Amitabh Bachchan: I like to look like

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      Fonte: Daravolta.com

      Viniit Sharma. Ou então, “only Amitabh”. Assim se chama o homem que aparenta ser quem na realidade não é. Mas já vamos a isso.

      Nasceu a 12 de Setembro de 1960 e tem, portanto, 50 anos. É da religião hindu e, profissionalmente, marketeer numa empresa de pedras preciosas em Jaipur. É casado, há 25 anos, e tem dois filhos – o Humpty e o Dumpty – em homenagem a um poema, que nunca esqueceu dos tempos de escola, de Lewis Carroll em “A Alice no País das Maravilhas”. De cabeça baixa e sobrolho franzido, como que a puxar pela memória, evoca-o num murmúrio acelerado. Aproximo-me dele e tento ainda captar e registar algumas palavras. Desisto, pensei, tento encontrar depois.

      Humpty Dumpty sat on a wall:
      Humpty Dumpty had a great fall.
      All the King’s horses and all the King’s men.
      Couldn’t put Humpty Dumpty in his place again.

      Não consigo imaginar porque o marcou tanto este poema e a razão de ter apelidado os filhos com o nome desta personagem. Porque conheci o filho mais velho, Humpty, e de oval, gordo e atarracado tem muito pouco. Talvez esteja nalgum significado simbólico e metafórico embrenhado no livro. Não sei, nunca o li.

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      Fonte: Daravolta.com

      Mas o que tem de distinto e invulgar este senhor tão bem-parecido, extremamente simpático, sociável, envolvente e carismático? É simples. A sua semelhança física e vocal com Amitabh Bachchan, nada mais nada menos que, a figura mais proeminente do cinema indiano de Bollywood. Além de actor e produtor, é cantor, apresentador de televisão, membro eleito do parlamento entre 1984 e 1987 e dá a cara para (quase) todos os anúncios de publicidade na Índia. É difícil passar numa rua, beco sem saída ou aldeia de estrada no meio de nenhures, e não ver o seu rosto. Na presença de qualquer indiano apenas pronunciem o nome e deliciem-se a vê-lo abrir os lábios num sorriso luminoso e a acenar vigorosamente com a cabeça. Cem por cento dos indianos gostam do Amitabh, garante-me Viniit, e eu não sou diferente. Sorri e depois continua, se ele fizer um anúncio ou usar uma determinada marca de roupa, eu também a uso. Pinto o cabelo e uso a barba como ele. Perguntei-lhe se também sabia cantar. Apenas as canções do Amitabh, replica como se fosse óbvio e a minha pergunta descabida.

      Esta semelhança não é recente. A memória mais antiga que guarda é da sua professora e dos colegas de escola, aos 12 anos, já o tratarem por Amitabh, na altura, com 17 anos.

      Naquele momento pensei, e porque não usufruir e beneficiar desta “confusão”? E porquê sermos normais se podemos aproveitar-nos da excepcionalidade dos outros e favorecer-nos a nós também um bocadinho? Vejam só. É fotografado pelo menos cinquenta vezes por dia. A polícia faz-lhe continência quando passa, se for apanhado a conduzir sem cinto não há grande problema e as multas de trânsito são facilmente esquecidas. Passa à frente nas filas sem qualquer reclamação da outra parte. Foi solicitado para fazer de seu sósia em Bombaim. Foi convidado, pelo clube de fãs de Jaipur, para ser sócio vitalício, embora eu desconheça o que isto possa significar ou implicar. E a sua mulher afirma, declaradamente, que casou com ele porque se parecia com o Amitabh.

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      Fonte: Daravolta.com

      É como ele diz. Eu? Eu apenas sou o Amitabh do primeiro segundo. Mas porque me haveria de importar? A bem ver, as pessoas sabem que eu não sou o verdadeiro, mas ser parecido já chega. Sinto-me orgulhoso “and I like to look like”.

      E enquanto jantávamos e a conversa ia fluindo, deixei-me levar. Imaginei que estava a privar com uma das pessoas mais famosas da Índia e gostei da sensação. Estando longe de casa, posso ser quem eu quiser, ninguém me leva a mal.

      Por fim, ao despedirmo-nos perguntei-lhe se era feliz. Olhou frontalmente para mim, soltou uma gargalhada límpida e ruidosa e declarou pausadamente “Claro que sou feliz. Era possível não o ser?”. Não, na verdade não. Aqui na Índia, a sorte saiu-lhe barata. Ou o karma, como preferirem".

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      • karine
        Fazedor de Chuva
        • Jul 2012
        • 1595

        #18
        19.Novembro.2010

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        Foto da Internet

        Tirámos fotografias para “oferecer emoções” na longa avenida costeira de Marine Drive. Ao final da tarde, decidi fazer um furo na orelha e, depois de entrar em inúmeras ourivesarias que apenas faziam sem pistola, apenas com uma agulha, encontrei uma como desejava, em Colaba. Nunca lidei bem com a dor física e, desta vez, não foi exceção. Se o rapaz se riu ao ver-me guinchar e fugir da pistola, ao ter a quebra de tensão ali no meio da rua, nem sabia onde se meter ou o que fazer. Acabamos a noite no Mondegar, ao som de uma música dos Dire Straits escolhida por nós na jukebox, a festejar a nossa estadia em Bombaim e a generosidade das pessoas que nos têm seguido nesta aventura, ao quererem oferecer emoções através de nós. O que já resultou em 365 euros.

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ID:	162960
        Foto da Internet

        20.Novembro.2010

        Ao pequeno-almoço, no Leopold Café, delineamos por alto o nosso plano de viagem para os dias seguintes. Tínhamos três dias para chegar a Goa e o GPS apontava cerca de 550 quilómetros. Decidimos que iríamos tentar percorrer o máximo de quilómetros por dia, ao invés de marcar previamente uma cidade como meta, por duas razões muito simples: o percurso seria em estrada nacional, e não auto-estrada, e desconhecíamos o estado da mesma; o Lonely Planet apenas refere cidades costeiras, que distam cerca de vinte quilómetros da nossa via, e nenhuma ao longo da nossa estrada, pelo que o trajecto e estadias seriam uma incógnita para nós.

        Saímos já tarde nessa manhã e só ao final de uma hora e meia deixámos de vislumbrar os arredores de Bombaim. Se um dos percursos anteriores se caracterizou pela presença de camelos, neste foram, sem dúvida, as manadas de cabras, a passo preguiçoso e pachorrento no centro da estrada. Foi, com certeza, das paisagens mais bonitas que já vi até hoje. Árvores frondosas, espessas e bem torneadas na orla da estrada, tocando-se e entrelaçando-se entre si no cimo das nossas cabeças. Ao longe, avistavam-se picos montanhosos e planícies a perder de vista e, de vez em quando, pequenos lagos pontuavam o horizonte. O chão esburacado, a denúncia física do meu corpo e os condutores assassinos fizeram-me praguejar um cem números de vezes.

        A meio da tarde, cansados, moídos e a precisar de uma casa de banho, decidimos parar na seguinte cidade que cruzássemos. Aterrámos em Mahad, uma pequena vilória a cerca de 180 quilómetros de Bombaim. Havia três hotéis e escolhemos o que nos pareceu menos rasca tendo em conta a qualidade/preço. Cinco minutos depois de já estarmos no quarto, um dos empregados bate à porta e, sem qualquer cerimónia da sua parte ou resposta da nossa, entra e começa a borrifar o quarto enquanto atira para o ar “Room refresher! Room refresher!”.

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        • karine
          Fazedor de Chuva
          • Jul 2012
          • 1595

          #19
          21.Novembro.2010

          “Partimos de manhã, o dia seria longo, desconhecíamos a estrada e Ganpatipule, uma pequena povoação costeira muito aclamada entre os indianos – por isso, com muito turismo interno – e, segundo o Lonely Planet, detentora de melhores praias que as Maldivas, ainda estava a cerca de duzentos quilómetros de distância.

          O gerente do restaurante do hotel avisou-nos que seriam cerca de dezassete quilómetros de montanha. Fizemo-nos à estrada e lentamente fomo-nos apercebendo que não tínhamos entendido bem, ele disse com certeza setenta quilómetros em vez de dezassete porque as curvas e contra-curvas montanhosas seguiam-se umas atrás das outras. Em contrapartida, a paisagem era de perder o fôlego. A terra das escarpas adquiriu um tom avermelhado e os rios estreitos iam percorrendo os baixios das montanhas – Maharashtra é, sem dúvida, dos estados indianos mais harmoniosos e bonitos. Passámos por três indianos com a mota parada na berma da estrada e, estando eles sem gasolina, fizemos a nossa boa acção do dia. Concluímos neste dia dois mil quilómetros de viagem, desde que começamos a dar a volta à Índia.

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          Foto da Internet

          Ao final da tarde, chegámos a Ganpatipule e depois de ver alguns hotéis, optámos por umas “cabanas” em cima da praia. As enormes árvores faziam lembrar o pinhal de São Jacinto, em Aveiro, mas a semelhança ficava-se apenas por aqui. O sítio é bonito mas nada mais do que isso. O preço elevado das ditas “cabanas” não condiz com a qualidade e os pássaros e as moscas não se fazem de rogados ao partilhar a nossa comida – espero que nas Maldivas não seja assim.

          Deitámo-nos cedo pois no dia seguinte teríamos de chegar a Goa e o GPS anunciava um total de duzentos e sessenta quilómetros. No terreno montanhoso esta travessia iria fazer-nos demorar o dobro do tempo que, já por si, não era pouco.

          22.Novembro.2010

          O dia avizinhava-se longo e comecei a ler “Um estranho em Goa” de José Eduardo Agualusa. Prendeu-me totalmente a atenção, e tão longa foi a viagem, que o dei por terminado ainda esta ia a meio.

          Pela primeira vez fomos mandados parar pela polícia numa suposta operação stop. Este momento mais não foi do que a exposição nua e crua da corrupção existente no país: depois de nos solicitar os documentos da mota, afirmou veementemente que para continuarmos a viagem teríamos de lhe dar, sem justificação aparente e apenas porque ele assim dizia, duzentas rupias. Estivemos dez minutos a discutir e o superior dele, ao perceber que não levava nada dali assim tão facilmente, mandou-nos embora com um aceno de cabeça rápido e antipático.

          Mais montanhas e escarpas avermelhadas de suster a respiração. Mais vegetação abundante e rios a perder de vista. Mais aroma adocicado a chá a pairar no ar. E Goa. Igrejas e capelas ao desbarato. Palavras escritas em português presas e perdidas com o tempo. Finalmente Goa. Finalmente casa, ou o mais parecido que conseguiríamos por aqui, em terras indianas. E, dez horas depois, chegamos a Arambol, uma pequena aldeia na praia já no estado de Goa.

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          Fonte: Daravolta.com

          Lata de lixo na Índia
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          Fonte: Daravolta.com

          23.Novembro a 09.Dezembro.2010

          Neste intervalo de dias não irei registar o que nos vai sucedendo. Ou melhor, vou tirando notas mas não com o objectivo de as tornar públicas, uma vez que serão passados na companhia da mãe do Inácio e de uma amiga nossa.

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          • karine
            Fazedor de Chuva
            • Jul 2012
            • 1595

            #20
            Goa – Cochim

            10.Dezembro.2010

            Após quinze dias a percorrer o estado de Goa, não de sidecar mas num carro alugado, visitar o que resta da (nossa) cultura portuguesa e com uma boa dose de praia à mistura, devo admitir que a vontade de recomeçar a escrever diariamente o relato desta nossa volta é escassa.

            Deixámos Panjim e o bairro das Fontainhas em direcção à praia de Palolem – pouco mais de sessenta quilómetros para percorrer. Estava um dia chuvoso, frio e pouco agradável. Demorámo-nos propositadamente ao pequeno-almoço na esperança de que surgisse uma oportunidade para nos fazermos à estrada. Percorridos somente trinta quilómetros, o cabo do acelerador deu de si e (para nossa sorte) partiu bem no centro da cidade de Margão. Após várias tentativas falhadas de substituição do cabo, o Inácio percebeu que seria preferível – e obviamente mais rápido e eficaz – arranjar um mecânico. Dez minutos depois estávamos de volta à NH-17, a “auto-estrada” que atravessa o estado de Goa de lés a lés.

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            Fonte: Daravolta.com

            Ao longo do curto percurso, de muitas igrejas, capelas e património português, fui lendo “O viajante do século” de Andrés Neuman. Chegámos a Palolem e começamos a procurar um hotel. Apesar de já lá termos estado na semana anterior, não queríamos de todo voltar ao mesmo “eco-lodge” – uma cabana apenas com uma cama e uma rede mosquiteira e uma casa de banho exterior (se é que assim se pode chamar, uma vez que apenas continha uma sanita e baldes de água para o banho). Sem vontade de procurar muito, aceitámos o primeiro hotel que vimos – Cupid’s Castle – pela módica quantia de 400 rupias por noite. A praia é muito bonita, toda ela ladeada por coqueiros e preenchida com pequenos barcos de madeira coloridos de passeio e vários restaurantes e cabanas ao longo do areal.

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            Fonte: Daravolta.com

            11.Dezembro.2010

            Dia de “descanso” – dormimos até tarde, fomos à praia, planeamos os dias de viagem até Cochim e jogamos crapô nas pequenas esplanadas de praia.

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            Fonte: Daravolta.com

            12.Dezembro.2010

            Por motivos pessoais e totalmente alheios à nossa viagem, decidimos permanecer este dia em Palolem.

            13.Dezembro.2010

            Deixámos Palolem e o estado de Goa e entrámos em Karnataka. Na fronteira, pedimos a um dos oito polícias, que por lá permaneciam especados, para nos fotografar para a nossa campanha “Ofereça uma Emoção”. Tentámos despachar-nos o mais rápido possível, na esperança de que nenhum deles se lembrasse de nos pedir os documentos da mota. Paisagem verdejante com uma beleza indescritível, canais de rios, pequenas enseadas de mar, praia e algum monte à mistura. A esquecer: o cheiro nauseabundo a peixe em alguns pontos da estrada. Milhares de pequenos peixes mortos estendidos sobre o alcatrão na orla da estrada, sem qualquer razão aparente.

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            Foto da Internet

            Com o objectivo de visitarmos as Jog Falls, a maior cascata natural da Índia e, portanto, uma enorme atracção turística, decidimos acabar o dia em Honavar, uma pequena cidade a duas horas de distância de camioneta das mesmas. Após cento e trinta quilómetros de estrada aterrámos no Prameela Paradise, um autêntico paraíso terrestre onde por apenas 550 rupias temos direito a água quente apenas entre as seis e as dez da manhã. Mas, para nosso infortúnio, informou-nos o dono do hotel que esta não é uma boa altura para visitar as cascatas pois não têm quase água. A altura certa seria durante o período da monção. Planos alterados. Acabou a ida às cascatas, vamos em busca das corridas de búfalos numa pequena povoação mais a sul, segundo o Lonely Planet.

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            • karine
              Fazedor de Chuva
              • Jul 2012
              • 1595

              #21
              14.Dezembro.2010

              Deixámos Honavar em direcção ao sul, à cidade de Udupi, mais conhecida pela comida vegetariana e onde se consta ter sido inventada a Masala Dosa, um prato típico do sul da Índia.

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              Fonte: Daravolta.com

              Tínhamos pela frente cerca de cento e trinta quilómetros e, além disso, íamos com a expectativa de, pelo caminho, ainda assistir à Kambala, isto é, às tradicionais corridas de búfalos em águas lamacentas, características da região sulista onde nos encontramos. Segundo o Lonely Planet, estas vão ocorrendo em várias cidades entre Dezembro e Março.

              Nas cinco vilas ou aldeias em que parámos, a informação recolhida era sempre uma das duas: a Kambala já acabou, agora só no próximo ano, ou, as corridas são na próxima cidade. E assim fomos andando até chegarmos a Udupi. Corridas de búfalos nem vê-las.

              Ficámos instalados num hotel, por 400 rupias, cujo nome nunca soube sequer. Planeámos para o dia seguinte visitar a St. Mary’s Island, também conhecida como Coconut Island, situada na costa de Malpe, a oito quilómetros de Udupi. Estas ilhas são famosas, não só pela sua distinta formação geológica de lava basáltica mas também pela lenda cuja história conta que Vasco da Gama aí atracou, em 1498, antes de proceder a sua viagem até Calicute.

              Hari a fazer o nosso novo porta-chaves para as chaves da Chamuça. Trabalho totalmente manual em bronze:
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ID:	163555
              Fonte: Daravolta.com

              15.Dezembro.2010

              Além de visitarmos a St. Mary’s Island, tínhamos planeado ainda ir neste dia até Mangalore, cidade que dista apenas 56 quilómetros de Udupi. Fizemos o check-out do hotel e deixámos a bagagem toda numa sala. Depois de tomarmos um bom pequeno-almoço continental, que se resume a chá ou café, sumo, torradas e ovos, apanhámos um riquexó até à cidade vizinha, Malpe, de onde parte o barco.

              Ficámos surpreendidos pelo pequeno tamanho e beleza da ilha. Em vinte minutos demos a volta a todo o seu perímetro Ao todo a viagem demorou duas horas, com ida e volta e paragem de uma hora na ilha, e decidimos instantaneamente partir apenas no dia seguinte para Mangalore. Quando regressamos ao hotel, informaram-nos que já não havia quartos disponíveis. E todos os hotéis daquela zona nos respondiam o mesmo. Estava quase a anoitecer e não tínhamos local para pernoitar. Irritados com aquilo tudo e fartos de procurar por um hotel naquela cidade, carregamos as mochilas no sidecar e decidimos ir até Mangalore.

              [Com pouca vontade para escrever o relato dos dias que se precederam até chegarmos a Cochim, estes são escritos, de memória, dez dias depois.]

              16.Dezembro.2010

              Acordámos cedo e fizemo-nos à estrada sem demora. Tínhamos pela frente 147 quilómetros até Kannur. A distância não é grande mas desconhecíamos o estado da estrada e queríamos chegar o mais cedo possível para recolher informações sobre a Teyyam, um ritual hindu típico da região de Kerala, mais especificamente da costa de Malabar.

              Deixámos o estado de Karnataka e entrámos no de Kerala, famoso pelas “Backwaters”, ou seja, as casa barco.

              A viagem correu bem e sem sobressaltos. No hotel informaram-nos que no dia seguinte, no templo hindu ao lado da estação ferroviária decorreria uma Teyyam às 16h.

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              Fonte: Daravolta.com

              17.Dezembro.2010

              A mota não ligava. Já se estava a portar bem há demasiado tempo e até já tínhamos comentado isso entre nós. Um funcionário do hotel chamou um mecânico e uma hora depois, juntamente com um francês que conhecemos no hotel, deslocamo-nos até à cidade para assistir à Teyyam. Apesar de ser um ritual estranho e barulhento, não deixa de ser uma experiência cultural estimulante. Enquanto um homem se vai mexendo e dançando, ornamentado de uma forma quase carnavalesca, dando a sensação de que está possuído ou em transe, outros cinco tocam tambores de uma forma ensurdecedora.

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              • karine
                Fazedor de Chuva
                • Jul 2012
                • 1595

                #22
                Mais um retrato indiano, por Helena Pimentel:

                O homem que “parte” mil ovos por dia

                No início de cada “conversa” interrogo sem hesitação o nome completo da pessoa, a idade e a data de nascimento. Por não preparar antecipadamente uma lista de questões ou matutar sequer nisso, estas são perguntas padrão simples e óbvias onde descubro – melhor, onde estes indivíduos me oferecem – logo à partida, e de forma hilariante, chão para continuar. Desta vez, não foi excepção.

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                Fonte: Daravolta.com

                Ram Kishan Gawlani. Tem 64 anos e nasceu a 8 de Maio de 1950. Apontei no meu caderno e franzi o sobrolho. Comecei a rir-me, achei que ele estava a gozar e ia ainda corrigir. Ele olhou atónito para mim, não percebendo onde se encontrava a piada na resposta dele, e manteve-se sério à espera da pergunta seguinte. Eu não sou boa a fazer contas, nunca fui, mas esta era fácil. Ou ele desconhece o ano em que nasceu ou também não sabe fazer contas. Controlei-me e prossegui. É hindu, casado há quarenta anos e tem quatro filhos, dois rapazes e duas raparigas.

                Mas o que tem de tão excêntrico ou especial este homem? Se estiverem em casa, peguem numa frigideira e misturem dois ovos, queijo, coentros, pimenta e um molho à base de ketchup e maionese e tentem fazer uma omeleta. Com toda a certeza, não farão a “melhor omeleta do mundo”, qualificam-na assim os entendidos na matéria. Faltar-vos-á folhas de jornal para embrulhar a omeleta, bancos encardidos para se sentarem a saborear à altura dos tubos de escape, vacas a passear e a aproveitar os restos e uma parafernália de sons de uma típica praça de Jodhpur. Se existe nome para definir a sua profissão, eu não estou ciente dele. No entanto, nesta cidade, ele é o “omolette man” de referência desde 1974.

                A primeira vez a surgir no guia da Lonely Planet data de 1999. E, a partir daí, já perdeu a conta às vezes que foi mencionado e sugerido. O artigo português do Fugas, o suplemento do Jornal Público, tem-no lá plastificado, juntamente com os vinte cinco cadernos repletos de mensagens e assinaturas dos viajantes esfomeados e curiosos que por lá passaram.

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                Na sua “Omolette Shop” – ou “Omolette Shoppe” como indica o colorido e corroído menu – tem à escolha vinte e dois tipos de omeletas diferentes, criadas por ele, sendo que a mais famosa é a Cheese Masala Omolette. Vende cerca de mil e duzentos ovos e confecciona trezentas omeletas diariamente. Trabalha todos os dias do ano, “no holidays” acrescenta ainda. Indaguei sobre o facto de já ter tido reclamações ou problemas intestinais relatados posteriormente. A rir-se replicou “no, no, no, everybody is happy in my shop”.

                É vegetariano e, por isso, não come ovos. Nem às escondidas? Novamente aquele olhar atónito. Nem se deu ao trabalho de me responder.

                O seu inglês é entaramelado e tímido. Veste um fato castanho coçado – ou será cinzento? – que sugere um empregado fabril, com uns chinelos pretos e gastos pelo uso e pelo tempo. Abre constantemente a boca num sorriso luminoso, o que realça a sua falta de dentes. Tem a barba esbranquiçada por fazer, olhos castanhos e óculos a condizer de graduação razoável. É careca, mas o cabelo que lhe resta, e consoante a estação do ano – Verão ou Inverno – está pintado de laranja ou preto, respectivamente. Além disso, como declarou muito jovialmente, as pessoas vão lá para lhe tirar fotografias e tem de estar jovem e bonito. O antebraço direito ostenta, orgulhosamente, uma tatuagem com o seu nome. É uma figura simultaneamente cómica e agradavelmente simpática.

                Por falta de imaginação, perguntei se alguma vez tinha atirado com ovos a alguém no decurso de uma pequena briga ou exaltação. A expressão facial posterior dizia literalmente “deves estar a gozar comigo!”. Soltou uma gargalhada estridente e com gosto, mas com uma delicadeza e presença de espírito, muito solene e calmamente, redarguiu que não, era óbvio que nunca tinha atirado com ovos a ninguém. Que comportamento absurdo e despropositado, deve ter ele pensado. E interiormente devolvi-lhe esse pensamento quando, de seguida, me conta que na sua família têm a tradição, no dia anterior ao casamento, de ir a casa do noivo e não só rasgam a sua roupa como lhe partem ovos na cabeça. Despedida de solteiro inédita, pensei, e olhei estupefacta para ele.

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                Como sempre, quis saber se era feliz. Com o pé direito enfiado no caixote do lixo, imagino eu para afundar e comprimir o conteúdo de modo a obter mais espaço, perguntei-lhe se era feliz. Resposta pronta e rápida. “Everytime I’m happy. No tension”.

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                • karine
                  Fazedor de Chuva
                  • Jul 2012
                  • 1595

                  #23
                  18.Dezembro.2010

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                  Deixámos Kannur já passava da hora do almoço. Tínhamos apenas 93 quilómetros para percorrer até Calicute e não estávamos muito preocupados. No caminho queríamos apenas visitar o marco que assinala a chegada de Vasco da Gama à Índia, situado em Kapad. Este não é mais do que um pedaço de pedra disforme num caminho perdido na vegetação com uma inscrição do tipo “Aqui chegou Vasco da Gama”. Estranhamos a sua localização e perguntámos a uns locais a razão de estar ali e não na praia. Simples, “o mar dá cabo dele”. Pronto, pensámos, e aqui está o peso da nossa história.

                  Chegámos de noite a Calicute e, após um sem número de hotéis cheios e sem quartos disponíveis, encontrámos um ligeiramente caro tendo em conta a qualidade mas já estávamos fartos de procurar e só queríamos tomar um banho e comer qualquer coisa.

                  19.Dezembro.2010

                  Último dia de viagem antes das “férias de Natal”. Estávamos ansiosos por chegar a Cochim e tínhamos pela frente 210 quilómetros. Não me recordo em pormenor do dia de viagem e, já de noite, chegamos finalmente à zona do Forte de Cochim. Queríamos um hotel melhor do que nos temos vindo a habituar nesta viagem por duas razões: no dia seguinte eu faria 23 anos e a noite de Natal avizinhava-se.

                  20.Dezembro.2010 a 24.Dezembro.2010

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                  Dias destinados, única e exclusivamente, para descansar, dormir até tarde e recarregar baterias.

                  A nossa noite de Natal pouco se assemelhou ao que estamos habituados. Sem bacalhau, sem a família toda unida e sem o frio característico dessa noite. Com troca de presentes, jantar indiano no hotel e um cd de música natalícia que o ouvimos, pelo menos, quatro vezes. Ainda bebemos vinho do Porto que já nos andava a fazer companhia no sidecar há alguns dias.

                  25.Dezembro.2010 a 4.Janeiro.2011

                  Interrompemos a viagem durante este período, por motivos profissionais do Inácio. Apanhámos um voo para Delhi no dia 25, durante a tarde, que atrasou três horas e, como se não bastasse, aterrou não no aeroporto de destino mas em Jaipur, devido às más condições climatéricas – o nevoeiro. A companhia aérea dispôs um autocarro e, durante a noite, fizemos a viagem até Delhi debaixo de um nevoeiro cerrado e temperaturas quase negativas. Já me andava a queixar que sentia falta do Natal com frio, que isto assim não era Natal. Pronto, aqui está ele. Natal com frio (e pouca roupa adequada).

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                  • karine
                    Fazedor de Chuva
                    • Jul 2012
                    • 1595

                    #24
                    05. Janeiro – Tempo Indefinido

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                    Estamos há demasiados dias “presos” em Cochim, no estado sulista de Kerala. Deveríamos ter deixado esta cidade a 5 de Janeiro mas uma avaria com o computador do Inácio, desligando-se completamente do mundo, e a consequente procura de apoio na resolução do mesmo tem-nos mantido aqui. A assistência da Apple aqui na Índia é tão funcional como tudo o resto: demasiado complicada e lenta para algum dia tentarmos perceber. Um problema com a factura atrasou ainda mais o decurso de tão complicada operação.

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                    Em vez de nos chatearmos, optamos por entrar no esquema deles – deixar-nos ir. E isso implica esperar pacientemente por alguma novidade ou avanço, sabendo infrutíferas quaisquer tentativas da nossa parte para adiantar o processo. E assim temos feito. Os nossos dias pautam-se pelas leituras, jogos de cartas, visitas a locais turísticos sugeridos pelo guia e, como bons portugueses, pelo sítio onde vamos almoçar e jantar. A mota já esteve no mecânico, já foi lavada e até uns adereços lhe fizemos: DON’T HORN pintado por um artesão de rua, nos depósitos exteriores de gasolina, bem colorido e piroso numa tentativa de a tornar um pouco mais indiana. As saudades acentuam-se, provocadas pela falta de distracção. Queremos voltar à estrada.

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                    No Forte de Cochim, a Índia é outra. O bulício característico dá lugar à calma. As vacas e o lixo no chão dão lugar aos cães e a raros caixotes do lixo. Temos tempo para estar e “tempo para pensar no tempo, em como por instinto acho sempre o passado mais fascinante do que o futuro, em como o presente muitas vezes me aborrece, levando-me a imaginá-lo da maneira como o recordarei, para conseguir usufruí-lo no momento”. E na varanda do quarto de hotel permito-me, às três da manhã, desfrutar do tempo e viver a calma e a solidão tal como a quero recordar mais tarde. O céu alaranjado, despido de estrelas, tem um ar exótico, transcendente. Deixo-me estar simplesmente a sentir o prazer de sentir. Deixo-me estar até que os mosquitos à minha volta atacam, se tornam insuportáveis, e regresso ao quarto e ao meu livro.

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                    Os dias vão passando, sem pressa, e as notícias continuam desanimadoras. Tudo aqui demora e a paciência é um imperativo que se vai esgotando. O que diziam não demorar mais de cinco dias, transformou-se, num abrir e fechar de olhos, em quinze longos dias.

                    As saudades de casa e dos nossos pequenos rituais, como tomar um café e ler o jornal, ganham força neste espaço e tempo de espera. Mas não trocaria isto por nada. Estar no mundo fora do nosso mundo é raro e deveríamos fazê-lo mais vezes.

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                    • karine
                      Fazedor de Chuva
                      • Jul 2012
                      • 1595

                      #25
                      Vamos acompanhar mais um retrato indiano, escrito por Helena Pimentel? Dessa vez o "retratado" é um garçom que fala quatro línguas e tem fé de sobra. Confira!

                      O indiano das mil e uma crenças

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                      Fonte: Daravolta.com

                      Não desfruta de uma só religião, mas de várias. Sabe falar fluentemente quatro línguas: inglês, hindi, tamil e malayalam. Encontra-se a finalizar a Pós-Graduação em Biotecnologia na Nehru Arts and Science College. Extraordinário? Não. Não o tivesse eu conhecido enquanto empregado de mesa de um qualquer restaurante de Cochim, desconhecendo ainda todos estes pormenores. Admirável? Sim. Mas já lá vamos.

                      Izzath Taj. Nasceu a 27 de Maio de 1987 e tem vinte e nove anos. Apresenta-se assim, de um jeito rápido, tímido mas orgulhoso, na expectativa da pergunta seguinte. Percebo o que lhe vai no pensamento e explico-lhe que gosto de falar com pessoas das cidades por onde vou passando. Não o vou tornar famoso, nem pouco mais ou menos, mas isso não lhe digo. Tal como guardo também para mim que qualquer indiano me chama a atenção e é interessante à sua maneira, que só por si, diferente da nossa enquanto ocidentais, já basta. Concentro-me na informação que me deu e começo logo a rir-me. Digo-lhe que nasci no mesmo ano mas que, ao invés dele, tenho apenas vinte e três anos. Olha desconcertado para mim, acho que não entendeu, e delicio-me com a sua confusão. Mais uma vez constato que a maioria dos indianos não dão importância à data de nascimento e à idade ou, simplesmente, não sabem fazer contas.

                      Estamos sentados a conversar num restaurante em Cochim, a maior cidade do estado sulista de Kerala, onde Izzath é empregado de mesa há, apenas, dois meses. Olho à minha volta, enquanto ele deambula pela sua infância e adolescência, e a minha atenção prende-se numa árvore “a sair” do chão. Estamos no segundo andar e apercebo-me que aquela árvore atravessa todo o edifício. Ele interrompe o que me está a dizer e explica-me que é uma mangueira e que, na realidade, utilizam o fruto para fazer sumo natural para os turistas. Daí o nome do restaurante – Mango Tree. Peço-lhe desculpa pela interrupção e ele prossegue, perdido nos seus pensamentos. Vou acenando afirmativamente e soltando pequenas exclamações que o incitam a continuar a conversar. Não percebo grande parte do que me diz, a pronúncia dele não é a melhor e a minha compreensão da língua inglesa deixa muito a desejar, no entanto, e para minha sorte, quase não necessito de o questionar, ele fala por si só e eu vou tirando notas.

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                      Fonte: Daravolta.com

                      Confia-me o seu sonho: visitar a Suiça. Pergunto-lhe porquê. Não sabe bem, apenas porque sim. Explico-lhe que é um país onde tudo funciona, ao contrário da Índia, e que, muito provavelmente, sentiria um choque cultural imenso. Deixa subentendido que pouco sabe a respeito deste país e rapidamente desisto. Pergunta-me, de seguida, pelo meu país de origem. Respondo-lhe. Sabes quem foi Vasco da Gama? O primeiro estrangeiro a chegar à Índia, exclama prontamente. E de que país era? Não faço ideia. Se o questionasse sobre o Cristiano Ronaldo, a resposta seria bem diferente.

                      Não é natural de Cochim, mas de Varkala, a 180 quilómetros, e pergunto-lhe porque trabalha aqui. Num momento anterior havia-me confessado que há muito deixara de falar com a família, principalmente o pai. A agressão familiar era uma constante e ele optou por fugir a tudo isso. Assim, pensei para comigo, provavelmente trabalha para ajudar a mãe e o resto da família. Estava errada. Trabalha para pagar os estudos na Nehru Arts and Science College em Biotecnologia, responde-me ele. Sou apanhada de surpresa e, durante uns segundos, nada digo. Estúpido preconceito, penso para comigo. Na tentativa de apaziguar o que senti e o espanto que demonstrei, quero saber mais sobre o curso, a universidade e o ensino na Índia.

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                      Fonte: Daravolta.com

                      À maneira indiana, também ele utiliza demasiadas vezes aquele aceno leve de cabeça. Imito-o e ele ri-se. Explica-me que é “uma especialidade tipicamente indiana” e que na escola são ensinados a não serem rígidos e a falar com o corpo. Não deveríamos ser todos assim?

                      Além de falar fluentemente quatro línguas – inglês, hindi, tamil e malayalam – aprendeu a ler arábico. Fico surpreendida com tanto conhecimento. Para mim, ele não passava de um simples empregado de mesa com uma provável boa história para desvendar. Preconceito estúpido, penso de novo, e repreendo-me mentalmente.

                      Mas o melhor ainda estava para vir. Lembrei-me que desconhecia ainda a sua religião ou crenças. É simples. É muçulmano, vive com uma família hindu e aos Domingos vai à missa. Espantados? Também eu. Mas não fica por aqui. Já leu, na íntegra, tanto a Bíblia como o Alcorão e assegura ainda ser habitual, nas pequenas viagens que faz, andar acompanhado pelos dois, juntamente com um terço, abençoado pelo próprio Papa, que lhe foi oferecido por um amigo. Também já é demais, pensei. Mas esta conjugação de deuses, crenças e orações é extraordinária. Devias aprender com ele, profiro interiormente para mim própria.

                      Quando Tiziano Terzani afirma, em 1995, “A Índia, a Índia!, dizia para mim, cultivando a esperança – ou talvez a ilusão – de um último reduto de espiritualidade. A Índia onde ainda existe insânia que baste; […]”. Não é ilusão, a insânia da espiritualidade ainda está cá toda e funciona às mil maravilhas.

                      Já no final, e como não podia deixar de ser, pergunto-lhe se é feliz. Olha-me de frente, com um sorriso a bailar-lhe nos lábios, e muito alto exclama: “Very happy. My heart is very cool now”.

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                      • karine
                        Fazedor de Chuva
                        • Jul 2012
                        • 1595

                        #26
                        7ª Etapa: Cochim – Kanyakumari

                        E foi assim, sem qualquer pena mas, pelo contrário, muita satisfação e ansiedade, que vimos os longos dias em Cochim chegarem ao fim. O computador do Inácio, como seria de esperar, ainda não estava totalmente pronto e garantiram-nos o seu envio para a cidade para onde nos deslocássemos.

                        Depois de estarmos dezoito dias “enfiados” no mesmo sítio sem um propósito definido, tudo começa a cansar. A comida, as pessoas, as lojas e as vistas. Nos nossos últimos dias nesta cidade, depois do jantar, costumávamos ir passear e ver mais do mesmo, na esperança de que o tempo e as notícias que esperávamos tardassem menos a chegar. Numa destas deambulações, fiz questão de passar ao largo da Igreja de São Francisco por saber que nas suas imediações e por debaixo dos muitos buracos no chão, num deles estaria uma pequena ninhada de cães, cuja mãe não hesitaria em morder o primeiro que lá tentasse pôr a mão. Após descobrir onde estavam e de me certificar que a mãe, por sorte ou destino, não se encontrava por perto, comecei a atraí-los para fora. Após uma hora nisto, já com o Inácio farto e a resmungar comigo, uma pequena bolinha de pêlo castanho claro aventura-se e sai para a “luz da noite”. Agarrei nele, virei-o ao contrário e tomei consciência que era uma cadela amorosa com uns olhinhos inocentes, lindos de morrer. Implorei, bati com o pé e tentei de tudo para seduzir o Inácio para ficarmos com aquela pequena amostra de cão, sem na altura, pensar nas consequências ou exigências que adviriam com o tempo. Ele começou a amolecer e como qualquer ser humano sensível, deixou-se levar e pegou nela ao colo. “Que nome lhe vamos dar?”. Pronto, era nossa. Após dez minutos, já sabíamos que nome lhe dar: Kashi. Por duas razões. Antes de irmos passear e de a encontrar, tínhamos estado a jantar num pequeno e agradável arte-café de nome Kashi. Para além do mais, o nome original da cidade mais conhecida e sagrada para os hindus, hoje conhecida como Varanasi, é Kashi. E todos contentes levamo-la para o hotel. No dia seguinte, iríamos ao veterinário, comprar comida e dar-lhe um banho. Essa noite foi tudo menos calma, chorou, guinchou e procurou atenção de todas as formas possíveis e imaginárias. Minto se afirmar que, nestes momentos, não pensei uma única vez em deixá-la de novo onde a encontrei, juntamente com os irmãos e a mãe. Mas não fui capaz. Ela era um doce, estava apenas assustada.

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                        22.Janeiro.2011

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                        Acordámos tarde, para variar, e apesar de querermos deixar Cochim, a nossa vontade de voltar à estrada não era muita. Quase que sentíamos que, depois de todo aquele tempo parados, tínhamos de certo modo perdido o jeito ao que fazíamos diariamente.

                        Neste dia, o nosso objectivo era chegar a Alleppey, também conhecida como Alappuzha, uma pequena cidade no estado sulista de Kerala, conhecida pelos seus canais, lagoas e as famosas backwaters. Em tempos, esta pitoresca zona foi descrita como um dos locais conhecidos como a “Veneza do Oriente” por Marco Polo.

                        Deixámos Cochim à hora de almoço e tínhamos pela frente não mais de 51 quilómetros para percorrer. Sentei a Kashi no sidecar comigo e devem ter sido as piores horas de viagem destes cinco meses – não parou quieta, ladrou, mordeu, tentou saltar para fora do sidecar em andamento e, quando finalmente se deu por vencida, eu só queria voltar atrás e deixá-la onde a encontramos. Neste dia, amaldiçoei a hora em que decidi pegar nela e, por inconsciência, achei que era giro e divertido andar com um cão num sidecar na Índia.

                        Durante a tarde chegamos a Alleppey e não tivemos qualquer dificuldade em arranjar sítio para ficar. Encontrámos uma agradável casa com quartos para alugar, jardim para a Kashi brincar – aliás, sinónimo de local para fazer todas as aneiras que lhe desse na gana – e cozinha para podermos cozinhar pois fartos de fritos e comida picante já nós estávamos.

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                        • karine
                          Fazedor de Chuva
                          • Jul 2012
                          • 1595

                          #27
                          O Chefe da Polícia
                          Por Helena Pimentel

                          Na Índia, o índice de corrupção é encabeçado pelas autoridades policiais, segundo estudos levados a cabo pela ONG Transparency International. Consigo recordar-me igualmente dos romances (ficcionais ou não) que li sobre este país, em que a corrupção constituí o enredo e a polícia corrupta desempenha o papel de vilão. Por vezes, entender a corrupção é fácil – é um modo de sobrevivência. Por esta simples razão, meramente pessoal e que pouco deve importar a quem nunca cá veio, os polícias indianos sempre me intrigaram e interessaram.

                          Não o conheci na rua ou por mero acaso. Dirigi-me propositadamente à esquadra policial mais próxima e pedi para falar com o inspector que ocupasse o cargo mais elevado. Sou jornalista e gostava de lhe colocar algumas perguntas acerca do seu trabalho, acrescentei ainda. Os três polícias entreolharam-se, examinaram-me de soslaio e, obviamente desconfiados, pediram um documento que comprovasse o que estava a afirmar. Uma vontade de me rir descontrolada e um nervoso miudinho a percorrer-me o corpo tomaram conta de mim, enquanto pensava na vergonha de ser apanhada. E justifiquei-me dizendo, sem na realidade me dar conta da falta de lógica no que ia proferir, que o deixara no quarto mas que poderia mostrar o passaporte. Eu estava a mentir descaradamente mas de que outra forma conseguiria fazer uma série de perguntas estúpidas a um polícia no seu horário de trabalho e, ainda, tirar fotografias com ele, apenas para meu bel-prazer? Tão-pouco sou jornalista como nunca deixo os meus documentos de identificação no quarto, nunca sei quando vou precisar deles. Preferi arriscar. E funcionou porque dei por mim a entrar na porta da esquadra, que vista de fora mais se assemelha a uma vivenda familiar, onde à minha direita tinha uma cela – suja, exígua, escura e duvidosa – e à minha esquerda a sala do inspector-chefe.

                          Deparei-me com um senhor sério, circunspecto e pouco sorridente, sentado atrás de uma secretária de madeira, que afirmou de imediato ter apenas cinco minutos disponíveis. A cadeira onde se encontrava sentado envergava uma toalha de praia às riscas verde e branca, tal qual os carros dos portugueses em dias de praia. O bigode farfalhudo e bem aparado fez-me rir. Qual é o polícia que não usa bigode? O meu tio era polícia e usava.

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                          Fonte: Daravolta.com

                          Entrei na sala e sentei-me na feia cadeira de plástico verde do outro lado da mesa. Estendi-lhe a mão e apresentei-me. Já alguém lhe tinha adiantado que eu era portuguesa e, sem mais delongas, começa a falar de futebol, do Luís Figo e do Pauleta. O futebol ultrapassa toda a minha capacidade de compreensão, não consigo entender como se pode correr atrás de uma bola e ainda ganhar rios de dinheiro; assim, a minha percepção do futebol, por opção, é nula. Com um sorriso amarelo fui acenando pouco convictamente a tudo o que dizia e interiormente agradeci por, pelo menos, não estar a falar do Cristiano Ronaldo. Desinteressada do que ele tão concentrado me tentava ensinar acerca do futebol português, comecei a olhar à minha volta. As paredes caiadas de branco, frias e neutras, ostentavam o seu certificado de apreciação, uma réplica da famosa fotografia de Mahatma Gandhi sentado a meditar e um mapa a preto e branco de Fort Cochin. A mesa exibia um aglomerado de papéis, um telefone bege velho, um jarro de flores falsas, um postal rosa fluorescente emoldurado com algumas regras de um qualquer código de conduta indiano, a lanterna e o chapéu da farda e, por fim, uma pequena campainha semelhante às que se vê nos filmes na mesa da recepção dos hotéis. No entanto, esta era vermelha e de plástico e pensei que não funcionasse e servisse apenas o propósito de pisa-papéis. Fiquei demasiado curiosa e toquei nela. O polícia deu um salto, como se houvesse despertado de rompante para o que o envolvia, interrompeu o que tão afincadamente explicava e, muito sério, pediu-me que não voltasse a repetir. Ao mesmo tempo, um polícia solícito vindo sabe-se lá de onde estacou na porta à espera de instruções. E compreendi o uso dado àquela campainha. Pedi desculpa e aproveitei a deixa para começar o que ali tinha ido fazer.

                          P.M. Baiju, o seu nome exposto no crachá preto do uniforme. Nasceu a 18 de Maio de 1975 e tem trinta e cinco anos. Espera, pensei entusiasmada, o ano de nascimento bate certo com a idade. É o primeiro indiano que entrevisto para estes retratos que acerta. É muçulmano, casado e tem um filho de quatro anos.

                          Quis saber porque decidiu ser polícia. Para manter a lei e a ordem pública e ainda aplicar a pena máxima aos criminosos. Resposta pronta e rápida de quem tem a lição bem estudada. Não deves ser para brincadeiras, pensei. Mas não, nestes seis anos de autoridade, nunca matou ninguém nem usou a arma, a não ser nos treinos. Oh não acredito, magiquei interiormente, estamos na Índia e não nas Caraíbas.

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                          Fonte: Daravolta.com

                          Para nós, portugueses, não é de bom tom perguntar o ordenado a alguém que mal conhecemos; na Índia, evidentemente, o conceito de falta de educação está bem longe do nosso e por isso não me contive em perguntar-lhe quanto recebia por mês. Aproximadamente 17 mil rupias, retorquiu. Fiz rapidamente as contas na pequena máquina de calcular que trago na carteira e fiquei espantada. Ele recebe, nada mais, nada menos, do que 290 euros para trabalhar dez horas diariamente. Há muita corrupção na polícia indiana, perguntei precipitadamente. Ele olhou espantado para mim. Que pergunta estúpida, eu sei. Fazer esta pergunta a um polícia indiano é o mesmo que perguntar a um mentiroso se está a mentir e ainda esperar uma resposta afirmativa. Porque era isso que eu esperava. Um leve aceno de cabeça vertical para eu, finalmente, poder comprovar o que tanto tinha lido a este respeito. Mas desiludi-me. Acenou a cabeça, sim – mas horizontalmente – enquanto proferia muito seguro de si “no, no, no”. E acrescentou ainda que a Índia é um país muito seguro. Sim, depende do ponto de vista.

                          Decidi alterar o rumo da conversa, que por si (não) me tinha dado o que eu queria ouvir e questionei-o sobre cinema. Não fiquei espantada quando me disse gostar imenso dos filmes de Bollywood. Qual é o indiano que não gosta daquela cantoria exagerada e das danças exóticas e bem coreografadas? Mas do que ele gosta mesmo, e esperou alguns segundos para manter a minha atenção, é do Arnold Schwarzenegger. Meu deus, que vontade de rir incontrolável. Nem queria acreditar que ele, mais do que Bollywood, adorava mesmo era o Schwarzenegger.

                          Pareceu-me que já há muito haviam passado os cinco minutos que me tinham sido concedidos e achei por bem terminar por ali, não sem antes lhe fazer a questão final da praxe. De uma forma muito solene, conferindo-lhe um ar cómico, ergueu o dedo indicador e elevou a voz para afirmar somente e apenas “I’m happy”.

                          Quando me estava a preparar para vir embora, todo ele se transformou. Sorriu, despiu o papel de autoridade e, inesperadamente, solicitou o meu número de telemóvel e convidou-me para ir jantar a sua casa nesse dia.

                          Deixei a esquadra da mesma forma como cheguei: de mãos a abanar sem ter conseguido presenciar sequer um resquício da mais pequena corrupção. Tal como já seria de esperar. Permitam-me voltar atrás e corrigir. Não deixei a esquadra da mesma forma como cheguei. Quando já me tinha afastado uns metros, um jipe apita, pára ao meu lado e o Baiju pergunta-me para onde vou e prontifica-se a dar-me boleia. No final de contas, a corrupta fui eu: menti para tentar conseguir o que queria. E nem resultou.

                          Comentário

                          • Dolor
                            Fazedor de Chuva

                            • Mar 2011
                            • 3250

                            #28
                            Sem dúvida um prazer a leitura dos escritos da Helena, rápida com o raciocínio e hábil, muito hábil em colocar no "papel" as experiências do casal em uma viagem cheia de vida e de grandes experiências, nos fornecendo um grande roteiro para aqueles desejosos de encararem a Ásia.

                            Por que não?

                            Estou anotando todos os detalhes deste caminho das pedras para um futuro que espero não muito distante.

                            Ótima leitura para todos!

                            Comentário

                            • karine
                              Fazedor de Chuva
                              • Jul 2012
                              • 1595

                              #29
                              23.Janeiro.2011 – 27.Janeiro.2011

                              Click image for larger version

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                              Fonte: Daravolta.com

                              A cidade de Alleppey, em si, tem pouco de interessante para se visitar. Obviamente se “chafurdarmos” nos guias de viagem, coisas para ver e visitar não faltarão mas, como de turistas temos pouco, o que nos interessava realmente eram as backwaters. Além disso, ainda tínhamos de esperar que o computador do Inácio chegasse de Cochim. Planeámos, por isso, ficar em Alleppey alguns dias.

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                              Fonte: Daravolta.com

                              Nestes dias conhecemos um casal polaco – do qual não me recordo os nomes – muito simpático e com muitas histórias para partilhar, que se encontrava hospedado na mesma casa que nós. Era vulgar ficarmos à conversa pela noite dentro no alpendre, enquanto a Kashi brincava descontraída pelo jardim, esquecendo-nos do passar do tempo.

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                              Fonte: Daravolta.com

                              Após um dia a pesquisar os House Boat (relação preço/qualidade), os trajectos e os dias dispendidos para isso, decidimos alugar um pequeno barco (com um minúsculo quarto e casa de banho), para os dias 25 e 26, e passar uma noite num dos milhares de canais que povoam aquela área. Foram dois dias maravilhosos. Os canais são de uma beleza indescritível e aconselho vivamente a quem vier à Índia, a não perder esta oportunidade. Durante o dia, o barco vai parando, ou para comermos, ou para simplesmente apreciarmos e sentirmos o que nos rodeia. Podemos até, se nos apetecer, dar um mergulho no rio. Algo que o Inácio não recusou. Ao final da tarde, os barcos atracam em pequenas povoações, é-nos servido o jantar e passamos (ou pelo menos eu assim vejo) uma das melhores noites da nossa vida – no seio da natureza e bem fora do nosso mundo.

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                              Fonte: Daravolta.com

                              Finalmente, o computador do Inácio chegou às nossa mãos e estávamos prontos para (re)começar a viagem e, desta vez, bem a sério – a caminho do ponto mais a sul da Índia, Kanyakumari.

                              28.Janeiro.2011

                              Deixámos Alleppey em direcção a Kollam, a cerca de 73 quilómetros de distância. Não me recordo bem desta cidade. Para nós, tinha apenas como objectivo ser um local de paragem para descansarmos uma noite entre Alleppey e Kanyakumari.

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                              Fonte: Daravolta.com

                              No entanto, evoco bem o tempo dispendido – não menos de duas horas – a encontrar um hotel que aceitasse a Kashi, quase tanto como o tempo que passamos na estrada nesse dia.

                              E a aventura em busca de hotéis que aceitassem a Kashi começou nesta cidade. Até agora, os hotéis onde ficávamos hospedados poderiam ser considerados como dos mais baratos. E, por isso, não poderíamos esperar quartos de grande qualidade. Mas nunca nos importamos muito com isso, nunca procurámos grandes luxos. Mas desde que adoptámos a Kashi, as coisas mudaram substancialmente sob dois pontos de vista opostos. Se já ficávamos em sítios “maus”, os que agora apenas aceitam a Kashi são ainda piores. Mas, pelo contrário, se pretendíamos poupar dinheiro, esta foi a forma ideal para o fazer porque, sem sombra de dúvidas, estes locais “alternativos” são ainda mais baratos.

                              29.Janeiro.2011

                              Neste dia, tínhamos pela frente 138 quilómetros até à cidade de Kanyakumari, o ponto mais a sul da Índia, já no estado de Tamil Nadu.

                              Chegámos ao final da tarde e apercebemo-nos imediatamente da quantidade de turismo indiano que existe nesta zona. Assim sendo, os hotéis são pouco atractivos para turistas estrangeiros como nós.

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                              Fonte: Daravolta.com

                              A chegada a esta cidade assinalava, de certa forma, “o meio” do trajecto dos 8000 quilómetros que desejáramos percorrer e a conquista de metade da jornada que nos tínhamos proposto fazer. Assim, após encontrarmos um hotel minimamente decente, descarregamos tudo e fomos com o sidecar até um local à beira-mar que nos permitisse alojar para sempre aquele momento com um simples “click” e uma fotografia que tocará a eternidade na nossa memória.

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                              Fonte: Daravolta.com

                              Comentário

                              • karine
                                Fazedor de Chuva
                                • Jul 2012
                                • 1595

                                #30
                                30.Janeiro.2011

                                O que deveria ter sido um dia de passeio pela cidade que geograficamente demarca o “final” deste enorme mundo que é a Índia, afinal não passou apenas do nosso desejo. Distraído como o Inácio é, quando deu conta que tinha deixado o telemóvel no hotel em Kollam, a cidade anterior onde tínhamos passado uma noite, já nós estávamos bem longe. Enquanto eu descansei o dia todo, ele teve de acordar às 4h da manhã, apanhar o primeiro comboio do dia para Kollam, ver se o telemóvel ainda estava no hotel e regressar de camioneta. Um dia inteiro passado em transportes! Quando regressou a Kanyakumari, era já hora de jantar. Mas trazia o telemóvel na mão.

                                31.Janeiro.2011

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                                Fonte: Daravolta.com

                                Kanyakumari é uma pequena cidade – também referida como Cape Comorin – que, apesar de não ser demasiado bonita, é agradável e calma. Começamos o dia a passear pelas ruas e ruelas mais recônditas e esquecidas, onde provavelmente o turismo não vai, contornando bem de perto as casas dos pescadores, as igrejas escondidas e a vida rural destas pessoas mais simples. As pessoas por quem passávamos não descolavam os olhos de nós de tão curiosas que ficavam. As crianças pediam-nos fotografias e passámos grande parte do tempo em sessões fotográficas infantis.

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ID:	166266
                                Fonte: Daravolta.com

                                Um dos monumentos que visitámos, aliás corrijo, que o Inácio visitou – porque eu preferi ficar do lado de fora a tomar conta da Kashi – foi o Memorial de Gandhi, construído no exacto local onde se encontravam as cinzas deste para exibição pública. Este memorial foi projectado de tal forma que no aniversário de Mahatma Gandhi, a 2 de Outubro, os primeiros raios de sol supostamente cairiam sobre o local exacto onde as suas cinzas foram mantidas. Pelo menos, assim consta nos guias de viagem.

                                01.Fevereiro.2011

                                Para este dia, preferia que a minha memória tivesse sido selectiva do modo inverso. Ou seja, não me recordo do momento em que deixámos Kanyakumari. No entanto, evoco bem a nossa chegada a Madurai já de noite, após 254 quilómetros de estrada que nos levaram o dia todo a percorrer, e a infindável busca por um hotel que demorou literalmente mais de três horas. Depois de vermos todos os hotéis da zona e arredores, apenas nos restava um hotel um pouco mais caro do que estávamos dispostos a pagar mas que aceitava a Kashi, hotéis miseráveis sem casa de banho ou então hotéis miseráveis com casa de banho à indiana. Optámos pelo primeiro. O hotel onde ficámos apesar de mais caro, não era nem um pouco melhor do que os habituais. A casa de banho assustava e a Kashi divertiu-se a andar pelo quarto com o lixo que ia apanhando no chão. Mas estávamos demasiado cansados para, naquele momento, nos importarmos com isso.

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