Dar a volta

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  • karine
    Fazedor de Chuva
    • Jul 2012
    • 1595

    #31
    Um espanhol em Calcutá - Por Helena Pimentel

    Sentada no Raj’s Spanish Café, em Calcutá, deixo o meu espírito vagar entre o próximo personagem dos retratos indianos e o pensamento de que Calcutá pode transformar-se, num abrir e fechar de olhos, para quem está apaixonado por este país, na sua pequena “versão inacabada do paraíso”.

    Não marca a sua presença (ainda) nos guias turísticos e a localização resguardada deste café torna-o facilmente despercebido ao mais distraído dos turistas. Vêm-se poucos ou nenhuns indianos e o ambiente é dominado, em grande parte, pela presença dos voluntários das várias ONG que abundam pela cidade. Aqui, ouvimos espanhol e comemos huevos rotos com gazpacho.

    E foi através de um voluntário português das Missionárias da Caridade que conheci o dono do café. Este indiano prende-me a atenção pelas suas ideias e pensamentos tão divergentes da maioria dos indianos com quem me cruzo e, ao mesmo tempo, tão actuais. Como ele diz, a Índia está a evoluir e nós temos de a acompanhar. Hoje em dia, os casamentos arranjados como tantos outros factos na Índia, já não fazem sentido.

    A primeira vez que comecei a falar com o Raj, fomos interrompidos vezes sem conta pelo toque do seu telemóvel. É um homem ocupado, mas isso já eu tinha percebido antes de me ter sentado à mesa com ele. Preferimos deixar para o dia seguinte. E assim foi.

    Não sei bem como explicar isto mas o Raj tem tanto de sério e interessante que ter uma conversa com ele faz-nos pensar. Ao contrário de todos os outros indianos com quem privei nestes momentos de “entrevista”, onde cada olhar, reacção e resposta dava azo a gargalhadas, com o Raj não fui capaz de obter um só momento assim. Pelo contrário, senti-me retraída e acanhada com tanto conhecimento e experiência de vida. Não que me tenha falado muito dele próprio, pelo contrario. Mas a forma como falava…

    Rajendra Prasad Pal tem 37 anos e nasceu a 15 de Fevereiro de 1974. Desta vez, não podia esperar que ele falhasse na data de nascimento ou na idade. É natural de Varanasi, conhecida como a cidade sagrada da Índia, mas mudou-se com a família para Calcutá com apenas três anos. Viver em Calcutá, morrer em Varanasi, acrescenta ainda a sorrir. O sonho de qualquer hindu é, não só, morrer em Varanasi mas ter as cinzas atiradas ao rio Ganges. É como que um voo com passe livre para o caminho do nirvana. É casado e tem três filhos.

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    É dono não apenas do Raj’s Spanish Café, mas também de uma loja de roupa e de um espaço com internet. O horário de trabalho é duro: catorze horas por dia, trezentos e sessenta e cinco dias por ano. O que lhe faz doer a alma? Trabalhar com 45 graus, horas e horas seguidas, tento adivinhar. Errei. É não ter tempo para estar com os filhos. Conta-me que não são muito bons alunos e culpabiliza-se, em parte, pelo desinteresse dos filhos na escola. Até a mim me doeu.

    Espantou-me saber que além de inglês, hindi e bengali, língua oficial do estado de West Bengal, fala ainda fluentemente espanhol. Se teve aulas para isso? Não foi necessário. Os turistas que frequentam o seu café são, maioritariamente, espanhóis e assim, de ouvido, foi aprendendo. E Espanha não é uma novidade: a procura de trabalho, na ânsia de uma vida diferente, já o levou por quatro vezes a visitar este país.

    Apanha-me desprevenida quando me diz que em Calcutá temos de ter atenção a um aspecto: nem todos os pedintes são pobres e nem todos os pobres são pedintes. E isto fez-me pensar, mais uma vez. Numa cidade aclamada e vendida aos turistas como um tesouro louvável da cultura indiana, cujas actividades e pontos turísticos serão a fonte de boas lembranças para uns, já para outros a cidade deixa uma impressão que irá assombrá-los para o resto das suas vidas. E aqui penso que incluem os mendigos, essas crianças, mães e velhos de mão estendida e olhos vazios e despidos de emoção. Se me choca? E não é pouco. Se me faz pensar? Mais do que desejaria. O sentido da vida, aqui para nós, ou se torna muito claro ou leva-nos a lugares esquecidos e resguardados na nossa memória. Toca-nos fundo e deixa-nos sem defesas.

    Admite, depois de alguns segundos em silêncio, que enquanto andamos neste mundo, devemos vivê-lo inteiramente com três objectivos como pano de fundo desta nossa jornada – viajar, ler e conhecer pessoas. Viajar está fora de questão, por enquanto, porque não tem dinheiro para isso. A falta de tempo não lhe permite ler o quanto gostaria. No entanto, estes dois são compensados pelas pessoas que conhece diariamente e frequentam o seu café durante meses a fio.

    Não tinha muito mais para lhe perguntar. Eu sabia tão pouco e ele tinha tanto para oferecer. Recorri à última pergunta que tenho sempre na manga, a que mais me interessa. És feliz? Levantou o sobrolho, olhou-me de soslaio, sorriu e proferiu calma e pacientemente “It’s a hard question. Who is happy? Who is happy? Bring someone who is happy!”. Fico sem palavras.

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    • karine
      Fazedor de Chuva
      • Jul 2012
      • 1595

      #32
      02.Fevereiro.2011 – 03.Fevereiro.2011

      A cidade de Madurai, ainda no estado sulista de Tamil Nadu, é também conhecida como a “Cidades dos Templos”. E isso é bem visível desde o momento que se começa a percorrer com atenção a mesma. Os templos e os cânticos que se fazem ouvir estão por todo o lado – desde a rua principal até ao recanto nunca invadido por turistas como nós. Além disso, e não sei bem porquê (maldita ignorância!), os templos no sul da Índia são diferentes dos restantes. As “figuras” que ornamentam os mesmos parecem reais, de tão coloridas que são, e sugestem mesmo pequenas criancinhas que por ali foram ficando.

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      Mas, como nem tudo são maravilhas – surpreendam-se mais uma vez – o computador do Inácio voltou a dar de si. Por isso, estes dois dias foram passados a tentar resolver o maldito problema. Finalmente conseguimos e, finalmente, deixámos Madurai.

      04.Fevereiro.2011

      A nossa próxima etapa era a cidade de Puducherry (ou Pondicherry) – antiga colónia francesa – a 332 quilómetros de Madurai. Percorrer esta distância em Portugal não leva muito tempo. Nestas estradas – que algumas, diga-se de passagem, nem são más de todo – com vacas e todo o tipo de transportes possíveis e imaginários, com uma mota que não pode andar a mais de 50 km/h, no mínimo, demoraríamos sete horas. Sem contar, obviamente, com as vezes que temos de parar para o motor arrefecer e para o meu traseiro se recompor.

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      Deixámos Madurai a meio da manhã e entramos na cidade de Pondicherry às 21h. Chegar até à zona que pretendíamos – tivemos sorte dado que o décimo quinto senhor a quem perguntámos o caminho não se importou de nos levar até lá – demorou mais uma hora. Assim, onze horas depois, havíamos chegado aonde queríamos – French Quarter.

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      Vimos três ou quatro hotéis, optámos pelo mais barato, e acabamos a noite a comer uma pizza numa esquina de uma qualquer rua francesa.

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      • karine
        Fazedor de Chuva
        • Jul 2012
        • 1595

        #33
        05.Fevereiro.2011

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        A última e única vez que estive em França foi há mais de doze anos e, nessa altura, estava mais interessada em ir à Eurodisney e ao Parc Astérix do que a reparar na envolvência arquitectónica ou na excelência e perfeição dos monumentos que o meu pai tanto insistia em nos levar – vamos excluir a Torre Eiffel, claramente. Deste modo, sinceramente, não sei se realmente existem semelhanças e analogias entre o French Quarter de Puducherry – a não ser pelo facto de ainda manterem os nomes franceses – e as ruas de Paris. Obviamente elas estarão lá, eu é que não soube identificá-las. No entanto, este pequeno bairro lembra-nos certamente uma cidade europeia – os cafés de esquina, de cores quentes e acolhedoras, com croissants e doces irresistíveis; as ruas largas, perpendiculares e limpas (sem vacas, coisa rara por aqui) de arquitectura sólida e hospitaleira, quase nos fazendo sentir em casa; uma magnífica avenida junto ao mar, tal qual Avenida Brasil na Foz do Douro.

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        Neste dia, deixámo-nos dormir até tarde e, quando o sol já não torrava nem o corpo nem o pensamento, passeámos por estas ruas e ruelas horas a fio, até os pés doerem e a Kashi se queixar de estar com fome e sede.

        06.Fevereiro.2011

        Reservámos este dia para visitar a cidade de Auroville, uma comunidade auto-sustentável situada a doze quilómetros de Puducherry. As indicações para se chegar não são muito claras e, ao invés de percorrermos estes quilómetros, devemos ter feito o dobro.

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        Honestamente, não consigo explicar bem o conceito, os objectivos ou os próprios princípios de Auroville. Foi a primeira vez que tomei conhecimento da existência de algo assim e, em apenas uma visita, fiquei com dúbias impressões – simpatizei com o que vi e achei algumas ideias diferentes e originais mas, ao mesmo tempo, cheirava-me um pouco a seita. Não pretendo ofender nada nem ninguém, foi apenas a impressão que ficou.

        Segundo as palavras dos habitantes desta comunidade, “Auroville pretende ser uma cidade universal, onde os homens e mulheres de todos os países possam viver em paz e progressiva harmonia acima de todas as crenças, todas as políticas e todas as nacionalidades; o propósito de Auroville é realizar a unidade humana”.

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        • karine
          Fazedor de Chuva
          • Jul 2012
          • 1595

          #34
          07.Fevereiro.2011

          Era dia de estrada e tínhamos como objectivo chegar a Chennai, a 162 quilómetros de distância. A estrada era relativamente boa por isso não nos preocupamos demasiado em deixar Puducherry demasiado cedo.

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          No entanto, demorámos algumas horas a chegar a Chennai – a verdade é que também só deixámos Puducherry depois da hora de almoço – e quando chegámos, já era noite. Os hotéis estavam todos cheios e, após três intermináveis horas a entrar e a sair da porta dos mesmos, encontrámos um cujos mosquitos nos atormentaram a noite. Literalmente. No dia seguinte, como não tínhamos conseguido dormir, levantamo-nos às sete da manhã e voltamos a calcorrear todas as ruas à procura de um quarto vago noutro hotel qualquer. Sem êxito, ou continuavam cheios ou não aceitavam a Kashi.

          08.Fevereiro.2011 – 11.Fevereiro.2011

          Para nós, Chennai não teve nada de interessante para se ver ou visitar. Necessitámos de ficar quatro dias nesta cidade devido a problemas que a mota andava a ter e, por isso, grande parte do tempo foi passado no mecânico. Corrigo, o Inácio no mecânico e eu a ler num qualquer café.

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          No dia 9, estive a trabalhar no Hotel Sheraton a servir bebidas num casamento. Nunca antes tinha entrado num hotel de cinco estrelas aqui na Índia e fiquei maravilhada. Obviamente era um casamento de pessoas ricas e com dinheiro suficiente para alimentar muita gente pobre por aqui, por isso, o esbanjamento e a ostentação estava presente em tudo e mais alguma coisa da nossa imaginação. Mas foi realmente bom, diverti-me bastante e ainda deu para ganhar 2500 rupias (aproximadamente 40€). Mas como a Índia não deixa de ser a Índia, as casas de banho do hotel deixavam um pouco a desejar.

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          12.Fevereiro.2011


          Era altura de deixar Chennai e, verdade seja dita, estávamos já impacientes pela chegada deste momento. No entanto, a mota mantinha um problema qualquer e o mecânico dissera-nos que o melhor seria parar em Red Hills, uma povoação apenas a uns quilómetros de Chennai e que não nos obrigaria a desviar da nossa rota. Apenas um pequeno aparte: como de motas entendo muito pouco – sinónimo de nada – se houve algo que nunca retive durante esta volta foram precisamente os problemas mecânicos e o devido nome das peças a que estariam associados. Dado que, para mim, não passavam disso mesmo, apenas problemas que tinham de ser resolvidos.

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          E assim fizemos. Chegámos a Red Hills e, durante dez minutos, andamos de mecânico em mecânico a tentar descobrir o que nos tinha sido recomendado. A mota foi totalmente despida e posta a nu perante o olhar dos já habituais curiosos e, enquanto o mecânico fazia o seu dever, eu instalei-me calmamente numa cadeira que se encontrava perdida por ali. Mal eu adivinhava o que nos esperava.

          Na nossa inocência e, mesmo depois de todos os percalços pelos quais tínhamos passado devido à mota, ainda acreditávamos que qualquer problema que esta tivesse, rapidamente seria consertado. Mas mais uma vez a Índia deu-nos a volta. O tempo foi passando e, dez horas depois, a mota parecia estar em condições de voltar à estrada. Mas a noite já ia avançada e limitamo-nos a procurar um hotel por aquelas bandas.

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          • karine
            Fazedor de Chuva
            • Jul 2012
            • 1595

            #35
            Mais um retrato de Helena Pimentel:

            Taxista de Calcutá

            É em Sudder Street, a zona mais barata e, por isso, de eleição dos viajantes de mochila às costas e dos milhares de voluntários que, todos os anos, aterram em Calcutá, que encontramos uma pequena, mas valiosa, amostra da grandeza desta cidade. Da berma dos passeios, os vários táxis Hindustan Ambassador Classic amarelos atraem a nossa atenção e são, sem dúvida, uma das marcas desta cidade – dão cor, charme e encanto às ruas de Calcutá.

            E porque não fazer de um destes taxistas um dos meus retratos indianos? Ocorreu-me ao pensamento após vários dias a passar por ali sem lhes prestar demasiada atenção. E assim foi. Só precisava de encontrar um que falasse, minimamente, inglês. Percorri a rua e ao quinto taxista, farta de os persuadir a falar comigo, ainda precisei de lhe arranjar um indiano que traduzisse as minhas questões. Estes indianos são engraçados: se eu disser que lhes quero fazer umas perguntas e tirar fotografias, olham de soslaio e recusam peremptoriamente; se, por outro lado, eu disser que sou jornalista e vão aparecer numa revista muito importante em Portugal, já o caso muda de figura.

            Like Masih. Ou então, simplesmente, Papu. É natural de uma pequena aldeia perto de Agra, a famosa cidade do Taj Mahal, mas encontra-se há sete anos a viver em Calcutá. Como sempre, perguntei-lhe a data de nascimento e a idade. Nasceu a 17 de Julho de 1975. Assumi imediatamente uma expressão de prazer e divertimento na expectativa da resposta seguinte. Desta vez, esperava que ele não acertasse na idade. Tive de insistir três vezes na mesma pergunta porque a resposta dele era invariavelmente a mais lógica: faz tu as contas. Deve ter percebido que eu ia continuar a insistir até obter o que queria e, lentamente, revirou os olhos e começou a menear os dedos da mão direita, como que a fazer contas mentalmente. Após vários segundos de silêncio respondeu que talvez tivesse 34 anos. Apontei no meu bloco, tentei não fazer muito caso disso mas interiormente sentia-me agradavelmente satisfeita. Tinha conseguido o que queria. Mais uma vez, um indiano que não acertava na idade.

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            Fonte: Daravolta.com

            É casado e tem um filho. Pergunto-lhe a idade. Estende o braço na direcção do chão e abre a palma da mão virada para baixo, a demonstrar que ainda é pequeno. Semicerro os olhos e faço-me de desentendida. Mas quantos anos tem, pergunto mais uma vez. Revira novamente os olhos e afirma, para meu deleite, que talvez tenha dois anos.

            Já tinha lido em qualquer lado que o estado de West Bengal, onde se situa Calcutá, encerra uma das mais baixas percentagens (0,64%) de cristãos da Índia. Numa cidade reconhecida pela presença da Madre Teresa e da sua obra de caridade, é de espantar a tão reduzida incidência desta religião na população indiana. Por isso, fiquei espantada quando afirma ser cristão e que, além disso, marca presença na igreja todos os domingos.

            À medida que íamos falando, o número de indianos em nosso redor ia aumentando. Quando dei por isso, tínhamos à nossa volta mais nove taxistas: uns meramente interessados no que se estava a passar, outros talvez arrependidos por terem recusado aquele momento.

            Tirou a licenciatura em Ciências mas a procura sem sucesso de trabalho nessa área fê-lo optar por ser taxista. Afinal, não é só em Portugal que está tudo virado do avesso, pensei.

            Há quatro anos que anda pelas ruas de Calcutá e é dono do próprio táxi, o que não é muito comum na Índia. Normalmente, os taxistas trabalham para alguém que é proprietário e gere vários táxis. Trabalha quatro dias por semana, cerca de doze horas por dia. Ao final do mês, ganha à volta de 15.000 rupias (aproximadamente 250 euros).

            Questionei-o se desejava que o filho seguisse as suas pisadas. Endireitou as costas, adoptou um semblante sério e afirmou rapidamente “no no no no no”.

            Apenas uma regra impera dentro do seu táxi: ninguém que esteja bêbedo é transportado para o destino que deseja.

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            Fonte: Daravolta.com

            Para nós, ocidentais, o trânsito na Índia é, simplesmente, caótico, confuso e desordenado. As regras de trânsito parecem inexistentes e os semáforos vermelhos são simplesmente ignorados. Mas será que os indianos também o pensam assim? Sempre me questionei se tinham a mesma percepção que nós. Mas este parece que sim e mostrou-se indignado quando quis saber se respeitava sequer os semáforos.

            Sinto-me na obrigação de ser sincera e explicar um dos meus verdadeiros motivos para querer abordar um taxista de Calcutá. Depois de ler várias vezes sobre a presença e a pressão que a máfia exerce nestas grandes cidades, tanto sobre os condutores de riquexó como de táxi, tinha curiosidade em perceber como acontecia realmente no terreno. E não me surpreendi. O Papu não só me disse que a máfia está presente, principalmente, nas grandes estações de comboio desta cidade, como – e surpreendam-se vocês – a grande máfia é a polícia. “You need to pay them under the table all the time”, acrescentou ainda. Não há dúvida que a Índia é um país maravilhoso mas é detentora de certas realidades que eu, simplesmente, não compreendo.

            Começou a ficar impaciente e a mexer no telemóvel e percebi que aquela era a minha deixa para acabar rapidamente com as perguntas. Ou o que quer que eu estivesse a fazer. Quis então saber se era feliz. Olhou directamente para mim, a boca abriu-se num sorriso duvidoso e nos olhos bailava qualquer coisa como “mas que raio de pergunta é essa?”. Sorri e assenti, à espera da sua resposta. “Yes, I’m happy. Always happy”.

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            • karine
              Fazedor de Chuva
              • Jul 2012
              • 1595

              #36
              13.Fevereiro.2011

              O que deveríamos ter percorrido no dia anterior, acabámos por fazê-lo neste dia. Pretendíamos chegar a Ongole, uma pequena povoação que dista 330 quilómetros de Red Hills e que se situa no estado de Andhra Pradesh.

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              Fonte: Daravolta.com

              Saímos de manhã cedo, contrariamente ao que era habitual em nós, e fizemo-nos à estrada rapidamente. Como Red Hills é tudo menos uma cidade turística, optámos por renegar o pequeno-almoço picante, na esperança de que na estrada aparecesse alguma coisa de jeito para comermos. Tivemos sorte porque, meia hora depois, tínhamos pela frente um Coffee Day e consolamo-nos com um cappuccino e uns donuts de chocolate deliciosos. Estávamos prontos para mais um dia quente, abrasador e poeirento de estrada.

              Durante o decorrer do dia, a mota ainda parou algumas vezes, mas tudo se ia resolvendo com um telefonema para o mecânico de Red Hills e as suas indicações práticas.

              Ao final da tarde, Ongole fazia-se anunciar e não perdemos tempo a procurar um hotel. Quando nos preparávamos para ir jantar, não resistimos a comer uns noodles feitos na rua, mesmo em frente à porta do nosso hotel, por dois rapazes, um deles que se apelidava de Pepsi e não devia ter mais de oito anos. A mestria com que cortavam a cebola e em dois minutos tinham um prato pronto, impressionou-nos.

              14.Fevereiro.2011

              Deste dia recordo-me muito pouco ou mesmo nada. Já dei voltas à cabeça e puxei pela imaginação, mas uma nuvem branca mantém-se na vez de memórias. Além disso, não fiz quaisquer apontamentos no meu bloco, o que me faz supor que nada de muito interessante tenha acontecido.

              Percorremos cerca de 150 quilómetros até Vijayawada, ainda no estado de Andhra Pradesh. Para saber isto apenas precisei de clicar no dispositivo Frotcom que está no site do lado direito do ecrã e seleccionar o dia que pretendia e voilá. No entanto, do hotel onde ficámos, do aspecto da cidade e se fazia calor ou frio – nada disto me recordo e não há dispositivo que me valha. Desta vez, a minha memória selectiva decidiu ir longe de mais.

              15.Fevereiro.2011 – 17.Fevereiro.2011


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              Fonte: Daravolta.com

              Quando havíamos estado em Chennai, achámos que talvez fosse boa ideia experimentar couch surfing numa cidade minimamente conhecida e onde pretendêssemos passar mais de uma noite. Deste modo, poderíamos poupar algum dinheiro e conhecer mais de perto a cultura indiana, vivendo nas suas próprias casas. Enviámos alguns requisitos e um rapaz, Gulshan Raj, de Visakhaptnam acabou por nos responder, aceitando o nosso pedido.

              Visakhapatnam fica a 370 quilómetros de Vijayawada e demorámos o dia inteiro para chegar. Já passava das dez da noite quando entrámos na cidade e, com a quantidade de tráfico, necessitámos de mais uma hora para dar com a casa.

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              Fonte: Daravolta.com

              Mas se estávamos na esperança de contactar mais de perto com a cultura indiana, então isto não passou apenas de um desejo. Gulshan, na realidade, de indiano tinha muito pouco. Apesar de ter nascido aqui, há muitos anos que trabalha fora – Dubai, Egipto, Inglaterra – e os dias que agora passava cá eram as suas férias. Quando olhei para ele a primeira vez, fiquei impressionada: devia ter mais dinheiro investido naquelas roupas e acessórios do que eu alguma vez eu tive no banco.

              Ficámos instalados numa casa com jardim, o que era maravilhoso para a Kashi, mais precisamente no seu quarto que tão amavelmente nos concedeu. No entanto, e para meu desgosto, este quarto tinha uma casa de banho à indiana a partilhar com o resto da casa e nunca sabíamos quando era seguro entrar ou não, dado que a mesma tinha duas portas, uma para o quarto e a outra para o resto da casa. E os restantes membros (mãe e mais duas empregadas) pareciam não se importar muito com ter a porta fechada ou não.

              Estes dias foram bons para descansar e recuperar energias. E teríamos descansado mais, não fosse o Gulshan tão amável e a toda a hora querer-nos levar a conhecer este ou aquele amigo ou então, simplesmente, passear de carro para conhecer a cidade.

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              • karine
                Fazedor de Chuva
                • Jul 2012
                • 1595

                #37
                18.Fevereiro.2011

                Encontrávamo-nos perto da fronteira entre o estado de Andhra Pradesh e Orissa. Pouco tínhamos ouvido falar deste segundo estado, seria apenas mais um que teríamos de atravessar até chegarmos a Calcutá (já havíamos atrasado muito tempo em Cochim e tínhamos de o recuperar), mas o que ouvíramos fora o suficiente para nos deixar um pouco apreensivos. Ou seja, o casal polaco com quem nos cruzámos na mesma casa em Alleppey, disse-nos que no ano transacto o comboio onde se encontravam tinha sido invadido por assaltantes na zona de Orissa e nada tinham deixado. Importa referir que o que nos relatou aconteceu numa das alturas de maior calor e seca, em Maio, e havia escassez de comida e água naquela zona. Ao consultarmos o site da embaixada portuguesa reparámos que dos estados desaconselháveis a visitar se incluía Orissa. Tentámos não dar muita importância ao caso, até porque tínhamos mesmo de atravessar o estado, caso contrário teríamos de alterar o percurso e perder mais tempo, coisa que não tínhamos. E foi com algum receio e apreensão que vimos a fronteira aproximar-se. Principalmente eu, uma vez que de corajosa não tenho muito.

                Adianto já que nada do que poderíamos temer aconteceu. Orissa é um estado pobre e com estradas que deixam bastante a desejar, mas não passa disso. Se há alguma espécie de perigo escondido à espera de atacar, lamentamos informar, mas a nós não nos tocou.

                O único pequeno incidente, se é que se pode chamar assim, foi quando ainda neste dia parámos numa bomba de gasolina já de noite e dois indianos numa mota vieram pedir-nos para não estarmos ali muito tempo porque era muito perigoso para mim. De seguida, informaram-nos que havia hotéis na próxima cidade, a uns dez quilómetros de distância, e que não se importavam de nos levar até lá. Escusado será dizer que fui o tempo todo a bradar aos céus para que nada de mal me acontecesse, a maldizer o dia em que me decidi meter nisto tudo, a pensar que não tinha ainda dito nada aos meus pais naquele dia e eles nem faziam a mínima ideia de mim e a dizer ao Inácio que achava muito estranha a simpatia deles em levarem-nos para um sítio a vários quilómetros dali. Ou me iam raptar ou então fazer algo pior. Estúpido preconceito porque, obviamente, nada do que eu imaginava ou inventava mentalmente nos aconteceu. Instalamo-nos num hotel e quando demos por ela estava a chover torrencialmente. Bendita a hora em que havíamos chegado.

                Nunca nenhum de nós soube ou se interessou em saber, na altura, o nome desta cidade. Permanece uma incógnita para nós. Algures perto da fronteira no estado de Orissa.



                19.Fevereiro.2011

                Não sei quantos quilómetros percorremos neste dia, uma vez que não sei o nome da cidade onde tínhamos ficado. Lembro-me que chegámos já de noite a Bhubaneswar e dirigimo-nos imediatamente para a zona da estação dos caminhos de ferro pois é onde se podem encontrar os hotéis mais baratos.

                Após já bem instalados e a jantar no quarto, havíamos pedido pelo room service (quem diria que nestes hotéis haveria algo assim), o Inácio levanta-se de rompante e diz que tem de ir à recepção. Não entendi porquê. Quando chega avisa simplesmente que temos de trocar de quarto e, atrás dele, encontra-se um empregado do hotel já pronto a pegar nas minhas coisas. Estava um rato a passear pelo quarto. Aliás, uma ratazana quase mais comprida que a Kashi. Obviamente que quando soube disto nem de cima da cama queria sair. Malditos quartos!

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                Fonte: Daravolta.com

                20.Fevereiro.2011

                Pretendíamos deixar Bhubaneswar pela manhã, mas a chuva que se instalou fez-nos estar parados mesmo à porta do hotel e já com a mota pronta a arrancar durante uma hora. Parou de chover, pelo menos assim o parecia, e decidimos começar o dia.

                Apenas conseguimos andar 60 quilómetros durante o decorrer do dia. Choveu quase o tempo todo e tivemos de parar várias vezes durante o dia porque se torna impossível andar na estrada – eu armazeno uma poça de água em mim própria e o Inácio nada vislumbra na estrada – para além do perigo que espreita de cada vez que um camião descontrolado passa por nós.

                Ao final da tarde, encharcados até aos ossos e fartos daquele dia, passámos por uma pequena povoação e, por falta de opções, ficámos num hotel decrépito na berma da estrada. É desnecessário dizer que, neste dia, fizemos questão de nem saber o nome da vila.

                Comentário

                • Proftel
                  Fazedor de Chuva
                  • Apr 2013
                  • 343

                  #38
                  Karine, eu fico perguntando "praquê!

                  Ouça com atenção esse vídeo:



                  Kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk!

                  Comentário

                  • karine
                    Fazedor de Chuva
                    • Jul 2012
                    • 1595

                    #39
                    21.Fevereiro.2011 – 22.Fevereiro.2011

                    Foi com agrado que vimos o tempo a melhorar. Apesar de ainda se fazer sentir algum frio enquanto andávamos na estrada, pelo menos já não chovia. Desconheço, mais uma vez, quantos quilómetros fizemos após deixarmos o anterior hotel decrépito.

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                    Fonte: Daravolta.com

                    Durante a tarde chegámos a uma povoação de nome Balasore e achamos o hotel tão agradável que decidimos, na altura, ficar logo duas noites.

                    Estava a aproximar-se Calcutá a sentíamo-nos ambos ansiosos por isso.

                    23.Fevereiro.2011

                    De Balasore até Calcutá são 262 quilómetros e era esta distância que pretendíamos percorrer neste dia. Depois de um pequeno-almoço tardio fizemo-nos à estrada. As horas foram passando e mal podíamos esperar pelo momento de entrar nesta grandiosa cidade. Após tudo o que tínhamos lido e fomos ouvindo sobre a mesma, é impossível ser indiferente e não querer visitá-la e sentir a sua presença de espírito.

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ID:	167104
                    Fonte: Daravolta.com

                    Era noite, para variar, quando demos os primeiros passos na periferia da cidade e assim, à primeira vista, adoramos Calcutá.

                    Comentário

                    • karine
                      Fazedor de Chuva
                      • Jul 2012
                      • 1595

                      #40
                      O Miúdo de Kulgaria

                      Tive o prazer de privar com ele num dos momentos mais difíceis, até agora, da viagem. Com o tempo, acredito que será uma boa história para contar mas na altura apenas quis que o momento voasse velozmente. A noite avizinhava-se e a mota havia parado, pela enésima vez, no meio do nada. Após termos sido rebocados durante três quilómetros até uma pequena aldeia de berma de estrada – Kulgaria – e de o mecânico nada ter sido capaz de fazer, pernoitamos ali mesmo – numa banca de madeira na rua.

                      À nossa volta rondavam mais de cinquenta indianos que, com o passar das horas, foram dispersando. Ele foi permanecendo ali, fascinado com a Kashi e, após alguma hesitação, venceu o embaraço e ganhou coragem para se aproximar. Quase a sussurrar, perguntou o meu nome e de onde era. Fiquei atónita – o seu inglês era quase perfeito. Tagarelamos durante mais algum tempo e quando se apercebeu que íamos dormir na rua, garantiu-nos que era seguro e que no dia seguinte, bem cedo, estaria lá de novo. Naquele momento, decidi que queria escrever um retrato indiano sobre ele. Desenganem-se porque não prendeu a minha atenção por simbolizar algo típico da Índia. Pelo contrário, é pequenino, gordinho, invulgar e encantador – por isso, quis fixá-lo para sempre na minha memória e dar-lhe vida.

                      Estamos sentados a conversar numas cadeiras de plástico dispostas à sombra. O discurso dele é baixo, quase sussurado, como se não quisesse que mais ninguém ouvisse e tive, muitas vezes, de lhe pedir para repetir. Enquanto estamos juntos, o mecânico vai tentando arranjar a nossa mota. Devo dizer que todos os seus esforços foram infrutíferos dado que, horas depois, quando deixámos a pequena aldeia, a mota voltou a dar de si sem termos sequer percorrido um quilómetro.

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                      Fonte: daravolta.com

                      My name is Sudip Samanta, escreveu no meu caderno. Nasceu a 27 de Abril de 2001 e tem nove anos. Este “pequeno exemplar” da Índia cativou-me e preencheu todas aquelas horas de espera e desânimo.

                      É filho único e, enquanto o pai é dono e gere uma loja de saris na berma da estrada, a mãe fica por casa, como grande parte das mulheres deste país. Sabe falar inglês, hindi e bengali e, na escola, frequenta o quarto ano de escolaridade. Perguntei-lhe o que queria ser quando crescesse. Médico, retorquiu, quero ser médico na América. Falamos um pouco sobre o meu país e nisto suspendeu o que dizia e saiu a correr. Voltou pouco depois com o livro da escola. Não sei onde fica Portugal mas sei como é a bandeira, afirmou sorridente. Abriu o livro e fez questão de me mostrar. Procurei um mapa e apontei-lhe o meu país. Isto é mesmo um país, perguntou-me surpreendido. É tão pequenino, acrescentou ainda.

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                      Fonte: daravolta.com

                      Continuava admirada com o conhecimento de inglês do Sudip. Devo dizer que, se não tivesse sido ele não sei como iríamos sequer comunicar com o mecânico. Ninguém naquela aldeia parecia saber uma única palavra de inglês e o Sudip foi incansável na tradução de tudo o que precisámos.

                      Apeteceu-me brincar com ele e perguntei-lhe se tinha namorada. Olhou-me envergonhado e disse que não. Proferiu ainda que também nunca iria casar e ter filhos. Ri-me e disse-lhe que com o tempo ia mudar de opinião. Não vou não, vocês dão muito trabalho, proferiu por fim.

                      Não tem internet em casa – o que não me surpreendeu – e não gosta muito de ver televisão. Ocupa a maior parte do tempo a ler e, quando lhe pedi para me nomear o livro favorito, respondeu prontamente: Black Beauty. Quis saber quem era o autor. Após cinco minutos a puxar pela cabeça e a irritar-se consigo próprio por não ser capaz de evocar o nome, deu-se por vencido e admitiu que não se lembrava. O nome do livro despertou-me interesse e, pelo que li, é de uma autora inglesa, Anna Sewell, que, na primeira pessoa, retrata as memórias autobiográficas narradas por um cavalo de nome Black Beauty.

                      A certa altura, diminuiu ainda mais o tom de voz, aproximou-se do meu ouvido e disse-me que o mecânico estava a dizer palavrões. Adiantou ainda que ele estava sempre a dizer palavrões. Tentei que ele me reproduzisse o que estava a ouvir. Endireitou as costas, sorriu envergonhado e explicou-me que a mãe lhe tinha ensinado que aquelas palavras não eram para se dizer. O meu coração quase parou. Apeteceu-me abraçá-lo. Fiquei espantada e emocionada com a educação e delicadeza daquele miúdo de uma pequena aldeia esquecida da Índia.

                      Começo a fechar o bloco e a levantar-me para irmos dar uma volta quando me ocorre que ainda não lhe fiz a minha pergunta predilecta. És feliz, interroguei-o já a sorrir na expectativa da resposta de um miúdo de nove anos. “Happy? Happy? I don’t know that word”. Por esta eu não esperava. Ainda pensei que ele não tivesse percebido a palavra e escrevi-a no meu caderno. Abanou a cabeça, não conhecia mesmo. Tentei explicar-lhe a minha concepção de felicidade mas como se explica algo tão pessoal a uma criança de outra cultura e com um grau de entendimento distinto do nosso?

                      Este momento de questões com um propósito definido durou apenas dez minutos. No entanto, estivemos juntos mais de doze horas. Por muito que eu tente retratá-lo, nunca irei fazer jus ao tempo que ele passou comigo.

                      Sudip, se algum dia leres isto – apesar de pouco provável – quero que saibas que foi um privilégio conhecer-te. De certa forma, dás sentido ao que vim cá fazer. É como se fosses uma das explicações que constitui a desculpa por eu ter feito as malas e partido. Se alguma vez passarem nesta aldeia, façam questão de o conhecer.

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                      • karine
                        Fazedor de Chuva
                        • Jul 2012
                        • 1595

                        #41
                        Depois da volta, o regresso a casa

                        Regressar a casa e ao nosso país é bom mas não tem sido fácil. Depois de muitos meses longe do nosso conforto e da nossa vida rotineira, depois de uma adaptação a uma cultura completamente distinta da nossa, vem o regresso à antiga realidade. Rever a família, os amigos, a nossa casa e os ares da cidade do Porto. É bom e é maravilhoso, mas custa. Perceber que, por aqui, nada mudou. Está tudo na mesma. Nós é que mudámos e agora só temos de nos adaptar, de novo.

                        O que vivemos na Índia e a viagem que nos propusemos empreender, foi uma experiência incrível, inesquecível e irrepetível. Foi o concretizar de um sonho que, no início, parecia quase impossível de realizar. Que saibamos, nunca ninguém antes tinha dado a volta à Índia de sidecar e não sabíamos o que nos esperava. E o medo do desconhecido por vezes assusta mas torna-nos mais fortes. No entanto, com o tempo, fomo-nos apercebendo que tudo é mais fácil do que inicialmente pensamos. É tudo possível, só temos de ter imaginação e, no momento certo, pôr o pé “fora da caixa”.

                        Claro que houve momentos complicados e difíceis. A perda de alguém que nos é demasiado próximo e querido, quando estamos longe, faz-nos sentir impotentes perante a dor que sentimos e, por momentos, a vontade é apenas a de apanhar o primeiro voo de volta. Mas os momentos bons que passámos juntos acabam por compensar tudo.

                        Não sei ainda exprimir e passar para o papel o quão gratificante foi, a nível pessoal, esta viagem. Mas sei que ganhei muito e perdi muito pouco. Não perdi um ano de vida, como muitos me disseram, pelo contrário, ganhei tempo e espaço na minha vida.

                        E de uma coisa tenho a certeza, a nossa vontade de continuar a Dar a Volta a países e à nossa vida não se ficou por aqui. Quem sabe, daqui a uns tempos, não estaremos pela América do Sul a viajar numa carrinha pão-de-forma. Os sonhos são muitos e a vontade não é pouca.

                        Comentário

                        • karine
                          Fazedor de Chuva
                          • Jul 2012
                          • 1595

                          #42
                          Para os que sentiram saudades de Inácio e Helena, eles estão de volta. Depois de "Dar uma Volta" pela Índia em um sidecar, em fevereiro deste ano eles decidiram "dar outra volta", dessa vez pela América do Sul com uma Kombi (chamada por eles de pão de forma, em português de Portugal). Vamos embarcar nesta aventura?

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                          Fonte: daravolta.com

                          Enfim, as voltas que a vida dá

                          21 meses e 16 dias depois voltamos à carga. Por onde começar?

                          Dar a volta = Virar do avesso. Diz o dicionário. E eu vou nessa. “Virados do avesso já nós estamos há muito tempo e daqui não saímos tão cedo”. Diz o bom português. Também serve.

                          Bem, se estamos do avesso, é preciso dar a volta. Basta olhar à nossa volta, exemplos não faltam. A bem ou a mal.
                          O Passos Coelho sugeriu aos portugueses algo como “ide dar uma volta” e emigrem. Os telejornais dão-nos a volta à cabeça dia após dia. Os Deolinda (en)cantam a crise e lá vão dando a volta à “geração sem remuneração”. O Vasco da Gama deu tantas voltas que acabou na Índia. O Kerouac revolve-se no túmulo pelas voltas que deixou por dar. O Lance Armstrong por mais voltas que dê já ninguém lhe devolve os títulos. A Fátima Felgueiras há anos que vai dando a volta ao sistema e nós a ver. O Ricardo Araújo Pereira deu-nos a volta a todos. E muito bem.

                          Nós não queremos ser diferentes. Como não faz parte de nós estar parados, então aqui vai. Vamos até à América do Sul dar uma volta. Quem quer dar a volta connosco?
                          Enfim, as voltas que a vida dá.

                          América do Sul. 14 meses. 13 países. Um casal. Uma pão-de-forma.

                          Quer saber mais de como foi o planejamentos? Confira no vídeo abaixo:

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                          • karine
                            Fazedor de Chuva
                            • Jul 2012
                            • 1595

                            #43
                            Para sossegar os nossos pais, há outros como nós

                            Há dois anos, com o bilhete de ida já na mão, dissemos aos nossos pais que queríamos dar a volta à Índia de sidecar. E não havia forma de os sossegar.

                            De sidecar? Não é perigoso? Como podem saber isso se nunca ninguém fez o mesmo que vocês querem fazer? Há estradas em boas condições ao menos? Mas o trânsito é um caos! Dizia a mãe da Leninha. A mãe do Inácio sofre de “síndrome pré-viagem parental” e as chamadas telefónicas insistentes e preocupantes não tinham forma de acabar. Ou para relembrá-lo de que precisava de pagar a última renda da casa ou que devia comprar mais pares de meias, caso não os houvesse na Índia.
                            Desta vez, há outros como nós.

                            Um casal americano e o filho de 7 anos andam sobre rodas há três anos e meio pelos quatro cantos do mundo e, segundo eles, “têm o mundo como jardim”. Nos últimos tempos, têm viajado pela América do Sul. Tal como nós.

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                            Fonte: Daravolta.com

                            No final de 2011, o Brad e a Sheena despediram-se dos seus empregos e puseram-se a caminho numa pão-de-forma de 1984 – a “Nacho”. O plano? Circum-navegar o globo calmamente. Nos últimos tempos, têm viajado pela América do Sul. Tal como nós.

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                            Fonte: Daravolta.com

                            Entramos em contacto com ambos os projectos e, se a família nos disse que Ouro Preto no Brasil era um local a não perder, os tripulantes da “Nacho” asseguraram-nos que em canto algum das remotas estradas sul-americanas se sentiram inseguros.

                            Pai, Mãe… Estão a ver?! Afinal há outros como nós.

                            Comentário

                            • karine
                              Fazedor de Chuva
                              • Jul 2012
                              • 1595

                              #44
                              A vida numa mala

                              A pior parte da preparação de uma viagem longa é fazer as malas. Pelo menos para mim. Esqueçam as idas às consultas do viajante ou às operadoras para certificar que o roaming está activo. Esqueçam as idas aos consulados ou os telefonemas intermináveis com destino às embaixadas para tirar dúvidas de vistos. Esqueçam a carta internacional, os voos de ida e volta e os seguros. Tudo isto são trocos. Pelo menos para mim.

                              Chegou o momento de “coleccionar” tudo o que nos é útil e necessário. Roupa quente porque vai estar muito frio na Patagónia. Botas para o mesmo efeito. Sapatilhas e chinelos. Calças, calções e meias-calças. Toalhas e produtos de higiene.

                              Pronto, para aqui. Já não cabe mais nada na mochila. Tira tudo cá para fora, de novo. Preciso de repensar tudo. Sento-me na cama e é aqui que “a porca torce o rabo”. Automaticamente transfiro a necessidade de (re)pensar sobre o espaço existente na mochila e passo a fazê-lo em relação a toda a viagem. Porque é que vou? Se calhar não me devia meter nisto? Acho que ninguém nota se eu não for, vou “esquecer-me” de pôr o despertador amanhã de manhã… O dia da partida.

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                              Fonte: Daravolta.com

                              Depois vem o momento de seleccionar o que é imprescindível para o nosso bem-estar. Livros, música, computador, cadernos e canetas.

                              No final, chego à conclusão de que a mala não é inimiga. De certa maneira, ajuda a relativizar o que consideramos demasiado necessário para deixar para trás. Assim, olho de novo para a mochila – toca a meter tudo lá dentro que já se faz tarde.

                              Há coisas impossíveis, como por exemplo, atirar-me de uma ponte e voar. E depois, há coisas que simplesmente não são possíveis. Esta é uma delas. Afinal, não se mete a vida numa mala. Traz-se é a mala com vida.

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                              Fonte: Daravolta.com

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                              • karine
                                Fazedor de Chuva
                                • Jul 2012
                                • 1595

                                #45
                                A primeira de muitas viagens

                                Abraços apertados e visitas-surpresa na hora da despedida. Ficou assim marcada a primeira de muitas viagens, a partida rumo a São Paulo. De certa forma, gosto de despedidas. Os abraços dizem mais do que as palavras e transmitem a força de que precisamos para dar este novo passo.

                                Mas o maior dos meus problemas, para este dia, surge quando deixo de vislumbrar pais e amigos, para dar lugar ao monstro voador – o avião. Não gosto de andar de avião. Admito. Tenho mesmo muito medo. Mas tem de ser. Onze horas enfiada lá dentro, em plena luz do dia, e com turbulência como nunca havia sentido é contra-natura. E como nunca durmo, vou vendo o tempo passar. E imploro ao tempo que não demore tanto tempo assim.

                                Finalmente desvendo terra bem ao longe. Inevitavelmente imagino como será São Paulo. É a minha primeira vez no Brasil. Aliás, é a minha primeira vez na América do Sul.

                                Com os pés bem assentes em terra firme e segura, senti que estava na Índia (não me insultem já, amantes do Brasil, porque até agora estou a adorar São Paulo, mas não pude evitar senti-lo): um calor abafado de morrer, duas horas e meia na fila das migrações (alfândega) para entrar no país e um trânsito estranho, compacto e confuso – mais de duas horas para percorrer 20 quilómetros até casa dos meus primos.

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                                Mas este calor soube bem, aliás soube muito bem. O frio em Portugal há muito que devia ter desaparecido. Além disso, gosto das grandes cidades à noite. Por isso, gostei mais ainda de atravessar avenidas e viadutos intermináveis em pára-arranca. Gostei de São Paulo.

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                                Como ouvi no outro dia, não existe uma segunda oportunidade para criar uma primeira boa impressão. São Paulo impressionou-me à primeira. E convenceu-me bem.

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