Dar a volta

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  • karine
    Fazedor de Chuva
    • Jul 2012
    • 1595

    #1

    Dar a volta

    Vamos começar a acompanhar a aventura do casal da cidade de Porto, em Portugal, Inácio Rozeira e Helena Pimentel. Eles conheceram a Índia de um jeito diferente. Em uma viagem de mais de oito mil quilômetros, a companheira deles foi a moto Royal Enfield 350cc com um sidecar, além de Kashi, uma cadelinha adotada pelo casal.

    Foram cinco meses de viagem: o casal saiu no dia 02 de novembro de 2010 e regressou em março de 2011. Quer saber mais? Clique aqui.

    1ª Etapa: Delhi – Jaipur

    02 de novembro de 2010

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ID:	744807
    Fonte: Daravolta

    Iniciamos a nossa volta pelo continente indiano. Segundo as minhas contas, no nosso sidecar e lado a lado, iremos transpor e percorrer quinze dos vinte e oito estados indianos. Neste dia, deixamos o estado e capital do país, Delhi, atravessamos Haryana, e entramos no estado do Rajastão, rumo à cidade de Jaipur. Tínhamos de percorrer 260 quilômetros num dia, que nas estradas indianas equivalem mais ou menos a sete longas horas de viagem. Pelo menos era esse o objectivo. Bem, o objectivo não foi cumprido.

    Partimos ao meio-dia, seis horas depois do que tínhamos acordado no dia anterior. Mas o Inácio tinha estado com febre e acordar na hora que tínhamos estipulado tornou-se numa tarefa complicada e adiada vezes sem conta.

    Saímos de Paharganj e vinte e cinco minutos passados deixamos de ouvir a nossa própria buzina. Ups, isto não pode ser bom. Na Índia, se não formos indianos, há duas coisas essenciais a ter em conta quando se conduz na estrada: tentar, ao máximo, não guiar segundo as regras de trânsito do país de origem (por mais que se tente nunca vamos entender as deles, cada um tem as suas e todos juntos regem-se por uma qualquer ordem invisível de leis e normas inatingíveis a comuns estrangeiros como nós); fazer uso da buzina o máximo de vezes possível, não para que os outros condutores nos saiam da frente mas simplesmente para deixar bem claro que andamos por ali, à direita, à esquerda ou atrás e que, a qualquer momento, quando bem nos der na gana, vamos ultrapassá-los.

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ID:	744808
    Fonte: Daravolta

    Trinta e cinco minutos depois, na entrada do viaduto de uma qualquer auto-estrada ainda em Delhi, ficamos sem gasolina. O Inácio meteu-se num rickshaw para ir buscar gasolina à bomba mais próxima, enquanto eu fiquei a tomar conta da mota. Nos quarenta e cinco minutos que demorou, sem muito para fazer e debaixo de um sol abrasador, fui prestando atenção ao que me rodeava: caminhão avariado mesmo atrás do nosso sidecar; incessante e irritante ruído das buzinas; do lado oposto à estrada, um campo de treino da força aérea indiana; na parede exterior do viaduto podia ler-se Help Line 18001031700. Perguntei-me para que servia aquele anúncio pintado na parede se nem específica qual o alvo da ajuda que pretende prestar. Andei de trás para a frente e de frente para trás vezes sem conta.

    Com 1L de gasolina no depósito dirigimo-nos a uma bomba de gasolina e telefonámos ao Mr. Sharma, o nosso mecânico. Em vinte minutos estava lá o filho, Lucky, com o ajudante e, numa questão de segundos, tínhamos a buzina reparada.

    Às 15h fizemo-nos de novo à estrada. Ao longo da tarde, passamos por doze veículos avariados na “berma” da estrada e apanhámos uma fila de trânsito, com origem numa qualquer razão desconhecida e invisível, que durou quarenta e cinco minutos. As separações centrais na estrada e as linhas brancas de divisão na faixa de rodagem são pormenores desnecessários para os indianos. Sentada no sidecar vou ao nível dos pneus dos camiões, o que torna qualquer trajecto numa incessante súplica para que não galguem por cima de nós. Acarretar com o fumo do tubo de escape deles é a dádiva à minha prece. Porque enquanto isto for acontecendo, ainda estão a passar por mim e não por cima de mim.

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ID:	744809
    Fonte: Daravolta

    A noite começou a dar sinal de si e começamos a procurar hotéis. Passamos por quatro hotéis de estrada que não serviram. Ou eram caros, ou estavam fechados ou apenas não tinham electricidade.

    Entramos em Rewari, às 19h, uma localidade coberta pelo pó, com demasiadas pessoas e que nem sequer aparece no Lonely Planet. Espelunca de hotel. Pagamos 500 rupias (± 8 euros). Jantamos no quarto – fruta, amendoins e paratha – e deitamo-nos cedo. Queríamos acordar cedo para sair de lá o mais rapidamente possível.
  • karine
    Fazedor de Chuva
    • Jul 2012
    • 1595

    #2
    Para conhecer mais as expectativas deste casal que conheceu boa parte da Índia em uma moto com um sidecar, assista ao vídeo e pegue uma carona nesta aventura.

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    • karine
      Fazedor de Chuva
      • Jul 2012
      • 1595

      #3
      03.Novembro.2010

      Abandonámos Rewari de manhã cedo. Queríamos sair o mais apressadamente possível que nem sequer nos demos ao trabalho de procurar um restaurante ou café aberto, sendo que o nosso pequeno-almoço foi uma banana do dia anterior. Comíamos depois, na estrada. Estava muito frio e, sentada no sidecar, sentia o vento cortante na cara e no corpo. Vesti uma camisola e o impermeável, coloquei o lenço na cara preso nos óculos do capacete e estava pronta para mais um dia de viagem. Entramos no Rajastão e deixamos Haryana.

      O meu grande achado neste dia foi ter descoberto que consigo ler enquanto vou sentada no sidecar. E é uma maravilha. Li grande parte do caminho pelo que não prestei grande atenção à paisagem. Do que me recordo, planícies secas ponteadas por algumas árvores a perder de vista. Fez-me lembrar o panorama alentejano de uma auto-estrada no meio de nenhures.

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ID:	158610
      Fonte: Daravolta

      Paramos para tirar uma fotografia com um camelo, que desconheço como e desde quando lá andava, na berma da estrada e o resultado foi fascinante. Como bichos raros que somos aqui, um camião parou somente para nos ver. O de trás também. O terceiro, que já devia ir a olhar para nós, não viu que os outros travaram e pumba! Acidente rodoviário mesmo ao nosso lado.

      E conseguimos chegar a Jaipur, também conhecida como a cidade cor-de-rosa. Estávamos no Diwali, ou “Festival das Luzes”, e a atmosfera que se vive alterou-se por completo. Qualquer parede, muro ou esquina serve de pretexto para ornamentar de luzes natalícias, de todas as cores, formas e feitios, que de tão exagerado se torna adoravelmente pindérico. A polícia fechou a maioria das ruas principais. Se disser que está caótico não faço jus ao real estado do trânsito.

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ID:	158611
      Fonte: Daravolta

      Já dentro da cidade, demoramos uma hora a chegar ao hotel. Fizemos a reserva, lavamos a cara e pusemo-nos a caminho do Water Palace para tirar as fotografias. Íamos “oferecer emoções”. Voltamos a ser a atracção turística indiana e um dos muitos que nos observavam com uma curiosidade apática converteu-se no nosso fotógrafo. Voltamos para o hotel para tomar banho. Estávamos cansados e imundos mas tínhamos combinado um jantar indispensável para eu poder escrever mais um Retrato Indiano e obrigamo-nos a entrar num rickshaw rumo ao restaurante.

      Chama-se Durg e situa-se na zona dos hotéis de luxo de Jaipur. E tenho de admitir. Valeu a pena o esforço de deixar o quarto e ir até lá. Que comida maravilhosa. Jantamos com o Viniit Sharma, mais conhecido por Amitabh Bachchan do primeiro segundo, um amigo nosso desta cidade que já conhecemos há algum tempo. Um dos filhos dele é sócio deste estabelecimento e, pelo aspecto, percebemos que não ia ser nada barato. Ainda me deleitei a ver uma francesa, num pequeno palco situado no centro das mesas exteriores, agitar-se numa tentativa de imitar as bailarinas que lá estavam a demonstrar as danças típicas indianas. Que risota. No final, ofereceram-nos o jantar. Saímos duplamente deliciados, tínhamos comido muito bem e poupado dinheiro. Íamos dormir bem essa noite.

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      • karine
        Fazedor de Chuva
        • Jul 2012
        • 1595

        #4
        Detalhes da moto

        Não são todos os dias que enxergamos passar pela rua uma moto da marca Royal Enfield, de 350cc, do ano de 1966. Segundo o casal de portugueses, "a grande maravilha desta relíquia, além de ser uma antiguidade, é ter um sidecar".

        Os internautas ajudaram a escolher o nome do veículo: Chamuça, uma especialidade da culinária indiana, comum também em Portugal.

        Para conhecer todos os cantos e detalhes da Chamuça, assista ao vídeo abaixo:

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        • karine
          Fazedor de Chuva
          • Jul 2012
          • 1595

          #5
          04.Novembro.2010

          Jaipur – Udaipur

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ID:	158853
          Fonte: Daravolta


          O dia começou cedo e acabou tarde. Durante a noite o óleo tinha vertido todo, transformando-se numa poça debaixo da mota. Foi preciso ir comprar mais e perdemos muito tempo.
          Visitamos a ONG Jaipur Foot, que desenvolveu ao longo dos anos um método inovador e barato de fazer próteses para as pernas. Estivemos com o fundador da instituição, mostrou-nos as instalações e explicou-nos como faziam cada prótese. Saímos impressionados e emocionados. Mas ainda tínhamos pela frente 146 quilómetros até Ajmer e demoramos, nada mais, nada menos, do que cinco horas.

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ID:	158852
          Fonte: Daravolta

          Passámos por um descomunal fardo de palha caído na estrada que ocupava uma inteira faixa de rodagem. Caiu em andamento do tractor onde estava supostamente preso. Mais à frente, fomos seguidos por um homem de turbante rosa fluorescente durante meia hora. Nem andava mais rápido, nem mais devagar. Olhava de lado para nós e ia sorrindo. Perdeu a timidez, aproximou-se em andamento, a cerca de 70 km/h, e ofereceu-nos uma mão cheia de amendoins.

          Tínhamos fome e queríamos comer qualquer coisa. Passamos por um Coffe Day na beira da estrada e, julgando que ainda tínhamos tempo, decidimos parar. Pusemo-nos à conversa e perdemos a noção do tempo. Andar de sidecar à noite numa estrada nacional indiana é digno de aventura. Se guiar com camiões em sentido contrário com faróis nos máximos e buzinas ensurdecedoras é difícil, estar sentado no sidecar, com o rabo junto ao chão e o nariz ao nível dos tubos de escape, ainda é mais. Ajmer nem vê-la. Passadas duas horas, chegamos com frio e assustados. Mas chegamos.

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ID:	158854
          Fonte: Daravolta

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          • karine
            Fazedor de Chuva
            • Jul 2012
            • 1595

            #6
            A cultura e o trânsito local

            Uma das grandes heranças de uma viagem é o que aprendemos com a cultura local. O que vivenciamos em cada cidadezinha pela qual passamos. O que sentimos diante de uma bela paisagem.

            Uma grande fonte de conhecimento é o trânsito local. Através dos veículos, pedestres e estradas vivenciamos a fundo determinado país ou cidade. No caso da Índia, é comum passar por camelos, ônibus repletos de pessoas, inclusive sob o teto, e motos que carregam famílias inteiras.

            O casal de portugueses, Inácio e Helena, registrou em um vídeo como os indianos se locomovem. Confira!

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            • karine
              Fazedor de Chuva
              • Jul 2012
              • 1595

              #7
              05.Novembro.2010

              Tudo a correr dentro do planeado. Acordamos cedo e tomamos um bom pequeno-almoço. Os horários e quilómetros estavam contados e controlados e Jodhpur (quase) à vista. Pufff! O sidecar deu o berro no meio do nada, a cinquenta quilómetros do nosso destino. Fazia um barulho estranho e decidimos parar. Não ligou mais. Uma mota podre passou, com dois senhores e uma criança pequena de dois anos. Garantiram-nos haver um mecânico numa aldeia a 4 quilómetros dali – Kaparda. Improvisámos e, com uma corda, amarramos a mota deles ao nosso sidecar e lá fomos. Vinte minutos depois, mecânico fechado. Era feriado do Diwali.

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ID:	159159
              Fonte: Daravolta

              Nesta aldeia de estrada, com cinquenta indianos à nossa volta e brancos nem vê-los (nunca ninguém deve ter sequer parado ali), de repente, éramos a “obra” que todos queriam ver. Cada um, em hindi suponho eu, dava palpites para o ar de como devíamos proceder mas ninguém, na realidade, ajudava. Alguém ainda teve a ideia de pegar no sidecar, sim, pegar no sidecar, e enfiá-lo literalmente num veículo que não tinha largura suficiente. Com a curiosidade/cordialidade/curiosidade típica indiana conseguimos desenrascar uma “assistência em viagem”. Pagamos 1500 rupias (± 25 euros) e um homem de uma aldeia ali perto veio com a sua pick-up e levou-nos a Jodhpur. Como pusemos o sidecar lá dentro? Indescritível. Fizemos uso de um monte de terra que estava na berma da estrada, os cinquenta indianos ajudaram a empurrar o sidecar para cima dele, o condutor encostou a traseira ao aglomerado de terra e, em 10 segundos, estávamos aos trambolhões na caixa com os travões accionados, não fosse o sidecar saltar dali para fora. Fomos até ao mecânico, já em Jodhpur, e deixamos lá a mota. Era noite. Percebemos que não ia ficar pronto tão cedo. No dia seguinte também era feriado e depois domingo. Com sorte, arranjariam na segunda. Bem, pensamos, temos uns dias para descansar. Acabamos o dia com a família da Nisha, a dona da guest house onde costumámos ficar, a rebentar estalos, estalinhos, bombas, bombinhas, foguetes e fulminantes. Happy Diwali!

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              Fonte: Daravolta

              Como não percebo mesmo nada de motas, ou de mecânica, ou do que quer se seja relacionado com veículos a motor, sei apenas que o problema da Chamuça (assim se chama a nossa mota, nome democraticamente escolhido no facebook e no nosso site) estava relacionado com o pistão. Custou-nos 5000 rupias (± 80 euros)

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              • karine
                Fazedor de Chuva
                • Jul 2012
                • 1595

                #8
                06 a 08 de novembro de 2010

                Não fizemos nada de mais a não ser descansar, dormir até tarde e pôr a leitura e a escrita em dia. “Entrevistei” o Omolette Man, famoso por ser o autor da melhor omeleta do mundo.

                09 de novembro de 2010

                Saímos de Jodhpur de manhã bem cedo, sem antes passar pelo mecânico, por uma razão que sinceramente já não me recordo. Ah continuava a verter óleo.

                A próxima grande cidade onde iríamos “oferecer emoções” era Udaipur mas eram demasiados quilómetros para percorrer num só dia. Cerca de 320. Decidimos ir andando até encontrar um bom sítio para parar. Não encontramos e seguimos até Udaipur. Dez horas de viagem.

                A estrada era má, com buracos que se assemelhavam a crateras. Parámos várias vezes para apertar parafusos e afins. Depois de apertar demasiadas vezes a luz do sidecar, achamos por bem tirá-la não fosse ela saltar de vez.

                Na Índia, as motas não pagam portagem o que é uma maravilha para nós. No entanto, vemo-nos e desejamo-nos para passar com o sidecar no espaço destinado às mesmas.
                Acabei o livro de Paul Theroux, “O Velho Expresso da Patagónia”. Dos melhores livros de viagem, para se ler em viagem, que já li. Maravilhoso!

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ID:	159231
                Fonte: Daravolta

                Chuviscou algumas vezes durante o dia. Encontramos um cinema, demasiado grandioso para o sítio em que se situava e pintado exteriormente num roxo forte, literalmente no meio do nada. Nos primeiros duzentos quilómetros a paisagem permaneceu semelhante aos dias anteriores: vistas alentejanas. A cem quilómetros de Udaipur tudo mudou, a estrada esburacada deu lugar a caminhos sinuosos no meio de um monte qualquer. A vista era espectacular, o trilho metia medo. O Inácio chamou a atenção para um anúncio: estávamos numa reserva natural de tigres. Havia macacos na berma da estrada, que apenas tinha largura suficiente para um carro passar, e olhavam para nós como se nos fossem saltar em cima a qualquer momento. Desejei estar em casa de pijama deitada no sofá a vegetar e a comer bolachas. Queria estar em todo o lado menos ali. Era bom que a mota não avariasse, pensei. Fiquei com frio e vesti a camisola e o impermeável. Carros em contra-mão nas curvas. Levamos três horas para fazer cinquenta quilómetros. De novo auto-estrada até à cidade. Respirei de alívio.
                Após dez horas sentada naquele sidecar, já o meu rabo estava quadrado, finalmente entramos em Udaipur. O hotel onde costumamos ficar estava cheio. Não fomos cautelosos e, sabendo de antemão que nesta época a maioria dos hotéis está cheia devido ao Diwali, não telefonamos para fazer a reserva. Estacionamos a Chamuça e entramos em oito hotéis diferentes. Estavam cheios ou eram demasiado caros para nós. Cansados como estávamos só queríamos um quarto. Uma hora depois já tínhamos um, não era grande coisa mas era o que se arranjava. Arrastamo-nos para jantar. Adormecemos em dois segundos.

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                • karine
                  Fazedor de Chuva
                  • Jul 2012
                  • 1595

                  #9
                  10. Novembro. 2010

                  Acordamos tarde. Era o dia destinado ao descanso depois de tantas horas passadas na estrada para chegar a Udaipur. Para meu infortúnio, foi literalmente passado no mecânico. Sim, de novo no mecânico. Segundo o Inácio, a mota fazia um barulho estranho qualquer, para variar, e que era melhor apertar os parafusos todos. Só para prevenir. Eu sentia o sidecar meio solto mas não quis dar muita voz à minha imaginação.

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ID:	159817
                  Fonte: Daravolta

                  Mantive-me calada, não me apetecia mesmo nada ir procurar mais um mecânico e passar lá um par de horas, e sosseguei-me a mim própria convencendo-me que era tudo fruto do receio gerado pela trepidação da estrada esburacada. Mas o sidecar estava mesmo “fora do sítio”. Tinha-se soltado uma peça ou uma borracha qualquer. Trocaram também os discos de embraiagem e aferrolharam todos os parafusos possíveis e imaginários. Os indianos são um povo que aparenta ter tempo, excepto quando está a conduzir, para dar e vender. Por isso, no trabalho, regem-se pela lentidão. Saímos do mecânico já de noite. Estava irritada com tudo aquilo. Porcaria de mota, para não dizer outra coisa, que estava ainda nos 800 quilómetros e já passava a vida a precisar de revisões, pensava eu incessantemente.

                  11. Novembro. 2010

                  O despertador tocou cedo, cedo demais. Preguiçosos como somos, fomo-lo adiando até nos lembrarmos que ainda tínhamos 250 quilómetros para percorrer, o que equivale a nunca menos de cinco horas na estrada. Queríamos chegar a Ahmedabad e nenhum de nós alguma vez tinha lá estado. Arrastamo-nos para fora da cama, do quarto e daquela cidade.

                  A fronteira entre o Rajastão e o Gujarat é digna de reter devido ao seu estilo medieval numa Índia suja, caótica e desgovernada, pelo menos na estrada. Uma simples fronteira entre dois estados, que mais não é do que uma estreita e imaginária linha geográfica, traduz-se em três colossais ameias de pedra cinzenta, no centro e na borda da estrada, delineada a branco, com portas e janelas avermelhadas, que fazem lembrar as torres de um castelo. Fora do tempo e do espaço.

                  Estávamos há pouco mais de uma hora na estrada, sentia-me moída e fatigada com a trepidação do sidecar e deixei-me dormitar. Uma chapa enorme, esverdeada e com letras brancas, na orla da estrada denunciava claramente o derradeiro risco de se conduzir bêbedo – “Drink and drive you won’t survive”. Esclarecedor, pensei, não vá alguém cair nesse erro. Num misto de surpresa e admiração ao ver-nos, um miúdo por quem passámos, abriu a boca e deixou sair um distinto “Uau!”. A luz do sidecar partiu de vez e caiu para a estrada sem que (quase) déssemos por isso. Estreei um novo livro, “Entrevistas da Paris Review”, uma selecção feita por Carlos Vaz Marques. A meio do caminho parámos para tirar fotografias com uns camelos que por ali se passeavam. Nunca vi tantos camelos como neste dia. Grande parte da berma da auto-estrada (e que felizes nós ficamos ao perceber que não era uma estrada nacional) estava enfeitada com pequenas árvores de flores de várias cores. Trajecto colorido e pitoresco.

                  Ao buscar as roupas nas lavanderias indianas, o casal já fica sabendo das últimas notícias
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ID:	159818
                  Fonte: Daravolta

                  Pela primeira vez nesta volta, conseguimos chegar ainda com luz a uma nova cidade. Mas foi só mesmo isso, entrar na cidade, porque dar com o centro, no meio de um trânsito infernal, e descobrir um hotel demorou duas horas. Já era noite. Tivemos a sorte de ter água morna e conseguimos tomar banho. Uma das coisas que mais nos tem custado é não ter água quente para tomar um bom duche quando chegamos sujos e imundos.

                  Saímos para jantar de Lonely Planet na mão e metemo-nos num rickshaw. O Inácio tinha visto um restaurante aconselhado pelo guia e, passada uma hora a vaguear pela cidade com um condutor que exaltava e pedia mais dinheiro a cada inversão de marcha que efectuava, acabamos num macdonald’s. O restaurante em questão tinha fechado. Antes de adormecermos, ainda matei dois animais repugnantes que andavam a “voar” pelo quarto. Eram grilos. Eu nem sabia que os grilos voavam, pensei que só faziam barulho. Nos desenhos animados é assim. Aliás, eu nem sabia que aquelas coisas pretas nojentas eram grilos. Agora ainda concebo menos o gosto que algumas crianças têm em enjaula-los e mantê-los em casa tal qual bicho de estimação.

                  Boa parte da viagem eles passaram em mecânicos. No vídeo abaixo eles mostram o conserto do pistão da Chamuça (apelido da motocicleta do casal):

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                  • karine
                    Fazedor de Chuva
                    • Jul 2012
                    • 1595

                    #10
                    Helena, a mulher de Inácio, escreve algumas crônicas da passagem, ou melhor, imersão deles pela Índia. Eis a primeira delas. Uma belíssima crônica sobre a loucura e a fuga da mesmice:

                    "Como tudo começou. Da imaginação à realidade.

                    Dizem que a Índia é um dos países mais multidimensionais à face da terra. Percebo porquê. É um cocktail de paisagens, de pessoas, de histórias, de sabores, de cheiros, de espiritualidades e de filosofias. Ou amamos ou odiamos. Mas independentemente disso, é um país que nunca esquecemos.

                    E, precisamente por não conseguir esquecer, decidi voltar, mais uma vez. Oito meses longe de casa, da minha família, dos meus amigos e do meu conforto. Virei costas a um futuro primeiro emprego e voltei para o país que me atrai, que não me larga, para a minha “versão inacabada do paraíso”. Só eu, o meu namorado e o nosso sidecar. Vamos dar a volta à Índia. Começar em Delhi, percorrer a costa ocidental passando em Damão e Goa até Kanyakumari, o ponto mais a sul, e regressar pela costa leste, por Calcutá, até Delhi novamente. Vamos dar a volta às nossas vidas, à nossa maneira de pensar, à nossa maneira de viver, à nossa maneira de namorar, à nossa maneira de estar, ao tempo, sem horas marcadas e sem bilhete de regresso. Simplesmente não queremos voltar ao mesmo sítio, por isso, fizemos deste sonho a nossa realidade. Escolhemos fazer isso. E aqui estamos. Prontos para percorrer a nossa (des)conhecida Índia de sidecar.

                    E escrevo estas crónicas, estes “retratos indianos” como gosto de lhes chamar, por várias razões. Mais do que percorrer esta estreita linha geográfica, quero fixar estas paisagens, estas pessoas, estes cheiros e estes sabores. Quero conhecer gente invulgar e quero dar-lhes vida. É aqui que encontro sentido para o que vou fazer. É como se fosse a explicação que constitui a desculpa por ter feito as malas e partido.

                    Mas como surgiu esta “brincadeira”? Sabíamos o que queríamos, o que desconhecíamos ainda, era a forma de o fazer. Queríamos a Índia. Queríamos uma viagem de mochila às costas. Queríamos conhecer o máximo do país em cinco meses (nos restantes três, o Inácio estaria a trabalhar). Queríamos algo diferente, original e minimamente apelativo para que outras pessoas se interessassem por nós. Queríamos um projeto. Queríamos uma viagem nossa, a dois, mas também evocar a possibilidade de levar os outros a viajar connosco e através de nós. E com tudo isto no pensamento, sentamo-nos num café no Porto, abrimos o Lonely Planet e olhamos um para o outro. Como fazer isto? Quanto a mim, de uma coisa tinha a certeza. Queria voltar à Índia e não queria, pelo menos para já, começar a procurar um primeiro emprego. Após uma hora de ideias atiradas e perdidas no ar, o Inácio perguntou, muito sério “E se fizéssemos de mota?”. “Mota, Inácio?! Nunca andei de mota na minha vida! E se for com aquela coisinha de lado?”. “Sidecar, Leninha, chama-se sidecar”. E assim surgiu a ideia. E tínhamos cinco meses para delinear, organizar, elaborar e projetar este capricho, a que decidimos chamar “Dar a Volta”. Durante este tempo, e enquanto tratávamos dos aspetos mais práticos da viagem, como os bilhetes de avião, os vistos e os seguros de viagem, demos largas, mais uma vez, à nossa imaginação e desenvolvemos uma campanha, que tem tanto de estúpido como de original, que apelidamos de “Ofereça uma Emoção”. E é tão simples como isto: como forma de agradecer os donativos monetários das pessoas para enchermos o depósito da nossa mota, enviamos uma fotografia nossa com o sidecar e uma placa com a mensagem escrita que a pessoa escolher, na data que escolher, no local que escolher e para a(s) pessoa(s) que escolher.

                    Se somos loucos? Digam-me vocês. Porque, quer dizer, quem se lembra de querer dar a volta à Índia numa mota com sidecar? O problema não é a mota. Nem o sidecar. O problema não é este país chamado Índia. O problema pode ser juntar isto tudo num só sonho. Porque quem veio à Índia sabe do que falo. E por nunca antes ter andado de mota, deixo para quem percebe a ousadia de prever o que de pior nos pode acontecer. Mas, apesar de tudo isto, acredito que o apelo do desafio está no desconhecido e, assim, só temos de ser otimistas. Por isso, queremos correr esse risco, mesmo que andemos constantemente no fio da navalha, porque desespero é o sofá e foi disso que fugimos, foi a isso que escolhemos virar costas.

                    Para completar, confira uma apresentação de algumas fotos desta aventura pelas terras indianas:

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                    • karine
                      Fazedor de Chuva
                      • Jul 2012
                      • 1595

                      #11
                      12.Novembro.2010

                      Temos de chegar a Goa, dê por onde der, no máximo, dia 24 de Novembro. Por uma razão simples e maravilhosa. A mãe do Inácio e a Raquel, uma amiga nossa, vêm cá passar uns dias connosco. Por isso temos consumido diariamente um número “exagerado” de quilómetros e, mesmo assim, continuamos em contra-relógio. Demasiado cansados do dia anterior, fizemos novamente contas e percebemos que se apertássemos mais um bocadinho, este dia podia ainda ser passado em Ahmedabad. E assim fizemos.

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ID:	160325
                      Fonte: Daravolta

                      13.Novembro.2010

                      Tínhamos planeado para este dia ir até Surat, uma cidade com direito a presença no mapa, que dista de Ahmedabad cerca de 280 quilómetros. Deixámos a cidade quando ainda se sentia pouco movimentação e vida, mas já se fazia notar o calor e a humidade. Sem um restaurante aceitável para tomarmos o pequeno-almoço, fizemo-nos à estrada sem nada no estômago. Comíamos mais tarde as bolachas e os sumos que tínhamos comprado no dia anterior num supermercado. Aliás, um minimercado autêntico e como os nossos. Fiquei fascinada porque foi a primeira vez, de todas as que já estive neste país, que vi e entrei num.

                      Durante as primeiras três horas do trajecto andámos a fugir e a desviar-nos dos camiões, carros e camionetas que por nós passavam em sentido contrário. Percorríamos uma estrada nacional. Decidimos filmar os melhores motoristas de camiões em contra-mão e, no momento em que estavam à nossa frente, berrávamos insultos “amigáveis” em português.

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ID:	160326
                      Fonte: Daravolta

                      Entrámos na auto-estrada e o cheiro que se fazia sentir era pestilento. Durante cerca de vinte quilómetros fomos, lado a lado, com uma família indiana que viajava numa mota. O miúdo devia ter seis anos e, acompanhado pelo pai e pela mãe, guiava a mota e pouco olhava em frente. Estava fascinado connosco, a expressão facial transmitia incredulidade. Choveu duas vezes, apenas durante breves momentos, mas as gotas pareciam-se com pregos afiados a fustigarem a pele. Passámos por inúmeros templos, desconfio que Jainistas, na orla da estrada. Estava cansada, o assento causa-me umas dores inacreditáveis, e com pouca paciência para prestar atenção e anotar o que estava para lá do meu livro.

                      Estávamos a chegar a Surat quando percebemos que teríamos de sair da auto-estrada e percorrer vinte quilómetros para dentro. Não ficava no caminho para Damão, cidade onde queríamos estar no dia seguinte, e optámos por continuar mais uns quilómetros até à cidade seguinte, Navsari. É um resto de civilização aparentemente decadente. As casas e os prédios estão desgastados e velhos e avizinhava-se, imaginávamos nós, uma noite “difícil” num hotel melindroso. Enganámo-nos, mas por opção. Por não ser uma cidade turística, os hotéis mais baratos que há, mesmo assim, são caros para o que são e maus. Com pouco esforço convenci o Inácio a não querer ficar num quarto onde a única vantagem que tinha era a janela. Pagámos 1040 rupias (± 17 euros) no Hotel Royal Regency e senti-me no céu. Uma banheira quase verdadeira, lençóis brancos e limpos, toalhas de banho imaculadas e papel higiénico. Que maravilha. Fiquei feliz e decidi não pensar no dinheiro que podíamos ter poupado.

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                      • karine
                        Fazedor de Chuva
                        • Jul 2012
                        • 1595

                        #12
                        14.novembro.2010

                        De Navsari até Damão, a nossa “grande” cidade seguinte, são cerca de 100 quilômetros, pouco mais de três horas. Acordámos o mais tarde que pudemos e tomamos o pequeno-almoço no quarto. Queríamos desfrutá-lo ao máximo, sabíamos que não iríamos conseguir ficar noutro assim muitas vezes.

                        Duas curiosidades interessantes de que nos fomos dando conta no estado de Gujarat: não há bebidas alcoólicas e a presença da comunidade muçulmana é forte.

                        Na Índia, a palavra “hotel” detém outro significado para além do que representa para nós, estrangeiros. Pode também querer dizer restaurante. E, de quilómetro a quilómetro, às vezes menos, há hotéis vegetarianos. Nunca entrei em nenhum porque pelo aspecto parece-me pouco provável que o meu estômago se desse bem com eles.

                        Não é estranho depararmo-nos, ao longo do caminho, seja ele qual for – rua de cidade, auto-estrada, estrada nacional, beco sem saída – com sapatos deixados e abandonados. Imagino sempre que ali ficaram de tentativas apressadas de atravessar este imenso tráfego caótico.

                        Estávamos a dez quilómetros de Damão e, mesmo ali do outro da estrada, um macdonald’s. Não resistimos e fizemos inversão de marcha. A nossa Chamuça converteu-se numa peça rara de museu. Os indianos faziam fila e acotovelavam-se para serem os próximos a tirar uma fotografia ao seu lado.

                        Damão

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Name:	daravolta1.jpg
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ID:	162199
                        Fonte: Daravolta

                        A cidade em si não me despertou especial interesse. O que resta da influência portuguesa, armazenado e escondido dentro das muralhas, é outro mundo. Bonito, pequeno e acolhedor. Ruas limpas ladeadas por árvores frondosas e casas de cores apelativas desgastadas pelo tempo. Não se ouve uma única buzina. Desligamos a mota e o silêncio foi bem-vindo. Fechamos os olhos e até o restolhar das árvores se fez ouvir. Era domingo e a missa seria celebrada às 17h30, em português, garantiu-nos o padre. Fomos à procura de hotel. Encontramos o Hotel Marina, casa tipicamente portuguesa, dois andares, portadas e janelas de madeira caiada de branco. Era apetecível. O preço do quarto e a insolência do recepcionista fizeram-nos sair a correr. Do outro lado da rua, por metade do preço, estava outro. O quarto era péssimo, tudo nele era deprimente, desde as paredes verde fluorescente ao calor e humidade interior, onde a ventoinha pouco efeito tinha. Duas noites. Só queria que passassem rápido.

                        Tomamos banho e fomos à missa. Reparei que em todas as ruelas e esquinas há lojas de bebidas alcoólicas. Chegamos atrasados e só assistimos aos últimos cinco minutos. Mas foi uma sensação maravilhosa. A igreja estava cheia. Homens, mulheres e crianças com o seu melhor fato. Para minha surpresa entoavam em uníssono e em português os cânticos finais. Não sou capaz de explicar a sensação confortável e de aconchego que vivi ao ver indianos a comportarem-se como nós, ocidentais, numa igreja. Não sou religiosa, ou pelo menos, não acredito no mesmo Deus que eles ali acreditavam, mas senti-me em casa. Vieram-me as lágrimas aos olhos, nostalgia e saudade, e por momentos desejei acreditar no mesmo que todos eles. E que bom que foi.

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                        • karine
                          Fazedor de Chuva
                          • Jul 2012
                          • 1595

                          #13
                          Helena Pimentel aproveitou sua aventura pela Índia para escrever e relatar cenas cotidianas, que ajudam a entender mais sobre a população do país e como vivem os indianos atualmente. Segue abaixo mais um retrato indiano, dessa vez do mecânico, Tittu Sharma:

                          "Vinod Kumar Sharma. Ou então, apenas Tittu Sharma. Assim de chama o homem que (re) construiu o nosso sidecar. É hindu (pertence à casta brahman), casado e tem três filhos, um rapaz e duas raparigas. Quando o questiono sobre a data de nascimento, olha muito seriamente para mim, faz aquele trejeito de cabeça tipicamente indiano e afirma muito categoricamente “I don’t know”. A minha expressão facial deve ter-se transformado num misto de surpresa e admiração porque ele sorriu e disse que ia pensar. Muda de posição na cadeira e atira para o ar “25 October, I think. 1960, I guess”. Ah, exclamei, é já amanhã! Novamente aquele abanar de cabeça despreocupado e desinteressado, e desvia o olhar. Não ligou nenhuma ao que eu disse, como se não fosse de todo importante para ele. Sorrio interiormente porque, para mim, seria impensável não dar importância ao meu dia de anos.

                          Click image for larger version

Name:	Sharma.jpg
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ID:	162438
                          Fonte: Daravolta

                          Na maior parte do tempo, podemos encontrar o Mr. Sharma sentado na sua cadeira de madeira almofadada, com o pé direito sobre a mesma e o outro no chão, a mão direita agarrada ao pé, a camisa enrodilhada sobre o peito, com a barriga proeminente à vista de todos, e a mão esquerda a apontar e emitir, de forma bastante audível, ordens, que a nós nos são incompreensíveis, para os seus empregados. Mas não me interpretem mal. Falar com o Mr. Sharma torna-se cómico porque sorri complacentemente a tudo o que dizemos, emite pequenos grunhidos como forma de resposta e apenas fala se for estritamente necessário, se os sons emitidos não o fizerem por si. É um típico indiano simpático.

                          Sharma Motor Cycle Depot. No cartão que me deu pode ainda ler-se “Deals and Restorer of BRITISH & AMERICAN MOTOR BIKE / CAR SCOOTER AND SPARE PARTS”. É uma pequena oficina com 35 anos, mas pelo aspecto ninguém diria, parece ter muito mais. Foi criada e gerida inicialmente pelo irmão e passou, entretanto, para o Mr. Sharma. Emprega cinco/seis pessoas, incluindo o filho, Lucky, provavelmente já a pensar na hereditariedade e continuidade do negócio. Perguntei-lhe onde arranjava e comprava todas aquelas “latas velhas”. Por toda a Índia. Tem um “agente” que procura e ele só tem de se deslocar à cidade e constatar se realmente o negócio vale a pena. A mota mais antiga que já comprou foi uma Red Indian de 1910. O carro, um Grampage de 1920.

                          Os clientes são, não só indianos (ricos, como fez questão de salientar), mas também japoneses, italianos, ingleses, alemães e portugueses (nós!). O gerente do hotel de cinco estrelas Le Meridien aqui em Delhi, Tarun Thukral, também o é. Fez questão de repetir o nome, de forma cerimoniosa, porque, pelos vistos, é de espantar que eu não saiba quem é este ilustre senhor. Não sei não, apenas pesquisei no Google para confirmar se escrevia bem o nome. Não vá ele ler isto mais tarde.

                          Por fim, quando me estava já a levantar para vir embora, perguntei se era feliz. Sorriu muito abertamente, abanou a cabeça, novamente aquele trejeito, e disse tão simplesmente “Yes, very happy. You are happy?”.

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                          • karine
                            Fazedor de Chuva
                            • Jul 2012
                            • 1595

                            #14
                            15.Novembro.2010

                            Não dormi nesta noite. Só consegui acabar de escrever o Retrato Indiano às quatro da manhã e, cheia de sono, estendi-me naquela barra de madeira que era o nosso colchão.

                            Vi passar as horas e, às oito da manhã, quando o calor e o cansaço se tornaram insuportáveis, acordei o Inácio. Queria sair daquele sítio o mais rapidamente possível. Tomamos o pequeno-almoço no restaurante de um hotel agradável mas demasiado caro para o nosso orçamento e, depois de vermos cinco hotéis, deparamo-nos com um onde pagávamos 800 rupias (± 13 euros), com direito a ar condicionado, paredes brancas e espaço. Maravilha! Nem queria acreditar que íamos pagar 500 rupias pelo quarto onde tínhamos passado a noite.

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Name:	damao.jpg
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ID:	162553
                            Foto da Internet

                            Além disso, no dia anterior, tínhamos sentido que tinham gozado connosco quando nos pediram este preço. Reparei que o homem que estava na recepção era outro. E se inventássemos e lhe disséssemos que regateámos o preço e o homem desceu para 400 rupias, perguntei ao Inácio. E assim fizemos. E ele acreditou.

                            O dia foi passado a passear na Chamuça e vimos Damão de uma ponta à outra. Fomos até à praia em Jampore, a cinco quilómetros. Era um imenso areal a perder de vista, apesar de tudo, impróprio para nós, ocidentais, fazermos praia. Miúdos a brincar na areia. Inúmeras pequenas “esplanadas” de madeira. Cavalos brancos e camelos que serviam apenas para figurar nas memórias e retratos fotográficos. As “esplanadas” eram muitas. Voltamos ainda a tempo da missa. A igreja da Nossa Senhora dos Remédios, ao contrário do dia anterior, estava quase vazia. Sendo o público maioritariamente mulheres, os cânticos tornaram-se num coro de vozes desafinadas e profundamente elevadas. O Padre Querubino Gonçalves dispensou a homilia e, em meia hora, estávamos cá fora. Quando mais tarde falamos com o padre disse-nos que, apesar de ser de Goa, não sabia falar português. Tudo o que pronunciava na missa tinha aprendido e decorado com os católicos residentes em Damão.

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                            • karine
                              Fazedor de Chuva
                              • Jul 2012
                              • 1595

                              #15
                              16.Novembro.2010

                              Deixámos Damão ao meio-dia. Tínhamos 200 quilómetros pela frente até Bombaim. Por ser auto-estrada, o caminho fez-se relativamente rápido até aos arredores desta grande cidade com 24 milhões de habitantes. Fizemos apenas uma paragem, numa “estação de serviço / restaurante / loja de conveniência” para descansarmos. A paisagem verdejante e viçosa tornou-se monótona ao longo do percurso e optei por continuar embrenhada no meu livro, “Entrevistas da Paris Review”. De repente, olhámos para a nossa esquerda e reparámos num enorme armazém de construção de barcos. Encostámos a mota na via de rodagem, saímos e empurramos em marcha atrás até à entrada de terra batida. Tirámos fotografias e continuamos caminho.

                              Desde os subúrbios de Bombaim, no estado de Maharastra até à zona onde ficámos instalados, nós e a maior parte dos turistas – Colaba Causeway – distam 50 quilómetros, que nos levaram duas horas e meia a ser feitos. O trânsito não é apenas caótico, é desgovernado, abundante, apressado, apertado e ensurdecedor. Cada um sabe de si e ninguém quer saber dos outros. Nos primeiros trinta quilómetros, os bairros de lata são infindáveis e a perder de vista. O cheiro nauseabundo, o lixo abundante, as crianças miseráveis, os leprosos pedintes e a agitação desmedida tornam este percurso assustador e arrepiante. A existência de uma realidade como esta, cruel e atroz, faz-nos sentir afortunados e, simultaneamente, vergonhosamente culpados deste sentimento.

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Name:	leninha.jpg
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ID:	162606
                              Fonte: Daravolta

                              Apesar de tudo, adoro Bombaim. Não consigo não gostar, é a minha cidade predilecta. Os táxis amarelos e pretos clássicos, as ruas largas, as grandes avenidas costeiras de uma típica cidade cosmopolita, as livrarias de esquina, os edifícios coloniais, os jardins onde crianças e graúdos jogam cricket, as praias ao pôr-do-sol. Sem esquecer o Leopold’s Café e o Mondegar, na zona de Colaba, onde a music box e o ambiente nos transportam para outro lugar. Claro que antes de cá vir, já tinha sido altamente influenciada para desejar e gostar deste lugar. No Verão de 2008, nos dois meses anteriores à minha primeira vinda, li o “Shantaram” de Gregory David Roberts, e ainda hoje alimento a vã esperança de o encontrar e conhecer no Leopold’s, café onde partes do livro foram escritas. O Thompson, empregado de sala, garante-me, de todas a vezes que cá venho, que metade do ano está cá e vai aparecendo por lá. Uma fotografia no seu telemóvel dele com o escritor fazem-me crer nisso e cobiçar o mesmo.

                              A entrada na cidade custou mas, simultaneamente, soube bem. Adoro voltar e, o tempo que cá estou, sabe-me sempre a pouco. O pára arranca interminável, desde que entrámos na cidade, e a visível poluição, estamparam na minha cara, à excepção do espaço protegido que os óculos proporcionam, uma manta preta de pó. Queria um banho e tinha fome. Bendito Leopold’s para matar as saudades.

                              Para completar, há um vídeo feito em Bombaim, com três indianos:

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