Dar a volta

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  • karine
    Fazedor de Chuva
    • Jul 2012
    • 1595

    #46
    Ensaio sobre a careca

    Eu sou seu e a minha circunstância, já dizia Descartes. O reflexo físico da minha alma é aquilo que eu quero que os outros vejam de mim.

    No dia 4 de Março, antes de partir para Dar a Volta, tudo isto se desfez. Em 40 minutos, cada cabelo, cada pêlo da minha barba, se desconjuntou, separou-se do meu corpo e abandonou-me definitivamente.

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    Lembro-me como se fosse hoje de, num sábado de manhã, o meu pai meter-me a mim e aos meus irmãos no carro e levar-nos ao Sr. David, o clássico barbeiro que o meu pai nunca mudou. Estávamos os três na rebeldia dos “sweet little sixteen”, influenciados pelo grunge do Kurt Cobain e ansiosos por poder ostentar um cabelo grande.

    Claro está que esta nossa ideia nunca se tornou realidade. A sensatez vem sempre dos mais velhos, e ainda bem, senão tenho a certeza que teríamos, naquela altura, o corpo tatuado e o cabelo em forma de crista.

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    Há mais de dois anos, quando pela primeira vez pensamos em dar a volta à América do Sul numa pão-de-forma (em português do Brasil, Kombi), eu, internamente, também decidi: até ao dia da partida, não corto o cabelo.

    Assim, de uma forma quase instantânea – desfazer em 40min o que demorou cerca de 900 dias a crescer – metade de mim, desfez-se no chão. E eu, sem saber se sofrida ou alegremente, assisti a tudo!

    Por Inácio Rozeira

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    • karine
      Fazedor de Chuva
      • Jul 2012
      • 1595

      #47
      Fui dar uma volta (por São Paulo)

      Foi um dia cheio, em cheio e a três. Juntamo-nos ao Jorge Vassallo, colega de trabalho do Inácio na Nomad, e andamos e descortinar São Paulo. A pé, claro está. E demos uma grande volta.

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      Fonte: daravolta.com

      “Alguma coisa acontece no meu coração
      Que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João”

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      (En)canta o Caetano Veloso, na sua ode a Sampa. E foi nessa mesma esquina que começamos às voltas. Sampa é estranha. De certa forma, feia até. Mas olhando com mais atenção, a beleza está lá. É mais uma cidade que primeiro se estranha e depois se entranha. Anseio constantemente por encontros que nos marcam, que nos fazem pensar, pôr em dúvida e em causa o que acreditamos estar certo. São a alma de uma viagem. Pelo menos para mim. E acontecem quando menos se espera, ao virar de uma esquina, ao abrigar de uma chuva. Este foi um deles.

      No avião, vimos um documentário do Anthony Bourdain relativo a São Paulo, sobre os melhores sítios para comer. Um deles era a famosa sandes de mortadela no Bar do Mané no Mercadão. A zona onde o Mercadão se situa quase que parece outro mundo, é uma Ásia colorida. Lojas de tudo e coisa nenhuma, porta sim, porta sim, toldos fluorescentes e buzinas incessantes.

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      Fonte: daravolta.com

      Por ter já visto imagens do interior do mercado, não fui surpreendida – bancas e restaurantes bem alinhados entre si e situados em ruas com nome de gente – mas alguns dos produtos à venda apanharam-me desprevenida: azeite Galo, postas de bacalhau bem grossas, enchidos e queijos familiares.

      Circulamos pelas “ruas”, olha isto, tira fotografias aquilo, é o quê? Que grande pastel de bacalhau! E finalmente demos de caras com o Bar do Mané. Decidimos experimentar a famosa sandes com dez fatias dobradas de mortadela com queijo. Come primeiro, paga depois. Se eu não gostar não pago? Uma questão que não se põe. A sandes é óptima, não haja dúvida, mas louvo quem conseguir comer uma inteira.

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      Fonte: daravolta.com

      Diz quem sabe, quem vive em São Paulo ou quem há muito emigrou e perdeu a conta aos anos, que a cidade não é segura. Não andar com nada de valor, não dar nas vistas e, caso algo aconteça, não resistir e dar tudo. Sem dó nem piedade. Ouve-se frequentemente, várias vezes ao dia. Por isso, é inevitável não andar na rua com quatro-olhos e um sentimento de medo e insegurança constante.

      A praça da Sé poderia ser bonita, não fosse a presença de homens e mulheres duvidosos, com uns bons copos de vinho em cima ou outras coisas que tal. Pela primeira e única vez, até agora, senti-me insegura. Tirar fotos discretamente e filmar sem dar nas vistas, foi o nosso lema durante dez minutos.

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      Fonte: daravolta.com

      O que eu mais gostei? Da Avenida Paulista, com os seus edifícios imponentes, alguns bonitos, outros desenquadrados. Pessoas que correm apressadas. Ouvem-se helicópteros no ar. Filas e filas de carros, ônibus e táxis. Kombis de todas as cores e para todos os efeitos, da polícia federal, da escola, da lavandaria, do cabeleireiro, do ginásio, dos correios. Intervenção urbana na fachada dos prédios, nos orelhões e nas paredes.

      Esta volta por São Paulo tem duas versões, dois pontos de vista. Agora, se me dão licença, vou ler a versão do Jorge Vassallo. Quando nos cruzamos de novo? Mais vale não fazer planos. As viagens encarregar-se-ão disso.

      “E foste um difícil começo
      Afasta o que não conheço
      E quem vem de outro sonho feliz de cidade
      Aprende depressa a chamar-te de realidade
      Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso”

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      • karine
        Fazedor de Chuva
        • Jul 2012
        • 1595

        #48
        O meu primeiro jogo de futebol

        “Querem ir ver amanhã um clássico de futebol? São Paulo – Palmeiras!”, perguntou-nos o marido da minha prima. O Inácio, antes de eu sequer ter tempo de pestanejar, já tinha respondido que sim.

        Quem me conhece sabe que não gosto de futebol. Aliás, o futebol irrita-me. Irrita-me a quantidade de dinheiro que os jogadores recebem por correr atrás de uma bola. Irrita-me ouvir as músicas das claques (torcidas, como se diz por aqui). O futebol move literalmente multidões e, por isso, irrita-me assistir à alteração que este desporto provoca nas pessoas ditas normais. Pronto, irrita-me tudo no futebol. Ou pelo menos, assim eu pensava. Daí nunca me ter interessado minimamente entrar num estádio e, muito menos, assistir a um jogo.

        Mas sair do nosso país, da nossa zona de conforto e experimentar coisas novas, é isso mesmo, é viajar. É não ter vergonha de fazer o que não faríamos em casa. É ter vontade de ser diferente e mudar pensamentos e preconceitos. E foi isso fiz.

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        Fonte: Daravolta.com

        O estádio do São Paulo é ao lado de casa, a dez minutos a pé. Mas avisaram-me logo. Nada de carteiras, telemóveis ou máquinas de qualquer espécie. Nada de calções nem decotes acentuados. Simplesmente não dê nas vistas.

        Acontece que o estádio é a casa do São Paulo. E a equipa adversária era o Palmeiras, conhecida por ter uma claque, digamos, esfuziante e “violenta”. O estádio estava quase vazio, acontece que o espaço destinado aos fiéis do Palmeiras se cingia a uma bancada. Obviamente estava a abarrotar! E era aqui que tínhamos lugar também. Tudo porque o filho do primo afastado que ia connosco era da claque do Palmeiras e, nós, sem saber no que nos iríamos meter, fomos atrás.

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        Fonte: Daravolta.com

        Bilhetes no bolso e fomos a pé para o estádio. Pessoas apressadas corriam para as portas destinadas. Manadas de fiéis entoavam as músicas dos respectivos clubes. Olhares de desafio entre eles. A polícia militar, centenas de oficiais a pé e a cavalo, calcorreavam os arredores do estádio com o cassetete em punho. Posto isto, eu estava cheia de medo.

        Entramos finalmente na bancada certa e sentámo-nos. Que sensação avassaladora! A bancada do Palmeiras começou a encher aos poucos e, quando demos por nós, estávamos rodeados de adeptos. Sentados no chão onde deveriam estar os nossos pés ou a passar pela cadeira onde deveriam estar os nossos rabos.
        O jogo começa e a emoção também. Hinos evocados com sentimento, que mais pareciam gritos de guerra. Camisolas verdes a pairar nas nossas cabeças. O chão a tremer. Corpos tatuados com o símbolo do clube ou simplesmente “Palmeiras”. Pingos de suor a voar por todo o lado. Miúdos sentados a fumar erva, desesperados com o jogo. Empurrões, tropeções e apalpões. Adeptos em tronco nu a agir que nem macacos. À nossa frente, alguém se pega à pancada e a polícia militar entra sem dó nem piedade. Palavrões e gestos feios dirigidos à equipa adversária.

        A certa altura, a coisa começa a ficar negra. Perto do intervalo, e ainda sem golos marcados, os adeptos ficam cada vez mais enfurecidos. O chão treme mais. Os encontrões são cada vez mais violentos e, a certa altura, já estão à pancada entre si. E não há polícia que os salve.

        Acabamos a ver o jogo em casa. Ficou 0 – 0. Ninguém marcou. E, segundo as notícias, houve problemas à saída do estádio entre os adeptos dos dois clubes.

        Por Helena Pimentel, em março de 2013

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        • karine
          Fazedor de Chuva
          • Jul 2012
          • 1595

          #49
          Em busca da pão-de-forma-perfeita (kombi, em português do Brasil)

          Desde que chegámos a São Paulo, muitas pessoas nos têm questionado pela famosa pão-de-forma, através do Blog ou do Facebook. Obviamente estão curiosos. E só agora passamos “cá para fora” a informação porque precisámos de tempo para a digerir bem.

          Aterrámos em São Paulo há dez dias. A nossa prioridade foi, desde o início, procurar incessantemente uma pão-de-forma. Já trazíamos algum trabalho de casa feito – uma lista de cerca de trinta carrinhas à venda em São Paulo.

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          Fonte: Daravolta.com

          Desconhecíamos a dimensão da cidade. Por isso, metade da lista foi imediatamente por água abaixo quando, ao entrarmos em contacto telefónico com os vendedores, nos apercebemos que se situavam no estado de São Paulo (a 100/150 quilómetros de casa da minha prima) e não na cidade. Além do mais, tudo em São Paulo é longe, o trânsito infernal e é preciso ter tudo isto em conta. Tornou-se impraticável procurar carrinhas com distâncias superiores a 30/40 quilómetros. Se tivéssemos um helicóptero…

          Na primeira semana vimos cerca de dez carrinhas. Percorremos mais de trezentos quilómetros para, na maioria dos casos, nos debatermos com carrinhas que em nada se equiparavam às fotografias expostas nos anúncios. O chão impregnado de buracos com ferrugem, motores desmontados ou alterados para gás, interiores desolados e podres e um sem número de detalhes que quase nos fizeram repensar toda esta volta.

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          Fonte: Daravolta.com

          Depois de sete dias de pão-de-forma em pão-de-forma, de stand em stand, de fila de trânsito em fila de trânsito, descobrimos aquela que apelidamos de PFP: a nossa pão-de-forma-perfeita. O dono da mesma, o Alexandre, garantiu que o único problema era uma folga na direcção. Dirigimo-nos a um despachante para verificar o “renavam” e a matrícula, avaliar as despesas e a documentação necessária para mudar de proprietário, ver se tinha “detran” (uma espécie de inspecção), o preço do seguro e a alteração do registo, caso a quiséssemos pintar.

          Tudo estava bem encaminhado. Demos uma volta naquela que seria a nossa casa no próximo ano. Estávamos esfusiantes! Pedimos até uma segunda opinião a um mecânico, não fosse o diabo tecê-las.

          Mesmo antes de fechar o negócio, o Alexandre, depois de várias chamadas, disse-nos simplesmente: “Um cara aí pagou mais 500 reais que vocês pagavam e eu vendi”.
          Caímos na cama mortos, a pensar que, no dia seguinte, voltaríamos uma semana atrás e começaríamos tudo de novo. E foi isso que fizemos.

          E nós não queremos um Ferrari amarelo, só queremos uma pão-de-forma…

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          • karine
            Fazedor de Chuva
            • Jul 2012
            • 1595

            #50
            O Beco do Batman

            Visitamos uma feira de antiguidades na Praça Benedito Calixto, provamos doces como o “Espera Marido”, assistimos a um Harlem Shake numa loja de rua e a um combate de Capoeira num pátio de uma escola. Mas não nos ficamos por aqui. A seguir, fomos à procura do Batman.

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            Uma galeria a céu aberto. É a definição alternativa para esta pequena viela, na rua Gonçalo Afonso, situada no centro de São Paulo. Ou então, Beco do Batman.
            São paredes inteiramente dedicadas ao graffiti, cuja história remonta à década de 80, quando um desenho do homem-morcego surgiu num canto daquele bairro. A partir daí, os estudantes de artes plásticas e outros que tal, começaram a colorir os muros deteriorados e sem vida.

            Apesar de não ser uma galeria de arte formal, tem as suas regras. Segundo a ética de rua, quem pinta uma parede é dono desse pedaço. Se um artista acha que determinada obra está deteriorada, pode pedir permissão ao autor para a modificar. Desenhar sem pedir autorização é chamado, por estas bandas, de “atropelamento”.

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            Fonte: Daravolta.com

            É fascinante descobrir esta “arte de rua” escondida dos olhares turísticos. Muitas vezes, feita sem jeito e para “dar cabo” das paredes do vizinho… Neste caso, para dar vida às paredes de um bairro. É assim o Beco do Batman.

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            Fonte: Daravolta.com

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            • karine
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              • Jul 2012
              • 1595

              #51
              Habemus Kombi!

              “Deus escreve direito por linhas tortas”, diz o povo. E, senão quando tudo se deitou a perder, ainda muita água havia para correr debaixo das pontes. Além disso, se a montanha não vai ao Maomé, lá terá o Maomé de ir à montanha. Foi exactamente isso que nós fizemos. Agora que é nossa, seguramente nossa, podemos anunciar aos quatro ventos: já temos a Kombi perfeita!

              O primo afastado, o mesmo que foi connosco ao futebol, numa ida diária para o trabalho, em Cotia, a trinta quilómetros de São Paulo, ao passar numa oficina reparou numa Kombi à venda. E ligou-nos. Depois de dois dias à procura incessantemente, esta era uma oportunidade a agarrar. “Está em bom estado cara, pode crer!”, garantiu-nos o primo.
              Entramos imediatamente em contacto com o Walter, o vendedor. A carrinha estava à venda apenas há dois dias e, naquele momento, encontrava-se no mecânico para arranjar os pequenos problemas que, com os anos, fora adquirindo.

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              Mesmo estando a trinta quilómetros, a duas horas de trânsito caótico e quase parado, não deixamos de tentar. No dia seguinte, bem cedo, deslocamo-nos a Cotia. Tínhamos um pressentimento em relação àquela Kombi. Se a montanha nunca foi ter com o Maomé, nós, entre transportes públicos atafulhados de gente e bairros favelados, subimos à montanha, ao encontro da Kombi perfeita.

              Walter, 58 anos, descendente de italianos, químico e administrador de empresas, quatro filhos e uma casa com piscina de cortar a respiração, desfazia-se de uma pão-de-forma com dezoito anos, guardada em garagem, com as peças todas originais. Deixava-a porque já não dava para a guardar em casa. Cinco carros enchiam-lhe os lugares de estacionamento.

              Quando o encontramos, depois de falar por telefone, ele olhou para nós e disse-nos: “Essa kombi era dum Patrício, que eu comprei zerada ainda no stand. Estava no destino dela voltar para outro Patrício”. Por Patrício, nestas terras de Vera Cruz, entenda-se, portugueses, pais da pátria brasileira.

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              Fonte: Daravolta.com

              A “Kombaça”, como a tratavam em casa de Walter, está descuidada por dentro, com as peças originais e com o motor a relinchar certinho, sem silvos nem barulhos estranhos. Com a chapa impecável, muito pouca ferrugem, digamos que atingiu a maioridade com ar de criança de doze anos sem recorrer a botox ou silicone.

              Ainda durante as primeiras horas da manhã, o Inácio segurou no volante com Walter ao lado para o primeiro teste. Mal arrancamos, Walter virou-se e disse: “Essa kombi nunca bateu.” E, nem dois minutos depois, o Inácio, num encurtamento de faixa “lambeu” o carro do lado. O que vale é que a culpa não foi nossa e a primeira volta desta grande volta, ficou abençoada!

              Depois de uma revisão no mecânico, de ajustar alguns pormenores eléctricos e de ir a um despachante e a um notário resolver burocracias, percorremos trinta quilómetros, numa estrada em hora de ponta ao volante daquela que será a nossa casa-ambulante durante mais doze meses. E vai-nos levar para bem longe, para uma volta à América do Sul à procura da identidade deste subcontinente ou, quem sabe, à procura de nós próprios…

              Estamos juntos, desta vez dentro de uma Kombi!

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              • karine
                Fazedor de Chuva
                • Jul 2012
                • 1595

                #52
                Na eminência de partir…

                Estamos a arrumar as mochilas para abandonar São Paulo, cidade onde passamos as últimas três semanas. Cidade que nos acolheu de braços abertos, mega-metrópole que nos entupiu no trânsito, que nos “deu” de mão-beijada uma pão-de-forma, que solidificou o Dar a Volta à América do Sul e que libertou das nossas cabeças o nosso maior medo: não conseguirmos Kombi.

                A partir de amanhã rumamos para Sul, a caminho da cidade mais austral do planeta, para lá das estepes patagónicas e das planícies gaúchas. No caminho cruzaremos três países: Paraguai, Uruguai e Argentina.

                Amanhã, a kombi que quase tem nome, parte para Curitiba e leva-nos lá dentro. Na nossa casa, pela primeira vez, arrancamos para esta volta.

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                Muito obrigado a todos aqueles que fizeram do nosso tempo nesta cidade especial. Obrigado Helena, Tio Alfredo, Hugo, Rodrigo, Zé, Walter, Garrido, Pedro, Susana e Sebastião. Se desta amizade recebermos em todas as paragens, o sucesso desta volta está garantido.

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                • karine
                  Fazedor de Chuva
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                  • 1595

                  #53
                  Walentina: o melhor de dois mundos

                  A Walentina vai ser, nas próximas 52 semanas, a nossa casa-ambulante. Uma casa com vista para o sul do mundo.

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                  Fonte: Daravolta.com

                  Juntamente com o Gon, o Kinorm e a Moodystudio, “imaginamos” como seria a nossa Kombi. Queríamos, desde o início, criar uma empatia visual e ligação inconsciente por parte dos sul-americanos que connosco se cruzassem. E esse elemento é a bandeira na traseira da carrinha. Bandeira essa que representa os povos originários dos Andes e que, em alguns países sul-americanos, está erguida na praça principal juntamente com a bandeira tradicional do respectivo país. Outras interpretações há a fazer, não seriam os primeiros.

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                  Fonte: Daravolta.com

                  Mas, e o Galo de Barcelos, o Vinho do Porto, o Bacalhau, a Sardinha, os Tremoços, o Barco Rabelo, o Coração de Viana, o Eléctrico, a Sé do Porto… o nosso Portugal? O resultado está à vista.

                  Conseguimos o melhor de dois mundos na nossa casa-ambulante. A nossa casa no fim do mundo com vista para Portugal.

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                  • karine
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                    • 1595

                    #54
                    Os primeiros 400 quilômetros da Walentina

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                    Fonte: Daravolta.com

                    Partimos de São Paulo e deixamos para trás 31.613 quilómetros de história percorrida pela Walentina. No próximo ano, terá outros tantos em cima. Um pouco mais. Agora, é tempo de criar a nossa própria história na nossa casa-ambulante. Em jeito de celebração da partida, que venham muitos e bons quilômetros!

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                    Fonte: Daravolta.com

                    Entre despedidas e abraços, arrumações e um último vislumbre de Sampa, deixamos para trás a primeira de muitas cidades que nos acolheu e marcou. Seja pelo trânsito infernal em horas mortas do dia. Seja pela “street art” nos edifícios antigos pela qual nos apaixonamos. Mas marcou-nos principalmente pelas pessoas com quem “acidentalmente” nos cruzámos e que assinalaram o início desta empreitada.

                    Mas já estava na altura de nos fazermos à estrada. Temos a Kombi e a maior parte dos documentos legais necessários. Do resto da papelada podemos tratar em Curitiba, a primeira paragem desta grande volta. Como se a sorte já não andasse do nosso lado, é em Curitiba que temos também a casa de uns grandes amigos. Não há nada como iniciar uma viagem junto de quem nos é próximo.

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                    Fonte: Daravolta.com

                    Pela frente tínhamos quatrocentos quilómetros e sete horas de estrada. Uns diziam-nos que a estrada para Curitiba era muita má. Outros afirmavam convictamente que as melhores estradas no Brasil são as de São Paulo e arredores.

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                    • karine
                      Fazedor de Chuva
                      • Jul 2012
                      • 1595

                      #55
                      Um restaurador de sonhos no século XXI

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ID:	189687
                      Fonte: Daravolta.com

                      Através de um livro sobre personalidades de Curitiba, demos de caras com o Hélio Leites. Bastou uma pesquisa rápida na internet e estávamos a trocar emails e ao telefone com ele. Em meia hora, preconceituosa como por vezes só eu sei ser, já havia decidido e afirmado aos quatro ventos que “nem que me paguem, eu não o quero conhecer!”. À primeira vista – essa vista distorcida que só a internet nos pode fornecer – pareceu-me “um louco disfarçado de artista”.

                      Sinto-me no dever de adiantar já que o Hélio não é o que parece. É muito mais do que as câmaras e fotografias instantâneas fazem transparecer. Além de uma simpatia luminosa e generosidade extrema, além de engraçado, diferente e carismático, é dono de um génio mais do que criativo. Tudo o que lhe sai “pela boca fora” tem inevitavelmente um segundo objectivo, é uma parábola com um ensinamento escondido, pronto a ser desmascarado. E vale a pena libertarmos a mente e despirmo-nos das nossas ideias estúpidas e pré-concebidas para dar ouvidos, com atenção, ao que nos diz.

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ID:	189688
                      Fonte: Daravolta.com

                      Em tempos, um jornalista tentou descrever a sua personalidade através de uma metáfora gastronómica: “400g de genialidade, tipo Salvador Dali, 300g de loucura saudável, 200g de Budismo Zen, na versão tropical e 100g de Freudismo, não esquecendo um pau de canela.”

                      Conhecemo-nos em sua casa enquanto o diabo esfrega um olho. Por termos compromissos previamente combinados, decidimos fazer-lhe uma visita-relâmpago e prometemos, no dia seguinte, encontrarmo-nos na feira que acontece semanalmente ao domingo no centro de Curitiba, onde o Hélio conta histórias e restaura sonhos em forma de miniaturas.

                      Tal como o Pinóquio, que ganha vida nas mãos de Geppetto e sonha ser um menino de verdade, estas miniaturas e histórias, com as quais tivemos o prazer de privar, ganham forma, essência e transformam-se em sonhos restaurados nas mãos de Hélio Leites. Tudo o que a alma e as mãos do Hélio criam resulta do que foi deitado ao lixo por outros – latas de sardinha, caixas de sabonete, paus de gelado, palitos, caixas de fósforos, sapatos abandonados e tudo o que possam estar, neste momento, a imaginar. Faço miniaturas para que não se perca a essência da proporção, justifica o Hélio.

                      Cada objecto útil, outrora abandonado, é guardado e reutilizado. Cada espaço diminuto transforma-se num universo mágico. Cada miniatura conta uma história em forma de poema. E em cada miniatura deixa a sua marca – um fio de cabelo em forma de assinatura.

                      Na hora da despedida, estendeu-me a mão, abriu-a e deu-me um mini-lápis. “É para escreveres a tua história. A história da vossa viagem”.

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ID:	189689
                      Fonte: Daravolta.com

                      São estes momentos, que anseio ainda em casa, que me fazem fazer as malas e partir. Gosto de pessoas que me desarmam, que me deixam sem defesas e me obrigam a pôr de lado os preconceitos que se “ganham” quando não se põe o pé fora-da-caixa. Pessoas como o Hélio. Obrigada pelos ensinamentos e palavras. De uma coisa tenho pena, de não ser capaz de fazer jus ao tempo que passaste connosco.

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                      • karine
                        Fazedor de Chuva
                        • Jul 2012
                        • 1595

                        #56
                        Devia ser ilegal demorar uma eternidade para tratar de burocracia legal!
                        8 Abril, 2013

                        Muitos nos têm vindo a questionar a razão de estarmos “parados” em Curitiba há tantos dias… O tempo corre sem nos avisar e o que nos tem moído literalmente o juízo têm sido os trâmites legais relativamente à compra e posse da Walentina, bem como os documentos necessários para transpor as catorze fronteiras com ela.

                        Ultrapassadas as dores de cabeça no que toca aos documentos de identificação da pão-de-forma (Kombi), resta-nos a aquisição de uma “autorização” junto dos consulados de cada país, e de um seguro, que nos permita, aos dois, conduzir no respectivo país.

                        Nos últimos tempos, o nosso dia-a-dia, em poucas palavras e de forma simplificada, tem sido assim: os edifícios de negócios onde se encontram os consulados concentram-se maioritariamente no centro de Curitiba, onde não há estacionamento na rua e os parques custam um balúrdio; o Inácio liga os quatro-piscas e sobe no passeio, salto imediatamente da Walentina e apresento-me ao porteiro, identifico-me e tenho direito a um crachá de visitante; subo entre 15 a 30 andares em elevadores lentos e apinhados de executivos; imediatamente sou atendida no respectivo consulado e pedem-me os documentos e papéis, previamente autenticados num notário, que comprovem a veracidade do que apresento; dez minutos para examinar a papelada e cedem-me luz-verde; “agora só tem de ir ao banco (e não pode ser qualquer um, tem de ser o Itaú) e fazer um depósito para pagar este processo (não é barato e, aqueles que não necessitam de depósito no banco, apenas recebem em dólares americanos novos), depois tem de voltar cá com o comprovativo para iniciarmos a burocracia (que consiste num carimbo, para que conste) e, amanhã ou depois, pode passar a levantar”; desço a correr aqueles andares intermináveis, entro na carrinha e anuncio que temos de procurar o banco mais perto; entre ruas e ruelas, lá se destaca o que queremos e, em média, esperamos uma hora na fila para fazer o pagamento (apenas como curiosidade, existe uma lei afixada em cada banco que anuncia o tempo médio de espera, não vá alguém desatinar com as horas de almoço perdidas – só não há fotografia a comprovar porque é proibido utilizar o telemóvel dentro do estabelecimento); pagamento feito, metemos prego a fundo e estamos de volta ao consulado; entrego o comprovativo, respiro fundo e penso “um consulado já está!”; olho para o relógio e, para tratar da papelada relativa a uma fronteira demorei 2h30 e, tendo em conta que o atendimento ao público encerra às 13h, ou então às 16h (e fecha para 2h de almoço), num só dia conseguimos tratar, com sorte, da burocracia necessária para dois países. Agora é só fazer as contas…

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                        Fonte: Daravolta.com

                        A boa notícia é que, neste momento, poucos consulados nos restam para tratar e, muito em breve, temos intenções de nos fazer à estrada!

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                        • karine
                          Fazedor de Chuva
                          • Jul 2012
                          • 1595

                          #57
                          X Montanha: uma relíquia gastronómica excelente para a memória!

                          Não é um hambúrguer. Não é um pastel. Nem tão pouco um bitoque. Como os pregos da Portugália estão para Lisboa e os cachorrinhos da Batalha estão para o Porto, o X Montanha está para Curitiba.

                          Num café atravancado com um balcão sobredimensionado na esquina de duas avenidas, situa-se uma lanchonete com o nome de um filósofo francês, Montesquieu. Lauro, sobrinho do Seu Zé aponta o pedido num guardanapo e envia-o para a cozinha. Numa calma desconcertante, esperamos por aquele que os estudantes de Curitiba consideram “uma relíquia gastronómica”.

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ID:	191355
                          Fonte: Daravolta.com

                          Não tem uma receita escondida no baú. Este pastel, em pão de hambúrguer a que se junta alface, tomate, um bolinho de carne e maionese, não tem segredo. O que fica ao critério do cliente, é o tipo de pastel. Um rissol 4-por-4 que pode ser de carne, queijo ou palmito (uma iguaria desta zona do Brasil que é, simplesmente, miolo de palmeira).

                          Sabe-se como facto que este X Montanha surge numa altura em que a carne era escassa no Brasil e, para servir os estudantes das faculdades envolventes, o Seu Zé, que na realidade se chama Hiroyuki Ota (!!!), decidiu colocar um pastel no lugar do hambúrguer. Segundo registos online, o X Montanha “bate pesado no estômago, é muito gostoso e alimenta por uns dois dias, sendo inclusive excelente para a memória, já que você lembra dele o dia todo”!

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ID:	191356
                          Fonte: Daravolta.com

                          Não nos apaixonamos pelo X Montanha, afinal de contas, não somos nem Curitibanos e muito menos estudantes. Ponham um israelita a comer as sandes de pernil da Casa Guedes no Porto e o resultado pode ser aterrador.

                          Mas deixemos de falar de comida portuguesa, senão, não tarda nada desfiamos a pena sobre francesinhas, bifanas e sandes de presunto da Badalhoca.

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                          • karine
                            Fazedor de Chuva
                            • Jul 2012
                            • 1595

                            #58
                            A alma da Walentina

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ID:	191598
                            Fonte: Daravolta.com

                            Durante as três semanas que estivemos em Curitiba, enquanto a burocracia brasileira decidia se nos “cedia” os documentos necessários, embrenhamo-nos no interior da Walentina. Aqui está a nossa casa-ambulante!

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Name:	walentina1.jpg
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ID:	191599
                            Fonte: Daravolta.com

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                            • karine
                              Fazedor de Chuva
                              • Jul 2012
                              • 1595

                              #59
                              Com a alma da Walentina cheia, partimos para o Paraguai

                              Passaram-se 40 dias! Entre burocracias que arrancaram em São Paulo e terminaram em Curitiba, passou-se uma eternidade. Quando chegamos ao Brasil, vínhamos com “fogo-no-rabo”. Planeamos duas semanas para comprar a carrinha e mais dez dias para os procedimentos burocráticos que já esperávamos. Alongámo-nos no processo inicial de compra porque acreditámos que seria melhor viajar com uma Walentina com personalidade forte (ou seja, que não dê problemas mecânicos) e perdemos tempo devido a greves no sistema, em procedimentos burocráticos infindáveis, em corredores taciturnos, em cartórios para certificar assinaturas, mudanças de matrículas, seguradoras, consulados, bancos e um sem número de pormenores que resultaram num atraso que não esperávamos.

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ID:	191927
                              Fonte: Dar a volta

                              Arrancamos daqui a uns minutos em direcção à fronteira com o Paraguai. Para quê? Paraguai. Percorreremos 650 quilómetros pelo interior do Paraná e pedimos aos deuses (os católicos e hindus já tratamos por tu, mas precisamos da bênção de todos) para que o bom tempo nos acompanhe. Fazer 650 quilómetros debaixo de chuva tropical não é o melhor arranque possível.

                              Na verdade, estamos em pânico. Ainda não nos sentimos em ritmo de viagem, ainda não dormimos na Walentina (hoje será a primeira noite), ainda não temos fogão para usufruir do pequeno luxo de cozinhar em “casa” e ainda não nos sentimos cheios da alma sul-americana. Esperemos que essa alma se entranhe em nós e que, percorrer estas etapas, se torne tão natural como sair de casa no Porto para tomar café. Na verdade, estamos mais nervosos do que quando arrancamos de sidecar pela Índia.

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ID:	191928
                              Fonte: Dar a volta

                              Em Curitiba deixamos um pouco de nós e de Curitiba levamos uma fabulosa recordação. Saímos daqui com a certeza de que “aqui gostávamos de viver”. Arrancamos com o coração cheio de amigos e agradecemos, de uma forma simples e honesta à Cristina, Ricardo, Francisca, Benny e Riquinho. Amigos de infância que, há 30 anos, se tornaram amigos para a vida e que, ainda hoje, continuam a fazer jus àquela primeira empatia (entre o Inácio e o Ricardo, ambos com três anos, ainda no infantário). Em jeito de agradecimento, obrigado por tudo!

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                              • karine
                                Fazedor de Chuva
                                • Jul 2012
                                • 1595

                                #60
                                A primeira noite da Walentina pela estrada fora

                                Deixámos Curitiba com o coração apertado – pelo que deixámos para trás e pelo que ainda estava por vir, o incógnito. É uma sensação estranha, não saber o que nos espera, desconhecer o que o “destino” tem planeado para nós. Com algum nervosismo de principiante, de quem anda com a casa sobre rodas, deixamo-nos levar pela estrada e pelos quilómetros que tínhamos de percorrer até Foz do Iguaçu, a fronteira com o Paraguai.

                                As horas deslizaram sem darmos conta. Do Alentejo à Serra do Marão, das planícies a perder de vista às curvas-e-contra-curvas da montanha, quando nos apercebemos o sol estava a ser engolido pelos montes e tomamos consciência que não iriamos chegar ao destino que pretendíamos. Num piscar de olhos, era noite. E agora? Continuamos? Ficamos por aqui? Bastaram cinco minutos para decidir. Polícias e ambulâncias a “parar” a estrada, um Mercedes que, segundos antes, nos havia ultrapassado a uma velocidade estonteante, estava do avesso e um senhor de idade a cambalear. Para que conste, a estrada, apesar de não ter más condições tem, na maior parte do percurso, apenas uma faixa de rodagem, sem separadores centrais e postes de iluminação.

                                A primeira bomba de gasolina que avistámos ao longe tornou-se instantaneamente no nosso poiso. Um camionista – com idade difícil de determinar, a face sulcada pelos anos e anos daquele sol que passa pelo vidro e nunca chega a queimar – assegurou firmemente: “Durmo nesta bomba há 10 anos, é seguro e nunca houve assaltos! São de Portugal? Tenho um amigo que é português, emigrou para cá e tem uma pizzaria! Ah e faz Pastéis de Belém também!”. Sentimos água na boca…

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                                Fonte: Daravolta.com

                                Com os músculos doloridos de quinhentos quilómetros de estrada – a 80 km/h, porque a Walentina não anda muito mais – à hora de jantar já estávamos de olhos postos na cama. Encostamos a nossa casa-ambulante entre dois camiões do tamanho de um contentor hospitalar e instalamo-nos. Pessoalmente, o cansaço tomou posse de mim e não deixou vir à flor da pele o medo que pensei que iria sentir por dormir na berma da estrada. Olhei à volta, sem movimentos e barulhos estranhos, adormeci. Quando acordámos, o sol raiava por entre as cortinas e o barulho dos camiões que deixavam a noite para trás era ensurdecedor. Sorrimos e, inevitavelmente, sentimo-nos prontos para um novo dia.

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                                Fonte: Daravolta.com

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