No Vento com o Sonho

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  • Dolor
    Fazedor de Chuva

    • Mar 2011
    • 3250

    #46
    Capítulo 36 - Lança chamas - 30/04 a 01/05/2003 - Início


    Numa recaída de trabalhador, talvez por causa da antevéspera do dia dedicado a eles, respirei fundo, peguei a máquina datilográfica eletrônica e me pus a trabalhar, pensando em deixar esta história da vida real contada em tempo irreal, mais ou menos próxima da realidade.

    Dito e feito, até altas horas como que estivesse desafiando meu lado preguiçoso, que sinceramente detesto (o trabalhador), pois prefiro esta faceta de vadio, que gosta de acordar cedo para ficar mais tempo sem fazer nada, fui dormir bem tarde, ficando de tempos em tempos olhando para minha mulherzinha, que ferrada num sono profundo chegava a babar, poupando-lhe desta feita o sacrifício de me escutar ler as "baboseiradas" que insisto em escrever, respeitando o compromisso assumido de jogar no ar para os leitores, nossos fiéis acompanhantes, proprietários incontestes do nosso respeito.

    Só por isto, tudo vale a pena.

    Bem, tudo escrito, lido e relido, gravado e testado, após todos os apetrechos guardados, nem me lembro de ter colocado a perna esquerda em cima da cama, pois antes que o despertador tocasse, já estava juntamente com a Ângela acordado e pronto para retomar nossa rotina de estrada.

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    E como o assunto durante estes últimos dias foi a seleção brasileira, com o "femômeno" estampado em praticamente todos os jornais dessa capital, nem nos tocamos de que poderíamos assistir a este jogo, até porque nosso roteiro era exatamente... Guadalajara. Pode?

    Como queríamos enviar o material escrito via internet, tivemos que aguardar até às 10 h, horário em que os vadios abriram o boteco, para que remetêssemos referido capítulo e aí sim, de uma certa forma, começamos a pensar na possibilidade de assistir tal jogo.

    Pergunta daqui, pergunta de lá qual a melhor saída desta metrópole, chegamos à conclusão de que deveríamos tomar a tal da Calle Reforma e seguir sempre em frente, com a preocupação de desviarmos da tal autopista “cuota”, aquela que nos pegou com as calças curtas vindo de Acapulco.

    Como todas as informações foram sempre de que não teríamos problemas em tomar a autopista, pois o preço seria em torno de 16 a 23 pesos mexicanos, o equivalente portanto de U$1,6 a U$2,3 o que achamos razoável e ainda meio desconfiados, acabamos na bifurcação entre a livre e a paga, optando por esta última, que fomos entre saboreando e nos sobressaltando a cada quilometro rodado, informados pelos painéis de que o preço era de U$8,3 naquela passada.

    Quase morri do coração e já comecei a me xingar e a gritar desesperadamente que estava sendo de novo assaltado e olhando pela lateral da estrada, não via saída para nos evadir daquela armadilha.

    Paramos num "paradero" para nos informar de como pegar a livre e as informações infelizmente são sempre desencontradas, pois temos a impressão de que esta gente não sabe nem onde está.

    É uma agonia!

    Entretanto, alguns metros à frente nos deparamos com a informação de que havia uma opção pela gratuita, no que nos jogamos de cabeça, nos escapando do escalpe que parecia iminente.

    Obrigado meu Deus das estradas gratuitas, não importando se são meia boca ou não, por mais esta oportunidade que nos concedes.

    E assim entre curvas, muitas curvas, buracos "pero no mucho", com calor muito calor, aí sim extremamente democrático, seja para as pagas ou não, ele brilhou e rachou na faixa dos quarenta o tempo todo, não perdoando ninguém muito menos aqueles que de armadura preta tentavam lhe enfrentar, sob a justificativa da segurança.

    Depois de havermos passado por Toluca e Morelia chegamos à Zamora sem condições de rodar um metro a mais, cozidos pelo astro rei que continuava implacável, enquanto o relógio badalava sete da noite e distantes uns 160 km de Guadalajara, mesmo depois de havermos percorrido alguma coisa como 450 km desde a nossa largada da Cidade do México.

    Como esta síndrome de pobreza tem me acompanhado há muito, na opção pelo apartamento escolhido no Hotel Fenix, por U$35,00, deixei de fora o ar condicionado, na tentativa de economizar uma "merrequinha" o que nos fez, com certeza, gastar algum tempo de sono, na tentativa vã de escapar do calor implacável, mesmo que o turno estivesse sob o cuidado e atenção da lua que brilhava, melhor dizendo, que cintilava nesta noite mexicana.

    Vai ser esganado assim lá no México!

    E como meio Brasil e outros dois tantos do México, assistimos parte da partida, sem nos empolgar, porém, nos divertindo muito com a platéia que lotava a pizzaria onde saciávamos nossa fome, sob os gritos, aplausos e angústias destes aficionados que, entre uma tequila e uma colherada de "chili", vibravam como poucos.

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    Aliás, é bom se fazer um registro sobre esta particularidade mexicana, pois o que esta gente come de pimenta ou "chili", até Deus duvida e se arrepia, que dirá nós pobres brasileiros e ainda por cima, sulistas.

    Se pelo menos fôssemos baianos, com certeza não faríamos tão feio, com esta comida pesadamente picante.

    Neste período de vida mexicana, já comemos mais pimenta, de todas as cores e ardumes, do que em toda a nossa vida até agora.

    Inclusive hoje, ao pararmos num posto de gasolina no meio do caminho para dar uma reforçada no esqueleto, nos deparamos com uma pratada de sanduíches, o que é raro, de pão branco, e nem pensando, agarramos o mais próximo e ao darmos aquela mordida comandada pela fome, os olhões se encheram de lágrimas e as bocas se incendiaram, tamanha era a quantidade de pimenta escondida no meio das fatias. A consequência disto é que estou particularmente, nestes últimos dias, como um verdadeiro lança-chamas, me considerando ainda um "sortudo", por já haver terminado a guerra no Iraque, pois se o Tio Saddam soubesse da minha existência, com certeza teria me recrutado e o resultado final desta guerra teria sido outro.

    Com uma arma destas na mão o bicho faria o diabo.

    É força de fogo por cima e por baixo, queimando tudo o que vê pela frente ou o que o apóia por baixo.

    Sinceramente neste momento sou o orgulho de todos os itajaienses!

    Olhou mais ou menos feio, ou não atendeu bem, bomba tipo arrasa quarteirão, o que já me proporcionou queimaduras de segundo e terceiro graus nos países baixos.

    O homem está uma fera!

    Seja com "chili coseño", verde ou "rojo", a reação é garantida e o efeito assustador. Tem horas que penso em levantar vôo e tentar um ataque aéreo, o que acredito seria devastador.

    Com um pouco mais de tempo, por volta de uma semana ou quem sabe menos, o que já está sendo contestado pela Ângela, a evolução deste lança chamas poderá chegar quem sabe a um tremendo lança *****, o que seria aí sim um show de tecnologia em matéria de destruição em massa.

    Como a guerra lá naquele oposto do ocidente já terminou, acabei recebendo hoje, convites para terminar o que o Compadre Zapata começou e não finalizou, deixando inclusive a redistribuição de terras proposta pelo criador do MST aqui destas paradas adubada e com metano suficiente para gerar pequenas usinas de eletricidade.

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    Ao assistirem demonstrações que fiz, mesmo sem nenhum entusiasmo, fui ovacionado pela multidão que vomitava sem parar, com alguns inclusive que em busca de ar, comentavam emocionados que acontecimento como este nunca haviam presenciado e em uníssono gritavam:

    "Viva El Fiofó de Oro", urra!

    E para "sacanear" escutei a voz de um brasileiro no meio daquela multidão dizendo para um colega: isto que ele nem comeu batata doce, porque esse "peidão" eu conheço é de outros carnavais.
    Última edição por Dolor; 10-03-13, 20:58.

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    • Dolor
      Fazedor de Chuva

      • Mar 2011
      • 3250

      #47
      Capítulo 37 - Novos artistas - 02 a 08/05/2003 - Final

      Embora estejamos com os nossos vistos em perfeita ordem, renovados pela terceira vez, nunca descartamos qualquer possibilidade de problemas, até porque quando se quer, se acha chifre em cabeça de cavalo. E esta turma deste outro lado é especialista nisto, pelo menos na lenda.

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      Fazemos parte de uma geração que ficava entre o barro e o tijolo, pois em plena época da revolução de 64, lá pelos idos de 68 em nossos tenros quinze anos, balançávamos entre o Brasil do "ame-o ou deixe-o" contra os apelos clandestinos pintados nos muros que pediam solenemente, "yankees go home".

      Apogeu daquele Che, tido como fantástico e hoje imortal, ainda uma figura muito atual por toda a América do Sul e Central, tanto assim que nenhum outro personagem alcançou tanta popularidade e entre mortos e feridos, a sua silhueta, aquela imortalizada pelo clique de Alberto Korda, em 1.960, é a peça mais reproduzida no mundo. Um verdadeiro fascínio. É mole?

      Acabei tomando conhecimento deste Ernesto durante o período que morei em Florianópolis quando terminei o científico no Colégio Estadual e de forma clandestina, tinha de ser cultuado para se estar no mínimo da moda, encontrando, inclusive, um pequeno templo dedicado a ele no porão da casa dos pais da Angela, quando começamos a namorar, ídolo da minha cunhada Rosa.

      De novo estávamos prestes a entrar nos Estados Unidos, pensando como teria sido a nossa vida se a opção do país fosse pelo que Che e o Fidel pregavam. Creio que este paraíso aqui estaria fechado para nós!
      Já com um pé dentro deste novo país, o atendimento foi de primeira, onde levamos menos de três minutos para estarmos com o cartão de entrada válido por seis meses e quando indaguei sobre os procedimentos para entrar com a Bonitona, o bonitão deu uma risadinha e lascou que não precisávamos fazer nada a não ser um seguro contra terceiros.

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      Decididamente começamos a rodar no primeiro mundo por uma estrada maravilhosa, a US 8, bem sinalizada, larga e segura que nos levou até Tucson, cidade muito da "porreta" e minha conhecida dos gibis e das telas das matinês dominicais da minha infância e assim, ficamos atentos para ver se de repente não toparíamos com o Django, Ringo ou qualquer destes mocinhos que circulavam por estas bandas do Arizona e adjacências.

      Acabamos topando com o xerife, assim que fizemos uma barbeiragem fazendo um retorno indevido pelo canteiro central da rodovia e como nos filmes, nem deu tempo e por uma daquelas coincidências absurdas, a sirene roncou atrás nos mandando estacionar.

      E com aquela cara de cocô do cavalo do bandido, entendemos o sheriff nos dizer mais ou menos o seguinte: porra cara, tu vem lá da casa do chapéu pra fazer uma baianada dessas por aqui? Te manca ô babacão!

      Vendo o nosso inglês tipo "mim Tarzan tu Jane" , não restou outra alternativa a não ser, depois dos cumprimentos de praxe, nos dar um mapa do Arizona para que nos achássemos.

      Deu tudo certo!

      Entramos com a roda direita e paramos em seguida num daqueles motéis de beira de estrada, em Tucson, no Park Inn, por U$38,00, sinceramente, uma barbada. Respirávamos, mesmo ainda assustados, um novo ar. Nesta altura do campeonato além de já termos dado as mãos à palmatória, a vontade já era tirar as calças e tudo mais, porém, nos controlamos para ver o que teríamos pela frente. Jantamos num restaurante ao lado, cercado pela curiosidade de todos, que continuou no café da manhã, com o pessoal querendo saber tudo a respeito da nossa viagem e nós...bem...sabe como é falar com mudo! Mesmo assim nos deram o telefone de amigos que moravam em San Diego, nosso próximo destino, que estariam à disposição para o que precisássemos. Estávamos visivelmente surpresos com tanto carinho!

      Quando viam a moto com placa do Brasil, não se acreditavam e nem nós, com tantas gentilezas, educação e hospitalidade. Saímos faceiros e orgulhosos por aquela rodovia agora rumo a San Diego distante 680 km, simplesmente, flutuando. Nem na Europa rodamos em rodovia com esta qualidade, nos proporcionando um prazer indescritível, aliado a segurança, ao visual e as naves que passavam ou eram ultrapassadas por nós.

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      Circulamos por San Diego na tentativa de localizar um hotel com o famoso três B, mas encontramos um com dois, o Parkside Inn, por U$55,00 e após uma boa enxaguada no corpo saímos para conhecer um pouco mais da cidade e tivemos muita sorte, pois ao passarmos pela 4th Avenue, identificamos um restaurante chamado Rei do Gado, com uma bandeira do Brasil, onde estacionamos a moto e nos esbaldamos num rodízio...digamos a la coreano, pois o proprietário era da Coréia do Sul, chamado Steve Gi, habitante durante alguns anos em Brasília, onde segundo o próprio, aprendeu a fazer esta especialidade gaúcha. Foi muito atencioso e como nada ocorre por acaso, terminamos o nosso jantar na companhia de um brasileiro, médico na cidade de Fresno, Califórnia, Paulo dos Santos, figura tremendamente importante naquele momento pois nos auxiliou, prescrevendo a insulina para a Angela, uma vez que este medicamento por aqui, ficamos sabendo, é vendido somente com receita médica. Valeu Paulo!

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      Ainda aproveitamos para trocar o óleo, o filtro e ainda tentamos comprar a tal chave de combustível, aquela do diafragma, mas teríamos que fazer um pedido e a peça levaria alguns dias para chegar, mas mesmo assim deixamos U$60,00 pelo lubrificante e mais U$60,00 pela mão de obra, o que no Brasil é de graça. Vale registrar a ótima atenção dada pelo mecânico, o argentino Gustavo, incansável em nos atender. Levei um susto com o custo da mão de obra, mas estou aprendendo!

      Quarta feira, hora de continuar subindo a terra com a proa apontada para Los Angeles e na medida que avançamos agora em milhas, o nosso encanto ia aumentando a cada curva, paisagem descortinadas para estes viajantes embevecidos com todo este cenário só nosso e acalentado sem pensar, durante talvez, toda a nossa vida. Ficamos no miolo, no honesto Budget Inn, por U$57,00.

      Um privilégio!

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      E o que dizer agora? Hollywood dos cinemas, Beverly Hill das personalidades, Sunset Boulevard do glamour, enfim, mergulhados de cabeça neste palco onde de repente éramos os personagens principais nos enchia de uma alegria absurdamente grande e a nossa vontade era simplesmente de desligar o botão do tempo e congelar este momento digno dos astros de Los Angeles. Sem dúvida tudo é muito diferente de onde viemos e provavelmente o choque tenha sido maior em função da peregrinação feita até agora, quando podemos avaliar sob a ótica da justiça, termos sido tratados como gente de terceira qualidade nestas fronteiras de quinto mundo, cheia de ofensas quando filas não são respeitadas, horários ignorados e cidadania incrivelmente desprezada.

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      Agora sim, estamos pisando num teatro de verdade e nos sentindo os artistas principais desta maravilha chamada vida organizada e respeitada, principalmente quando somos coadjuvados pela Bonitona, uma realeza admirada onde quer que estejamos, especialmente pela placa que atesta a sua origem, causando surpresa e admiração, pela ótica destes nossos anfitriões, pela valentia e coragem por termos cruzados, no imaginário deles, uma grande selva.

      Quase não acreditam e nós explodindo de felicidade!

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      Acaponeta, Mazatlán, Los Mochis, Heróica Guayamas, Heróica Nogales, Tucson, AZ, San Diego, CA, Los Angeles, CA

      Total percorrido : 2.430 km - Total geral : 19.469 km
      Última edição por Dolor; 14-03-13, 22:03.

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      • Dolor
        Fazedor de Chuva

        • Mar 2011
        • 3250

        #48
        Capítulo 37 - Novos artistas - 02 a 08/05/2003 - Início

        Bem, depois de termos feito um acompanhamento, digamos tipo UTI, com verificação praticamente horária da situação do pneu, acabamos vencidos pelo sono, sem entretanto perdermos o fio de preocupação permanente em nossas cabeças até o amanhecer dessa sexta, quando nossa primeira investida foi checar as condições da borracha dianteira. Nota dez, pois havia perdido somente duas libras que poderia ter sido ocasionada também pela variação da temperatura .

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        Nessas horas sempre damos uma de covarde, evitando colocar o dedo na ferida, pois estamos a milhares de quilômetros de distância de casa, viajando numa moto sem suprimento de peças e mesmo assim circulamos por esta simpática Acaponeta para pousamos no Restaurante Copenhagen, onde nos esbaldamos com um “desayuno” verdadeiramente mexicano, e nem poderia ser diferente, com direito a "huevos revueltos, frijoles, tortillas, chili" e outras "cositas mas" que saboreamos acompanhados da proprietária e de suas auxiliares, nos paparicando o tempo todo para saber se tudo estava “rico”.

        Estava "buenissimo" queridas, menos as nossas cabeças, pois mesmo em silêncio insistiam em nos lembrar do problema com o pneu e que nós insistíamos em tentar mascarar através de verificações permanentes da pressão, que batia na tampa. Era o tal do me engana que eu gosto!

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        Saímos à procura de uma internet, nesta altura do campeonato ainda fechada, pois somente após estacionarmos a moto sob os cuidados dos motoristas de táxi da praça é que fomos informados de que esta região do México tinha uma hora a menos do que a sua capital federal.

        Jogamos um pouco de conversa fora e em seguida aproveitamos para colocar em dia nosso correio eletrônico, respondendo aos inúmeros mails que temos recebido, quando aproveitamos mais uma vez para penhoradamente agradecer, pois tem nos servido como importante combustível para esta empreitada que começa o seu terço final desta primeira parcial.

        São emails de todas as partes do Brasil, da Argentina, do Chile, do Peru, do Equador, da Colômbia, enfim, praticamente de todos os países por onde passamos quando, de uma maneira singela, plantamos uma sementinha da amizade que sentimos ter germinado.

        Adoramos e continuem a manter contato!

        Ficamos algum tempo ainda na internet e sentíamos lá dentro o ardume do bonitão lá de cima que não dava folga, ardendo na casa dos 38 graus, prometendo mais, muito mais.

        Já abandonada pela sombra que lhe protegia, a Bonitona escaldava sob aquele sol mexicano, quando nos aproximamos para enfim, partir em busca de uma investigação que pudesse nos dar a tranquilidade que precisávamos para esta nossa jornada quando pousei a bunda naquele assento preto, quase em brasa, o suficiente para arrancar um grito de dor pois senti ao vivo o que os ovos sentem quando são colocados no azeite fervente. É uma sensação desesperadora esta de ter os próprios ovos na fritura. Mesmo assim não pensei que pudesse ser tão rápido nos meus reflexos e reações, pois da mesma maneira que levei o trazeiro e junto os ovos, saltei instantaneamente deixando-os levemente "poché", pois usava um shorts de tactel , que não ofereceu nenhuma resistência àquele massacre culinário inesperado.

        Naturalmente a reação dos amigos taxistas foi imediata com muitas gargalhadas e galhofas que nos descontraíram bastante.

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        Agora sim é de verdade, vamos colocar o dedo na ferida e verificar o que há com o pneu da Bonitona e pensando assim nos dirigimos à uma loja especializada em pneus, onde fomos recebidos com muita atenção e gentileza pelo seu proprietário Armando, nos destacando, segundo o ele, seu melhor mecânico para fazer o diagnóstico.

        Em rápida olhadela veio a conclusão: "Usted necessita cambiar el pibote que esta roto, mire", e ao mexer no bico de ar, percebemos o mesmo degolado na sua base junto ao pneu.

        Como não sei!

        Mas aconteceu e tinha que acontecer justo conosco e naquela curva!

        Dizendo ser a primeira vez que iria mexer numa moto nos arrepiamos, porém, com muito cuidado o Eduardo fez um serviço de ótima qualidade, trocando o "pibote", por um de carro, cuja diferença consistia no desenho, nos resolveu o problema e nos devolveu a confiança que precisávamos para seguir viagem, desta vez até Mazatlán, distante somente 150 km, nosso objetivo deste dia que já passava da sua metade, decidimos voltar ao restaurante, aquele do café da manhã, agora para o almoço, nos refestelando com tudo o que tínhamos de direito, agora em paz com a Bonitona.

        Não adianta querer tapar o sol com a peneira pois é importante ir direto ao olho do furacão para se ter as coisas esclarecidas e, normalmente, em função disso, resolvidas. Assim pensamos têm de ser a vida, apesar da facilidade da teoria.

        Foi uma surpresa o movimento nesta cidade balneária de Mazatlán, com uma quantidade enorme de hotéis de tudo quanto é tamanho, cor e preço alto.

        Optamos por um no centro da cidade, um pulgueiro chamado Hotel Villa del Mar, por U$ 25, quando elegemos como meta para este sábado a cidade de Guaymas, também neste litoral Pacífico, distando deste nosso ponto de partida 780 km, vencidos sob uma temperatura que insistia em não baixar de quarenta e um graus, atingindo em nosso termômetro o recorde de quarenta e quatro graus, nos amolecendo de verdade os miolos.

        Foram praticamente dez horas em cima da moto, fazendo opções sempre pela livre, aquela estrada sem pedágio, mas cara pela quantidade de curvas, estreita, sem acostamento e muito movimentada, nos fazendo pagar por todos os pecados que tínhamos e a julgar por este tipo de penitência, não eram somente originais, pois deveríamos ter alguns mortais. Sinceramente, zeramos todos os nossos pecados! Esganado!

        Vencemos mais esta batalha e com as calças nas mãos nos entregamos no melhor hotel de Guayamas, cujo piso, não tinha piso, no Hotel Del Puerto, por U$20. Pobreza!

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        Mas valeu, tomamos um belo banho que nos limpou por fora e com a escovada de dentes, nos limpamos por dentro, conferindo aquela sensação de limpeza e uma recomposição de forças que nos levaram à jantar um excelente combinado de frutos do mar.

        Circulamos pelo centro da cidade onde se localizava o hotel, agora na tentativa de aplacarmos a ansiedade crescente diante da expectativa da nova fronteira a ser cruzada, a dos Estados Unidos, que se aproximava a passos largos, pois sempre que falávamos da nossa chegada na América, um friozinho nos percorria a barriga, porque as informações eram sempre as mais desencontradas possíveis, com casos concretos de feliz passagem e outros não tão felizes.

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        • Dolor
          Fazedor de Chuva

          • Mar 2011
          • 3250

          #49
          Capítulo 38 - Querido diário - 09 a 14/05/2013 - Final

          Friozinho gostoso, preguiça embalada pela ressaca destes últimos dias, ainda demos uma enganada no dia, tentando dormir um pouquinho mais, mas não tem jeito, pois tínhamos mais uma bela jornada pela frente, com destino agora para Salt Lake City, Utah, ainda viva em nossas memórias pelas belas imagens do ano passado quando dos Jogos de Inverno.

          Cenário de cinema, com todas as montanhas nos indicando o caminho para esta belíssima cidade, completamente brancas pela neve da última temporada, nos deixavam ainda boquiabertos pelo movimento incrível desta “highway”, que chegava a ter em determinados momentos seis pistas de cada lado e todo mundo rodando no mínimo a 110 km por hora, com tudo funcionando redondinho, redondinho.

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          Chegamos a conclusão também, que fábrica de buzina aqui nos Estados Unidos não deve ser um bom negócio, pois não ouvimos nenhum som parecido com uma buzinada e eu só pensando: deixa chegar em casa que não quero perdoar nenhum túnel, pois será mão na buzina da entrada até a saída.

          Êta cara grosso!

          Não podemos nos esquecer que nesta cidade se encontra o Vaticano dos Mórmons, situada na Temple Square, simplesmente, rica.

          E como a carne necessita de carne, fomos rodando pela cidade até encontrarmos um restaurante italiano chamado Buca di Beppo, dispensando maiores comentários, pois foi simplesmente maravilhoso a começar pela cozinha, sua porta de entrada, onde o mais esfomeado também pode se sentar e fazer a refeição escolhida, apreciando toda a sua movimentação, literalmente, no meio do tiroteio.

          Como de trabalho estamos fugindo mais do que o diabo foge da cruz, fomos para um dos salões e casualmente atendidos pela Kellen, que ao tentarmos enganar com o nosso inglês muito do sem vergonha, nos respondeu num "paulitês" tão gostoso quanto os pratos escolhidos para saciar a nossa fome, brasileira como nós.

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          De papo cheio, pois comemos como condenados, fomos para o hotel a espera deste novo dia reservado para darmos continuidade a este roteiro de filmes de "farwest" dos Cines Itajaí, Rex e Luz, da nossa Itajaí, SC, dos anos 60. Nem podíamos acreditar que estaríamos fazendo a partir de Salt Lake City, nossa velha conhecida também dos gibis de infância, um caminho que nos levaria a Ely, Eureka e Austin, todas em Nevada, cujo “sallon” desta última, datado de 1.863, mais próxima do sonho, impossível. Era o próprio! Sinceramente escutamos até tiros no seu interior intacto onde até o cocô do cavalo do bandido estava lá, quentinho, quentinho.

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          Foi mais uma vez emocionante!

          Sempre optando pelas rodovias cênicas, nos servimos de paisagens verdadeiramente cinematográficas, sentindo a alma das cidades do interior americano nesta parte do Arizona e Utah, que somente aqueles acima dos cinquenta, com parte da sua cultura inútil oriunda dos gibis e livros de "farwest" de bolso, podem entender os nossos sentimentos, neste prato cheio que ia nos sendo servido e ainda por cima, com direito ao sal das estepes salgadas do Great Salt Lake, Utah, onde além de tudo, serve de pista para que os recordes mundiais de velocidade sejam batidos.

          O acompanhamos durante quilômetros e não resistindo, demos umas lambidas para sentir o seu gosto, imaginando o que aquelas extensões de branco já não testemunharam de bravuras e de loucuras destes insanos obstinados por segundos a menos e quilômetros a mais.

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          Nossa, tudo o que queríamos estava sendo conquistado e melhor ainda quando pegamos a Route 50, outro mito americano, intitulada a estrada mais solitária dos Estados Unidos, "The Loniest Road in America", Nevada, com toda a sua magia ali sob os nossos pés e rodas.

          Sinceramente querido diário, não sei se conseguiríamos fazer melhor, pois cada mergulho é um flash, motivados pelo coração, o guia do nosso roteiro.

          Honestamente não sei como não fomos presos, pois tenho dirigido o tempo todo bêbado com tudo isto que temos vivido, pois tem sido um porre em cima do outro, isto sem ingerir nem uma gota de álcool, para não estragar o embalo.

          E assim embriagado chegamos a Fallon, Nevada, distante 780 km de Salt Lake City, Utah, e inteiros, tomamos aquela ducha, e rapidamente já estávamos na rua a caça de um restaurante que pudesse matar a fome das nossas bichas, após um tiro de 780 km, onde fomos jantar num restaurante mexicano, muito agradável e como os astros estão conspirando positivamente, o garção destacado para nos atender era um brasileiro, Marcos, recém chegado do interior de São Paulo, novo imigrante do Tio Sam, cujo tratamento dispensado para estes viajantes, nem a rainha da Inglaterra teria recebido no seu palácio. Arroz com feijão mais bife bem passado, vai dizer que ela come?

          Chegamos a lamber os dedos de tão bom.

          Dormimos, agora como reis, num motel no centro de Fallon, Nevada, e após termos colocado as esporas e os revolveres nas cartucheiras, estávamos prontos para seguir em direção à San Francisco, Califórnia, por um caminho bem próximo do nosso imaginário daquela adolescência deixada lá atrás, pois além de todas as cidades do faroeste que curtimos naquelas salas de cinemas, tínhamos hoje reservado o nosso máximo, pois iríamos nada mais nada menos que para Virginia City, passando ainda por Silver City e continuando por Reno, todas em Nevada, e Sacramento, Califórnia.

          É coisa demais.

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          Só faltava em Virginia City, Nevada, numa verdadeira viagem no túnel do tempo, encontrarmos os Cartwright, vindo de Ponderosa para nos receber. Esta tudo rigorosamente como nos idos da segunda metade do século XIX, com as mesmas construções, as mesmas calçadas de madeira, os "sallons" hoje eletrônicos, as minas, as igrejas, as montanhas e o melhor de tudo, o espírito. Ali sentimos Buffalo Bill, Annie Oakley, Clay Allison, Billy the Kid, Wild Bill Hickok, Jesse James e tantos outros mocinhos e bandidos que povoaram as nossas matinês de tantos domingos das nossas vidas. Foi um encontro absolutamente casual, sem data marcada, mas que lá no fundo dos nossos corações sabíamos que mais cedo ou mais tarde aconteceria. Obviamente não os vimos de corpos presentes, mas todos estes personagens dentre outros, sabiam que aqui chegaríamos um dia para reverenciarmos as suas memórias e para também agradecer por tantas alegrias que nos proporcionaram durante um bom e precioso tempo de nossas vidas, hoje todos elevados à condição de heróis.

          Como posso me esquecer das trocas de gibis nas filas das matinês?

          Como posso me esquecer dos assobios e gritos de torcida cada vez que o mocinho conseguia salvar a mocinha?

          Como posso me esquecer de todas as vezes que gritava desesperadamente avisando este mesmo mocinho que o bandido estava tocaiado atrás de uma pedra, naquela curva?

          Não, nunca esquecerei e aqui na terra deles rendo as minhas homenagens acompanhadas do meu muito obrigado a estes mocinhos e bandidos.

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          Emocionados saímos de Virginia City, Nevada, após a Ângela ter tomado uma cerveja num daqueles "sallons" e eu não resistindo ao momento, pedi um copo de leite.

          Foi meu momento de glória e de mocinho!

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          Ainda com o gostinho daquele leite em minha boca, peguei a mocinha, coloquei-a em cima do cavalo de aço e parti rumo a Reno, Nevada, Sacramento e San Francisco, Califórnia.

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          E que nenhum bandido venha atrás de mim porque comerá chumbo.

          Aiôôôôô Silver!

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          Los Angeles, Barstow, CA, Death Valley, Las Vegas, NV - 435 km - Hotel Wellesley Inn, U$42

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          Las Vegas, Kingman, Seligman, Williams, NV - 431 km - Motor Hotel, U$30

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          Williams, Grand Canyon, Cameron, Fredonia, NV - 424 km - Crazy Bug, U$30

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          Fredonia, NV, Salina, Salt Lake City, UT - 511 km - Ramada Inn, U$29

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          Salt Lake City, UT, Ely, Eureka, Austin, Fallon, NV - 785 km - Econo Lodge, U$37,50

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          Fallon, Virginia City, Carson City, Reno, NV, Sacramento, San Francisco, CA - Vagabond Inn, U$49

          Total percorrido : 3.110 km - Total geral : 22.820 km
          Última edição por Dolor; 11-04-13, 00:32.

          Comentário

          • Dolor
            Fazedor de Chuva

            • Mar 2011
            • 3250

            #50
            Capítulo 38 - Querido diário - 09 a 14/05/2003 - Parte inicial


            Amanhecemos com aquela vontade de andar de moto que nos acompanha graças a Deus, todos os dias e hoje querido diário, será especial porque vamos para um lugar pra lá de emblemático.

            Viva! Vamos para Vegas, sim, Las Vegas!

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            Mas antes de iniciarmos este trecho que acreditamos será genial, é justo fazermos uma pequena homenagem ao amigo Marcellus Dadan, pois neste final de abril chegou no seu objetivo juntamente com a sua Suzuki Intruder, chamada de Preta, carimbando o seu passaporte com as cores do sonho chamado Alasca.

            Vibramos e nos orgulhamos deste seu feito, que pela própria carne sabemos não ser fácil e quanto mais "solito", tornando a empreitada ainda mais difícil. Valeu Marcellus e continuamos na expectativa de nos encontrarmos por estas paragens para podermos nos abraçar de verdade. Ficamos torcendo e te desejamos ainda mais sucesso na tua volta para casa.

            Sejas "bem-ido!".

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            Quanto a nós, pé na estrada e adeus Hollywood, Califórnia, pois não nos decepcionaste em nada e adoramos ter te conhecido. Saída genial desta cidade espetacular chamada Los Angeles, Califórnia, onde gostaríamos de ter ficado um pouco mais para poder aproveita-la, mas, como o nosso negócio é estrada, vamos embora.



            E assim querido diário debaixo de um céu de brigadeiro, movimento intenso, porém, bem organizado, educado e acima de tudo muitíssimo bem sinalizado, agarramos a estrada proados para aquele paraíso do jogo, em pleno deserto no Estado de Nevada., com o pensamento sacana de que chegaríamos lá com o objetivo de quebrar o primeiro cassino que encontrássemos.

            Hummmm....

            Falar das estradas aqui na América é chover no molhado. De primeira sou eu, porque por aqui tudo é de primeiríssima com um "issima" de lambuja e assim fomos planando de forma sempre exagerada até porque esta turma por aqui chuta o balde quando mete o pé no acelerador.

            Policia? Por enquanto nenhum, pelo menos nestes 435 km que nos levaram até este nosso destino, sãos, salvos e felizes pois o prazer de pilotar por estas bandas é tão grande, que a gente pede para a estrada não acabar, ou melhor, que o ponto de chegada nunca chegue.

            Com os olhares mais críticos do mundo, até agora não achamos nem um "filhotezinho" sequer de buraco, nem recém nascido, nem prematuro. É uma beleza, com tudo perfeitamente previsível com a sinalização norteando a vida do viajante de forma impecável.

            Vendo como tudo acontece, como se dirige, com o respeito que todos tem por todos e por tudo, infelizmente sou obrigado a confessar, assim que puser os pés, ou melhor, as rodas de novo em casa, vou ficar um dia inteiro em qualquer uma das nossas estradas fazendo ultrapassagens somente na faixa dupla, buzinando atrás de todo mundo e dando umas xingadas para poder voltar a ser eu mesmo, aquele índio grosso e mal educado.

            A cada ação que presenciamos nas coisas simples do cotidiano, como no trânsito, talvez a parte mais visível de uma cultura, se já havíamos tirado o chapéu, a camisa e a calça para esta turma, nesta altura do campeonato já estamos de quatro, porque mesmo que continuemos reticentes em darmos o braço a torcer pra esta galera, não tem jeito, fazem por merecer a condição em que vivem, porque a base deste pessoal está literalmente na educação que tanto insistimos, particularmente, em colocar como prioridade no nosso país, desgraçadamente relegada a um segundo, terceiro ou quarto plano.

            Com estas divagações e acompanhados daquele pôr de sol que também parece ser diferente, entramos em Las Vegas, segurando o queixo para não deixa-lo cair no chão e atrapalhar a pilotagem.

            Coisa de doido! É um dos lugares mais lindos que já tivemos a oportunidade de conhecer e de estar, cuja sensação principal é a do sentimento de riqueza, de opulência, de criatividade, de realização e acima de tudo, de muito bom gosto.

            Mas põe bom gosto nisto.

            Circulamos nesta cidade temática, indo de Nova Iorque à Paris, de Monte Carlo à Veneza, do Saara à Ilha do Tesouro, da Roma do Caesar ao Excalibur, do Circus ao Hard Rock, onde entramos prontos pra quebrar com o cassino, fato que só não aconteceu porque não nos deixaram entrar com a marreta, única forma de, literalmente, quebra-los. Passeamos embevecidos e fomos dormir apaixonados por esta cidade.

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            E não jogando tempo fora, acordamos hoje , sábado, ainda de ressaca pelas visões do dia anterior, mas cheios de vontade para seguir em frente, agora em direção a um outro sonho, sonhado por tanto tempo e agora prestes a se realizar. Precisas me beliscar querido diário, mas hoje é o dia em que vamos rodar pela lendária, pela fascinante e pelo mito americano chamado Route 66. Sim, isto mesmo, hoje vamos rodar pela Mother Road, uma das molas do desenvolvimento americano, idealizada e colocada em prática o inicio da sua construção pela segunda década do século passado, ali tão pertinha de nós e ao mesmo tempo já tão distante, quando sabemos que do seu traçado de aproximadamente 3.950 km ligando Chicago e região, ao Pacífico, poucos trechos daquele inicio permanecem, digamos intactos, testemunhando o tempo que passou por ela e os que por ela também passaram em busca da sua Califórnia.

            À medida em que fomos nos aproximando do seu inicio de verdade, pois a passagem que havíamos feito por San Bernardino, quando partimos de Los Angeles não valeu, porque lá ela não existia mais, a não ser um marco naquela área, dizendo que por lá passou, ou melhor, por lá chegou a Mother Road. Na realidade em muitas cidades ela se tornou urbana.

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            Indicações de que estávamos no deserto de Mojave foram jogando adrenalina na nossa circulação e acelerando ainda mais a Bonitona, toda faceira e contente, respondia como ninguém em cima daquele traçado que começava de verdade na cidade de Kingman, que fomos sorvendo com a alegria e o contentamento de poder estar ali naquele momento, vivendo toda uma historia gravada nas nossas almas inquietas, como pequenos fragmentos de um estilo de vida que marcou vidas por todo este planeta.

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            Fomos conquistando aqueles metros, quilômetros de uma estrada nua, aparentemente iguais a tantas outras habituados a percorrer, quando subiram os panos da cortina deste palco e nos deparamos com um quase nada encantado, chamado Hackberry, Arizona, testemunhando a mágica de um tempo que ali não passou, mergulhamos na sua “General Store”, elevada neste momento à condição de museu, digno e legitimo representante destes tempos de ouro da guinada desenvolvimentista deste país, que se guardou intacta, para nosso deleite.

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            As bombas de gasolina, as máquinas de música, os carros da sua época dos anos pós guerra, e acima de tudo, o ar que se respira, embalado pelo rock de Elvis que aqui continua vivo, compuseram este cenário antológico .

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            Não pudemos deixar de nos lembrar dos amigos de estrada e orgulhosos pedimos para o proprietário deste estabelecimento colocar nas nossas jaquetas, como se estivéssemos recebendo uma condecoração, o pin da Route 66, quando vaidosos posamos para várias fotos com um grupo de galegos da Alemanha, que em San Francisco haviam alugado as motos para poderem fazer eles também, este roteiro de ouro. Foi uma bela confraternização acompanhada também por outros motociclistas recém chegados de várias partes do país e do mundo, mas vindo de casa pilotando o tempo todo, somente nós. Não acreditavam na viagem que estávamos fazendo, nem na placa do Brasil, identidade da Bonitona.

            Um orgulho!

            E quando voltávamos para buscar ar, chegávamos em Williams, Arizona, parte final deste pedaço de estrada, sendo daí então um tiro de misericórdia, pois esta cidade vive em função exclusiva dos amantes desta rodovia, que a mantém lotada todos os 365 dias do ano, inclusive do bisexto.

            Em paz e radiantes pela experiência vivida nos entregamos aos braços de Morfeu, mas agoniados para voltar à estrada, pois as emoções não param e o nosso destino deste domingo era nada mais nada menos do que um "clavado", agora um pouco mais audacioso e mais profundo, pois nos encaminharíamos para uma viagem no tempo da matinês de faroeste dos domingos, quando mocinhos e bandidos obrigatoriamente passavam pelo Grand Canyon, Arizona, maravilha da humanidade.

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            Querido diário, não é fácil aguentar estas pauladas, pois sair da Route 66 e cair assim neste assombro da natureza, é dose pra leão.

            Dia "desbundante", agradável demais para se pilotar daquele jeito redondo, com o som favorito rolando na caixa, nos elevando à condição de privilegiados por estarmos vivendo o nosso sonho. E o mais gostoso é que na realidade estávamos sonhando de olhos abertos e eu ainda mais feliz por poder cumprimentar esta mãe abraçada atrás de mim e em abraçando-a, abracei todas as mães do mundo neste dia dedicado à elas, fora os outros 364, em que somos obrigados a tirar o chapéu pra estas feras responsáveis pelas nossas existências.

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            Beijamos em particular nossas mães Iraci e Zulma, ligando daqui deste paraíso e também para a nossa filha mãe Paula, que num julgamento absolutamente imparcial, elegemos como a mãe mais linda, mais doce, mais querida e mais amada do mundo.

            Por aqui ficamos até meia tarde, embevecidos com este espetáculo desta também mãe, aqui de sobrenome natureza. E para encerrar o dia nos hospedamos num daqueles motéis de beira de estrada, numa cidadezinha aconchegante que atendia pelo nome de Fredonia, Arizona, com seus poucos mais de 1.800 habitantes.

            Um show!
            Última edição por Dolor; 11-04-13, 00:27.

            Comentário

            • Jacob Bussmann Filho
              Fazedor de Chuva

              • Dec 2011
              • 2788

              #51
              Ah quanta beleza nesses lugares....estou me divertindo com suas recordações da nossa época dos gibis......e lá se vão algumas décadas...rsrsrssrr....que bom quando há bons momentos para se recordar, não é mesmo ?
              abração Dolor e Angela ....que viagem fantástica, continuo aqui me deliciando a cada postagem.

              FC Jacob
              GCFC NFC VFC(SP) ,VFC(RR),Cardeal, RFC(101,116,153,230) Jacob,Bandeirantes

              Comentário

              • Dolor
                Fazedor de Chuva

                • Mar 2011
                • 3250

                #52
                FC Jacob, é verdade, quantas lembranças das matinês de domingo!

                Quanta inocência e quantas mudanças?

                Comentário

                • Dolor
                  Fazedor de Chuva

                  • Mar 2011
                  • 3250

                  #53
                  Capítulo 39 - Contagem regressiva - 15 a 22/05/2003 - parte final

                  Sábado preguiçoso iniciando a sua jornada e “solito” fui para a estrada em direção a Berkeley, enquanto a Ângela permanecia na cidade, fiquei surpreso quando topei com o Alex me aguardando para que pudéssemos após a troca da peça combinada, darmos uma volta pela região, especialmente em Hercules, sua cidade, quando me apresentaria aos seus amigos.

                  Feito o reparo, pegamos a Ângela e para lá nos mandamos, após um monte de histórias contadas para os que chegavam na revenda, na base do “mim Tarzã tu Jane”, não importa, com o pessoal sem entender como é que tínhamos feito a loucura de atravessar todas as Américas, que na cabeça dessa turma, é habitada por índios, o que bem lá no fundo, eu era obrigado a concordar.

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                  Coisa gozada esta de se sentir índio, mas tudo bem cara pálida, o sentimento que curtimos hoje, no mínimo é o de cacique, montado nesta baguala em pelo, para gáudio da nossa tribo. Hoje não tem pra ninguém, pois matadores como são, sabem respeitar e valorizar os cavaleiros como nós, que desafiando todas as tribos destas nossas Américas, brindamos e nos abraçamos com estes irmãos, que nos acolhem com carinho e alegria.

                  Assim curtimos um sábado espetacular e pelas mãos destes nossos anfitriões fomos conhecer o circuito do vinho californiano. Região belíssima, educada e acolhedora circulamos por lugares obrigatórios para aqueles que por aqui aportam, internando-nos por Vallejo, Napa, Rutherford, Calistoga e Santa Helena entre outras uvas brancas e tintas. Inesquecível este passeio encerrado na casa de um amigo destes amigos, com direito a churrasco e outros bichos mais. Nota onze à acolhida e ao carinho com que fomos tratados por todos, elevando-os à condição de cidadãos itajaienses, pois numa cerimônia que num primeiro momento não entenderam, coloquei-os lado a lado, na frente da casa do Fred e após um rápido cerimonial, com direito a discurso, além da presença de outros motociclistas vizinhos que se aproximaram quando da nossa chegada, receberam os "pins" de Itajaí e orgulhosos os prenderam em suas jaquetas de guerra.

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                  Foram momentos mágicos e emocionantes, que somente as motos tem esta capacidade da aproximação, com intensidades diretamente proporcionais as distâncias vencidas. Aliás, para as motos quanto mais distante é o ponto de partida, mais próximos e estreitos são os laços de carinho que unem os seus amantes e aqueles nem tanto.

                  Com as almas lavadas e enxaguadas fomos dormir o sono dos justos, prontos para curtir este domingo que gentilmente conseguimos deixar livre para nós, pois os amigos de ontem queriam porque queriam que fôssemos almoçar e passar o dia com eles. Mas como pensamos que visita é igual a peixe que já no segundo dia começa a feder, preferimos deixar aqueles bons momentos registrados nas lembranças de todos, como nas nossas já o estão e em lugar de destaque.

                  E este nós, significa almoço de domingo, em família.

                  E a nossa família já estava composta com a presença do Renatinho e do Rodrigo Mussi, em mesa especialmente preparada em um restaurante brasileiro, cercados pelo carinho, curiosidade e saudades daquela colônia de goianos que formam um Brasil à parte, neste pedaço do Tio Sam. Lambemos os beiços com um "feijãozinho" com arroz bem quentinho, banana frita, farofa e bife bem passadinho. Hummmm! Que delícia!

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ID:	166098

                  De volta ao hotel e após um pequeno descanso descemos para dar uma nova volta pela cidade e para nossa surpresa, ai meu Deus, o pneu traseiro estava arriado, nos deixando com os cabelos em pé. Demos meia volta para o quarto, após diagnosticarmos um corte na base da válvula, junto ao aro, nos enfiamos debaixo das cobertas, certamente deprimidos, suspirando por um domingo com o ridículo do Faustão ou do xarope do Gugu. Como tudo ainda pode ser pior, bem feito, em espanhol tivemos que nos contentar com o Chapolin, é mole?

                  Com a pulga atrás da orelha o sono nos conquistou e nesta segunda bem cedo já estávamos em pé, prontos para esta nova aventura, esperando que pudéssemos levantar o pneu o suficiente para irmos até a oficina daquele nosso amigo Coelho, que nos acolheu novamente com muito carinho. Como não tinham o nosso tipo de pneu, ele conseguiu que outra concessionária providenciasse a troca dos mesmos ainda nesta manhã, coisa rara, pois aqui certamente até para furar pneu é preciso agendamento.


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                  Felizes e flutuando optamos pela US 1 para nos levar até Seattle, de onde partiríamos para o Brasil, deixando a moto em algum lugar, não sem antes curtirmos em idas e vindas a Golden Gate, responsável pela ida sem volta do nosso querido Venésio para o plano em que se encontra atualmente. Com as cabeças repletas de boas lembranças e os corações cheios de emoção paramos e com os olhares perdidos ao longo daquela imensa baia, pedimos ao Deus, aqui de sobrenome Bondade da Paz, permitir que os teus pais se acostumem com a tua ausência, como se isto fosse possível, alimentando-os com as boas, ótimas lembranças da tua passagem por entre todos aqueles que tiveram o privilégio de conviver contigo. Felizmente não foste econômico na alegria durante a tua curta passagem pela vida e como num filme, repassamos os bons momentos que pudemos aproveitar da tua companhia, do teu jeito irreverente de viver e da tua amizade, principalmente com a nossa filha Maria, que te sente vez por outra, muito por perto. Descanse em paz querido e continue a olhar pelos teu amigos, pois sabedores que somos da tua energia e da tua lealdade para com eles, velarás por todos. E lá deixamos as nossas orações para que chegassem até esta estrela cadente, deste nosso céu das saudades.


                  Seguimos por esta costa pacífica, absolutamente intacta, entremeada por pequenas cidades e vilarejos que nos faziam desejar habitar aquela topografia acidentada, cujas florestas nos deixavam de queixos caídos pelas belezas desconcertantes das suas árvores. E dá-lhe árvore de tudo quanto é tamanho grande.

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                  Não tem moleza, sujou a rodovia, multa de U$1.000

                  Ao mesmo tempo em que nos embevecíamos com toda esta maravilha milenar, comprovávamos pelo trajeto sinuoso a preocupação na manutenção daquelas senhoras, pois intactas e altivas eram o testemunho vivo do respeito a beleza da natureza, cuja convivência pacífica era atestada a cada curva vencida, onde elas, imponentes, determinavam o traçado deste tapete negro, exatamente ao contrário do praticado no nosso país, onde a selvageria como tratamos o nosso patrimônio natural só não é maior do que a hipocrisia instalada nestas nossas relações, isto sem contar a quantidade de madeira sendo transportada por dezenas e dezenas de caminhões, sem entretanto, como por mágica, não termos percebido uma só chaga, uma clareira por menor que fosse, nestas centenas de quilômetros vencidos por estas “plagas”.

                  E abobados, tolos da cabeça nesta pernada encerrada numa pequena e linda cidade chamada Gaberville, ainda nesta verde Califórnia do norte e a pouco mais de quatrocentos quilômetros do nosso ponto de partida, jantamos uma massa saborosa, num lindo e acolhedor restaurante, praticamente parede de meia com o hotel.

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                  Como havíamos passado no início da noite por Leggett, a primeira coisa feita nesta terça iluminada e fria, foi a de voltarmos até aquele paraíso onde entre outras atrações abriga aquela famosa árvore túnel, um “chandelier”, que permite a passagem de carros pelo seu interior, cuja travessia da Bonitona foi registrada com muita alegria.

                  Sinceramente, acho que Deus abusou por aqui, pois não é possível que tudo seja tão lindo, tão cuidado e tão rico. Foi farinha demais no mesmo prato e assim bobinhos da cabeça nos dirigimos à Roseburg, distante uns quinhentos quilômetros de florestas, uma mais linda do que a outra, onde fomos brindados com a melhor cama das nossas vidas, depois daquela da nossa casa. Aquilo não era na verdade uma cama, era um ringue, um tatame que sediou um duelo de veteranos e cansados após o embate, nos entregamos aos braços de Morfeu, exaustos, mas contentes com a certeza do dever de casa cumprido.

                  Recompostos, amanhecemos nesta quarta famintos e nos dirigimos ao Red Rose, agradável restaurante feito sob medida para o tamanho da acolhida que nos proporcionou, além da delícia do "breakfast" servido, cujo sabor levamos conosco até Seattle, final da nossa primeira parte desta viagem de sonhos, com o odômetro da Bonitona marcando mais de duas dúzias de milhares de quilômetros de uma aventura repleta de alegria, de convivência intensa, de paz e após estes três meses de estrada acima, neste mundo que teve a bondade de nos unir ainda mais, fez com que os trinta anos de casamento fossem potencializados na convivência diuturna destes últimos meses e como tal, vividos e saboreados com muita intensidade, aproveito para repetir Angela, que te amo, agora multiplicado por vinte e cinco...mil quilômetros, especialmente porque estamos há poucas horas de fazermos um "pit stop" nesta nossa aventura e voltarmos para umas merecidas férias em casa.

                  Pessoal, nos aguardem porque estamos chegando!

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                  San Francisco, passeios pela cidade, Vallejo, Hercules, Napa VAlley, Santa Helena - 485 km

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                  San Francisco via Redwood Hwy, Garberville, CA - 391 km

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                  Garberville, CA, Grants Pass e Roseburg, OR - 574 km

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                  Roseburg, OR, Seattle, WA - 534 km


                  Total percorrido : 1.904 km - Total geral : 24.804 km
                  Última edição por Dolor; 14-06-13, 23:07.

                  Comentário

                  • Dolor
                    Fazedor de Chuva

                    • Mar 2011
                    • 3250

                    #54
                    Capítulo 39 - Contagem regressiva - 15 a 22/05/2003 - Inicial

                    Ainda com neve de sobra desta última temporada levamos mais um susto, daqueles bons e gostosos com a beleza desta região de Lake Tahoe, que continuava totalmente branca por dezenas de quilômetros, num espetáculo de encher os olhos. Procurávamos registrar em nossas memórias cada pedaço daquele paraíso, cada topo um mais vaidoso do que o outro, numa disputa incessante pelos nossos melhores olhares e registros que a leveza e a delicadeza daquele espelho d'água insistia em duplicar, era na realidade a materialização de tudo aquilo que nem em sonhos havíamos sonhado.

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                    Espetáculo desta natureza que aqui não teve nem pressa nem economia na sua construção aliada as mãos do homem, diga-se de passagem, do homem certo, souberam muito bem complementar com maestria, na construção desta rodovia sinuosa, que nos apresentava e nos mostrava cada detalhe da sua vizinhança. Foi um verdadeiro presente de Deus este trecho entre Reno e Sacramento, com chegada a San Francisco, como não poderia deixar de ser, nota dez.

                    Friozinho neste final de tarde já início de noite e após algumas incursões pelos hotéis da redondeza, optamos pela melhor relação custo benefício, pois além da sua excelente localização, o Hotel Embassy, por U$64,00, estava na esquina da Turc com a Polk, quer dizer, bem na boca.

                    Nesta chegada, ansiosos, a primeira coisa que fizemos foi entrar em contato com alguns amigos dos nossos filhos, morando atualmente aqui na área, cujas amizades também temos o prazer de compartir. Como não conseguimos falar com a Cabí, deixamos recado no seu celular e em seguida falamos com o Renatinho Ribas, com encontro já marcado para este dia seguinte no salão de café do hotel, onde o aguardamos com ansiedade, pois de maneira mútua “matamos” as saudades dos nossos filhos e ele, a dos seus pais. Muito gostoso este tipo de encontro cheio de saudades e de abraços apertados como que querendo através deste contato se dizer o quanto as nossas raízes nos seguram e nos identificam. Adoramos este café da manhã cheio de histórias e de boas lembranças.

                    Bela cidade esta São Chico deste pessoal do norte.

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                    Circulamos pelos seus principais pontos, curtindo como sempre da tranquilidade do seu trânsito, das figuras raras que circulavam por toda a cidade e naturalmente, preocupados com o assunto da chave de combustível, pedimos a este nosso anfitrião que nos conduzisse a um endereço de uma concessionária Honda, para efetuarmos a troca. Na primeira tentativa feita se não obtivemos sucesso com a bendita peça, acertamos em cheio ao conhecermos o Coelho, goiano, batalhando aqui na terra do Tio Sam como mecânico e num gesto de muito carinho e gentileza, colocou mãos à obra e conseguiu em outra concessionária a dita cuja.

                    Nos mandamos para Berkeley, nos arredores de San Francisco, não sem antes curtirmos outra vez da beleza que é a travessia pela Bay Bridge, monumento sorvido metro a metro, com direito a fotos feitas por este boa praça e querido Renatinho, registrando com a máquina fotográfica todos os nossos momentos à medida em que íamos cumprindo aquele roteiro. Quantas lembranças da nossa Florianópolis, cuja topografia lembra por demais esta maravilha onde estamos neste momento. A de lá quase caindo e a daqui, mais em pé impossível. Empurrados por estas lembranças chegamos finalmente a revenda Honda, conseguindo agendar a troca para o sábado, as nove da manhã.

                    Enquanto estávamos nesta negociação, acabamos conhecendo o Alex, proprietário também de uma Valkyrie como a nossa, que nos convidou para um encontro do seu grupo de motos naquela noite, porém, pelo nosso enrosco, infelizmente tive de declinar poucos minutos antes da hora marcada. Uma pena!

                    Amanhecemos nesta sexta bem descansados e após os devidos deveres matinais feitos no capricho, saímos zanzando pela cidade a nos deliciar com as identificações dos lugares postais, numa sequência saborosa circulando pelas longas avenidas com suas ladeiras em forma de rampa nos criando uma expectativa que de uma hora para outra, pudéssemos presenciar um pega daqueles, típico dos filmes rodados nesta cidade.

                    Cruzamos e nos deliciamos com os bondinhos coloridos apinhados de gente multicolor, que desciam em direção a Fisherman's Warf, o lugar mais visitado deste canto do mundo, nos encantamos com a beleza e o astral do Píer 39, além da prisão de Alcatraz, a tudo supervisionando.

                    Ui! Sai pra lá coisa ruim.

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                    Como é bom se perder por aqui e sair rodando de um lado para outro e por este meio ir descobrindo o encanto de Chinatown, do Civic Center e descer curtindo metro por metro, quer dizer, curva por curva da Lombard Street, aquela ruazinha em forma de nó, postal famoso e circulada obrigatória daqueles que por aqui chegam.

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                    À noite saímos para jantar e aproveitar a companhia da Cabí, nossa conterrânea e amiga das nossas filhas. Foi uma delícia.

                    Comentário

                    • Jhonny
                      Fazedor de Chuva
                      • Dec 2011
                      • 504

                      #55
                      Jovens... Vocês não mudam, se não é o corpo então é uma aura mágica que os rodeia... Aos poucos vou lendo este maravilhoso relato... No Vento com o Sonho... Que aventura, nos desperta uma vontade imensa de simplesmente sair por ai...

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                      Grande abraço e até breve... Nos vemos na estrada...
                      J.Fernandes

                      A distância de um sonho...
                      Quebram-se férreas cadeias, Rojam algemas no chão...

                      Comentário

                      • Jacob Bussmann Filho
                        Fazedor de Chuva

                        • Dec 2011
                        • 2788

                        #56
                        Que beleza......ah, San francisco, com seus marcos, seus personagens os mais diferentes possíveis....ai...ai...não vejo a hora de fazer esse roteiro junto com a Mara...rsrsrsrsr....mas até lá irei me deliciando com os relatos aqui, muito obrigado.

                        abração a voces , Dolor e Angela

                        FC Jacob
                        GCFC NFC VFC(SP) ,VFC(RR),Cardeal, RFC(101,116,153,230) Jacob,Bandeirantes

                        Comentário

                        • Dolor
                          Fazedor de Chuva

                          • Mar 2011
                          • 3250

                          #57
                          Capítulo 40 – A incrível preguiça do ser – 23/05 a 03/06/2003


                          E após havermos estacionado naquela espiral a quem deram o nome de estacionamento nos dirigimos para aquele monstro de aeroporto desta incrível cidade chamada Seattle, sede da Boeing e onde parece que o tal do Bill, o Gates, tem uma meia água de uns dez mil metros quadrados, cujos detalhes procurarei saber e após circularmos como bobões com as bocas abertas e babando por aquele verdadeiro mundo, chegamos ao guichê da United, para pegar as nossas passagens e nos abraçar nas suas asas para o encontro com o nosso "gadinho", que assim como nós contavam os segundos que nos separavam daqueles abraços sonhados já fazia algum tempo, cuja contagem regressiva tinha como vantagem única a de potencializar a vontade de nos enroscarmos entre beijos e afagos, temperados por este condimento chamado saudade.

                          Ah! Como é bom se sentir saudades e ainda mais, como é bom se ter para onde voltar.

                          Aliás, o bom mesmo de uma viagem, o melhor, é o de se saber que se tem para onde voltar.

                          E nós felizmente temos!

                          Já com os bilhetes nas mãos voltamos ao estacionamento para pegar a Bonitona, que numa recaída de ciúmes resolveu não funcionar o sistema de rádio, fazendo consequentemente, esta inconsequente, que não tivéssemos comunicação entre nós e nem o fundo musical, nossa companhia permanente por estas estradas da vida.

                          Como dizem os franceses, "elle était en pane".

                          E como dizem os tupiniquins, "zéfini".

                          Claro, estávamos contentes, muito contentes com tudo o que temos vivido e evidentemente mesmo não querendo, deixamos aquela pontinha de aflição para ser resolvida quando do nosso retorno, pois agora só pensávamos em nossa casa, nos nossos filhos, nas nossas mães, irmãos, amigos e acima de tudo, no nosso neto, extensão de todos.

                          Gozado os caminhos da vida! Mesmo com todos os sentimentos de gratidão e de amor que temos pelos nossos pais e também pelos nossos filhos, de repente nossos pensamentos estão sempre apontando em direção daquele que passa a ser a convergência de todos. Não sei se é por causa da concentração do amor, mas nossas melhores saudades estão sempre voltadas para esta nossa nova semente da continuidade e o mais interessante, este mesmo sentimento é compartilhado por todos.

                          Confessamos também que não temos oferecido a menor resistência a esta paixão que nos toca de forma suave, gostosa e continuadamente crescente. São sentimentos muito maduros e cheios de uma ternura, que provavelmente somente a idade do alto da sua sapiência é capaz de proporcionar e nós aqui embaixo de vivenciar.

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                          Com todas as informações necessárias nas mãos, capazes de nos levar para casa, voltamos para o hotel, escolhido propositadamente bem ao lado do aeroporto e após deixarmos a Bonitona bem "agasalhadinha" por uma coberta plástica adquirida no caminho da volta, preparamos as nossas malas, quero dizer, sacolas para voltarmos para a toca.

                          Foi uma noite agitada e ansiosa esta que antecedeu nosso primeiro retorno depois de três meses de estrada. Fomos dormir bem tarde e com tudo pronto de manhã bem cedo trouxe o café no quarto para a Ângela, que o saboreou com gostinho de quero ir para casa e com pressa nos dirigimos para o ponto de embarque. Evidentemente os nossos corações foram e voltaram inúmeras vezes até o aeroporto de desembarque, imaginando como estariam os nossos amores que nos aguardavam e a cada retorno, uma nova sensação de paz e de alegria nos arrebanhava após os detalhes por ele contados.

                          Como é bom se deixar o coração viajar com liberdade, deixando-o ir à nossa frente tantas e quantas vezes queira para em cada ida e vinda nos permitir saborear antecipadamente tudo aquilo que queremos viver. É na realidade se viver várias vezes a mesma coisa, com a diferença de que tudo ainda está em verdade por acontecer.

                          Vai coração e nos conte tudo aquilo que irá de verdade acontecer com as tuas batidas dando a cadência exata do nosso prazer.

                          É aquele momento em que os braços se entrelaçam, que as lágrimas da alegria nos lavam e que tu coração, bates de verdade o sangue que um dia somente em nós circulou e hoje pelo reconhecimento da união que nos cerca, cada glóbulo de cá identifica cada glóbulo de lá.

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                          E foi exatamente assim como os nossos corações nos contaram que tudo aconteceu e bem abraçados, unidos e amorosos nos dirigimos para casa, não sem antes passarmos pelo Colégio e pegarmos o nosso queridinho, pois surpreso com a surpresa largou a sua mochila e tudo mais que o acompanhava para se atirar em nossos braços em mais um momento mágico em nossas vidas.

                          Obrigado Deus da Saudade, com sobrenome verdadeiramente brasileiro, por mais estes momentos que nos proporcionaste.

                          Como foi bom o nosso encontro com as nossas mães, funcionários e amigos. Nos deliciamos com estes dez dias de "férias", que infelizmente voaram como se nunca tivessem existido, deixando impressas novas e deliciosas lembranças e claro, mesmo antes de partir, uma vontade incontida de voltar.

                          Foram poucos um almoço e um jantar por dia. Foram poucos, muito poucos os incontáveis abraços e beijos deste período, entremeados por horas de conversa, seja num cantinho isolado da fábrica, seja numa salinha a meia luz da nossa casa. Foram poucos, muito poucos os inúmeros telefonemas trocados no meio dos pequenos períodos de afastamento uns dos outros, mas foi enorme a sensação de proximidade que nos uniu ainda mais durante este período de convivência intensa, condimentada pela expectativa da nova partida.

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                          Nos amamos, nos tocamos e mais do que nunca nos sentimos partes integrantes uns dos outros.

                          Assim permanecemos até os minutos finais quando nos foi concedido pelo responsável da sala de embarque, cúmplice das nossas despedidas, mais alguns minutos antes que fechassem as portas da aeronave que nos traria de volta à Seattle, aonde leves, chegamos nesta quarta-feira, dia quatro de junho para darmos reinício à segunda etapa deste nosso sonho, cujo vento que nos embala é ao mesmo tempo o mensageiro que leva para os nossos filhos todas as lembranças e as paixões que nos aproximam.

                          Voa vento e peça para que continuem sendo assim, estas pessoas sensíveis e queridas, nossos orgulhos e nossos amores.

                          Agora reabastecidos para mais esta etapa, após muito esforço, estou conseguindo me recuperar da preguiça possuidora deste corpo que a terra um dia haverá de recuperar e esperando voltar a ser o vadio de quem tanto me orgulho, que gosta de acordar cedo para ficar mais tempo sem fazer nada, aproveito e peço desculpas pelo longo período de silêncio, assim como, agradeço pelas centenas de mails recebidos cujas respostas acontecerão em breve e como não poderia deixar de ser, fico também orgulhoso dos leitores conquistados ao longo desta jornada, prometendo, porém sem jurar, que na medida do possível farei o impossível para que o meu Sancho Pança, não prejudique ao meu já fraquejado Dom Quixote, nesta disputa em que a razão acaba perdendo espaço para a contemplação.

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                          Não fora Cervantes dizer a Dom Quixote que a glória somente vem após a aventura, que eu me entregaria de corpo e alma a este Sancho Pança das nossas coisas mais simples de todos os dias.

                          Nos espere Alasca, porque nós quatro já estamos bem próximos desta nova conquista.

                          Adelante Sancho, adelante Dom Quixote.

                          Comentário

                          • Proftel
                            Fazedor de Chuva
                            • Apr 2013
                            • 343

                            #58
                            Dolor e Ângela:

                            Em poucos anos me aposento, meus garotos estão terminando as respectivas faculdades (um Direito outro Engenharia), vocês são uma inspiração (nem que tenha que ir sozinho, podem crer).

                            :-)

                            Comentário

                            • Dolor
                              Fazedor de Chuva

                              • Mar 2011
                              • 3250

                              #59
                              FC Proftel, seguramente os teus garotos "puxaram" a mãe, bonitos e inteligentes.

                              Parabéns pela tua família, obrigado pela gentileza das tuas palavras e desejamos ardentemente te ver na estrada buscando os teus sonhos, preferencialmente acompanhado pela tua mulher.

                              Estes anos que te faltam para a aposentadoria, provavelmente serão algumas piscadelas e quando da última estarás ligando a moto e partindo.

                              Enquanto isto, façam um aquecimento vindo para a Sede Intl dos FC!

                              Os braços estão abertos!

                              Comentário

                              • Dolor
                                Fazedor de Chuva

                                • Mar 2011
                                • 3250

                                #60
                                Capítulo 41 – Nos leva estrada – 05 a 08/06/2003


                                Bom dia queridos!

                                Desejamos que o dia de hoje seja muito especial para cada um de vocês, nossos leitores, garupas e amigos.

                                Que todos os desejos se realizem e todas as preocupações sejam diminuídas à medida em que este dia, maravilhoso na sua essência, não importando se está quente, frio, chovendo, nevando, garoando, ventando, enfim, não importa o que esteja acontecendo sob o aspecto climático, porque estes céus servem apenas como referência para dizer da nossa alegria, do tipo imensa, nos invadindo por conta da cobertura global alcançada pelo nosso site, quando falta somente um leitor da Oceania e Austrália para termos o nosso planeta através dos seus continentes completamente "linkado" . Portanto, desta maneira desejamos que cada um, em seu hemisfério, consiga realizar plenamente todos os seus desejos, principalmente aqueles que envolvem preguiça, paz, harmonia e amor.

                                Valeu. Obrigado!

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ID:	167905

                                Vamos aproveitar bem este dia que está pulsando lá fora, sem ligar se o galo cantou ou não, porque o sol vai brilhar independentemente do seu canto e desta maneira sejamos nós o galo deste dia, para despertá-lo todinho para nós. E por falar em despertar, voltando um pouquinho para o dia de ontem, quatro, quando da nossa chegada, é justo confessar que depois de mais de vinte e quatro horas envolvidos com aeroportos e voos, o tal do fuso nos deixou "cafuso" e após havermos vistoriado e matado a saudade da Bonitona, ela nos confidenciou ter ficado extremamente enciumada por a termos deixado sozinha mas como estávamos de volta, fez funcionar o seu sistema de som.

                                Obrigado querida por mais este carinho.

                                Como chegamos no Aeroporto de Navegantes por volta das três e meia da tarde, fomos deixar o de Seattle quando já passava das cinco do dia seguinte, quase noite, claro desta quarta, numa jornada que nos deixou literalmente no bagaço.

                                Não é fácil este negócio de voo internacional. Este cansaço pega todo mundo, mesmo quando se viaja em primeira classe, com todas aquelas mordomias adquiridas a peso de ouro. O menu deste voo incluía champanhe francesa, acompanhada de canapés de salmão dourado da Ilha de Chloé, endívias belgas, arengue com "oignon" dos Pirineus franceses, tiras de filet de "boeuf" de Tacuarembó assadas com vinho tinto de Rasteau, cordeirinho da Patagônia entre outras delícias de deixar o padre com água na boca. Poltronas com dois metros de largura por dois de cumprimento, mantas de cashmere da Escócia e pantufas de pele de lebre das estepes russas, completavam o cenário.

                                Claro, tudo isto eu tomei conhecimento quando passei por aquele pequeno reino encantado em direção à mangueira, lá atrás aonde vai o gado, num espaço ínfimo, principalmente para aqueles que tem mais de um metro e oitenta como no caso aqui do chinelão, mas mesmo assim, digamos que viajamos numa "meia primeira" classe, pois quando do “check in”, tenho a impressão que a atendente nos vendo com tantas medalhas no peito pensou naturalmente que éramos alguns nobres decadentes e comovendo-se pelo que via perguntou:

                                - Seu "Dalor", após uma pequena piscadela de cumplicidade, como o avião não está totalmente completo, eu vou colocar o senhor e a dona Ângela nas duas ponteiras do corredor central, tá legal? O senhor entendeu, né? Como somente no meio as pessoas não gostam de pegar lugar, vocês vão se esbaldar em tanto espaço, não é mesmo?

                                - É verdade querida, muito obrigado pelo carinho e vê se consegues dar uma forcinha e bloquear de verdade os assentos do meio para que a gente possa ficar bem à vontade, bacana?

                                - Ah! seu "Dalor" pode deixar e nos deu mais uma piscadela.

                                - Então está combinado e nós vamos torcer pra que tu consigas um marido bem querido pra ti. E assim viajamos naquela primeira classe de pobre, nos esbaldando com tantas poltronas somente para nós, cobertor tomara que amanheça e claro, com o "ranguinho" da "rafunagem", bem saboroso até porque gato com forme lambe sabão.

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                                Bem, de volta a Seattle, simplesmente nos atiramos na cama logo após uma enxaguada no esqueleto até o outro dia por volta das nove horas quando, rapidamente, deixamos a Bonitona pronta e nos mandamos para uma volta de reconhecimento por esta bela cidade, que cheira a dinheiro e super movimentada.

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                                Agora sim, após um dia inteiro de vadiagem nos sentimos inteiros para prosseguir viagem norte acima e assim proamos para Vancouver, Canadá, uma vez feitos os procedimentos fronteiriços, como não poderia deixar de ser, de primeiríssima qualidade, nos liberando seis meses de internação sem tomarem conhecimento da Bonitona e estes poucos mais de duzentos de cinqüenta quilômetros só não foram melhores por causa do calor infernal, na faixa dos trinta e oito graus, afrouxando somente quando a noite caiu e junto com ela um frescor gostoso, cúmplice do nosso sono, tipo profundo.

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ID:	167908

                                Novo dia, novo sol, novo país e aquela monotonia invejosa em perceber que esta turma daqui também está com tudo e não está prosa.Tudo lindo, muito arrumado, povo acolhedor e querido, cujas comprovações vamos vivendo à medida em que vamos adentrando por entre lagos, pinheirais e montanhas pintadas de verde e de branco, desta neve que insiste em continuar querendo ver como é o verão.

                                Chega a ser até enjoado de tão bonito!

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                                Nos hospedamos a trezentos e cinqüenta quilômetros de Vancouver numa cidadezinha encantadora, Clinton e num hotel, bem, quero dizer, cabana, de onde vinha aquele odor agradável da madeira fresca, aconchegante, com peles de ursos decorando as paredes e servindo também de almofadas naquele banco em frente a lareira nos hipnotizaram de tal maneira que fomos despertos gentilmente pelo proprietário nos perguntando quanto queríamos pagar pela diária, pois como o valor de tabela estava além do nosso orçamento agradecemos e pedimos licença para fazermos algumas fotos. Claro, a educação não nos permitiria dar preços, mas falamos da nossa procura por hospedagem ao redor de U$50, cujo martelo soou no balcão da aceitação e assim pernoitamos no The Cariboo Lodge, uma pepita bem no meio do tiroteio que foi a corrida do ouro por aqui, lá pelos idos de 1.850.

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                                E perseguindo o eco deste tiroteio caído do céu, fizemos toda a trilha da famosa The Gold Rush Trail, que passou e nós também por Fort Langley, Lytton, Lillooet e Cache Creek, quando praticamente pisamos nas mesmas pegadas daqueles aventureiros, continuando por 100 Mile House, 150 Mile House, Williams Lake, Quesnel, Prince George e Burns Lake, onde os bobos estão hospedados, hoje, neste domingo, num lugar muito simpatico chamado Traveller's Motel, sob os cuidados da Linda e do Eric, já nossos amigos, após um percurso de seiscentos e vinte quilômetros desde Clinton, cuja nota dez nem de longe gradua este roteiro dourado.

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ID:	167909

                                Se ainda não encontramos o precioso metal na sua forma convencional, garanto que estamos ricos, milionários, com estas maravilhas e pessoas lindas que temos encontrado ao longo deste caminho, nesta corrida de ouro que estamos fazendo.


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                                Seatac (Seatac Inn Motel, U$42,00 mais U$100 pela Bonitona) Seattle (Vagabond Inn U$54,00, WA, até Vancouver (Travellodge Motel U$59, BC, Canadá - 334 km

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                                Vancouver, Whistler até Clinton (Cariboo Lodge Motel, U$50) BC, Canadá - 345 km

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                                Clinton, Williams Lake, Prince George, Burns Lake (Traveller's Hotel, U$38), BC, Canadá - 617 km

                                Total percorrido : 1.296 km - Total geral : 26.100 km
                                Última edição por Dolor; 17-06-13, 23:16.

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