No Vento com o Sonho

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  • Dolor
    Fazedor de Chuva

    • Mar 2011
    • 3250

    #1

    No Vento com o Sonho

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    Prefácio

    Bem, finalmente aconteceu aquilo que vinha sendo prorrogado já não sei há quanto tempo e pelas mais variadas razões, entre as quais destaco a preguiça e principalmente a inspiração, é que este encontro foi sendo postergado.

    Momento desejado, aguardado, porém nunca realizado, talvez represente o passo decisivo para que esta nossa ligação se torne mais íntima, mais intensa e principalmente mais frequente.

    Da minha parte vou caprichar para que tal aconteça e mesmo que lutando contra as razões já apontadas, o contato já está feito, foi gostoso e, de agora em diante, já que nossa relação começou, não há mais o que esconder, até porque a partir de hoje torna-se pública.

    Penso que nos tornaremos grandes amigos e porque não dizer íntimos e confidentes, uma vez que será através desta relação que conseguirei conversar e contatar com um Universo que me cerca, que sei existir, que consigo tocar, e que pela alquimia das suas formas, conseguirei ser tocado.

    Não nos afastaremos nem um minuto sequer por estes próximos meses!

    Diuturnamente estaremos juntos, mesmo que por vezes, por longas horas não nos toquemos, toda a minha atenção, toda minha energia estará voltada para os momentos em que a sós, tomarás conhecimento da minh’alma e, juntos, a levaremos para dentro dos corações daqueles que, em querendo nos conhecer um pouquinho, estarão abertos para receberem todo este bombardeio de positividades, de amor e de vida, que a partir de hoje, compartilharemos.

    Obrigado por teres me aguardado tanto tempo, por teres sido paciente e por permitires que te use como um instrumento maravilhoso de comunicação. Por estas tuas formas delicadas, sinuosas e silenciosas, estarei podendo, a partir de hoje, pela magia dos novos tempos, navegar.

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    Ah! e como navegaremos, MEU TECLADO.

    E para começar, nada melhor do que se falar de sonhos. De sonhos doces, sonhados ao longo de uma existência e que hoje, impulsionados pelo vento, força maravilhosa da natureza, que com sua capacidade de ir e vir, de levar e de trazer, nos seduz, nos amedronta, nos encanta e, que em batendo, acaricia, impulsionando nossos pensamentos, desejos e sonhos de liberdade para onde eles nos permitirem.

    E neste vento os levaremos.

    Impulsionados por ele, orientados pelo teclado e guiados por estes sonhos, é que nos lançamos numa aventura maior, iniciada nesta quarta-feira, dia 26 de fevereiro deste ano de 2003, em Itajaí - SC, tendo como destino final o estado do Alasca, no extremo norte do continente Norte Americano.

    Depois de todo o amadurecimento e preparação para que esta aventura passasse a coabitar nossa rotina, finalmente chegou o dia, ou melhor, chegou a semana da contagem regressiva e, obviamente junto com ela, o momento das despedidas, e antes das delas, da avaliação de tudo aquilo que fizemos nos nossos quase trinta anos de casamento, de convivência, dos negócios, e finalmente, da Família, da nossa Família, dos nossos filhos, das suas novas vidas hoje compartilhadas por aqueles que seus leitos dividem, até chegarmos a nossa já terceira geração, representada pelo nosso neto.

    São avaliações evidentemente feitas em cima já dos frutos que, pela generosidade de Deus, são saudáveis, perfumados e saborosos.

    Sim e como são saborosos!

    E que esta benção divina que entrou em nossa casa, nos completando, nos alimentando e nos enchendo de alegria e de paz perdure para sempre.

    Bem, agora já começamos nossa viagem, e junto com vocês, plugados por este mundo de Deus afora, nos apoiando e nos incentivando, estarão vivendo conosco, nosso desafio maior que é o de estarmos juntos, em nossa moto,
    NO VENTO COM O SONHO.

    Boa viagem.
    Dolor e Ângela
    Última edição por Dolor; 01-08-12, 16:16.
  • Renan Xavier
    Fazedor de Chuva
    • Jul 2011
    • 404

    #2
    Dolor, com certeza esta experiência sua e da Angela tem muito a contribuir a todos os Grandes Caciques, Caciques e a todos sonhadores que apenas querem este sonho. Mas todos podem conquistá-lo!

    Comentário

    • Dolor
      Fazedor de Chuva

      • Mar 2011
      • 3250

      #3
      Capítulo 2 - Primeiros Ventos

      Capítulo 2 - Primeiros Ventos

      Com as primeiras lágrimas sendo secadas pelo teclado, nosso novo companheiro de viagem,
      oriundas das despedidas junto aos nossos funcionários, que nos encheram de boas vibrações e bênçãos,
      foi a vez dos últimos abraços e beijos dos filhos, do neto, das mães e dos amigos.

      Foram momentos que já estão impressos em nossos corações para sempre!

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      São ondas de energia positiva, que várias vezes por dia nos invadem de forma "energizante" e tenra.

      Este almoço, de certa forma, foi diferente dos almoços festivos de todos os dias, porque se sentia nos gestos,
      movimentos e risos, a carga emotiva que aquele encontro proporcionava.

      Tem sido para a Ângela e para mim, os melhores momentos de todos os dias.

      Aguardamos a hora do almoço, sempre com a ganância de não se perder nem um minuto na chegada,
      para podermos aproveitar todos os segundos destas festas diárias, em que se tornaram os nossos almoços.

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      Hora com as avós, hoje travestidas de bisavós, hora com alguns amigos, com os quais temos o privilégio de partilhar a mesa, hora com parentes recém chegados, com irmãos de sangue e também com aqueles que a vida nos
      aproximou e nos estreitou, mas sempre, sempre com a Família reunida, e como costumo dizer,
      nem que seja para brigar.

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      E assim transcorreu nossa manhã de preparação das bagagens, das suas locações
      e de todo o frenesi de encilhar a Bonitona, forma carinhosa como nos referimos a nossa moto,
      uma Honda F6 modelo Valkyrie, ano 98, amadurecida nos seus quase 125.000 km de estradas por este mundo afora.

      Uma bela companheira!

      Tudo devidamente no lugar, arrumado, preparado, porém com uma pontinha de decepção,
      uma vez que o cartão com saída "USB" para o nosso notebook não havia chegado de São Paulo e,
      dentro da nossa concepção e expectativa de se tentar fazer um bom trabalho de informação diária,
      esta peça é fundamental para que possamos fazer se comunicarem a máquina fotográfica e o computador.

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      Com as despedidas devidamente feitas, confidenciamos aos nossos filhos que este primeiro dia de uma viagem,
      que programamos para fazer em 10 meses e por mais de 80.000 km,
      teria em seu primeiro dia de estrada não mais de 40 e poucos quilômetros,
      pois pensávamos em nos hospedar em Gaspar, onde aguardaríamos o Black,
      especialista em computação e figura muito querida, para fazer a instalação do tal cartão,
      que deveria chegar no dia seguinte.

      E como tal fizemos.

      Domando nossas ansiedades e apetite por vento, completamos nosso primeiro dia de viagem no Fazenda Park Hotel,onde muito bem instalados, acalmamos nossos espíritos, aquietamos nossa ansiedade e, pacientemente,
      sabedores de que temos ainda alguma coisa como 79.950 km a serem percorridos, aguardamos para amanhã,
      quinta-feira, a vinda do Black com o bendito cartão.
      Última edição por Dolor; 01-08-12, 16:22.

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      • Dolor
        Fazedor de Chuva

        • Mar 2011
        • 3250

        #4
        Capítulo 3 - Dia de Lagarto - 26 a 28-02-2003

        Tenho de reconhecer, que qualquer semelhança, não é mera coincidência.

        Os modos, a vontade e o jeito de ser, lembra em muito este réptil, que sem querer, faz escola.

        Hoje, sem dúvida nenhuma, foi um dia dedicado à esta bela espécie, pois desde a hora em que acordamos até o
        final do dia, tudo o que fizemos foi "ene a de a", ou seja, nada.

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        Benditos sejam os lagartos, que nos legaram este modo de vida fantástico, do comer e dormir entremeados por nada.

        Como é bom não fazer nada!

        Que exercício maravilhoso este do não fazer nada, colocando a "HD" em stand by, sem pensar em nada, sem se
        ocupar com nada, esperando somente a batida do sino anunciando a hora da boia.

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        E assim foi com as primeiras badaladas às 7.30 h da manhã anunciando o serviço do desjejum, com frutas, frios,
        pães e doces os mais variados possíveis, regados a bons sucos com o tradicional café com leite.

        Após encher o porão, convés e passadiço, nos transferimos para a piscina,onde com mais propriedade, literalmente, "lagarteamos" até as novas badaladas anunciando o já antigo e famoso, meio dia panela cheia barriga vazia.

        Preocupações?

        Nenhuma.

        Informações chegaram que a nossa placa, o famoso cartão com saída "USB", ainda não havia chegado, isto é, havia ido para Mafra, aqui no norte de Santa Catarina.

        Isto posto, com o rigor das Leis de Murphy, podemos sugerir uma outra que poderia ser mais ou menos assim:
        quanto maior for a pressa que tens em receber uma encomenda de São Paulo, maiores são as chances dela chegar em Mafra.

        Pois foi exatamente isto que aconteceu.

        Houve um erro no CEP e a bendita encomenda foi parar em Mafra.

        Mas, Murphy não para por aí: pois se a tua pressa for maior ainda, teu fornecedor te remeterá novo material e te
        enviará via aérea, pasmem, para Joinville, também aqui no estado.

        Foi o que acabou acontecendo.

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        E nós? Olha nós aí, que nem lagarto, fazendo o que?

        "Lagarteando".

        Nesta altura do campeonato, só estou com medo que quando ela chegar nós já estejamos tão grandes e gordos, que possamos ser confundidos com jacarés, abatidos e transformados em cintos e bolsas.

        Seria um fim muito interessante, foram para o Alasca e terminaram em couro.

        E antes que isto aconteça, sugiro que elejamos o dia 27 de fevereiro como o DIA DO LAGARTO.

        Penso que seria uma justa homenagem, sem entretanto alterarmos o título deste relato, que continua sendo: DIA DE LAGARTO.

        Como o tempo continua passando, a Ângela acaba de me perguntar a que horas será servido o lanche, pois temos
        um novo encontro com a mesa, justo às cinco horas.

        Alasca? Oras bolas, a mesa é o que interessa.

        Calma lagarta, ainda tem algum tempo, e como dizia meu avô, "para esquentarmos o sol".

        Pressa?

        Nenhuma.

        Alasca?

        De novo?

        Ele que nos aguarde, porque o amanhã chegará e, com ele, nosso reencontro com nosso amigo vento.

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        Desculpem, mas sou obrigado a me virar de lado, porque ficar sempre com a direita para cima não dá.

        Agora é chegada a hora de tostarmos e darmos a vez à esquerda, que espera sua vez faz muito tempo.

        Só espero não tostá-la demais.

        Finalmente o sino soou e, obedientes que somos, cumpriremos com a nossa obrigação biológica de nos
        alimentarmos de novo.

        Estão vendo como é divertido ir para o Alasca?

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        Total percorrido : 45 km
        Última edição por Dolor; 01-08-12, 17:31.

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        • Dolor
          Fazedor de Chuva

          • Mar 2011
          • 3250

          #5
          Capítulo 4 - Boca Santa - 28-02-2003

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          Com o espírito devidamente apaziguado, fomos dormir o sono dos anjos.

          Foi uma noite tranquila, reparadora, entremeada somente pela expectativa da chegada da bendita peça, que tinha ido parar em Joinville.

          Mas não foi isto o que aconteceu.

          Mandamos um motoboy até o aeroporto daquela cidade, munido do conhecimento, tudo certinho etc. e tal, não
          contando entretanto, com a possibilidade de que a triste não tivesse chegado.

          Bem, o que importa é que finalmente começamos a sentir nossos corações batendo no compasso acelerado da
          contagem regressiva, porque agora, com a placa ou sem ela, para nós, nesta sexta-feira, 28 de fevereiro,
          efetivamente começaria nossa viagem.

          Porém, neste meio tempo, recebemos a informação de que o Black viria logo no inicio da tarde para a devida
          instalação e quiçá, funcionamento desta porta de comunicação entre nosso notebook e a máquina fotográfica.

          “Êta” casamento difícil!

          Esperamos que seja duradouro e com muitos filhos.

          Para não continuarmos imitando nosso amigo lagarto, mas também não o desprezando totalmente, fizemos algumas
          ligações, propusemos algumas alterações no nosso site, e contando com a ajuda sempre discreta porém presente e
          eficiente do Cesar, nosso homem da internet, chegamos a algumas conclusões que em breve estarão sendo disponibilizadas.

          O calor é intenso, lembrando que estamos nesta estação maravilhosa que é o verão, talvez não a mais adequada para a montoeira de equipamentos que somos obrigados a utilizar para uma pilotagem mais segura, mas sem sombra de dúvidas, um período especial para se aproveitar as delícias de uma boa lagarteada.


          Agora, com relação ao casamento duradouro e com uma grande prole, lamento informar que já aconteceu a
          separação, e a partir de hoje, tanto nosso notebook, como a máquina fotográfica estão apartados, e ainda por cima
          numa lambança desgraçada, como manda a tradição quando a separação é litigiosa.

          Depois de inúmeras tentativas de conciliação, as partes foram cada uma para o seu lado, e nós num frenesi enorme para pegarmos a estrada, nos trocamos no toalete do restaurante, onde a temperatura beirava os 300 graus, e nos mandamos, impulsionados pela nossa adrenalina, que a esta altura do campeonato já estava sendo transpirada por
          tudo quanto é poro.

          Levantamos acampamento e pegamos aquela mancha infinita de piche que nos enfeitiça, empurrados pela Bonitona,
          torrados pelo sol e embalados por aquela música envolvente que somente o vento sabe cantar: vem, vem, vem...e
          nós, ébrios, obedecendo.

          Que sensação maravilhosa esta de seguir nossos instintos, que sensação maravilhosa esta de trocarmos com o vento, carícias, que sensação maravilhosa esta de disputarmos o equilíbrio com a nossa moto e que sensação maravilhosa
          esta de vivermos tão próximos desta linha que divide o que é vida e o que é morte.

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          Bem, com relação ao título da matéria de hoje, vale pela intuição da Ângela, quando há alguns meses atrás ao
          escolhermos a data para saída, previu que a mais provável seria o dia 28 e eu com a minha agonia, antecipei a
          partida para o dia 26, daí então...um a zero para ela.

          E já que estamos falando de boca, aproveitamos uma boca livre aqui em Curitibanos, quando ao ligarmos para o
          nosso amigo Boca, que estava participando de uma "Jeepada" na Serra da Canastra, felizes, nos cumprimentamos, nos abraçamos, nos beijamos, e o danado, ligando para o dono do restaurante, mandou liberar a conta.

          Valeu Boca e em homenagem a estas bocas livres, fica instituído o dia de hoje, como o Dia da Boca Livre.

          Um beijo para todo mundo e obrigado pelos e-mails que temos recebido, o que sem sombra de dúvidas nos motiva,
          nos encoraja, mas acima de tudo, nos emociona.

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          Total percorrido : 241 km - Total geral : 286 km
          Última edição por Dolor; 01-08-12, 17:21.

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          • Dolor
            Fazedor de Chuva

            • Mar 2011
            • 3250

            #6
            Capítulo 5 - A Cabana - 01-03-2003

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            Amanheceu um dia como há muito não víamos.

            Calmo, limpo, com uma luminosidade toda especial.

            Aliás, esta região do centro-oeste e oeste catarinense, com suas incríveis variações de verde, nos oferece um espetáculo à parte.

            Com uma topografia bem acidentada, rodovia sinuosa, tal qual uma serpente, iluminada por um sol muito particular, não queríamos outra coisa senão montar em nossa moto e pegar o mais rapidamente possível a estrada.

            Manhã fresca para esta época do ano, aproveitamos para nos fartar nestas curvas desenhadas especialmente para quem está com vontade de pilotar.

            E nós estávamos!

            Era uma beleza a tocada , ora para esquerda, ora para direita, levantando e deitando a Bonitona, freando, acelerando, e abusando da caixa de troca.

            Que delícia!

            No sistema de som rolava Eagles, que cantavam somente para nós, no nosso ritmo e na nossa balada redonda, redonda, numa sensação que somente os iniciados podem compreender toda a extensão deste prazer.

            E nesta tocada, acenos e abanos eram trocados a todo instante com aqueles que cruzávamos ou ultrapassávamos como se nos dissessem, boa viagem até o Alasca, que sigam bem, estamos torcendo por vocês, estamos juntos com vocês, e nós extremamente sintonizados com todos estes acontecimentos, sentíamos que já não viajávamos sozinhos, porque todos estes sentimentos estavam se incorporando a um comboio que imaginariamente nos acompanhava.

            Que mágica tem as motos, que conseguem somente elas, incorporarem tantos sentimentos de pessoas tão diferentes, de formações diferentes, de origens diferentes, que suscita tanto paixão como temor, medo e ousadia, desejos e repulsas, porém, todos cúmplices de uma vontade enorme de disputarem com o vento um lugar no pódio dos sentimentos de liberdade, de ousadia e de rebeldia que as motos com seus brilhos, roncos e formas insinuantes nos seduzem.

            E se juntarmos a tudo isto, um pouco de fronteiras latino-americanas, a fórmula fica completa para que não se morra de tédio.

            Para quem já teve oportunidade de viajar de moto, ou mesmo, de carro, concordará que é extremamente monótono aquele primeiro mundo evoluído, sem fronteiras e sem carimbos, onde as divisas não são mais do que linhas imaginárias, dividindo o igual pelo semelhante.

            Que coisa mais sem graça!

            Das sete fronteiras que cruzamos de moto na Europa, recebemos somente um carimbo, mais precisamente quando atravessamos o Canal da Mancha e entramos em território real inglês.

            Que falta nos fizeram os carimbos!

            Imaginávamos, pelas contas às quais estamos acostumados, no mínimo, entre idas e vindas e novas idas e novas vindas, pelo menos umas “parari”, “parará”, 2197 carimbadas.

            Não troco por nada deste mundo a meia dúzia de carimbos que somos obrigados a obter em nossas fronteiras latino-americanas. É pura emoção, se saber que a simples falta de um carimbo, num pequeno papel de 6 x 6 cm pode ser decisiva para abrir ou fechar a porta de entrada de um País.

            É "frissionante".

            Já em território argentino, e com o astro rei tinindo, tivemos a impressão de ter visto um camelo com a língua de fora a pedir água, muita água.

            A esta altura do campeonato acredito a temperatura já havia passado de novo dos 300 graus e a sensação de calor começava a ganhar contornos de que iria nos vencer.

            Mas para vencer uma "pareja" de verdadeiros papa-siris, agora já embalados no ritmo do quero mais, mandamos ver, e praticamente planávamos por estas terras portenhas, agora em busca de Posadas, quando no horizonte começamos a vislumbrar, a presença, normalmente inoportuna de uma invejosa, que se chama chuva.

            Mas hoje foi diferente!

            Quando percebemos seus contornos escuros, fortes, pensamos: Posadas deve ficar para aquelas bandas e nós iremos atrás, já antevendo um belo banho, uma vez que não portávamos nosso equipamento de chuva e nem iríamos coloca-lo, porque o que queríamos sinceramente, era um banho de verdade.

            Daqueles de levantar água e de molhar até a alma.

            E foi o que aconteceu.

            Literalmente penetramos no meio daquela tormenta, e com as rodas a substituírem nossos pés, e a estrada no lugar das sarjetas, levantamos água até Deus ver.

            Foi pura traquinagem!

            Foi a mesma sensação que se tem, quando se sai de uma sauna super quente e se mergulha de cabeça numa piscina fresca, muito fresca.

            Molhamos capacetes, jaquetas, calças e chutamos com a moto a água das nossas infâncias, dos nossos banhos de chuva proibidos e dos temores paternos das gripes que nunca vinham.

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            Nos fartamos com tanta generosidade divina, que tivemos que entrar em Puerto Rico, deixando Posadas para amanhã, até por que, quem tem pressa?

            E para encerrar este sábado farto de alegrias, fiz uma surpresa para a Ângela, alugando no Hotel em que nos hospedamos, uma cabana de madeira no meio do mato para terminarmos nosso dia brincando de cabaninha.

            Acho que isso não vai acabar bem...

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            Total percorrido : 435 km

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            Total percorrido : 203 km - Total geral : 924 km
            Última edição por Dolor; 01-08-12, 18:56.

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            • Dolor
              Fazedor de Chuva

              • Mar 2011
              • 3250

              #7
              Capítulo 6 – Dia de Fartura - 02-03-2003

              Mais um dia magnífico amanhece neste primeiro domingo desta jornada rumo ao Alasca, e depois de uma excelente noite hospedados na Hosteria Suiza, em Puerto Rico, Província de Missiones, iniciada com uma bela milanesa e no que concerne a Ângela, regada com um bom vinho brindando a calmaria reinante depois da trovoada de verão, nos levantamos para acompanhar o que Deus fez no sétimo dia, descansar.

              Até acho que não é muito justo para com o Senhor, que trabalhou duro durante seis dias, enquanto nós...bem, façamos de conta que fizemos por merecer este dia de descanso.

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              E aproveitamos esta folga, para fazer o que mais gostamos, andar de moto.

              Felizes, nos dirigimos à “carreteira” que para nos brindar, estava tingida de vermelho como se quisesse nos prestar uma homenagem. Pensamos: puxa vida, este pessoal de Puerto Rico é mesmo especial nos fazendo uma gentileza deste tamanho, digna das pessoas coroadas. Evidentemente que a coloração avermelhada desta terra que este povo mexe e vive, é típica das terras altamente produtivas, fato que fomos comprovando enquanto avançávamos rumo a Corrientes, nosso objetivo do dia.

              Claro que nada para nos estressar, pois era nosso dia de folga, logo um “tirinho” de 450 km seria o suficiente para brincarmos neste domingo preguiçoso e silencioso.

              Caminhamos boa parte dele, desta maneira, absortos nos nossos pensamentos, que procuravam se refrescar do intenso calor, nos frescores dos bons momentos que temos vivido juntos, do que temos feito, dos negócios, e claro, sempre, dos filhos.

              E me lembrei deles à medida que o tempo passava, pensando em quando eram pequenos, diria até para ser mais preciso, pouco mais que recém nascidos quando ao deitar-me ao lado deles, por ordem de chegada, chamava a Ângela quase todo instante para que os olhasse, pois enquanto os observava, torrentes de preocupações me tomavam de assalto, pois hora faziam caretas, ora reviravam os olhinhos, respiravam diferente, riam, faziam expressões de dor, enfim, um tormento quando se tem filhos bebezinhos e resolvemos lhes acompanhar o sono.

              Quem tem filhos sabe muito bem do que falo.

              E hoje não foi diferente, só que desta vez com a moto, pois com todo aquele silêncio, com retas agora quase que contínuas, característica da maioria das rodovias argentinas, me pus a escutar, observar e a sentir a moto em toda a sua movimentação. Ora sentia vibrações diferentes, ora ruídos estranhos, ora isso, ora aquilo, pensei, é muita neura para um dia tão lindo e discretamente me virei para ver a Ângela e surpreso a flagrei num sono daquele de babar capacete, descansada e segura, como somente as mães se sentem, quando veem que os rebentos dormem o sono dos anjos.

              Então disse, Dolor, pare de ficar acompanhando o sono das crianças porque tudo está muito bem.

              Relaxe e flutue!

              E assim, agora com este novo comportamento, chegamos a Corrientes após algumas paradas junto aos postos policiais, que curiosos e apaixonados como são os argentinos por motores e motos, faziam questão de fazer uma verificação oficial sobre as características da Bonitona, nos questionando sobre a cilindrada, a quantidade de cilindros, de onde viemos, para onde vamos, deixando normalmente a verificação da documentação para uma próxima oportunidade.

              Faz parte do negócio!

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              Depois de bem instalados fomos tomar um café na cidade de Resistência, capital do Chaco, onde esperamos passar mais uma trovoada de verão, cercados pela gente simpática e hospitaleira desta cidade do outro lado do rio Paraná.

              Com nossa HD literalmente parada, da maneira como gostamos, demos uma namoradinha e sem economizarmos tempo, respondemos aos inúmeros e- mails que temos recebido de todas as partes do Brasil e que tem nos servido como um combustível de alta octanagem para esta empreitada que estamos vivendo.

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              E para encerrar, lembro que se existe um elemento que é absolutamente democrático, talvez o único no planeta, que é o mesmo para todos, rigorosamente todos, sem exceção, seja rico ou pobre, feio ou bonito, trabalhador ou vadio, é o TEMPO, aqui limitado nas suas 24 horas do dia.

              E neste quesito que nos nivela de forma rasa, gostaria de lançar um desafio a todos, para que o gastem da melhor maneira possível, que sejam extremamente esbanjadores e perdulários com o TEMPO, porque uma vez passado, não se consegue mais recuperar. E não nos esqueçamos de que temos todos, todos mesmo, 31.536.000 segundos por ano para gastarmos sem preocupações, uma vez eles serão disponibilizados um a um, e não adianta querer guarda-los ou economiza-los, porque não existe poupança que aceite este tipo de depósito.

              Portanto, mãos à massa milionários!

              OBS: Me esqueci de falar que ainda podemos fazer as contas de mais 86.400 segundos referente ao ano bi-sexto.

              Oba!

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              Total percorrido : 500 km - Total geral : 1.424 km
              Última edição por Dolor; 01-08-12, 19:42.

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              • Dolor
                Fazedor de Chuva

                • Mar 2011
                • 3250

                #8
                Capítulo 7 – A Procura de Juan


                Capítulo 7 – A Procura de Juan - 03-03-2003


                Se tivéssemos encomendado um dia assim, com certeza não teríamos conseguido.

                De onde estávamos, podíamos ver que a luminosidade do dia nos dava um ar intimista, a temperatura, diríamos que estava fresca, a arrumação da bagagem caminhando de vento em popa e a vontade de pegar a estrada crescente.

                Após um bom café da manhã, depois de termos deixado cada coisa no seu lugar, o que sempre é uma ginástica, fizemos as últimas consultas junto as pessoas que nos cercavam no salão, para definir exatamente que melhor caminho pegar para irmos daqui de Corrientes para Córdoba, distante 900 km.

                Opções dadas, a preferencia caiu sobre a “Ruta” 11, via Resistência, o que veio na continuação a comprovar, que fizemos a escolha certa.

                Depois de tantos dias de intenso calor, agora nos deparávamos com um dia que classificamos como excelente para a prática do motociclismo, não fora pela ameaça constante daquelas nuvens pesadas que resolveram pegar carona conosco e que de tempos em tempos mandavam aquela garoa fininha, que costumamos chamar de molha trouxa.

                O duro foi controlar, não a moto, o movimento, a estrada, enfim todo este conjunto de fatores que fazem parte da rotina daqueles que estão nesta vida, mas sim, a liberdade fugitiva dos pensamentos, que a todo instante caminhavam anos luzes na frente, indo xeretar tudo o que estava previsto para fazermos ao longo da viagem que planejamos.

                Ora estavam no Chile, em pleno deserto do Atacama, ora no altiplano andino, na região de Chungará, aos pés do vulcão Parinacota, ora de volta à Ushuaia e aos glaciais desta Tierra del Fuego única, ora bisbilhotando o desconhecido, portador dos temores e dos receios do ainda por nós inexplorado, para logo em seguida retornarem à cachola, para irem registrando toda a tranquilidade desta "ruta", que mantendo a característica da maioria das rodovias argentinas, é supertranquila, com pouca movimentação de caminhões e de carros, bem ao contrário daquilo a que estamos habituados a viver em nosso País.

                E dá-lhe sobrar tranquilidade, pois é comum, extremamente comum se verem os caminhoneiros estacionados nas áreas de descanso, preparando suas refeições ou tomando mate.

                Dá gosto de se ver!

                E nós o tempo todo negociando com o tempo, trocando temperatura mais amena por um ou outro chuvisco sem maior importância, mas sempre num ritmo muito bom, diria mesmo, de forte tocada.

                No soar das doze badaladas do sol a pino começamos a sonhar com uma boa milanesa, que ficou eleita como nossa prioridade principal e objeto de pesquisa a partir daquele momento.

                Finalmente, após algumas alternativas serem descartadas pelas mais variadas razões, acabamos chegando a Nelson, uma pequena cidade localizada um pouquinho além do meio do caminho, onde após lambermos os dedos, estávamos prontos para iniciar a segunda etapa deste dia.

                Durante o trajeto uma preocupação nos acompanhava, pois havíamos combinado com um casal de amigos, Juan e Eluise, ele argentino cordobês, que moram em Bal.Camboriú, de nos encontrarmos em Córdoba, a partir desta segunda-feira, pois apesar de terem saído alguns dias depois da nossa partida, também vieram de moto.

                O detalhe é que ficamos sem o endereço deles para manutenção do contato.

                Como acabamos desfazendo nosso trato com o tempo, este último terço da viagem foi feito de novo daquele jeitinho que o diabo gosta, agora sob um calor intenso, como o de uma sauna seca, a todo vapor.

                Entretanto, não podemos deixar de registrar os contrastes desta Argentina, por vezes pujante com o sangue verde no tom agrícola correndo dentro das suas veias arteriais, altamente oxigenado, irrigando uma parte importante da economia, nos enche os olhos pelas imensidões dos seus campos de soja, milho entre outros grãos nobres, que ficam ofuscados pela beleza dourada das espigas dos tapetes de trigo, nos dão uma sensação de conforto e de riqueza, somente superadas pelo sangue escuro, das vastidões petrolíferas da Patagônia, bombeando dia e noite petróleo nas beiras das praias de Comodoro Rivadávia e Caleta Olívia, outro capítulo à parte deste país muito particular, com a letargia de nos chamar atenção, destas pequenas e médias cidades que vamos encontrando ao largo das rodovias.

                É como se tivessem como a principal indústria destas cidades, o Lá Tinha Ilimitada, talvez o braço mais visível da ladeira abaixo a que se submeteu o país, que a curto prazo não vislumbramos saída, pois nos deparamos com um povo, que diferentemente do nosso, não habituado ao conforto e aos prazeres que o dinheiro pode oferecer, aparentemente se entrega ao desânimo, esperando que os fartos anos de um passado cada vez mais distante voltem como num passe de mágica, para resgatá-los desta prostração que os aprisionou e que mesmo assim, por mais paradoxal que possa parecer, continuam se mostrando alegres, receptivos, vibrantes e mais do que nunca identificados com nosso modo de vida, em cima de uma moto.

                Não sabem o que fazer para agradar, deixando isto registrado de uma forma sempre muito sincera, quando desejam que desfrutemos nossa aventura, como se fossem eles mesmos, os protagonistas.

                Sentimos e recebemos estas vibrações de forma muito positiva, fraterna e estimulante.

                Bem, e o nosso amigo Juan?

                Hospedados no Córdoba Plaza International Hotel, fomos direto à lista telefônica para entre os Sabatini e Sabattini, começar a loteria para identificação de algum parente que pudesse nos dar notícias do casal.

                Após pequeno período de incorporação de Sherlock, identificamos uma irmã de Juan, que muito alegre, ficou de repassar nosso endereço, fato que acabou acontecendo por volta das 9 h da noite, nos encontramos num restaurante simpático a poucos passos do Hotel, encontro este que virou confraternização por longas e agradáveis horas.

                Porém, nada mais apropriado que o título de hoje, porque depois que voltamos para o hotel, sentei-me como de hábito, na frente do teclado e após algum tempo dedilhando estas mal traçadas, por um destes mistérios da informática, principalmente para os poucos iniciados, como é o meu caso, cadê Juan e a história de hoje?

                Sumiram, entre os diretórios a,b,c, arquivos, pastas e lixeiras, tudo o que havia escrito e eu, alucinado, sem conseguir encontrar este Juan cibernético, fui deitar, arrasado, decepcionado e frustrado, sem entender que tipo de nó eu havia dado no computador.

                Após algumas pesquisas para tentar identificar este modelo, cheguei a conclusão para meu gáudio, de que eu havia inventado um novo nó, batizado imediatamente pela Ângela, como nó de burro.

                Valeu querida!
                Última edição por Dolor; 03-10-14, 21:22.

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                • Dolor
                  Fazedor de Chuva

                  • Mar 2011
                  • 3250

                  #9

                  Capítulo 8 – Praia Cordobesa


                  Depois do nosso jantar-encontro de ontem a noite, combinamos de nos reencontrar por volta das 9:30 h em nosso Hotel, para passearmos juntos, uma vez que teríamos o prazer de conhecer Córdoba, com um verdadeiro guia cordobés.

                  Na hora marcada, lá estávamos no salão de café, onde após os cumprimentos de praxe, fomos envolvidos por aquela sensação gostosa de se estar reunido com pessoas da casa da gente, não importa a extensão dela, se país, estado ou cidade, porque o que vale é a atmosfera deste tipo de aconchego.

                  E literalmente em casa, fizemos aquela "mala" durante a arrumação da moto, estacionada na vitrine do Hotel, cumprimentando um, dando uma explicação para outro, sorrisos e fotos, fico pensando que realmente as celebridades precisam ter uma preparação psicológica muito grande para não começarem a pensar que podem mudar a rotação da terra, pois tenho a impressão que o próprio público, carente e por vezes acreditando que isto é possível, se projeta nos seus ídolos, que alimentado pela mídia, alimenta o personagem principal, e o círculo se fecha, faltando somente se saber qual a intensidade do foco deste tipo de luz, e o tempo, que pacientemente aguarda o fim desta queda de braço, nunca poupando vítimas.

                  Após nossa exposição embaixo deste foco de luz, digamos, de uma lanterninha, e "posudos" tais quais os reis da cocada preta, seguimos Juan, até a casa do Bébi e da Marta, ele uma figura bastante conhecida pelos motociclistas de toda a região, porque é o mecânico mais antigo de Córdoba, com todas aquelas características peculiares dos profissionais argentinos, de uma época que infelizmente não deverá voltar mais.

                  Talvez pudéssemos dizer que é neste campo, um tipo..., "o último dos moicanos".

                  Tranquilo, de fala mansa, detalhista, mãos e oficina limpas, como convém a um bom profissional, de imediato me trouxe à lembrança, observações que meu Pai fazia, há mais de quarenta anos, quando afirmava que um bom mecânico deveria trabalhar de terno branco, que com as devidas adequações, é a teoria colocada na prática pelas fábricas da Honda pelo mundo afora, assim como a sua rede de concessionárias autorizadas, que tem como cor dos seus uniformes, o branco.

                  Valeu meu Pai!

                  Seguimos então, os três casais, rumo a região serrana de Córdoba, mais precisamente a um conjunto de cidades, dique e lago que compõem o Valle de Punilla, de uma beleza ímpar e que durante o verão, feriados e finais de semana, se transforma na "praia" dos cordobeses, com um movimento de dar inveja à nossa Balneário Camboriú.

                  Boas lembranças, também, nos vieram durante este percurso, como por exemplo, a apresentação de uma dupla de tradicionalistas argentinos que tivemos a oportunidade de assistir em Bariloche, que havia ganho o primeiro lugar no famoso festival da tradição Argentina, de Cosquín, que arrancou somente com esta menção, aplausos extras de reconhecimento da plateia que naquela casa de espetáculo se encontrava, e nós, infelizmente sem o devido conhecimento deste detalhe, de repente, nos deparamos depois de alguns milhares de quilômetros, com o palco, objeto de desejo de todos os artistas desta área, sabem onde?

                  Em Cosquín, que faz parte deste vale, juntamente com outras pequenas cidades cujos limites se perderam há muito, formando um só bloco, quando não se percebe se estamos em Cosquin, que voltaremos um dia durante o mês de janeiro para acompanharmos este festival, ou Valle Hermoso, ou La Falda, entre outras, tendo certeza, porém, dos limites da cidade de Carlos Paz, estrela que mais brilha neste conjunto, ou melhor se dizendo, é a "melhor praia" da região.

                  É uma profusão de gente, de todas as idades e origens, de bares, restaurantes, cyber cafés , confeitarias e muita alegria, ficando difícil de se imaginar que fora deste círculo, é a impressão que se tem, que o circo está pegando fogo, ou melhor ainda, que já está faltando fogo para o circo queimar.

                  Com todas estas opções, fomos parar num pequeno restaurante a beira da estrada, que somente os nativos conhecem, onde entre empanadas únicas e um bom "pollo asado", nos esbaldamos a "charlar" de abobrinhas, sexo dos anjos, e é claro, de motos, lembrando que o Bébi fez um horário especial de trabalho para poder ficar conosco, extremamente puxado, abrindo a sua oficina as 6: 00 h da tarde, e trabalhando o coitado, que nem louco, sem praticamente intervalo para descanso, a não ser por umas três ou quatros rodadas de chimarrão, até as 7:00h.

                  Ufa!

                  E assim, por estes e outros exemplos, a Ângela e eu já chegamos a uma conclusão; os argentinos mamaram a vaca toda.

                  E gostando de verdade desta gente, terminamos nosso dia depois de outros bons papos pelos barzinhos e sorveterias, outra mania dos argentinos, na casa do Bébi e da Marta, que ainda nos serviu empanadas para que pudéssemos encerrar o dia, quer dizer noite, pois já era praticamente 11: 00 h e exaustos, pegamos o caminho de casa para podermos descansar e começar tudo isto de novo no dia seguinte.

                  Bem, aí é outra trabalheira danada!

                  Olha gente, vocês não sabem como é bom ir para o Alasca!

                  Está aí uma coisa que eu recomendo pra todo mundo.

                  Coisinha boa mesmo!
                  Arquivos Anexos
                  Última edição por Dolor; 15-10-11, 15:24.

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                  • Dolor
                    Fazedor de Chuva

                    • Mar 2011
                    • 3250

                    #10


                    Capítulo 9 - A Estrada do Céu

                    Digamos que foi uma saída um tanto quanto tumultuada porque as ameaças que vinham sendo feitas, e de certa forma sendo cumpridas, ainda que em partes, acabou acontecendo e o céu aproveitando um descuido, veio abaixo, num pé d'água como há muito não víamos.

                    Como estávamos programados para cobrir o trajeto que nos separava de Mendoza, deu pra sentir a responsabilidade?

                    Não nos atemorizamos e devidamente equipados, encilhamos a Bonitona e pé na estrada, quer dizer dentro d'água, uma vez que o sistema pluvial de Córdoba sentia uma dificuldade imensa em fazer escoar todo aquele "aguaredo".

                    Alias, é bom que se frise, que se nada de melhor acontecer, tenho a sensação de que estarei enriquecendo a nossa já milionária língua pátria, com a criação de novas palavras, como por exemplo: "aguaredo", que nada mais é do que um bando de água, louca para estragar o que vê pela frente e incomodar a vida de um monte de pessoas.

                    Imaginem só o que é um bando de água e vejam onde é que estávamos metidos.

                    Com meia embreagem acionada e meio acelerador roncando, nos metemos dentro daquele aguaredo, agora sem aspas, conseguindo vencer o percurso, que foi acompanhado com suspiros de pânico pela Ângela, que sempre valente e companheirona enfrentou mais esta parada com muita fibra.

                    Confesso que pensei durante aquela travessia, estamos ..., bem este é um espaço liberado para todas as idades e não convém se baixar o nível.

                    Graças a Deus, já livres do perigo maior, continuamos nossa viagem com destino a Mendoza, não rodando como convém, mas sim, eu diria que deslizando e por vezes escorregando, uma vez que o asfalto que liga estas duas cidades e pela rota que escolhemos é pouco abrasivo e quando devidamente molhado pela chuva intermitente que nos acompanhava, transformava a rodovia quase que numa pista de patinação.

                    E assim foi até praticamente metade do caminho, entre Rio Cuarto e Villa Mercedes, quando ao empalmarmos a ruta 7, lembranças do nosso velho Road Captain Tex nos vieram à tona, pelos bons momentos que nesta rodovia vivemos em companhia do Della, quando da minha primeira ida à Santiago.

                    E foi justamente neste trecho da 7, quando se têm a impressão de que se houvesse um caminho rodoviário para o céu, sem dúvida nenhuma ele passaria por aqui, não só pelo seu azul celeste, por este sol poente que resplandece enquanto se deita como que querendo bem sinalizar este caminho celestial, esta Ruta 7 se perde no horizonte, justamente quando toca este céu, que um dia todos gostaríamos de habitar.

                    E é aqui que ainda encontramos a terceira via, ou melhor, a terceira veia da Argentina, esta pulsando de verdade o sangue na sua cor tradicional, composto por glóbulos vermelhos e brancos das melhores cepas do mundo, e que como testemunhas oculares, presenciamos incontáveis caminhões carregados destes glóbulos, que em plena festa da vindima, apressavam-se em transformar frutas tão preciosas em néctares saboreados e apreciados em praticamente todas as mesas da Argentina e deste mundo de Deus afora.

                    E Mendoza estava ali, novamente a nossa frente, suscitando de novo o questionamento que me faço sobre esta cidade, todas as vezes que aqui chego, para saber e tentar chegar a uma conclusão: se Mendoza foi criada dentro de uma floresta ou uma floresta é que se criou dentro da cidade, nos dando sempre a sensação de se estar dentro de um bosque, a procura da melhor árvore para ali estendermos nossa toalha xadrez, abrirmos a cesta de lanche e deixarmos o tempo passar.

                    Pode ter coisa melhor na vida?

                    A lamentar somente que nossa estadia neste bosque seja tão curta, pois necessitaríamos de pelo menos uns três dias para melhor aproveitarmos esta pérola, ou melhor, esta uva Argentina, justamente agora, quando festeja a sua vindima, atraindo gente de todo o território nacional, brasileiros em profusão e irmãos de vários países, aqui da nossa América.

                    Mas a agonia de se por a bunda na estrada é tão grande que não nos permite um dia sequer a mais para se aproveitar estes festejos que também acontecem em praça pública, como por exemplo, nesta noite, na Praça Itália, acompanhados de desfiles pelas principais avenidas da cidade.

                    Um espetáculo que merece ser visto e agendado para o ano que vem, e nós, olha "nóis" aqui, sentados numa confortável mesa no lindo Restaurante Estância La Florência, a saborear talvez, o melhor bife de chorizo que já comemos em nossa vida, e a Ângela me cutucando e perguntando?

                    Querido, podes me dar um pouco mais de sangue?

                    E eu...hã, hã...vou é te fazer uma transfusão logo, logo.
                    Arquivos Anexos
                    Última edição por Dolor; 11-10-11, 14:11.

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                    • Dolor
                      Fazedor de Chuva

                      • Mar 2011
                      • 3250

                      #11


                      Capítulo 10 - Ela

                      Se fomos atraídos pela porta da frente quando chegamos em Mendoza, a saída pela porta dos fundos, foi um negócio ainda mais estonteante.

                      Diria que nada a ver com todos os sentimentos e adereços que a chegada nos proporcionou, porque de maneira geral, não podemos comparar e nisto acredito que todos concordamos, que a obra humana por mais especial que seja, em nada se compara com as obras Divinas. E por aqui, Deus que aparentemente só falava castelhano, para desespero de nós brasileiros que pensamos somente nesta nacionalidade para o Senhor, temos que concordar que Ele foi extremamente generoso com este pedaço do mundo.

                      Tenho até a impressão que para cria-la, o Senhor utilizou mais do que uma costela, com certeza utilizou toda a "aba" de Adão e abusou dos predicados nela, pois de mansinho, ao sairmos em direção à Santiago, no Chile, se começa a vislumbrar seus primeiros contornos, insinuantes, ingênuos e levemente atrevidos, atraindo sem distinção, todos os que dela vão se aproximando.

                      Devagarzinho e sem se perceber, atraídos pelas suas formas sinuosas, porém simples como convém aquelas que verdadeiramente são belas e conscientes do poder das suas belezas, vamos contornando aquelas curvas saborosas, nos apaixonando de maneira incontrolável e como convém aos amantes, vamos mergulhando de cabeça nesta paixão típica dos apaixonados à primeira vista.

                      É aquela velha história de que quando se bate o olho, se diz: não tem jeito, é com esta que vou me abraçar.

                      De todas as cores, dos pastéis aos tons terra, por vezes quase negra, entremeada por mechas brancas, alvas, perfeitas, ora próximas, ora distantes, como que querendo tornar-se mais difícil, e isto ela sabe fazer como ninguém, chegando ao extremo de levar seus apaixonados à morte, tornando-se fria , extremamente fria, se diria mesmo que reservando-se a poucos, muito poucos mesmo aqueles que tiveram o prazer de tocá-la na sua intimidade, mesmo que para isso lhes fosse cobrado como pagamento, partes dos seus corpos, ela mantém-se lá, altiva, por vezes solitária, quando lhe convém, chorando por seus mortos, que depositados aos seus pés, descansam o sono eterno.



                      Sente-se lá neste cemitério, um ar de um certo gostinho de satisfação destes heróis anônimos que jazem voltados para ela, que como uma noiva em dia de gala, firme e resoluta, aguarda a chegada dos seus novos pretendentes.

                      Para aqueles que por covardia, sujeitam-se como nós, a contatos mais superficiais, resta sempre o prazer indescritível de beber um pouco das suas lágrimas frias, gélidas, porém cristalinas, que nos saciam e nos lavam a alma, que com abundância jorram pelas sua faces.

                      Sua respiração normalmente é forte, por vezes querendo expulsar seus conquistadores, por vezes cálida e quente, como querendo que esta aproximação se concretize.

                      Que espetáculo maravilhoso é pilotar por entre aquelas faces, ora lisas, escorridas, afastadas, ora densas, enrugadas e envolventes.

                      Que sensação mágica esta de se estar de repente escondido dentro das suas entranhas, que daí então, tornam-se ainda mais ameaçadoras querendo ao mesmo tempo em que nos puxa para dentro, com a mesma força e sentimento, nos expulsar para fora.

                      Única, em função do seu primitivismo, da sua agressividade, do seu humor e do seu gigantismo em relação a sua irmã de sangue azul europeia, é a preferida e a escolhida para ser percorrida, tocada e conquistada por aventureiros do mundo inteiro.

                      Temos o prazer e a satisfação de já termos percorrido grande parte deste corpo escultural, e que não saciados, a seguiremos até os seus limites do norte, porém, com os melhores sentimentos quando percorremos seu coração, seu centro nervoso neste pedaço de paraíso, onde suas lágrimas tem o seu divisor entre a Argentina e o Chile, lá em cima, bem pertinho do céu, onde o Cristo Redentor recebe também o nome de Túnel, nós aproveitamos desta proximidade com o céu, para agradecer mais uma vez a este Senhor, por mais esta oportunidade que nos dá de nos deliciarmos e de vivermos estes momentos raros das nossas vidas, nesta Cordilheira dos Andes, obra preciosa e prima da Sua criação, que ali não poupou esforços, para deixar para nós, humanos, uma prova incontestável da Sua existência.

                      E assim, chegamos a Santiago, relativamente próxima de Mendoza, 350 quilômetros, no inicio da noite, porém, felizes e em paz por mais este dia vivido e abençoado.

                      Com relação ao Chile e a Santiago, bem, isto é assunto para depois, porque agora o que queremos é ficar em silêncio, absorto nos nossos pensamentos e exauridos pelas emoções deste dia que já está impresso em nossos corações.

                      Psssss... e até amanhã!
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                      Última edição por Dolor; 11-10-11, 13:58.

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                      • Dolor
                        Fazedor de Chuva

                        • Mar 2011
                        • 3250

                        #12


                        Capítulo 11 – A Mordomia

                        A nossa chegada em Santiago, diferentemente das outras vezes, foi extremamente tranquila, até pelo avançado da hora em relação ao rush de uma capital movimentada como esta.

                        Dá-lhe movimento!

                        Penso inclusive que uma das profissões mais rentáveis em Santiago, deva ser a de médico cardiologista, porque vejo este povo muito estressado no trânsito.

                        Foi inclusive aqui no Chile que se conseguiu pela primeira vez mensurar com precisão e resolver uma dúvida atroz da humanidade, em dimensionar exatamente de maneira compreensível e inteligível quanto tempo é meio segundo: e chegou-se a conclusão, observando os motoristas daqui, mais precisamente de Santiago, que meio segundo é exatamente o tempo necessário para estressado que está atrás de ti buzinar quando abre o sinal.

                        É o máximo e eles não falham!

                        Abriu o sinal, meio segundo e eles já buzinaram.

                        Acho tudo isto uma festa!

                        Por outro lado, como sempre, em se chegando em alguma cidade, a prioridade número um é se localizar um hotel, para de imediato largar a "tralharada", tomar banho e sair para jantar, não importando quanto tempo tenhamos ficado em cima da moto.

                        Pelo pouco que conhecemos de Santiago, foi moleza chegar até a Praça de la Moneda, local finíssimo da capital, até porque lá se encontra o palácio do governo que empresta o nome à praça, ou é a praça que empresta o nome ao palácio? Não importa, pois o Palácio de la Moneda está lá, com linhas bastante simples, sem frescura para visitação, com o Presidente Ricardo Lago chegando "solito", acompanhado somente por um ajudante de ordens, saudando os transeuntes e aqueles que lá foram para cumprimentá-lo, bem, vamos colocar ordem na casa, pois isto foi o que aconteceu no dia seguinte deste relato.

                        Volto à chegada na praça e na procura de um hotel para o devido descanso do esqueleto.

                        É que nesta praça, entre outros prédios importantes, se encontra o famoso Hotel Carrera, cuja história contemporânea se confunde com a do próprio Chile.

                        Este hotel entre outras passagens, testemunhou a ascensão de Salvador Allende, assim como da sua deposição, da tomada do palácio pelas forças revolucionárias, do suicídio do dito cujo, ou não, presenciando ainda hoje, a enorme quantidade de flores que são depositadas todos os dias na estátua do falecido, diferenciando-se esta, desta forma, das estátuas dos outros presidentes, que lá também estão erigidas.

                        É um hotel imponente, nobre, de linhas clássicas, onde o capitão-porteiro foi elevado a categoria de general-porteiro, e todo "misurento" nos acompanhou escadaria acima rumo a recepção, não sem antes ter feito, ele e o seu batalhão, uma série de perguntas sobre a Bonitona que reuniu em nossa volta, evidentemente, uma boa roda de nobres e pobres, me fazendo sentir o rei da cocada preta.

                        Tapetes persas, lustres de Baccarat, arandelas de Murano, panneaux de Gobelin, estofados de couro, já amaciados pelo tempo, portanto uma delícia, e eu todo fardado, que segundo um engraçadinho que estava pelas redondezas me soltou esta: "mas mire, este Señor tiene mas insígnias que Pinochet"! Pensei, esse cara me reconheceu de algum lugar!

                        Bem, finalmente lá estou eu falando com o recepcionista num legítimo “portunhol”:

                        "Hay vaga para um matrimonio"?

                        "Si, claro que si".

                        "Me gostaria de mirar la habitación"?

                        "Si, como no"!

                        De imediato chamou um ajudante de ordens, que pelo fardamento deveria ser alguma coisa parecida com um tenente, me acompanhou fazendo a apresentação das facilidades à disposição dos hóspedes, quando finalmente chegamos ao apartamento, confortável, rico e lindamente decorado, pensei; é deste tipo de mordomia que estamos precisando. Me dei bem na vida mãe!

                        Ao retornarmos à recepção, me perguntou o chefão:

                        "Todo bien señor"?

                        "Si claro, mui bien. Muy rico el hotel"!

                        E nesta altura do campeonato eu com toda aquela panca, perguntar preço, nem morto.

                        Mas arrisquei meio que por um fio de voz:

                        "E cuanto sale la habitación"? Aquilo me pareceu uma heresia, pero, plata es plata!

                        Com a voz bem postada, me disse: "sale"....

                        Confesso que tonteei, quase tive um troço, mas como papa siri não berra, mantive a linha, tentei manter o tom grave da voz, mas a triste me sacaneou e em falsete consegui balbuciar:

                        "Voy hablar com minha señora y vuelvo".

                        Era a hora exata para cantar de galo e dizer em alto e bom tom:

                        "Dá-me dos"! Mas não deu.

                        Corri para a moto e a Ângela coitada, sem nada entender, me perguntou:

                        Que tal o hotel, bacana?

                        Vamos sair devagar para não dar a impressão que estamos fugindo! Não é para o nosso bico!

                        E assim, para acabar esta história, nos hospedamos num hotelzinho bem simpático na Calle Compañia e já de madrugada dedilhando este relato do dia, deixei acabar a bateria e quando peguei o cabo para conectar o micro...? A tomada ao lado da mesa de cabeceira tinha os furinhos mais estreitos que os pinos do macho, portanto, doido da vida, estou finalizando o dia de hoje, sentado no sanitário para poder terminar de escrever, com um barulho horrível do exaustor, típico de hotel de pobre que liga quando a gente acende a luz.

                        E o disquete?

                        Onde foi que eu enfiei o disquete para fazer a gravação deste relato?

                        Não, não vamos pensar em sacanagem!

                        É mole ir para o Alasca?
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                        Última edição por Dolor; 11-10-11, 10:59.

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                        • Dolor
                          Fazedor de Chuva

                          • Mar 2011
                          • 3250

                          #13


                          Capítulo 12 – “Bobiça”



                          Depois da mordomia frustrada com relação a nossa hospedagem em Santiago, é importante que se relate a calmaria deste dia seguinte, que correu manso como água de lagoa.

                          Santiago, como toda capital e cidade grande, traz consigo todos os problemas que afligem as metrópoles, entretanto, continuamos sentindo-a muito tranquila, onde tivemos oportunidade de circular a pé, para melhor conhecer e sentir o ambiente.

                          Como estamos preocupados com os pneus da Bonitona, fomos a alguns endereços que já conhecíamos e onde também tínhamos alguns amigos, porém, como era esperado, num demos um tiro n'água e outro no barranco.

                          Deixamos portanto, esta preocupação mais para a frente, apesar da pulga estar crescendo atrás da orelha.

                          Nos encontramos com nossos amigos Vitor e Daniela, ele chileno e ela brasileira, vivendo há alguns anos em Santiago e, coincidentemente, esta foi a segunda vez que viemos para cá no momento em que ele partia para o Brasil.

                          Desta vez quando liguei, o Vitor já estava em cima da moto seguindo para Foz do Iguaçu, com seu primo, e mesmo assim, gentilmente, vieram ao Hotel nos cumprimentar e deixar a Daniela para fazer algumas voltas com a Ângela, na tentativa de nos ajudar a resolver o quase insolúvel problema de transferência de imagens, ou seja, mandar as fotos que temos feito para o nosso site.

                          Como a Daniela iria viajar para o norte do Chile naquele início da tarde, com a barriga vazia, fomos almoçar no excelente El Novillero, que se encontra sabem aonde? Na Calle de la Moneda, bem próximo daquele Hotel.

                          Quando atravessávamos a praça, o fazendo de costas, parece que escutei alguém falando: não é aquele bonitão da moto?

                          Fiz de conta que não era conosco dei uma assobiada e nos mandamos.

                          Depois de perambularmos pela cidade, revendo os seus pontos turísticos, deixamos o tempo passar daquele jeito que a gente gosta, sem fazer nada.

                          Coisa boa!

                          Resumidamente, para não me alongar neste nada, passamos daí então para nossa saída de Santiago, com destino à La Serena, numa manhã fresca e agradável para se andar de moto.

                          Fizemos a opção por Valparaiso e Viña del Mar, absolutamente unidas sem limites territoriais, ligadas a capital por uma excelente rodovia.

                          Nota 10.

                          Tenho a impressão de que o Chile vai muito bem, apesar de continuar achando também que aqui como aí, quem tem, está com cada vez mais e quem não tem, bem, estes estão... fuzilados.

                          Sente-se isto no ar pois a galera dos descamisados está cada vez mais feia na fotografia.

                          Nos surpreendeu o intenso movimento no porto de Valparaíso, que a princípio, deixa o nosso, de Itajaí, no chinelo.

                          É força de importação e exportação!

                          Os chilenos resolveram encarar de peito aberto a globalização e os americanos que não são bobos nem nada, após muitos anos de negociações, criaram o livre comércio entre os dois países. Isto quer dizer que já começaram a cruzar fogo.

                          Está bonito de se ver!

                          Bem, seguimos nosso caminho por uma rodovia secundária com bom asfalto, vistas maravilhosas, praias lindas, condomínios luxuosos, para aquela turma dos que tem cada vez mais, e uma sucessão de Balneários de fazer inveja à qualquer país civilizado, sem destacar nenhum em especial, porque cada um carrega uma particularidade, portanto, podem seguir sem medo de errarem a direção de La Serena, via Concón, cujo nome achei muito sugestivo como marca de roupa.

                          Se alguém correr para pedir o registro, não vale, porque já estou fazendo uma busca da viabilidade.

                          Ah! Em último caso, tem uma segunda opção, porque acabamos de passar por um lugarzinho que se chama Cocudo.

                          Que tal?

                          Indo em frente, com ela, a Cordilheira transformando-se em encostas, as mais espetaculares possíveis, com recortes indescritíveis que entre outros passam por Las Ventanas, Cachágua, Papudo e terminando em Punta Puyai, sensacional, segue-se em direção a La Lígua, onde a excelente autopista 5 nos leva até o nosso destino do dia, La Serena.

                          Chegamos lá com a noite já tombada depois de percorrermos praticamente 600 km por este roteiro.

                          Se alguém se perder em alguns dos lugares que mencionei, faz parte da emoção do negócio, porque em nenhum momento pegamos o mapa para conferir roteiros.

                          É pura emoção!

                          O importante é que chegamos lá, conversando com um, pegando informação com outro e por incrível que pareça, não demos até agora, como de praxe, uma volta sequer na quadra, por estarmos perdidos.

                          Tem sido genial!

                          Depois de circularmos pela cidade, fomos direto para a praia, que leva vários nomes, de acordo com o que tem na frente como referência e onde também como de costume, entramos e saímos de vários hotéis, até encontrarmos um que nos agrade em todos os sentidos, especialmente aquele do bolso.

                          Novamente tivemos muita sorte, pois elegemos um hotel que se chama El Canto D'água, de frente para o mar.

                          Como havia um grupo da terceira idade hospedado, fomos integrados naquele ótimo astral, onde jantamos, dançamos e chegada a hora de dormir, o apartamento de frente para o mar fez a diferença, pois como estava frio e a noite já avançava, aquela música que saia das caixas de som incentivava a velhinha a se encostar no velhinho, que conversa vai, conversa vem, ah! gente, o pau pegou mesmo e pra valer, aqui deste outro lado desta nossa América sensacional.

                          Até amanhã porque não somos de ferro e a carne é fraca.

                          Boa noite.
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                          Última edição por Dolor; 11-10-11, 00:40.

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                          • Dolor
                            Fazedor de Chuva

                            • Mar 2011
                            • 3250

                            #14
                            Capítulo 13 - Sol Nascente, Sol Poente


                            Chegou finalmente o dia de começarmos a encarar o inóspito Atacama, que há muito nos fascina, objeto de filmes e de histórias, agora diante de nós, pronto para ser vencido ou em último caso, nos vencer, mesmo que isto fosse um fantasma que procurávamos afastar a qualquer custo.

                            Manhã limpa, clara, nota dez para se pegar a estrada e "motociclar".

                            Rodar macio, pensando na vida, revivendo os bons momentos vividos, o começo das nossas vidas, os nossos trinta anos de casamento, as dificuldades pelas quais passamos e, é claro, o melhor, as alegrias compartidas.

                            E para isso nada melhor do que a gente refletir, especialmente nestes momentos de silêncio que são exclusivamente nossos e que por alguma mágica, neste caso em particular, percebemos que estávamos pensando, a Angela e eu, sobre as mesmas coisas, o que nos deixa por vezes, pasmos pela coincidência dos assuntos, neste universo infindável pelo qual navegam nossas cabeças.

                            É incrível, porém gostoso, estarmos afinados por um diapasão tão imperceptivelmente ajustado.

                            Silenciosamente íamos adentrando neste deserto, que apesar da abundância da água do Pacífico que lhe banha as costas, tem a água vinda dos céus como uma dádiva rara.

                            Avançando pelas suas entranhas, ora num Atacama como que enfurecido se lançando mar adentro, insatisfeito com a sua aridez, ora este Pacífico majestoso e condoído com este seu vizinho, porém, sem se intimidar, revidava tomando-lhe partes que se transformavam em baias e "caletas" de rara beleza.

                            Nesta parte inicial, ainda vemos e percebemos que a vegetação há muito vem rareando, deixando-se vencer pela força escaldante do sol, da secura do solo e pela barreira implacável da Cordilheira que a tudo assiste, comovendo-se muito pouco com todo este espetáculo, deixando correr por fios d'água gelados, este seu sentimento.

                            E assim continuamos nossa trajetória que teve início em La Serena tendo como destino Chañaral, com uma distância a ser cumprida de 700 km de Atacama.

                            Tudo correndo normalmente, com lembranças da nossa passagem por esta região no final do ano de 2001, que distante vai ficando, como tudo aquilo que vivemos, até porque a rapidez com que as coisas tem acontecido, vão a bem da verdade, nos deixando aturdidos, nos obrigando em tudo o que fazemos a colocar não somente mais o dia e o mês do evento, mas sim o ano, que implacavelmente, tem passado mais rápido do que os próprios meses ou mesmo, os dias.

                            Na realidade nos lembramos dos fatos, dos momentos dos acontecimentos, porém, vamos ficando não só vítimas, como reféns do ano destas lembranças.

                            Rapidamente chegamos em Copiapó, que ao contrário daquela passagem anterior, onde quase literalmente nos derretemos de calor, estava este ano, não diríamos fria, mas agradável de ser superada.

                            Entretanto nossas cabeças estavam mesmo era em Chañaral, porque sendo domingo, nos lembrávamos dos nossos amigos do "escritório", nome que damos ao nosso local de encontro em Balneário Camboriú.

                            Para um melhor esclarecimento, o que chamamos de escritório, nada mais é do que uma sorveteria que se chama Palatto e que nos dá acolhida durante os fins de semana do ano inteiro, onde orgulhosos das nossas motos, as estacionamos lado a lado e de frente para nós, que cheios de histórias, passamos as tardes a conversar, a conviver e a nos divertir.

                            Ali tem sido o ponto de encontro de todos os nossos finais de semana, quando entretidos, não percebemos que o sol se põe bem atrás de nós, e este bem atrás de nós, neste momento estava bem a nossa frente, com aquele mesmo sol que com nascente Atlântico, tem seu poente Pacífico, justo ali onde estávamos, em Chañaral...

                            E aquela vontade de abraçar os nossos filhos e os nossos amigos, foi a mão que acelerou, vencendo aqueles quilômetros faltantes para que pudéssemos nos abraçar, uma vez que estávamos no mesmo meridiano.

                            Então com este pôr de sol, que neste momento se entregava ao Pacífico, ligamos para os nossos amigos e pedimos que dessem as suas costas para o Atlântico, que nós faríamos o mesmo com o Pacífico, e frente a frente, ignorando os Oceanos, e vencida a Cordillheira, agora já sem nenhuma resistência, nossos abraços cruzaram o Chile, Argentina, Paraguai e Brasil, para estreitos, se encontrarem carregados de emoções, carinho e saudade.

                            Foi um momento muito especial e muito íntimo.

                            E nesta Chañaral, agora irmã, encontramos um pequeno oásis que nos acolheu, para nosso descanso e recuperação de energias, onde cedo, e este era o nosso propósito para o dia seguinte, enfrentarmos a parte mais extrema do deserto do Atacama.

                            Haja coração.
                            Última edição por Dolor; 11-10-11, 14:11.

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                            • Dolor
                              Fazedor de Chuva

                              • Mar 2011
                              • 3250

                              #15
                              Capítulo 14 – Do You Wanna Dance?

                              Agora foi pra valer.

                              De manhã cedo, porém não muito, nos preparamos, assim como a Bonitona, com uma ansiedade típica das grandes aventuras.

                              Primeiro porque nos demos conta de que estávamos longe de casa, diria mesmo que estávamos bem longe de casa, com todas as sensações típicas de quem está em outro país.

                              É natural, basta atravessar qualquer fronteira para que o coração bata acelerado.

                              E hoje não estava sendo diferente.

                              País distante, alguns milhares de quilômetros longe da toca e nós no meio do furacão.

                              A Cordilheira se apresentava em cores pastéis, com alternâncias para os tons terra, os avermelhados, acinzentados e cada vez menos para o verde.

                              Esta era a única cor que com certeza não veríamos pelos próximos quilômetros, centenas deles, para ser mais exato.

                              E para nos presentear, presente raro, fino mesmo, fomos brindados em nossa saída de Chañaral, com um fenômeno do deserto, que se chama "chamanchaca", que traduziríamos como uma neblina típica desta região, que tínhamos tido em outras oportunidades presenciado e vivenciado, porém, com uma característica diferente das demais, pois esta trazia consigo uma carga maior de água, que num português mais claro, deixou tudo molhadinho.

                              A impressão que se tinha era de que havia chovido mas isto não era verdade.

                              A tal da “chamanchaca” havia sido muito forte e consequentemente tudo estava orvalhado, inclusive o asfalto, que reluzia.

                              Assim pegamos de novo a “ruta” 5 e felizes da vida com a "chuva", fomos em frente, Atacama puro, em direção à San Pedro, que lhe toma o sobrenome, este verdadeiramente, o coração deste deserto.

                              Mas isto é história para frente.

                              Com aquele mar de areia, montanhas, pedras e cores, numa disputa interminável com o azul límpido do Pacífico, nossos corações pulsavam em nossos peitos com uma alegria enorme, embevecidos com tamanha beleza, com tamanho presente da mãe natureza, nome que Deus se apresentou aqui por estas bandas, sorvíamos cada metro desta estrada num prazer inigualável, com nossas cabeças, ora pendendo para um lado, ora para outro, buscando sempre um melhor ângulo deste espetáculo.

                              E é claro, após termos ouvido por longos minutos, o silêncio do deserto, que nos levava a agradecer a Deus por mais esta oportunidade que nos proporcionava, aos nossos Filhos, simplesmente por serem nossos, por serem a materialização de tudo aquilo que sempre sonhamos, aos nossos Pais, lutadores, dedicados e tão precocemente partidos, as nossas Mães, figuras presentes em nossas vidas, exemplo do que gostaríamos de ser, aos nossos Amigos, queridos e ativos em nossas vidas, passamos a ouvir então as melodias vindas de todos os lados, sejam trazidas pelos ventos que são soprados pela cordilheira, seja pelos seus concorrentes vindos do Pacífico, que traziam histórias de vida e de morte, de séculos de aventura por estes lados da terra.

                              Bem no fundo, lá no fundo, ouvimos um convite para que aproveitássemos este imenso palco, demarcado pela Cordilheira dos Andes envolvida com seus tules, nos dando permanentemente a impressão daqueles cenários das peças de teatro dos tempos de escola, quando sequências de montanhas e de nuvens pintadas, sobrepunham-se umas as outras em papel camurça, dando-nos aquela sensação de profundidade e que agora tínhamos aquela fantasia, sendo substituída por esta realidade que se apresentava somente para nós, e em assim sendo, com todo este universo exclusivo, chamamos Johnny Rivers e pedimos que cantasse, Do you wanna dance?

                              E sós no meio deste deserto, felizes, dançamos apaixonados, a música das nossas tardes dançantes dos domingos que vão se distanciando neste início do nosso entardecer, vivemos estes minutos inesquecíveis, emocionantes e tocantes da nossa existência.

                              Esperamos que outros apaixonados, se por estas terras circularem, possam também em qualquer época das suas existências, pararem para escutar o silêncio do deserto e se prestarem bastante atenção, ouvirão vindo das dunas que vão e que vem, um convite silencioso perguntando: Do you wanna dance?

                              Assim, embalados por estas belezas áridas, cumprimos mais um trajeto de 700 km de pura emoção e magia que nos levou de Chañaral até San Pedro de Atacama, com direito a almoço em Antofagasta, que vale a pena repetir, bem no centro do coração desta maravilha chamada Atacama.

                              É a imensidão do nada, que toca, que emociona e que contagia com as variações de temperatura, a troca de posição dos ventos e a mansidão que apazigua.

                              São as histórias vividas cujos testemunhos continuam e continuarão a lembrar a todos, das lutas vividas nas salitreiras, nas minas de cobre, nas fundições e nos vilarejos, hoje ruínas, que presenciaram uma época de desbravadores e de desafiadores que já partiram há muito, deixando para trás o vencedor altivo e orgulhoso, que continua e continuará a encantar e a desafiar gerações.

                              Valeu Johnny, valeu Atacama!
                              Última edição por Dolor; 13-10-11, 13:53.

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