No Vento com o Sonho

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  • Dolor
    Fazedor de Chuva

    • Mar 2011
    • 3250

    #76
    Capítulo 48 - O toco - 27/06 a 03/07/2003


    Felizmente para quem gosta de pilotar, de andar de motocicleta, o que estamos fazendo é um prato cheio.

    São quilômetros e quilômetros todos os dias, na casa dos quinhentos quase seiscentos, que percorremos com os corações cheios de alegrias e os pensamentos precisando, de tempos em tempos, serem aprisionados um pouquinho para não sumirem nas nossas frentes.

    São horas e horas passadas em cima da moto, em contato direto com esta natureza praticamente intocável, com os nossos corações e sentimentos sincronizados na mesma balada do motor, rodando macio, redondo e nos remetendo neste diapasão fantástico de afinação, ora para os esconderijos das nossas nostalgias, dos desejos, das satisfações e acima de tudo, exercitando o que temos de mais valioso, a nossa paz.

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    É em cima de uma motocicleta que temos estas oportunidades únicas, pois com todos os estímulos recebidos destes elementos da natureza, aliados ao tempo e a solidão compartida é que podemos mergulhar em todos os nossos projetos, desde aqueles já executados até aqueles que fazem parte rigorosamente dos sonhos.

    São exatamente estes sonhos que nos movem, nos proporcionam aquelas ondas de felicidade e de expectativa do que poderia acontecer, nos tendo como figuras ativas.

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    É em cima de uma motocicleta que conseguimos por vezes seguidas, estimulados ou não, a deixarmos as nossas mentes em "stand by", sem pensarmos em nada, sem nos preocuparmos com nada e literalmente deixando a vida correr através de um cabo de acelerador, nossa única ligação entre este mundo particular que é a nossa vida e este mundo onde nossa vida está plantada.

    Como é louca esta relação quando tomamos consciência de que circulamos em cima de um fio de navalha, onde qualquer um destes mesmos elementos desta natureza que nos encanta é ao mesmo tempo um agente que pode conspirar contra nossa presença em seus territórios, nos elevando o "frisson" à níveis quando conscientes de verdade, nas alturas.

    Pensamos que é exatamente aí neste ponto, do desafio, que nos torna todos os amantes desta arte, digamos assim, absolutamente iguais dentre os diferentes.

    Por vezes nos pegamos a nos questionar durante estes longos períodos em que queremos única e exclusivamente ir para frente, enfrentando o desconhecido, os perigos e, sempre tendo como interesse de verdade o fim, aquele lugar onde vamos bater o sino da chegada, babando, entretanto, com o meio, representado pelos caminhos que nos conduzem para estes nossos destinos.

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    E desta maneira na maior parte do tempo juntos, nós e os nossos pensamentos, resolvemos fazer de maneira inversa toda a Alaska Highway, finalizada em Fairbanks, tem o seu início, seu ponto zero em Dawson Creek, Canadá, num percurso de 2540 km, interligando este Alasca longínquo aos seus pares, via Yukon e British Columbia, no Canadá, num percurso absolutamente fantástico, como se estivéssemos fazendo um piquenique no meio das florestas, pois por estas bandas, diríamos que não estão conservadas nem mantidas, porque simplesmente estão intactas.

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    Acelerando bonito, planando por vezes, com paradas obrigatórias para as fotos dos artistas que fazem desta rodovia seus palcos, entre ursos, caribous, mooses, coyotes, cabras montanhesas, esquilos em profusão e corujas entre outros, chegamos neste dia 29 de junho de 2003, em Dawson Creek, marco zero desta histórica rodovia, construída num tempo recorde de pouco mais de nove meses, lá pelos idos do ano de 42, "encagaçados" que estavam os americanos com o ataque japonês a Pearl Harbor, trataram, desta maneira, de "anexar" o Alasca a este bom resto do mundo.

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    Foi num misto de alegria, emoção e respeito que pensamos no povo que pôs mãos às obras nesta empreitada, lutando contra o rigor da natureza, quer seja pelo frio, quer seja pela topografia acidentada ou mesmo pela enorme quantidade de animais, de ursos a pernilongos, pois uma vez passado o inverno, maltratam quem por aqui se atreve a passar.

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    E disto podemos falar do alto das nossas trezentas e oitenta e três picadas que cada um levou entre a nossa ida e esta nossa "frida".

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    Por aqui não precisa se chamar nem pernilongo, mosquito, borrachudo ou seja lá o apelido que se dê para estas seringas voadoras, porque eles vêm sozinhos, não se fazem de rogados, atacam em grupo e se a gente acha ruim, eles vão e trazem os irmãozinhos para bem terminarem o serviço.

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    Não deve ter sido fácil a vida daqueles trabalhadores que nos presentearam esta maravilha para ser desfrutada com tanto prazer, tantos anos depois.

    Obrigado pessoal e descansem em paz, onde quer que estejam.

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    Com paradas em Watson Lake e Fort Nelson, antes deste final desta Alaska Highway, em Drawson Creek, seguimos em frente agora rumo a Edmonton, Saskatoon, Yorkton e Winnipeg, numa outra rodovia toda especial que recebe o nome de Yellowhead Highway, ou Trans-Canadá, cortando o país transversalmente, passando talvez pela sua parte mais rica em termos de agricultura, de energia e de petróleo.

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    São quilômetros, ou melhor dizendo, são centenas deles de campos plantados de alfafa, canola, trigo e outros cereais de um lado e outro desta Cabeça Amarela, isto porque havia, lá pelos idos de 1800, trabalhando numa empresa chamada Hudson’s Bay Company, um índio cujos cabelos eram tão loiros, mas tão loiros, que os franceses passaram a lhe chamar como tal.

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    Pode haver índio galego? Pois é, até isto por aqui é possível!

    Dá gosto de ver ao longo destas propriedades um bocado de poços de petróleo, com aquelas cabeças de burro ou de cavalo, aliás, deve ser de cavalo, porque burro aqui sou eu que não tenho um treco destes dentro de um terreninho na Vila Operária, lá em Itajaí, puxando petróleo as vinte e quatro horas do dia.

    Fico só imaginando a contabilidade do neguinho todos os dias, pensando onde vai e como vai gastar o cacau jorrado para dentro dos seus bolsos na noite passada, nesta, na de amanhã e assim sucessivamente nesta monotonia de dar dó.

    A diferença merecedora de registro é que a viagem mudou de aventura para passeio, com tudo sendo previsível, pois até os buraquinhos na rodovia, ou melhor, projetos, são alertadas com antecedência, havendo inclusive, vou prestar atenção, um tipo de: se tu espirrares daqui a pouco, saúde, tá legal?

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    Bonitas cidades estas Edmonton, Saskatoon e Winnipeg.

    Coisas de primeira mesmo!

    Dá até nojo da nossa pobreza.

    Chegamos a conclusão e somos obrigados a nos curvar que esta turma daqui está muito a nossa frente, mas tanto, tanto, que do jeito como estamos crescendo, igual cola de cavalo, não vamos conseguir chegar a ser nem o cocô do cavalo do bandido deles.

    Nos questionamos o tempo todo sobre qual a química que movimenta este povo.

    Não existe um só segurança em nenhum dos bancos onde fomos fazer câmbio, assim como aquelas portas medonhas de segurança, nas quais somos obrigados a nos despir de forma humilhante para podermos adentrar, não vimos ninguém com cara de estar correndo pra cobrir o "chequinho" do final de semana, as placas de trânsito são simplesmente obedecidas, mesmo que o infeliz esteja sozinho lá nos confins do Judas e isto nós presenciamos por várias e várias vezes, pois se tem um sinal de stop, lá está o danado parado, esperando não sei o que, mas obediente.

    Se a placa indica 50 km/h, pode tirar o pé ou a mão do acelerador porque o teu vizinho da frente já o fez e circula exatamente na velocidade indicada.

    Buzina?

    Não existe por aqui já faz tempo.

    Não sabemos como é o som das buzinas deles.

    Lixo?

    Tás brincando! Tem aos montes, mas tudo rigorosamente no lugar devido, nas lixeiras ao longo das rodovias e em áreas especiais.

    Pressa?

    Quem tem pressa? Também por aqui penso se fosse médico, a única especialidade que não escolheria seria a de cardiologista, porque os neguinhos como estão com uma frente muito grande, só pensam em comer, e aí sim, ganharíamos um bom dinheirinho como endocrinologistas, pois de cada um poderia se tirar por baixo umas duas ou três arrobas.

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    E assim, depois de havermos percorrido nestes últimos seis dias mais de 3.300 km, ou seja, fomos quase todos os dias de Itajaí, SC, a São Paulo, sou obrigado de novo a modificar o título deste capítulo porque por mais lindas que sejam estas pradarias, rochosas e lagos, por mais educados, mais organizados e mais invisível que seja a presença da polícia, pois podemos deixar as nossas bagagens em cima da moto, juntamente com os relógios enfeitando o painel da Bonitona, assim como os capacetes e tudo mais, a saudade é o nosso elemento forte, pois além de nos motivar a continuar nesta jornada rumo a nossa bagunça, sacanagem, insegurança e tudo o mais que nos assola e aflige, não importa, é a nossa casa, e como diziam os nossos antepassados açorianos quando "chegaram lá pelas nossas bandas" no litoral de Santa Catarina, qual é a coruja que não "gava" o seu toco?

    Nós, bem, nós estamos loucos para voltar para o nosso toco.

    Comentário

    • Dolor
      Fazedor de Chuva

      • Mar 2011
      • 3250

      #77
      Capítulo 49 - A cascata - 04 a 07/07/2003

      Lá vamos nós para mais uma jornada em cima da Bonitona, toda contente porque miramos o caminho de casa e diante desta expectativa, temos a impressão de que nunca esteve tão fogosa como nestes últimos dias. Devidamente encilhada, partimos desta maravilha chamada Winnipeg em direção ao nosso destino do dia, em algum ponto no mapa, distante mais ou menos uns 700 km, porque resolvemos apertar um pouquinho mais o passo rumo ao nosso toco.

      Dia lindo como convém à uma sexta que se preze no verão canadense e com um pouquinho a menos de roupa no lombo, lá fomos nós descendo a ribanceira, como de hábito, nos entregando ao desconhecido.

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      Poucas dezenas de quilômetros após havermos deixado a Yellowhead Higway para trás e diante da nossa nobreza reconhecida, estenderam debaixo dos nossos pés, quero dizer rodas, um tapete preto novinho em folha ou pelo menos, muito bem mantido, com certificado de origem e tudo mais, atendendo pelo nome de The King’s Highway, claro, digna da nossa estirpe.

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      Temos impressão de que descobriram, apesar da nossa humildade reconhecida, nosso berço...digamos... de vime e como convém aos bem nascidos, nada melhor do que uma estrada real, começando juntamente com o estado de Ontário.

      E pra "ontário" nenhum botar defeito, fomos babando, extasiados, respirando todo este festival de belezas na condição de maravilhas que temos tido a oportunidade de viver.

      Mesmo as nossas fichas ainda não tendo caído de verdade, temos agradecido ao nosso Pai lá de cima todos os dias, diríamos mesmo, todas as horas, por este privilégio concedido, não só como brasileiros, mas agora já na esfera de seres humanos, de vivermos momentos tão especiais em nossas vidas.

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      E o mais importante, desde que partimos para esta empreitada, com a primeira escala em Ushuaia, lá nos confins da Argentina, temos sentido que ao longo dos nossos percursos uma quantidade enorme de pessoas, guindadas à condição de Amigos do Vento, tem feito parte desta nossa rotina através dos contatos diários, pois em cada "pit stop" embarcam conosco motivados pela curiosidade e após poucos minutos de interação, não importando o idioma das mãos utilizado para a comunicação, nasce de imediato a sintonia pelo desejo de estarem conosco e de fazerem a mesma trajetória, com o mesmo espírito de liberdade como o de ir ao encontro do desconhecido, para longe, muito longe, absolutamente descompromissados com as rotinas do dia a dia, a não ser com aquela de nos levar para ainda mais longe, bem aonde o vento faz a curva para podermos voltar com ele para nossa casa, para de novo na próxima, pegá-lo de volta, desta vez para onde ele quiser nos carregar .

      São estes contatos, são os gestos daqueles que vão nos ultrapassando ou sendo ultrapassados, os sorrisos, os polegares estendidos em forma de positivo, o aceno constante destes mesmos anônimos, que vamos carregando juntos com o maior prazer. Já tem gente pra burro, mas quanto mais melhor, mais macia de tocar e de rodar fica a Bonitona. Carregando tanta gente em cima, claro, os pneus arriaram por três vezes, jogando a toalha no chão, mas não faz mal não, vamos nos acostumando e não nos assustamos mais.

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      Com o sol brilhando lá em cima no firmamento seguimos a orientação das placas que nos parecendo cúmplices, apontavam com muita intensidade para um lugar chamado Thunder Bay, situada às margens do Lago Superior, o maior lago de água doce do planeta, aliás, diga-se de passagem, tamanho aqui não é documento imprescindível, pois poderia ser o menor do mundo, porque em beleza, sem dúvida nenhuma, receberia medalha de ouro.

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      Vai ser bonito assim lá no Canadá! Se um dia a espada fosse colocada no peito e tivéssemos que mudar de ares, Thunder Bay seria um dos lugares aonde colocaríamos os olhos como nossa futura casa. É um espetáculo este lugar, acrescido de um povo hospitaleiro, alegre e que educadamente se colocaram em fila para vir conosco, para a nossa Itajaí, claro, todos querendo ficar em cima da Bonitona.

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      São bem vadios também!

      Haja espaço e pneus!

      Estão escutando este blues? Este rock anos sessenta/setenta? Pois é, bem em frente ao hotel onde estamos hospedados, na beira do lago, está acontecendo um Festival de Blues, com gente de todos os lugares do Canadá e no bar, muito louco e "muvuquento", acontece apresentações de conjuntos da região e como se fora para nós, rasgam na caixa canções que embalaram as nossas juventudes. A vontade é que esta noite não termine mais, tal o ambiente envolvente cujo clima nos conduz aos sábados e domingos das nossas adolescências, hoje já distantes deste nosso presente jubilado, mas que nos enchem de alegrias com tão lindas e gostosas recordações e assim embevecidos fomos nos deitar felizes com os embalos desta sexta-feira mas loucos para continuar neste sábado, a nossa trajetória serra abaixo.

      Como os nossos dias tem sido de setecentos em setecentos quilômetros, continuamos a circular por esta região dos grandes lagos, um verdadeiro "desbunde" e de tão lindos, começam até a enjoar, parecendo um pecado esta nossa afirmativa, mas é a mais pura verdade, como se isto fora possível. Deus abusou da sua generosidade por aqui, provavelmente se esquecendo de algum outro lugar e colocou todos os ovos nesta cesta, mas somos obrigados a reconhecer o capricho dessa turma, mantendo tudo muito arrumado e preservado. Foi muita bondade Dele e batiza-lo como Superior foi somente uma redundância!

      Como é lindo o Canadá!

      Tudo é calmo, tranqüilo, sem pressa, com esta natureza pródiga servindo de pano de fundo para este palco onde flutuamos, perdendo as nossas vistas nos seus contrastes verdes, nas imensidões das suas florestas ornadas por montanhas guardando nos seus picos as marcas brancas do último inverno e como se não bastasse, tudo em dobro nos espelhos d'água cristalinos, transformando cada visão num postal inesquecível em nossas mentes e corações.

      Nos damos as mãos, diminuímos a velocidade da Bonitona, respiramos o frescor desta tranqüilidade e sentindo uma onda de alegria nos invadir pensamos nos nossos filhos, mães, irmãos, amigos do vento e diante de todo este cenário ao alcance das nossas mãos, a vontade enorme de compartir estes momentos com todos vocês chega a nos afligir. De qualquer maneira vamos atirando nossos olhares para um lado e para outro na tentativa de compartir com cada um de vocês esta generosidade que nos é proporcionada.

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      Dia especial agora este sábado que nos fez chegar até Bruce Mines, as margens do Lake Huron, outra maravilha deste deus água.

      Muda o nome mas a magia continua.

      Nos hospedamos praticamente com os pés dentro destas águas nesta pequena cidade de pouco mais de seiscentos felizardos habitantes, com a nossa proa apontando para Toronto, numa repetição de tudo aquilo que temos vivido nestas últimas semanas e em particular nestes últimos dias. Como água, ou melhor dizendo, lago é o que não falta, demos com os costados, neste domingo, no Lago Ontário, onde se situa esta outra maravilha, chamada Toronto.

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      Circulamos pelas principais ruas desta metrópole, molhamos nossos pés no seu lago, reverenciamos e saudamos a louca Queens Street e na manhã seguinte com as bênçãos dos céus em forma de chuva, lamentando a nossa partida tão rápida, nos mandamos para a fronteira com os Estados Unidos, não sem antes fazermos um tira teima, passando por Niagara Falls.

      Cidade arrumada, linda e movimentada!

      Sinceramente não quero ser chato, mas o Canadá não é fraco, dando a impressão de que tudo já nasceu pronto.

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      É um prazer sentir aquela imensa praça, cujo pano verde de grama que a cobre transforma-se numa imensa mesa de piquenique, onde pessoas de praticamente todo o mundo se reunem para lanchar, conversar ou simplesmente se encantarem com aquela maravilha que desce do Lake Erie para misturar-se com as águas do Lake Ontario, formando as Cataratas de Niágara.

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      Como todo caçador tem o seu dia de ser caça, ao olharmos para o outro lado das margens do rio Niágara tivemos a sensação de que iríamos atravessar a Ponte da Amizade para entrarmos no Paraguai. Pelo menos para nós, naquele momento, os Estados Unidos era o nosso Paraguai, Niagara Falls era uma cascata e Cataratas de verdade, era a nossa, do Iguaçu.

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      Não foi fácil, mas a patriotada estava dada!
      Última edição por Dolor; 31-08-13, 01:50.

      Comentário

      • Airton Cavalca
        Fazedor de Chuva

        • Mar 2012
        • 1498

        #78
        Ola Dolor estou aqui numa resposta decisiva de estar ou nao sabado ai... pelo menos companhia nao vai te faltar,assim que eu souber lhe aviso... FC AIRTON MT

        Comentário

        • Dolor
          Fazedor de Chuva

          • Mar 2011
          • 3250

          #79
          FC Airton, não hesite, venha!

          Te espero para o almoço, por volta da uma da tarde.

          Aprochegue-se FC!

          Comentário

          • Airton Cavalca
            Fazedor de Chuva

            • Mar 2012
            • 1498

            #80
            ok.. vo da meus pulo aqui.. sera um prazer participar e conhecer mais uma parte da grande familia.abs a todos

            Comentário

            • Caliento
              Fazedor de Chuva
              • Nov 2012
              • 161

              #81
              Caro Dolor e Carissima Angela!


              Estou me deliciando com estas historias....

              Grande beijo!

              Zé Mario

              Comentário

              • Dolor
                Fazedor de Chuva

                • Mar 2011
                • 3250

                #82
                Capítulo 50 - Explode coração - de 08 a 18/07/2013 - parte final


                Bate coração. Bate forte. Bata na mesma sintonia em que alinho pelo acelerador o coração da baguala.

                Batemos juntos na mesma sintonia, no mesmo compasso, fazendo o sangue correr ainda mais forte dentro dos nossos corpos.

                Bate coração e continue nos levando para onde nem nos mais impensáveis sonhos de juventude, onde nem com toda a ousadia do mundo, pudera sonhar em chegar pilotando.

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                E a Ângela confirma, sim, de verdade estamos vivendo os nossos sonhos e estamos chegando no coração do mundo, de moto.

                Relaxo, lhe aperto a mão como agradecendo por esta oportunidade mágica que estamos vivendo, ligamos o som na caixa e deixamos rolar na voz inconfundível de Frank Sinatra, nada mais nada menos do que New York, New York, isso mesmo, na própria Big Apple.

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                Ergo a mão esquerda, o mais alto que posso e, como que regendo as doses de adrenalina, explodimos de alegria, cantando em coro o refrão deste nosso despertar.

                Claro, estamos acordados, em New York e de motocicleta, muito além de onde jamais havíamos imaginado, vivendo o nosso nirvana.

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                Sem direção, sem sabermos para onde ir, simplesmente deixamos nos levar por aquele turbilhão, que nos entregou exatamente em frente a um restaurante brasileiro, chamado Girassol, nos acolhendo com os braços abertos, nos alimentou e sem forças para resistir, acabamos aceitando o convite de um conterrâneo de nome Mateus, habitué daquela casa, nos levou para a sua, onde ficamos espetacularmente hospedados, frente ao Rio Hudson, com Manhattan do outro lado, entregue aos nossos olhos.

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                Circulamos, rodamos, fomos a saudade materializada daqueles punhados de brasileiros emocionados com a nossa presença, em conversar conosco e de ver uma placa de moto do Brasil circulando por estes lados do Tio Sam, que para muitos, motivados pelas facilidades aparentemente oferecidas por este canto da sereia, torna-se paradoxalmente esta ilha de liberdade, em seus cárceres sem chave.

                Nos abraçamos muito, fomos por alguns instantes os seus orgulhos e com os corações destes irmãos sincronizados com os nossos, embarcamos todos em cima da Bonitona e partimos com destino à nossa casa.

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                Somos obrigados a fazer algumas escalas, sendo a primeira prevista quando partimos nesta sexta-feira dia 11, em Washington, distante pouco mais de quatrocentos quilômetros vencidos sem nem percebermos, apesar, claro, do movimento doido nesse país.

                É coisa de louco a quantidade de carros por estas rodovias, que tivemos o privilégio de pilotar pelas suas entranhas mais movimentadas, seja de San Diego, Los Angeles, Las Vegas, Salt Lake City, San Francisco, Seattle, lá pelas bandas da costa oeste, de Buffalo para New York, deste coração do mundo para a capital federal, numa profusão de rodovias e de pistas multiplicadas por até sete, falando-se sempre de cada lado, além de viadutos com, sei lá, quatro andares.

                Com todos rodando na faixa de 120 a 140 km/h vamos ficando à medida em que o tempo passa, cada vez mais perplexos com tanto movimento e com as repetições de todos os hotéis, restaurantes e postos de gasolina em cada uma das centenas de saídas que nos são propostas, assim como das pequenas, médias e grandes cidades oferecidas a cada punhado de quilômetros vencidos.

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                Adoramos Washington DC, exatamente como já a conhecíamos pelas revistas e noticiários.

                Evidentemente por causa desta sobrecarga de emoções ao pararmos em frente ao hotel, percebi um parafuso clandestino perfurando o pneu dianteiro, não querendo nos largar de jeito nenhum, o triste. Assim, pela quarta vez tivemos um pneu furado. Sem pestanejar tocamos um repara e levanta defunto para dentro e seguimos em frente.

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                Fizemos as fotos de praxe, tiramos o chapéu pra estes "bam bam bans" e nos mandamos no dia seguinte em direção ao nosso novo desafio, Miami, lá nos confins deste lado leste desta América surpreendente e real.

                Sob um calor infernal, fizemos duas escalas, uma em Florence, pequeno recanto, agradável, como de hábito, onde nos refrescamos para nos mandarmos para a próxima parada, separada por alguma coisa como setecentos quilômetros, cujo movimento não cedeu um metro sequer, assim como o calor, nos fazendo abandonar os pelegos para seguirmos somente de camiseta.

                Coisa linda, maravilhosa e emocionante é este contato permanente com o nosso inseparável amigo vento agora tentando amenizar o rigor desta estação, nos refrescando, cúmplice e parceiro de toda esta nossa odisséia.

                Assim, chegamos a Tittusville, deixando a visita ao Cabo Kennedy, para outra oportunidade.

                Pau no lombo e Miami aos nossos pés, maravilhosa, grande e movimentada como só ela, e para nossa surpresa a velocidade daquele mar de carros espalhados pelas suas quatorze pistas, rodavam a dez km/h, sob um sol escaldante, cujo termômetro acusava quarenta e três graus e nós papa siris ali no meio, bem no meio de toda esta bagunça, alegres e felizes da vida por levarmos a Bonitona para mais um desafio e uma conquista.


                Pode esquentar como quiser, pode chover canivete não importa, estamos no nosso sonho, felizes por isto e até gostamos deste tipo de "muvuca" porque temos a impressão do relógio diminuir a sua velocidade também, fazendo com que saboreemos ainda mais estes momentos sorvidos de gole em gole.


                Apeamos da Bonitona com o odômetro marcando justos e perfeitos 40.155 km.

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ID:	180973

                Durante nossa permanência aqui nesta benção, tivemos a oportunidade de reencontrar os conterrâneos Silvaninha, Carlos Dagnoni e filhos, hoje moradores dessa banda do mundo, assim como, compartimos a mesa com o boa praça Furlin, morando na área nos últimos trinta e cinco anos, a quem entregamos o pin de Itajaí, elevando-o à condição de cidadão Itajaiense.

                Foi um jantar cheio de emoções, alegrias e muito, muito papo, de muitas e gostosas lembranças da nossa Itajaí de todos os tempos, saindo desse encontro com a certeza de que num futuro muito próximo o Furlin será elevado à categoria de vadio.


                Está com o ferramental pronto e preparado para esta honraria.

                Será um prazer muito grande tê-lo como confrade, portanto, seja muito bem vindo, vadio Hermes Furlin!

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ID:	180975

                Aproveitamos nossa permanência em Miami para trocar os pneus da Bonitona, deixando-a devidamente calçada para a próxima etapa da viagem, pela América Central e do Sul, assim como trocamos as velas, filtro de ar e amortecedores traseiros, pois com mais de 163.000 km é justa esta manutenção.

                Dá até gosto de ver como ficou faceira a danada. Foi ótimo ter trocado os amortecedores, pois com tanta gente na carona é evidente que a responsabilidade aumenta e em nome dela é importante cuidarmos da segurança para chegarmos ao final desta aventura em paz e inteiros, registrando, por uma questão de justiça, a assistência recebida por parte da concessionária Gable Honda, simplesmente um show a atenção, nos privilegiando o atendimento em detrimento da agenda lotada, além dos descontos generosos tanto nas peças quanto na mão de obra, que por aqui lanha.


                Obrigado, assim como pedimos desculpas aos amigos que lá conhecemos do Latin American Motorcycle Association, o L.A.M.A of Miami, por não termos podido participar do encontro e jantar ao qual fomos convidados.

                Valeu brothers!

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ID:	180974

                Como é chegada a hora de partir, fizemos uma troca lucrativa, pois em vez de voltarmos para Cabo Kennedy, preferimos fazer uma visita para um outro velho amigo, figura importante na vida do nosso filho Jorge, lá na sua tenra infância, quando jogava tênis e defendia as cores do Itamirim Clube de Campo e assim nos dirigimos para Clearwater, FL, pelos lados do Golfo do México e ao batermos na porta da sua casa, tivemos a alegria das mãos e dos abraços que se encontraram depois de tantos anos e que naquele instante recuperavam todo o tempo que nos separava.


                Foi muito bom este reencontro, as lembranças revividas e a sintetização de tudo na dedicatória feita no livro de sua autoria e endereçado ao nosso filho, nos encheu ainda mais de alegria e emoções.

                Jantamos deliciosamente bem, envolvidos por aquele ambiente de descontração e de amizade desejando ao Oscar muito sucesso e esperamos tê-lo na nossa casa, em breve.


                E com os corações nesta altura do campeonato batendo quase fora dos peitos, chegamos a Tallahassee, capital desta maravilha chamada Flórida, nos acolhendo com um temporal digno dos deuses.

                Tivemos a impressão de que chovia também de baixo para cima, mas não importa, porque após pegarmos a bagagem e ocuparmos o quarto deste hotel onde nos hospedamos, molhados, nos abraçamos e misturamos nossas lágrimas a chuva que nos lavava por fora, porque por dentro, não há água que consiga lavar as emoções que temos vivido e sentido.

                Bum! Bum! Bum! Bum! Bum!
                Última edição por Dolor; 23-10-13, 21:28.

                Comentário

                • Dolor
                  Fazedor de Chuva

                  • Mar 2011
                  • 3250

                  #83
                  Capítulo 50 - Explode coração - de 08 a 18/07/2003

                  Sem dúvida nenhuma este amor começou lá pelos idos de 66 quando me foi apresentada pela primeira vez.

                  Como estudava de manhã, na parte da tarde ia para a estofaria de um amigo lá na Vila Operária, em Itajaí, SC, o Toquinho, e passava alguma parte do meu tempo ajudando-o, principalmente quando faltava algum material para que ele pudesse dar continuidade ao seu trabalho e, meio sem jeito, me perguntava se eu poderia ir ao centro fazer compras.

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ID:	180976
                  Foto da internet

                  Certa vez quando fui pegar a bicicleta, me perguntou se não teria problema de ir com a sua Lambreta, uma LD do início da década de sessenta, pois tinha pressa do material faltante.

                  Quase cai para trás, pois não esperava tal proposta e sem me fazer de rogado subi em cima daquela coisa maravilhosa, vermelha e branca, bati com o pé direito em cima do pedal do arranque e imediatamente após aquela pequena nuvem de fumaça azulada, característica do motor dois tempos, suavemente a embreei e engatei a primeira, tudo isto no punho esquerdo, delicadamente, pois era a primeira vez que iria pilotar aquela jóia, privilégio de poucos, naqueles tempos de porteira fechada de um Brasil quase colonial.

                  Foi um presente caído dos céus estar em cima daquela máquina, sozinho, indo à área central para atender o meu amigo.

                  Era mala pra ninguém botar defeito!

                  Depois desse dia me tornei o piloto oficial da "escuderia", melhor dizendo, da estofaria do Toquinho, não vendo o tempo na escola passar, ansioso por prestar os serviços necessários, auxiliando-o como ninguém...no levantamento das necessidades horárias.

                  Estava sempre pronto, pois o questionava de tempos em tempos se não iria faltar isto ou aquilo, doido pra me mandar com a "belezoca" para qualquer lugar, fazendo evidentemente a maior quantidade possível de desvios entre dois pontos, fugindo como o diabo foge da cruz, da máxima que diz: a menor distância entre dois pontos é uma reta. E lá eu queria saber de física?

                  O que eu queria na verdade era fazer entre dois pontos muitas curvas, muitos desvios e acima de tudo, esquecer sempre de alguma coisa para ter que voltar ao fornecedor novamente para complementar as compras.

                  Era uma festa!

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ID:	180977
                  Foto da internet

                  Tempos de vacas magras, menos para o pasto do Bico que naquela época, um pouquinho mais à frente, ganhou da sua mãe uma maravilha chamada Honda CB 350, objeto de "babação" para meia cidade.

                  Claro, tudo isto fazia com que a paixão por motos fosse aumentando sempre e sempre, sem parar, e mesmo sem pensar, pensando, imaginava como não deveria ser bom ter uma coisa linda daquela embaixo da bunda, fazendo-a roncar por qualquer lugar, pois meu universo com certeza era limitado a nossa região, pois Curitiba ou quiçá São Paulo eram inimagináveis.

                  Humm! São Paulo! Onde era esse planeta?

                  Quantas caronas em cima daquela CB 350 do Bico, circulando da Vila Operária para os Atiradores e Grêmio XXI de Julho, clubes sociais de Itajaí, SC, atrás das domingueiras que nunca estavam suficientemente animadas, pois tínhamos que circular o tempo todo de um lado para o outro, claro, pelo prazer de estarmos andando de moto, lá naquela época de irresponsabilidade e ingenuidade total.

                  Uma maravilha quando me era permitido ligar aquele monumento e lá uma vez ou outra dar uma "circuladinha" até a esquina ou em algumas vezes na quadra.

                  Quantas lembranças daquele ronco cheio, redondo e selvagem!

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ID:	180978
                  Foto da internet

                  Depois, que susto quando o Tonico, da Ciba, no final daqueles tempos distantes ainda nesta mesma década, maluco, adiante do nosso tempo, trouxe duas Honda CB 750, com incríveis quatro cilindros, o que ampliava as suas dimensões, na proporção direta dos nossos espantos com aquilo que fugia da nossa capacidade de compreensão.

                  Uma preta e outra dourada!

                  Máquinas maravilhosas despertando em todos nós, garotos, uma alegria incontida quando as víamos passar, brilhantes, deslizando pela rua Hercílio Luz, sua baia predileta.

                  Não tínhamos imaginação suficiente para avaliar a maravilha que cercávamos estupefatos quando o saudoso Tonico, amigo que veio a se tornar muitos anos depois quando as idades, mostrando que não são linhas paralelas, acabam por se cruzar, tornando as suas diferenças mais próximas do que jamais poderíamos imaginar.

                  Ficava a turma toda, tomando conta daquelas guloseimas, daquelas deusas ao alcance dos nossos olhos, e mais ainda, fazendo parte do nosso imaginário, nos levando talvez pelas ruas e esquinas próximas, daquilo que tínhamos como nosso mundo.

                  Fazíamos viagens incríveis dentro desses nossos mundos juvenis, com imagens de Marlon Brando e outros loucos que nos embalaram em viagens alucinantes, com os seus cavalos de aço e nós, frente exatamente aos nossos sonhos.

                  Que batidas estranhas davam meu coração em me imaginando em cima daquelas "potras", cavalgando, troteando, planando por onde o vento me levasse.

                  Não sei porque, mas pedia para aquele vento me levar para algum lugar, onde pudesse junto com aquele meu amor platônico, bater nossos corações na mesma sintonia, nos igualando a estes diferentes.

                  Sacudo a cabeça, procuro mesmo me beliscar e vejo que estou acordado, muito aceso e aquilo que fazia parte daquele meu imaginário, como num passe de mágica estava acontecendo e de verdade.

                  Pergunto para a Ângela, em lhe pegando a mão, se é verdade o que estávamos vivendo, se estamos mesmo em cima deste nosso sonho, se este vento que nos acaricia, nos empurrando para frente, existe de verdade, se este tapete preto, macio, envolvente é a linha que está nos levando e nos trazendo para aonde jamais havia pensado, pois mesmo nos sonhos mais loucos, jamais havia sonhado em ir tão longe.

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                  O que dizer então do Alasca? Nunca ouvira falar!
                  Última edição por Dolor; 24-10-13, 05:31.

                  Comentário

                  • Sassa e Cuca
                    Fazedor de Chuva

                    • Sep 2012
                    • 1056

                    #84
                    "Ler é sonhar pela mão de outrem"

                    Fernando Pessoa

                    ...como é bom fazer isso pelas mãos de vcs!

                    Com carinho, Sassa e Cuca

                    Comentário

                    • Dolor
                      Fazedor de Chuva

                      • Mar 2011
                      • 3250

                      #85
                      Capítulo 51 - Garota em New Orleans - de 19 a 21/07/2003

                      Acordamos um pouquinho mais cedo do que o costume e após todas aquelas espreguiçadas de cada dia, fizemos languidamente os deveres de casa e com aquela moleza gostosa, devagarzinho fomos até a janela para ver como tinha amanhecido o nosso companheiro dia, saudá-lo e dizer para nos aguardar porque hoje teríamos programa muito especial; iríamos para New Orleans, porém ao abrirmos a cortina, percebemos de imediato que teríamos companhia e da grossa, pois a chuva caindo torrencialmente nos informava pelas suas atitudes, de certa forma agressiva, a sua intenção em nos acompanhar por onde fossemos, e pela quantidade e consistência, sentimos já haverem se escalado para esta nossa pernada...mas pensamos também...lá na esquina daríamos uma guinada e deixaríamos esta danada para trás.

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                      Obviamente não estávamos nem um pouquinho confiantes nesta perspectiva, entretanto, como sonhar não custa nada...preguiçosamente nos preparamos com o equipamento específico para este tipo de companhia, encilhamos a baguala e já devidamente uniformizados, deixamos o quarto do hotel, como diz o caboclo, “fatiotados”, inclusive com os capacetes, pois a impressão era do mundo estar vindo abaixo.

                      Porém, como companhia para nós não é problema, é só embarcar e se abraçar, roncamos o motor, sentimos a cavalaria relinchando em uníssono e partirmos rumo ao nosso destino com os corações acelerados diante deste novo mito que se avizinhava sentimos a adrenalina dar o ar da sua boa graça, deixando todos os nossos bons sentidos despertos e prontos para vencer este mundo feito de chuva.
                      À medida em que nos aproximávamos da fronteira da Flórida com o Alabama, sentíamos se avolumando em cima daquela autoestrada uma quantidade ainda maior de carros, de todas as cores, marcas e tamanhos, comboiados, claro, por uma massa incrível de caminhões, todos rodando cadenciados, obedientes e sincronizados sob a batuta da chuva, fazendo com que esta concentração de latas tomassem um corpo extraordinário, todos bailando entre “allegro”, ditado pelos aceleradores e o “adagio”, determinado pelos freios, teve o seu clímax exatamente quando após alguns quilômetros já neste novo estado e em função de obras viárias ao longo da rodovia, aconteceu o inevitável, monstruoso e gigantesco engarrafamento.

                      Sob os cuidados de um trio implacável, formado pela chuva caindo a cântaros, pelo calor intenso se manifestando através do seu primo chamado abafo e aquela serpente enorme, multicolorida e fumegante a perder de vista, a única coisa que nos restava era relaxar, enxaguar bem a roupa totalmente ensopada e em velocidades variando entre um a cinco quilômetros por hora, nos fundimos naquela engrenagem que não víamos nem o fim e muito menos o começo.
                      Bem...estávamos num engarrafamento no Alabama e embalados pelo som já no seu volume máximo, curtíamos de maneira muito especial os Rolling Stones em forma de blues, cujos acordes entravam em nossas correntes sanguíneas numa voltagem pra lá do Alabama, passavam pelo Mississipi e se perdiam lá pelos lados de Louisiana, particularmente sensacional, cujos momentos já estão para sempre gravados em nossas almas.
                      Gostaríamos de verdade que tudo isto não se acabasse mais e desejávamos intensamente que durassem toda aquela eternidade que estávamos vivendo de olhos abertos.
                      Nós dois, forasteiros, em cima de uma motocicleta, a nossa Bonitona, perdidos no meio de um engarrafamento no Alabama, distante de todos os olhos que nos eram queridos, mas unidos de forma muito forte pelos corações totalmente sintonizados, os sentíamos batendo no compasso dos nossos. Foi, por mais incrível que possa parecer, um dos momentos mais extraordinários das nossas vidas, já catalogados para sempre na nossa galeria dos inesquecíveis.

                      Como num passe de mágica, depois de pouco mais de duas horas, estávamos liberados para seguir em frente, em ritmo normal, porém, ainda agarradinhos com a chuva insistente na sua intenção em não nos deixar, nos acompanhando até o final deste percurso de pouco mais de seiscentos quilômetros.

                      Tudo bem, seja bem ida sua triste!

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ID:	196649

                      E assim, humidamente acompanhados chegamos a New Orleans no início da noite, ansiosos para circular pelos seus cantos e recantos, desejo transferido para o domingo, que esperto, começou a se ver livre da dita cuja vinda na nossa bagagem. Assim acordamos neste primeiro dia da criação, para nós sempre o sétimo, aquele do descanso, para saborear esta cidade e todos os seus arredores, cheio de histórias e de marcas que iam nos atirando a atenção em cada esquina, casa, praça, igrejas, pessoas e sons.

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ID:	196646

                      Como é linda esta cidade, como é mágica e como é louca!

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ID:	196645

                      Após havermos sorvido todo este aperitivo, nos batizamos no seu Mississipi, imortalizado por Mark Twain , com as suas barcas movidas a roda e sempre acompanhados, agora pelos solos de artistas anônimos que fazem de cada esquina os seus palcos, nos dirigimos para o seu ápice, batizado como Vieux Carré, mas conhecido como French Market, entramos na Decatur Street, saímos na Rue Bourbon e nos deixamos levar por todas aquelas ruas emolduradas por construções coloridas e despojadas de qualquer tipo de arrogância nos fazendo respirar um ar todo particular de intimidade como se já nos conhecêssemos e como se fossemos velhos moradores retornando para casa chegamos ao seu vaticano chamado Café du Monde, com portas abertas desde a segunda metade do século XIX, onde pudemos saborear na esquina da esquina do mundo, o famoso "café au lait" com "beignets", ou seja, o melhor café com leite tomado até hoje em nossas vidas, acompanhados pelos seus famosos bolinhos de trigo, repetidos por umas quantas vezes até não poder mais, nos alimentando os corpos e os espíritos.

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ID:	196647

                      Como digestão, digna de figurar em lugar de honra na galeria de ouro das nossas vidas, o saxofonista que faz daquela imediação o seu palco, simplesmente executou, na terra de Louis Armstrong, do jazz e do blues, nada mais nada menos do que a obra prima, hoje elevada à condição de um dos hinos de ouro da música mundial, Garota de Ipanema, saboreada até a sua derradeira nota. Sentimos nossos olhos se umedecerem mais do que o normal e num misto de orgulho e alegria, nos abraçamos, apertamos ainda mais as nossas mãos e silenciosamente aproveitamos aqueles acordes para deixar a saudade nos dominar, nos invadindo um sentimento gostoso de saber que tínhamos para onde voltar.

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ID:	196648

                      Lançamos nossos olhares ao redor e satisfeitos, pudemos perceber o acompanhamento de praticamente todos os pés embaixo das mesas no compasso desta maravilha de Tom e Vinicius, aproveitamos para nos recostar, nos acomodar ainda melhor na cadeira e pensamos: como é bom ser brasileiro.

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ID:	196650
                      Total percorrido : 686 km
                      Última edição por Dolor; 02-10-14, 01:32.

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