Capítulo 48 - O toco - 27/06 a 03/07/2003
Felizmente para quem gosta de pilotar, de andar de motocicleta, o que estamos fazendo é um prato cheio.
São quilômetros e quilômetros todos os dias, na casa dos quinhentos quase seiscentos, que percorremos com os corações cheios de alegrias e os pensamentos precisando, de tempos em tempos, serem aprisionados um pouquinho para não sumirem nas nossas frentes.
São horas e horas passadas em cima da moto, em contato direto com esta natureza praticamente intocável, com os nossos corações e sentimentos sincronizados na mesma balada do motor, rodando macio, redondo e nos remetendo neste diapasão fantástico de afinação, ora para os esconderijos das nossas nostalgias, dos desejos, das satisfações e acima de tudo, exercitando o que temos de mais valioso, a nossa paz.

É em cima de uma motocicleta que temos estas oportunidades únicas, pois com todos os estímulos recebidos destes elementos da natureza, aliados ao tempo e a solidão compartida é que podemos mergulhar em todos os nossos projetos, desde aqueles já executados até aqueles que fazem parte rigorosamente dos sonhos.
São exatamente estes sonhos que nos movem, nos proporcionam aquelas ondas de felicidade e de expectativa do que poderia acontecer, nos tendo como figuras ativas.

É em cima de uma motocicleta que conseguimos por vezes seguidas, estimulados ou não, a deixarmos as nossas mentes em "stand by", sem pensarmos em nada, sem nos preocuparmos com nada e literalmente deixando a vida correr através de um cabo de acelerador, nossa única ligação entre este mundo particular que é a nossa vida e este mundo onde nossa vida está plantada.
Como é louca esta relação quando tomamos consciência de que circulamos em cima de um fio de navalha, onde qualquer um destes mesmos elementos desta natureza que nos encanta é ao mesmo tempo um agente que pode conspirar contra nossa presença em seus territórios, nos elevando o "frisson" à níveis quando conscientes de verdade, nas alturas.
Pensamos que é exatamente aí neste ponto, do desafio, que nos torna todos os amantes desta arte, digamos assim, absolutamente iguais dentre os diferentes.
Por vezes nos pegamos a nos questionar durante estes longos períodos em que queremos única e exclusivamente ir para frente, enfrentando o desconhecido, os perigos e, sempre tendo como interesse de verdade o fim, aquele lugar onde vamos bater o sino da chegada, babando, entretanto, com o meio, representado pelos caminhos que nos conduzem para estes nossos destinos.

E desta maneira na maior parte do tempo juntos, nós e os nossos pensamentos, resolvemos fazer de maneira inversa toda a Alaska Highway, finalizada em Fairbanks, tem o seu início, seu ponto zero em Dawson Creek, Canadá, num percurso de 2540 km, interligando este Alasca longínquo aos seus pares, via Yukon e British Columbia, no Canadá, num percurso absolutamente fantástico, como se estivéssemos fazendo um piquenique no meio das florestas, pois por estas bandas, diríamos que não estão conservadas nem mantidas, porque simplesmente estão intactas.

Acelerando bonito, planando por vezes, com paradas obrigatórias para as fotos dos artistas que fazem desta rodovia seus palcos, entre ursos, caribous, mooses, coyotes, cabras montanhesas, esquilos em profusão e corujas entre outros, chegamos neste dia 29 de junho de 2003, em Dawson Creek, marco zero desta histórica rodovia, construída num tempo recorde de pouco mais de nove meses, lá pelos idos do ano de 42, "encagaçados" que estavam os americanos com o ataque japonês a Pearl Harbor, trataram, desta maneira, de "anexar" o Alasca a este bom resto do mundo.

Foi num misto de alegria, emoção e respeito que pensamos no povo que pôs mãos às obras nesta empreitada, lutando contra o rigor da natureza, quer seja pelo frio, quer seja pela topografia acidentada ou mesmo pela enorme quantidade de animais, de ursos a pernilongos, pois uma vez passado o inverno, maltratam quem por aqui se atreve a passar.

E disto podemos falar do alto das nossas trezentas e oitenta e três picadas que cada um levou entre a nossa ida e esta nossa "frida".

Por aqui não precisa se chamar nem pernilongo, mosquito, borrachudo ou seja lá o apelido que se dê para estas seringas voadoras, porque eles vêm sozinhos, não se fazem de rogados, atacam em grupo e se a gente acha ruim, eles vão e trazem os irmãozinhos para bem terminarem o serviço.

Não deve ter sido fácil a vida daqueles trabalhadores que nos presentearam esta maravilha para ser desfrutada com tanto prazer, tantos anos depois.
Obrigado pessoal e descansem em paz, onde quer que estejam.

Com paradas em Watson Lake e Fort Nelson, antes deste final desta Alaska Highway, em Drawson Creek, seguimos em frente agora rumo a Edmonton, Saskatoon, Yorkton e Winnipeg, numa outra rodovia toda especial que recebe o nome de Yellowhead Highway, ou Trans-Canadá, cortando o país transversalmente, passando talvez pela sua parte mais rica em termos de agricultura, de energia e de petróleo.

São quilômetros, ou melhor dizendo, são centenas deles de campos plantados de alfafa, canola, trigo e outros cereais de um lado e outro desta Cabeça Amarela, isto porque havia, lá pelos idos de 1800, trabalhando numa empresa chamada Hudson’s Bay Company, um índio cujos cabelos eram tão loiros, mas tão loiros, que os franceses passaram a lhe chamar como tal.

Pode haver índio galego? Pois é, até isto por aqui é possível!
Dá gosto de ver ao longo destas propriedades um bocado de poços de petróleo, com aquelas cabeças de burro ou de cavalo, aliás, deve ser de cavalo, porque burro aqui sou eu que não tenho um treco destes dentro de um terreninho na Vila Operária, lá em Itajaí, puxando petróleo as vinte e quatro horas do dia.
Fico só imaginando a contabilidade do neguinho todos os dias, pensando onde vai e como vai gastar o cacau jorrado para dentro dos seus bolsos na noite passada, nesta, na de amanhã e assim sucessivamente nesta monotonia de dar dó.
A diferença merecedora de registro é que a viagem mudou de aventura para passeio, com tudo sendo previsível, pois até os buraquinhos na rodovia, ou melhor, projetos, são alertadas com antecedência, havendo inclusive, vou prestar atenção, um tipo de: se tu espirrares daqui a pouco, saúde, tá legal?

Bonitas cidades estas Edmonton, Saskatoon e Winnipeg.
Coisas de primeira mesmo!
Dá até nojo da nossa pobreza.
Chegamos a conclusão e somos obrigados a nos curvar que esta turma daqui está muito a nossa frente, mas tanto, tanto, que do jeito como estamos crescendo, igual cola de cavalo, não vamos conseguir chegar a ser nem o cocô do cavalo do bandido deles.
Nos questionamos o tempo todo sobre qual a química que movimenta este povo.
Não existe um só segurança em nenhum dos bancos onde fomos fazer câmbio, assim como aquelas portas medonhas de segurança, nas quais somos obrigados a nos despir de forma humilhante para podermos adentrar, não vimos ninguém com cara de estar correndo pra cobrir o "chequinho" do final de semana, as placas de trânsito são simplesmente obedecidas, mesmo que o infeliz esteja sozinho lá nos confins do Judas e isto nós presenciamos por várias e várias vezes, pois se tem um sinal de stop, lá está o danado parado, esperando não sei o que, mas obediente.
Se a placa indica 50 km/h, pode tirar o pé ou a mão do acelerador porque o teu vizinho da frente já o fez e circula exatamente na velocidade indicada.
Buzina?
Não existe por aqui já faz tempo.
Não sabemos como é o som das buzinas deles.
Lixo?
Tás brincando! Tem aos montes, mas tudo rigorosamente no lugar devido, nas lixeiras ao longo das rodovias e em áreas especiais.
Pressa?
Quem tem pressa? Também por aqui penso se fosse médico, a única especialidade que não escolheria seria a de cardiologista, porque os neguinhos como estão com uma frente muito grande, só pensam em comer, e aí sim, ganharíamos um bom dinheirinho como endocrinologistas, pois de cada um poderia se tirar por baixo umas duas ou três arrobas.

E assim, depois de havermos percorrido nestes últimos seis dias mais de 3.300 km, ou seja, fomos quase todos os dias de Itajaí, SC, a São Paulo, sou obrigado de novo a modificar o título deste capítulo porque por mais lindas que sejam estas pradarias, rochosas e lagos, por mais educados, mais organizados e mais invisível que seja a presença da polícia, pois podemos deixar as nossas bagagens em cima da moto, juntamente com os relógios enfeitando o painel da Bonitona, assim como os capacetes e tudo mais, a saudade é o nosso elemento forte, pois além de nos motivar a continuar nesta jornada rumo a nossa bagunça, sacanagem, insegurança e tudo o mais que nos assola e aflige, não importa, é a nossa casa, e como diziam os nossos antepassados açorianos quando "chegaram lá pelas nossas bandas" no litoral de Santa Catarina, qual é a coruja que não "gava" o seu toco?
Nós, bem, nós estamos loucos para voltar para o nosso toco.
Felizmente para quem gosta de pilotar, de andar de motocicleta, o que estamos fazendo é um prato cheio.
São quilômetros e quilômetros todos os dias, na casa dos quinhentos quase seiscentos, que percorremos com os corações cheios de alegrias e os pensamentos precisando, de tempos em tempos, serem aprisionados um pouquinho para não sumirem nas nossas frentes.
São horas e horas passadas em cima da moto, em contato direto com esta natureza praticamente intocável, com os nossos corações e sentimentos sincronizados na mesma balada do motor, rodando macio, redondo e nos remetendo neste diapasão fantástico de afinação, ora para os esconderijos das nossas nostalgias, dos desejos, das satisfações e acima de tudo, exercitando o que temos de mais valioso, a nossa paz.
É em cima de uma motocicleta que temos estas oportunidades únicas, pois com todos os estímulos recebidos destes elementos da natureza, aliados ao tempo e a solidão compartida é que podemos mergulhar em todos os nossos projetos, desde aqueles já executados até aqueles que fazem parte rigorosamente dos sonhos.
São exatamente estes sonhos que nos movem, nos proporcionam aquelas ondas de felicidade e de expectativa do que poderia acontecer, nos tendo como figuras ativas.
É em cima de uma motocicleta que conseguimos por vezes seguidas, estimulados ou não, a deixarmos as nossas mentes em "stand by", sem pensarmos em nada, sem nos preocuparmos com nada e literalmente deixando a vida correr através de um cabo de acelerador, nossa única ligação entre este mundo particular que é a nossa vida e este mundo onde nossa vida está plantada.
Como é louca esta relação quando tomamos consciência de que circulamos em cima de um fio de navalha, onde qualquer um destes mesmos elementos desta natureza que nos encanta é ao mesmo tempo um agente que pode conspirar contra nossa presença em seus territórios, nos elevando o "frisson" à níveis quando conscientes de verdade, nas alturas.
Pensamos que é exatamente aí neste ponto, do desafio, que nos torna todos os amantes desta arte, digamos assim, absolutamente iguais dentre os diferentes.
Por vezes nos pegamos a nos questionar durante estes longos períodos em que queremos única e exclusivamente ir para frente, enfrentando o desconhecido, os perigos e, sempre tendo como interesse de verdade o fim, aquele lugar onde vamos bater o sino da chegada, babando, entretanto, com o meio, representado pelos caminhos que nos conduzem para estes nossos destinos.
E desta maneira na maior parte do tempo juntos, nós e os nossos pensamentos, resolvemos fazer de maneira inversa toda a Alaska Highway, finalizada em Fairbanks, tem o seu início, seu ponto zero em Dawson Creek, Canadá, num percurso de 2540 km, interligando este Alasca longínquo aos seus pares, via Yukon e British Columbia, no Canadá, num percurso absolutamente fantástico, como se estivéssemos fazendo um piquenique no meio das florestas, pois por estas bandas, diríamos que não estão conservadas nem mantidas, porque simplesmente estão intactas.
Acelerando bonito, planando por vezes, com paradas obrigatórias para as fotos dos artistas que fazem desta rodovia seus palcos, entre ursos, caribous, mooses, coyotes, cabras montanhesas, esquilos em profusão e corujas entre outros, chegamos neste dia 29 de junho de 2003, em Dawson Creek, marco zero desta histórica rodovia, construída num tempo recorde de pouco mais de nove meses, lá pelos idos do ano de 42, "encagaçados" que estavam os americanos com o ataque japonês a Pearl Harbor, trataram, desta maneira, de "anexar" o Alasca a este bom resto do mundo.
Foi num misto de alegria, emoção e respeito que pensamos no povo que pôs mãos às obras nesta empreitada, lutando contra o rigor da natureza, quer seja pelo frio, quer seja pela topografia acidentada ou mesmo pela enorme quantidade de animais, de ursos a pernilongos, pois uma vez passado o inverno, maltratam quem por aqui se atreve a passar.
E disto podemos falar do alto das nossas trezentas e oitenta e três picadas que cada um levou entre a nossa ida e esta nossa "frida".
Por aqui não precisa se chamar nem pernilongo, mosquito, borrachudo ou seja lá o apelido que se dê para estas seringas voadoras, porque eles vêm sozinhos, não se fazem de rogados, atacam em grupo e se a gente acha ruim, eles vão e trazem os irmãozinhos para bem terminarem o serviço.
Não deve ter sido fácil a vida daqueles trabalhadores que nos presentearam esta maravilha para ser desfrutada com tanto prazer, tantos anos depois.
Obrigado pessoal e descansem em paz, onde quer que estejam.
Com paradas em Watson Lake e Fort Nelson, antes deste final desta Alaska Highway, em Drawson Creek, seguimos em frente agora rumo a Edmonton, Saskatoon, Yorkton e Winnipeg, numa outra rodovia toda especial que recebe o nome de Yellowhead Highway, ou Trans-Canadá, cortando o país transversalmente, passando talvez pela sua parte mais rica em termos de agricultura, de energia e de petróleo.
São quilômetros, ou melhor dizendo, são centenas deles de campos plantados de alfafa, canola, trigo e outros cereais de um lado e outro desta Cabeça Amarela, isto porque havia, lá pelos idos de 1800, trabalhando numa empresa chamada Hudson’s Bay Company, um índio cujos cabelos eram tão loiros, mas tão loiros, que os franceses passaram a lhe chamar como tal.
Pode haver índio galego? Pois é, até isto por aqui é possível!
Dá gosto de ver ao longo destas propriedades um bocado de poços de petróleo, com aquelas cabeças de burro ou de cavalo, aliás, deve ser de cavalo, porque burro aqui sou eu que não tenho um treco destes dentro de um terreninho na Vila Operária, lá em Itajaí, puxando petróleo as vinte e quatro horas do dia.
Fico só imaginando a contabilidade do neguinho todos os dias, pensando onde vai e como vai gastar o cacau jorrado para dentro dos seus bolsos na noite passada, nesta, na de amanhã e assim sucessivamente nesta monotonia de dar dó.
A diferença merecedora de registro é que a viagem mudou de aventura para passeio, com tudo sendo previsível, pois até os buraquinhos na rodovia, ou melhor, projetos, são alertadas com antecedência, havendo inclusive, vou prestar atenção, um tipo de: se tu espirrares daqui a pouco, saúde, tá legal?
Bonitas cidades estas Edmonton, Saskatoon e Winnipeg.
Coisas de primeira mesmo!
Dá até nojo da nossa pobreza.
Chegamos a conclusão e somos obrigados a nos curvar que esta turma daqui está muito a nossa frente, mas tanto, tanto, que do jeito como estamos crescendo, igual cola de cavalo, não vamos conseguir chegar a ser nem o cocô do cavalo do bandido deles.
Nos questionamos o tempo todo sobre qual a química que movimenta este povo.
Não existe um só segurança em nenhum dos bancos onde fomos fazer câmbio, assim como aquelas portas medonhas de segurança, nas quais somos obrigados a nos despir de forma humilhante para podermos adentrar, não vimos ninguém com cara de estar correndo pra cobrir o "chequinho" do final de semana, as placas de trânsito são simplesmente obedecidas, mesmo que o infeliz esteja sozinho lá nos confins do Judas e isto nós presenciamos por várias e várias vezes, pois se tem um sinal de stop, lá está o danado parado, esperando não sei o que, mas obediente.
Se a placa indica 50 km/h, pode tirar o pé ou a mão do acelerador porque o teu vizinho da frente já o fez e circula exatamente na velocidade indicada.
Buzina?
Não existe por aqui já faz tempo.
Não sabemos como é o som das buzinas deles.
Lixo?
Tás brincando! Tem aos montes, mas tudo rigorosamente no lugar devido, nas lixeiras ao longo das rodovias e em áreas especiais.
Pressa?
Quem tem pressa? Também por aqui penso se fosse médico, a única especialidade que não escolheria seria a de cardiologista, porque os neguinhos como estão com uma frente muito grande, só pensam em comer, e aí sim, ganharíamos um bom dinheirinho como endocrinologistas, pois de cada um poderia se tirar por baixo umas duas ou três arrobas.
E assim, depois de havermos percorrido nestes últimos seis dias mais de 3.300 km, ou seja, fomos quase todos os dias de Itajaí, SC, a São Paulo, sou obrigado de novo a modificar o título deste capítulo porque por mais lindas que sejam estas pradarias, rochosas e lagos, por mais educados, mais organizados e mais invisível que seja a presença da polícia, pois podemos deixar as nossas bagagens em cima da moto, juntamente com os relógios enfeitando o painel da Bonitona, assim como os capacetes e tudo mais, a saudade é o nosso elemento forte, pois além de nos motivar a continuar nesta jornada rumo a nossa bagunça, sacanagem, insegurança e tudo o mais que nos assola e aflige, não importa, é a nossa casa, e como diziam os nossos antepassados açorianos quando "chegaram lá pelas nossas bandas" no litoral de Santa Catarina, qual é a coruja que não "gava" o seu toco?
Nós, bem, nós estamos loucos para voltar para o nosso toco.




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