No Vento com o Sonho

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  • Dolor
    Fazedor de Chuva

    • Mar 2011
    • 3250

    #16
    Capítulo 15 - Bicho grilo


    Não posso dizer que San Pedro do Atacama foi exatamente aquilo que esperávamos, pois no lugar daquela cidadezinha florida e bucólica, encontramos exatamente o que ela é, a legitima representante da velha civilização atacamenha, cujos registros de vida nesta região passam dos 11.000 anos, dos quais ao redor de 2.500, foi o tamanho do mergulho que demos aqui nesta pequena comunidade.

    Uma outra realidade!

    De certa maneira, como havíamos chegado no final da tarde, nos deslumbramos com estes poentes de matar aqui nesta altura do mundo, emprestando o sol a coloração rosada dos nossos sonhos, que mesmo para aqueles não muito chegados neste tipo de curtição, um espetáculo de encher os olhos.

    Temos a impressão que as cores daqui tem um brilho muito particular!

    Bem, já de pé, banho e café tomados, fomos para a rua fazer nossa primeira incursão e tentar nos localizar na história, para podermos nos organizar e definir o que fazer durante o período de 3 dias que pretendemos ficar aqui.


    A bem da verdade a primeira impressão já havia ficado e a confirmação daquilo que suspeitáramos na nossa chegada começou a ganhar corpo à medida que íamos circulando pela cidade, identificando os inúmeros restaurantes, barzinhos, agências de viagens e tocas, muitas tocas, de tudo quanto é tamanho, das pequenas as muito pequenas, de todas as cores, decorações e que atendiam pelos mais variados nomes, desde hotel, hostal ou pousadas, entre outros.

    É impressionante se conviver e participar da vida de um lugar que tem um passado tão identificado com o presente, até porque, tenho a impressão de que as coisas não devem ter mudado muito nestes últimos 25 séculos em San Pedro, uma vez que a força genética traduzida na semelhança dos habitantes deste lugar, nos leva a crer que os seus moradores se preservam entre si, formando uma raça diferente.

    São hábitos muito particulares, como a ausência de casamentos entre os filhos da terra e os forasteiros, mantendo portanto, características muito particulares como as casas com pé direito baixos, feitas com pedras e barro, telhados de palha, ruas de terra, ou melhor, de poeira, e a presença, aí sim, volto ao tema da suspeita, de uma quantidade de "bichos grilos" impressionante.

    Diria mesmo que talvez tenha sido a maior concentração desta espécie que já encontramos em nossas andanças, que para um bom entendimento do nosso leitor, merece uma explicação.

    Dá-se o nome de"bicho grilo", à uma espécie que é facilmente identificável, pois , tem qualquer idade, potencializada entre 19 e 30 anos, carrega sempre uma mochila nas costas, usa sapato tipo botinha com sola de borracha alta, faz parte do seu biotipo uma garrafa d'água, em volta do pescoço uma máquina fotográfica, normalmente está acompanhado de um ou uma colega que tem rigorosamente as mesmas características, com bermudas cor caqui, hospedam-se em quartos coletivos, batem fotos de tudo, não tem o banho regular como um hábito, tem a ecologia, na casa dos outros como bandeira, são eternos estudantes, criticam a má distribuição de renda, porém, não abrem mão da sua, e por último, para que vocês tenham um bom retrato, sem exceção, todos tem cara de "mamão" e creio também, não gostam de trabalhar sendo que neste último quesito, concordo com eles em gênero, número e grau.

    É importante fazer este tipo de descrição para que vocês possam identifica-los de pronto. Acrescentaria ainda que quanto mais pobre é a cidade ou a região, maior é a concentração deles.

    Diria, que tirando uma meia dúzia de meio "bichos grilos", entre os quais provavelmente encontra-se este escriba e sua cara-metade, o resto que tem circulando pela cidade e adjacências é talvez a maior concentração desta espécie, que é bom de se frisar, está em franco desenvolvimento.

    Fomos na parte da tarde visitar alguns monumentos históricos, dentre os quais, coloniais do século XVI, construções que nos dão uma boa idéia de como se vivia naqueles tempos, e...que por aqui, acredito, não mudou muito.

    Na continuação fomos ao Vale da Lua, com as particularidades de quem lhe empresta o nome, ao Vale da Morte, assim batizado porque fazia parte de uma rota de mercadores, que pela aspereza, aridez e dificuldades, muitas pessoas e principalmente animais, com destaque para as lhamas, sucumbiam na sua travessia, nos fazendo imaginar de verdade, que sofrimento esta gente, entre tantas outras por este nosso planeta, não sofreram.

    Por vezes eu tenho a impressão de sentir estas vibrações quando vou à lugares que trazem uma carga tão grande de sofrimento.

    É triste, mas é verdade.

    E assim passamos nosso dia entre mergulhos seculares, milenares e "bichos grilos" de todas as nacionalidades, especialmente européia, finalizando com um jantar a luz de velas, tendo direito ainda, a uma bela fogueira no meio do pátio do restaurante, embalados por uma autêntica música regional, que como tal, é sempre cantada com o coração, que nos toca de uma maneira sempre muito gostosa.

    Foi um final de noite e tanto!
    Última edição por Dolor; 30-10-11, 17:16.

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    • Dolor
      Fazedor de Chuva

      • Mar 2011
      • 3250

      #17
      Capítulo 16 - Esquenta sol, esfria sol!


      Havíamos contratado no dia anterior dois passeios, que segundo todas as pessoas consultadas, especialmente os bichos grilos, eram imperdíveis.

      O primeiro com saída marcada para as 4: 00 h da madrugada, era para visitar os gêiseres El Tatio, que empresta o nome para o hotel onde estamos hospedados, assim cedo, para que pudéssemos aproveitar a dança das águas que vem do interior da terra e que se mostram para nós mortais, a mais de 4.400 m de altitude, lá em cima bem pertinho do céu.

      Como fomos dormir por volta das 2: 00 h da manhã, os poucos minutos em que fechamos os olhos voaram e num já, era chegada a hora de partir.

      E lá fomos nós com um motorista-guia que estava debutando justamente conosco naquela viagem, que pela condição inicial da estrada, nos antecipava o que viria pela frente.

      Imprevidentes, não imaginamos que lá em cima faria um frio danado e que com os solavancos da estrada, aliados a "barbeirice" do motorista, fizeram que esta viagem com duração prevista de 2: 00 h fosse um martírio, que pensamos não acabasse mais.

      Era muito frio!

      Vocês não podem imaginar o que passamos de frio pois sem calefação na camioneta, nos agarramos um no outro, ora batendo com a cabeça no teto, ora cabeça com cabeça, noite breu e em nossa volta, um monte de "bicho grilo" nos olhando como que dizendo:

      Viu no que dá falar de nós? Olha nós aqui bem quentinhos e vocês aí deste jeito, ridículos!

      Falei pra Ângela, se um desgraçado deste me olhar de novo com esta cara, eu vou arrancar a japona dele, nem que seja na marra.

      E nós naquele estado de petição de miséria!

      Arrepiados, sem conseguir abrir os olhos por causa do sono, nem dormir por causa do frio, com uma jaquetinha ridícula que era o forro das nossas roupas de moto, agarrados gente, mas bota agarrado nisso, um no outro, com um frio dos diabos, só pensávamos em como seria bom se o sol desse uma de camarada e viesse nos esquentar.

      Felizmente isto durou 2:00 h que nos pareceram uma eternidade!

      Pensávamos que no inferno seria melhor, pois pelo menos lá seria mais quentinho.

      Assim que paramos, quase sem conseguir falar, pedimos para o guia uma xícara de café, de veneno, de qualquer coisa que pudesse nos aquecer.

      E que nem dois doidos, tomamos a primeira xícara de café, que a medida que nos ia queimando, pelo menos nos aquecia e assim com a caneca na mão, quase nos atiramos dentro de um gêiser daquele, que fervia a uma temperatura de mais de 100 graus.

      Fomos impedidos a tempo de fazer esta loucura, pelo nosso motorista, que também vestido que nem escoteiro, padecia do mesmo mal.

      Espetáculo lindo da mãe natureza, lá em cima neste platô andino, algumas dezenas de gêiseres bailavam enquanto o sol não aparecia, pois é neste final de noite e raiar do dia, que a festa toma efeitos espetaculares.

      Nós sentíamos que a torcida de todos era para que o sol não aparecesse e conseqüentemente que este show não terminasse, e nós do fundo da nossa alma, queríamos era acabar com tudo aquilo, o mais rápido possível para que o astro rei viesse logo para nos aquecer.

      Enquanto isto, nos metemos por entre os vapores, por entre as cortinas destes vapores, buscando desta forma, como num imenso banho turco, o aquecimento que necessitávamos para poder continuar em pé.

      Felizmente depois deste pesadelo, com o sol começando a colocar seus raios para fora, nosso raciocínio começou a voltar e aí então, pudemos aproveitar o espetáculo que estava se apresentando.

      Inesquecível, sob todos os aspectos!

      Depois de havermos tomado mais leite fervendo, pois púnhamos o pacote dentro do gêiser para que juntos fervessem, fomos às piscinas que são formadas por estas águas ferventes e onde tudo quanto é "bicho grilo" toma banho, para ver se criávamos coragem para um mergulho, pois as pessoas traziam vestidos os seus maiôs de banho, como se estivessem indo para a praia mais ensolarada do mundo.

      Como a nossa hipotermia ainda não estava devidamente controlada, nos acovardamos e como tal , ficamos torcendo para que a água pelasse aqueles "bichos grilos" que ainda mantinham um certo ar de gozação quando nos olhavam.

      Péla eles água, péla eles água, era a nossa surda vingança!

      Agora já devidamente aclimatados, fizemos amizade com algumas pessoas que fomos encontrando e quando estávamos nos dirigindo à Puritama, estação de águas super procurada pelos iniciados, nossa caminhonete, imaginem só, ficou sem diesel, no meio daquele nada e nos mesmos quatro mil e picos de altitude, numa prova de que não se morre de tédio.

      Após algum tempo fomos resgatados, mudamos de condução e seguimos de volta para o hotel, sãos e salvos, prontos para a segundo passeio do dia, que era o Salar do Atacama, o maior do Chile.

      Realmente ímpar a beleza que Deus emprestou ao lugar, uma vastidão branca, habitada por flamingos cor de rosa, que ao nosso lado passeavam e se alimentavam, como que por um milagre, aproveitando-se daquela fonte alimentícia, praticamente microscópica.

      Nos deleitamos e como de hábito, agradecemos a vida mais uma vez, entre as milhares de vezes que fazemos isto todos os dias, por mais esta oportunidade que nos dá de viver momentos tão mágicos e inesquecíveis.

      Como gato escaldado tem medo de água fria, nos entrouxamos de roupas para evitar de novo a repetição do período matutino e como é mais fácil tirar do que pôr, fomos ficando daquele jeito que o diabo gosta, já que a temperatura havia subido, e castigados nesta altura do campeonato por aquele sol, que agora, insistia em não ir embora.

      Pensamos, nós somos jeca mas não somos tatu!
      Última edição por Dolor; 30-10-11, 18:40.

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      • Dolor
        Fazedor de Chuva

        • Mar 2011
        • 3250

        #18
        Capítulo 17 - O sufoco

        Finalmente recuperados das aventuras de ontem, acordamos relativamente cedo, tomamos banho, não sem antes ter feito todas as atividades matinais, inclusive as fisiológicas, fomos antes do café preparar a bagagem, deixar tudo em ordem, com revisão feita nos pneus, óleo, limpeza do para-brisa, pagamento das despesas do hotel e uma leve ponta de preocupação na cabeça, desde o momento em que a descarga do bacio fora puxada.

        Voltamos mais uma vez ao quarto para vestirmos o pelego, forma carinhosa com a qual nos referimos a nossa jaqueta, pegarmos os capacetes, última vistoriada no ambiente e mais uma puxada na descarga.

        E nada!

        Moto ligada, em processo de aquecimento para pegarmos logo em seguida a estrada que nos levaria até Arica, repassando por uma estrada sensacional, onde curtimos momentos de muita alegria quando da nossa chegada.

        Para este tramo de mais ou menos 650 km prevíamos uma jornada de 9:00 h, uma vez que não poderíamos perder as oportunidades que são muitas de fazermos algumas fotos.

        Entretanto, mais uma vez voltei ao quarto, com a desculpa de lavar as mãos, mas na realidade foi uma tentativa a mais entre as tantas que já havia feito de tentar me liberar de uma herança que eu havia deixado no banheiro e que estava me deixando com remorso.

        No sanitário, naquela hora em que somos nós mesmos, realizando a reação de todas as ações gostosas do dia, acabei deixando uma acha de lenha, ou quem sabe mesmo, se é possível naquela altura do deserto, um submarino, que teimava em não partir, apesar das cento e oitenta e cinco descargas dadas.

        Não sei que força o segurava na superfície, não sei o porque daquela resistência em partir, me deixando sem jeito, pois enquanto preparávamos a Bonitona, a camareira responsável pela arrumação do quarto, ficou em nossa volta conversando, dizendo que adora motos, que adorava o Brasil, que achava os brasileiros muito educados, e eu pensando no que ela pensaria de mim, após a nossa partida e a sua conseqüente entrada no apartamento para a devida limpeza.

        Somente este pensamento me deixava aflito e zeloso em tomar alguma providência.

        Que situação, eu pensava, enquanto não sabia se pedia um machado emprestado para tentar partir no mínimo ao meio aquela tora, ou um maçarico para tentar através de uma escotilha ou quem sabe mesmo, através do periscópio, conseguir chegar à casa de máquinas e aí então botar aquela coisa no fundo.

        E dá-lhe descarga e dá-lhe resistência em partir e eu naquela altura do campeonato já começando a ficar com pena, pois afinal de contas, era um pedaço de mim que de forma fria e calculista, eu estava tentando abandonar em pleno deserto.

        Parti para o machado e partindo em dois aquela acha de lenha, puxei pela enésima vez a descarga, e mesmo a contra gosto vi que aquilo que já fora parte integrante de mim, se atravessou na saída d'água e esta incontinente, voltou a subir, quase derramando para o lado de fora do bacio.

        Covarde e envergonhado parti sem olhar para trás e me despedí de soslaio da camareira, que educadamente nos abanava.


        Em silêncio, quase que numa súplica muda, pedi a esta senhora que cuidasse com carinho daquela herança deixada em San Pedro de Atacama.

        Com o pé na estrada troquei o remorso por visões extraordinárias deste caminho que nos levava numa primeira etapa até Calama.

        Rodando suavemente por aquele tapete preto, de repente senti uma pequena tossida da moto, que pensei fosse ocasionada, isto já numa tendência natural de esconder a realidade, por uma pequena depressão no asfalto.

        A pulga já ficou atrás da orelha, quando pouco tempo depois, uma seqüência de tossidas lá pela altura dos 3.500 m de altitude, caminho já conhecido quando da nossa ida, simplesmente me fez pensar de novo no velho palavrão: estamos fuzilados.

        Imediatamente passei a chave da gasolina para a reserva, numa tentativa de tentar alguma coisa, se bem, que desde o dia em que troquei esta peça, já há alguns milhares de quilômetros, cada vez que eu passava a gasolina que no reservatório normal se acabava para a reserva, reparava que esta demorava um pouco mais do que o normal para liberar os últimos quatro litros, destinados a nos chamar a atenção para a necessidade de reabastecimento.

        Pois voltando a seqüência de tossidas, após alguns segundos de intensa apreensão, finalmente a Bonitona voltou a respirar tranqüila e a falar alto, como de hábito.

        Mas aquela "pulguinha" continuou agora já dentro da orelha e eu a pensar que poderia ter sido uma praga da diretoria do hotel, que nesta altura do campeonato já deveria estar reunida em busca de solução para o encalhe do submarino catarinense em pleno deserto do Atacama.

        Entretanto, continuamos a viagem que transcorreu de maneira super tranqüila, com paradas para as fotos de direito, abastecimento em Maria Helena, considerada a segunda cidade mais árida do planeta.

        Aliás, será que vocês conhecem alguém que já tenha ido por três vezes à Maria Helena?

        Vocês fazem idéia do que é a cidade de Maria Helena?

        Imaginem que na segunda vez em que lá estivemos, ouvimos uma voz na saída da cidade nos pedindo carona.

        Agora este fenômeno voltou a se repetir, só que mais atentos, reparamos e temos certeza de que era a própria defunta, a Da. Maria Helena dizendo em alto e bom som: meu filho, seu cagão, me tira daqui antes que a cidade se acabe e ninguém mais venha me visitar.

        E assim surdos a estas súplicas, após o abastecimento obrigatório nesta única bomba de gasolina antes de Tocopilla, para quem vai tanto pelo litoral como pela ruta 5, seguimos contentes e felizes da vida, agora na expectativa da chegada numa cidadezinha chamada Vitória, parada também obrigatória para reabastecimento.

        Sanduíche comido, coca bem gelada sorvida naquele calor tórrido, nossas mentes agora um pouco mais acalmadas, pelo bom desempenho da Bonitona, só pensávamos em chegar a Arica, nossa última cidade em território chileno, antes de entrarmos no Peru, destino este que por si só, nos acelerava os corações.

        E eis que chegamos a Arica, com o hodômetro marcando justos 6.000 km desde a nossa saída dia 26 de fevereiro, cidade esta super movimentada nesta divisa internacional, com grande influência peruana no seu comércio.

        Diríamos que os peruanos por aqui são os nossos paraguaios daí, no que se refere ao comércio.

        É força muamba no meio das ruas.

        E dá-lhe correria com a chegada dos carabineiros, que não mostram a cangica pra ninguém.

        Aliás, perdem uma grande oportunidade de serem simpáticos e gentis.

        Mas é só a polícia virar as costas e toda aquela turma que se enfiou em não sei quantas tocas, volta imediatamente às ruas, a oferecer de tudo o que se possa imaginar, principalmente cigarros, que saem por praticamente metade do preço cobrado nos estabelecimentos comerciais chilenos.

        Após a procura de praxe por um hotel que tenha o famoso quarto 3 B, que em espanhol também funciona, ou seja, o "bueno", bonito e barato, que eles acham uma graça quando os questiono, nos instalamos no Hotel Concorde, que está mais para teco-teco, para logo após o banho de relaxamento, sair para o jantar de lei.

        E esta lei foi bem cumprida, pois comemos um excelente congrio num restaurante do mercado, regado a um ótimo vinho nacional, escolha da Ângela, para nos recolhermos, não sem antes voltar meus pensamentos para San Pedro de Atacama, imaginando que naquele momento poderia ser que o hotel já tivesse vindo a baixo na tentativa de fazer submergir meu submarino.

        E ele nem era nuclear.

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        • Dolor
          Fazedor de Chuva

          • Mar 2011
          • 3250

          #19
          Capítulo 18 - Lembranças


          Antes da nossa partida de Arica com destino à Tacna, é justo que se faça alguns comentários e esclarecimentos, para que se consiga continuar a merecer o estímulo da leitura e acompanhamento dos nossos leitores navegantes.

          Para tanto é necessário uma pequena retrospectiva do que aconteceu no que diz respeito a época do planejamento desta viagem, quer dizer, muito mais sonhar do que planejar, porque é mais ou menos assim que levamos as coisas.
          Por vezes, penso que até deveríamos ser um pouco mais metódicos com os nossos projetos, porém, creio que a intuição em alguns casos ainda prevaleça.

          Se é o jeito certo não sei, mas que é o mais cômodo, isto lá é verdade e como tudo tem dado mais ou menos certo, penso que é desta maneira que devemos deixar acontecer.

          Bem, voltemos ao nosso "planejamento".

          Faz mais ou menos um ano e meio que, particularmente, decidi que iríamos para o Alasca.

          Sim, ali na esquina.

          Conversei com a Ângela que, com sua habitual tranquilidade, mansidão e companheirismo, me disse: tá bom querido, se queres ir, então tá bom, vamos!

          E penso que ela não se tocou do destino que eu havia proposto, já que estávamos habituados a ir de um lado para o outro não muito distante, depois de 23 anos não fazendo outra coisa a não ser cuidar dos filhos, quando começamos a viajar depois das nossas bodas de prata.

          Não fizemos durante este tempo outra coisa a não ser cuidar dos "barrigudinhos", o que nos foi extremamente prazeroso.

          Me lembro do início da nossa Fábrica, há pouco mais de vinte anos, quando por absoluta falta de espaço, acabamos confinados em um quarto da nossa casa de madeira, na Vila Operária, lugar onde nasci e que por presente da minha mãe, acabou se tornando nossa propriedade.

          E lá, neste quarto, havia uma cama de casal e um beliche, logo, obrigatoriamente um dos três filhos tinha que dormir conosco.

          Lembro-me das alegrias deste convívio e do sufoco para dar "umazinha" na Ângela.

          E a gente conseguia!

          Foi um período maravilhoso, iniciado quando morávamos em Laguna e que, em época de muito mais dureza e também de irresponsabilidade, colocamos de forma quase inédita, um sistema de gás no nosso Fiat 147, cujo botijão, o famoso P 20, servia de cama para o Jorge, que se encaixava direitinho em cima dele, devidamente forrado com um acolchoado de lã bem macio.

          E o anjo, que tinha naquela época seus poucos mais de dois "aninhos", adorava este colchão.

          Era abrir a porta do carro para viajar e num segundo, lá estava o Jorge "jogadão" no seu cantinho, quer dizer, no seu quarto, que era o porta malas do carro.

          Já era um privilegiado, tinha a sua suíte, pois ele tinha o direito de fazer xixi e tudo mais.

          Convivência pra lá de maravilhosa que continuou com os primeiros dias da Maria, nossa filha, no Colégio Nilton Kucker, onde tive que acompanha-la por pelo menos duas semanas na sala de aula, até que estivesse habituada com esta sua nova rotina, na primeira série, sendo que após este período, a minha presença foi substituída por uma foto 3x4, que a acompanhou por outra quinzena. Como os colégios mudaram também!

          Segundos os entendidos no assunto, tecnicamente antipedagógico, mas sob o ponto de vista familiar, totalmente procedente.

          E o que dizer das aulas de tênis do Jorge, agora que estávamos mais firmes das pernas, das noitadas no paredão do Itamirim, dos treinos de saques, aos milhares nas noites frias de inverno, nós dois lá sozinhos, conversando sobre a vida, ele com pouco mais de seis anos, ouvindo-me como se eu fora o rei do mundo, e... naqueles momentos eu realmente o era.

          Muito maior do que o maior rei na face da terra!

          Eu era o seu ídolo e ele o meu reinado.

          Que semente de convivência maravilhosa.

          Agora ele é meu ídolo e como é bom ser hoje o seu reinado!

          Que fins de semanas inesquecíveis em campeonatos por este Brasil afora em companhia da Paula, companheira, torcedora e assistente inseparável, cujas qualificações continuam a ser uma presença cotidiana e que, desde o dia em que nasceu na frente dos irmãos, continua sendo o ombro delicado porém, forte, presente, constante e amigo.

          Ah! Que bons dias, nossos orgulhos!

          Bem, mas afinal de contas nós estávamos para partir de Tacna rumo a Arica.

          Bem Arica que nos espere um pouquinho mais, porque nós estamos ainda é em Itajaí, tentando ir para o Alasca.

          E ela concordou!

          Como pelos mais diversos fatores não foi possível a realização desta viagem em abril de 2002, tal desejo foi transferido para este início de ano de 2003.

          Tudo bem, com uma certa descrença, até porque o dia da partida estava distante.

          Para apimentar um pouco mais a história, selei: antes vamos para Ushuaia, nos confins do mundo, lá pelos lados da tal Tierra Del Fuego.

          E fomos, mas isto é história mais pra frente.

          Com o dia desta nossa partida chegando, combinamos de fazer uma página para a internet e com a largada acontecendo e conseqüentemente a página no ar, não imaginávamos, sinceramente, que haveria tanta gente boa e com tempo para nos acompanhar, daí então, toda a dificuldade que estamos tendo para manter o noticiário com relativo atraso, com aqueles que gentil e maravilhosamente, tem mantido contato conosco através deste site.

          E é a estes em especial que nos desculpamos, informando que todos os mails serão respondidos, sendo que para tanto, pedimos as suas paciências, pois de uma boa parte, de algumas centenas, infelizmente, recebemos de volta as respostas que enviamos.

          Estamos neste momento fazendo o levantamento destes retornos para reenviar as respostas o mais rapidamente possível.

          E para quem é preguiçoso como eu, este encontro com o teclado, resistido ao máximo, tem-se tornado uma cachaça, que acho que no final desta viagem, vou ter que inventar uma outra para poder alimentar esta rotina que está se tornando um vício.

          Com relação aos problemas técnicos, estamos tentando resolvê-los o mais rapidamente possível, tanto assim, que na próxima semana estaremos com novidades em termos de qualidade e rapidez nas informações.

          O que posso pedir neste momento é para que não nos abandonem!

          Vejam só quanta coisa dita única e exclusivamente para me justificar por estas falhas cometidas.

          O cara é tão cretino que envolve a família, conta um monte de verdades, só pra pedir desculpas pela falha nossa de todo dia.

          Então tá bom gente, me desculpem!

          Prometo que vou arrumar nosso correio para que possamos receber em tempo real os mails e, mais do que tempo real, quase em cima da pinta, responder a todos com o maior prazer do mundo.

          Quanto a viagem à Arica, posso dizer pra vocês que foi do Peru!

          A travessia da fronteira entre estes dois paises é uma coisa que se não fosse trágica, seria extremamente cômica.

          São centenas, milhares de peruanos que atravessam a fronteira todos os dias para trabalhar em Arica, no Chile, até porque a distância que separa estas duas cidades não passa dos 50 km e que, diariamente, são revistados da cabeça aos pés, com a aduana recolhendo de tudo o que se possa imaginar, deixando aquele povo, que é dócil, manso e resignado, literalmente a ver navios.

          E isto são testemunhos que fizemos "in loco" enquanto aguardávamos o devido preenchimento da papelada necessária para a obtenção dos seis carimbos imprescindíveis para a obtenção da licença para entrarmos em território peruano, nós três, porque não se esqueçam de que a Bonitona, como dizia nosso ex-ministro, é um ser humano.

          Tanto Arica como Tacna, são duas cidades muito divertidas, ganhando ao nosso ver a segunda, pela alegria e movimentação dos peruanos, que são festeiros, rueiros e muito queridos.

          Continuem nos acompanhando e escrevendo, porque, melhor do que isso, só indo mesmo para o Alasca!

          Um beijo!
          Última edição por Dolor; 25-11-11, 01:50.

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          • Dolor
            Fazedor de Chuva

            • Mar 2011
            • 3250

            #20
            Capítulo 19 - O Cagaço


            Manhã linda de sábado, final de semana, todo o tempo do mundo, já em território peruano, depois de um dia de moleza, com pouca quilometragem, hotelzinho meia boca, que aliás esta história de hotel é um capítulo à parte na vida dos viajantes. Encontra-se de tudo o que se possa imaginar em termos de instalações, de conforto e de irracionalidade.


            Para quem está há muito tempo na rua, com certeza já deve ter encontrado de tudo. Que o digam os representantes comerciais! A começar pela recepção.

            Normalmente, de cara eu desconfio de prédios antigos, com uma entrada muito bacana, muito bonitinha, que é a mesma coisa que o feio arrumadinho. É a velha história de quem vê cara não vê... coração.
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            Não nos hospedamos de jeito nenhum sem antes fazer uma verificação “in loco” das instalações. Já encontramos de tudo e somos mesmo assim, o tempo todo surpreendidos.


            É elevador que não está funcionando, é chuveiro instalado muito baixo o que nos obriga ao banho quase de cócoras, é água quente fria, cama de faquir com as molas todas aparentes, cores horrorosas cobrindo as paredes do quarto, "cobertores tomara que amanheça", cheiro de mofo, pias de tudo quanto é altura para baixo, descargas as mais estranhas possíveis, por vezes sendo objeto de pesquisa após a obrada a localização da válvula de descarga, papéis higiênicos de todas as abrasões, uma vez inclusive nos esmerilhando as partes, que por pouco não tiveram que ser encamisadas, televisões que não funcionam, controles remotos de quebrar a cabeça, regulamentos os mais esdrúxulos, enfim, uma caixinha de surpresa e uma emoção a cada hospedada, naquele padrão preço baixo.

            Assim fomos rodando rumo ao interior do Peru, opção feita pela curiosidade em querer se conhecer estas particularidades que são inerentes "do estrada a dentro" das cidades, estados e mesmo países.
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            Como é bom se conhecer estas pessoas simples do interior, que mostram a verdadeira face de um país, pois é lá que se encontra a base da formação de um povo, com seus hábitos, suas rotinas, suas hospitalidades, enfim, suas maneiras de serem e de tratarem aqueles que os visitam. E no Peru, desde a sua linha divisória de fronteira, o bom trato, a simplicidade, a mansidão e a alegria são uma constante.

            Por vezes, é evidente que temos de ter o entendimento de que a simplicidade excessiva traz consigo em alguns casos, uma primariedade que faz com que as pessoas sejam aparentemente arredias.

            Aí então pega-se o quebrador de gelos e devagarzinho vai se tirando aquela casca de autodefesa, até se encontrar uma pessoa dócil, pronta e com prazer para servir. É só se ter um pouquinho de paciência e de boa vontade.


            Inicialmente, não reagir a primeira impressão negativa de forma também negativa, sendo muito importante que se esteja absolutamente desarmado de tudo quanto é ação preventiva e mormente agressiva.
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            E voltando aqui ao nosso assunto, a conclusão que se chega, é que por estas bandas, é necessário ter um pouquinho a mais de paciência, até porque são pessoas habituadas a altitudes excessivas, com frio quase extremo, tanto assim que nos cortam os corações quando vemos as crianças, desde os bebezinhos até as mais velhinhas, com as bochechinhas de seus rostinhos irremediavelmente queimadas pelo rigor do clima.

            Dá dó!

            Assim, analisando estas particularidades, inclusive aproveitamos esta oportunidade para render uma homenagem toda especial à estas mulheres peruanas, que em rápidas observações, percebemos a grande carga de trabalho que lhes é conferida. Temos a impressão de que não fazem outra coisa na vida a não ser trabalhar.

            Dá-lhe trabalho, pois a agricultura de subsistência em países pobres como os nossos, agravados pelo rigor do clima, aliados a uma altitude que nos deixa, sem dúvida nenhuma, com o raciocínio mais lento, nos impõem um rigor físico muito maior, mesmo para quem já esteja acostumado a este ambiente, é de uma rudeza sem tamanho. Quando se lida com coisas vivas tipo criação e lavoura, que respiram 25 horas por dia, imagine-se a trabalheira que este povo tem, cabendo à mulher, e aqui não é diferente, a criação dos filhos, o cuidado com a casa, com a alimentação, com a escola, com o futuro de todos e ainda por cima ter que cuidar do marido, que normalmente é um bicho chato pra caramba.
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            Valeu mulherada! Vocês todas são nota 1000 e só por este último detalhe, vou dar também cinco estrelas.

            Quanto a nós, absortos em todas estas observações, voltamos a sentir aquela tosse, quer dizer, agora já transformada em comprida, pois a Bonitona não parou mais de tossir e quase que instintivamente, reparamos que nosso altímetro já estava batendo lá no céu.

            Sem querer tornar mais difícil o que já estava complicado, confesso que sinceramente catingou.

            Chave da gasolina direta para a reserva, velocidade já em 30 km, dá-lhe tosse e eu já pensando inclusive em fazer uma respiração boca a boca, dá-lhe subir, placas marcando 4.300 m, quando a Bonitona dá uma melhorada que pensamos, inclusive, fosse a da morte, e para nosso desespero, o final da tarde já estava começando e por estas bandas aqui, quando o sol diz, acho que estou indo, a noite se prevalece e chega na horinha, deixando tudo bem escuro, e a estrada, tipo rampa, era uma constante, e nós mudos, ofegantes pela falta de oxigênio, continuávamos a subir agora a 20 km por hora e nesta altura do campeonato, já com as calças, não mais nas mãos, mas sim, totalmente arriadas.

            Sufoco, sufoco, ar, queremos ar, para nós e para a Bonitona, queremos começar a descer, até que chegamos a um lugar nenhum chamado Huaytires, com uma tabuleta marcando 4.755 metros de altitude sobre o nível do mar, paisagem desbundante, mas de que adianta, se não temos cabeça pra mais nada.

            Tanto isto é verdade, de como nos afeta a capacidade de raciocínio, que a primeira coisa que me esqueci, e não vou dizer que não foi bom, foram das nossas contas a pagar. Não me lembrava de nenhuma.


            Ficamos bobinhos, bobinhos e neste caso foi muito prazeroso, ficar, mesmo que momentaneamente sem contar pra pagar!

            Eu ainda meio doido arrisquei, mas somente para transferir a responsabilidade para a Ângela, vamos fazer uma foto aqui?

            Ela de imediato, já em pânico, pede para que não paremos e que continuemos, para sair o mais rapidamente possível desta zona de perigo.

            E a Bonitona, valente que só ela, foi indo, foi indo, acelerador na ponta dos cascos, até que chegamos a um pequeno vilarejo chamado Santa Rosa, onde fomos acolhidos de uma maneira surpreendente, inclusive com o tal do chá de coca, muito prazer, uma delícia que nos aqueceu e nos acalmou.

            Muitas fotos tiradas e o compromisso sagrado de remeter cópia para eles. Promessa é promessa e será cumprida!

            Pois é, finalmente chegamos ao nosso destino, depois de pouco mais de 460 km rodados em aproximadamente 8 h, num lugar chamado Desaguadero, as margens do Lago Titicaca, fenômeno da natureza, bem na divisa do Peru com a Bolívia.
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            Por mais que vocês queiram imaginar, jamais conseguirão ter a mínima ideia do que se trata. Só vendo pra crer!

            Frio, cansados, mais pelo desgaste emocional do que físico, fomos entrando na cidade, pelo meio de milhares de pessoas, com as suas barracas armadas, vendendo de tudo o que se possa imaginar, com instalações pra lá de primárias, tanto fazendo comida, como vendendo e comendo, num fuzuê jamais visto.

            Para nós foi verdadeiramente um presente poder chegar naquele momento em que os peruanos, aliados aos bolivianos, exercitam o que mais gostam de fazer, que é comercializar.

            Fuça daqui, fuça de lá e acabamos chegando a um hostal, que pode, sem sombra de dúvidas, tomar lugar de destaque naquela relação de esquisitices hoteleiras que mencionei no inicio deste relato.

            Quarto mínimo, colchão "jogadaço" no chão, cobertor tomara que amanheça, água quente por encomenda, frio de dar dó, e nós do jeito que chegamos e sem coragem para nos mexer dentro do quarto, achamos que a melhor alternativa ainda era a de ficar como estávamos, vestidos, retirando somente as botas, o pelego e chamando mentalmente a Daniela, mulher do Presidente, porque nos lembramos das suas palavras quando das nossas despedidas, em que ela não entendia porque deixávamos nossa casa tão confortável, para nos metermos neste tipo de aventura.

            Nem nós Dani!
            Última edição por Dolor; 29-01-12, 07:33.

            Comentário

            • Dolor
              Fazedor de Chuva

              • Mar 2011
              • 3250

              #21
              Capítulo 20 - O Sétimo Dia

              Dormimos o sono dos anjos quase sem termos nos mexido a noite toda, e ao acordarmos ouvimos o silêncio característico das pequenas cidades do interior, colocamos as cabeças para fora enchendo os pulmões com aquele ar rarefeito e limpo, tentando melhorar a nossa oxigenação, e quando isto acontece, quase de imediato, logo após aquela preguiça dos primeiros minutos, é natural que se vá ficando mais valente.

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              Resolvemos encarar numa boa a nossa suite de pobre, descemos à recepção e pedimos que liberassem a água quente, e antes que voltássemos para o quarto, demos uma espiada no que estava acontecendo e também para que pudéssemos nos posicionar sobre onde estávamos.

              A Bonitona, por um capricho do rapaz que nos atendeu quando da nossa chegada, estava agasalhadinha pois havia sido colocado um plástico por cima dela e toda boba, pensamos, já deve estar completamente sarada da sua bronquite.

              Água quente liberada, banho tomado, alma lavada, sorvemos um balde de café com leite bem quentinho e durante este curto espaço de tempo ao sairmos para fazer um reconhecimento, agora externo, percebemos que Desaguadero começava a ferver.

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              Até então não havíamos sido apresentados oficialmente para um veículo de transporte chamado trici-taxi, que surgidos não sabemos ainda de onde, abundavam pelas ruas da cidade.

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              Naturalmente que alugamos um e fomos fazer um city tour num misto de prazer e de pena.

              De prazer porque circulamos por entre pessoas que efetivamente vivem a sua própria cultura, com seus hábitos, modos, jeitos e acima de tudo autenticidade, comercializando de tudo o que se possa imaginar, desde folhas e raízes medicinais a sapatos, roupas, eletrodomésticos, móveis, num mercado persa digno das arábias.

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              Para nós forasteiros é muito difícil tentar identificar quem é peruano e quem é boliviano, posto que, atravessando a rua que bordeja o Titicaca, encontra-se a Bolívia.

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              E tudo isto nós estamos falando do alto dos nossos mais de 3.800 m de altitude e olhando aqui de cima, fico me perguntando; como é que esse mar não desaba daqui para baixo?

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              Nos mesclamos com o povo nesta grande feira, experimentamos as suas frutas e comidas feitas na hora, nos chamando a atenção a grande quantidade de cambistas estabelecidos com pequenas mesas, um ao lado do outro, numa grande demonstração de poder financeiro, assim entendemos, ao ficarem contando e organizando algumas pilhas de dinheiro, na tentativa de atraírem os seus clientes.

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              Certamente deve haver um mercado, que não percebemos, para ter tanta gente envolvida nesta atividade, aqui por estes lados do mundo.

              E com relação ao sentimento de pena, para nós que não estamos acostumados a este tipo de veículo com tração humana, é realmente incomodativo saber que alguém está fazendo uma força danada para te levar de um lugar ao outro, principalmente numa área cuja topografia é extremamente acidentada, com sobes e desces, buracos de montão, com lama, lhama, cachorro, ovelha, boi, porco, enfim, uma verdadeira festa que só não foi maior porque a necessidade de partir era imperiosa e tínhamos ainda pela frente alguma coisa como 550 km neste altiplano andino que não nos permite ter a menor idéia do tempo real para se cumprir um trajeto.

              Aliás, isto é outra coisa muito interessante por estes lados, pois não existe uma só pessoa que quando questionada sobre distâncias entre uma cidade e outra, nos dê a informação em quilômetros.

              É sempre em horas.

              Isto quer dizer, de Desaguadero até Cusco, nosso destino do dia, as informações que nos chegavam é que distava em torno de umas dez, onze ou doze horas, mas de moto, aí deve ser ser umas quatro horas.

              Pensam que moto é foguete e verdade seja dita, a precisão, não é o forte deles!

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              E nesta contagem regressiva do tempo, partimos rumo ao nosso destino, circulando por altitudes que variavam, como é normal nesta região, entre os seus 3.500 a 4.500 m, sempre num verdadeiro presente da natureza para nós.

              Continuamos por aquelas centenas de quilômetros a nos deliciar com a pujança desta Cordilheira exuberante, com os pequenos vilarejos nela encravados e dela tirando os seus sustentos, com as pequenas criações principalmente de ovelhas, lhamas e porcos que conosco compartilhavam os espaços nestas rodovias, normalmente de excelente qualidade, com os acenos e sorrisos das crianças que pilotavam estes rebanhos, com a timidez estampada nos rostos destas mulheres valentes e com a admiração dos homens ao se depararem com este cavalo de aço que montamos invadindo os seus territórios.

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              E com o sol mais uma vez se pondo aqui neste pedaço do mundo, agora por detrás da montanha mais alta que ele encontra, nossos pensamentos são levados para a beira do Atlântico, lá em Balneário Camboriú, agora já há pouco mais de 7.000 km de distância, onde sabemos que os nossos amigos presenciam este mesmo poente acontecer, encerrando com ele mais um dia que nos foi permitido viver.

              Elevamos nossos pensamentos um pouquinho mais para o alto, agradecemos ao Senhor por mais este dia e pensamos: que todos os nossos sétimos dias sejam sempre assim, de alegria e de paz.
              Última edição por Dolor; 29-01-12, 07:48.

              Comentário

              • Dolor
                Fazedor de Chuva

                • Mar 2011
                • 3250

                #22
                Capítulo 21- Beleza


                Hoje sim compensou toda a trabalheira.

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                Quer dizer, chegamos a Cusco no final da tarde nos deparando de início com toda aquela “muvuca” que de um modo geral, é marca registrada das cidades visitadas até agora no Peru, porém, à medida em que fomos adentrando a cidade foi se transformando até nos cativar de uma forma irremediável.

                Logo na segunda parada para a tradicional escolha do hotel, acertamos em cheio ao optarmos pelo Hotel Casona de San Agustín, situado na rua que lhe empresta o nome.

                Atendimento e instalações nota dez, enfim, coisa de gente fina.

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                Manhã em Cusco, bom café da manhã, tomado com tudo o que se tem de direito, com a baguala devidamente instalada no jardim interno do hotel, digamos na vitrine, para massagear o nosso ego.

                Coisa boa ficar só dando aquelas explicações que enchem a gente de orgulho, de satisfação e a Bonitona lá, toda garbosa, toda boba e nós com o babador todo molhadinho.

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                Saímos para uma verificação dos arredores que, como toda cidade deste porte, na faixa dos 300.000 habitantes, tem lá seus problemas, mas ainda bem que não foi pra isto que viemos para cá, então, enquanto nos dirigíamos para o centro histórico a percebíamos invadida por tudo quanto é tipo de gente, de tudo quanto é tipo de toca, especialmente da Europa, e nós loucos para nos perdermos naquela beleza de lugar, repleto de histórias, de misticismos e de energias.

                Aliás, esta civilização Inca foi tão sabia que não deixou sequer um bilhetinho escrito dizendo o que fizeram, o que faziam e o que fariam, sendo portanto, tudo o que contam a respeito deles, puro exercício de imaginação e desencontros, e quem vai contando um ponto vai aumentando outros dois.

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                Às vezes tenho a impressão de que vão dizer que foram os Incas que inventaram a pólvora, tanto é o que vão acrescentando nas histórias contadas, sendo que, sem sombra de dúvidas, deixaram um legado para a humanidade de inestimável valor.

                Também tem que se ver para crer!

                Muita coisa linda e diferente para se comprar, chegando a nos empolgar em adquirir "algunas cositas" que fomos achando relativamente baratas.

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                Chegamos até a ensaiar um "dá me dos" porque pensamos em mandar para os filhos uns "regalitos" de excelente qualidade e por um bom preço.

                Separamos algumas peças já com a vendedora, toda solícita, pensando naturalmente na boa comissão que receberia e mandando ver as prateleiras com boas pratarias, artesanato em madeira, entre outros, num trabalho digno dos melhores elogios.

                Claro que a nossa empolgação tinha limites, não só de bolso como de espaço, pois não se esqueçam de que estamos de moto. Aliás, a Ângela se esqueceu, apesar dos meus insistentes apelos, para que voltasse à terra.

                Compras feitas, fechamento de contas e a vendedora nos perguntando se iríamos pagar "en efetivo" ou "en tarjeta", no que de pronto respondi: “en efetivo” e arrematando: “Señorita, son todos para regalos”, por favor.

                Sorridente nos passou a conta e incontinente coloquei a mão no bolso e com aquele olhar de cumplicidade da Ângela, pensamos simultaneamente: precinho “bão” mesmo viu “sô”! Saquei a merreca e passei para a atendente a quantia em soles, moeda nacional, que tem a mesma equivalência do nosso valoroso real.

                Só faltou a “chica” nos dizer: “ôces” tão de gozação comigo, né?

                E nós, mas “mire que se passa”?

                “Señor es en” dólares americanos!

                Vendo aquela conta se multiplicar por 3,5 vezes, sentimos imediatamente aquele calor da pobreza subindo do estômago em direção a garganta em forma de nó, não sem antes dar uma passadinha pelo intestino e lá dentro, dar aquela pegada que faz a gente suar frio mais rápido do que café instantâneo se dissolvendo e sentir uma tristeza imensa porque, depois de já termos dado mentalmente os presentes para todo mundo, com aqueles sorrisos de felicidades e com cada coisa no seu lugar, ter que de uma hora para outra recolher tudo e devolver, é verdadeiramente um pecado.

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                Até então nada havíamos comprado quase nada, mesmo porque estamos no início da viagem e aguardávamos também a chegada por esta região do Peru, cujo artesanato nos encanta, para aqui fazermos algumas compras e de repente, o “pirulitinho” estava sendo tirado da nossa boca, de maneira cruel.

                E com aquele sorriso amarelo, depois de já ter beliscado uns quitutes que nos haviam servido, questionei dizendo que os preços que havíamos visto, no nosso entendimento, eram em soles, pois estávamos no Peru e não imaginávamos que fossem em moeda americana.

                Infelizmente é verdade, porque em tudo aquilo que é melhor, os preços estão em dólares americanos, apesar de nas mercadorias constar o cifrão ($), identificação característica para designar soles.

                Para nosso azar tudo se tornou muito caro e desiludido, disse à vendedora que iria falar com a minha mãe e que voltaríamos mais tarde.

                Na realidade, da família do "dá me dos" migramos para a família dos "miranda" ou seja, aquele que “mira” e anda.

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                Independente do nosso pequeno insucesso é admirável a obra executada por estes Incas, que na minha modesta opinião eram uns pirados, pois durante o período de existência desta turma, que durou de mais ou menos de 1.100 a 1530, com a chegada dos espanhóis, os caras deram um show em termos de arquitetura, qualidade de construções, conceitos de vida etc.

                No que diz respeito aos dois primeiros itens, praticamente tudo está lá para ser visto e ser deliciado, pois o legado deixado é de um valor inestimável, apesar do que os Pizarro da vida fizeram em cima deste pessoal quando aqui chegaram.

                Quanto a filosofia de vida e costumes, como falei a pouco, não existe legado escrito descrevendo ou registrando detalhes da vida deles, a não ser deduções baseadas em alguns desenhos deixados em cerâmicas, que foram dando base para aquilo que se fala.

                E o que escutei me deixa com a sensação de que as feras viviam numa sociedade perfeita.

                A única coisa que me deixou com a pulga atrás da orelha com toda esta perfeição é que, mesmo lá, o pequeno levava na cola, pois o bacana quando morria, para que pudesse continuar mantendo os privilégios lá em cima, ou lá embaixo, levava de" nhapa" os empregados que o tinham servido aqui nesta vida mundana, e se esta lei valesse ainda hoje, tenho certeza de que os nossos funcionários já estariam fazendo novena para que a Ângela e eu tenhamos vida longa, não é mesmo?

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                No mais tudo corre muito bem graças à Deus, a bunda ainda não "quadradou" (acho que vou matar o Aurélio ou então acabar com as teclas das aspas), apesar de termos chegado aqui em Cusco completando rasos 7.000 km já rodados.

                Desejamos que todos tenham uma ótima semana esperando ainda que durante a própria, possamos deixar relativamente em dia nosso diário.

                Um beijo para todo mundo.

                Dolor e Ângela
                Última edição por Dolor; 27-02-12, 14:11.

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                • Dolor
                  Fazedor de Chuva

                  • Mar 2011
                  • 3250

                  #23
                  Capítulo 22 – Machu Picchu


                  Finalmente chegou o dia de irmos até este lugar que há anos exerce sobre nós uma atração toda especial, pois além de ser um ponto longínquo, exótico e cheio de magias, era um objeto de desejo que não deixava em paz nosso imaginário.

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                  Na véspera, ao contatarmos nosso recepcionista para que nos passasse algumas informações sobre empresas que faziam este tour, "casualmente" chegou no hotel uma pessoa muito amável e que imediatamente se apresentou como proprietário de uma agência de viagem, especializada exatamente neste tipo de trabalho que, é claro, tem muitas em Cusco, porém, como nos simpatizamos, o contratamos para nos levar até este local tão raro.

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                  Negócio chorado, feito, marcamos o passeio que aconteceria nesta terça-feira, bem cedo, pois para se chegar até Machu Picchu, pelo caminho mais convencional, há necessidade de se pegar um trem, além é claro, das trilhas incas, opção mais ligada a um outro tipo de aventureiro, pois é feita por um caminho bem íngreme e para se fazer todo este percurso, que tem aproximadamente 50 km, se leva mais ou menos dois dias, precisando ter mais do que disposição e vontade, de preparo físico, porque não é mole.

                  Portanto, as 4 h da madrugada já estávamos tomando café e com tudo pronto para que a van viesse nos pegar para podermos iniciar a jornada de 120 km.

                  Longe de querer ser guia de turismo e muito menos historiador, penso que é importante passar algumas informações que julgo interessantes para que possamos dar uma viajada por este mundo encantado, sob a ótica de quem curtiu muito o passeio.

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                  Lá pelos idos do ano de 1911, um "bicho grilo" da época, que era professor em Yale, Connecticut, botou na cabeça, por estudos e análises que vinha fazendo, de que haveria aqui pelos lados do Peru, uma cidade perdida, que se chamava Vilcabamba e que teria sido o último refúgio dos Incas por estas plagas.

                  Acontece que ele atirou certinho no que achava ter visto e acertou em cheio no que não viu.

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                  Descobriu este santuário, que já era do conhecimento de uma meia dúzia de camponeses, que trabalhavam em terras da região como meeiros, e acredito, porém, que por ignorância e não por outros motivos que já fazem parte do exagero, não deram a devida importância e deixaram aquelas ruínas como estavam, para eles, sem valor.

                  O tal do professor, que se chamava Hiram Bingham, quando botou os olhos neste tesouro, de certo nem se acreditou no que viu.

                  Imagine, ele um antropólogo, estudioso do assunto, sentiu que havia ganho o primeiro prêmio da loteria esportiva... sozinho.

                  Temos que tirar o chapéu pro homem, porque se jogar lá dos States para se meter aqui neste altiplano, praticamente no início do século passado, quando ainda hoje não é mole, não deve ter sido fácil.

                  Vocês não fazem ideia do primarismo de toda esta região.

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                  Independente das belezas e do povo amável, continuamos a ver comunidades que praticamente ainda estão na era pré-inca.

                  Voltando ao assunto, quando chegamos com o trem, depois de uma viagem de quatro horas, em ritmo de Maria fumaça, chegamos a um lugar chamado Águas Calientes, onde após passarmos por um corredor polonês de comerciantes vendendo de tudo o que se possa imaginar, pegamos um micro ônibus para subir até a Montanha Velha, tradução "quechua" para Machu Picchu .

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                  Logo na primeira curva reparei que a Ângela começou a arregalar os olhos e, à medida que subíamos começamos a nos lembrar dos Caracoles, no lado Chileno da Cordilheira e chegamos à conclusão que quando passarmos por lá de novo, vamos fazê-lo "discostas", porque os quinhentos ou seiscentos metros que se sobe para chegar até o topo onde se encontra esta jóia, é uma pirambeira só.

                  E o que me deixou triste foi que a nossa querida Joinville acabou perdendo para Machu o título de a cidade que mais chove no mundo.

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                  Nunca vi chover tanto!

                  E enquanto se vai subindo, além da preocupação com o caminho, a adrenalina vai acompanhando a ascensão, praticamente nos dando um nocaute quando chegamos lá em cima e nos deparamos com a obra que aqueles malucos fizeram.

                  É sem comentários e temos que cuidar para manter a boca fechada de tão lindo que é o que se descortina para o visitante.

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                  É do Peru, literalmente.

                  Como é que estes malucos foram fazer aquela cidade, entre picos, a mais ou menos 2.400 m de altitude, sem caminhos, clima totalmente adverso, isolado do mundo, que foi fundada imaginem, ninguém sabe, que foi abandonada no ano de... ninguém sabe, que tudo terminou por causa de uma briga, por causa de uma doença, por causa de uma fofoca, por causa de..., ninguém sabe, enfim, não existem documentos, escritos, um bilhetinho esquecido num cantinho, de alguém dizendo o que aconteceu. Nada!

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                  Eu já havia falado que os caras eram totalmente pirados.

                  Mas numa engenharia cheia de esquemas, pois o que construíram é de uma arte, de uma categoria e de uma precisão, que aquilo que os descobridores reconstruíram é de pronto visível e identificável, tal a diferença de qualidade, e olha que com muito mais recursos tecnológicos do que os fundadores.

                  Não conseguiram chegar aos pés dos originais.

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                  A visão, o cenário, a localização, tudo o que se vê, é de uma alegria e empolgação contagiante.

                  Se ouve enquanto se circula por este patrimônio da humanidade, muitas histórias a respeito do que aconteceu, porém, ninguém sabe ao certo o que se passou, pois não há nenhuma escrita, salvo pequenos cacos de cerâmica, insuficientes para nos dar um rumo sobre a verdade.

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                  Ninguém sabe absolutamente nada sobre os "manos"!

                  É tudo pura dedução e especulação!

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                  Dá pra imaginar uma doideira dessa?

                  Entretanto, como nas nossas vidas sempre há momentos que se tornam mágicos, enquanto imaginávamos o que poderia ter acontecido naquele altar central dos sacrifícios, erigido em homenagem ao Condor, começamos a escutar aquele do Simon e Garfunkel, não resistimos, ignoramos todo mundo que estava a nossa volta, e dançamos.

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                  Tenho a impressão de que vi Mano Inca nos dar uma piscadela de satisfação por nos ver lá, tão felizes.

                  Voa El Condor e nos leva contigo.

                  Bom Machu Picchu pra vocês.
                  Última edição por Dolor; 28-02-12, 14:26.

                  Comentário

                  • Dolor
                    Fazedor de Chuva

                    • Mar 2011
                    • 3250

                    #24
                    Capítulo 23 - Um dia daqueles!

                    Ainda embevecidos pelo espetáculo vivido no dia de ontem, com aquela curtição maravilhosa que foi Machu Picchu, voltamos à nossa rotina de tomar o café da manhã que quando se acerta o Hotel, como neste caso, torna-se um prazer que dá o primeiro pontapé no dia que se inicia e daí, já com a pança bem cheia com tudo a que se tem de direito, se colore de mais rosa.



                    E hoje, nossa jornada prevista seria para dormir em Nazca, cidade que conhecemos através do livro de Eric von Daniken em, Eram os Deuses Astronautas?

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                    Lembram-se?

                    Bem, com o coração entrando no ritmo dos giros da Bonitona e com a lembrança das "viagens" da adolescência, lá estamos nós indo em direção de novo, aos nossos sonhos.

                    E como é bom quando isto acontece, pois nos enche de uma alegria diferente, de uma alegria jovem em corpo maduro, já com uma boa quilometragem de vida, conscientes de que ainda estamos por aqui.

                    Mas vamos lá, saímos da vitrine do hotel travestidos de astronautas, até porque nossa roupa de uma certa forma nos remete a tal e como estava tudo muito tranqüilo fomos nos atrasando nisto, naquilo, mais um papinho e o meio dia, já se aproximava quando finalmente pusemos o pé na estrada.

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                    Com um terreno bem acidentado, como é normal no Peru, com subidas fortes e circulação sempre na faixa mínima dos 3.500 m de altitude, com flutuadas incríveis lá em cima, na casa dos 4.500 m e com todos os seus efeitos, seja do ar rarefeito em cima de nós, seja da adrenalina sendo injetada em doses cavalares, ou seja, pela moto que insiste em dar umas falhadas, a coitada, com toda aquela cavalaria buscando ar onde é possível e o pior é que, juntos, acabamos não o encontrando, nos rendemos ao cansaço normal destas grandes voadas.

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                    Não é fácil transitar junto das nuvens, que as vemos ali juntinhas de nós, mais próximas do que nunca!

                    Parada de lei para o almoço, sem pressa, até porque depois de tantos anos de nossa juventude aguardando este encontro com estas linhas extraterrestres, estávamos agora há poucas horas deste encontro pessoal.

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                    Todos os mapas que tínhamos nos davam que o trecho entre Abancay e Calluanca, numa extensão de aproximadamente 120 km, seria feito em estrada de terra e, psicologicamente já preparados para esta parada, nossa surpresa foi total quando nos deparamos com esta parte em questão totalmente asfaltada, com as equipes de trabalho finalizando a pavimentação deste tramo que, entretanto, em função da época de chuvas que é normal nesta região por estes tempos, ocasiona um fenômeno de desmoronamentos em toda a extensão da estrada e que atende pelo nome de "derrumbes", que além de causar prejuízos enormes em função dos estragos que faz na rodovia, transforma-se num perigo tremendo para os viajantes em função dos entulhos em cima do asfalto, assim como, pela enorme quantidade de água que desce dos morros abaixo, em "calhas" feitas no asfalto, para que estas cachoeiras possam procurar as suas turmas.


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                    Nossa primeira suspirada do dia foi num desses "derrumbes" que obrigou a Ângela a desembarcar, acrescentando a aquele "aguaredo" mais um bocado de lágrimas, em função do perigo que nos apresentava.

                    Sem querer dramatizar, era água pra cara...mba. Foi o nosso primeiro "cagaço" do dia, como se num aviso de alerta, para o que nos estava sendo reservado.

                    Conseguimos superar aquele obstáculo mesclado com uma grande quantidade de pedras e de lama.

                    Ufa! Por esta passamos.

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                    Como vivemos de uma certa maneira muito sós, a simples imagem de uma outra moto nos enche de alegria e de expectativa para se trocar algumas experiências e desafios vividos, porém, quando esta visão é dupla, tudo se torna melhor ainda.

                    E elas estavam ali na nossa frente, devidamente ornamentadas para tiros longos e com placas da Alemanha.

                    Imediatamente paramos e após os cumprimentos e as identificações de praxe, trocamos algumas figurinhas e informações que providencialmente foram muito positivas, porque nossos caminhos estavam sendo feitos de forma contrária, entretanto, como esta turma de estrada é meio folgada, não demos a importância devida para o trajeto que eles tinham acabado de fazer e que seria nosso desafio pelas próximas horas.

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                    Nos disseram que eram de Hamburgo e que tinham desembarcado com as motos, duas Teneré, em Buenos Aires, e que a partir daí, estavam dando este giro pelo Chile e Peru, retornando para a Alemanha agora no final deste mês.

                    Os achamos muito tranqüilos para quem vem do velho continente e nos tem como índios, porém, após alguns poucos minutos nos deparamos com uma Land Rover, placa da Alemanha e que numa rápida olhadela pudemos identificar, pelo menos, um médico, um dentista, uma psicóloga, um nutricionista, um "personal trainer", um cozinheiro e um mecânico, entre outros.

                    Assim até nós, né?

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                    Mais umas duas desembarcadas da Ângela para que pudéssemos atravessar os rios que passavam por cima da estrada, mais um pouco de lágrimas e começamos a subir, subir e a subir, e naturalmente a apreensão para não dizer medo, já no estágio de apavoramento, começou a tomar conta de nós, porque junto com aquela altitude brutal, agora flutuando entre 4.000 e 4.600 m, cercados de neve, de pequenos lagos congelados, de muitas vicunhas, chegou a chuva, e aquelas nuvens, com as quais brincávamos de casinha quando crianças, se tornaram "cabreironas", pesadas, despejando toneladas de litros d'água em cima de nós.

                    E, é claro, que a noite, esta santa, se fez presente quase de imediato, e enfrentando temperaturas na faixa dos três graus centígrados percebemos que o céu estava começando a nos chamar, e nós, num esforço tremendo para não nos entregarmos, chamamos todos os nossos santos protetores que de certa maneira foram nos dando a assistência que precisávamos para suportar tanto medo e angústia.

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                    Sinceramente, sentimos que a coisa estava ficando preta de verdade, quando a Ângela lá pela altura de um tal de Abras Huashuaccasa próximos dos 4.400 metros de altura, tirou o seu santinho de São Jorge e só encontrou o dragão dando um "tchauzinho", porque o santo, o cavalo e tudo mais já haviam partido.

                    Começou o desespero e porque não dizer... a catinga.

                    Catingou feio!

                    Sós, frio pra dragão nenhum agüentar, distante de qualquer indício de civilização, aparentemente abandonados pelo nosso santo, o que me restava era acalmar minha parceira, que com justa razão estava entrando em pânico.

                    Velocidade máxima de 15 quilômetros por hora, quando dava, visibilidade menor que zero, frio de lascar e o medo quase incontrolável que algum animal atravessasse nossa frente, que a Bonitona resolvesse parar, que algum obstáculo nos impedisse de continuar, enfim, éramos puro desespero.

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                    Muita paciência, muita fé em Deus, muitas imagens dos filhos, do neto, das mães, dos amigos e de todo mundo povoavam as nossas mentes, como que buscando em cada um a força que precisávamos para vencer um obstáculo do tamanho da mãe natureza.

                    A primeira indicação que apareceu foi da cidade de Puquio, que distava, naquela altura do campeonato, 89 infindáveis quilômetros.

                    Colocamos nossas energias neste destino e buscando a calma que não conhecíamos em nós mesmos, sentimos mais uma vez, que mesmo as adversidades, tem uma capacidade enorme de nos aproximar e através da conversa e do carinho, fomos buscando a tranqüilidade que precisávamos para enfrentar este desafio que inocentemente nos impusemos.

                    Frio, muito frio, neblina, muita neblina, chuva, muita chuva, tensão, muita tensão, oxigênio, muito pouco, foram os ingredientes que aos poucos tivemos que ir vencendo, contando regressivamente os quilômetros que nos faltavam para que pudéssemos chegar em algum lugar, totalmente desconhecido, mas que no nosso imaginário seria o agasalho que precisaríamos para nos recompor.

                    Agradecemos a Deus por mais esta oportunidade de vida que nos deu, quando vimos as primeiras luzes lá longe, daquilo que imaginávamos ser e era de verdade, Puquio, que deste dia em diante, para nós será alçada a condição de santo.

                    São Puquio!

                    Não vamos nem entrar no mérito da questão do que é esta cidade, mas para quem tem mais de cinqüenta e que deve ter assistido ao filme Django, aquela parte do homem puxando o caixão pelo lamaçal foi filmada sabe onde?

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                    Não temos dúvidas de que foi em Puquio, aliás, São Puquio.

                    Mais acalmados e já quase virados em machos nesta altura do campeonato, ainda nos demos ao luxo de procurar um hotel que fosse "mais melhorzinho", o que foi difícil, nos obrigando a abraçar logo o primeiro que vimos.

                    Lá pelas nove e meia da noite, com os corações saindo das suas quinhentas batidas por segundo, para alguma coisa como trezentas batidas por minuto, nos dirigimos a um pequeno restaurante onde fomos acolhidos como irmãos, sorvemos uma sopinha bem quentinha que aqueceu nossos corações e almas e atendidos, pasmem, pelo filho do proprietário, que se chamava Jesus.

                    Aí foi pra matar!

                    Desta vez sobrevivemos e mais experientes aprendemos a nos organizar melhor, para não darmos bobeira e estarmos atentos aos caminhos que cruzam com as forças desta senhora chamada Natureza que quando se sente menosprezada, reage simplesmente com naturalidade.

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                    Quanto a Nazca, ficará para amanhã, porque hoje bem abraçadinhos, a única linha que queremos ver é a que nos conduz para a cama.

                    Ah! Com roupa e tudo porque aqui está brabo!
                    Arquivos Anexos
                    Última edição por Renan Xavier; 14-03-12, 10:14.

                    Comentário

                    • Dolor
                      Fazedor de Chuva

                      • Mar 2011
                      • 3250

                      #25
                      Capítulo 24 - Nada como um banho!


                      Ainda não refeitos do dia anterior, sentindo as pernas ainda tremendo e durinhos como havíamos deitado, abrimos os olhos, nos tocamos e agradecemos pela enésima vez ao Pai lá de cima por nos ter dado mais este dia que estava começando.

                      "Devagarinho" fomos nos movimentando ainda atordoados para nos lembrarmos de que água quente, aqui neste hotel, era um pedido que deveria ser feito à recepção, resolvemos encarar a parada de um banho frio em Puquio.



                      Aliás, estamos chegando à conclusão de que este negócio de ter que tomar banho todos os dias, trocar de roupas idem, não passa de uma ilusão capitalista.

                      Não fôramos fabricantes de roupas, diríamos: burgueses, abaixo com o banho quente e a troca de roupas!

                      Banho, coisa divina, sagrada, dos deuses, idolatrado pelos romanos, concluímos também que todos os dias como é nosso hábito, até faz mal pra saúde, porque não deixa aquela camadinha de sujeira que acreditamos ter a função de proteger nossa epiderme.

                      Tudo isto a gente vai aprendendo indo para o Alasca, especialmente quando se encara uma ducha gelada.

                      Experimente!

                      Como tivemos uma recaída aquática, lá fomos nós encarar aquilo que se convencionou chamar de banheiro, que bem lembrado nos remete à uma fábrica de tampas para bacios, bom nicho de mercado por estas bandas, claro depois de uma campanha massiva de divulgação, porque a maioria absoluta dos banheiros por aqui, não conhece este indispensável acessório.

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                      Com aquele frio danado, beirando zero graus, ter que encostar a "derrièrre" naquela borda fria do bacio, nos leva a exercícios que poderiam ser incrementados nas olimpíadas, tipo arremesso de tudo aquilo que já foi nossa alegria, com pontuação máxima para aqueles que não respingarem para fora do bacio.

                      Sem poder encostar a bunda no bacio, é um exercício de tiro ao alvo, tanto assim, que já estou sendo páreo e dos bons!

                      Poderia inclusive, ser disputado um campeonato do gênero, com os melhores de cada estado indo para um bacio final, sendo decretado campeão aquele que acertasse o alvo na maior distância e sem respingar um pingo d'água.

                      Este daí então seria coroado campeão, com o título "Fiofó de Ouro".

                      Ficar em hotel barato dá nisso!

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                      Baixarias à parte, vencemos a saída de Puquio e nos dirigimos para a carreteira que nos levaria tendo como escala principal Nazca e destino final Lima, que distava do ponto onde nos encontrávamos pouco mais de 600 k, através de boa estrada, com o contraste máximo deste Peru exótico, de sairmos daquele altiplano divino e começarmos a encarar de novo o deserto, aqui com características muito mais próximas daquele nosso do imaginário, repleto de dunas, com leves movimentações de areia de um lado para o outro, num bailado de encher literalmente os olhos.

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                      Aqui também ocorre com a topografia um fenômeno que batizamos de nó, pois as curvas são feitas em forma de nó cego, que para quem gosta de pilotar de verdade, é um prato cheio.

                      Teve horas, inclusive, que chegamos a olhar a placa da Bonitona, tão acentuadas eram as curvas.

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                      Simplesmente amamos este trecho da viagem, com o calor se aproximando na mesma velocidade com que Nazca ia crescendo à nossa frente e com a temperatura beirando os 37 graus, chegamos a este nosso intento, dando de praxe uma circulada pelo centro para medir a febre, colocar na alça de mira um restaurante para apaziguarmos as lombrigas e fazermos as sessões de foto para a galeria.

                      Boa foi a escolha do restaurante El Pórton, onde comemos um ótimo peixe, deixando infelizmente, os gatos que aguardavam as sobras, a ver navios.

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                      Mais um giro, agora de despedida, nos dirigimos à saída da cidade para retomarmos a rodovia, que nos levaria para as famosas linhas de Nazca, onde chegamos com um sol esplendoroso iluminando de propósito todo aquele espetáculo que magicamente, estava aos nossos pés.

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                      Como gostaríamos de chegar em Lima ainda hoje e como tínhamos sido prejudicados pela escala em Puquio, subimos no mirante que dá uma visão panorâmica das linhas, que continuam "encucando" cientistas, estudiosos de maneira geral e a nós mesmos, pobres mortais, diante daquele espetáculo criado pelos antigos habitantes desta região.

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                      É um dos sítios arqueológicos mais famosos do mundo e que por alguma razão, numa "piração" conjunta com os manos de Machu Picchu, nossa tese, deram uma baita viajada na maionese.

                      Gostamos e valeu!

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                      Voltaremos com mais calma, inclusive para sobrevoamos todo o sítio arqueológico.

                      Com a estrada cada vez melhor, planamos sobre aquele tapete preto e de repente, num lugar chamado Chincha, nos deparamos de novo com este Pacífico estupendo nos brindando mais uma vez com um poente esfogueado e faminto, pois aquele "marzão" simplesmente engoliu o astro rei de forma esfomeada, sem dar a mínima chance para o poderoso se defender.

                      Juro que desta vez o vimos lamber os lábios!

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                      Foi outra visão mágica!

                      Novamente com a noite chegando e navegando a última centena de quilômetros por uma auto pista bordejando uma dezena de balneários, chegamos a Lima, surpresos com o tamanho desta cidade que não imaginávamos tão grande e movimentada.

                      Foi um show, com todo o “frisson” que acompanha a chegada a uma grande metrópole, justamente na hora do rush.

                      Parece que calculamos sempre certinho para que isto aconteça, e sem piedade, fomos engolidos pelo movimento.

                      Como boas almas sempre aparecem, ao pararmos num posto de gasolina para tomar informações de como chegar ao centro, um motoqueiro, pilotando uma Garelli, gentilmente se propôs a nos guiar até lá e depois de alguns bons pares de minutos, em idas e vindas e engarrafamentos, fomos jogados dentro da Praça de Armas, onde se situa o Palácio do Governo, bem na "horinha" que o homem número um do Peru estava terminando o seu expediente.

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                      Ainda pudemos assistir de camarote, quer dizer, bem sentados na Bonitona, todo o cerimonial de boa noite ao homem.

                      Felizes, logo na primeira abordagem acertamos na mosca com a escolha do Maury Hotel, honesto, onde pudemos repousar o esqueleto e continuar com aquela nossa recaída por banhos.

                      E que banho, com direito a banheira e outros bichos mais.

                      Bom banho pra "ôces tamém"!
                      Arquivos Anexos
                      Última edição por Renan Xavier; 15-03-12, 10:04.

                      Comentário

                      • Dolor
                        Fazedor de Chuva

                        • Mar 2011
                        • 3250

                        #26
                        Capítulo 25 - Cidade Grande

                        Como um cachorrinho que caiu de cima de um caminhão no dia da mudança, nem sabemos que dia da semana é hoje!

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                        Primeiro vamos abrir os olhos, tentar nos situar, acordar e continuar com aqueles hábitos burgueses de banho, dar uma geral nas roupas, colocar uma camiseta da Angel desenhada especialmente para as viagens que começamos com nossa ida até Ushuaia, e que com a devida licença de Jules Vernes, a batizamos como Voyage autour du monde!

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                        Já começamos inclusive a pensar que foi ele quem tomou de nós a idéia do título, mas tá bom, ele está perdoado.

                        Foi realmente uma grande surpresa o tamanho da cidade de Lima, Peru, conforme relatamos em nosso capítulo de ontem.

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                        Como não nos preocupamos em buscar informações sobre esta capital deixamos o barco correr, daí então a surpresa, que foi positiva sob todos os aspectos, estando nela bem impressa, entretanto, as características das cidades peruanas com o aproveitamento de todas as calçadas para a instalação de barracas, onde se vende de tudo quanto se possa imaginar.

                        Naturalmente que por aqui, com o status de capital do país, as coisas recebem um tratamento mais disciplinar, ficando o centro da cidade com o comércio mais ordenado.

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                        Agora, continuamos a nos surpreender como estes peruanos são "rueiros", pois as ruas, de um modo geral, estão apinhadas com gente saindo pelo ladrão.

                        Depois do reconhecimento pelos arredores, procuramos informações sobre um bom city tour, que acabou acontecendo já no período da tarde, num recorrido que nos deu uma boa noção dos pontos históricos e famosos desta capital.

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                        De qualquer maneira, como já fomos picados pela doença dos "bichos grilos", cidade grande, cosmopolita, com muita poluição, muita gente e coisas que de um modo geral, se encontra em qualquer cidade, não nos cativa uma permanência maior do que as quarenta e oito horas diurnas e setenta e duas horas noturnas, que fazendo a prova dos nove, nos dá uma permanência de três noites e dois dias.

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                        Antes do tour ligamos para um amigo que conhecemos via internet já há algum tempo, através da troca de e-mails e que após a chamada e com perfeita sinergia, marcamos o encontro para o período noturno, objetivando fazermos uma Lima "by night".

                        Horário marcado e acertado, na hora estava o Felix Alarco e sua Pilar para nos pegar e juntos darmos uma circulada pelos principais pontos noturnos, que foram muito agradáveis, com destaque sempre especial para aqueles desta cidade de Pizarro, que somente os peruanos conhecem, o que torna o passeio muito mais agradável e exclusivo.

                        Noite linda, fresca e convidativa para uma incursão também por aqueles cantinhos particulares onde se vive verdadeiramente as origens de uma cidade, de um povo e de uma civilização.

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                        Sem saber, já estávamos com lugares reservados para jantar no Centro Cultural e Folclórico Brisas do Titicaca, todo decorado evidentemente com motivos de todos os "departamientos" do Peru. Uma beleza!

                        Em mesas compartidas intercalavam-se shows típicos das várias regiões do País, com danças, onde pudemos mostrar quando provocados, toda a nossa habilidade, já que por várias vezes ganhamos o Troféu Pé de Chumbo em nossas tardes dançantes lá no Itajaí, em Santa Catarina.

                        E que tardes eram aquelas que aguardávamos durante toda a semana e com a roupa de domingo tinindo, lá íamos nós a fazer o giro, que começava pelo Grêmio XXI de Julho, na rua Blumenau, na sua tradicional sede, depois uma passadinha pelo Guarani, esticando pelos Atiradores e voltando, como de lei, para o Grêmio.

                        Naturalmente que o dinheiro era muito curto e o que valia era a "mala" que se fazia na portaria dos clubes, com trocas de olhares suplicantes com os porteiros que após estas amizades embasadas na pena, nos deixavam entrar.

                        E que "mala" lá dentro.

                        Não importava o clube pois a calça era boca de sino, cobrindo quase que totalmente os sapatos, que nesta época portavam uma bela placa de aço inoxidável, camisa mamãe Dolores, gola alta, "cabelão" caído sobre os ombros, cujas fotos praticamente se perderam por aí.

                        Seria muito cruel, hoje, poder me ver daquele jeito...simplesmente ridículo.

                        Tenho a impressão de que teria um ataque.

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                        Talvez tenha esta mesma sensação daqui a alguns anos ao me olhar de novo através das fotos que fazemos hoje.

                        Mas, por enquanto, penso que estou arrombando.

                        Sou um "babacão"!

                        Mas o importante é que esta noite nos divertimos, dançamos todas as modalidades de danças deste país incrivelmente particular, comemos da sua comida, a mais autêntica que já nos haviam servido, bebemos do seu vinho, enfim, como se diz: quando estás em Roma, viva como os romanos.

                        E assim fizemos até altas horas, embalados por aquelas músicas que para nós em particular, trazem sempre um certo tom de nostalgia.

                        Penso que é por causa da flauta, que me toca em particular.

                        E naturalmente, não resistimos a uma dança bem agarradinhos quando o maestro "tascou" El Condor pasa.

                        Foi um momento apoteótico!

                        Altas horas da madrugada, nossos amigos nos deixaram no hotel com compromisso já marcado para o almoço familiar em sua casa.

                        E como num passe de mágica lá estávamos nós juntos dos seus filhos, irmão e cunhada, que em volta de uma mesa farta, nos deliciamos com aquele almoço de domingo, que se prolongou até o final da tarde.

                        Foi muito bom este contato familiar, que nos remeteu às nossas mesas de dominicais, cercados por aqueles que muito amamos e que nos fazem bem.

                        Com certeza nosso "gadinho" sentiu estas vibrações dos nossos corações palpitando junto dos seus, em sintonia com as mesas alegres dos almoços diários que nos unem há anos, sem que nunca tenhamos sentido cansaço quanto as velhas histórias repetidas, intercaladas pelas novas, que além de prenderem as nossas atenções, normalmente provocam os nossos melhores risos e enroscos.

                        Fizemos sempre dos nossos encontros em volta da mesa um ritual do qual nunca abrimos mão, dedicando sempre a estes momentos o verdadeiro espírito da família, pois à medida que os pratos vão e vem, também vão sendo passados a limpo as nossas rotinas diárias.

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                        E é exatamente aí que fluem nossas melhores energias, com as brincadeiras vindas de todos os lados, as histórias, os projetos e os amores.

                        Calo-me por vezes para poder admirar a forma espontânea como as conversas transitam de um lado para outro, de uma cabeceira para outra, não poupando inclusive os seus ocupantes.

                        Obrigado meus filhos por estes momentos que fazem com que nossas vidas tomem sempre um reinicio a cada final de almoço, que é uma santa rotina incansável de domingo a domingo, e que carregamos conosco por onde quer que estejamos.

                        Temperados por conversas das mais agradáveis em bom clima familiar é chegada a hora das despedidas, com promessas de ambos os lados para um próximo encontro, se GADU, assim o permitir.

                        Com o final do dia se aproximando, é hora de nos recolhermos para uma nova partida.

                        E depois tem gente que diz que é fácil esta vida de vadio.

                        Valeu!
                        Última edição por Dolor; 13-05-12, 22:33.

                        Comentário

                        • Dolor
                          Fazedor de Chuva

                          • Mar 2011
                          • 3250

                          #27
                          Capítulo 26 - O Batizado - 23-03-2003

                          Percebemos que hoje era domingo!

                          Claro que merecíamos descansar um pouquinho mais, mas o que se fazer se temos compromissos e somos pessoas responsáveis?

                          Relaxamos, refletimos e avaliamos as nossas vidas num flash de dar gosto e percebemos que o trabalho que estamos fazendo, se é que assim podemos chama-lo, está mais para uma benção do que para um castigo, longe, muito longe de ser um castigo.

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                          Imaginamos esta nossa realidade, vadia, preguiçosa, tendo um mundão pela frente e nós pensando em descansar?

                          É sem dúvida nenhuma muita cara de pau, achar que deveríamos aproveitar este domingo para folgar, pode?

                          Como ficarmos meio corados de vergonha, nos levantamos, encilhamos a Baguala e sem nem olhar pelo retrovisor iniciamos a nossa tocada rumo ao nosso norte, lá em cima no Alasca, onde a América se entrega para o Oceano Ártico, nos esperando para o nosso batismo e isso nos enche com tanta alegria e nos motiva de uma maneira que temos de nos segurar para não rodarmos direto o tempo todo, deixando de lado algumas maravilhas que vão margeando o nosso caminho.

                          Depois desta rápida inconfidência e obedecendo o estômago, tomamos um bom café, com ovos, frutas, enfim, lá estamos nós de novo na estrada com destino previsto para dormirmos em Chiclayo, distante de Lima, alguma coisa como 750 km.

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                          A saída de Lima foi super tranquila com a Panamericana muito boa, tipo céu de brigadeiro e mão enrolada no acelerador, voando sempre bem rasinho, acompanhados pela cordilheira, totalmente arenosa em forma de dunas e o Pacífico, azul que nem ele só, nos observando e nos seguindo.

                          Presença constante da Polícia Caminera na estrada, sempre nas entradas e saídas de praticamente todos os vilarejos, bem embarcados em caminhonetes modelo Pathfinder, novas, da Nissan.

                          Entretanto, temos a impressão de que em cada dez carros circulando pelo território peruano, oito são da Toyota e quando falamos de vans, de cada dez, onze são deles, sinalizando pelas inscrições em japonês nas laterais, que são importados usados lá da terra do sol nascente, o que se confirmou quando conversamos com alguns motoristas num “grifo”, como são chamados os postos de gasolina, esclarecendo que o responsável por estas importações foi o presidente Fujimori, que comprou milhares de carros de segunda mão japoneses.

                          Seguia o dia disputando conosco o troféu de preguiçoso da hora, com subidas e descidas, sempre tendo como referência o mar, portanto tranqüilo, por entre verdadeiras dunas em ambos os lados da rodovia, com pouco movimento, música rolando na caixa, quando começamos a perceber um pouco mais à frente uma movimentação que imediatamente nos chamou a atenção e evidentemente de cara nos fascinou, pois víamos um bailado acontecendo diante dos nossos olhos, que pela suavidade, vigor e coordenação só poderia ter como maestro o nosso amigo vento, fazendo com toda a sua competência, a areia circular de um lado para outro.

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                          E sem oferecermos resistência, em pouco tempo estávamos bem no meio do nosso primeiro temporal de areia que, literalmente, nos encheu os olhos.

                          Tudo aquilo que havíamos visto somente em filmes ou acompanhado por literatura e que por mais um capricho desta natureza que tem como sobrenome Deus, de repente era realidade e no meio desta realidade estávamos nós.

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                          Foi um contato rápido e intenso que nos lavou a alma como jamais havíamos pensado, pois nos açoitou de forma carinhosa, num banho seco e abençoado das grandes iniciações.

                          Evidentemente que longe de sermos aquelas pessoas do deserto, sentimos que este batizado nos deu aquele gostinho de nos sentirmos como aqueles nômades que vagueiam pelos desertos, sempre em busca de uma porta que lhes permita partir logo em seguida.

                          E assim, de almas lavadas curtindo cada quilômetro que faltava para o objetivo do dia, lá chegamos a tempo de descobrir que foi em Chiclayo que se inventou o tal do meio segundo.

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                          Lembram-se da história do se mensurar meio segundo?

                          Bingo! Foi exatamente aqui que se fez a primeira constatação de como se mensurar o tal do meio segundo.

                          Nunca vimos tanta buzina em nossas vidas.

                          É uma infestação de táxi, todos da cor da "intiriça", que desde o momento em que o sinal verde ameaça acender, dá-lhe buzina.

                          Interessante que na maioria dos municípios do Peru o transporte público é feito por táxis e vans, daí então é só se imaginar o assédio que esta turma faz em cima de cada transeunte.

                          E eu pensando que estava arrombando com aquela montoeira de "buzinaços" atrás de mim, nas mais variadas melodias, porque os caras, além de tudo, são cheios de bossa.

                          "Bi bi e fom fom" pra vocês também!

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                          Total percorrido : 755 km
                          Última edição por Dolor; 01-08-12, 15:15.

                          Comentário

                          • Dolor
                            Fazedor de Chuva

                            • Mar 2011
                            • 3250

                            #28
                            Capítulo 27 - Para Cima - 24-03-2003

                            Era verdadeiramente uma festa o que aquele bando de táxis fazia pelas ruas afora, catando desde o alvorecer a sua clientela como se fora alpiste, tal a quantidade de buzinadas que davam para todos os transeuntes.

                            E nós sabemos o que é se sentir alpiste, pois desde o momento em que colocamos nossas bagagens do lado de fora do hotel, isto quer dizer, na parte frontal, enquanto eu me deslocava para a quadra seguinte onde se encontrava o "parqueadero" para buscar a Bonitona, a dança e o gorjeio que esta turma fez em cima de mim, foi um caso literalmente ornitológico.

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                            Com tudo pronto, bem ajeitado, café tomado, a famosa coceira nos apertava para que pegássemos a estrada que nos levaria até a divisa com o Equador.

                            Pelo lado de cá do Peru, está Tumbes e pelo lado de lá, ainda abaixo da linha do Equador, a maravilha atende pelo nome de Huaquillas, distante uns 500 km, que deveríamos percorrer em sete ou oito horas.

                            Chiclayo faz parte de um entroncamento muito movimentado, com saídas para todos os lados, uma vez que a própria comporta uma população de mais ou menos 550.000 almas, o que é gente pra caramba, tornando o trânsito bem complicado, havendo necessidade, portanto, de uma atenção ainda mais redobrada, principalmente para os forasteiros não habituados as rotinas locais.

                            Felizmente, tudo transcorreu na maior, com muitos acenos e cumprimentos para todos os lados, ensejando, inclusive, para uma próxima oportunidade a entrega de santinhos, visando, quem sabe, uma cadeira na câmara municipal.

                            Quem sabe!

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                            Com a "carretera" acompanhando o mar, se bordeja uma costa muito linda, bem recortada, formando pequenas praias muito agradáveis, pelo menos de se ver, deixando para outra oportunidade um mergulho, porque a agonia de seguir em frente, é uma constante.

                            Coisas agoniadas pra quem não está fazendo nada!

                            Normalmente é um pequeno parto parar para fazer alguma coisa diferente do abastecer as máquinas, em todos os sentidos.

                            Ficamos sempre nos prometendo que na volta faremos a parada e os devidos reconhecimentos, o que é uma grande mentira que vamos nos pregando.

                            E assim com estas mentirinhas vamos engolindo asfalto e, é claro, aproveitando para nos deliciar com as belezas que vão se descortinando à nossa frente, numa sequência sempre alternada entre o mar e o deserto, evidentemente com a temperatura subindo à medida que avançamos terra acima.

                            Um fato nos chamou a atenção desde a nossa saída de Lima, quando numa das primeiras paradas que fizemos por força de um comando que a Policia Carretera nos deu, e após todas as formalidades de praxe, foi o comentário que um policial fez, de que havia umas três horas, uma moto grande como a nossa havia por ali passado com "una pareja", o que nos despertou a curiosidade de saber quem eram.

                            Registro feito, curiosidade aguçada e, naturalmente, uma boa vontade em encontrá-los para, quem sabe, fazermos uma pernada juntos.

                            E lá vamos nós, parando alguns bons quilômetros a frente para o abastecimento de lei, quando o bombeiro nos comentou que “os nossos amigos” haviam passado por ali fazia pouco tempo, não conseguindo o pobre quantificar este pouco tempo, se eram duas, três ou cinco horas, coisa que ele com aquela cara de "tanso" não sabia, o que bagunçou com nossa expectativa de encontrá-los.

                            No segundo abastecimento que fizemos, de novo a confirmação de que uma moto havia passado por ali há pouco, fato confirmado por uma nova dupla de “carreteros” que nos obrigou a parar, agora para nos chamar a atenção pelo excesso de velocidade com que havíamos cruzado o vilarejo.

                            Pela posição deles só se fossem mágicos para poderem ter nos visto cortando a cidade.

                            Após todo aquele papo furado, nos apresentou um caderninho com os valores das infrações, ficando aquela nossa, na casa dos trezentos soles, e que se eu quisesse, o cara de pau me faria o favor de recolher no Banco de la Nácion.

                            A partir deste momento começamos a olhar as coisas de uma maneira diferente, pois após termos rodado quase 10.000 km, havíamos pela primeira vez sentido que mexeram com a nossa auto confiança e longe de casa, não dá pra reclamar pro bispo.

                            Ficamos com a pulga atrás da orelha!

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                            E lá fomos nós, neste momento com uma diferença de trinta minutos em relação a "pareja" que estava a nossa frente, numa moto bem maior do que a nossa, o que nos deixou bem cabreiros; como maior do que a nossa?

                            Só se estiverem viajando num trator de duas rodas, pensamos!

                            Finalmente chegamos em Tumbes, cidade "muvuquenta", que passamos em revista numa piscadela indo em seguida para a imigração para os devidos trâmites de lei.

                            Após a entrega da documentação para o agente que nos atendeu e imaginando que dois malucos de moto por estes lados do mundo só pudessem ser amigos, nos falou que “os nossos amigos” tinham acabado de sair, e numa rápida olhadela no livro de registro, pude pegar a marca e a placa, além dos nomes dos viajantes.

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                            Atravessamos a ponte que separa o Peru do Equador, não sem antes nos assustar de verdade com o que se apresentava, pois Ciudad del Este, no Paraguai, era fichinha, tamanho o rolo que nos aguardava, e lá estava finalmente, o casal que há tanto buscávamos.

                            Agora estávamos sem pátria, uma vez que havíamos dado baixa nossa documentação no Peru e não nos aceitavam no Equador, é mole?

                            Nós enfim, cidadãos de ninguém.

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                            Total percorrido : 492 km
                            Última edição por Dolor; 04-08-12, 12:40.

                            Comentário

                            • Dolor
                              Fazedor de Chuva

                              • Mar 2011
                              • 3250

                              #29
                              Capítulo 28 - Cidadãos de ninguém - 25, 26 e 27-03-2003

                              Por mais que se queira descrever, sempre se ficará devendo detalhes, pois é de longe, a cidade mais "muvuquenta" que já estivemos.

                              É um burburinho que não acaba mais, com as ruas tomadas por barracas de todas as cores, de todos os tamanhos, vendendo de tudo o que se possa imaginar de bugigangas, com o funcionamento de cozinhas, churrasqueiras, espetinhos de gato e vai por aí afora, numa lambança digna de ser vista.

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ID:	155946

                              Logo que pusemos os pés, quer dizer as rodas da Bonitona em solo equatoriano, uma multidão de “tramitadores” se pôs a nossa frente, que somados os dentes de todas estas feras que disputavam nossa preferência, ficaram faltando uns trinta para completar uma dentadura.

                              Força de banguelas!

                              Trabalho danado para estacionar a moto até que encontramos uma brecha bem em frente da aduana justo no lado uma África Twins, da Honda, procedente da Guiana Francesa, aquela tal, pilotada pelo Didier, francês, acompanhado da sua namorada, uma brasileira chamada Heloísa.

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                              Após as apresentações pudemos perceber que alguma coisa não caminhava bem com os trâmites de entrada deles no Equador.

                              O problema era com a moto que não tinha um tal de “carnet”, ou seja, uma garantia de que a mesma não seria vendida em território equatoriano, tendo o mesmo problema espirrado para nós, impedindo desta maneira que entrássemos neste novo país.

                              Fomos encaminhamos para o chefe da aduana, não sem antes passarmos por uma triagem com um assessor jurídico do setor, que nos contou a triste história de que particularmente também era contra a lei em vigor, mas que nada poderia fazer a não ser cumprir a mesma, exigindo na impossibilidade da apresentação deste documento, um depósito no valor do equipamento, que nos seria devolvido quando dos trâmites de saída, na fronteira por onde deixássemos o país.

                              Cá entre nós, é confiável se depositar nas nossa republiquetas da América latina algum valor com a esperança de recebe-lo de volta em espécie, dois ou três dias depois, em outra fronteira?

                              Não, eu não acredito e não vou fazer isso!

                              Como latinos somos também especialistas em empurrar as soluções dos problemas para os outros, como ocorreu aqui, pois nos enviaram para o capitão da imigração, que de antemão já sabíamos não iria dar em nada, pois não era da competência dele este tipo de permissão, mas sim do serviço da aduana onde estávamos.

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                              O bandido ainda teve a cara de pau de dizer que se a aduana nos liberasse ele faria de conta que não tinha visto a falta do documento, mas que se fôssemos pegos por alguma fiscalização, perderíamos as motos.

                              É mole o cara de pau nos falar uma coisa dessa?

                              O incrível é que tivemos que andar alguma coisa como uns 20 km até o quartel, para escutarmos este tipo de abobrinha.

                              Voltamos e junto conosco a noite que sem pestanejar, já se aproximava de forma a trazer consigo todos os presságios que a rodeiam.

                              E que presságios seriam estes, me questionava, com aquela sensação de solidão, longe de casa e no meio de todo aquele vazio que começava a ganhar espaços, pois em sentido contrário, a noite entrava por uma porta e aquela turma toda saía por outra.

                              Mas era um movimento silencioso de debandada que aumentava ainda mais nossa aflição com relação ao nosso futuro.

                              Noite já inteiramente presente, angústia por não podermos entrar, evidentemente que nós estaríamos liberados, porém, como vamos abandonar nossa Bonitona?

                              Onde deixaríamos nossa companheira de tantas e tantas jornadas, amiga fiel que nunca nos abandonou mesmo nos piores momentos.

                              Não, totalmente fora de cogitação deixá-la em lugar nenhum, no meio de nada, para que seguramente fosse esfoliada, esquartejada e abandonada neste mesmo qualquer lugar de nenhum lugar.

                              Jamais!

                              Ficaríamos juntos até o fim.

                              Volto então à aduana do Peru, que nesta altura da noite, nos informou que já haviam dado baixa nos nossos documentos e não poderiam fazer mais nada, ficando entretanto acertado, após muito custo, de que eu deixaria um documento como garantia de que voltaríamos a sair de novo deste país até o final do seu turno, o que aconteceria no dia seguinte, as oito da manhã.

                              Pelo menos uma saída no final do túnel!

                              Entretanto, acabamos optando em voltar para Huaquillas mesmo sem a documentação da moto em ordem e também a nossa, pois ainda não havíamos dado entrada neste novo país, saímos então a procura de um hotel e lá nos entocamos aguardando que as coisas estivessem mais serenas e mais lógicas no dia seguinte.

                              E para isto, nada melhor do que uma noite de sono pelo meio do caminho!

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                              Fora da toca já de manhã cedo, claro que sem o “desayuno” incluído na diária do Hotel Santa Rosa, que nos custou U$30, juntos agora os quatro, voltamos para a folia, e aí sim.... não conseguimos de novo, apesar de nesta altura da história eu ter voltado para falar com o chefe, cuja alternativa encontrada fora a de nos colocarem sob a custódia da polícia aduaneira e como tal, deveríamos as nossas expensas, sermos acompanhados, tanto o casal da Africa Twins, quanto nós, pela policia aduaneira.

                              Pode?

                              Nesta tramitação toda ainda contamos com a participação de um motociclista chamado Ricardo Rocco, de Quito, que me pareceu ser o Presidente dos Motociclistas do Equador, conhecido do Didier, que ainda nos indicou uma pessoa da sua confiança, que também nas horas de trabalho era policial aduaneiro, para nos auxiliar na preparação da documentação necessária para que esta alternativa encontrada pudesse ser viabilizada.

                              Depois de muitas idas e vindas, finalmente ficamos liberados para partir, o casal Dider, para Quito com um policial e nós acompanhados por um outro, também da aduana, para a fronteira com a Colômbia, nome que neste momento nos deixava ainda mais arrepiados por imaginarmos que o Equador, carta totalmente fora do baralho neste jogo de problemas já estava dando esta dor de cabeça, o que nos esperava lá, carta mais que marcada?

                              Dia 25, já quase no final da tarde, finalmente saiu a autorização para que sob custódia e em setenta e duas horas deixássemos o País.

                              Foram designados para nos acompanhar os dois policiais e as cinco da manhã já do dia 26 partimos em direção a Tulcán, ainda no Equador, com escala em Quito, onde ficaria o casal em questão para embarcar a moto via aérea para a Cidade do Panamá. Comboio na estrada e logicamente iniciamos amizade com os policiais aduaneiros que nos acompanhavam e que atendiam pelo nome de Patrício, o responsável pelo outro casal, e o Gallo, o nosso, que de uma maneira gentil, cavalheiresca e honesta conquistou a nossa confiança e amizade.

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                              O lamentável foi termos recebido somente 72 horas para cruzarmos o Equador, nos impedindo desta forma de visitar a Ilha Galápagos, Guayaquil, Quito e tantos outros lugares, assim como de interagir com este povo gentil, acolhedor e solidário com o infortúnio que nos aprisionou, conforme nos foi manifestado em várias oportunidades.

                              Após havermos pernoitado em Quito, num hotel chamado “Sies de Deciembre”, que apesar do preço de U$37, não recomendamos para ninguém, pois faz parte daquela minoria que queremos esquecer, haja vista que por uma ligação local que fizemos para o agora amigo Ricardo, com duração de nove minutos, nos cobraram a quantia de U$9,00 o que fez com que consignássemos nosso protesto pela apropriação indébita realizada.

                              A registrar também que a moeda equatoriana é o dólar americano que acabou vencendo o doce sucre, amargurado pela inflação.

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ID:	155949

                              Cedo, porém com muita chuva, com a temperatura variando na casa do 10 graus, já no dia 27, reiniciamos nossa viagem com destino a Tulcán, vencendo a linha do Equador, agora num trajeto de 250 km que somados aos 550 km que fizemos de Huaquillas até Quito, nos dá a dimensão exata desta extensão territorial que separa por este caminho, o Peru da Colômbia.


                              Acompanhamento perfeito do nosso amigo Gallo que gentilmente se encarregou de todo o trâmite burocrático, junto as autoridades do seu País, nos entregou pesaroso para aquelas da cidade de Ipiales, agora já na Colômbia, onde voltamos a recuperar nossa cidadania, que veio acompanhada de um outro elemento surpresa, que estava absolutamente fora dos nossos planos.

                              É ver para crer.

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                              Total percorrido desde Huaquillas até Quito : 494 km

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                              Total percorrido desde Quito até Tulcán : 249 km
                              Última edição por Dolor; 05-08-12, 21:01.

                              Comentário

                              • Dolor
                                Fazedor de Chuva

                                • Mar 2011
                                • 3250

                                #30
                                Capítulo 29 - Colombia, Que Passa! 28-03 a 05-04-2003 - Parte um

                                Finalmente nosso amigo Gallo, representando seu país, o Equador, nos entregou às autoridades colombianas na cidade de Ipiales, pegando, evidentemente, o recibo desta entrega, para que pudesse comprovar o seu trabalho.

                                Claro, que todo o passado de informações recebidas sobre este novo país pesava sobre nossas cabeças como jamais havíamos pensado, e agora?

                                Como vamos fazer para suportar esta tensão?

                                Todas as recomendações recebidas, todos os temores, todos os fantasmas, de repente, estavam presentes e povoando nossa imaginação e nossas angústias.

                                Não temos como recuar, pois o país do qual havíamos acabado de sair nos impunha exigências que não poderíamos cumprir se quiséssemos voltar.

                                Agora ,mais do que nunca, só poderíamos olhar e decidir continuar para frente.

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                                Colômbia, que temor, que medo de te enfrentar!

                                Já em território colombiano, providenciando a documentação exigida pela aduana, recebemos nossa primeira surpresa representada por belos sorrisos das pessoas que nos recepcionavam e, logo em seguida, já não podia mais ver a Ângela, encoberta por uma multidão que a cercava, fazendo os mais diversos tipos de indagações a respeito de tudo.

                                Preocupado, com um olho no padre e outro na missa, deixei o local em que estava e corri para perto da minha companheira para lhe dar o suporte que precisasse mas ao me aproximar, de imediato voltei porque percebi que melhor do que eu, ela dava todas as explicações técnicas que lhe eram solicitadas, num "portunhol" de me dar inveja.

                                Tudo "listo"com a documentação, agora éramos nós por nós e a nossa amiga noite chegando para nos visitar e como de hábito, acompanhada de todas as incertezas, dúvidas e ansiedades que habitam sob o seu escuro manto.

                                Rapidamente fomos para Ipiales que é a primeira cidade neste território por este lado da bússola e após as averiguações de praxe, paramos em frente ao hotel escolhido que atendia pelo nome de Angasmayo, pela módica quantia de U$17,00, que pela lembrança que tenho do "quéchua" da época de escola, significa Rio Azul.

                                Nada mal começar sonhando com tudo azul!

                                Para ser bem verdadeiro, estacionamos do outro lado da calçada, bem em frente a Papelaria Don Júlio e durante o período de consulta sobre as condições de hospedagem, as proprietárias da papelaria já tinham dado as boas vindas para a Ângela e ao perceberem que em sua jaqueta não havia a bandeira da Colômbia, num gesto de extremo carinho e hospitalidade foram às compras e, com muito orgulho e honra, recebemos das mãos destas queridas amigas o símbolo máximo de seu país que com muito alegria portamos, já devidamente colados que estão em nossos uniformes.

                                Banho tomado, aquela roupinha preta de domingo e lá estamos nós de volta à rua para os primeiros passos de reconhecimento e localização de um restaurante onde pudéssemos apaziguar nossas lombrigas, que nesta altura do campeonato não queriam saber em que lugar nós estávamos, porque, egoístas do jeito que são, nunca passarão de vermes.

                                Pode ser que com muito esforço consigam evoluir para solitárias, prêmio máximo que uma "songamonga" dessa pode alcançar.

                                E nos incomodaram as ditas cujas enquanto procurávamos o melhor para elas.

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                                Entre pescados, aves e carnes optamos pela última, que saboreamos com muito gosto num pequeno restaurante que se encontrava pelas cercanias do hotel.

                                Sem saber ao certo o dia da semana, fomos deitar com o compromisso de partir no dia seguinte, que era... não importa e quando chegou este novo dia, resolvemos ficar em Ipiales para podermos fazer alguns passeios e, principalmente, irmos ao Santuário de Nuestra Señora de Las Lajas, que nos deixou de queixos caídos quando nos aproximamos daquela maravilha, construída no meio, quer dizer, lá embaixo de um vale maravilhoso, com obras iniciadas em fins do século XIX e início do século XX.

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                                Ficamos alguns minutos perplexos admirando aquele milagre do homem, nos lembrando dos filhos, das mães, enfim, daqueles que povoam os nossos corações.

                                Em nome de todos, fizemos uma série de "pedichos" para a Santa que, rompendo o seu silêncio, me cochichou no ouvido: Dolor, e para a Irmã Adelina, o Padre Alvino, que foram nas despedidas de vocês, benzeram a moto, e todos os que estavam presentes, e tu, seu ingrato, não vais falar nada?

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                                Enrubesci e lhe disse com todo o respeito: Santinha, para eles o pedido era especial e em particular, por isto eu não havia falado nada.

                                Hummm! Tá bom, me conta outra seu liso.

                                E meio sem jeito, me concentrei, me abracei com a Santinha e agradecemos pela amizade dos dois, pessoas que nos marcaram em momentos importantes das nossas vidas.

                                Padre Alvino pela amizade e pela celebração das nossas Bodas de Prata, numa cerimônia que me encheu de emoções quase nunca antes vividas, pelo que seremos eternamente gratos, tendo, entretanto, já marcada a data e o compromisso das Bodas de Ouro.

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                                Assumimos o compromisso de que todos os que estavam lá presentes retornarão para este próximo evento.

                                Compromisso é compromisso, portanto, em 10 de fevereiro de 2024, estaremos todos lá na Capelinha do Colégio São José, em Itajaí, SC, que foi o lugar onde demos nossos primeiros passos, a Ângela e eu, rumo ao nosso encontro não marcado.

                                Foi lá também que encontramos e conhecemos esta pérola, chamada Irmã Adelina, responsável por metade da educação dos itajaienses e “itajaianos”.

                                A Ângela pelas mãos da Irmã Adelina e eu pelas mãos também carinhosas da Irmã Lia.

                                E desde este tempo, por vezes afastados geograficamente, nunca deixamos de nos lembrar destas Mestras, que continuam a exercer seus misteres com dedicação ímpar.

                                Tivemos o imenso prazer de fazer todos os cursos do Colégio São José, a redobrada felicidade de fazer com que nossos filhos seguissem nossas pegadas que firmes por aqueles corredores de madeira, permitiram ainda que nosso primeiro neto seguisse pelos mesmos caminhos.

                                E daqui deste Santuário aconchegante, protetor e materno, pedimos a Nuestra Señora de Las Lachas que continue protegendo estas pessoas que tanto amamos.

                                Embevecidos, leves e bem recebidos por este povo que já se apresentava hospitaleiro, seguimos viagem no dia 29 com destino à Cali.

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                                Nuestra Señora de Las Lachas, agora vamos nos agarrar com a senhora e seja o que Deus quiser!

                                Não fora pelos olhos arregalados e pelo cheiro que íamos deixando pelo meio do caminho, tínhamos a impressão de que ninguém estava notando que estávamos com medo.

                                Fazendo exercícios de respiração para mantermos as batidas cardíacas na faixa das trezentas lambadas por segundo, agarramos a pista que nos levaria ao nosso destino do dia, distante uns 500 km que fora as dores de barriga pensávamos em fazer em mais ou menos umas sete horas, o que acabou não acontecendo porque a topografia desta região é muito acidentada, acrescentada pelas paradas que tivemos que fazer para o exército, em toda a sua extensão, curiosos que ficavam com a nossa aproximação.

                                Acabamos fazendo este percurso em mais ou menos dez horas, depois de termos passado por algumas jóias, entre as quais destacamos Pasto, a capital do Departamento de Nariño e a cidade de Popayan, coroa de Cauca, chegando em Cali já no início da noite.

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                                Surpresa das maiores com a rodovia tranquila, bonita, bem conservada, num exercício a altura daqueles que gostam de pilotar fazendo curvas, como é o meu caso.

                                Confesso que cheguei a cansar de tantas!

                                Uma em cima da outra, pelo lado, por baixo, em forma de nó, de nó cego, enfim, numa festa a condução por estas bandas.

                                Tudo tranquilo, povo hospitaleiro, querido e alegre, foi o que encontramos em todo o transcurso deste tramo, que nos entregou numa cidade espetacular, linda, festeira e que por sorte, nos reservou um lugar bem no meio do fervo.

                                Baita cidade com mais de dois milhões de pessoas das quais umas três milhões estavam nas ruas!

                                Nos hospedamos confortavelmente no Hotel Don Jaime, por C$91.000,00, o equivalente a U$34,00, em plena Avenida Sexta, no meio de uma tonelada de restaurantes, bares, barzinhos, discotecas e lá nos divertimos até a madrugada chegar.

                                Lamentamos somente que nossa permanência tenha sido tão curta, porém prometemos Santiago de Cali, que voltaremos para desfrutar da tua hospitalidade!

                                Manhã seguinte bem cedo, "pero no mucho", armamos de novo o circo para partir em direção a Medellín, num percurso de outros 500 km.

                                Se havíamos pensado que todas as curvas haviam ficado para trás, a surpresa com a montoeira delas que nos aguardavam foi uma verdadeira zoeira.

                                Mas põe zoeira nisto!

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                                Total percorrido desde Ipiales até Cáli : 469 km
                                Última edição por Dolor; 06-08-12, 22:48.

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