No Vento com o Sonho

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  • Jacob Bussmann Filho
    Fazedor de Chuva

    • Dec 2011
    • 2786

    #61
    É muito legal acompanhar os teus relatos Dolor, me sinto viajando junto, sem palavras.....uma preciosidade, muita gentileza de sua parte e da Angela compartilharem tudo isso com a gente........tenho que tomar cuidado para não babar no teclado..... rsrsrsrsr

    abração a voces

    FC Jacob
    GCFC NFC VFC(SP) ,VFC(RR),Cardeal, RFC(101,116,153,230) Jacob,Bandeirantes

    Comentário

    • Dolor
      Fazedor de Chuva

      • Mar 2011
      • 3250

      #62
      Capítulo 42 - Uma aventura canadense - 09 e 10/06/2003

      Segunda-feira muito especial esta amanhecida aqui em Burns Lake, lindamente ensolarada com o astro rei todo bobo, brilhando como nunca, claro, se exibindo e querendo descontar todo o atrasado do inverno, pouco dorme nesta primavera, estando a pleno neste início de manhã que nos levará em direção à Houston, Meziadin Junction, Bell I I, ou qualquer outra cidadezinha por estes lados desta linda British Columbia.

      Como na noite anterior não conseguimos nos conectar via internet, primeiro porque o "cyber" restaurante já estava fechado e em segundo, mesmo com a boa vontade do Eric, proprietário do hotel em que estávamos hospedados, em nos emprestar o seu micro, não teve jeito, o danado travou e não tivemos outra alternativa a não ser esperar para hoje, quando a primeira opção estivesse aberta para tentarmos colocar mais ou menos em "tempo irreal" a nossa página e o nosso correio.

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      Bem, ajudamos a abrir um restaurante e em seguida nos aboletamos na frente de um possante para que pudéssemos trabalhar um pouquinho, nos consumindo toda a manhã e no seu final, aproveitamos para almoçar e sair dali "comidos".

      Forrados, pegamos a estrada e mandamos ver com a Bonitona fogosa e gostosa de ser pilotada, nos embrenhando por entre florestas de tudo quanto é tom de verde, que contornadas por aquela seqüência de montanhas pintadas de branco, nos davam com precisão a dimensão de paz e de tranqüilidade que aqueles lagos espelhavam em suas superfícies, alternando-se nas formas e nos tamanhos.

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      Assim sossegados, tranqüilos, pensando na vida que este momento nos levava, levamos um susto daqueles quando vimos na margem da estrada, quase no acostamento, uma família, composta por quatro membros, negros, peludos e encabeçados pela matriarca, uma bela ursa que mansamente levava seus filhotes para um passeio matinal. De imediato e suavemente fizemos a volta na moto e estacionamos ao lado daquelas coisas lindas e antes que pudéssemos bem focalizá-los com a nossa câmera, os danados também deram meia volta e se perderam floresta adentro nos deixando, entretanto, com a sensação de estarmos verdadeiramente num ambiente de vida selvagem.


      Sai pra lá o Wildlife do National Geographic dos pobres!

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      Entretanto a partir deste momento nossa viagem começou a ter um ritmo e uma expectativa diferente, pois alertas ficamos com a perspectiva de podermos novamente encontrar estas belas feras e na medida em que avançávamos a estrada também começou a ter contornos diferentes destes a que já estávamos acostumados, nos apresentando ao tal do "seu gravel", ou seja, nos jogou nos braços do cascalho, ou do "rípio" como dizem os nossos irmãos argentinos e a estrada passou a ter uma característica de trilha, uma coisa mais civilizada, claro, alternando-se entre pedaços de macadame e de asfalto, sem direito a sinalização e nem acostamento, diria mesmo que foi até gostoso porque deu de matar a saudade que tínhamos das nossas picadas.

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      A vantagem de se ser rico é esta, pois mesmo sendo ruim, a gente vai a tudo justificando e achando aqueles buraquinhos no asfalto todos muito engraçadinhos e lindinhos, se não fossem sacanas, encontrando até, quem sabe, uma função ecológica para cada um.

      É duro ser puxa saco, mas fazer o que? Com os "mano" daqui montados no cacau, a gente acha que até o cocô deles é cheiroso.

      Mas o pior de tudo, mas de tudo mesmo, é que eu estou achando isso mesmo!

      Mas como conosco não tem moleza, com a baguala em pêlo, foi cabresto curto e espora na virilha.

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      Já estava com saudade de fazer uma pilotada desta maneira, tendo que manejar os arreios de um lado para outro, freio num pé e na mão e com a outra o chicote zunindo, lindo, lindo numa tocada pra ninguém botar defeito, num balé cheio de movimentos rápidos e rasteiros.

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      E assim fomos cumprindo nosso roteiro, quando novamente a figura soberba de um maravilhoso urso nos obrigou a uma nova meia volta e, de mansinho, agora sim, com a máquina fotográfica em punho, paramos praticamente ao lado daquela pintura, senhor absoluto do seu espaço, para nos deliciarmos com os vários ângulos que o triste nos apresentava para os devidos registros.

      Um artista!

      A adrenalina que já estava alta pela tocada, agora então foi nas nuvens com esta visão, rara em nossas vidas, podendo ver aquele belíssimo animal alimentando-se em seu habitat natural e bem ali ao nosso lado, num momento mágico e que gratificou sobremaneira a opção interiorana que fizemos para a travessia deste Canadá imenso e selvagem.

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      Para complementar, no final deste nosso dia acabamos encontrando um pequeno oásis chamado Tatogga Lake Resort, perdido lá pelos lados da reserva indígena de Iskut, a seiscentos e vinte quilômetros do nosso ponto de partida, onde felizes da vida nos instalamos, recebendo em nossa mesa de jantar a companhia de um alemão chamado Robert, circulando por estas bandas com a sua Yamaha 1300. Aliás, foi uma coincidência, pois quando estávamos há uns duzentos quilômetros deste nosso ponto de chegada, ultrapassamos esta figura solitária que havia despachado a sua moto para Vancouver com o objetivo de subir esta parte da América, com destino ao Alasca.

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      Boa praça, conversamos até a hora do fechamento do restaurante, onde rimos e contamos muitas histórias pois, felizmente, encontramos no francês o idioma de comunicação.

      Ainda neste dia acabamos conhecendo também os americanos David e Bob, cada um pilotando a sua Gold Wing, com uma "carretinha" atrás de cada máquina, nos inspirando a acoplar um brinquedinho daqueles na Bonitona.

      Coisa para pensar!

      Friozinho nesta terça, despertado com cara de poucos amigos e prometendo, enquanto saboreávamos o café da manhã, um dia chuvoso e diferente de todos estes últimos.

      Já devidamente encilhada nos despedimos do amigo Robert e partimos em direção ao nosso objetivo, Whitehorse, distante daqui alguma coisa como uns oitocentos quilômetros, pressentindo logo na saída a dificuldade em cumpri-lo, haja vista a chuva torrencial a qual fomos submetidos, aliada a estrada terceiro "mundista", diziam ser praticamente impossível cumprirmos o roteiro, mesmo com a pata baixando o sarrafo no acelerador. Mas pressa...quase no topo do mundo é uma bobagem sem justificativa, pois enquanto concentrados na tocada, a natureza resolveu dar uma colher de chá derrubando a temperatura, nesta altura do campeonato já fresca, na casa dos quinze graus, num golpe só para meia dúzia deles, embranquecendo todo o nosso campo visual numa mistura de granizo e neve, ou algo parecido, mas de qualquer maneira, um espetáculo indescritível.

      Um presente!

      Um privilégio pilotar por aquela estrada de "gravel", branca, úmida, perigosa e desafiante, subindo e descendo por entre montanhas a cortina daquele ambiente selvagem e praticamente intocado, nos enchia os corações de alegria e satisfação por estarmos vivendo o nosso sonho, agora com o aroma do território de Yucon, onde começa o norte do Canadá, com incríveis temperaturas abaixo de 50º C em seus invernos, cartão postal já impresso para sempre em nossas memórias.

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      É mole dormir num fresquinho desse? Realmente se sente durante o dia a variação da temperatura e a "cabreiragem" do tempo, cujo humor extremamente sensível se altera com a queda das chuvas, mesmo para esta época do ano, jogando o termômetro lá para baixo na sua graduação. Mais ou menos assim: bateu, levou!

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      A nota triste e desagradável ficou por conta do David, aquele da Gold Wing com carreta, infelizmente acidentado depois da última vez durante o dia de hoje que nos vimos, quando tomamos café e comemos bolachas entre bons cumprimentos e histórias, cuja notícia nos foi dada por um casal enquanto abastecíamos a Bonitona, nos informando desta fatalidade. Acabamos não conseguimos outras informações, mas soubemos por estas mesmas pessoas da gravidade da queda. Desejamos sorte para este amigo cujo destino final era Fairbanks, porque não acreditava na possibilidade de alcançar Prudhoe Bay, com a sua moto e num entre dentes, nem vocês com a Bonitona, escutei.

      Com esta triste notícia latejando na cabeça vencemos mais algumas dezenas de quilômetros em silêncio, pois a imagem dele ainda estava muito fresca em nossas memórias, assim como o seu cumprimento de despedida e acenos quando das nossas ultrapassagens.

      Novamente sob um céu de brigadeiro e já na Alaska Highway, nossos corações começaram a bater numa cadência diferente, uma vez que começávamos de verdade a nos familiarizar com o nome Alasca e o seu significado para nós, paradoxalmente tão distante nos nossos sonhos e agora tão próxima da nossa realidade, teríamos somente a barreira das nossas ansiedades como único obstáculo a ser transposto. Aproveitamos e apaziguamos as nossas almas inquietas saboreando um maravilhoso salmão grelhado e nos preparamos em nossa cabana, as margens do Lago Teslin, para que nesta quarta-feira, parafraseando o nosso irmão Renê Gaia, de transformarmos o seu Yukon, em nossa também, última fronteira.

      Se Deus quiser!

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      Burns Lake, Houston, Meziadin Junction, Bell II, Tatogga (Tatogga Lake Resort por U$45), BC - Canadá - 634 km

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      Tatogga, Good Hope Lake, BC, Watson Lake, Rancheria e Teslin, (Hotel Salmon Lake por U$35 BWC coletivo), YT - Canadá - 559 km

      Total percorrido : 1.193 km - Total geral : 27.293 km
      Última edição por Dolor; 21-06-13, 23:20.

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      • Dolor
        Fazedor de Chuva

        • Mar 2011
        • 3250

        #63
        Capítulo 43 - Vento Sul, Vento Norte - 11 e 12/06/2003


        Amanhecemos em Teslin, BC, nesta quarta, com os corações divididos!

        Uma parte estava agoniada para tocar o barco adiante e romper os poucos quilômetros que nos separavam do objetivo idealizado e a outra metade louca para curtir todos os metros, todos os segundos que nos restavam desta parte final, deste final do mundo, ou melhor, do topo dele.

        De qualquer maneira optamos pela segunda metade e sem pressa voltamos os poucos quilômetros que nos separavam do centro da pequena Teslin para mergulharmos na internet descoberta quando da nossa chegada e, de certa forma curtindo estas ultimas horas, aproveitamos para tentar colocar o mais próximo da atualidade nossa caixa de correio, felizmente lotada, nos obrigando a pedir um espaço extra para o nosso provedor.

        Por favor, aguardem porque todos os e-mails recebidos terão respostas, no menor espaço de tempo possível.

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        Assim permanecemos toda a manhã e parte da tarde, quando por uma grande casualidade chegou o nosso amigo alemão Robert, no momento da nossa partida deste complexo: restaurante, hotel, camping, loja, posto de gasolina e central de gentilezas, aproveitamos para trocar mais algumas informações, sentimentos e nos despedir com a certeza, ou melhor, com a sensação de que voltaríamos a nos reencontrar.

        Com tudo pronto montamos na Bonitona e lentamente fomos nos afastando desse agradável...digamos balneário, com uma certa nostalgia, daquela tipo gostosa, nos ocupando uma parte do coração onde guardamos todos os nossos bons sentimentos, como a saudade, tão nossa, tão brasileira e outros tão gostosos e imprescindíveis, como o amor, a gratidão, a confiança e o respeito. Não sei porque mas hoje destacamos a nostalgia como a nossa vela principal, pois todos estes cenários se descortinando e se sucedendo entre montanhas verdes, nos seus mais variados tons e complementadas pelo branco da neve do último inverno, como num grande palco, nos umedeciam os olhos ao pensar em todas as pessoas que amamos e em todos os nossos amigos, cujas presenças desejávamos se materializassem.

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        É um colírio para os olhos e para as nossas almas, que merece ser curtido com a mesma duplicidade refletida nestes espelhos d'água, seguramente para nos provocar ainda mais, nesta Alaska Highway que sorvíamos embevecidos.

        Saboreando estes pedaços finais deste Estado de Yukon, não conseguimos controlar nossos pensamentos que rebeldes vão se largando na nossa frente, para bisbilhotar tudo aquilo que ainda não vivemos e, para trás, nos traziam tudo aquilo já vivido. E assim, de visita em visita fomos e voltamos à lugares e momentos que somente nossas lembranças, confidentes dos nossos pensamentos, tudo vão contando e tudo vão revirando, uma vez que são os únicos a terem acesso a estes arquivos e abusados, vão abrindo tudo quanto é gaveta, esconderijo e toca, nos mostrando os nossos mais recônditos e por vezes esquecidos registros.

        Vão à escola, às travessuras de crianças, ao primeiro cigarro e também ao primeiro copo de bebida, nos trazem sempre o primeiro beijo e os amores impossíveis e sofridos, as disputas com os nossos pais, as inseguranças quanto a roupa que deveria ser colocada para aquela festa, os amigos e os nem tanto, as fugidas furtivas de carro, as definições de vida no que diz respeito ao trabalho, ao casamento ou não, ao nascimento do primeiro filho e dos que o sucedem, aos primeiros passos e as preocupações com os últimos, aos objetivos de vida, nem sempre muito claros, mas que se vai levando e deixando acontecerem, porque assim é esta vida e na maior parte do tempo somos levados sem saber como e para aonde ela nos leva.

        Penso que o meu coração vai explodir de alegria!

        E assim com todas estas divagações vamos cumprindo as dezenas e centenas de quilômetros que temos pela frente, porque praticamente em nenhum outro lugar se consegue ter tanto tempo para se pensar e para se refletir sobre a vida. É em cima de uma motocicleta, rodando numa viagem como esta, em jornada de mais ou menos dez horas por dia, durante mais de três meses e meio, que vivemos uma relação muito intima conosco mesmo, com estes nossos pensamentos e com esta sua confidente, a lembrança. Nos sentimos privilegiados quando no meio de uma estrada como esta, cercados pelo Deus Confidente e abraçados por este outro Deus Natureza, nos tornamos reféns de nós mesmos, aprendemos a nos reconhecer um pouquinho mais, a conhecer melhor as pessoas, a compreende-las um pouco mais e através deste exercício da solidão, a valorizar a convivência. E com esta vontade de estar com todas as pessoas que amamos, vamos nos dando as mãos, vamos nos acariciando e ajustando o volume da música que nos envolve e nos enche com esta nostalgia gostosa daqueles que como nós, estão distantes das suas pátrias e dos seus amores.

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        A mão vai imperceptivelmente acelerando, planando, voando baixo, com os corações cadenciados no mesmo ritmo do motor, integrados com esta natureza prodigiosa, levados pelos sentimentos da aventura e do desafio, acompanhando de forma pacifica e obediente o traçado deste tapete negro que nos seduz. E assim, cumprindo a distância que vai nos separando do nosso destino final, temos tempo para mais uma noite num pequeno vilarejo chamado Haines Junction, ainda no Estado de Yucon, distante mais de três centos de quilômetros desde o nosso último ponto de partida, no The Glacier View Inn, por U$45,00.

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        Com os corações saltando dos nossos peitos nos acomodamos com as almas ainda inquietas com a proximidade e ansiedade de outros trezentos quilômetros para enfim cruzarmos a fronteira das nossas expectativas, um dia sonhos tão distantes e agora ao alcance das nossas mãos.

        Podíamos sentir o cheiro da fronteira do Alasca!

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        Cedo levantamos e felizes pela coincidência deste dia dos namorados, nos beijamos, nos lembramos das trinta e duas vezes que comemoramos esta data e partimos com a Bonitona completamente cúmplice deste momento, pois a sentíamos doce, suave e macia, como adivinhando que o grande dia havia chegado. Tocando na ponta dos cascos fomos vencendo aqueles últimos quilômetros, diga-se de passagem, resistentes, pois se alternavam entre trechos em obras, partes em asfalto e outros em "gravel", condimentando ainda mais estes derradeiros metros, dando um sabor ainda mais especial para este início do fim.

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        Nossos corações foram se acelerando pois tentávamos de tudo quanto é maneira espantar os fantasmas de última hora, despertados com esta aproximação, lembrando-nos das milhares de peças que fazem a Bonitona rodar, dos pneus, da gasolina, enfim, todos eles foram ressuscitados no sentido de nos impedir cruzar aquela linha imaginária, agigantando-se a nossa frente, mas felizmente, conseguimos controlar todos estes maus presságios e sentimos se acalmar a leve brisa do norte e como por um milagre, percebemos naquele exato momento um vento vindo do sul, forte, soprando em nossa popa, nos empurrando para a realização do nosso sonho. Víamos crescer a nossa frente os indicativos da fronteira próxima e com a vela principal completamente inflada cruzamos aquela faixa invisível entre este dois países, as 15:30 horas, hora local, ou as 20:30 horas do nosso Brasil, com o hodômetro marcando justos e perfeitos 27.968 km, com marco zero no portão da nossa casa em Itajaí, Santa Catarina.

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        Estávamos, finalmente, no Alaska, “The Last Frontier” e respirando profundamente expiramos um pouquinho dos ares da nossa terra, nesta terra, que tão bem tem nos acolhido, respeitado e admirado, desde a sua parte continental.

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        Simplesmente vagamos, nos lembrando do momento em que estávamos em Ushuaia, na Tierra Del Fuego, Argentina, lá no “End of the World”, “Fin del Mundo”, no marco zero da ruta 3, início da Pan-americana responsável por nos trazer até este ponto, quando rodamos entre ida e volta para casa 15.500 quilômetros de pura magia, onde fizemos um pacto com o nosso vento sul para que nos trouxesse até este seu irmão, o vento norte, num total geral de 43.468 km.

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        E assim, com um enorme gosto de missão cumprida, queremos aproveitar para dedicar esta viagem aos nossos cinco Filhos, que não tem medido esforços para que pudéssemos realizar este sonho e aos nossos Amigos do Vento, nossos companheiros ao longo destes últimos meses, que tem nos incentivado e soprado, para juntamente com o nosso conterrâneo vento sul, aportássemos aqui nesta terra, desejo e objetivo de todos os amantes desta maravilha chamada Motocicleta.

        Haja coração!

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        Teslin, Whitehorse, Canyon Creek, Haines Junction, YT, Canadá - 352 km

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        Haines Junction, Destruction Bay, Koidern, Beaver Creek, YT, Canadá, Tok, BB Maggie, por U$48,00, AK, USA - 465 km

        Total percorrido : 791 km - Total geral : 28.110 km
        Última edição por Dolor; 22-06-13, 17:10.

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        • Dolor
          Fazedor de Chuva

          • Mar 2011
          • 3250

          #64
          Capítulo 44 - Lenha na fogueira - 13 a 15/06/2003


          O nosso sentimento era o de havermos cumprido o dever de casa!

          Após a travessia e conseqüente chegada ao Alasca, estado americano que faz a última fronteira com o mundo, por estes lados dele, reduzimos a velocidade da Bonitona e planamos em céu de brigadeiro por aqueles quilômetros que nos levaram até Tok, a primeira cidade a se encontrar por este caminho escolhido.

          Chegamos relativamente cedo e como de hábito perdemos algum tempo até encontrar um hotel naquele super padrão 3B, bom, bonito e barato, normalmente uma tarefa difícil, não porque os preços sejam altos, o país é barato, mas o problema é a nossa cabeça pensante no real, no câmbio e consequentemente na penalização por ele imposta.

          Oh! pobreza!

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          Bem, nos instalamos num BB, ou seja, num Bed and Breakfast, por U$48,00, casas onde as pessoas dispõem de acomodações para alugar e neste caso, fomos muito bem recebidos pela Maggie, sua proprietária, nos brindando com o quarto da sua filha e cansados, diria, exauridos pelas emoções do dia, tombamos até as oito da matina desta sexta, quando fomos surpreendidos pelo excelente café da manhã servido e temperado por inúmeras histórias desta nossa anfitriã, pintora de excelente qualidade e autora de livros infantis, além de assistirmos ao vídeo histórico da chegada da sua família nesta fronteira.

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          Divertimo-nos até as onze horas quando após os abraços e até lágrimas desta nossa nova amiga partimos em direção à Fairbanks, nossa meta, distante uns 400 km, vencidos ao longo do dia, sempre com aquela sensação de satisfação por havermos alcançado o nosso objetivo e por incrível que pareça, todas as maravilhas que víamos nos pareciam como aperitivo.

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          Mas também, depois do porre que foi cruzar a fronteira do Alasca...

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          Chegamos em Fairbanks com os olhos voltando a ter um brilho diferente, porque afinal de conta, este não é um destino para se ir num final de semana tomar um cafezinho e voltar para casa. Estávamos em Fairbanks, no coração do Alasca e após aquela geral atrás de um hotel, acertamos na mosca com o Aspen Hotel, diária pra lá de especial, U$98,00, mesmo nos machucando o bolso, porém, não poderíamos deixar de reconhecer a ótima relação custo benefício pois o hotel era novo, equipado com internet e todos os bons confortos.

          Fomos dormir bem intencionados e mal acordamos, saímos para fazer um "city tour" nesta agradável cidade e aproveitamos o sábado recém iniciado para cumprirmos com mais um objetivo; visitar a Casa do Papai Noel, em North Pole, paixão da Angela, apaixonada pelo Natal e tudo a ele relacionado. Novamente os corações se cadenciaram no "jingle bell" e pra lá fomos, depois de assistirmos, felizmente, o desfile celebrando a fundação de Fairbanks.

          Este não estava no programa, foi bônus!

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          Após a parada comemorativa com os sinos batendo em nossas cabeças ficamos imaginando como seria a casa do Papai Noel, seguramente com cômodos onde estariam guardadas as nossas fantasias, pedidos de crianças e embevecidos com tantos detalhes e mimos, sentimos a adrenalina ser injetada em nossa corrente sangüínea quando os nossos olhos pousaram em cima daquela figura, quase não humana, nos chamando, como se tivesse nos reconhecido. Incontinente corremos para os seus braços e colo, totalmente hipnotizados pela constatação de que não era sonho o que estávamos vivendo, mas a mais pura realidade.

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          Estávamos com o Papai Noel!

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          Com todos os filmes dos natais vividos em nossas cabeças fomos ao seu encontro, sentamos no seu colo e pessoalmente entregamos algumas cartas, das quais éramos os mensageiros, escritas pelo nosso neto, filhos e amigos, sussurrando no seu ouvido para que nos levasse neste final de ano, paz, harmonia e felicidades para todas as pessoas que amamos, no que concordou e se comprometeu de pronto. Realizados passamos a tarde na sua casa, visitamos o Rudolph, a sua rena preferida, que pastava tranqüilamente com os seus pares nos fundos da casa.

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          Agora era chegada a hora de partirmos para o nosso destino final e objetivo desta viagem, Prudhoe Bay, onde o nosso continente se entrega ao Oceano Ártico, lá nos confins deste Alasca sob os nossos pés e novamente excitados com esta perspectiva, segundo as pessoas com as quais conversamos, ao olharem para a Bonita, pensavam e alguns confirmavam, pura loucura. Demos uma rápida olhada no mapa, nos situamos e neste domingo, 15 de junho, embalados por aquela famosa "dorzinha" de barriga, partimos em direção ao norte final desconhecido, pela famosa e temida Dalton Highway.

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ID:	168007

          Lá fomos nós e em pouco tempo começamos a nos sentir com as calças nas mãos, ao perceber que o buraco era mais embaixo e após quilômetros sem a presença de nenhum carro, quase nos jogamos na frente do primeiro vindo em sentido contrário, solicitamos informações a respeito das nossas aflições, cuja resposta nos tranqüilizou diante da afirmação de que havia a uns oitenta quilômetros, de onde estávamos, hotel, restaurante e gasolina, nossa maior preocupação, pois a Bonitona, digamos assim...ela é...uma "gasólotra" e o tanque de 20 litros, insuficiente para a sua sede, apesar de levarmos dois galões extras, para qualquer emergência.

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ID:	168006

          Como recuar só se for para frente, novamente nos questionávamos o porque de tamanha besteira esta que estávamos fazendo, pois já havíamos chegado no Alasca, mais precisamente no seu coração, com o odômetro marcando mais de 28.500 km, depois de mais de três meses e meio de estrada, nos encontrávamos agora no meio deste nada, neste final do mundo, sozinhos e novamente cheios de fantasmas sobrevoando nossas cabeças que nesta altura do campeonato, já estavam quase fervendo, rodando por esta estrada em condições completamente adversa para a realidade da nossa Bonitona, uma senhora com mais de 152.000 km de vida.

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ID:	168008

          Seríamos as pessoas mais frustadas do mundo se em Fairbanks tivéssemos feito meia volta e retornado para casa. De jeito nenhum, desde o momento quando idealizamos esta viagem o objetivo era um só; tomar um banho no Oceano Ártico e daí sim, descer a terra de volta para a toca. Com estes pensamentos na cabeça chegamos em Yukon River, lendário rio que corta boa parte do Canadá e deste estado do Alasca, túmulo para um punhado de loucos que durante a corrida do ouro para cá se mandaram em busca de horizontes dourados. Hospedados as suas margens, no Yukon River Motel, por U$89,00, rendemos as nossas humildes homenagens a estes intrépidos aventureiros e a todos os nossos amigos do vento, a menos de 100 quilômetros da linha demarcatória do Círculo Polar Ártico, mais uma fronteira quase aos nossos pés.

          Haja lenha para alimentar esta nossa fogueira!


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ID:	168009
          Tok, Delta Junction, North Pole e Fairbanks, AK, USA - 389 km

          Fairbanks, Fox, Yukon River Motel, pela Dalton Highway - 252 km

          Total percorrido : 641 km - Total geral : 28.751 km
          Última edição por Dolor; 22-06-13, 22:15.

          Comentário

          • Jacob Bussmann Filho
            Fazedor de Chuva

            • Dec 2011
            • 2786

            #65
            Continuo aqui curtindo cada postagem sua, tens o dom, estou literalmente viajando junto.Não tenho muito a dizer ou melhor , tenho mas não sei o que .....como diz a garotada....." A viagem esta Massa........rsrsrsrsr
            Abração a voce ,Dolor e a Angela, por nos proporcionar essa delícia ,que é a leitura e as fotos dessa viagem de voces que já se passam 10 anos , mas que curto como as tivesse fazendo hoje, parabéns e muito obrigado.

            FC Jacob e família
            GCFC NFC VFC(SP) ,VFC(RR),Cardeal, RFC(101,116,153,230) Jacob,Bandeirantes

            Comentário

            • Dolor
              Fazedor de Chuva

              • Mar 2011
              • 3250

              #66
              FC Jacob, é uma grande alegria e motivação, receber os teus comentários.

              Obrigado e como diz o GCFC Bida, vamos que vamos!

              Comentário

              • Dolor
                Fazedor de Chuva

                • Mar 2011
                • 3250

                #67
                Capítulo 45 - Queimamos a floresta - 16 e 17/06/2003 - Parte final


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ID:	168101

                Após algumas horas fomos apresentados a Brooks Range Mountain, praticamente no meio do caminho desta pernada, mais um presente, assustador, como mais um ingrediente a ser colocado nesta nossa cesta de aventura, nos ampliando o sabor e enorme vontade que tínhamos de chegar ao nosso destino final, tornando estas adversidades na razão direta da dificuldade, mais um elo de ligação entre nós, fazendo com que nos apegássemos ainda mais um ao outro e trocando palavras de carinho, de estímulo e de lembranças dos nossos bons momentos, da família, dos amigos e da vida, fazia com que nos agarrássemos a tudo quanto é santo e, sem jurarmos de verdade, meio que prometemos ser esta a nossa última loucura do gênero pelo resto das nossas vidas...depois de fazermos a Europa, Trans-Siberiana, África e Oriente Médio.

                Depois sossegaríamos!

                E no meio de todo esse tiroteio veio o tempero final; neve. Sim, começou a nevar, pois à medida que escalávamos a Brooks a temperatura descia na contra mão, beliscando o negativo o tempo todo, não nos congelando porque a chama interna da felicidade transmitida pelos nossos votos de boas vindas para a neve caindo extrapolava a sensação térmica sentida.

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ID:	168118

                Maravilhoso, genial e ao mesmo tempo assustador! Simplesmente indescritível a sucessão de paisagens, de lagos, alguns ainda congelados, dos animais desfilando a nossa frente, seguramente com o intuito de se apresentarem e se exibirem. Um presente!

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ID:	168106

                Pensando e sem querer pensar, de repente nos pegamos em plena torcida para que tudo isso demorasse mais, pois ainda havia espaço nos nossos corações para mais encantamento, inclusive para o vento, legítimo do norte, soprando contra nós como traduzindo estas nossas aspirações e consequentemente nos segurando um pouquinho mais, nos sussurrando ainda que tudo aquilo era praticamente nosso, haja vista não termos cruzado nestes centos e centos de quilômetros com mais carros do que os dedos das nossas mãos.

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ID:	168104

                A lamentar profundamente era a quantidade de incêndios que percebíamos em algumas partes do caminho, porque no capítulo anterior ao colocarmos "lenha na fogueira", não imaginávamos era que poderíamos ter uma floresta inteira ardendo como mais um ingrediente nesta nossa odisséia.

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ID:	168105

                O balancete da hora dizia que estávamos com 580 km rodados neste dia, numa jornada de mais de 13 horas em cima da Bonitona com a vantagem, conforme já informado, de o sol aproveitar da cochilada da terra e deitar claridade no seu tempo de rotação, nos transmitindo uma sensação de continuidade do dia, impressionante.
                Sabe o que é se ter um dia de vinte e quatro horas de dia?
                Por este viés posso dizer que chegamos em Prudhoe Bay, as nove e meia da noite, que era de dia, com os nossos corações transbordando de alegria e ainda aturdidos pela proeza que havíamos acabado de completar.

                Dá pra entender?

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ID:	168107

                Havíamos conseguido chegar em Prudhoe Bay, lá nos confins da terra, no seu topo, onde ela se curva e sem resistência se entrega ao Oceano Ártico, depois de a havermos percorrido de cabo a rabo, desde Ushuaia, Tierra Del Fuego, Argentina, até onde o mundo fica aparentemente mais redondo e não sei porque, mais mal humorado. É visível neste céu que nos encobre a movimentação de nuvens, o vai e vem do ar e a terra numa rotação diferente.

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ID:	168111

                Todos os tons de cinza passam por aqui!

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ID:	168110

                Imediatamente uma onda de alegria nos invadiu e a vontade que tínhamos era a de ligar na hora para os nossos filhos, nossa família e nossos amigos do vento para dizer que estávamos no topo do mundo, que os amávamos e que neste momento só pensávamos em estar juntos com todos, preferencialmente na nossa casa. Como é forte este sentimento do voltar, do chamamento das raízes, do aconchego do lar. Para nós nada mais tinha importância a não ser a falta deste calor que nos identifica e nos massageia a alma. Nem havíamos chegado e nos aquecíamos pensando em como é bom se ter para onde voltar, onde os braços abertos nos aguardam para o devido abraço e aperto dos bons sentimentos.

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ID:	168108

                E com estas sensações e sentimentos adormecemos em sono profundo e reparador, sendo chamados à realidade nesta quarta, dia 17, para os reconhecimentos da área e o cumprimento da promessa que fizera para a Ângela, desde o primeiro dia em que mencionamos o nome Alasca como meta de chegada, o mergulho no Oceano Ártico, não importando a temperatura em que a água se encontrasse.

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ID:	168109

                "E assim chegamos neste outro mar gelado destes confins da terra, que para nós tem, exatamente, pelos caminhos percorridos, 44.827 km de ponta a ponta, para o resgate da promessa feita. E com muita alegria e muito, muito frio, me despi e, como vim ao mundo, me joguei em suas águas frias, geladas, cujo termômetro acusava zero grau, para o batizado do norte, uma vez que já havia sido batizado no sul.

                Foi um momento de glória que divido com todos os Amigos do Vento, que desde o primeiro dia desta nossa jornada, tem estado conosco todo o tempo, nos incentivando com e-mails e com as suas leituras do nosso “No vento com o sonho”, que neste momento agora empurrados pelo vento norte, começamos, literalmente, a descer a Terra.

                Mais uma vez obrigado a todos pelo carinho, pelas palavras doces que temos recebido e, em contra-partida, temos a enorme alegria de confidenciar, que para nós foi fácil, muito fácil fazer este longo caminho, pois estamos pilotando a maior motocicleta de todos os tempos, pois em nenhuma outra cabe tanta gente como na nossa.

                Simplesmente, couberam todos vocês."



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ID:	168119
                Yukon River até o Artic Circle - 93 km
                Artic Circle até Coldfoot - 95 km
                Coldfoot até Prudhoe Bay -388 km

                Balanço

                Total percorrido : 576 km - Total geral : Itajaí, SC, até Prudhoe Bay, AK, EUA : 29.327 km

                Itajaí, SC - Ushuaia, Tierra del Fuego, AR - Itajaí, SC - Total percorrido 15.500 km

                Total geral - 44.827 km
                Última edição por Dolor; 25-06-13, 00:03.

                Comentário

                • Dolor
                  Fazedor de Chuva

                  • Mar 2011
                  • 3250

                  #68
                  Capítulo 45 - Queimamos a floresta - 16 e 17/06/2003 - Parte inicial

                  Realmente loucura pouca é besteira.

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ID:	168112

                  Talvez tenha sido uma das decisões mais loucas da minha vida esta de vir para o norte. Isto mesmo, para o extremo norte, onde o continente americano se entrega para o Oceano Ártico. Apesar dos pedidos da Ângela para que virássemos o barco para Anchorage, convencí-a de que deveríamos vir mesmo para Prudhoe Bay, desafio pra lá de insano e sem nenhuma necessidade de provar nada, a não ser o de tomar o banho que havia encasquetado quando liguei este destino final com o Oceano Ártico. Aí virou...sei lá...um tipo de obsessão e agora que estávamos com tudo isto ao alcance das nossas mãos, não, de jeito nenhum abdicaria deste ponto final.

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ID:	168113

                  E assim continuamos nossa viagem, com a primeira parada em Yukon River, até aí tudo maravilha, mesmo que tenhamos feito um bom trecho da estrada em “gravel”, tipo civilizado, nos animando consideravelmente a seguir adiante, nesta terça, quando acordamos e após um ótimo "breakfast", confesso, engolido assim meio atravessado, apesar de delicioso, em função dos comentários feitos pelos funcionários do hotel e por parte de alguns hóspedes, viajando com caminhonetes, comentavam da dificuldade que encontraríamos dali para frente, ou seja, em outras palavras eles disseram ser impossível cumprir aquele trajeto para Prudhoe Bay, com a nossa moto.

                  Aí a dor de barriga aumentou!

                  Confiantes, mas não muito, seguimos adiante e nem bem a Bonitona esquentou o motor, tudo aquilo que havíamos experimentado até agora virou ficção pois encontramos talvez o pior trecho de estrada até agora, incluindo a nossa péssima experiência quando chegamos em Púquio, Peru, contada no capítulo chamado O Sufoco, onde padecemos com a altitude, frio, solidão e respeitando toda a adversidade que representou aquele altiplano andino, este nosso dia de hoje estava se desenhando como um verdadeiro tormento.

                  Estávamos literalmente arregalados!

                  Se não tínhamos a altitude conspirando contra nós, a estrada simplesmente sumiu e provavelmente após violenta trovoada que se antecipou a nossa chegada, claro se aproveitando do nosso sono, trabalhou a bandida como podia para deixar a Dalton Highway, completamente encharcada, seguramente uma grande vantagem para o pessoal responsável pela sua manutenção, pois aproveitando a aguada, a laminavam num capricho de dar gosto para quem conduzia veículos de quatro ou mais patas, deixando-a simplesmente medonha para aqueles com somente duas rodas, como no caso.

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ID:	168114

                  A adrenalina tinha as suas doses diminuídas na nossa circulação em função do primeiro objetivo do dia, mesmo assim imaginário, a linha onde está riscado o Círculo Polar Ártico, dizendo que a partir dali tudo tenderia a ficar mais frio, mas felizmente, nesta estação do ano, mais claro. Era como se a partir daquele ponto déssemos adeus para a noite, sem ser novidade, pois fazia algum tempo que o dia ia ganhado dela de goleada, assim como a temperatura baixa foi nos apertando, mais em função da umidade nos puxando a sensação térmica lá para baixo, exatamente para dentro dos nossos ossos, propositadamente na mesma medida em que a estrada foi se deteriorando, me obrigando a levar a Bonitona no cabresto curto, auxiliada pelas minhas pernas que davam a orientação do trilho a ser seguido e com a Angela, muitas vezes caminhando no lado, retirando as pedras intrusas que delimitavam o nosso caminho e pela sua expressão, pensei, daqui a pouco ela me bate.

                  Tudo bem se for com uma pedra do Alasca!

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ID:	168115

                  Foi uma pequena explosão de alegria quando cruzados este paralelo até então existente somente nos livros de geografia e inimaginável para nós até há pouco tempo. Paramos e curtimos aquele espaço todo nosso como se fora um troféu, demos uma olhada no mapa para termos uma noção exata da localização onde estávamos e saboreamos com muito gosto cada minuto transcorrido naquela coordenada, nos abraçamos, nos beijamos e silenciosamente concordávamos que já tínhamos ido longe demais, mas como longe é um lugar que não existe, fotografamos mentalmente cada detalhe daquele ambiente envolvente e lentamente subimos na Bonitona para seguirmos os nossos destinos. Seguramente estávamos mais leves e não podemos deixar de registrar que nestes confins do mundo, encontramos um espaço pensado, limpo e com banheiros decentes.

                  As grandes diferenças estão nos pequenos detalhes!

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ID:	168116

                  Havíamos rodado pouco mais de 90 km desde Yukon River e tínhamos outro tanto pela frente para alcançarmos Coldfoot, onde faríamos um "pit stop", pois sabíamos da existência de um combo, composto por um hotel, restaurante e bomba de gasolina. Entretanto, pensávamos, Pé Frio, numa tradução livre, como será este oásis no meio do nada?

                  Como já estava virando hábito, aonde chegávamos éramos recebido com ares de espanto tanto pelos trabalhadores do local quanto pelos clientes, por dois motivos básicos: pela moto, pois a Bonitona, mesmo aqui na sua terra natal é pouco conhecida, mas chama a atenção de todos pelo seu porte e claro, exibida estufa ainda mais o peito para mostrar os seus seis canecos e o segundo, o mais emblemático, por sermos e termos vindo do Brasil rodando, pois na cabeça deles, isto é uma loucura praticamente impossível de ser realizada, especialmente porque não conseguem entender como é possível cruzar a América Central e principalmente o vizinho do sul, o México, temor estampado nos rostos dos ianques.

                  Interagimos, nos alimentamos, abastecemos a Bonitona, nos certificamos da gasolina extra dos dois galões e checamos se o recipiente de oito litros emprestado em Yukon River estava devidamente lotado. Bem, gasolina não seria o problema para estes próximos 400 km, a serem vencidos até a próxima bomba, justo em Prudhoe Bay, existente sob juramento por parte das pessoas em nossa volta. Tudo devidamente checado, quando viramos as cabeças para os acenos finais a expressão refletida nos rostos destas pessoas é como se estivéssemos indo para o nosso cadafalso. Deu até um arrepio!

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                  Respiramos fundo mais uma vez e partimos sem a preocupação de encontrarmos pelo caminho a noite, uma grande vantagem, mas nem bem saímos dali, o que era ruim tornou-se medonho, horrível e quanto mais nos afastávamos, na mesma proporção a estrada ia piorando, tanto assim que após duas horas de tocada firme, o odômetro acusava míseros 35 km vencidos, sobre uma rodovia praticamente intransitável, muitas vezes e boa parte do tempo, em primeira marcha com a Bonitona dançando embaixo da bunda, sendo seguida de perto pela Angela, desembarcada, tentando melhorar a travessia que precisávamos fazer da lombada longitudinal feita pela patrola, com injeções cavalares de adrenalina, lembrando-a do porque não ter resistido a esta minha maluquice. Quanto maior era a dificuldade, mais firme se consolidava a decisão de ir em frente!
                  Última edição por Dolor; 24-06-13, 23:23.

                  Comentário

                  • Benicio B
                    Fazedor de Chuva

                    • May 2013
                    • 217

                    #69
                    Fc Dolor e Angela o relato dessa viagem é como a musica dos Beatles nunca ficará velho e ultrapassado é unico, trasncede o nosso imaginário. Continue, continue...
                    Simplesmente fantástico.
                    Abraços.
                    Benicio B.

                    Comentário

                    • Dolor
                      Fazedor de Chuva

                      • Mar 2011
                      • 3250

                      #70
                      FC Benicio B, agradecemos imensamente a gentileza das tuas palavras e posso reafirmar com toda a paixão do meu coração, que esta viagem foi simplesmente impecável. Sabíamos o nosso destino final, as atrações e na fronteira de cada país comprávamos quando encontrávamos um mapa e em alguns, raros, um guia, nossa preferência para podermos aproveitar o máximo possível dos arredores de onde estávamos.

                      Aproveitando o espaço, hoje viajando sob o comando do GPS, confesso estar "emburrando", apesar de mantermos o hábito da leitura dos velhos e bons mapas de papel e muitas vezes quando queremos viajar "a moda antiga", o desprezamos e fazemos os nossos roteiros numa folha de papel colocada na bolsa do "tank bag". Aliás, mesmo com o navegador, mantemos a folhinha!

                      Ouso também dizer que muitas vezes, mais importante do que o destino que sonhamos é a decisão de se pegar a moto e sair para conhecer a vizinhança, como bem o diz o certificado do Valente Fazedor de Chuva; "Às vezes, o perto, o vizinho é tão desconhecido quanto o longínquo."

                      Estamos ansiosos para agarrar o norte!

                      Comentário

                      • Dolor
                        Fazedor de Chuva

                        • Mar 2011
                        • 3250

                        #71
                        Capítulo 46 - Junta celestial - 18 e 19/06/2003


                        Leves, soltos e faceiros, preparamos a Bonitona com a temperatura beirando zero grau para o início do nosso retorno, não sem antes posarmos para algumas fotos, abraços e cumprimentos, o que sempre é uma satisfação e digamos também, um orgulho.

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ID:	169404

                        Agradecemos a gentileza e a hospitalidade das pessoas que nos cercaram de carinho por este lado final do mundo, ficando materializada a nossa presença nestas bandas através da foto feita pela funcionária do correio e instantaneamente afixada no mural da sua repartição, como registro da nossa passagem por Prudhoe Bay.

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ID:	169406

                        Dia lindo com o sol que nunca se põe nesta época partimos em direção ao sul, com escala prevista numa localidade chamada Weisman, próximo de Coldfoot, distante deste nosso ponto de partida aproximadamente uns 350 km, cujo percurso deveria ser vencido ao longo do dia, pois a única coisa que não tínhamos era pressa.

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ID:	169409

                        Imagens daquele enorme poço de petróleo que na realidade é este confim do mundo se sucediam em nossas cabeças, alternando-se com as imensas extensões pintadas de branco entremeadas pelos também alvos lagos, delicadamente contornados pela seqüência de pequenas montanhas, montavam o cenário perfeito de aconchego deste palco.

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                        A nos acompanhar como guia do nosso caminho o enorme oleoduto que tal qual uma serpente margeava durante boa parte do tempo esta Dalton Highway, transportando em suas internas o produto do trabalho de alguns milhares de valentes que hibernam por estes lados, faça frio ou muito frio.

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                        Simplesmente flutuávamos nos maravilhando com as sucessões de "caribous", um tipo de veado abundante por estas extensões gélidas, supervisionadas o tempo todo pelo tempo, que como no outro extremo da terra, é de um mau humor extraordinário, cambiando do sorriso do sol à expressão carregada das nuvens que auxiliadas pela neblina, muitas vezes conseguem vencê-lo, dando um ar pesado e denso.

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                        Quanto maiores eram estas transformações, pois nesta briga entre ambos quem apanhava era a temperatura, encantávamo-nos ainda mais com tudo isto que vivíamos, pois afinal de contas estávamos no Círculo Ártico e esganados, não queríamos perder nem uma visão, nem um registro e nem um sentimento destes momentos únicos das nossas vidas.

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                        Parávamos registrando estes segundos com nossa câmera fotográfica, sempre buscando um ângulo que pudesse encerrar a maior quantidade possível destes sentimentos, o que sempre é um exercício muito difícil, principalmente para nós amadores nesta arte.

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                        Nos sentíamos frustados!

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                        De qualquer maneira insistíamos e brindamos em homenagem a todos os nossos Filhos e Amigos do Vento, celebrando a vida e as realizações, no meio daquelas imensidões, erguendo os nossos copos abastecidos com chá de canela exalando o seu melhor perfume cuja fumaça se confundia com a neblina que nos cercava, nos tornávamos íntimos deste ambiente sedutor.

                        E no meio daquele silêncio o único barulho que ouvíamos era de uma disputa que acontecia bem embaixo de nós, entre as patas, quero dizer as rodas da Bonitona e aquela quantidade desigual do tal do "gravel", com pedras de todos os tamanhos sendo mandadas para todos os lados, num escore favorável ao nosso lado, pelo menos por hora.

                        Acontece que quando se luta com um exército desta natureza, cujos soldados se sucedem continuamente, por vezes tombamos vencidos, nem que seja momentaneamente, mas vencidos.

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                        Resistindo bravamente, com ferocidade, com valentia e sem ter o direito de escolher, um daqueles soldados, provavelmente o menor de todos, mas sem dúvida o mais afiado, acabou traiçoeiramente apunhalando a face mais frágil da Bonitona neste tipo de combate e num só golpe lhe abriu uma ferida na pata traseira, fazendo com que de imediato a "tadinha" jogasse a toalha no chão.

                        Com tranqüilidade conseguimos levá-la no cabresto até a sua paralisação, constatando o ocorrido e domar conseqüentemente o sentimento de vingança que me invadiu, impulsionando-me à ir atrás daquela anônima covarde que não respeitou a valentia desta nossa companheira, fazendo-a perder instantaneamente o seu fluido de sustentação.

                        Covardes, covardes, covardes gritei para aquele exército de frias e insensíveis pedras que estáticas permaneciam a nos ignorar. Com a adrenalina lá nas nuvens, num exame bem superficial, constatamos a extensão do ferimento e mesmo sabendo que a medicação seria insuficiente, tocamos para dentro um tubo de liquido reparador para furos, que entrava por um lado e saia em dobro pelo outro, onde havia o ferimento.

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                        Mão no queixo, olhadela em volta, Círculo Ártico, bacana, tudo bem, e nós fu...zilados nesta altura do campeonato, órfãos de Pai e de Mãe... mas no topo do mundo.

                        Só nos faltava esta, "pensamos em voz alta e ao mesmo tempo".

                        Como o diabo vai fechando portas e o Velhinho lá em cima vai abrindo "gateiras", percebemos perdidos naquela imensidão uma estrutura de alguma coisa ligada ao oleoduto e após uma rápida constatação, na pior das hipóteses, tínhamos uma porta para bater, que entretanto se fez de surda ao ouvir as nossas batidas.

                        Não faz mal, voltamos para a estrada e após havermos solicitado ajuda para Nossa Senhora Aparecida, achamos melhor de uma vez chamarmos para a luta, uma Junta Celestial e eclética, que no final ficou composta, pela nossa Cida, pela Virgem de Guadalupe que fomos chamar lá no México e pela Nossa Senhora de Las Lajas que fomos convocar em Ipiales, na Colômbia.

                        Com um time deste em campo, não teve pra ninguém e após algum tempo aguardando parou um "truck" e em seguida outro, enviados pelas Amadas que prontamente e armados com os seus arsenais de primeiros socorros injetaram uns reparadores pra pata de cavalo, entubaram a coitada com o mais puro oxigênio levantando-a imediatamente e prontos, nos dividimos, indo a Ângela com toda a nossa bagagem no caminhão e a Bonitona e eu pela baia afora em direção ao nosso destino, agora alterado para Coldfoot.

                        Num trote bonito de dar gosto para o comboio que me seguia, formado pelo Roger num possante vermelho e pelo Jim, num amarelo, não tirava os meus pensamentos desta Junta Celestial que estava nos apoiando e mesmo que nenhuma quisesse aparecer mais do que a outra eu sentia de qualquer maneira uma certa puxadinha da Cidinha, naquelas patriotadas gostosas, principalmente quando pela terceira vez aquela chaga se abriu deixando vazar de novo o ar que nos sustentava.

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                        Ali eu sentia a presença Dela que se antecipando as suas gêmeas, dava as mãos, os pés e todo o seu coração na tentativa de nos ajudar, o que fez com muita competência até a nossa chegada a Coldfoot.

                        Não pude deixar de, envergonhado, pedir um milhão de desculpas à nossa Santinha pela falta de atenção que venho dando a Ela nestes últimos tempos.

                        Com relação as outras duas, não tem problema porque são amores novos e mesmo assim, a nossa Cidinha do alto da sua bondade e infinita ternura para conosco, filhos próximos e ausentes como eu, não transpareceu em momento nenhum, qualquer reação de ciúme, ficando envaidecida também pela minha preferência escancarada por Ela.

                        E assim, por volta das oito desta noite dia, chegamos finalmente em Coldfoof, um dos lugares mais frios do planeta, aonde as temperaturas chegam durante o inverno aos 65 graus negativos, conforme recorde já registrado, frio impensável para nós tropicais brasileiros e também para os pingüins que se mandaram para baixo, onde é mais "quentinho".

                        Inclusive para nós foi uma surpresa a existência de tribos indígenas por aqui, pois sem dó nem piedade nos tiraram o escalpo, no único hotel existente, onde prevalece a máxima: é pegar ou largar.

                        Se pega o índio come, se larga, o frio e os pernilongos te fazem em pedacinho.

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                        Tivemos que pegar e tentar relaxar o máximo possível porque o ardume foi grande quando tivemos de desembolsar por noite dormida, módicos U$146,00, óbvio, nesta moleza não estava incluído o café da manhã.

                        Ai!

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                        Com a Bonitona na cocheira, exaustos e famintos, demos um trato no esqueleto e deixamos para o dia seguinte, ou seja, para esta quinta-feira, a solução do problema que tínhamos.

                        Com a noite ausente, acordamos e ficamos hoje envoltos na contratação de uma caminhonete que pudesse nos levar até Fairbanks, distante outros quase quatrocentos, uma vez não ser prudente viajarmos com o pneu desse jeito e até o fechamento desta edição não havíamos conseguido, apesar da atenção do Joe, amigo de última hora, que não tem economizado esforços no sentido de viabilizar esta empreitada. Olhando para o lado vemos o pessoal do hotel de novo com as machadinhas nas mãos e babando cada vez que olham para nós e vêem ainda um pedacinho de escalpo para ser arrancado, mas quando olhamos para cima, vemos nossa Junta Celestial reunida sob a presidência, agora pudemos ver nitidamente da Nossa Senhora Aparecida, cheia de vontade de nos ver novamente na estrada, e claro, independente da força que Ela nos dê, quando chegarmos em casa, vamos direto à casa Dela para acendermos a sua "velinha" preferida e prometida.

                        Ajuda Santinha!

                        Comentário

                        • Dolor
                          Fazedor de Chuva

                          • Mar 2011
                          • 3250

                          #72
                          Capitulo 47 - Descendo a terra - 20 a 26/06/2003


                          - Alô, Cida?

                          - Ah! É a Senhora?

                          - Claro, estamos bem, graças a Deus, obrigado.

                          - Que bom, Ela está aí com a Senhora agora?

                          - Nós tínhamos certeza de que a Senhora entenderia porque ficamos muito preocupados com a noite chegando, mesmo disfarçada de dia pois o que deveria ter acontecido ontem, quinta feira, acabou não acontecendo e é evidente, a agonia começou a tomar conta de nós. Por isso o nosso apelo!

                          - Que bom que a Senhora estava com saudade dela.

                          - Claro, Ela é nossa conterrânea e como sabemos das Suas ocupações, não hesitamos nem um minuto em chama-la.

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                          - Ah! maravilha que a Junta Celestial ficou encantada com Ela. Realmente é uma criatura muito especial, pois tivemos tanto a Ângela quanto eu o prazer, quer dizer, muito mais do que prazer, o privilégio de estudar em escola da Sua Congregação, onde tivemos as primeiras forjas das nossas vidas.

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                          - Foi em Itajaí, sim Senhora, no Colégio São José, onde escutamos pela primeira vez a máxima Dela: "mesmo que os ventos soprem contrários, não desanimeis", e isto ficou incutido em nossas vidas e nos momentos mais difíceis, como este, por exemplo, buscamos esta inspiração lá no fundo do coração e assim conseguimos partir para a luta, não importando a força do vento. - Claro, veja a Senhora se nós não temos razão: os caminhões que eram para entrar aqui em Coldfoot não entraram, tocaram direto e como sabemos que Vocês três estão sempre ocupadíssimas porque é atendimento por todo este planeta com Vocês travestidas ora de Vocês mesmas, ora com o nome de Nossa Senhora do Bom Parto, para poder ajudar a todas as mães deste mundo inteiro naqueles momentos exclusivamente delas, ou como Nossa Senhora do Socorro, para aqueles pedidos extremados de urgência, daquelas mães desesperadas com os seus filhos envolvidos com as drogas, naquele labirinto sem fim cujo caminho de volta somente Vocês podem mostrar, as vezes vestindo-se como Nossa Senhora dos Navegantes, ajudando estes homens do mar como seus faróis, conduzindo-os aos seus portos seguros, ora como Nossa Senhora dos Angustiados, sendo o bálsamo para as almas e corações dos irmãos sofredores, ora como Nossa Senhora dos Enfermos, levando fé, esperança, conforto e resignação para aqueles que padecem no leito, ainda como Nossa Senhora das Crianças de Rua, precisando das mãos seguras de Vocês para nestas mesmas ruas encontrarem o caminho dos seus lares, ou também como Nossa Senhora dos Desamparados, para se transformarem no agasalho espiritual dos desesperados, ora... bem Cida...o nosso problema é na realidade tão pequeno, que achamos de coração injusto estarmos ocupando Vocês três nesta empreitada.

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                          - A gente sabe que a Senhora nos tem a todos como filhos e como tal está sempre disposta a nos ajudar e nos ajudou muito, pois só o fato de a Senhora atendendo o nosso pedido ter incumbido a nossa Santa Madre Paulina para pessoalmente cuidar do nosso caso, nos deixa emocionados, confiantes e extremamente felizes, além da segurança de não estamos desamparados.

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                          - Deu tudo certo porque enviados por Vocês apareceu uma Van nesta sexta, perdida, absolutamente fora do seu dia de parada em Coldfoot, tanto é assim que ao pedirmos para o Joe, aquele rapaz, o faz tudo aqui por estas bandas ligar para o aeroporto, informaram que excepcionalmente não haveria o vôo programado para este meio dia, mas ficássemos atentos porque poderia passar por aqui uma caminhonete branca, com possibilidade de nos levar para Fairbanks. A coincidência é tão grande que as duas moças que conduziam a dita cuja se hospedaram no quarto 24, exatamente ao lado do nosso, o 25 e nós em permanente vigília no restaurante fomos deitar por volta das duas da madrugada e não vimos nem a caminhonete nem elas fazendo o registro para a hospedagem.

                          Como por milagre caíram do céu e lá estávamos nós chegando em Fairbanks com as ditas e já com carro alugado para este sábado, 21, nos mandamos de volta para Coldfoot, sempre com a pulgas atrás das orelhas sobre como colocar a moto em cima desta F150, nosso novo meio de transporte.

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                          - Bem, só pode ter sido a Senhora quem providenciou esta rampa aqui em Coldfood, como uma luva, para colocar a Bonitona em cima da carroceria, sob medida!

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                          - A Senhora está brincando que foram Vocês também que providenciaram a chegada daquele rapaz, o Chad, que nos emprestou os tirantes e tudo mais para fixarmos a Bonitona para o transporte? Porque a Senhora sabe, cobrir estes quinhentos quilômetros de volta até Fairbanks com praticamente metade do trecho em estrada de terra e pedras, não é fácil. Olha, contando ninguém vai acreditar, pois tudo se encaixou como por milagre!

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                          - Não resta a menor dúvida, a Senhora tem razão, eu não poderia ter vacilado na hora de colocar o diesel na caminhonete, pois foi um sufoco danado vencer aqueles últimos quilômetros quando temos a certeza que fizemos alguma coisa como uns cinqüenta quilômetros por litro. Bem que notamos um empurrãozinho diferente...ah... como? Só poderia ser a Senhora soprando, não tivemos a menor dúvida. Dei trabalho né Cida, pois deveria ter abastecido a caminhonete e não ter passado esse stress. Obrigado de novo!

                          - Agora fala outra coisa Cida, aquela rampa de madrugada quando da nossa chegada a Fairbanks também foi coisa Sua, não foi? Nós sabíamos, porque não era possível que perdida lá naquele meio do nada, tivesse aquela rampa maravilhosa, talhada sob medida, justa, precisa, não necessitando da ajuda de nenhum mortal para descer a Bonitona. Foi só dar uma ré, encostar na rampa e pronto, sozinhos retiramos a moto. Nessa a Senhora matou a pau!

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ID:	169453

                          - Com relação ao incêndio? A Senhora sabe nós não tivemos nada com o incêndio naquela floresta perto de Yukon River Bridge. Realmente é uma dó aquela maravilha ardendo até quando não se sabe. Sim, sim, é claro, foi uma força de expressão utilizada como título do nosso penúltimo capítulo e por uma infeliz coincidência, a vida imitou a fantasia. É, realmente está feio aquele fogaréu ardendo desde esta última quinta, pois quando passamos subindo para Prudhoe Bay a Senhora viu como estava tudo lindo, maravilhoso e de um minuto para outro o fogo começou a estender os seus domínios, fugindo da capacidade humana em controlá-lo, mas esperamos a Senhora possa também dar uma mãozinha e fazer estas chamas se extinguirem.

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                          - Meu Deus Cida, se estamos contentes? Estamos radiantes porque já trocamos o pneu traseiro da Bonitona e cá entre nós, teve o dedinho de vocês também, porque neste fim de mundo ter o pneu para a Bonitona, medida exclusiva dela... e...como? Deveríamos ter trocado o pneu da frente também? A Senhora tem razão, foi uma burrada não termos feito isto, mas como estávamos assustados com as despesas extraordinárias pensamos em deixar mais para frente e... claro, claro, vamos rodar com cuidado, com calma, até porque precisamos economizar esta patinha dianteira pois o caminho é longo.

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ID:	169458

                          - Se gostamos de Anchorage? Foi um sonho pois é uma das cidades mais lindas que conhecemos. Um beleza e se não fosse tão distante, seria o lugar ideal para se passar fins de semana inesquecíveis, com aquele Pacífico limpo, cristalino e mesmo que frio, não sei porque, aconchegante. Outra coisa a nos chamar a atenção Cida, foi a quantidade de aviõezinhos naquele aeroporto. Calculamos haver pelo menos uns mil daqueles monomotores. Coisa impressionante!

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                          - Ahã, foi ótimo termos voltado por Tok, pois a recepção que a Margie nos deu foi coisa de cinema. Aproveitamos para trocar o óleo...não Cida...o óleo da Bonitona e não sei porque, mas sentimos que aquela chuvarada na chegada eram as nossas lágrimas já com saudades do Alasca, pois amamos nossa passagem por estas bandas finais do mundo, onde os nossos corações bateram de forma cadenciada, sincronizados e repletos de felicidades pelas emoções aqui vividas. Foi uma aventura esta estada no Alasca, já impressa nos nossos corações para sempre. Sim, sim, vamos continuar nossa empreitada e iremos para a costa leste pelo Canadá e amanhã conforme prometemos deveremos levantar um pouco mais cedo, irmos à internet aqui em Haines Junction, tentarmos colocar mais ou menos em ordem nosso correio, atualizarmos nossa página e continuarmos nossa caminhada, pois agora temos como objetivo, Nova Iorque, onde mordermos a maçã e continuarmos a descer a terra rumo ao nosso melhor, os nossos Filhos, Mães, Amigos do Vento e a nossa terrinha, nossa toca, nossa Itajaí, em Santa Catarina.

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                          - Está certo, nos empolgamos um pouquinho e a Senhora sabe o tempo passa e a gente não se apercebe. Está bem Querida, boa noite pra vocês e dê um beijão na Santa Madre Paulina e sem querer abusar ainda mais, poderia me fazer um outro favor? Obrigado. A Senhora pode dizer para a Santa Madre Paulina que após acendermos a vela pra Senhora lá em Aparecida iremos correndo para Nova Trento, colocar no altar dela a nossa chama do agradecimento, com a maior alegria do mundo.

                          - Obrigado e outro pra Senhora.

                          - Tchau!
                          Última edição por Dolor; 06-08-13, 00:34.

                          Comentário

                          • Airton Cavalca
                            Fazedor de Chuva

                            • Mar 2012
                            • 1498

                            #73
                            show de bola a valkiririe temperada de lama branca,estradeira por excelencia.. preciso ver um suporte desses pra bagagem pra por ela em alto mar... 15 de agosto estarei em Balneario.. formatura da sobrinha... registramos aqui essa semana o Anderson P Medeiros.. todos deveriam somar um pouco e ¨puxar¨um amigo ao nosso clube... abs Airton Cavalca

                            Comentário

                            • Dolor
                              Fazedor de Chuva

                              • Mar 2011
                              • 3250

                              #74
                              FC Airton, concordo que moto bonita é moto suja e quem fez os suportes e malas da minha Valkyrie foi o Bola, SP, 11 5584 8891, um artista no trato com o couro.

                              As bolsas novas ficaram maravilhosas e gigantes.

                              Também concordo que poderíamos cada um dos FC trazer um amigo para dentro do nosso território, aliás, o melhor para quem quiser encontrar pessoas de e do bem.

                              Um privilégio dos FC!

                              Aprocheguem-se FC!

                              Comentário

                              • Jacob Bussmann Filho
                                Fazedor de Chuva

                                • Dec 2011
                                • 2786

                                #75
                                Oooooo.....Dolor, para com isso.......quando leio suas postagens fico muito emocionado, é muito legal, é muito sentimento, este relato seu é muito precioso, valendo cada letrinha....e muito obrigado á querida legião de Anjos que não deixaram voces na mão, que bom !!!! assim podemos ler esses relatos ,e também até rirmos de alguns fatos.

                                Abração a voce Angela e Dolor, voces são muito especiais

                                FC Jacob e turminha....rsrsrsrs
                                GCFC NFC VFC(SP) ,VFC(RR),Cardeal, RFC(101,116,153,230) Jacob,Bandeirantes

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