Motoviagem nuestra América - Ananindeua-Pará / Deadhorse-Prudhoe Bay-Alaska(USA)

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  • Gilmar Dessaune
    Fazedor de Chuva

    • Oct 2012
    • 6891

    #16
    SEXTO POST. DESAFIO GRANDE CACIQUE FAZEDOR DE CHUVA. COLÔMBIA.


    A travessia da Colômbia começa ainda em San António del Táchira (Município de Bolívar, Estado de Táchira, 800 metros de altitude e 50 mil habitantes, aproximadamente), de manhã cedo, pois Carlos Mário, sempre solidário e prestativo, saiu de sua casa em Cúcuta, capital do Departamento Norte de Santander - Colômbia (600 mil habitantes e 300 metros de altitude aproximadamente), na Cordilheira Oriental dos Andes, passou no hotel e me levou para fazer a saída da Venezuela (imigração e alfândega). Um inferno porque para dar saída da motocicleta no SENIAT (a Receita Federal venezuelana) é uma guerra, pois apesar da consulta prévia feita pelo Carlos Mario, tivemos que entrar em uma fila de motociclistas gigantesca. Para abreviar entramos no posto de gasolina internacional para sair um pouco adiante e disputar espaço com aguerridos motoboys. O frentista ganha uma gorjeta e marca com tinta lavável um número no paralamas dianteiro, para controle pela Guarda Nacional. Essa multidão de motoboys, que disputam freneticamente o espaço, na verdade levam gasolina no tanque para o outro lado da fronteira, na Colômbia, e ganham mais quanto maior a quantidade de viagens ao dia. Consta ser esse um bom negócio, pois a gasolina venezuelana era quase doada (tempos depois o governo caiu na real e fez um pesado reajuste). Quando finalmente chega minha vez eu sou o único que vai ao SENIAT dar saída na moto, que havia sido internada em Santa Elena de Uairén pelo prazo de 90 dias. A multa em caso de atraso é de 80% do valor declarado da moto. O atendimento no SENIAT é simples e cordial e finalmente posso sair da Venezuela e ingressar na Colômbia. Na imigração colombiana o procedimento é simples e bem perto fica o DIAN (a Receita Federal colombiana) onde apresento cópias da CNH, título de propriedade e do passaporte ao servidor que vistoria a moto, faz um decalque do chassi e me encaminha para o servidor que emite a permissão de internação temporária da motocicleta, esclarecendo que no meu caso a empresa que transportar a moto para o Panamá vai ter que me orientar como proceder para dar saída. A demora foi na seguradora para fazer o SOAT, o seguro obrigatório. Pelo menos era refrigerado o ambiente porque lá fora o calor estava infernal e eu já consumira mais da metade do cantil (camel bag) instalado na costa da jaqueta com água congelada. Na saída Carlos Mário me ofereceu um refresco de tangerina que estava uma delícia. Era um merecido brinde pois agora eu estava de fato e de direito na Colômbia. Sem esse apoio solidário dos irmãos motociclistas fica muito mais difícil fazer sozinho os trâmites fronteiriços.
    Guiado por Carlos Mário, logo passamos em frente à casa natal do General Santander, em Villa del Rosário, e vamos para Cúcuta visitar Duvian Contreras, no seu moderno consultório odontológico, ali conhecendo sua esposa e filhinha, uma linda e simpática família. Perto já do meio-dia é a vez de conhecer a esposa e filhas de Carlos Mário, em sua loja também no centro de Cúcuta, onde trabalham todas. É também uma linda família. Saímos para fazer câmbio e me perdi de Carlos Mário. Fiz o câmbio sozinho, em duas casas de câmbio, e iniciei a viagem depois do meio-dia. Sabia que Carlos Mário e Duvian Contreras não ficariam preocupados porque me seguiriam pelo Facebook, onde as coordenadas geradas pelo SpotMessenger começariam a aparecer.
    A viagem agora pelos Andes colombianos é no rumo Sudoeste, com belíssimas paisagens, uma sucessão de cumes e vales, com curvas para todos os gostos e cuidados. Mais alguns quilômetros subindo a cordilheira e passando por Pamplona (2.342 metros de altitude e 50 mil habitantes aproximadamente), estou nos belíssimos páramos (altiplanos) colombianos, que parecem com os do Equador e do Peru, mas tem lá suas diferenças. O tempo frio, chuvoso, nublado e com neblina me levou, por segurança, a pernoitar no Páramo de Berlin, no Município de Tona, já no Departamento de Santander, e pernoitar em um páramo, a 3.214 metros de altitude, era uma vivência que me faltava. A simplicidade da Hospedaje Berlinera, o frio, a sopa de batata e a truta salmonada fresca preparada com simplicidade (simplesmente frita) tornaram a experiência inesquecível, pois quando cessou o tráfego o silêncio e a solidão baixaram sobre o páramo.
    De manhã cedo, depois de um desjejum reforçado - caldo de costilla con arepa santanderense - com o tempo ainda nublado, prossigo no rumo Sudoeste e me interno mais ainda na cordilheira dos Andes. Logo estou em Bucaramanga, a surpreendente capital do Departamento de Santander (cerca de um milhão de habitantes, 1.189 metros de altitude), situada no fundo de um belo vale, La Ciudad Bonita de Colombia. A travessia pelo centro da cidade não foi das piores, apesar das ladeiras empinadíssimas (pelo menos para quem vem da planície amazônica), mas devo ter cometido algum erro pois o GPS me guiou para uma saída pelos empobrecidos arredores e por estradas secundárias de tráfego pesado. Apesar disso, em nenhum momento senti faltar segurança e as pessoas eram cordiais e solidárias ao prestar as informações que eu ia pedindo na rota. Continuei a viagem desfrutando as belas paisagens andinas e chegando do meio para o final da tarde a Barbosa, ainda no Departamento de Santander, a meio caminho de Bogotá (30 mil habitantes e 1.600 metros de altitude aproximadamente). Procurando hotel para pernoitar logo cheguei a Moniquirá (21 mil habitantes e 1.700 metros de altitude aproximadamente), uns 10 Km mais adiante, já no Departamento de Boyacá, Província de Ricaurte, onde passei a noite.
    Pela manhã, ao alvorecer, parti para a última etapa da travessia rumo a Bogotá (10 milhões de habitantes aproximadamente), 200 Km ao Sul de Moniquirá e 2.600 metros más cerca de las estrellas. Combinei encontrar com Maurício Lopez - que havia sido mobilizado por Edwin Valbuena desde que eu passei por Santa Elena de Uairén - na entrada de Bogotá. Nos desencontramos aí mas nos encontramos na concessionária da Harley-Davidson, onde ele estava me esperando e deixei a motocicleta para revisão. Ele me seguia pelas coordenadas enviadas ao Facebook pelo SpotMessenger. E assim tive a prova mais uma vez da solidariedade que me acompanhou desde Manaus até Bogotá. Mauricio já passou por Belém e foi acolhido por Alex Reis de Menezes, mas eu não o conhecia. Mesmo assim ele estava me esperando e ofereceu sua casa para hospedar-me, oferta que delicadamente recusei porque combinara esperar Valcir Alberto e Neviton Custodio no Hotel Ibis Museo. Essa extensa rede de solidariedade é articulada pelo WhatsApp e Facebook e sem ela eu teria enfrentado algumas dificuldades. Sou muito grato a todos e, agora, sou particularmente grato ao Mauricio Lopez, com quem no dia seguinte vou almoçar uma bandeja paisa, o gigantesco prato nacional que é a alma gastronômica da Colômbia, ao qual devo acrescer o ajiaco santafereño, que é típico de Bogotá.
    A trilha sonora deste trecho colombiano é a cúmbia e o vallenato. A cúmbia é ouvida em toda parte, montanha, páramos, planícies, pueblos ou capitais. E ouvindo cúmbia volto aos anos sessenta e início dos anos setenta do século passado, quando ela dominava as gafieiras de Bragança e da periferia de Belém, Estado do Pará, onde ela chegava pelas rádios AM e pelos long-plays contrabandeados desde as Guyanas. A cúmbia é a ilustre ancestral da lambada, agora no perigeu. A cúmbia continua em alta.
    Bogotá continua linda, beleza que o caos no trânsito não chega a ofuscar. Valeu a pena.
    Fiz contato com a Air Cargo Pack para transportar as motos para o Panamá (1.200 dólares cada), o que só vai ser possível na segunda-feira e por isso espero por Valcir Alberto e Neviton Custódio, que haviam saído de Palmira, no vale do Rio Cauca, cerca de 500 km a Sudoeste de Bogotá, sempre na Cordilheira dos Andes. É um trecho longo e difícil e Valcir rodou até duas da madrugada para chegar a Bogotá, um ato heróico e arriscado (ele acabou as lonas de freio nesse trecho). Depois ainda rodou mais três horas tentando encontrar o hotel (ele não usa GPS) e terminou se hospedando às proximidades. Neviton optou por pernoitar no meio desse trajeto. Pela manhã nos encontramos: Valcir veio para o Hotel Ibis daí seguimos para a concessionária Harley-Davidson, onde em seguida chegou Neviton. Agora todas as motocicletas estavam na revisão e pudemos ir todos para o hotel e desfrutar das belezas de Santa Fé de Bogotá, que não são poucas, da gastronomia ao Museo del Oro. No sábado retiramos as motocicletas revisadas da concessionária e levamos para o estacionamento do hotel, aproveitando bem o final de semana.
    Ajustamos os detalhes finais do transporte aéreo das motocicletas e na segunda-feira as entregamos no Terminal de Carga Aérea do Aeroporto El Dorado - a Air Cargo Pack se encarrega dos trâmites, mas os motociclistas devem estar presentes - e compramos os bilhetes aéreos para Ciudad Panamá (tivemos que comprar ida-e-volta para sair mais barato, paradoxalmente). Na terça-feira deixamos o hotel cedo e fomos para o Aeroporto El Dorado, de onde partimos para Ciudad Panamá, assim terminando a travessia da Colômbia e da América do Sul.
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    • Gilmar Dessaune
      Fazedor de Chuva

      • Oct 2012
      • 6891

      #17
      SÉTIMO POST. DESAFIO GRANDE CACIQUE FAZEDOR DE CHUVA. PANAMÁ.


      A travessia do Panamá começa com um voo tranquilo de Bogotá ao Aeroporto de Tocumen, Ciudad Panamá, onde nos espera um respeitado odontólogo panamenho que é também motociclista, Noriel Antonio Chang Aparício, amigo do Grande Cacique Fazedor de Chuva Carlos Alberto Facioli Chedid, colega e amigo meu de Florianópolis - SC, a pedido de quem ele foi nos receber. Noriel nos levou ao Terminal de Carga Aérea (Bodega Tabosa), que estava fechado para o almoço, pelo que fomos também almoçar em uma fonda de comida chinesa (ele é descendente de chineses) ali perto. Depois de demorados trâmites - Noriel nos esperou com paciência chinesa por três horas - recebemos as motocicletas - que são transportadas sobre pallets de aço, presas com cintas e estavam assim quando finalmente fomos autorizados a retirá-las. Na Aduana encontramos plásticos de motociclistas que passaram por aqui. No estacionamento encontramos duas motocicletas BMWs de brasileiros que estavam fazendo os trâmites e também seguiam para o Alaska, com os quais trocamos rápidas informações. Saímos escoltados por nosso anjo da guarda no Panamá, sob um calor infernal. Por segurança as motos são transportadas com o mínimo de combustível e fomos logo abastecer, seguindo depois para o hotel Marbella, no bairro El Cangrejo, reservado por Noriel Antonio Chang Aparicio, que ali mesmo consertou uma fechadura do alforge da moto do Neviton. Em seguida ele nos levou para passear pela cidade. Melhor recepção que essa impossível. Mais uma prova da generosidade das gentes de Nuestra América. Panamá é uma pequena república onde pulsa um imenso coração de sua gente.
      No dia seguinte nosso generoso anfitrião nos levou para visitar o Canal do Panamá (eclusas de Gatún, no Mar do Caribe/Oceano Atlântico; de Miraflores, no Oceano Pacífico, e as obras do novo canal). Noriel, mais que generoso anfitrião é um verdadeiro anjo da guarda, a quem somos gratos e rendemos homenagens. Nossa dívida para com ele é muito grande e um jantar no Friday do shopping Albrook e uma lembrança da Harley-Davidson - ele nos levou para visitar a concessionária local - não pagam.
      No terceiro dia, com 3.962,2 Km rodados desde a porta de casa, começo o trecho mesoamericano da motoviagem. Iniciamos a travessia do Panamá propriamente dita e Noriel foi ao Hotel Marbella se despedir. A motocicleta de Neviton não dava partida e foi Noriel que ajudou mais uma vez, fazendo uma chupeta da bateria de sua caminhonete. Assim, com boas lembranças, partimos no rumo da Costa Rica, pois pretendíamos pernoitar em Ciudad Neily, logo depois de atravessar a fronteira em Paso Canoas. Como a motocicleta de Neviton continuava com problema na partida paramos em San José de David (180 mil habitantes aproximadamente), capital do Distrito de David e da Província de Chiriqui, já perto da fronteira, rodando cerca de 500 Km pela Via Panamericana, onde ficamos sob a proteção do Ildemaro Atonaidan, da rede Planeando Rutas América, mobilizado por Edwin Valbuena desde Santa Elena de Uairén. Estou com um problema de vazamento de óleo da corrente primária, velho conhecido (nas concessionárias eles apertam demais a tampa enfeitada até ela empenar e vazar óleo quando estaciona a moto). Espero resolver isso em San José de Costa Rica, com apoio de Mayi Castro e seu esposo Oscar, amigos dos Grandes Caciques Fazedores de Chuva Antonio Carlos Facioli Chedid e Carlos Alberto Bragagnolo, amigos meus de Florianópolis - SC. O problema da moto de Neviton Custodio logo está sendo resolvido com ajuda do motociclista panamenho Luis Alberto Horna Resende, que é filho de uma brasileira de Oliveira - MG, Maria Auxiliadora Horna Resende. Ele é amigo de Ildemaro e espera a moto esfriar para ver o motor de partida e, se for o caso, na manhã do dia seguinte levar para um especialista consertar.
      Ildemaro estava nos esperando na Via Panamericana, em um posto de gasolina, mas a sede e o calor nos fizeram parar um posto antes. Tão logo o avisei por WhatsApp que já estávamos no hotel ele veio ao nosso encontro com alegria e felicidade contagiantes, como se me conhecesse desde a infância lá em Bragança. Ele colocou no meu braço uma pulseira plástica azul com o nome do Panamá que uso até hoje e me deu uma garrafinha de azeite de oliva - ele é dono de um pequeno supermercado - para temperar comida na viagem, mas que preferi guardar de recordação. Estou cada vez mais impressionado com a fraterna e calorosa solidariedade que recebemos de motociclistas brasileiros, venezuelanos, colombianos, panamenhos, ticos (costarriquenhos) e mexicanos, renovando minha fé nos homens e na Humanidade (fé algo abalada antes de começar a planejar a viagem, admito). Esses fatos provam que é possível construir uma cultura da paz. Se motociclistas podemos, todos podemos. Gracias, Noriel, Luis Alberto, Ildemaro y todos de la red Planeando Rutas y Akaska-Sturgis.
      À noite saímos com Ildemaro Atonaidan e fomos visitar a família de Luis Alberto Horna Resende, conhecendo seus pais. Luis Alberto nos deu a boa notícia de que o problema da moto de Neviton era só bateria. Ele emprestou uma e o motor de partida funcionou muito bem.
      Saimos para jantar - consomé de mariscos e camarões con salsa criolla - em um excelente restaurante indicado pelos nossos anfitriões (David está muito perto da costa do Oceano Pacífico e os pescados e frutos do mar são muito bons).
      Pela manhã cedo Ildemaro saiu com Neviton Custodio para comprar uma bateria nova e em seguida seguimos em animado comboio para a fronteira, em Paso Canoas, onde tivemos a preciosa ajuda de nossos anfitriões e anjos da guarda - Luis Alberto abortou uma tentativa de cobrança de propina por um despachante panamenho - que ainda tiveram a delicadeza final de deixar suas motocicletas no lado panamenho e atravessar a pé a fronteira para nos auxiliar nos trâmites para ingressar na Costa Rica e se despedir.
      Assim, cercados de hospitalidade, de solidariedade e de generosidade dos nossos irmãos motociclistas Noriel Antonio Chang Aparicio, Ildemaro Atonaidán e Luis Alberto Horna Resende, concluímos a travessia do Panamá.
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      • Gilmar Dessaune
        Fazedor de Chuva

        • Oct 2012
        • 6891

        #18
        OITAVO POST. DESAFIO GRANDE CACIQUE FAZEDOR DE CHUVA. COSTA RICA.

        Vencidos os trâmites fronteiriços em Paso Canoas - cidade compartilhada entre Panamá e Costa Rica, Províncias de Chriqui e Puntarenas, respectivamente, com cerca de 10 mil habitantes - com a inestimável ajuda dos motociclistas panamenhos Ildemaro Atonaidán e Luis Alberto Horna Resende, seguimos viagem Costa Rica adentro, no rumo de San José de Costa Rica, sua simpática capital, onde nos esperam Oscar e Mayi Rivera, amigos dos Grandes Caciques Fazedores de Chuva Antonio Carlos Facioli Chedid e Carlos Alberto Bragagnolo, por estes mobilizados.
        Melvin Madriz Picado, motociclista amigo de Noriel Antonio Chang Aparício e por ele mobilizado, foi nos esperar em Palmar (Província de Puntarenas, cerca de 10 mil habitantes) e nos escoltou até seu Hotel Los Crestones, em San Isidro de El General (Província de San José, 700 metros de altitude, 50 mil habitantes aproximadamente, a 200 Km de Paso Canoas mais ou menos), onde chegamos sob chuva e fomos alcançados por Oscar, seu irmão Paco, Roberto e amigos motociclistas, que em comboio vieram de San José ao nosso encontro. Formamos um comboio e guiados por eles seguimos pela costa - e não pelo Cerro de La Muerte, como previsto, porque chovia, tinha neblina e fazia frio de 8 graus Celsius - até a casa de Oscar e Mayi Rivera, em San José, onde nos esperava um jantar típico (gallo pinto não poderia faltar e não faltou) com amigos do casal - agora nossos também - tudo muito bom e acolhedor. Agora são os ticos que nos acolhem e protegem. A conversa é agradabilíssima e se não fosse a necessidade de descansar para partir cedinho para a fronteira com a Nicarágua ela vararia a noite.
        Pela manhã cedo Mayi nos brindou com um desjejum tipicamente costarriquenho. Tomás veio compartilhar o desjejum e se despedir, fazendo muitas fotos da nossa partida. Nos despedimos de Tomás e de Mayi e Oscar nos levou para passear pelo centro de San José - era domingo e estava tudo muito tranquilo - e em seguida nos guiou até boa parte do caminho para a fronteira. Paramos uns 150 Km mais adiante, em Limonal (Província de Guanacaste, 200 m de altitude), a meio caminho da fronteira, um local que eu já conhecia de uma excursão rodoviária que fiz alguns anos atrás pela Gray Line. Lá estavam as mesmas araras (guacamayas), o mesmo restaurante (Mi Finca) e as mesmas mangueiras. É o ponto de encontro das vans e ônibus de turismo. Oscar é um veterano piloto aposentado. Ele começou a carreira voando em Douglas DC-3 e terminou em Airbus, passando por toda a evolução da aviação civil (aviões a hélice com motores aspirados e turbinados, turbohélices e jato puro). Mas agora ele só quer saber de motociclismo. Sua BMW é dos anos setenta, com milhares de quilômetros rodados, mas parece que saiu da loja ontem. Ele é um excelente motociclista e não é fácil seguir o ritmo dele. Na véspera eu ficara para trás várias vezes pois o ritmo forte dele era seguido pelos demais e eu não sou de andar rápido sob chuva e em estradas desconhecidas. Como chovia bastante ele nos brindou com seus conhecimentos da meteorologia e nos esclareceu que se tratava de uma camada de cumulus nimbus (as temíveis CBs) que descarregaria toda a água em meia hora. E assim foi mesmo. Nos despedimos e seguimos para a fronteira, pelas belíssimas paisagens costarriquenhas. Os flamboyants floridos ficaram na lembrança para sempre.
        Rodamos mais outros 150 Km e chegamos a Peñas Blancas (Província de Guanacaste, 328 metros de altitude e pouco mais de 2 mil habitantes), na fronteira com a Nicarágua, muito perto do Lago Nicarágua. Dividimos as tarefas entre nós: eu fiquei vigiando as motocicletas e Neviton e Valcir foram cuidar dos demorados trâmites fronteiriços, nos revezando no que era necessário e possível. Esses trâmites - via de regra inspeção sanitária e veicular, internação temporária e seguro obrigatório da motocicleta - são a parte mais aborrecida e até exasperante de uma motoviagem na América Latina. De bom apenas o fato de não precisar fazer imigração até chegar na fronteira da Guatemala com o México, graças a um acordo internacional entre Costa Rica, Nicarágua, Honduras, El Salvador e Guatemala. Basta fazer uma entrada na Costa Rica e uma saída na Guatemala.
        Entardecia quando conseguimos, finalmente, sair da Costa Rica e ingressar na Nicarágua, levando as boas lembranças da acolhida calorosa, gentil e solidária dos ticos.
        Muito obrigado Oscar, Mayi, Paco, Roberto, Tomáz e amigos de San José de Costa Rica.
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        • Gilmar Dessaune
          Fazedor de Chuva

          • Oct 2012
          • 6891

          #19
          NONO POST. DESAFIO GRANDE CACIQUE FAZEDOR DE CHUVA. NICARÁGUA.


          Chegamos às quatro da tarde de domingo na fronteira com a Nicarágua, en Peña Blanca. Do lado costarriquenho os procedimentos de saída foram simples e rápidos, ao custo de oito dólares. Fiquei vigiando as motos enquanto Valcir Alberto e Neviton Custodio faziam os trâmites fronteiriços de todos nós. Policiais costarriquenhos cortesmente nos saudavam ao passar e um veio me ajudar a calçar o descanso lateral com uma pedra, pois resolvera conviver com o vazamento do óleo da corrente primária conforme orientação do meu mecânico em Belém, o Arthur Coelho, que sabe tudo de motocicleta (e da minha em particular). Deixando a moto na vertical não vazava óleo e por isso precisava calçar o descanso lateral. Isso tudo fixou definitivamente uma boa impressão e uma boa lembrança da Costa Rica e de sua gente, os amáveis e simpáticos ticos. O céu estava bonito, depois da chuva na saída de Limonal. Como do lado costarriquenho os procedimentos foram rápidos logo atravessamos a fronteira para o lado nicaraguense. Neviton Custódio, que liderava o comboio, foi cercado por uma chusma de despachantes que trotavam ao lado das motocicletas portando crachás como se fossem servidores públicos, e a primeira impressão que tivemos da Nicarágua foi essa invasiva e agressiva abordagem, que incomoda todos que por aqui passamos, conforme vários relatos que li quando planejava a motoviagem, pois sabia muito bem que travessia de fronteira é sempre um momento crítico, que alguns preferimos esquecer. Nos desvencilhamos deles com firmeza, quase rispidez, e começamos os procedimentos. Primeiro os pneus das motos foram borrifados com uma substância para controle de pragas e para isso tivemos que pagar três dólares - o sandinismo convive bem com o dólar - por moto. Em seguida fomos inspecionados por uma pessoa que parecia ser um servidor público, com o símbolo da bordado FSLN na manga da camisa de listrinhas azuis e brancas, deixando claro não haver separação entre Estado e partido. Eu fiquei novamente vigiando as motos e revezando para fazer a aduana, o seguro obrigatório e a imigração (pagando tudo com dólares, até uma esquisita taxa de um dólar por passaporte, cobrada pela Alcaldia de Cárdenas, o Município da fronteira). Terminamos tudo três horas depois, por volta de sete horas da noite. Decidimos pernoitar em San Juan del Sur (municipalidade do Departamento de Rivas com cerca de 15 mil habitantes), onde chegamos uma hora depois, quando já estava escuro, viajando por uma rodovia construída em uma estreita faixa de terra entre o Lago Nicarágua e o Oceano Pacífico, à margem do qual fica essa simpática cidadezinha praiana, paraíso de jovens surfistas e gringos. As luzes vermelhas que se avistava no caminho eram das turbinas eólicas, como constatamos no dia seguinte. Nos hospedamos em um hotel simples e procuramos um restaurante na beira da pequena baía para jantar. E foi um bom jantar, para compensar os dissabores da travessia na fronteira. Ficamos sabendo pelo mesero (garçon) que as luzes que se avistam sobre uma colina no final da praia são de um condomínio fechado onde militares e suas familias veraneiam.
          Em San Juan del Sur ficaria uma das extremidades do futuro canal interoceânico que chineses e nicaraguenses prometem construir ligando o Pacífico ao Mar do Caribe, um projeto que remonta aos tempos da colônia e foi abandonado no início do Século XX quando o Canal do Panamá foi construído (os panamenhos acham que o canal nicaraguense não passa de um conto chino…).
          Saímos por volta de 9 h de San Juan del Sul, deixando para trás sua pequena baía com uma colina em cada extremidade da praia, voltamos à rodovia (Carretera Panamericana) e seguimos no rumo de Honduras, bordejando o Lago Nicarágua e com o Oceano Pacífico à nossa esquerda, como era possível ver na tela do GPS. Agora é possível ver as turbinas do parque eólico cujas luzes avistamos na véspera. Felizmente, os ventos estavam camaradas. Passamos por Granada, uma simpática cidade colonial de 120 mil habitantes aproximadamente, às margens do Lago Nicarágua; pela capital Manágua, uma cidade moderna (a antiga foi destruída por terremotos em 1931 e 1972) com 3,5 milhões de habitantes aproximadamente; por León, outra simpática cidade colonial (a segunda maior cidade da Nicarágua, com perto de 400 mil habitantes), viajando por boas estradas, alguns trechos em concreto. A paisagem parece nossa caatinga, com montanhas à nossa direita e alguns vulcões perto de León. Um deles surge depois de uma curva bem na nossa frente na linha do horizonte, entre flamboyants floridos, uma paisagem inesquecível.
          Disputamos espaço nessa moderna rodovia com caminhões transportando cana a granel (e largando pedaços na pista), com veículos de tração animal (e até humana), com animais e até com uma boiada inteira que nos obrigou a freiar bruscamente e sair para a contra-mão, passando entre uma caminhonete que vinha em sentido contrário e os bois.
          Chegamos à fronteira com Honduras, que é um horror e o calor terrível piorava mais. Ao chegar na fronteira fomos cercados por bandos de adultos e crianças oferecendo serviços (despachantes e guarda das motos). É um momento crítico. Falo em inglês para não ser entendido e eles vão em busca de outras vítimas. Fico vigiando as motos e Neviton Custodio e Valcir Alberto vão cuidar dos trâmites, pagos em dólares. Tomo um refresco de tamarindo e uso o saco como bolsa de gelo para resfriar a cabeça. Uma hora depois, mais ou menos, passamos para o lado hondurenho e assim terminamos a travessia da Nicarágua, com boas e más lembranças.
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          • Gilmar Dessaune
            Fazedor de Chuva

            • Oct 2012
            • 6891

            #20
            DÉCIMO POST. DESAFIO GRANDE CACIQUE FAZEDOR DE CHUVA. HONDURAS.


            Depois de mais ou menos uma hora fazendo os trâmites do lado nicaraguense atravessamos a fronteira para Honduras por El Guasaule - o mesmo topônimo dos dois lados da fronteira - e a cena se repetiu, com hordas de tramitadores nos cercando, trotando ao lado das motos. Nos desvencilhamos deles falando em inglês e agora é minha vez de ir com Neviton Custódio cuidar dos trâmites sob um calor infernal, enquanto Valcir Alberto vigia as motocicletas. Na Imigração somos atendidos por um simpático Francisco, que preencheu os formulários e nos acompanhou até a Aduana. Agora estamos em uma estufa que faz tudo parecer mais lento. Pergunto por banheiros e a gentil servidora pública diz que não tem, banheiros só voltando à Nicarágua. Não tinha água sequer para molhar o rosto (depois vi que chegara um caminhão pipa para abastecer a cisterna do lugar). Atravessamos um estacionamento para fazer cópias e a proprietária riu muito quando perguntei por banheiros ou pelo menos uma torneira. Comprei água gelada, refrescamos a garganta e eu consegui, finalmente, molhar o rosto. Quase três horas de trâmites fronteiriços depois, sempre sob calor infernal, mas finalmente já dentro de Honduras, nos esperavam cerca de 40 Km de buracos, como avisara Ildemaro Atonaidan. Reduzimos a velocidade também para poupar combustível. A estrada parecia não ter fim e ao entardecer chegamos a Choluteca - uma antiga cidade colonial no Departamento de Choluteca com cerca de 200 mil habitantes - a um salvador posto de gasolina e... ao Paraíso, sob a forma de hotel com piscina (Hotel Rivera). Me meti embaixo do chuveiro, meus companheiros foram para a piscina e logo desabou uma tempestade com tormentas elétricas. Jantamos na Pizza Hut em frente ao KFC. Parecia que já tínhamos chegado aos Estados Unidos. Voltamos para o hotel e dormimos bem.
            No dia seguinte nos preparamos para atravessar o restante de Honduras, ingressar em El Salvador e tentar atravessar até a Guatemala com luz solar, pois estaremos nos territórios das temíveis maras, gangues que já estão cobrando até um imposto de guerra, conforme notícias que tivemos na Costa Rica.
            Rodamos uns 90 Km e logo chegamos a El Amatillo, na fronteira com El Salvador, onde os trâmites fronteiriços, em comparação com os anteriores, foram bem mais tranquilos, sem dispensar, entretanto, os cuidados de sempre, respondendo as perguntas dos curiosos com evasivas. Afinal, estamos em território dos antigos mayas e das atuais e temíveis maras, as gangues salvadorenhas nascidas na Califórnia nos tempos da guerra civil, foram repatriadas na marra pelos norteamericanos e aqui cresceram e se tornaram internacionais. Assim, mais uma vez eu fiquei cuidando das motocicletas e meus companheiros Neviton Custódio e Valcir Alberto foram fazer os trâmites fronteiriços de todos nós, em um prédio construído nos anos quarenta do Século XX, cercado da balbúrdia de sempre por todos os lados, bem conhecido de todos os motociclistas que fazem a mesma rota.
            E foi assim que fizemos a travessia dos escassos 140 Km do trecho hondurenho da motoviagem.
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            • Gilmar Dessaune
              Fazedor de Chuva

              • Oct 2012
              • 6891

              #21
              DÉCIMO PRIMEIRO POST. DESAFIO GRANDE CACIQUE FAZEDOR DE CHUVA. EL SALVADOR.


              Terminados os trâmites no lado hondurenho atravessamos a ponte sobre o Rio Goascoran - que serve de fronteira com El Salvador - e recomeçamos os trâmites na Aduana Terrestre El Almatillo, um prédio mais moderno que fica logo após a ponte. A esta altura já cumpríamos um procedimento operacional padrão com a mesma divisão de tarefas. Acostumados, já não reclamávamos tanto. A bem da verdade, de minha parte a preocupação agora era com as maras. Ademais, em El Amatillo não são raras as milionárias apreensões de cocaína. Por isso mesmo cuidamos de acelerar os trâmites e seguir viagem para tentar fazer a travessia de El Salvador ainda durante o dia (são cerca de 330 Km de fronteira a fronteira).
              Avançamos o que foi possível, passando por pequenas cidades como Santa Rosa de Lima e San Miguel, contornamos a capital San Salvador (maior cidade do país com quase 300 mil habitantes, a 650 metros de altitude), mas só foi possível chegar a Sonzacate - Município do Departamento de Sonsonate com aproximadamente 25 mil habitantes (230 metros de altitude) - quando já escurecia e não valia mais a pena se arriscar pelos 60 Km restantes até a fronteira com a Guatemala. Nos hospedamos no Hotel Las Palmeras, às margens da rodovia, que nesse trecho ganha o bucólico nome de Boulevard Las Palmeras. Foi uma escolha acertada, logo vimos, pois ao descermos para a piscina ela estava vigiada por um segurança com uma escopeta calibre 12 de cano duplo, como é a regra por aqui, onde qualquer comércio, por pequeno que seja, precisa desse tipo de segurança. As escopetas são de porte tão usual que as pessoas carregam-nas perduradas nos ombros com a mesma elegância das madames com suas bolsas, sem que disso resulte uma sensação de segurança, antes pelo contrário. Jantamos no hotel mesmo e parecia que éramos os únicos hóspedes naquela noite.
              O desjejum no Hotel Las Palmeras foi reforçado e logo saímos para a rodovia pois planejávamos avançar o máximo possível e nos aproximar da fronteira com o México (Tecun Uman/Ciudad Hidalgo). Havia previsão de alta probabilidade de chuva pela manhã entre El Salvador e Guatemala e um furacão se formava na costa do México, no Oceano Pacífico. Vencemos os 60 Km que restavam de El Salvador sob calor infernal e chegamos a La Hachadura (Departamento de Ahuachapan, cerca de 11 mil habitantes), na fronteira com a Guatemala. Levamos só duas horas para fazer os trâmites na fronteira com a Guatemala. Mas duas horas de tramitação em um calor infernal é desgastante. Os Ministros da Fazenda desses países deveriam passar por suas fronteiras como cidadãos comuns para sentir na própria pele a dureza que é. As belas paisagens - físicas e humanas - desses países de Centroamérica são obscurecidas pelas péssimas condições de trabalho e atendimento nas fronteiras. Quem sabe assim eles não se preocupassem mais com suas respectivas fronteiras. Deveriam fazer um esforço para ter nas fronteiras terrestres o mesmo nível do atendimento dos aeroportos (Imigração e Aduana). As fronteiras terrestres são um massacre, apesar do esforço e do denodo dos servidores públicos. Não tem como dourar essa pílula amarga e travosa, que fica para sempre na lembrança dessa travessia de El Salvador que assim terminou, para recomeçar tudo do outro lado na Guatemala.
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              • Gilmar Dessaune
                Fazedor de Chuva

                • Oct 2012
                • 6891

                #22
                DÉCIMO SEGUNDO POST. DESAFIO GRANDE CACIQUE FAZEDOR DE CHUVA. GUATEMALA.


                Vencido o lado salvadorenho da travessia recomeçamos tudo do outro lado, na Delegación de Pedro de Alvarado do Ministério de Gobernación da Guatemala, onde somos recebidos por uma placa grande - em frente a uma mangueira carregada frutos verdoengos - com letras azuis sobre fundo branco que nos pede para não esquecer de fazer o controle migratório ao entrar e sair de nuestra GUATEMALA, e um selo no canto inferior direito onde se lê NO A LA CORRUPCIÓN! No guichê da Imigração outra placa grande alerta que todo o trâmite é pessoal. Mais explícito impossível. Certo é que não havia tramitadores trotando ao lado das motocicletas quando lá chegamos. Mas cumprimos nosso procedimento operacional padrão e eu fiquei vigiando as motocicletas enquanto Neviton Custódio e Valcir Alberto cuidavam dos trâmites fronteiriços, nos revezando em seguida. As instalações físicas são bem melhores que as anteriores.
                Terminamos os trâmites e voltamos à estrada, nos internando na simpática Guatemala, onde a herança maya é muito forte e que eu já conhecia, por uma excursão rodoviária que fiz pela Gray Line anos atrás, quando também estive no Panamá, Costa Rica e Honduras. A rodovia segue uma trajetória por belas paisagens, muitos flamboyants floridos, deixando à esquerda o Oceano Pacífico - como mostra o mapa do GPS - e à direita a cadeia vulcânica onde estão os conhecidos Volcán de Água (que em 1541 destruiu a primeira capital da Guatemala), Volcán de Fuego e Volcán Acatenango, que se pode avistar desde Escuintla; e Volcán Tajumulco (extinto), o mais alto da Guatemala (4.222 metros de altitude), que pode ser avistado desde Tecun Uman, já na fronteira com o México, onde chegamos ao entardecer, com uma temperatura agradável, aduana e imigração bem mais amigável que todas as anteriores, com boas instalações e procedimentos de saída bem mais céleres. Como já tinha uma agradável passagem anterior pela Guatemala, gostei muito dessa travessia de aproximadamente 300 Km de fronteira a fronteira.
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                • Gilmar Dessaune
                  Fazedor de Chuva

                  • Oct 2012
                  • 6891

                  #23
                  DÉCIMO TERCEIRO POST. DESAFIO GRANDE CACIQUE FAZEDOR DE CHUVA. MÉXICO.


                  Deixamos para trás as instalações fronteiriças guatemaltecas de Tecun Uman, atravessamos a fronteira pela ponte sobre o Rio Suchiate - que tem travessia de pedestres também - e logo estamos nas instalações aduaneiras de Ciudad Hidalgo, Município de Suchiate, Estado de Chiapas, México (cerca de 15 mil habitantes). É outro mundo. As instalações são amplas, modernas, limpas, cercadas por grades e com portões de segurança bem controlados (tem até heliponto). Não tem tramitadores trotando ao lado das motocicletas. Era final do dia para início da noite, com poucos os veículos para inspecionar. Estacionamos as motocicletas na área de revisão e elas foram rapidamente inspecionadas por servidores, uniformizados e corteses. Uma inspeção visual simples. Somos orientados a fazer o restante dos procedimentos mais adiante, em Huixtla, pois em uma faixa de 40 Km ao longo da fronteira com a Guatemala a circulação é livre e só quem vai avançar mais que isso precisa fazer os procedimentos de internação do veículo e imigração. Rodamos uns 40 Km até Tapachula de Córdova y Ordóñez (350 mil habitantes aproximadamente), capital do Estado de Chiapas, onde pernoitamos. Mal chegamos ao Hotel Kamiko (atualmente da bandeira Comfort Inn), à boca da noite, estacionamos as motos sob uma marquise e desabou uma tempestade com tormentas elétricas, efeito periférico do gigantesco furacão Blanca (categoria 4) que se formara no Pacifico e rumava para o continente, bem mais ao Norte (Baja California). Revisamos o planejamento original feito por Valcir Alberto e Neviton Custódio (American Motorcycle Expedition), decidimos suprimir a passagem por Acapulco, na costa do Oceano Pacífico, e seguir diretamente para Heróica Matamoros, Estado de Tamaulipas, na fronteira com o Texas, perto do Golfo do México, pois eles haviam assumido compromissos em Houston, Texas, e não havia mais tempo para executar o plano original, que substituimos nesse trecho por um plano de contingência.
                  Saímos de Tapachula de Córdova y Ordóñez um pouco tarde (mudou o fuso horário) e rodamos uns 40 Km até a Aduana de Huixtla (cerca de 50 mil habitantes), Estado de Chiapas. É a Caseta Aduanal de Villa Comaltitlán, um conjunto de prédios modernos, confortáveis e seguros (aqui também não fomos cercados pela chusma de tramitadores que infestavam algumas das fronteiras anteriores). Mas apesar disso o usuário é atendido em um guichê do Banco Nacional del Ejército, Fuerza Aérea y Armada - Banjercito sob um calor infernal. Só um guichê estava funcionando e só nós estávamos sendo atendidos. Pagamos duas taxas (Aduana e Imigração) e fizemos o famoso depósito de 400 dólares, que substitui o seguro obrigatório e será devolvido quando sairmos por Heróica Matamoros, Estado de Tamaulipas. Quem paga em cédulas recebe em cédulas; quem paga com cartão de crédito recebe no cartão, e esta foi minha opção. Enquanto sou atendido pelo caixa do banco peço notícias do Sub-Comandante Marcos e do zapatismo. Diz ele que o zapatismo ficou restrito ao Norte de Chiapas e não chegou ao sul e que o Sub-Comante Marcos está retirado (aposentado). De fato, não se ouve mais falar em nenhum dos dois.
                  Concluimos os trâmites e agora estamos aptos para nos internar no México e foi isso o que fizemos, rodando no rumo Noroeste pela planície costeira, sempre perto do Oceano Pacífico, como mostrava o mapa do GPS, passando por Arriaga e seguindo até La Ventosa, já no Estado de Oaxaca, região de ventos fortes, onde tomamos o rumo Norte para fazer a travessia do Istmo de Tehuantepec até o Golfo do México, chegando ao entardecer desse primeiro dia a Matias Romero (cerca de 40 mil habitantes), Estado de Oaxaca, depois de rodar uns 420 Km. Começamos a maratona em busca de hotel. A rua onde tinha um hotel estava tomada por uma alegre parranda comemorativa do Dia de Corpus Christi. Parecia mais Carnaval. Finalmente conseguimos, a poucos metros da rodovia, o Hotel Juan Luis, grande, com um pátio interno em cujo alpendre estacionamos as motocicletas, mas que já viveu dias melhores.
                  De Matias Romero prosseguimos a travessia do Istmo e uns 220 Km ao Norte chegamos a Catemaco - cidade de uns 30 mil habitantes logo depois da belíssima laguna homônima, Estado de Veracruz - onde enfrentamos o segundo bloqueio de estrada por manifestantes. O primeiro foi em El Salvador. Neviton Custodio fez valer suas habilidades de negociador e os manifestantes nos deixaram passar. Rodamos uns 10 Km e por um erro terminamos passando pelo centro da encantadora cidade de San Andrés Tuxtla, Estado de Veracruz (420 metros de altitude e cerca de 70 mil habitantes), onde paramos um instante para lanchar e fazer todos. Em seguida passamos por dentro da histórica Heróica Veracruz, Estado de Veracruz (cerca de 500 mil habitantes), importante porto do Golfo do México, que bordejamos até chegar a Playa Casitas, Estado de Veracruz, e nos hospedarmos no Hotel Maria Bonita (nome surpreendente), onde ficamos de bubuia na piscina até a hora do jantar no Restaurante Bar El Pirata del Golfo (pedi uns camarões enormes enrolados em bacon, recheados com mariscos e gratinados com queijo manchego, parecidos com o que fazem em Los Mochis, do outro lado do México, no Golfo da Califórnia, Estado de Sinaloa, por onde passei anos atrás para tomar o trem rumo às Barrancas del Cobre). Não dei conta de comer todos os camarões. O bom quando se viaja de motocicleta são as coisas simples que não valorizamos no nosso cotidiano. Por exemplo, a rota da Mesoamérica bem que poderia ser a Rota dos Flamboyants, de todas as tonalidades e quase todos floridos. Ou um longo pôr-do-sol bem na nossa frente, das 18 h às 20 h, enquanto bordejávamos o Golfo do México. Ou a refrescante michelada, que é o merecido drinque para terminar bem o dia e começar melhor o jantar. Michelada é um dos poucos drinques feitos com cerveja e, confesso, faz meu gênero. É simples, bom e sempre refrescante: cerveja, sal (na borda do copo), limão, Tabasco, molho inglês e um traço de shoyu, se for do gosto do freguês. Avançamos uns 540 Km nesse dia.
                  Pela manhã cedo seguimos rumo ao Norte e optamos por rodovias que combinavam trechos excelentes com trechos de terra com seixos soltos (cascalho, rípio, grava suelta ou gravel loose, conforme o país), passando perto de Tuxpan - de onde partiram Fidel Castro e seus companheiros no iate Granma para invadir Cuba em 1956 - e por Tampico (uma cidade portuária de uns 300 mil habitantes, grande e espalhada, com uma megarrefinaria da Pemex e uma moderna ponte) e Altamira (cidade portuária de uns 70 mil habitantes na área metropolitana de Tampico), assim avançando uns 560 Km até Soto La Marina (10 mil habitantes aproximadamente), Estado de Tamaulipas, perto de uma estação de compressão de gás e de uma vila militar, único lugar onde tinha caixa automático funcionando e lá conseguimos o pouco dinheiro que nos faltava para a última etapa da travessia. Pernoitamos no Hotel Rey e como era véspera de eleições já vigorava a Lei Seca e parecia que a michelada estava fora da lei.
                  O último dia da travessia era um domingo, dia de eleições, e seguimos as orientações recebidas de companheiros de várias partes do México: rodar direto para a fronteira parando só para abastecer em local povoado, sem dar qualquer informação do destino seguinte. A polícia de Tamaulipas tem má-fama e as quadrilhas pior ainda. Mas nesse dia, para sorte nossa, a polícia estava muito ocupada com a segurança das eleições e por todos os lados os comboios militares davam uma sensação de segurança (ver foto no posto Pemex). Seguimos as recomendações à risca e fizemos uma única parada para abastecimento, en San Fernando, Estado de Tamaulipas, rodando, em segurança, cerca de 280 Km até Heróica Matamoros, completando a travessia do México com um equívoco imperdoável: ingressamos nos Estados Unidos sem fazer a saída do México. A Imigração norte-americana, em Brownsville, Estado do Texas, nos atendeu em espanhol com profissionalismo e paciência, fazendo todos os trâmites de inspeção veicular, aduana e imigração, e permitindo nosso retorno à Heróica Matamoros para fazer a saída do México. As filas de veículos eram grandes no local de travessia, Puente Nuevo Internacional, e mais uma vez dividimos as tarefas e enquanto eu ficava cuidando das motocicletas Neviton Custódio e Valcir Alberto avançavam os trâmites fronteiriços. No final deles demos uma volta para ir até um minúsculo posto de serviço do Banjercito receber em devolução o depósito de 400 dólares que fizemos na entrada em Huixtla, Estado de Chiapas (no meu caso mediante crédito na fatura do cartão). Com esse sobressalto completamos a travessia do México em segurança.
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                  • Gilmar Dessaune
                    Fazedor de Chuva

                    • Oct 2012
                    • 6891

                    #24
                    IREMOS DIVIDIR O 14º POST EM TRÊS PARTES, POIS É MUITO GRANDE.

                    PRIMEIRA PARTE DO 14º POST

                    "DÉCIMO QUARTO POST. DESAFIO GRANDE CACIQUE FAZEDOR DE CHUVA. ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA.

                    De Brownsville, Texas, a New Orleans, Louisiana


                    Kingsville, Texas

                    Vencida a atrapalhada travessia da fronteira entre México e Estados Unidos, cruzamos outra vez o Rio Grande, agora pela nova ponte internacional, e nos apresentamos às autoridades aduaneiras norte-americanas em Brownsville, Estado do Texas (cerca de 200 mil habitantes), e explicamos o ocorrido, passando sem maiores problemas.
                    Aliviados e alegres, comemoramos o ingresso na nova etapa da motoviagem, que nos aproximava mais um pouco do nosso destino no Alaska.
                    Como ainda era cedo resolvemos avançar um pouco e assim rodamos umas 120 milhas pela excelente Road 77 até Kingsville, Estado do Texas, onde nos hospedamos no Budget Inn, um típico motel norte-americano, o primeiro dos muitos que iríamos nos hospedar daí em diante. Um ninho de andorinhas com quatro filhotes na lâmpada do quarto do motel era bom sinal de boas-vindas. Era só o começo da imersão profunda de quase dois meses na cultura - e nas subculturas - norte-americanas e no american way of life. E isso inclui acostumar a ver alertas sem rodeios como os muitos que vimos na Road 77: Estamos em temporada de furacões. Esteja preparado. No Brasil um alerta desse demandaria várias consultas aos escalões superiores e aos marqueteiros políticos para aferir o efeito eleitoral da iniciativa, correndo o risco da autoridade máxima decidir não emitir o alerta para não ter prejuízos eleitorais, mesmo que dessa decisão resultasse perigo para os cidadãos. Há precedentes.
                    O primeiro jantar em solo americano foi de comida mais ou menos Tex-Mex, no Big House Burgers, um típico sport-bar. Cerveja enoooooorme. O Texas é a Itú dos americanos: mania de grandeza levada às últimas consequências. Quantidade não é qualidade. Cerveja de rotina.

                    Houston, Texas


                    O segundo dia nos Estados Unidos é de uma bela viagem de 412 Km entre pastagens e plantações de milho, sorgo e arroz. Entramos em Houston (mais de 2 milhões de habitantes) e fomos diretamente para a Stubbs Harley-Davidson, na Telephone Road, 4400. Demos com as caras na porta porque ela não abre segunda-feira. Nos hospedamos bem ao lado em outro típico motel - o South Loop Inn - que, como o de Kingsville, é de propriedade de uma família indiana, mas o bairro é mexicano.

                    Woodlands, Texas


                    Pela manhã cedo atravessamos Houston do Sul ao Norte, passando pelo centro da metrópole para levar as motos para revisão na Harley-Davidson de Woodlands (110 mil habitantes), onde havia agendamento (e não na de Houston, onde passamos na véspera). Fomos muito bem recebidos dor Chery, Bruce e sua equipe (Bruce fala espanhol porque é casado com uma salvadorenha e o responsável pelo departamento de peças é Juan, mexicano de San Luis de Potosi). Como eles não reparam a tampa da primária por onde estava vazando óleo, Bruce determinou que fosse substituída por uma tampa original, sem custo. Guardei a tampa decorada em dourado de recordação.
                    Fizemos algumas compras - uma camiseta e uma bolsinha para prender no pára-brisas - e fomos para o Woodlands Resort & Conventions, trazidos por Marina Leal, da operadora de turismo Schultz, de Curitiba, de quem Valcir Alberto, Neviton Custodio e eu somos clientes (compro dela o seguro de viagem VitalCard). A Schultz apóia a American Motorcycle Expedition, organizada por eles e a qual me integrei desde Bogotá, e Marina conseguiu a revisão das motos e a hospedagem no resort através do Convention & Visitors Bureau de Woodlands. Marina Leal é paraense e está prospectando novas rotas para turismo especial (de motocicleta, de motorhome, vinhos, gastronomia etc). Texas é pouco explorado e conhecido pelos brasileiros. É uma boa aposta e uma excelente rota, pois esse Texas das proximidades do Golfo do México é mesmo uma região muito bonita, com paisagens que variam de plantações e pastagens a praias, sem contar os museus e resorts como o que nos hospedou. No Texas os Bush ainda dão muitas cartas e sua riqueza deixa claro que o folclore esconde a sagacidade da família que deu dois Presidentes dos EUA, o que os aristocráticos Kennedy não conseguiram.
                    As excelentes estradas fazem deste estado - e deste país - a pátria do motociclismo de viagem.
                    Ficamos dois dias em Woodlands para revisar as motos e cumprir um roteiro organizado pelo Conventions & Visitors Bureau, inclusive uma recepção festiva na concessionária, com direito a um grande bolo e a presença de vários sócios do HOG local. Nossa passagem ficou registrada na revista do Conventions & Visitors Bureau, na página do HOG e em uma revista eletrônica dirigida ao público latinoamericano local.

                    New Caney, Texas


                    Depois desses dois dias de vida mansa tomamos o rumo de New Orleans, Louisiana, como fizeram Peter Fonda, Dennis Hoper e Jack Nicholson em Easy Rider (Sem Destino), com a diferença que o Mardi Gras já passou. Não importa, vamos fazer o nosso próprio Mardi Gras. Nesse trecho vamos acompanhar Marina Leal, que agora vai testar a rota em um motorhome. Por isso saímos de Woodlands e fomos para um hotel mais barato em New Caney (cerca de 10 mil habitantes), umas 25 milhas a Leste, ainda na área metropolitana de Houston, o Best Western Plus New Caney Inn & Suites.

                    Beaumont, Texas


                    Pela manhã vamos para Kingwood (uns 100 mil habitantes), umas 12 milhas adiante, esperar Marina na Cruise America, onde ela vai retirar o motorhome. Aproveito para conhecer detalhes desse mundo novo para mim que é o das viagens em motorhome, parte integrante da cultura americana. Enquanto Marina não chega fiz uma imersão profunda na subcultura de um típico sport-bar norte-americano. Depois saímos em comboio, agora liderado pela Marina no motorhome. Depois de uma curta viagem por uma típica rodovia americana, paramos em San Jacinto, local histórico onde foi travada a batalha pela república do Texas, que teve vida efêmera, mas marcou para sempre o imaginário dos texanos. Rodamos cerca de 110 milhas até Beaumont (120 mil habitantes aproximadamente), Texas, deixando Marina Leal no Gulf Coast RV Resort, um típico camping americano - com bandeiras dos EUA e do Texas, naturalmente - onde ela vai experimentar os serviços. Demos uma volta pelo camping quase lotado. Parece ser uma experiência bem interessante, inclusive para crianças e mascotes (tem uma área reservada para as correrias deles). Os campings cobram diárias considerando como básico dois adultos, duas crianças e dois mascotes (pets). E nós vamos para uma nova vivência: passar a noite em um hotel de beira de estrada para caminhoneiros, o Knights Inn, pagando diária de caminhoneiro (74 dólares o apartamento duplo com camas queen size). À medida que vai chegando a noite o estacionamento vira um mar de caminhões. Agora, com o verão avançando, o sol se põe às 20:30 h e naquele dia ele foi lindíssimo. Nos Estados Unidos também vale a regra conforme a qual restaurante onde param caminhoneiros tem comida boa. No Iron Skilled daqui de Beaumont, junto do hotel, a regra foi cumprida e a comida era boa. Os caminhoneiros tem área exclusiva (drivers only). E nada de junk-food no buffet. Salada para montar conforme o gosto do freguês, uma sopa quente e comida de gente (carne, peixe, arroz e massas). O prato é de aço grosso e pela regra da casa cada vez que for repetir tem que usar outro prato limpo. Até o prato de sobremesa é de aço. Me dei bem na experiência com os caminhoneiros. Na volta para o hotel deparei-me com uma capela móvel transdenominacional - um enorme caminhão-baú todo equipado para esse fim - hoje estacionada no meio dessa mar de caminhões que vai passar a noite em Beaumont.

                    New Orleans, Louisiana


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                    • Gilmar Dessaune
                      Fazedor de Chuva

                      • Oct 2012
                      • 6891

                      #25
                      Nem assim deu certo, tive que cortar um pedaço final do texto pois o total ficou grande ainda.

                      Segue complemento da 1a. parte do 14º post:

                      "O dia amanhece com um alerta de risco de inundação costeira que apareceu quando fui fazer a foto para o InstaWeather (estamos a umas 30 milhas da costa no Golfo do México). Seguimos viagem para a mítica New Orleans (380 mil habitantes), Lousiana, sob prognóstico de chuva. Me desgarrei do comboio cerca de 130 milhas depois, em Lafayette (125 mil habitantes aproximadamente), Louisiana, quando meus companheiros saíram da Road 10 para comprar lembranças na concessionária Harley-Davidson, a Cajun. Segui viagem pela bela estrada - um trecho dela é uma extensa ponte dupla sobre o imenso pântano (bayou) e uma ponta do Lago Pontchartrain - até o camping perto do Quarteirão Francês (French Quarter), no centro de New Orleans, onde Marina tinha feito reserva para ela. Como demorassem a chegar e escurecia fui procurar hotel e depois de várias tentativas consegui vaga no Empress Hotel (1317 Ursulines Avenue). A noite nos reencontramos todos e fomos jantar. Eu fui de comida cajun, gumbo de frutos do mar (camarão e siri cozidos com um caldo de quiabo muito bem temperado) e uma cerveja Abita Amber muito boa. O Bloody Mary vem com chiles e quiabo em picles e é drink para fortes. O furacão Katrina arruinou a cidade - boa parte dos moradores foram para Baton Rouge - e as marcas ainda estão por todos os lados, mas o alto astral dela ficou intacto. Em qualquer bar a música ao vivo é da melhor qualidade. Em New Orleans Ed Motta não seria notado. Passamos boa parte da noite zanzando pela Bourbon Street e adjacências ouvindo música e tomando Blood Mary.
                      De manhã tomamos um enorme café au lait com croissant em um café da Ursulines - o Croissant d'Or, em pleno French Quarter - e seguimos para o French Market, onde tem um festival de tomate e jazz, muito jazz. Uma jazzband só de branquelos faz um jazz da melhor qualidade e a bandleader magrinha tem uma voz encantadora. Hipnotizante. Dá vontade de ficar o dia todo ouvindo. A caminhada pela Decatur nos leva à catedral e depois ao aquário Audubon, onde Valcir fica. Voltamos pelo calçadão à margem do Mississipi, totalmente recuperado, com um memorial ao Holocausto e esculturas. No Bubba Gump Shrimp Co. New Orleans - inspirado no filme Forest Gump - a pedida é uma Abita Amber, a boa cerveja local. Depois fui de jambalaya, excelente. E assim continuamos nossa vilegiatura pela cidade até tarde da noite.
                      Chegar a New Orleans de motocicletas vindo nelas desde o Brasil não é trivial. Menos trivial ainda é passear com elas na Bourbon Street, onde tem uma boutique da Harley-Davidson. E foi o que fizemos pela manhã, depois do último café au lait com croissant no Croissant d´Or. Por isso agora rendo minhas homenagens a Valcir e Neviton, do Carpe Dien de Porto Alegre, autores do plano de viagem, ao qual me agreguei a partir de Bogotá."

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                      • Gilmar Dessaune
                        Fazedor de Chuva

                        • Oct 2012
                        • 6891

                        #26
                        De New Orleans, Louisiana, a Chicago, Illinois

                        Memphis, Tennessee


                        Agora a motoviagem muda de rumo e seguimos para o Norte, em direção a Memphis (cerca de 660 mil habitantes), Estado do Tennessee, acompanhando o Rio Mississipi e a trajetória musical americana no Século XX (Louis Armstrong começou em New Orleans e só depois foi para Chicago). Assim foi que atravessamos de Sul a Norte os Estados de Louisiana e Mississipi, na rodovia paralela ao Rio Mississipi, a Road 55. Não é uma estrada-paisagem, mas bem que poderia ser. Para nós é o paraíso. Na saída de New Orleans voltamos a estrada que na verdade são duas infindáveis pontes sobre uma imensa área alagada, de pântanos (bayou) e o lago. Depois começa a belíssima rodovia de quase seiscentos quilômetros de retas e curvas suaves, linda de enjoar (tem um vídeo feito por Valcir no Facebook). O capim bem aparado - no vídeo aparece a patrulha de tratores com cortadores de grama - torna as faixas de domínio e o canteiro central um campo de golf ou uma campina verdejante do Salmo 23. Vou ter dificuldade para encarar nossas estradas brasileiras quando voltar. E o rípio (cascalho, gravilha ou gravel loose) do Alaska também. Chegamos a Memphis já de noite e eu quase sofro um acidente ao fazer a travessia de uma pista dupla no lugar errado. Escolhemos um hotel (Knights Inn) perto de Graceland, a mansão de Elvis, The Pelvis, atualmente propriedade de sua filha Lisa Marie Presley. Uma lenda urbana de Memphis diz que no final da vida Elvis participava de concursos de covers dele próprio. E perdia todos.
                        Passamos a manhã inteira visitando Graceland e devo dizer que valeu a pena porque é também uma imersão profunda na vida, obra e morte de Elvis, um nome fundamental para a música e a cultura americana do Século XX. A bem da verdade é uma visita inesquecível, mesmo sendo Graceland uma máquina de fazer dinheiro. Almoçamos no restaurante de Graceland e a mesa era um Cadillac. A comida era um barbecue a moda de Memphis, com molho BBQ, arroz e feijão vermelho muito adocicado. O gosto não é mal, mas não tem sabor que resista a um prato de plástico e talheres plásticos pretos.

                        Nashville, Tennessee


                        A motoviagem continua mas agora no rumo Nordeste porque vamos para Nashville (670 mil habitantes aproximadamente), a mítica capital da country music, no Estado do Tennessee. Foi uma tranquila viagem de uns 350 Km. Tivemos dificuldades para conseguir hotel porque um evento grande havia esgotado as vagas. Tivemos que sair do Knights Inn e ir para o Super 8 Downtown. Conseguimos deixar a bagagem guardada enquanto íamos ao centro para almoçar no Jack's e dar uma passada no Hall of Fame.
                        O almoço é no famoso Jack's Bar-B-Que on Broadway, que começou em uma birosca no número 100 dessa rua em 1976. O churrasco no estilo do Tenessee é uma enorme peça assada lentamente até ficar quase desmanchando. Escolhi feijão vermelho e maçã caramelada para acompanhar e o molho original do Tenessee. Metade do sabor é perdido quando essa bela carne é servida em prato de plástico para ser comida com talheres de plástico. Um crime gastronômico que passa despercebido porque esse é o american style de comer bem. É uma pena que assim seja.Em Nashville tem uma churrascaria rodízio brasileira que não tem a mesma fama do Jack's. Ainda.
                        Durante o almoço um encontro mudou nosso rumo. Enquanto eu fotografava o barbecue e falávamos português atraímos a atenção da brasileira Gisele e de seu esposo Luigi, um simpático ítalo-americano do Brooklin, Nova Iorque. Conversando com Neviton Luigi deu uma informação que mudou nosso rumo. O evento que ocupou os hotéis é um show de uns velhinhos dos meus tempos de adolescente lá em Bragança. Isso mesmo. Eles, The Rolling Stones. Luigi falou do show com entusiasmo contagiante e jorrou informações sobre compra de ingressos. Saímos reto e direto para a arena onde o show vai acontecer - a LP Field - em busca de ingressos e tudo o que conseguimos foi uma combinação de um malandro local - um negro simpático que pediu uma graninha a troco de informação e reclamou porque lhe dei só um dólar - com um vigarista (branco) com identidade do Alabama. Quando ele teve dificuldade para demonstrar minimamente a autenticidade do ingresso que queria nos vender, desistimos e assim escapamos do que tinha tudo para ser uma fraude, o conto do ingresso.
                        Neviton apelou para Luigi e Gisela por telefone sobre nossa dificuldade e Luigi, confiante e generoso, se dispôs a comprar nossos ingressos, imprimir e nos trazer para assistirmos juntos o show. Ele nos comprara os dois últimos ingressos disponíveis pelo preço razoável de 270 dólares cada. Mais uma vez pessoas que nunca nos viram antes demonstram uma genuína e fraternal solidariedade, renovando nossa crença nos homens e na Humanidade.
                        Nos encontramos no Honk Tonk, pagamos Luigi, que estava feliz feito pinto no lixo, pois ele veio de Maryland onde vive só para assistir esse show (o 20º que ele assiste).
                        E assim fomos parar na fila do gargarejo ou quase isso, pois nossas cadeiras ficavam a uns dez metros do palco e a uns cinco metros da passarela onde Mick Jagger e seus companheiros evoluem.
                        Devo reconhecer que o tempo deixou marcas nos velhinhos e Keith Richards deve ter a maior concentração de rugas por centímetro quadrado de rosto, dentre os astros do rock (Serguei deve ganhar dele mas não concorre na mesma categoria obviamente), mas o vigor juvenil e a vitalidade são as mesmas de quando eles eram jovens. Afinal, depois de quase três horas de espetáculo lá estavam eles, saltitantes e sem parecer cansados, tudo isso de cara limpa, pois todos largaram as drogas faz tempo.
                        Eles não são dinossauros porque não estão extintos e nada indica sequer que estejam próximos da aposentadoria, embora Luigi acredite que esta seja a última turnê deles aqui nos Estados Unidos, o que só tem acontecido a cada cinco anos (na próxima Keith Richards terá 77 anos!)
                        Ah, ia me esquecendo de contar que o show de abertura foi de country music, muito bom também.
                        Sei que esta é uma história um tanto mirabolante, e parece que só acontece com motociclistas, mas foi assim, bem assim.
                        Terminamos a noite na Broadway, agradecendo e nos despedindo de Luigi e Gisele, que no dia seguinte cedo vão para Graceland. A esse simpático casal - e a Neviton - seremos sempre agradecidos e espero retribuir um pouco quando eles visitarem Belém, promessa que fizeram. Já estão perto, pois vieram para o show dos Rolling Stones no Rio de Janeiro (pelas minhas contas o 22º que ele assiste), mas agora Luigi está com todas as energias voltadas para o show que eles vão fazer em La Habana.

                        Alcoa, Tennessee: The Tail of The Dragon

                        Depois dos Rolling Stones estamos de volta para a estrada, com chuva e belas paisagens. Quando já estávamos no rumo de Indianapolis, uma sugestão do Neviton nos levou para o Sudeste, a Maryville (cerca de 30 mil habitantes), encostando no Kentucky, para no dia seguinte decidirmos se dá para fazer as centenas de curvas do The Tail of The Dragon, dependendo das condições climáticas. Afinal, são 318 curvas espremidas em escassas 11 milhas. Os administradores e os hóspedes do Princess Motel - que estava lotado - pediram para fazer fotos conosco na recepção. Jerry Loredo, hóspede costumeiro, é um mexicano muito simpático que serviu de intérprete. O jovem filho do administrador nos conseguiu um outro hotel, o Days Inn Knoxville/Alcoa-Airport - bem na cabeceira da pista do aeroporto de Alcoa (10 mil habitantes aproximadamente) - onde fomos bem atendidos. Fomos jantar no Shoney's uma sopa de feijão vermelho, salada e um bom lombo (sirloin) no ponto. Enfim, comida de gente, servida em pratos de alumínio. Pessoas simpáticas - garçonete e proprietária - também faziam a diferença no agradáveç restaurante de beira de estrada.
                        Pela manhã avaliamos as condições meteorólgicas e decidimos enfrentar a The Tail of The Dragon: 318 curvas em 11 milhas. Temível na primeira milha, diversão no restante. A volta já é degustação. É a rota gourmet do motociclismo. Valeu a pena. Muito obrigado a Neviton Custodio e Valcir Alberto pela força e incentivo. Sem a iniciativa de Neviton não teríamos vencido esse desafio porque o plano original era fazer isso na viagem de volta. Tem vídeos no Facebook do Valcir Alberto. Vencido o desafio voltamos para o Days Inn Knoxville/Alcoa-Airport e ao ao Shoney's, para novamente comer comida de gente em pratos de louça e de alumínio: salada, sopa de feijão vermelho e costela de porco com feijão.
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                        • Gilmar Dessaune
                          Fazedor de Chuva

                          • Oct 2012
                          • 6891

                          #27
                          London, Kentucky

                          Saímos pela manhã a procura de um chaveiro para consertar a fechadura do baú do Valcir Alberto, sem sucesso, e terminamos tendo que parar uns 180 Km depois, em London, pequena cidade de uns 10 mil habitantes, já no Estado de Kentucky (onde nasceu Abraham Lincoln como lembra a placa de boas-vindas), na Wildcat Harley-Davidson, pois a motocicleta de Neviton Custódio estava falhando. Pernoitamos no Days Inn de London. Em uma viagem de motocicleta o improvável também acontece. Foi o que aconteceu no La Azteca Mexican Restauraunt, em London, onde tomei uma autêntica michelada com cerveja Corona. Churrasco veracruceño e entrecôte gratinado com camarões satisfizeram os exigentes paladares dos gaúchos Valcir Alberto e Neviton Custodio. E para terminar bem, churros com sorvete. E as mesas e divisórias eram de madeira entalhada e pintada com cores vibrantes, bem mexicanas. A divisória de madeira entalhada é de um jimador, o profissional que, munido de uma lança de ponta larga afiadíssima, desfolha o agave azul para iniciar o processo de fabricação da tequila.

                          Lafayette, Indiana

                          Com a motocicleta de Neviton Custodio reparada seguimos no rumo Norte para Lafayette (cerca de 80 mi habitantes), Estado de Indiana, passando ao largo de Lexington (cerca de 310 mil habitantes) e Louisville (cerca de 760 mil habitantes), ambas no Estado de Kentucky; e parando em Indianapolis para visitar o Museu do Autódromo (Indianapolis Motor Speedway Hall of Fame Museum). Depois de ter rodado uns 520 Km chegamos ao Days Inn & Suites Lafayette, onde, por volta de 20:30 h estávamos contemplando um belíssimo pôr-do-sol.

                          Chicago, Illinois

                          Pela manhã Neviton Custódio optou por se adiantar o restante da viagem e seguimos juntos eu e Valcir Alberto. Rodamos uns 200 Km e chegamos ao centro de Chicago (2,7 milhões de habitantes aproximadamente), Estado de Illinois, às margens do Lago Michigan. Fomos diretamente ao marco inicial da Rota 66, fizemos a clássica fotografia e seguimos para o Best Western Grant Park Hotel. Chicago é fascinante. Impressionante mesmo, e não só pela arquitetura de vanguarda mas pela superação das desgraças dos anos trinta do século passado, quando esteve dominada pelo crime organizado e seus capos ítalo-americanos. Em setenta anos a cidade venceu. Do outro lado do Lago Michigan e perto do Lago Erie, Detroit vive sua decadência. Mas os italianos ajudaram a conformar uma cultura própria e a gastronomia foi uma bela contribuição. Por exemplo, a pizza do Lou Malrati's. Em matéria de pizza e açaí sou ortodoxo e não costumo fazer concessões. Mas hoje resolvi experimentar a pizza no estilo de Chicago. Ela é feita em uma forma três vezes mais funda que a tradicional. A massa é espalhada no fundo e sobe pelas bordas como a massa de torta. Os queijos vem em cima dessa nassa e sobre eles vem uma carne moída formando como que pequenas almôndegas. Por cima disso tudo os tomates. Para assar leva 35 minutos. É slow food. O resultado é uma pizza grossa com bordas crocantes, quase torradas. Um napolitano ortodoxo vai fazer cara feia. Mas devo deixar a ortodoxia de lado e confessar que o resultado é muito, muito bom. A salada do Lou Malrati's estava boa também. E a cerveja Dynamo é uma excelente Copper Lager local, da Metropolitan. Mas não tente harmonizar com pizza que não dá. Ficamos o resto do dia passeando pela encantadora cidade, flanando nos parques Millennium e Grant, às margens do Lago Michigan, com o skyline em tarde nublada ao fundo. É outro encanto desta bela cidade, uma dessas que dá vontade de voltar sempre, como é o meu caso, pois estive aqui em 2013 com minha esposa Araceli, para percorrer a Rota 66 em motocicleta (da Eaglerider, a maior locadora de motocicletas dos EUA e do mundo). De volta ao hotel, com uso de um aplicativo baixado no iPhone por alguns poucos dólares, vou pacientemente colocando no GPS as atrações da Rota 66 que pretendemos visitar no dia seguinte, pois agora sou o road captain da viagem. Essa passou a ser a rotina diária daí em diante.
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                          • Gilmar Dessaune
                            Fazedor de Chuva

                            • Oct 2012
                            • 6891

                            #28
                            Seguindo com o 14º post...

                            "Na Histórica Rota 66, a estrada-mãe dos Estados Unidos

                            Springfield, Illinois


                            Fizemos questão de começar a viagem pela Rota 66 no seu marco inicial na East Adams Street, em frente ao Russian Tea Time Restaurant e, para não ficar dúvida, no segundo marco um pouco mais adiante, na esquina com a South Wabash Avenue, junto da estação do metrô, de onde seguimos viagem, agora no rumo Sudoeste, rodando no primeiro dia cerca de 330 Km até Springfield (120 mil habitantes aproximadamente), a capital do Estado de Illinois, famosa graças a Abraham Lincoln (visitamos seu magnífico mausoléu), a família Simpsons e a Barack Obama, nessa ordem. A viagem pela Rota 66 supõe fazer uso principalmente de estradas secundárias e saindo delas sempre que necessário para chegar aos marcos históricos da estrada-mãe, pois a Rota 66 propriamente dita foi desativada em 1985 e os trechos que ainda existem estão abandonados, muitas vezes ao lado das rodovias atuais e outras vezes um pouco afastados. Raros trechos ainda são operacionais. Como o GPS estava programado para nos levar a cada um dos marcos históricos (landmarks), a cada trecho, viajamos quase sempre pelas agradáveis estradas secundárias americanas, passando por dentro de simpáticas cidadezinhas, dessas que aparecem nos filmes. E nos perdendo também, quase sempre por erro de navegação. Fomos parando em praticamente todas as atrações relevantes, reconhecidas e catalogadas. Assim, no primeiro dia passamos pelo Gemini Giant - a lanchonete fechou e está caindo aos pedaços - posamos ao lado da escultura gigante de Elvis Presley no restaurante onde os grupos da Eaglerider param para o lanche em Braidwood, identificamos vários trechos da Antiga Rota 66 paralelos a atual rodovia dos anos sessenta, paramos no velho posto da Texaco em Dwight e no não menos velho da Standard em Odell. Foi uma volta dupla ao passado, o passado americano e o meu próprio, pois revisitei quase todos os lugares onde passara na motoviagem anterior e, graças a experiência assim adquirida, agora visitamos vários lugares históricos que não estão no roteiro da Eaglerider. Começamos maravilhosamente bem a Rota 66. No dia seguinte chuva nos obrigou a retardar a partida e terminamos ficando mais um dia na agradável Springfield - hospedados no motel Super 8 Springfield East - deixando para visitar no dia seguinte a tumba de Lincoln e o quarteirão restaurado onde está a casa em que ele vivia, no centro da cidade. Aproveitamos o dia para fazer pequenos reparos e ajustes nas motocicletas e alforges.

                            Cuba, Missouri

                            Avançamos pela Pradaria - Illinois se autodenomina o Estado da Pradaria e também a Terra de Lincoln (embora ele tenha nascido no Kentucky) - no rumo Sudoeste, e 25 milhas adianta voltei ao antigo posto de gasolina Gay Parita, sítio histórico que é parada obrigatória dos motociclistas. Quando chegamos lá era intervalo do almoço e a lojinha estava fechada, mas um vizinho se aproximou e nos ofereceu a chave para entrarmos, pois o sistema de vendas é muito interessante: cada um pega o que quer, verifica o preço, coloca o dinheiro dentro de um pote de vidro e tira o troco, se for o caso. Retomamos a viagem e mais adiante ingressamos no Estado de Missouri. Contornamos a histórica Saint Louis, a maior cidade do Estado (cerca de 320 mil habitantes), fundada pelos franceses às margens do Rio Mississippi, com seu icônico arco - o Gateway Arch, de 192 metros de altura, inaugurado em 1965, que marca a entrada no Oeste - e suas imponentes pontes. Paramos nas principais atrações, como o Ariston Café, fundado em 1926 e desde 1935 nesse local (Pacific, Missouri, cerca de 8 mil habitantes), sempre nas mãos da família Adam. O proprietário veio à mesa para perguntar se íamos para o Alaska. Confirmamos. Ele disse que passaram dois motociclistas brasileiros antes e mostrou o livro de visitantes com os registros do Neviton Custodio e do Dutra, de Belo Horizonte - MG. Paramos em outro café pouco mais adiante, que já viveu dias melhores, e no bem restaurado Posto de Soulsby, em Mount Olive. Terminamos o dia em Cuba, Missouri, encantadora cidadezinha de uns 4 mil habitantes, depois de rodarmos uns 290 Km (quem quiser aproveitar bem a Rota 66 saiba que essa será a quilometragem diária, via de regra). A caixa d'água de Cuba é clássica e muito parecida com as que Henry Ford instalou em Fordlândia e Belterra, no Rio Tapajós. Ficamos no tradicional e histórico Wagon Wheel Motel, agora modernizado e com boa taxa de ocupação. Bem ao lado fica o excelente Missouri Hick B-B-Q, especializado em porco defumado. A costela de porco à moda de Saint Louis é defumada antes e assada na hora de montar o prato. O freguês escolhe dois acompanhamentos. Fui de arroz com feijão vermelho e batata doce assada, guarnecido com cebolinha e chiles. Comida de gente, servida em prato de gente e com excelente gosto, o que salva a reputação da gastronomia americana, desgraçada pelos hambúrgueres sintéticos do McDonalds e quejandos. Valcir Alberto foi de porco defumado também, só que optou pelo sirloin (lombo) acompanhado de arroz com feijão vermelho e purê de batata com um molho diferente. Ele também gostou. A freguesia compra muito uns frascos gigantes com os molhos B-B-Q do Hick. Agora, roubada é a cerveja Michelob Ultra Light, com 4,5% de álcool e zero de lúpulo. Matei a curiosidade. Michelob nunca mais. O pôr-do-sol, cada vez mais tarde, valorizou a original placa do Wagon Wheel Motel, onde passamos uma boa noite."
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                            Comentário

                            • Gilmar Dessaune
                              Fazedor de Chuva

                              • Oct 2012
                              • 6891

                              #29
                              Mais um pouco do 14º post

                              "Joplin, Missouri

                              O belíssimo pôr-do-sol da véspera não prometia o dia chuvoso seguinte, desde o amanhecer. Os respingos não impediram as fotos dos interessantíssimos murais de Cuba. Tudo começou com o primeiro mural patrocinado por um banco local. A proposta foi encampada por particulares e incentivada pelo poder local. Logo foram mobilizados artistas e gastos muitos galões de tinta. Hoje já são doze murais, que tratam de fatos relevantes da história de Cuba, inclusive na Guerra Civil. O Legislativo estadual proclamou formalmente Cuba como Cidade Mural. Eles são motivo de orgulho para os cubanos. Depois de visitar quase todos os murais seguimos viagem, sempre no rumo Sudoeste, nos encaminhando para os confins do Missouri. Na Rota 66 tem de tudo, da maior cadeira de balanço do mundo ao bar plantado em um cotovelo da Rota (ELBOW INN BAR & BBQ), que margeia um rio, passa por uma ponte e volta na outra margem formando um cotovelo, o Cotovelo do Diabo. O Diabo ficou por conta de quem batizou a curva. Drive-in também é uma tradição da Rota 66 que sobrevive na Road I-66 (o I é de Interstate), como o 66 Drive-In, no número 17231 do Old Route 66 Boulevard, em Carthage (Brooklin Heights, Missouri). Quando passamos por ele estava em cartaz o Jurassic World. Nesse dia rodamos uns 330 Km e chegamos à encantadora cidade de Joplin (pouco mais de 50 mil habitantes), já perto da divisa com o Estado do Kansas, onde nos hospedamos no hipereconomico Budget Inn, cuja vizinhança inclui várias lanchonetes (é um exagero chamar o MacDonald de restaurante) e um bar de rock para motociclistas (ou não), o Guitars Rock N Country Bar. Jantamos no mexicano Acambaro enquanto o sol poente recortava o skyline de Joplin. Depois de pilotar a manhã inteira e parte da tarde sob chuva esse pôr-do-sol foi nosso merecido - mas inesperado - prêmio.

                              Stroud, Oklahoma

                              O café da manhã em Joplin foi no New Day Café. Mais americano impossível. Tinha até bife à milanesa. Era uma tranquila manhã de sábado e por alguma razão a vizinhança toda marcou encontro no New Day. Estrangeiros só eu e o Valcir Alberto. O murais de Joplin também valem uma passada no centro da cidade. Em um deles o automóvel sai do mural e avança um terço fora da parede, tornando mais realista a obra de arte (não é artesanato, é arte). No piso foi pintado um disco de vinil enorme e um mapa dos Estados Unidos com luminárias indicando as principais cidades da Rota 66. Saint Louis é indicada pelo Arco. Joplin é uma das mais simpáticas e agradáveis cidades da Rota 66 e naquela manhã de sábado era uma tranquilidade só. Seguimos viagem no rumo Sudoeste passando pelo cantinho no Sudeste do Estado do Kansas (todos motociclistas fazemos questão de passar aí nesse curtíssimo trecho da Rota 66). No roteiro da Eagle Rider que eu e Araceli Lemos fizemos em 2013 o road captain - o gente finíssima Jeff Homer - nos levou para conhecer um pequeno trecho original que acabava em uma trilha. Mas a verdade é que nesse pequeno pedaço que passa pelo Kansas tem boas atrações e nós fomos em busca delas, rodando quase todo o traçado histórico, identificado por placas marrons. Esse é o caso da fascinante cidadezinha de Galena (3 mil habitantes), cujo distrito histórico estava fechado ao tráfego naquele sábado. Ele está restaurado e é puro charme. Ela é a mais antiga cidade mineira (minas de chumbo) dos Estados Unidos. Logo depois de Galena passamos pela minúscula e simpática Riverton (menos de mil habitantes), onde a atração é a famosa ponte (Rainbow Bridge). A próxima parada foi no Independent Oil and Gas Station Service, na 940 Militar Avenue, em Baxter Springs (cerca de 5 mil habitantes), ainda no Kansas. Atualmente o posto de gasolina é o Centro de Visitantes. Parei a moto junto da bomba restaurada para fazer uma foto e o encarregado do Centro, solícito e amigável, veio dizer que eu podia fotografar mas não abastecer e me indicou um posto algumas quadras mais adiante. Esclarecido, nos convidou para entrar. Assinamos o livro e fomos convidados a deixar nossos nomes no portal recentemente restaurado. A outra atendente nos deu um mapa para outra atração, a Brush Creek Bridge, North Willow Avenue (Southeast 50). Depois de três tentativas desistimos de encontrar a ponte e seguimos para ... Miami (a do Oklahoma, bem entendido). Como dá para perceber, valeu a pena percorrer toda a extensão da Rota 66 no Kansas. Ingressamos no Estado de Oklahoma, onde sinto que vivem até hoje os espíritos de Jack Kerouak e de seus personagens do On the Road (Sal Paradise, Marylou, Dean Moriarty, Old Bull Lee, Allen Ginsberg, Galatea Dunkel, Terry, Camille, Jane). Saímos do Meio-Oeste (Midwestern) e agora estamos no mítico Oeste (Western), no qual fizemos uma imersão profunda nos dias seguintes. Em Miami, Oklahoma, visitamos duas atrações: o Coleman Theatre (Main Street, Miami, OK) e a Gas Station Marathon (331 South Main Street, Miami, OK). A boa surpresa foi uma exposição de carros antigos, um evento beneficente onde a estrela era um batmóvel com placa e tudo. No Oklahoma a primeira atração da beira da Route 66 é The Blue Whale, em Catoosa (cerca de 8 mil habitantes). Eu e Araceli Lemos passamos aí em 2013 e vamos voltar um dia com nossas netas. A próxima atração foi o Motel Oasis, em Tulsa (cerca de 400 mil habitantes), Oklahoma, um clássico é uma legenda da Route 66. Passamos pelo centro de Tulsa, percorrendo o traçado original da Route 66, e gostamos muito da cidade, tranqüila naquele sábado de sol. Avançamos alguns quilômetros passando por Sapulpa (cerca de 20 mil habitantes) e Bristow (cerca de 5 mil habitantes) e chegamos ao Rock Café, em Stroud (cerca de 3 mil habitantes), Oklahoma, onde encontramos muitos motociclistas. Nos sábados e domingos os americanos - e as americanas - levam suas Harleys para passear (são raras outras marcas). Impressionante ver mulheres pilotando motos grandes com muita facilidade (vimos e fotografamos uma que pilotava uma Heritage Softail de Luxe que pesava no conjunto uns 400 Kg). Obesidade não é problema para esses pilotos, para os quais a moto parece ser um extensão do corpo. Obesidade é problema para a saúde pública e a quantidade de pessoas obesas me impressiona. Gostamos tanto de Stroud que resolvemos nela pernoitar, em um típico motel da Route 66, o Sooner. Foram uns 260 Km bem rodados e aproveitados nesse excelente dia. Em Stroud pudemos dizer na América, como os ... mexicanos! Temos tido sorte em encontrar bons restaurantes - mexicanos principalmente - perto dos motéis e hotéis onde pernoitamos. Em Stroud foi o Fiesta Cozumel Cantina & Grill (315 N 8th Ave. Stroud, OK. 74079), que não decepcionou. Fomos atendidos por Júlia e por Maria, esta uma mexicana de Palenque, Chiapas. A michelada foi feita com a cerveja mexicana Negra Modelo e servida em uma imensa taça. Gostei. As carnitas - pedaços de carne de porco - com arroz, tutu de feijão vermelho, guacamole, tortillas e salsa picante (pero no tanto) são um clássico da autêntica gastronomia mexicana. Foram servidas em travessas (pelo tamanhão não dá para chamar de prato). Foi muito boa pedida. E para terminar bem o dia ainda tivemos um belo entardecer por volta de 21 horas.

                              Shamrock, Texas

                              A viagem prossegue pelas Pradarias (Prairies) da Grande Planície Central (Great Plains), agora no rumo Oeste, em busca das atrações históricas da Rota 66. No Centro de Interpretação da Rota 66 (http://www.route66interpretivecenter.org/.) em Chandler (3 mil habitantes aproximadamente), Oklahoma, uns 20 Km adiante de Stroud, encontramos dois brasileiros (um deles de Porto Alegre) e um espanhol (de Bilbao). Mundo pequeno. Passamos na Threatt Filling Station, em Luther (1.500 habitantes aproximadamente), uns 30 Km depois de Chandler. Estamos caçando todos os sítios históricos da Rota 66 reconhecidos pelo governo americano (National Park Service - NPS). Para uma boa descrição desta estação de serviços e de outros locais que estamos visitando ver http://www.nps.gov/…/ro…/threatt_fil...on_luther.html. Uns 13 Km depois de Luther paramos para visitar o Arcadia Round Barn, Route 66, em Arcadia (cerca de 300 habitantes), celeiro redondo que foi restaurado é agora é atração da Route 66. Uns 30 Km depois de Arcadia começamos a contornar Oklahoma City (cerca de 620 mil habitantes), capital do Estado de Oklahoma, onde pernoitam os grupos da Eaglerider. Nós preferimos ver a Milk Bottle, atração que fica em 2426 North Classen Boulevard, Oklahoma City, junto do Domo Dourado, e seguir adiante para El Reno, cidade histórica de uns 20 mil habitantes ainda na área metropolitana de Oklahoma City - o nome vem do Fort Reno, que ficava perto - por onde passava a Chisholm Trail e o gado Longhorn que fez fama e fortuna dos fazendeiros texanos. Os cowboys que tocavam esse gado protagonizaram arruaças por onde passava a Trilha, mas foram eles que contribuíram para moldar a cultura e o modo de viver dos americanos-do-norte e, admitamos, do mundo. Com este registro presto meu tributo a esses jovens incultos, rudes e trabalhadores, que se impuseram contra tudo e todos e marcaram nossas infâncias e adolescências. Meu tributo é para eles e não para a apropriação que foi feita pelos norte-americanos posteriormente, já avançado o Século XX. Para mais informações sobre a Trilha ver https://tshaonline.org/handbook/online/articles/ayc02.


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                              Comentário

                              • Gilmar Dessaune
                                Fazedor de Chuva

                                • Oct 2012
                                • 6891

                                #30
                                Seguimos com o 14º post...


                                Santa Rosa, Texas


                                A beleza do amanhecer em Shamrock rivaliza com o entardecer. Depois de muito tentar engolir desisti do café ralo dos americanos, aderi ao chocolate quente e me rendi ao stick de Jerked Beef. Melhor que hambúrguer do McDonald. O Jerked Beef tem sua mais remota origem na carne seca dos garimpeiros e caçadores de peles americanos e mexicanos. É a cecina dos mexicanos. Só assim eles conseguiam conservar a carne por longas temporadas. Agora é mais um produto industrializado. Mas como motociclista na Rota 66 é meio cow-boy, o Jerked Beef com chocolate é uma boa alternativa para o café-da-manhã. Na saída de Shamrock visitamos o posto Magnolia restaurado e o Museu dedicado ao Oeste Pioneiro. E é no rumo Oeste que seguimos viagem por pouco mais de 30 Km até McLean, cidadezinha de uns mil habitantes. Os texanos valorizam e se orgulham da sua cultura derivada da pecuária. Exemplo disso é o museu que homenageia o... arame farpado (Tribute to Barbed Wire) (North Main Street and 116 South Main Street - Museum - McLean, TX), por onde também passamos em 2013. Visitamos em McLean mais um posto de gasolina Phillips 66 em estilo cottage, restaurado, e passamos pelo museu histórico onde uma inscrição dá conta que o terreno onde fica a cidade foi doado por um fazendeiro inglês que morreu no Titanic em 1912. Seguimos por uns 18 Km até a histórica cidade de Amarillo (cerca de 200 mil habitantes), onde pernoitei em 2013, famosa entre outras coisas pelos bifes gigantescos do The Big Texan Steak Ranch e pelo Cadillac Ranch, a vanguardista escultura que atualmente está uns 18 Km a Oeste de Amarillo, do lado esquerdo da I-40 na Frontage Road, uma obra de arte aberta feita com as carcaças de dez Cadillacs com a dianteira enterrada no chão e grafitadas originalmente pelos autores e logo pichadas - não dá para dizer que é grafitti - por milhares de visitantes co-autores ao longo de meio século de sua existência. A obra de arte foi instalada em outro local e depois removida para o lugar atual (Cadillac's Ranch Interstate 40 Frontage Road, I-40 South e Rd Mile Marker 61, Amarillo, TX 79124). Naquele dia não foi diferente e lá estavam os visitantes co-autores com seus tubos de tinta em spray pichando - vá lá, grafitando - os Cadillacs. Valcir Alberto pegou um tubo com um restinho de tinta e sapecou suas iniciais, se tornando mais um co-autor. Todos motociclistas que passamos aí fazemos pelo menos umas dez fotografias (quem vai preparado acrescenta um grafite autoral com sua própria tinta em spray, que pode ser comprada em Amarillo). O próximo sítio histórico fica uns 40 Km mais adiante, o Vega Motel, na cidadezinha homônima de uns mil habitantes, que agora está fechado. Seguimos uns 20 Km até Adrian (uns 200 habitantes, 1.231 metros de altitude), onde fica o Mid-Point Café, exatamente na metade da Rota 66, onde todos motociclistas paramos para fazer a clássica fotografia. Rodamos mais uns 40 Km e entramos no Novo México, a Terra do Encantamento, a altura da histórica Glenrio, onde fica o Centro de Visitantes e foram filmadas algumas cenas de Vinhas da Ira. Aí muda o fuso horário. O Novo México tem o céu mais lindo dos Estados Unidos e por isso sempre atraiu pintores e, depois, fotógrafos, beleza que se constata a medida em que dele nos aproximamos e nele avançamos. O próximo sítio histórico importante, o Blue Swallow Motel, fica em Tucumcari (cerca de 5 mil habitantes), quase 70 Km adiante. Uma série de incêndios suspeitos destruiu, em 2014, vários prédios antigos e abandonados como o Tucumcari Motel e Payless Motel. Um ex-policial é o principal suspeito. Tucumcari me lembra sempre a antológica cena do filme Por Alguns Dólares a Mais (1965), de Sérgio Leone, em que o personagem de Lee Van Cleef faz parar o trem para ele descer com seu cavalo, depois de outro personagem lhe dizer que o trem não parava em Tucumcari (que só foi fundada muitos anos depois do período histórico narrado no filme). Avançamos mais uns 95 Km - rodamos uns 440 Km nesse dia - e chegamos à Santa Rosa (cerca de 3 mil habitantes), onde resolvemos pernoitar no mesmo motel onde ficam os motoristas da UPS e da U-Haul, presumindo que eles sabiam o que faziam, mas a verdade é que aquele Budget Inn já vivera dias melhores. Para compensar, a comida mexicana do Silver Moon Cafe (bem ao lado no 3701 da Route 66) era muito boa e depois tivemos mais um espetacular entardecer no belíssimo céu do Novo México.

                                Santa Fé, Novo México

                                Após mais um belo amanhecer meu café-da-manhã foi um original jerked beef com chocolate. Me senti um garimpeiro ou caçador de peles de duzentos anos atrás. Saimos para visitar os sítios históricos mais importantes do trecho da Rota 66 que passa em Santa Rosa e passamos nos motéis La Paloma e Sun & Sand, no Route 66 Auto Museum e no Club Café, seguindo para o Oeste por uns 130 Km até Moriarty (cerca de 2 mil habitantes e nome de um dos personagens de Kerouac). Paramos em frente ao restaurante El Comedor para a inevitável fotografia com a placa ao fundo. Em Moriarty tomamos o rumo Norte com destino a Santa Fé, saindo um pouco da rota para passar antes pelo Pecos National Historical Park e e rodar um pouco pela velha estrada de Santa Fé (Santa Fe Old Trail), onde tinha muita sorte quem continuava a pé, sempre sob o belíssimo céu do Novo México. A Guerra Civil deixou marcas profundas nos Estados Unidos e desde que nele entramos pelo Texas encontramos essas marcas, como a Glorieta Pass Battlefield, perto do Pecos National Historical Park. Algumas das feridas deixadas ainda não cicatrizaram e o massacre mais recente em que o atirador foi um jovem branco que fora fotografado com a bandeira confederada sugere que assim é e será por muito tempo ainda. Motociclistas gostam de usar a bandeira confederada, mas depois desse episódio e da arrepiante oração fúnebre de Barack Obama no velório do Reverendo Clementa Pinckney, é bom saber que ela está sendo cada vez mais associada a grupos racistas. Rodamos nesse dia uns 240 Km até chegar a Santa Fé (cerca de 70 mil habitantes), a charmosa e bem cuidada capital do Novo México - a Terra do Encantamento, afinal - onde ficamos dois dias descansando e desfrutando de tudo o que tem de bom na cidade, da história à boa comida, passando pela arte, pelo artesanato, pela arquitetura de adobe e até mesmo por um trecho urbano da Santa Fe Old Trail. Em uma das esquinas da Plaza Central de Santa Fé, nos altos, fica o Thunderbird Bar & Grill. O nome esconde um sport-bar de comida mexicana, servida por garçons mexicanos (o que me atendeu é de Chihuahua). Os nachos de porco foram uma boa pedida e a Santa Fe Pale Ale, a cerveja local, também. Mas as duas boas pedidas não se harmonizaram porque os nachos, por óbvio, vieram com chiles. Nas TVs, o jogo era de futebol feminino entre Estados Unidos e Alemanha. A torcida enfileirada no bar era animada. O garçon me pergunta o que houve com o Brasil, cujas seleções masculina e feminina foram desclassificadas. Confessei minha ignorância e me senti um alien no bar. Ele tripudiou dizendo que Neymar (Nimar, como é pronunciado lá) peleou e foi expulso. Depois dos sete a zero nada mais me constrange ou envergonha. Nem a prisão de Marin. Como anoitece tarde fomos flanar pela cidade, o que voltamos a fazer no dia seguinte. Terminamos bem o mês de junho e começamos bem o de julho de 2015 aí em Santa Fé. Por isso convido vocês para um passeio pelo centro de Santa Fé, que é apenas seis anos mais antiga que Belém. A crise não afetou a cidade, que melhorou o que já era bom. As construções de adobe fazem desta cidade uma das mais diferentes e o charme de suas galerias e museus encantam os visitantes e deixam um gosto de vou voltar. Os santafereños tem tanta certeza dessa atração que deixam isso claro até no nome de estabelecimentos comerciais (Santa Fé Otra Vez é um deles). Aqui a arte flerta o tempo todo com o artesanato, como mostram as fotos disponíveis no meu Facebook. O resultado é sempre muito agradável. O mau-gosto foi banido de Santa Fé. Não dá nem para lembrar que Billy The Kid nela foi atuante (uma placa lembra que ele esteve preso por lá). Passeando por por Santa Fé fico me perguntando onde foi que erramos em Belém nestes quatrocentos anos de vida. Mas vamos continuar o passeio pelo centro de Santa Fé, agora movimentado por um evento esportivo e cívico. O Independence Day mobiliza todo mundo em todo o território nacional. O céu vai ficando mais lindo ao cair da tarde, que no verão é bem tarde mesmo, depois de nove da noite. Agora me acompanhem de volta ao motel (aqui motel é bem outra coisa). O céu vai mudando e continua lindo. O adobe das construções adquire tons dourados. As galerias e restaurantes ficam mais charmosos. O cuidado com a limpeza das ruas desce - literalmente - a detalhes como o pequeno aviso em uma boca de lobo, alertando que o lixo jogado na rua vai para o rio (o Santa Fé, no caso, um córrego que não chega a ser um igarapé). O cuidado está em todo lugar. Quem resiste ao charme de um hotel e spa que tem na entrada uma fileira de pés de alfazema e de alecrim? Até o supereconômico Motel 6 tem um canteiro de rosas junto da minúscula Recepção. Quando finalmente a noite chega a Lua aparece e com ela as constelações que só são vistas no Hemisfério Norte. Eu também vou voltar outra vez a Santa Fé.

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