Dia 1 de fevereiro - Segundo dia de selva. Último dia com guia
Acordamos várias vezes durante a noite. O sono era interrompido e os sonhos também. Enquanto o inconsciente tentava fugir dali, o som da selva nos puxava de volta. Em cada um desses momentos, olhava afora da barraca, através da tela de proteção. Estava iluminada pela lua e salpicada de vagalumes. Som de sapo-boi, macaco-aranha, uma sinfonia que me fazia crer que ali não era o meu lugar. Uma noite longa.
Enfim, amanhece. Platano e café para o desayuno. Captação de energia necessária para enfrentar uma senhora subida pela mata. Trilha em zigue-zague, pois uma linha reta seria ingrime demais. Mata fechada, escura, úmida e quente. Pano abria caminho, seguido por Renan, eu, chileno e, por fim, Silver. Todos enfileirados. No entanto, o ritmo do kuna era acelerado e por muitas vezes ficávamos para trás, perdíamos a trilha. Gritávamos – Paaanoooo! Nos espere, por favor. As mochilas estavam cada vez mais pesadas, caminhávamos sem conversar. Comecei a contar quantos passos eu dava antes de cair uma gota de suor. Num momento creio que eram três. A mochila de Renan era ainda mais pesada e, logicamente, ele ficava ainda mais cansado. Por várias vezes pediu para parar – Preciso descansar. Para piorar, Renan e eu ainda estávamos com os capacetes em mãos. Algo meio simbólico, que queríamos levar para Cuba. Todavia, o tal item de segurança atrapalhava e cansava... deixei o meu. Renan não aceitou e começou a carregá-lo. Nesse momento, era Pano que carregava sua mochila e Renan pegou uma menor. A manhã inteira segue assim.
[IMG]2.bp.blogspot.com/-rwyTz-GV_Dc/TzPkxIttarI/AAAAAAAABWk/m7QyTJLayOk/s800/coiba5.jpg[/IMG]
Darien. Para dar uma noção geográfica.
Houve um festival de tombos. Cada um mais sério que o anterior. Medo de se cortar, de cair nas ribanceiras, de quebrar um braço ou mesmo torcer um pé. O que faríamos? Aquela serra tirou o nosso couro, mas José Newton já dizia – Se subiu tem que descer. Enfim, essa hora chega e vamos desequilibradamente selva a baixo, até o rio. Passamos então a alternar, ora caminhávamos pelo rio, outrora pela trilha. Era o caminho de Pano, daquilo ele entendia. Obstáculos constantes e tombos constantes. Vi Renan cair na minha frente muitas vezes e como ele segurava meu capacete, perdia uma mão de apoio para amenizar as quedas. Assim, pedi o capacete de volta, mas a resposta foi não. Ele sabia que eu ia deixar na selva. Exigi o capacete. Um momento tenso entre nós. Que simbolismo o que... lancei a capacete longe. Bom, uns três metros pelos menos... foi o que minha raiva e força juntas conseguiram fazer. Renan não gostou e ainda por cima, lembrou que amarrado ao capacete estava um par de meias que uma amiga nossa da universidade tinha emprestado a ele. Voltou para buscar, retirou as meias e também teve a oportunidade de descontar sua raiva no pobre do capacete. Lançamento de 5 metros. Perdi.
Fisicamente, foi o dia mais cansativo da minha vida. O segundo dia de caminhada chega ao fim e Pano diz que estamos bem próximos de Mortí, cerca de 3 horas, mas que na manhã seguinte só iria nos guiar por meia-hora, pois não tinha autorização para chegar próximo ao povoado de Mortí e, se o fizesse, sofreria retaliações. Nós, obviamente, não gostamos nada da ideia de ter que caminhar sozinhos. O trato não era esse e sabíamos muito bem que a missão não seria tão fácil como ele queria pintar. Conversamos, insistimos, mas ele não dava importância. Bom, deixa pra manhã... se é perto assim como ele diz, amanhã o convencemos a ir conosco.

A barraca foi montada sobre pedras, nossa única opção de terreno. Antes de dormir Renan e eu conversamos um pouco. Lembrávamos de nossa família, amigos, amores. Era a única maneira de amenizar aquela situação. O jantar tinha sido escasso e nosso estômago roncava de insatisfação, o que nos estimulava também a falar de comida. Perguntei a Renan o que ele queria comer quando saísse da selva – Um pão com queijo branco e um café com leite bem dahora Ary. Falou e salivou. Engoliu a saliva, era o que tinha.
Outra noite longa na inóspita selva. Platano frito para o café, hoje sem café. Pano nos surpreende: diz que ele e Silver voltariam dali mesmo, e que nós deveríamos apenas seguir o rio por no máximo 3 horas que chegaríamos a Mortí. Insistimos por demais para que Pano não nos deixasse. Seguir o rio não era algo tão simples, pois em alguns momentos ele ficava fundo e só quem conhece a selva sabe quais os caminhos a se trilhar. Nós, sozinhos, poderíamos até conseguir, mas demoraria muito mais. O apelo de nada adiantou, Pano e Silver pegaram sua espingarda, facão e se foram. Mas antes disso, nos deram meio quilo de açúcar. Peguei o pequeno pacote e fiquei tenso. Se a caminhada era de no máximo 3 horas; se nós não tínhamos café ou nada que pudesse utilizar açúcar, porque o levaríamos? Enfim, guardei na mochila e vi os kunas voltando, sumindo na curva do rio. Agora é só com a gente.
Saudações libertárias,
Ary Neto
Acordamos várias vezes durante a noite. O sono era interrompido e os sonhos também. Enquanto o inconsciente tentava fugir dali, o som da selva nos puxava de volta. Em cada um desses momentos, olhava afora da barraca, através da tela de proteção. Estava iluminada pela lua e salpicada de vagalumes. Som de sapo-boi, macaco-aranha, uma sinfonia que me fazia crer que ali não era o meu lugar. Uma noite longa.
Enfim, amanhece. Platano e café para o desayuno. Captação de energia necessária para enfrentar uma senhora subida pela mata. Trilha em zigue-zague, pois uma linha reta seria ingrime demais. Mata fechada, escura, úmida e quente. Pano abria caminho, seguido por Renan, eu, chileno e, por fim, Silver. Todos enfileirados. No entanto, o ritmo do kuna era acelerado e por muitas vezes ficávamos para trás, perdíamos a trilha. Gritávamos – Paaanoooo! Nos espere, por favor. As mochilas estavam cada vez mais pesadas, caminhávamos sem conversar. Comecei a contar quantos passos eu dava antes de cair uma gota de suor. Num momento creio que eram três. A mochila de Renan era ainda mais pesada e, logicamente, ele ficava ainda mais cansado. Por várias vezes pediu para parar – Preciso descansar. Para piorar, Renan e eu ainda estávamos com os capacetes em mãos. Algo meio simbólico, que queríamos levar para Cuba. Todavia, o tal item de segurança atrapalhava e cansava... deixei o meu. Renan não aceitou e começou a carregá-lo. Nesse momento, era Pano que carregava sua mochila e Renan pegou uma menor. A manhã inteira segue assim.
[IMG]2.bp.blogspot.com/-rwyTz-GV_Dc/TzPkxIttarI/AAAAAAAABWk/m7QyTJLayOk/s800/coiba5.jpg[/IMG]
Darien. Para dar uma noção geográfica.
Houve um festival de tombos. Cada um mais sério que o anterior. Medo de se cortar, de cair nas ribanceiras, de quebrar um braço ou mesmo torcer um pé. O que faríamos? Aquela serra tirou o nosso couro, mas José Newton já dizia – Se subiu tem que descer. Enfim, essa hora chega e vamos desequilibradamente selva a baixo, até o rio. Passamos então a alternar, ora caminhávamos pelo rio, outrora pela trilha. Era o caminho de Pano, daquilo ele entendia. Obstáculos constantes e tombos constantes. Vi Renan cair na minha frente muitas vezes e como ele segurava meu capacete, perdia uma mão de apoio para amenizar as quedas. Assim, pedi o capacete de volta, mas a resposta foi não. Ele sabia que eu ia deixar na selva. Exigi o capacete. Um momento tenso entre nós. Que simbolismo o que... lancei a capacete longe. Bom, uns três metros pelos menos... foi o que minha raiva e força juntas conseguiram fazer. Renan não gostou e ainda por cima, lembrou que amarrado ao capacete estava um par de meias que uma amiga nossa da universidade tinha emprestado a ele. Voltou para buscar, retirou as meias e também teve a oportunidade de descontar sua raiva no pobre do capacete. Lançamento de 5 metros. Perdi.
Fisicamente, foi o dia mais cansativo da minha vida. O segundo dia de caminhada chega ao fim e Pano diz que estamos bem próximos de Mortí, cerca de 3 horas, mas que na manhã seguinte só iria nos guiar por meia-hora, pois não tinha autorização para chegar próximo ao povoado de Mortí e, se o fizesse, sofreria retaliações. Nós, obviamente, não gostamos nada da ideia de ter que caminhar sozinhos. O trato não era esse e sabíamos muito bem que a missão não seria tão fácil como ele queria pintar. Conversamos, insistimos, mas ele não dava importância. Bom, deixa pra manhã... se é perto assim como ele diz, amanhã o convencemos a ir conosco.

A barraca foi montada sobre pedras, nossa única opção de terreno. Antes de dormir Renan e eu conversamos um pouco. Lembrávamos de nossa família, amigos, amores. Era a única maneira de amenizar aquela situação. O jantar tinha sido escasso e nosso estômago roncava de insatisfação, o que nos estimulava também a falar de comida. Perguntei a Renan o que ele queria comer quando saísse da selva – Um pão com queijo branco e um café com leite bem dahora Ary. Falou e salivou. Engoliu a saliva, era o que tinha.
Outra noite longa na inóspita selva. Platano frito para o café, hoje sem café. Pano nos surpreende: diz que ele e Silver voltariam dali mesmo, e que nós deveríamos apenas seguir o rio por no máximo 3 horas que chegaríamos a Mortí. Insistimos por demais para que Pano não nos deixasse. Seguir o rio não era algo tão simples, pois em alguns momentos ele ficava fundo e só quem conhece a selva sabe quais os caminhos a se trilhar. Nós, sozinhos, poderíamos até conseguir, mas demoraria muito mais. O apelo de nada adiantou, Pano e Silver pegaram sua espingarda, facão e se foram. Mas antes disso, nos deram meio quilo de açúcar. Peguei o pequeno pacote e fiquei tenso. Se a caminhada era de no máximo 3 horas; se nós não tínhamos café ou nada que pudesse utilizar açúcar, porque o levaríamos? Enfim, guardei na mochila e vi os kunas voltando, sumindo na curva do rio. Agora é só com a gente.
Saudações libertárias,
Ary Neto







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