Motopangea - De Foz a Havana a la Che

Collapse
X
 
  • Hora
  • Mostrar
Clear All
new posts
  • Renan Xavier
    Fazedor de Chuva
    • Jul 2011
    • 404

    #16
    Dia 1 de fevereiro - Segundo dia de selva. Último dia com guia

    Acordamos várias vezes durante a noite. O sono era interrompido e os sonhos também. Enquanto o inconsciente tentava fugir dali, o som da selva nos puxava de volta. Em cada um desses momentos, olhava afora da barraca, através da tela de proteção. Estava iluminada pela lua e salpicada de vagalumes. Som de sapo-boi, macaco-aranha, uma sinfonia que me fazia crer que ali não era o meu lugar. Uma noite longa.

    Enfim, amanhece. Platano e café para o desayuno. Captação de energia necessária para enfrentar uma senhora subida pela mata. Trilha em zigue-zague, pois uma linha reta seria ingrime demais. Mata fechada, escura, úmida e quente. Pano abria caminho, seguido por Renan, eu, chileno e, por fim, Silver. Todos enfileirados. No entanto, o ritmo do kuna era acelerado e por muitas vezes ficávamos para trás, perdíamos a trilha. Gritávamos – Paaanoooo! Nos espere, por favor. As mochilas estavam cada vez mais pesadas, caminhávamos sem conversar. Comecei a contar quantos passos eu dava antes de cair uma gota de suor. Num momento creio que eram três. A mochila de Renan era ainda mais pesada e, logicamente, ele ficava ainda mais cansado. Por várias vezes pediu para parar – Preciso descansar. Para piorar, Renan e eu ainda estávamos com os capacetes em mãos. Algo meio simbólico, que queríamos levar para Cuba. Todavia, o tal item de segurança atrapalhava e cansava... deixei o meu. Renan não aceitou e começou a carregá-lo. Nesse momento, era Pano que carregava sua mochila e Renan pegou uma menor. A manhã inteira segue assim.

    [IMG]2.bp.blogspot.com/-rwyTz-GV_Dc/TzPkxIttarI/AAAAAAAABWk/m7QyTJLayOk/s800/coiba5.jpg[/IMG]
    Darien. Para dar uma noção geográfica.

    Houve um festival de tombos. Cada um mais sério que o anterior. Medo de se cortar, de cair nas ribanceiras, de quebrar um braço ou mesmo torcer um pé. O que faríamos? Aquela serra tirou o nosso couro, mas José Newton já dizia – Se subiu tem que descer. Enfim, essa hora chega e vamos desequilibradamente selva a baixo, até o rio. Passamos então a alternar, ora caminhávamos pelo rio, outrora pela trilha. Era o caminho de Pano, daquilo ele entendia. Obstáculos constantes e tombos constantes. Vi Renan cair na minha frente muitas vezes e como ele segurava meu capacete, perdia uma mão de apoio para amenizar as quedas. Assim, pedi o capacete de volta, mas a resposta foi não. Ele sabia que eu ia deixar na selva. Exigi o capacete. Um momento tenso entre nós. Que simbolismo o que... lancei a capacete longe. Bom, uns três metros pelos menos... foi o que minha raiva e força juntas conseguiram fazer. Renan não gostou e ainda por cima, lembrou que amarrado ao capacete estava um par de meias que uma amiga nossa da universidade tinha emprestado a ele. Voltou para buscar, retirou as meias e também teve a oportunidade de descontar sua raiva no pobre do capacete. Lançamento de 5 metros. Perdi.

    Fisicamente, foi o dia mais cansativo da minha vida. O segundo dia de caminhada chega ao fim e Pano diz que estamos bem próximos de Mortí, cerca de 3 horas, mas que na manhã seguinte só iria nos guiar por meia-hora, pois não tinha autorização para chegar próximo ao povoado de Mortí e, se o fizesse, sofreria retaliações. Nós, obviamente, não gostamos nada da ideia de ter que caminhar sozinhos. O trato não era esse e sabíamos muito bem que a missão não seria tão fácil como ele queria pintar. Conversamos, insistimos, mas ele não dava importância. Bom, deixa pra manhã... se é perto assim como ele diz, amanhã o convencemos a ir conosco.



    A barraca foi montada sobre pedras, nossa única opção de terreno. Antes de dormir Renan e eu conversamos um pouco. Lembrávamos de nossa família, amigos, amores. Era a única maneira de amenizar aquela situação. O jantar tinha sido escasso e nosso estômago roncava de insatisfação, o que nos estimulava também a falar de comida. Perguntei a Renan o que ele queria comer quando saísse da selva – Um pão com queijo branco e um café com leite bem dahora Ary. Falou e salivou. Engoliu a saliva, era o que tinha.

    Outra noite longa na inóspita selva. Platano frito para o café, hoje sem café. Pano nos surpreende: diz que ele e Silver voltariam dali mesmo, e que nós deveríamos apenas seguir o rio por no máximo 3 horas que chegaríamos a Mortí. Insistimos por demais para que Pano não nos deixasse. Seguir o rio não era algo tão simples, pois em alguns momentos ele ficava fundo e só quem conhece a selva sabe quais os caminhos a se trilhar. Nós, sozinhos, poderíamos até conseguir, mas demoraria muito mais. O apelo de nada adiantou, Pano e Silver pegaram sua espingarda, facão e se foram. Mas antes disso, nos deram meio quilo de açúcar. Peguei o pequeno pacote e fiquei tenso. Se a caminhada era de no máximo 3 horas; se nós não tínhamos café ou nada que pudesse utilizar açúcar, porque o levaríamos? Enfim, guardei na mochila e vi os kunas voltando, sumindo na curva do rio. Agora é só com a gente.

    Saudações libertárias,
    Ary Neto

    Comentário

    • Renan Xavier
      Fazedor de Chuva
      • Jul 2011
      • 404

      #17
      Dia 2 de Fevereiro - Terceiro dia de selva. Agora por nós mesmos.

      Pano disse que bastava seguir o rio, que andando devagar era possível chegar em três horas. A única coisa que não devíamos fazer era nos afastar do rio. Quando perguntei sobre a profundidade, Pano disse que seria sempre raso e que sempre haveria um corredor de pedras nas margens, onde seria possível caminhar. Se fosse isso mesmo, não teríamos problemas. Todavia, nos últimos tempos as nossas complicações eram justamente fruto disso, da constatação da diferença entre o que é dito e o que é de fato. Demos início a caminhada... pelas pedras, pelo rio. Passou uma hora, passaram duas horas, passaram três horas. Nada de Mortí chegar. E o rio? O rio bifurcou. O que era simples se complicara. Direita ou esquerda? O que uma decisão errada poderia acarretar? Aflitos, cansados, estressados, fomos pelo lado de maior fluxo de água. A direita! E continuamos, mas agora com a incerteza baforando em nossa orelha. Continuamos.

      Passa mais uma hora, outra hora. Aflorava na gente um ódio por Pano. Porque nos enganar, por quinze dólares de cada? Com os braços servindo de banquete aos mosquitos, com os ombros tocando ao chão em virtude do peso das mochilas, continuamos. Cada vez mais cansados. Uma colher de açúcar para cada. Entendemos sua função. Mortí não chegava e o rio estava cada vez mais fundo. Continuamos.

      Estávamos em mutação. Era preciso se dedicar além do físico, assim, começamos a desenvolver um método investigativo. Procurando pegadas. Pegadas humanas. Era melhor não ter procurado... nas faixas de areia que surgiram nas margens do rio, encontramos grandes pegadas de animal, como uma mão humana fechada. Só faltava isso. Onça? Pouco depois encontramos uma fogueira apagada, ótimo... alguém já passou por ali. Ao redor encontramos caudas de macaco – restos do prato principal de quem passou por ali. Renan ainda fez uma observação: se a pessoa comeu um macaco aqui mesmo é porque não estava próxima de seu povoado. Má notícia. Continuamos.



      Darien. Foto retirada da internet.

      O rio, além de cada vez mais fundo, começou a ficar mais largo. As pedras do fundo deram lugar a um barrão onde se afundava os pés. Em minha mochila estava os documentos meus e de Renan, o netbook, a filmadora e a câmera digital. Todo o trabalho que tivemos durante a viagem estava ali. Molhar a mochila seria um golpe dolorido demais e eu estava disposto a me dedicar ao máximo para evitar isso. Essa minha aflição, me tornava mais cauteloso e consequente mais lento nas caminhadas dentro do rio. Não poderia escorrer nas pedras – algo fácil de acontecer. E quando ficava muito fundo, saia e contornava pela mata. No entanto, quando não havia nem sinal de trilha, cem metros poderiam levar até meia hora. Continuamos.

      O cansaço extremo nos despertou uma ideia: vamos construir um barco? Algo divertido ou desesperador? Lembrei do filme O Náufrago. Minha barba estava quase lá. Nos dedicamos a isso por quase duas horas. Primeiro no encalço de 3 troncos grandes, que seriam a base. Depois de vários galhos, que seriam presos na perpendicular. Para amarrar, poderíamos ter usado cipó. Optamos por usar pedaços de roupa, assim, começamos a dilacerar algumas vestimentas. Montamos uma espécie de balsa e arrastamos até o rio. Sim, ela flutua. Não nos aguentaria, mas a ideia era pelo menos colocar todas as mochilas ali. Funcionou. Dispensamos um bom peso, mas o processo ficou muito lento. Andar pelo rio empurrando a balsa com as mãos demorava demais. De qualquer forma, meia hora depois o rio teria uma parte rasa, onde nossa balsa encalhou. Carregar estava fora de cogitação. Tempo perdido e aflição ganhada. Chegara o meio da tarde e nada... Continuamos.

      Encontramos outra clareira na selva, com um fogueira apagada. Próximo dela, um crânio de macaco. O cardápio da região não variava muito. Estávamos tensos... eu evitava me pronunciar. Não tinha nada de incentivador a dizer, só pensava o quanto estava fudido, o quanto queria sair dali. Só queria mais uma chance e nessa chance iria valorizar muito mais a vida. Prometi a mim mesmo.

      O rio ficava fundo e Renan caminhava nele imerso, apenas com ombros e cabeça para fora. Foi uma forma de deixar a mochila mais leve. Comecei a ver cada vez menos ele, pois me dedicava a manter a mochila seca. Ia pela selva, naquele caminho confuso, lento e pesado. A tarde chegava ao fim, junto com nossas energias. Ouvi Renan cantando hinos que aprendeu em sua igreja. Pensei na fé, no poder dela. Por mais que Renan e eu tivéssemos ideias diferentes quanto ao direcionamento dessa fé, desde o início do projeto MotoPangea, na fase de planejamento, seguíamos a receita do pensamento positivo. Parecia funcionar. Continuamos.

      Juan e eu caminhávamos pela selva, quando ouvimos Renan gritar. - Ei, ei, por favor, nos ajude, estamos perdidos! Ary, Ary, achei duas pessoas. Corri a para o rio, aos trancos e barrancos, com o coração acelerado, queria ver o que/quem poderia ser nossa salvação. Tratava-se de uma canoa com dois kunas. Explicamos o que passava e eles disseram que não poderiam nos ajudar, que estavam indo pra um congresso de caça num outro povoado. Pois é, cada um com seu congresso. Apesar da frieza dos kunas, eles nos disseram que estávamos a meia hora de uma madeireira e a três horas de Mortí. Essa era a luz que esperávamos. Brindamos a notícia com mais uma colher de açúcar para cada. Vi Renan agradecendo a Deus. Continuamos.



      Passou uma hora, passou duas. Chega. O tempo dos kunas não é o mesmo que o nosso. Paramos numa parte larga do rio onde uma ilha de pedras e areia formou-se ao centro. Enquanto Juan e eu montamos a barraca e fizemos fogo. Renan tirou a mochila e foi a nado pelo rio, tentar achar algo. Quando retornou o fogo já estava alto e teria como função nos aquecer e espantar os mosquitos, pois nosso alimento era apenas o açúcar. Enfim, chegou dizendo que encontrou uma cabana e uma canoa, disse que gritou, gritou, mas não tinha ninguém. Pela manhã chegaríamos lá, quem sabe o dono da canoa tenha chegado... e se não chegar? Bom, podemos pegar a canoa e seguir. O dono pode ser de Mortí, chegando lá explicamos o caso.

      Dormi com a roupa suja e úmida. A mim não restou nenhum roupa seca. Abri a mochila e o netbook no meio da selva para ver se ainda funcionava. Sim, funcionava. E aqueles seis por cento de bateria iria nos permitir ouvir algumas músicas. Renan escolheu Chico Buarque.... Amanhãaaaa, vai ser outro diiiaaaaa. Amanhãaaaa, vai ser outro diiiaaaaa. Dormimos. Quem dera o sono fosse continuo. Fome e frio cutucam a alma. Lembrei que algumas pessoas passam por isso todo dia, mas eu (assim como a maioria da minha rede de contatos) estou ocupado demais para pensar nisso. “Isso tudo acontecendo e eu aqui na praça dando milho aos pombos”.

      Fim do terceiro dia de selva.

      Saudações libertárias,
      Ary Neto

      Comentário

      • Renan Xavier
        Fazedor de Chuva
        • Jul 2011
        • 404

        #18
        Dias 3 e 4 de fevereiro – Sobrevivemos a Mortí

        Após chegarmos ao acampamento da madeireira, nos preparamos para concluir a façanha que seria sair da selva. Fomos instruídos a seguir um caminho de terra por três horas, assim, chegaríamos a Mortí e, de lá, pegaríamos um ônibus para a Panamericana. Um jovem trabalhador da madeireira, o Joel, também iria para o povoado, logo, foi caminhando com a gente.

        Já estávamos salvos, inseridos novamente na sociedade. O psicológico se acalmara, mas o físico ainda estava debilitado, seria duro caminhar por tanto tempo. Seguimos. Depois de quarenta minutos de caminhada, uma picape vem no sentido contrário. Fizemos sinal e perguntamos se ela voltaria por ali. O motorista disse que iria até ao acampamento para consertar um trator e em aproximadamente uma hora regressaria. Ótimo! Optamos por ficar ali mesmo, esperando a picape voltar para nos dar uma carona. Enquanto esperávamos, Joel ligou seu rádio de pilha, o que nos permitiu ouvir notícias de todo o mundo, em especial, da América latina. Greve de policiais no Brasil. Carnaval em perigo!

        O carro volta com mais dois trabalhadores indígenas na caçamba. Nos unimos a eles. Agora, deixemos o esforço para o motor de explosão. Que satisfação. Um hora depois chegamos no desvio que daria acesso a Mortí. A picape para, todos descem. Os indígenas de Mortí (que é um outro povoado de kunas) nos dizem que precisamos ir até seu povoado para recebermos uma espécie de autorização para passar por ali. Ficamos sem entender o porquê disso. De pronto, Juan se negou, disse que eles queriam tomar nosso dinheiro (se tivéssemos algum é claro). Começou a discussão. Os kunas insatisfeitos, juntamente com nosso recém amigo Joel, seguiram correndo o caminho para seu povoado, dizendo que chamariam a polícia. A picape já tinha ido embora, mas antes o motorista disse que consertaria outro trator ali na região e voltaria para nos buscar mais tarde. Afinal, para chegar na estrada a pé, a caminhada era de seis horas.

        Seguimos a pé pelo caminho de terra, pensando nos dizeres dos kunas. Seria um blefe? E mesmo que não fosse, o que nós teríamos feito de errado? Só queríamos ir embora, pegar estrada, seguir nosso rumo. Continuamos a caminhar naquele caminho seco por quase uma hora. Olhamos para trás e vimos Joel correndo em nossa direção. Nos alcançou e disse que era melhor voltarmos. Juan perguntou o aconteceria se não voltássemos? Joel respondeu – Daqui vocês não passam. Nós tínhamos um caminho de terra, em meio a selva, para percorrer por seis horas e um grupo de kunas que viria a nosso encalço. Enquanto Juan e Joel conversavam, a poeira começou a subir. Muitos kunas começaram a chegar, aproximadamente vinte e cinco, sendo umas quinzes crianças de idades variadas e uns dez adultos. Uma espingarda e alguns pedaços de pau também acompanhavam o grupo, que chegaram a nós com os olhos arregalados. Preparados.

        Nos explicamos, relatamos tudo o que tinha acontecido com a gente, que não tínhamos dinheiro e estávamos cansados e com fome. Um deles nos disse que deveríamos acompanhá-los, que em Mortí nos dariam comida e um lugar para ficar e que no dia seguinte, cedo, poderíamos pegar um carro sentido Panamericana. Achamos tudo muito estranho, algo difícil de acreditar. Todavia, não tínhamos escolha. Ficamos arrasados com isso. Cada um de nós caminhava sob a escolta de um grupo de kunas. O que nos aguardava dessa vez? Quando chegaríamos novamente ao asfalto (mesmo sem as motos) para enfrentar os problemas comuns a nossa cultura? Quando sairíamos daquele mundo?

        A picape voltou e parou antes de chegar na gente, ao ver o número de kunas que nos acompanhavam. Comecei a caminhar na direção do veículo, fiz sinal para eles me esperassem. Os kunas não gostaram, mas insisti. Renan assistia de longe. Cheguei ao carro e supliquei ao motorista, bem como, aos outros dois trabalhadores que estavam no carro – Por favor, nos tirem daqui, ficamos muitos dias na selva e só queremos ir embora, telefonar pra nossa família. O motorista engoliu a seco, sentiu o nosso drama, todavia, não poderia nos ajudar. Aquela região está sob o comando dos kunas. A madeireira funcionava ali, mas tinha que respeitar as regras locais. Um kuna bate a mão sobre o capô do carro e diz – Vai, vai, vai. Não teve jeito, não seria dessa vez que sairíamos da selva. Continuamos a caminhar para Mortí.

        Saímos do largo caminho de terra e entramos numa estreita trilha. Enfileirados, perguntei a Renan se era agora que receberíamos uma bala na cabeça? Um comentário com sarcasmo é claro, mas ainda assim com uma parcela de temor. Em meio a mata surge as casas do povoado. Eram várias cabanas, com tetos de palha, distribuídas em duas vias, sendo uma mais larga e movimentada. Foi por ela que entramos, escoltado por vinte cinco kunas e assistido por todos os outros que moravam ali, cerca de duzentos. Um imenso corredor foi formado, a maioria mulheres e crianças. Todos nos olhavam, com olhares curiosos. Algumas crianças acenavam, outras caminhavam a nosso redor. Cheguei a observar um jovem com um celular na mão, nos filmando. Me senti violentado, senti minha imagem sendo roubada... um bom momento para refletir sobre algumas fotos que tirei durante a viagem. Agora nós éramos a caça de uma antropologia selvagem.

        Nos guiaram até a grande cabana coletiva, a “maloca”. A autoridade máxima estava sentada numa rede. Ao seu redor formou-se um imenso círculo de pessoas. Cumprimentamos o senhor e sentamos a sua frente, conforme fomos orientados. Um tradutor estava encarregado de facilitar aquele “julgamento”. O senhor, autoridade máxima, perguntava algo, passava pelo tradutor de espanhol e nós respondíamos. Fomos questionados quanto o porquê de estarmos ali; de onde éramos; para onde iríamos; o que tínhamos na mochila; se estávamos com o passaporte. Um momento cinematográfico. Era difícil acreditar que aquilo estava mesmo acontecendo.

        Chegado o fim do questionamento, nossas mochilas foram revistadas minunciosamente. Bolso a bolso. Um pente fino de dar inveja a qualquer aduana que passamos. Nossa alforria estava decretada e seria efetivada no dia seguinte. Nesse momento, a autoridade máxima se afasta, conversa com um grupo de representantes de família e, juntos, decidem onde vamos dormir. Nos dirigimos então ao local definido. Lá, pudemos estender as roupas das mochilas (molhadas no rio), comer e dormir numa cabana cujo único morador era um rato acrobata, que corria o espaço como uma moto num globo da morte. Amanhece. Aguardamos o carro que só chegaria as duas da tarde, nesse meio tempo nos serviram um café da manhã e também colocaram um filme para assistirmos num cabana que possuía televisão e dvd. Pois é, surpresa atrás de surpresa.

        Subimos na caçamba da picape que chegou no horário. Adeus selva. Uma hora e meia depois chegamos a Panamericana. Em poucos minutos conseguimos uma carona que nos levou à próxima cidade, Santa Fé, onde foi possível avisar as autoridades policiais sobre o ocorrido com as motos. Os soldados se mostraram solidários e disseram que tentariam nos ajudar a recuperá-las, assim, passamos o número de telefone de Ramses (nosso anfitrião que reside na Cidade do Panamá). Quando as motos ficaram atoladas na selva, acordamos com Pano que ele nos levaria para Mortí e depois, ao voltar, poderia ficar com as motos. Todavia, ele não cumpriu o trato e nos deixou no meio da selva. Uma irresponsabilidade tamanha que poderia ter custado nossas vidas. Tal atitude que nos influenciou a prestar a queixa no departamento policial. Agora aguardemos.

        Vendemos um jogo de ferramentas numa oficina mecânica, assim, pudemos comprar nossa passagem para a Cidade do Panamá. Pegamos o ônibus e quase seis horas depois chegamos na grande cidade, movimentada, repleta de letreiros luminosos, businas, lojas, supermercados... Chegamos a nossa selva, estávamos bem. Ligamos para Ramsés que rapidamente veio nos buscar. Ainda não sabíamos, mas estávamos prestes a nos hospedar na casa de um anfitrião profissional

        Comentário

        • Renan Xavier
          Fazedor de Chuva
          • Jul 2011
          • 404

          #19
          De 5 a 9 de fevereiro – Descanso e diplomacia na Cidade do Panamá

          Ramsés mora sozinho e possui uma casa muito bonita e confortável. A nosso dispor, um quarto com duas camas grandes, macias toalhas de banho, ventilador, ar-condicionado, TV a cabo, internet, máquina de lavar e secar. Tudo isso para dois brasileiros que, pouco tempo atrás, achavam que poderiam nunca mais sair da selva. Pois é, a vida tem dessas. Tudo passa. Logo, temos que ter paciência para suportar os maus momentos e, sobretudo, resistência para evitá-los. Em relação aos bons momentos, o importante é mordê-los com todos os dentes, pois também passarão.

          Durante a semana, Ramsés nos levou para conhecer a cidade, inclusive o conhecido Canal do Panamá, uma experiência única. Em meio aos trajetos e também em sua casa, Ramsés nos contava sobre suas viagens, especialmente, as sete que fez à Cuba. Um apaixonado por Havana. E nós, é claro, ficávamos ainda mais ansiosos para chegar à ilha. Aliás, estávamos próximos disso, uma vez que, não tínhamos mais motos, nem tempo para continuar com o trajeto até o México. Teríamos que pegar um voo do Panamá direto à Cuba, que foi possível graças a algumas contribuições de última hora. Curiosamente, as passagens de ida e volta estavam mais baratas do que somente de ida. Iríamos a Cuba e regressaríamos ao Panamá, a volta ao Brasil teria que ser resolvida depois.

          Foram dias de descanso e diplomacia (sem muito sucesso). Na embaixada brasileira não obtivemos nenhuma ajuda em relação as passagens, mas a vice-cônsul contatou a policia de Santa Fé e parece que eles estão próximos de recuperar nossas motos. Notícia que seria refutada posteriormente pela polícia turística que, ao contatar novamente a polícia de Santa Fé, recebe a informação que o cacique de Mulatupo não quer liberar as motos. Ainda por cima, disse que devemos dinheiro ao povoado. Ficamos indignados diante disso, que coisa absurda... e o pior é que não há muito o que fazer. Enfim, também entramos em contato com a Senhora Primeira-Dama de El Salvador, a brasileira Vanda Pignato e também com a Organização Internacional de Imigração (OIM), mas nenhum deles pode nos ajudar com passagens de volta ao Brasil. Paciência.

          No terceiro dia que estávamos na casa de Ramsés, outros viajantes chegam a sua casa. Três brasileiros que estão viajando o mundo de bicicleta. Isso mesmo, bicicleta. Saíram de Goiânia a seis meses e já passaram pelo nordeste e norte brasileiro e também por Venezuela, Colômbia e, agora, Panamá. Os meninos são muito gente boa e além de além de bons ciclistas, são ótimos cozinheiros. Nos últimos dias parecia que estávamos no Brasil. Ramsés virou um estrangeiro dentro de sua própria casa.

          No dia 10 pela manhã, finalmente iríamos para Havana, participar do Congresso de Educação. Valeu a pena persistir! Agradecemos a Ramsés por sua imensa hospitalidade que foi de vital importância para revitalizar nossos corpos e mentes para o nosso próximo passo, a ilha.

          Comentário

          • Renan Xavier
            Fazedor de Chuva
            • Jul 2011
            • 404

            #20
            COMUNICADO IMPORTANTE: Fomos para Cuba

            Esta mensagem foi programada para ser postada exatamente às 8h30 (11H30 no horário de Brasília) do dia 10 de fevereiro. Neste mesmo horário, estaremos embarcando para Havana. Isso se não tivermos nenhum problema com o visto, bem como, com qualquer outra burocracia.

            Não vamos chegar com as motos até Cuba, tampouco até Cancún. No entanto, outras experiências foram tecidas diante do inesperado. O MotoPangea, a nosso ver, não saiu errado, apenas diferente do plano inicial.




            A última postagem terminou com o nosso encontro com o funcionário da madeireira, culminando no fim de nosso temor de padecer na selva. Ainda faltam ser postados dois textos: um que narra o drama vivido no povoado de Mortí; e outro que abordará nossa estadia de quase uma semana na casa de Ramsés, em Panamá City.

            Ouvimos dizer que a internet em Cuba ainda é meio precária. Sendo assim, desde já justificamos nossa possível ausência do blog. Todavia, faremos o possível para dar notícias.

            Vamos participar do Oitavo Congresso Internacional de Educação Superior. Obrigado a todos que, de alguma forma, nos empurraram até aqui. Agora, cabe a nós, captar o conteúdo apresentado a fim de elucidar o que se passa nessa tal de universidade: Om Co Tô? Quem Co Sô? Prom Co Vô?

            Tentaremos regressar ao Brasil, diretamente de Cuba. Uma tarefa difícil. Caso contrário, regressaremos ao Panamá no dia 19 de fevereiro. Sem motos ou dinheiro no bolso. A volta ao Brasil dependerá então de apoios, sorte e persistência.

            Saudações latinoamericanas,
            Ary Neto e Renan Peixoto
            Última edição por Renan Xavier; 15-02-12, 11:03.

            Comentário

            • Renan Xavier
              Fazedor de Chuva
              • Jul 2011
              • 404

              #21
              CUBA: O primeiro de dez
              - 15 de fevereiro de 2012

              Despertei daquele sono leve, típico das duas primeiras horas de sono. Ficamos até tarde arrumando as coisas, lavando roupa e postando textos no blog. O medo de perder a hora também ajudou a acordar rápido. Já Renan, possui a habilidade para fechar os olhos e mergulhar nas profundezas do descanso. Ele não gosta de ser acordado e eu não gosto de acordá-lo. Uma combinação quase perfeita. O voo partia às 8h30. Nós deveríamos estar no aeroporto duas horas antes... Atrasamos... Perguntei ao taxista se era verdade esse papo de “duas horas de antecedência”. - Sim, é. Que aflição! Depois de tudo, perder o voo e ter que esbarrar numa super taxa extra seria um tiro no pé. De calibre doze. O motorista sentiu o drama e na extensa reta manteve a velocidade de 130km/h. Chegamos, ufa.



              Teríamos uma conexão na Costa Rica, conheceríamos mais um país. Superficialmente, literalmente. Enquanto esperávamos o segundo voo, acessamos a internet. Wifi de graça foi sempre um presente dos céus durante a viagem. Renan utilizou sua metade do tempo para enviar e-mail a um hospital de Cuba, a fim de realizar alguns exames ortopédicos, também deu os últimos salves para os amigos antes do grande feito. Eu, na minha vez, além da facebookada básica, passei alguns dados pessoais para Ana Flávia, amiga de sala da Unila. Ela está me ajudando com a documentação para que eu não fique sem moradia nesse próximo ano de universidade. Bom, pra quem dormiu uns dias na selva... dormir no campus da universidade ou na porta dela vai ser suave. Ah vai! Enfim, papo vai, internet vem, perguntamos à moça do guichê que hora deveríamos embarcar, afinal, só faltava vinte minutos. Ela respondeu que deveríamos embarcar em outro portão, do outro lado do aeroporto, mas que o avião já deveria estar saindo. Renan e eu corremos, mas corremos... tão rápido que nem mesmo os seguranças ousaram cruzar nosso caminho. Chegando no portão correto, apresentamos nosso meio metro de língua além dos limites da boca, já os atendentes apresentaram um sorriso que dizia – Deu tempo. Pagamos 15 dólares cada, referente a taxa de visto para turista. Prontinho, tenha uma boa viagem.

              O que será que vão servir no voo? Achamos que o wisky era apenas para as classes superiores, mas não, também era para as pessoas comuns, como nós. Pedimos. Sim, no plural... até Renan que não aprecia bebidas alcoólicas pediu wisky. O menino merece! É tempo de celebração. Duas horas e quinze minutos depois, avistamos a ilha pela janela do avião e lá descemos. Chegamos. Depois de se despedir dos amigos, passar pelo Chaco argentino, pelos Andes, deserto do Atacama, litoral peruano, depois de subir a serra de Quito, cruzar a floresta colombiana, navegar no Atlântico e caminhar pela selva panamenha, nós chegamos. Depois de angariar fundos, pedir ajuda, ouvir sim, ouvir não, depois de pedir comida, abrigo, depois de consertar as motos e de novo e de novo, pedir socorro, carona, depois de dormir em boas camas, boas quadras, boas igrejas, depois de ficarmos doentes, ficarmos felizes, depois de brigarmos, de rirmos, de sentirmos medo, desejo, saudades. Ah, que saudade sentimos. Depois de muito viver e pensar que não mais viveríamos. Depois de cinquenta e oito dias. Chegamos. Primeiro um pé, depois outro, simples assim. Estávamos em Cuba.




              A partir de agora: Postaremos neste blog nossas vivências e percepções de Cuba, assim como fizemos em toda a viagem. Todavia, é sabido que este país carrega consigo todo um aparato ideológico. E nós, antes de aqui desembarcarmos, tínhamos nossas opiniões fundamentadas naquilo que líamos e que ouvíamos. Agora, além de ler e ouvir, estamos vendo. E além de ver, estamos sentindo. E nesse novo contexto, evitaremos se comportar como os donos do saber. Não. Não estamos aqui para dizer se este regime é certo ou errado. Pelo contrário, aproveitaremos nossa breve passagem para observar e absorver, para ouvir os palestrantes e, sobretudo, para ouvir os representantes, de fato, do povo cubano. Este é o primeiro texto. O primeiro de dez. E nestes dez textos, relataremos. Entretanto, não somos máquinas registradoras. Existimos, logo pensamos. Somos seres humanos dotados de uma dádiva, a linguagem. Cabe a nós aproveitar e nos expressar. Cá estamos.



              Chegando no aeroporto José Martí, ainda possuíamos uma parcela de receio. Faltava passar o bloqueio! Enquanto estávamos na fila, um funcionário que circulava pelas filas, fazendo um pente fino, nos abordou... perguntou de onde vínhamos e o porquê da viagem. Congresso de educação! Foi sempre a nossa resposta. Antes e depois disso, continuávamos na fila, observando o fluxo. Deste modo, seria impossível não perceber o grande número de pessoas com necessidades especiais. A dedução não poderia ser outra, senão que aquelas pessoas estavam desembarcando ali para fazer tratamentos de saúde.

              Passamos pelo primeiro guichê após duas perguntas. Pelo raio x após duas apalpadas. Pelo funcionário da saúde, após entregar um formulário dizendo não para todas as enfermidades. E, por fim, a aduana que passamos batido, uma vez que não tínhamos nada a declarar. Liberados para vivenciar a realidade cubana, cambiamos o dinheiro. Dólar por CUC, a moeda cubana destinada aos turistas (os residentes utilizam o peso cubano como moeda nacional). Pronto, com dinheiro no bolso estaríamos prontos para o país socialista.

              Cruzamos um portal e voltamos no tempo. Carros de seis décadas atrás circulavam na maior naturalidade. Em Cuba, todo carro é um taxi em potencial. Pegamos um, após descobrir que o terminal de ônibus estava distante. Foi caro, dez CUC (quase dez dólares), todavia, o percurso foi longo. Primeiro fomos à sede da empresa Havanatur, tentar uma hospedagem gratuita, visto que alguns e-mails já teriam sido trocados antes. Nos encaminharam para outro lugar, um hotel que poderíamos falar com a Caridad Sagó. Achamos o lugar e falamos com ela. Relatamos nossa história, mas não teve jeito, sua proposta ainda estava fora de nossas condições financeiras. Teríamos que procurar um casa para ficar. Ligamos então para um contato do couchsurfing, a casa de Miguel, que atendeu e disse que poderíamos ir para lá. Entretanto, o couchsurfing funciona um pouco diferente em Cuba: um cidadão não pode hospedar um turista, a menos que tenha autorização para isso. E quando a tiver, deverá cobrar do turista uma diária e transferir a devida parte ao governo. Estadia confirmada, demos início a saga... perguntamos a um taxista onde pegava o ônibus, ele não só indicou como também nos deu uma moeda que seria suficiente para pagar as duas passagens. Esperamos uma hora e quando o tal do P1 chegou, fomos pendurados na porta por um tempo, até conseguir entrar. Pagamos a passagem (40 centavos de peso cubano), o equivalente a 4 centavos de reais. Sacolejamos até nossa parada. Ao descer do ônibus, teríamos que andar uns 10 quarteirões, tempo e distância necessária para pararmos para comer duas vezes, na primeira spagueti, na segunda pizza (não sabíamos ainda, mas esta seria nossa base alimentar em Cuba). Ambos pratos custam 10 pesos cubanos, algo como 80 centavos de real. Que beleza, uma coisa era certa: comeríamos muito.

              Comentário

              • Renan Xavier
                Fazedor de Chuva
                • Jul 2011
                • 404

                #22
                CUBA: Segundo dia - A procura de casa, comida e cultura

                Dormimos bem, acordamos em paz. Estávamos em Havana! Por volta das 11h30 saímos da casa de Miguel, sentido Palácio das Convenções, entretanto, por um caminho com pausas e desvios propositais, queríamos conhecer a cidade e assim o fizemos. Para isso, não compramos mapas ou guias para doutrinar nossa experiência, apenas fomos caminhando. Cada rua, cada contato estabelecido trazia algo especial. Nesse meio tempo, fomos comendo: pão, café, doce, pizza. Aproveitamos o milagre cambial e também cedemos pela primeira vez a uma aquisição clichê: compramos uma boina e um boné verde oliva. O que é um peido pra quem está cagado não é mesmo!



                Chegamos a Universidade de Havana, que por sinal é muito bonita, mas infelizmente não podemos entrar. Era sábado e estava fechada, sobretudo, por um show que seria realizado na base de sua escadaria. Tudo bem, voltamos depois. Mais um pouco de caminhada e encontramos um cinema, cuja programação estava isenta daquele mais do mesmo hollywoodiano. Por 2 pesos (aproximadamente 17 centavos de real) compra-se uma entrada. Em cartaz: Bem-vindos ao Paraíso. Adentramos. O filme contava a história de mulheres norte-americanas que passavam suas férias em Porto Príncipe, a procura de descanso nas praias e prazer em braços jovens e negros. Um bom filme, com críticas que vão muito além da minha superficial sinopse.

                No quintal de uma casa próxima ao cinema, um rapaz vendia livros, a maioria deles sobre Cuba. Compramos! Livro é algo difícil de resistir, ainda mais se considerar o assunto, o local de venda e nossa história para chegar ali. Com a mochila mais pesada, fomos deixar nossos corpos mais pesados. Almoçamos num restaurante municipal muito agradável e bonito, que conseguia ser ainda mais barato do que as diversas vendas que estão espalhadas pela cidade. Espaguete e suco, pedimos. A mesma coisa pediram a menina e o menino que conhecemos na fila, ambos com 12 anos, primos. Não almoçaram em suas casas, pois pretendiam ir a Feira Internacional do Livro, assim, foram direto da escola. O menino, folhava constantemente um livro com bandeiras de diversos países, notou nossa curiosidade e nos convidou a ler o livro, foi assim que começamos a conversar. Duas crianças muito amáveis, que nos constaram muitas coisas, sobretudo, sobre a escola que estudavam.



                Tínhamos que ir ao Hotel Palco fazer o credenciamento do congresso, mas já não sabíamos se ia dar tempo. Fomos mesmo assim, afinal, mesmo que não conseguíssemos chegar no horário, precisávamos procurar um lugar para ficar nas proximidades deste hotel e do Palácio de Convenções (que fica do lado). Esperamos o ônibus por um tempo razoável, enquanto líamos, tirávamos fotos e conversávamos. Atividades interrompidas por um ônibus lotado, que nos levou até seu ponto final que, por sua vez, fica a três quadras do local de tínhamos que ir. Chegando lá, descobrimos que o credenciamento seria só no dia seguinte (domingo). Pra variar, relatamos nossa saga, mas ninguém podia nos ajudar. De volta a rua, Renan e eu acordamos que poderíamos dormir num campo de futebol que vimos no caminho, até porque estávamos descansados e não precisaríamos mais pilotar as motos. Definimos que só não iríamos economizar com comida, pois era muito barato e também por nosso desejo de compensar o tempo na selva.

                Estávamos tranquilos. Caminhamos até as vendas próximas ao ponto final do ônibus. Talvez aqueles comerciantes poderiam nos alugar um espaço em suas casas. Uma aposta que deu certo na primeira tentativa. A princípio disseram que não tinham autorização e tal, mas depois de nos encarar por um tempo, resolveram ajudar. Javier, marido de Letícia, pediu para sua esposa nos mostrar a casa para vermos se interessava. Um quarteirão depois, chegávamos a um cortiço. Algumas curvas por ali e tínhamos chegado ao local que nos acolheria pelos próximos dias. Uma casa pequena, inversamente proporcional ao tamanho da hospitalidade, com várias coisas a reparar, sem chuveiro ou portas separando um cômodo do outro. Nós ficaríamos no quarto de sua filha (que estava viajando, na casa de uma tia), um quartinho bagunçado, mas com ventilador e um vaso com rosas de plástico vermelhas. Que bom, era o universo conspirando a favor. Por apenas 10 CUC (pelos dois), teríamos um lugar para ficar a três quadras do Congresso. Um achado! Além da proximidade, ali poderíamos compreender muito mais sobre a cotidiano cubano.

                O melhor de tudo foi a conversa: nossa anfitriã nos disse que foi a França quando tinha dezenove anos, algo que ocorrera a mais de vinte anos. Tratava-se de uma convenção de solidariedade a Cuba. Letícia disse que gostou muito, que foi uma experiência única. Nós, vendo aquela casa humilde e sabendo como é difícil conseguir sair de Cuba, perguntamos se não passou pela cabeça dela ficar por lá. Ela disse que não, pensamos que era por causa da família, mas nos surpreendemos. Letícia nos disse que existe muitos governantes por aí, mas Fidel só existe um: disse que em Cuba ela vive com pouco, mas que nunca ficará sem comer; quando o frango chega, todos avisam “o frango chegou”; se um não tem dinheiro para comprar, os outros ajudam. Também contou que foi militar em sua juventude, mostrou fotos de farda, mostrava com orgulho. Javier é padrasto de seus dois filhos e não se importa quando o pai das crianças vem do interior para visitá-las, aliás, o ex-marido dorme na própria casa. Sem problemas.

                Javier iria voltar ao trabalho e perguntou se queríamos algo da rua. Pedimos para ele comprar papel higiênico (pois vimos que na casa não tinha) e desodorante (já que o nosso foi confiscado no aeroporto). Saiu, mas antes nos deu um último alerta: pediu para sermos discretos, não falarmos português nos corredores do cortiço, pois eles não tinham autorização para hospedar turistas. Fica tranquilo Javier, dissemos. Renan foi correr e eu fui dormir. Aguardar pelo domingo, pelo credenciamento no congresso e por alguma atividade lúdica.

                Saudações cubanas,
                Ary Neto
                Última edição por Renan Xavier; 20-02-12, 11:36.

                Comentário

                • Renan Xavier
                  Fazedor de Chuva
                  • Jul 2011
                  • 404

                  #23
                  CUBA: Terceiro dia - Fim de semana no parque.

                  Acordei mais cedo e fui providenciar nosso credenciamento no congresso. Descobri que nossa inscrição foi efetivada como acompanhante e não estudante, isso implicava no não recebimento de certificados de participação. Enfim, algo para se resolver, mas depois. Além da credencial, recebemos uma sacola personalizada e uma camiseta de Cuba. Não ganhamos nem a programação do congresso, futuramente teríamos que tirar fotocópia de algum colega. Detalhes a parte, estávamos oficialmente credenciados no Oitavo Congresso Internacional de Educação Superior.



                  Às dez horas da manhã, credenciados e instalados, tínhamos todo um domingo pela frente. Fomos ao parque de diversões. Primeiro, um daqueles brinquedos estimuladores de vômito, depois o carrinho de bate-bate. Não tinha algodão doce para caracterizar uma fotografia clássica de parque, mas tinha pizza e refresco para tentar saciar nossa fome insaciável. Diante da possibilidade do tédio, partimos. Novamente, nos dirigimos ao Palácio de Convenções, averiguar se a delegação brasileira já tinha chegado. Constatamos que não existia uma delegação brasileira uniforme, como era o caso da Venezuela, mas sim brasileiros oriundos de diversas instituições de ensino. Alguns, viajando com o apoio institucional de suas universidades, outros, como nós, não.

                  Renan desenvolveu diálogo com um venezuelano. Peguei o bonde andando, mas ainda assim pude compreender e participar daquela discussão. Nosso novo amigo, ao ser questionado sobre o governo de Chavéz, nos disse que veio de uma família pobre e que considerava fora de cogitação um dia ter um carro; um dia poder ingressar na universidade e até participar de um congresso de educação no exterior; um dia poder realizar três refeições por dia. Disse isso, na mesma sequência, estava satisfeito com um governo que proporcionou um salto de qualidade em sua vida. Um discurso conflitante com o que é transmitido pela emissora mor de televisão do país do samba.

                  Outra amizade construída foi com o brasileiro Olavo, professor no Rio Grande do Norte (já falamos dele na postagem da venda de charutos). Conversamos com ele sobre nossa ideia de vender charutos a fim de custear nossa volta. Ele acreditava ser possível e se prontificou a ajudar comprando alguns charutos para que pudéssemos vendê-los. De imediato, nos deu dinheiro para acessarmos a internet, assim, poderíamos publicar uma postagem explicando o nosso mais novo plano.

                  Entre uma caminhada e outra; uma cochilada e outra; uma postagem e outra. O dia acabou. A nós, cabia esperar para ver se nosso plano daria certo e, também, aguardar pelo início do congresso na manhã seguinte. De volta a casa, jantamos. Renan foi correr e eu me contentei com o escrever.

                  Saudações cubanas,
                  Ary Neto

                  Comentário

                  • Jhonny
                    Fazedor de Chuva
                    • Dec 2011
                    • 504

                    #24
                    Que aventura dessa turma, hoje dupla! Espero que estejam bem, vem cá vocês conhecem o GCFC Velho doido? Boa viagem e cuidado!
                    J.Fernandes

                    A distância de um sonho...
                    Quebram-se férreas cadeias, Rojam algemas no chão...

                    Comentário

                    • Renan Xavier
                      Fazedor de Chuva
                      • Jul 2011
                      • 404

                      #25
                      23 de fevereiro de 2012

                      Motopangea esta vivo sim!

                      Não postamos por vários dias, pois fiquei doente. A dor de cabeça absurda não me permitia chegar perto de um computador.

                      Depois de 4 dias, resolvi ir ao hospital, um hospital cubano, onde fui muito bem atendido. Apos muitos exames, recebi um diagnostico. Nada de muito grave, mas precisarei de um mês de repouso.

                      A boa noticia e que esse repouso será no Brasil, fomos repatriados.

                      Em breve postaremos os demais relatos.

                      Saudações libertárias,
                      Ary Neto

                      Comentário

                      • Renan Xavier
                        Fazedor de Chuva
                        • Jul 2011
                        • 404

                        #26
                        CUBA: 4º dia - Foi dada a largada

                        Enfim chegou o primeiro dia do Congresso. Saí um pouco antes de Renan, emplaquei um pão com croquete e um caldo de cana, depois me dirigi para o Palácio de Convenções. Lá, encontrei, ou melhor, fui encontrado pela Daniela, graduanda de Economia da UNILA, nossa companheira de universidade. A acompanhei nos procedimentos para realizar sua inscrição, enquanto isso, conversando sobre nossa saga. Pouco tempo depois, avistamos Renan, já com a garapa tomada.



                        A abertura do congresso só aconteceria às 18h, no teatro Karl Marx. Até este horário poderíamos ficar vendo os stand’s ou sair para fazer outra coisa. Optamos pela segunda opção. Vão os três para o ponto de ônibus e durante o tempo de espera conheci um senhor que entendia tudo de fotografia e vídeo, contou que quando jovem tinha uma super 8. Também disse conhecer Foz do Iguaçu, questionei se ele já tinha ido ao Brasil, mas não, trata-se do aprendizado fruto das aulas de geografia. Aliás, dos países que passamos até então, Cuba foi o lugar em que as pessoas mais rápido nos identificavam como brasileiros e também o lugar onde mais pessoas conhecem um Brasil, além de Rio de Janeiro e São Paulo.

                        Pegamos um ônibus, a idéia seria conhecer Havana velha. Durante o trajeto conheci outra pessoa, dessa vez uma senhora, também muito simpática. Perguntei se estava indo ao trabalho, ela disse que não, que não trabalhava mais. Era aposentada por ser viúva. Questionei então se era possível viver bem com a aposentadoria, ela sorriu, disse que sim.

                        Conhecer Havana de dentro do ônibus é bem interessante, seja pelo que está do lado de lá da janela, seja pelo que está do lado de cá. Nos equivocamos, aquele ônibus não passaria em Havana velha, seu ponto final era num local chamado Copélia. Ao descer, fomos a um centro de informações, onde conhecemos uma senhora que elogiou muito Cuba, sobretudo, no que diz respeito a saúde, educação e cultura. Disse que Cuba tem problemas, mas qual país não tem? Assim como os demais cubanos, a senhora elogiou as novelas brasileiras, a bola da vez é Passione.

                        Dali, fomos para a praça da independência. Tiramos algumas fotos, depois pegamos um mototáxi para o Teatro Karl Marx, e que teatro! A abertura do congresso contou com discursos do ministro da educação de Cuba, outros representantes da ilha, além de representantes de Angola, Nicarágua. Este último, teceu um discurso revolucionariamente cubano, inclusive citando Fidel, Raul, além de ser solidário aos cinco prisioneiros cubanos que estão nos Estados Unidos e, por fim, fazendo uma crítica ao embargo. Adelante!

                        Terminados os discursos, deu-se início uma apresentação teatral interpretada por crianças, uma espécie de musical. Ao fim, nos embocamos num ônibus desses fretados, sentido Hotel Palco, o mais próximo de nossa humilde residência. Ainda na rua comemos um espaguete e, de volta a casa, paguei os 10 CUC do dia para Letícia, que sorriu e disse que pagaria a taxa mensal de autônoma para o governo. Perguntei o que acontece se ela não pagar? Ela arregalou os olhos, disse que não se pode dever ao governo. Algo inadmissível. Sua licença para trabalhar como autônoma poderia seria tomada.

                        Renan e eu sempre conversávamos sobre o modelo cubano de organização social. É difícil fazer um julgamento, bater um martelo dizendo sim ou não a revolução. Enfim, estávamos ansiosos para o dia seguinte, pois as palestras começariam de fato. Renan iria ao médico. Depois tentaríamos ligar para nossa família e também entrar na internet para ver os pedidos de charuto. Até pouco tempo atrás, tudo o que fazíamos era em prol de uma ida. Agora, que tínhamos chegado, aproveitávamos o presente, todavia, pensando no futuro, na volta.

                        Saudações cubanas,
                        Ary Neto

                        Comentário

                        • Renan Xavier
                          Fazedor de Chuva
                          • Jul 2011
                          • 404

                          #27
                          CUBA: 5º dia - Paz? De que jeito?


                          Quinto dia em Cuba, 14 de fevereiro, terça-feira, primeiro dia de conferências.

                          Acordei e fui direto ao Palácio de Convenções, Renan foi na seqüência e assistimos a mesma conferência: La Paz y el desarrollo sostenible, com o Dr. Adolfo Pérez Esquivel, ganhador do Premio Nobel de la Paz, Argentina. Farei alguns apontamentos referentes ao que foi apresentado, nos demais dias também escolheremos uma conferência para dissertar sobre.



                          Dr. Adolfo começa seu discurso fazendo uma ressalva ao Dia dos Enamorados, nesse sentido, faz um gancho com a necessidade do amor na construção por uma sociedade melhor, inclusive, o amor por nossa terra, Pachamama. No que diz respeito aos humanos: se queremos a paz, devemos compreender, acima de nossa uniformidade, a nossa diversidade.

                          Vivemos numa conflitiva de guerras, mas também de luta e esperança. Adolfo relata algo que compartilhamos, disse que pode assegurar uma coisa: que por todos os lugares que passou, encontrou um sorriso, e onde tem um sorriso se tem uma esperança. Esperança por mudança, pois por mais deficitária que seja nossa estrutura social, o povo tem a capacidade da resistência, está vivo. Aliás, vivemos numa época interessante, com grandes possibilidades.

                          Quando o conferente aborda a “a força da palavra”, aponta fatores interessantes sobre América Latina e Integração: a palavra é dotada de força, por uma podemos amar, por outra destruir, basta uma palavra; Globalização, por exemplo; Antes na América latina se falava em integração, agora, no termo globalização, o tudo não é mais de todos, mas sim de poucos. Na sequência menciona o que foi o ataque das torres gêmeas: no momento que recebeu a notícia do atentado ele estava em Porto alegre, para participar do fórum social, cinco minutos depois recebe outra notícia de um instituto, uma que diz que 35 mil crianças morrem de fome por dia, todavia, essa notícia foi pouco difundida. A mídia não se interessou (a mesma mídia que dia a dia forma nossa opinião).



                          O que acontece? Que mundo é esse? Acelerado! Adolfo fala do tempo, do nosso tempo, que divide-se em biológico, cultural e mental. Todo ser tem o seu tempo, nessas três perspectivas. No entanto, muitas vezes as tecnologias não levam em conta esse tempo. Além da aceleração das partículas, estão acelerando o tempo, ou seja, o tempo tecnológico não corresponde, atende ou respeita o tempo humano. Vivemos acelerados como, por exemplo, quando estamos a frente do computador ou quando nos desesperamos frente ao atraso de uma viagem. O sentido da aceleração é muito importante. A máquina caminha numa velocidade que não vamos chegar. Está ocorrendo uma inversão do propósito, pois não é a máquina que está se adaptando ao homem, mas sim o homem e a mulher que se adaptam à máquina. O celular parece uma extensão do braço humano. O televisor é uma é uma caixa maldita. Somos condicionados a dinâmica imposta pela máquina, um conflito inevitável que devemos examinar. Dizem que a máquina não é boa, nem má, depende do seu uso e isso é evidente, é correto: um martelo serve para bater um prego, mas também pode sr usado para ferir alguém na cabeça. Um exemplo de maior proporção seria a energia nuclear.

                          Voltando ao tema da conferência, fala sobre o conceito de paz e o conceito de desenvolvimento. Paz não tem nada a ver com passividade. Não é a ausência de conflito, mas a dinâmica constante para o acordo, a harmonia. Está ligada ao pensamento. Educadores (fala diretamente com as centenas de professores que assistem a conferência), vocês devem pensar nisso, no que consiste a paz? Deve estar em nossa atividade cotidiana. Estou falando dos casais, amigos, relações humanas. Para fazer fazer um bosque, se necessita de diversidade, e assim somos, ricos pela diversidade, seja qual for o aspecto.

                          E o desenvolvimento da América latina, porque não se concretizou? Quando falamos em desenvolvimento e subdesenvolvimento, a quem nos referimos? E quando falamos em paz, num mundo de conflitos, questionamos: a paz é possível? O que acontece nesse mundo é dito que é em nome da liberdade e da democracia, mas que liberdade e democracia é essa onde 35 mil crianças morrem por dia, num mundo que segue sofisticando os armamentos para controle. Como construir a paz? Estamos loucos? É uma utopia? Volta a insistir: a paz não é a ausência de conflitos, pois a paz tem rostos, de homens, de mulheres, da natureza, tem identidade. Onde os descobrimos? Uma coisa é sorrir, a outra é escutar. A paz é fruto da justiça. Nos cemitérios não se tem paz, não se tem nada. As pessoas lá estão presentes na memória dos povos. É nessa dinâmica da vida que temos o desafio de construir a paz, se começarmos a analisar os conflitos constantes, podemos observar que grande negócio é a morte. Quanto custa um avião de combate?

                          Ei Obama, me dê o valor de um avião de combate? Tem um de 2400 milhões de dólares, mas não sou pretensioso, pode ser um de 95 milhões de dólares. O que não poderia ser feito pelos povos, com esse dinheiro?

                          Companheiros e companheiras, temos que desarmar as consciências armadas, começar a pensar nos valores e identidades, quem somos e pra onde vamos? O poder econômico de empresas transnacionais é o que controla as economias mundiais. Preço e valor não são as mesmas coisas: o homem especializado sabe muito de uma coisa e é analfabeto no resto. A sabedoria está naquele que compreende o sentido na vida e não na leitura de um monte de livros.

                          Desenvolvimento? O que temos que fazer é recuperar o equilíbrio: entre nós; entre nós e nosso meio; nós, seres humanos, somos parte e não donos da natureza. Assim poderíamos criar um outro pensamento. Temos que pensar como restabelecer o equilíbrio? Como falar de paz? Temos que fazer isso desde as escolas das crianças. Temos que pensar em um novo contrato social, se queremos construir a paz, temos grandes desafios, temos que repensar tudo, a ciência, as técnicas. Não negue sorriso a nenhuma criança. Que estes não morram mais de fome. Temos que seguir lutando. Temos que reclamar pela liberação dos companheiros e heróis cubanos presos nos EUA.

                          Assim termina a conferência.

                          Falar de paz pode ser meio clichê, mas creio que só para as pessoas de alma pequena. Enquanto poucos coordenam guerras por território, por modelos econômicos... muitos pagam com a vida. Vamos mudar isso, mas se o mundo é grande demais, comecemos por um raio de 10 metros.

                          No resto do dia Renan e eu assistimos mais algumas conferências, além da rotina presente nos relatos anteriores.

                          Saudações humanas,
                          Ary Neto

                          Comentário

                          • Renan Xavier
                            Fazedor de Chuva
                            • Jul 2011
                            • 404

                            #28
                            CUBA: 6º dia - Frei Beto fala da extensão (imaginária) universitária

                            No sexto dia em Havana (terceiro dia de congresso) assistimos a conferência sobre extensão universitária ministrada pelo Frei Beto, notável intelectual brasileiro, mas que preferiu falar em espanhol. Tudo bem, sua oratória é dotada de tanta clareza que penso que ele poderia falar em grego que o entenderia perfeitamente. Não vou seguir padrões da ABNT, sobretudo, regras de citação, afinal, isto é um blog. Todavia, aclaro a todos que os próximos pensamentos foram tecidos pelo Frei Beto, que começou falando que as primeiras universidades no mundo e na América latina foram fundadas por dominicanos.



                            A extensão universitária surgiu na Europa, em Cambridge. Era destinada àqueles que não tinham acesso à universidade, depois na Itália, na obra de Gramsci, se abriu muito mais. A universidade foi aberta a gente do provo, para se criar um diálogo com a cultura acadêmica. E hoje, é difícil encontrar uma universidade na Améria latina que esteja com as portas abertas para os movimentos sociais.

                            A universidade está cheia de teses inúteis. Dois, três anos dedicados a “ontologia das formigas e seu impacto no aquecimento global”. Temas importantes como América latina são raros, esse é um problema apostado por Paulo Freire que ainda não foi superado. Infelizmente, na lógica capitalista, o conhecimento é uma apropriação privada.

                            Frei Beto falou dos tempos que trabalhou em Vitória-ES. Lá os médicos atendiam mulheres de primeira gravidez, pois não queriam atender mulheres “viciadas”. O problema é que os doutores falavam em FM e as mulheres em AM, uma dificuldade de comunicação. Dona Maria não entendeu a fala do doutor, então o Frei perguntou: a senhora sabe cozinhar? Sim, sei. E você doutor Raul, sabe cozinhar? Não. Maria, se você e doutor Raul estivessem em uma selva, perdidos, com uma só galinha. O doutor, com toda sua erudição iria morrer de fome e a senhora não. Ela sorriu. Nesse dia Dona Maria descobriu um princípio epistemológico: não há ninguém mais culto que o outro, nós (os acadêmicos) tempos muito o que aprender com o povo, o que não temos é paciência intelectual. Disse Gramsci: os intelectuais compreendem, mas não vivenciam, já o povo, o contrário.

                            A universidade tem que se relacionar com o povo, mas não com trabalhos assistencialistas. Em visitas a favela se pode fazer um pequeno assalto para ficar mais real a experiência. Que passa? Nossa extensão universitária é uma mentira. Assistencialismo ou extensão para inglês ver. Veja, tomemos como exemplo a tradição política da América latina no século XX. Aqui foi criado muitos grupos de esquerda, todavia, em que país da América latina se fez uma revolução com êxito? Só aqui, em Cuba! Houve outras, todavia, não lograram. Porque com tanta esquerda, não houve revolução? O Brasil tem um bom exemplo: o movimento sindical, movimento campesino, gente da esquerda... quando estes decidem criar o Partido dos Trabalhadores, com trabalhadores na direção do partido. Alguns partidos da esquerda olharam ao PT indignados, como os trabalhadores se negam a ser as vanguardas do proletariado?

                            Como criar as raízes populares para a mudança? Conhecimento que dialoga com a cultura popular. A guerrilha de Sierra Maestra incorporou a cultura popular. É muito mais fácil dizer ao campesino cristão “Se Deus é pai e nós irmãos, porque há tanta desigualdade social?” É melhor dizer isso do que blablabla correlação de forças blablabla..., ninguém vai entender nada.

                            O que passa na Europa hoje? Uma crise tremenda. E não há nenhum movimento progressista, pois o neoliberalismo destroçou tudo, essa coisa de consumismo. Todos estão no monocultivo das inteligências (como tem acontecido na natureza – monocultivo). Por isso a extensão universitária tem que seguir três pontos:

                            O primeiro consiste em levar a universidade a realidade popular, não para ensinar, para fazer coisas ao povo, mas para involucrar-se nos processos sociais do povo. Quantas vezes, quando eu trabalhava no fome zero, íamos com nossas tecnologias para garantir água e um campesino dizia - Senhor, aqui já temos nossa maneira, uma maneira mais simples, a captação da chuva. Algo que não fazemos na cidade. Logo, nós temos que perguntar, se a cultura científica, tecnológica é a única? Por exemplo, quantas medicinas vem da cultura indígena? Diga no centro médico, que se vai usar ervas, plantas e não medicamentos da farmácia, vai ser um escândalo. O que não passa pela manufatura industrial não tem valor.

                            Vamos ao povo para permitir que o povo nos traga sua ensinança. Isso acontece pela suas vivências de luta. Porém, o povo vive em duas esferas: a da necessidade e a esfera da gratuidade (a festa, a devoção religiosa, a maneira de fazer seu descanso, o desporte, a porta de recuperação das energias). Temos que tomar cuidado, pois tem gente fundamentalista que acha que o povo que gosta de futebol está alienado. O povo visa o lúdico, a gratuidade.

                            Segundo, porque não trazer o povo, os movimentos sociais, para dentro da universidade? Não é só levar para fora, mas também trazer para dentro a gente, com sua experiência, sua cultura. Por exemplo, muitas vezes estudamos história, mas o que sabemos da história do sindicato, de grupo de mulheres, dos remanescentes de um grupo de indígenas ou de idosos que estão próximos da universidade, ou mesmo dos antigos professores da universidade?

                            A desistoriarização é um mal. Agora, no mundo das imagens não há necessidade de continuidade. Nos desestabiliza quanto ao tempo. Os três pilares de nossa cultura ocidental, são três senhores judeos: Jesus de Nazaré. Quando Jesus enxergava o paraíso, enxergava o futuro. Falar do reino de Deus dentro do reino de César era algo subversivo. O segundo senhor judio é Karl Marx, que também fez toda uma análise dos modos de produção precedentes ao capitalista, deste a comunidade primitiva, uma profunda análise do sistema que vivemos e projeta uma perspectiva de futuro. Pausa: Fidel tem boa saúde porque segue lutando. O terceiro senhor judio é Sigmund Freud: se você tem algum problema, vai a uma terapia e conta a sua história uterina, conta tudo para se compreender o futuro. Tudo isso, agora vem abaixo, com a DESISTORIARIZAÇÃO da história. Perdemos enquanto povo, enquanto classe, nação. Toda mãe sofre com os filhos, vítimas da TV que querem formar consumistas. O mundo está individualizado, pela internet, pelo coquetel de imagens, os jovens são incapazes de formar sínteses, pois não tem projeto. Quando não se tem projeto, não se tem percepção do tempo enquanto história, NÃO é possível consumir UTOPIAS. Quanto menos utopia, mais drogas, quanto mais drogas, menos utopias. Nenhuma pessoa pode ser feliz sem sonhos, sem auto-estima. E quando o neoliberalismo destrói o tempo como história, quando as novas gerações não tem consciência e compromisso histórico, há de se buscar a autoestima em outra parte, no caso, as drogas, a forma química de substituir as utopias que o sistema vai destruindo, construindo um ideia única. Os valores não são mais subjetivos, mas sim a riqueza, poder de compra. Estamos caminhando para um mundo perigoso e se não dialogarmos com os movimentos sociais, estamos perdidos. Chico Mendes chamou a atenção, que o problema ambiental é uma ameaça a vida humana e não só aos passarinhos.

                            Chamo a atenção para o Rio + 20, de 20 a 22 de junho, com a ONU, com Lula e Dilma... Todos falam do fracasso do socialismo no leste europeu, mas ninguém fala do fracasso do capitalismo em dois terços do mundo. Vivemos numa desigualdade social brutal. Por isso é importante que cada um de nós pressione seu governo, para que seus chefes de estados se façam presentes. Eles não querem ir, pois tem o rabo preso com as transnacionais. Os câmbios climáticos bruscos são fruto do jeito como o planeta está sendo guiado. Os cânceres são frutos dos venenos nos alimentos.

                            É hora de pensar na universidade como crítica e não num centro capacitador do mercado de trabalho. Não podemos entrar no barco do neoliberalismo. Temos que ser um centro de mobilização, de cumplicidade com os movimentos sociais. Convertendo-se num laboratório para novas possibilidades. Temos que aprender muito. E finalmente, pensar que a universidade deve ser universidade em seu projeto inicial, é preciso criar a pluriversidade.

                            A conferência termina com muitos aplausos, sobretudo, aplausos de um monte de professores arrogantes que nem olham na cara do funcionário que serve o café. Enfim, a mensagem foi passada.

                            No resto do dia participamos de outras conferências, todavia, a atenção tinha que ser dividia com a resolução do nosso problema: como voltaremos pra casa?

                            Por hoje é só.

                            Saudações enfermas, porém, resistentes
                            Ary Neto

                            Comentário

                            • Renan Xavier
                              Fazedor de Chuva
                              • Jul 2011
                              • 404

                              #29
                              CUBA: 7º dia - Corrida contra o tempo

                              Na quinta-feira, 16 de fevereiro, já estávamos preocupados (ainda mais) com a nossa volta. O dinheiro da galera que nos ajudou já tinha sido todo aplicado nas passagens aéreas do Panamá a Havana. Tínhamos ainda o bilhete de volta ao Panamá, mas não adiantava de nada, pois de lá também não teríamos como voltar. O plano da venda dos charutos também não ia nada bem, precisávamos de novas possibilidades.



                              Fui cedo no Palácio de Convenções tentar enviar alguns e-mails, um wi-fi bem vagabundo tinha sido disponibilizado, mas era quase impossível navegar, sendo que abrir o Hotmail era uma das tarefas mais difíceis. Quanto pensei que tinha conseguido, vi que minha conta tinha sido bloqueada. Considerando que o Motopangea estava sendo administrado pelo meu e-mail, incluindo o blog e todos os contatos, me desesperei. Preenchi um formulário com várias informações que eu lembrava de cabeça... Após avaliação, no dia seguinte, a conta foi liberada novamente. Ufa!

                              Voltei às 9 da manhã para casa. Contei a Renan que o Mickey (o rato que vivia em nosso quarto) estava atarracado durante a noite. Fomos a embaixada brasileira tentar algum tipo de ajuda. No caminho, como sempre, fomos vendo, vivendo e pensando na vida cubana. Chegando à embaixada fomos recepcionados com um chá (de cadeira) e depois de muito tempo, a atendente (que não falava português) pediu para que nós escrevêssemos uma carta relatando o que queríamos e que ligássemos mais tarde para saber a resposta. Redigimos uma, uma não, duas. Eu fiz uma pedindo ajuda para as passagens aéreas de volta ao Brasil e Renan fez outra pedindo algum apoio para passar por um consulta médica (de alto custo para estrangeiros).

                              Voltamos num ônibus eterno de uma mente sem lembranças, depois um táxi que custou 1 dólar. Mandamos para dentro nosso vigésimo espaguete em Havana, pegamos o netbook na casa de nossa anfitriã e fomos para o congresso. Ligamos na embaixada, mas ninguém atendeu. Assistimos uma conferência ministrada por um brasileiro, consultor do projeto Palma, em Cuba. Ele falou da aplicação do ensino, aliás, fez uma bela crítica sobre essa questão da utilidade do aprendizado.

                              Encontramos com um representante do MEC, pensamos que ele poderia nos ajudar. Nos enganamos. Dele ganhamos apenas um sorriso de político e um tapinha nos ombros. Vamos falar com o Mateus, diretor da União Nacional dos Estudantes, a UNE, esse sim vai nos ajudar. Tentamos, mas ele disse que a única coisa que poderia fazer seria tentar arrumar um lugar para ficarmos lá na sede da OCLAE (Organização Continental Latinoamericana e Caribenha de Estudantes) onde ele é secretário-executivo.



                              Nosso tempo estava acabando. O céu fechando, ficando nebuloso. O que vamos fazer? Vamos passar a sacolinha amanhã? Porque não, se não tem outro jeito? Esse foi o plano definido por nós para o dia seguinte (o último dia do congresso). Voltamos pra casa desenvolvendo a idéia sobre essa arrecadação para voltar ao Brasil. Na pausa para o jantar, numa das inúmeras tendas, trocamos mais idéias sobre a ilha. Porque as pessoas querem tanto sair daqui? Vimos tantos lugares com tanta miséria e as pessoas não falavam em se mudar. Os cubanos querem sair pois tiveram acesso ao ensino e, conseqüentemente, são mais críticos? Querem sair porque sabem que tem formação superior, o que permite ter um salário melhor num país capitalista? Querem sair porque é praticamente proibido sair? Enfim, bobo é aquele telespectador que tem a resposta na ponta da língua.

                              Pensamos em ligar para a OCLAE, mas não o fizemos. Para finalizar o dia, Renan foi correr e eu, bom, eu não.

                              Saudações cubanas,
                              Ary Neto

                              Comentário

                              • Renan Xavier
                                Fazedor de Chuva
                                • Jul 2011
                                • 404

                                #30
                                CUBA: 8º dia - A hora da verdade
                                13 de março

                                Acordamos com uma missão: Angariar fundos para voltar ao Brasil. Chegamos cedo ao Palácio de Convenções, esticamos a bandeira do Brasil no piso do corredor e espalhamos sobre a bandeira alguns tickets com o nome e banner do nosso projeto. Estrutura montada, passamos toda a manhã contando nossa história aos interessados que paravam diante de nós.

                                Renan foi filmar a apresentação da Daniela (da Unila), enquanto eu fiquei tomando conta da bandeira. Nesse meio tempo, um dos integrantes da comissão venezuelana disse que o Embaixador da Venezuela em Cuba tinha tomado conhecimento do nosso caso e viria conversar conosco. Adiantando um pouco o assunto, a proposta seria nos mandar para Caracas, na Venezuela, e de lá tentarem “nos enviar” para o Brasil. Fiquei feliz com isso. Renan pegou a conversa no meio e também ficou empolgado.



                                Estávamos aguardando, já cogitando a idéia de ir para Caracas, contando os 18 CUC que tínhamos arrecadado até então, quando um homem se aproxima do local onde estávamos e pergunta a outra pessoa – Quem são os brasileiros das motos? Na hora interferi – Sou eu! O homem disse para recolhermos tudo e acompanhá-lo até seu gabinete. Seu tom de voz era amigável, o que me fez crer que se não era o Embaixador da Venezuela, era alguém ligado a ele. Gritei Renan que estava a poucos metros, juntamos tudo meio porcamente, embrulhado na bandeira e o seguimos.

                                Chegando no seu escritório, este homem, o Raul, apresentou sua equipe (cerca de 6 pessoas). Nos convidou a sentar, fechou sua sala e pediu para que contássemos toda a história. Enquanto falávamos e toda a equipe estava sentada ouvindo, Raul andava de um lado para o outro com a mão no queixo e dizendo sempre – Prossiga, prossiga. Quando terminamos, Raul começou a nos exaltar, disse que éramos com Che Guevara, que por sua vez é uma personalidade de extrema importância para Cuba, no entanto, depois do carinho veio o tapa. Disse que Che nunca pediu dinheiro, sobretudo, sob a utilização de uma bandeira – Aqui em Cuba, ninguém pede dinheiro, isso é proibido! Disse que assim, nós estávamos envergonhando nosso país, nossa universidade e o reitor de nossa universidade (o qual ele alegou conhecer). Nesse momento tivemos que intervir, afinal, nosso reitor não nos ajudou em nada. Enfim, pouco relutamos diante do sermão, que veio seguido de uma expressão acolhedora – Agora vocês são os meus filhos! Perguntou nossa idade e ao ouvir a resposta exclamou – Nossa, nunca pensei que teria dois filhos dessa idade agora.

                                Raul ligou na embaixada e marcou uma reunião com a gente para as 15h. Depois nos questionou onde estávamos instalados. Não queríamos contar, uma vez que nossa anfitriã não tinha autorização para hospedar estrangeiros, assim, ficamos com medo de prejudicá-la. Fomos convidados a almoçar no restaurante do Palácio de Convenções. No caminho, em meio aos corredores, encontramos com o professor Olavo, que nos deu os charutos para que nós vendêssemos. Nem tivemos tempo de agradecer como deveríamos, pois Raul e seus funcionários, nos arrastavam com pressa e também não queriam nos perder de vista.

                                Um táxi nos levou para a embaixada, fomos sob a tutela de Camilo, membro da equipe de Raul, mas antes passamos na casa de Letícia, precisávamos mostrar onde estávamos instalados. Não tinha ninguém, Camilo, todo engravatado, membro do governo, abordou os vizinhos a fim de perguntar o exato endereço dali. Todos ficavam com receio de responder, inclusive teve uma mulher que não conseguiu esboçar nenhuma palavra. Renan e eu ficamos enojados. Aquilo era respeito ou medo? Um pouco tensos, voltamos para o carro e seguimos sentido embaixada brasilera.

                                Chegamos e fomos atendidos pela vice-cônsul, a Angélica, que nos instruiu a preencher um formulário (um pedido de repatriação). Que diabo é isso? O que isso vai nos acarretar? Voltaríamos direto de Cuba? Não voltaríamos mais ao Panamá, não continuaríamos na saga de recuperar as motos? Eu perderia algumas roupas que deixei na casa de Ramsés, no Panamá? Ficaríamos fichados no governo? Renan ficou em dúvida, compreendi o porquê, mas não titubeei. De cara, estava perguntando – Onde é que eu assino? Não queria trocar o certo pelo incerto, se ali era uma possibilidade real de voltar ao Brasil, estava disposto a abraçar tal oportunidade.

                                Assinamos! Renan tinha deixado os documentos na casa de Letícia, então ficou acertado dele voltar na segunda para entregá-los. A embaixada ainda deu 100 CUC (o equivalente a 100 dólares) para cada um, a fim de custear nossa espera até a data da vôo. Que maravilha! Voltamos para casa, mas ainda estava fechada... seguimos para o Palácio de Convenções. Era o último dia do congresso, a noite se aproximava e com ela a festa de encerramento. Antes de entrar nos ônibus que levavam os congressistas para a festa, fomos ao trabalho de Letícia pegar a chave da casa para pegarmos nossas mochilas. Nos despedimos da família, apressados, mas com tempo suficiente para o derramamento de algumas lágrimas. Demos 40 CUC à família, 10 referente ao pagamento do último dia e 30 para ajudar no orçamento da casa. Era um dinheiro equivalente a um mês de salário.

                                Corremos para o Palácio de Convenções, o que nos permitiu pegar um dos últimos ônibus para o local da festa. O lugar era imenso, com um grande salão cheio de mesas repletas da comida e no espaço aberto uma grande piscina, bares que serviam cerveja e rum, no palco uma animada banda tocando salsa.

                                Estávamos relaxados, voltaríamos ao Brasil, o congresso havia terminado, a barriga estava cheia... e o copo também. Ficamos conversando com nossa amiga Daniela e mais duas professoras da rede pública de Minas Gerais, falamos muito sobre educação, apropriação do espaço público e extensão universitária.

                                Papo vai, papo vem, esquecemos de ligar na sede de OCLAE, a fim de garantir um local para ficarmos. Também não encontramos mais o Camilo, o que nos deixava de volta a estaca zero, onde iríamos dormir? Acompanhamos Daniela até seu hotel, demos uma de “João sem braço” e ficamos por lá mesmo. Com as almofadas dos sofás, improvisamos duas camas para nós. Adormecemos. Iniciava ali um tempo de espera... não tão monótono quanto pensávamos que seria.

                                Saudações libertárias,
                                Ary Neto

                                Comentário

                                Working...