Ushuaia - Duas Rodas e Um Sonho

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  • sergio pires
    Fazedor de Chuva
    • Aug 2012
    • 125

    #46
    Ushuaia – Duas Rodas e um Sonho
    Cap 28 - Chegando a Ushuaia

    Depois de termos vencido o rípio, as atenções do grupo agora estavam por conta da chegada a Ushuaia *.

    Ushuaia: pronúncia (Espanhol: [us wa ja], é a capital da província argentina de Tierra del Fuego. É considerada como a cidade mais austral do mundo.
    Ushuaia está localizado numa larga baía na costa sul da ilha de Tierra del Fuego, delimitada a norte pela Cordilheira Martial e ao sul pelo Canal de Beagle. Sua população é estimada hoje em cerca de 64.000 habitantes.
    A cidade era originalmente chamado pelos primeiros missionários britânicos, usando o nome Yámana.
    Na primeira metade do século 20, a cidade era centrada em torno de um presídio construído pelo governo argentino objetivando aumentar a população da Argentina aqui e garantir a soberania argentina sobre Tierra del Fuego.
    A prisão era destinada para os reincidentes e criminosos graves, seguindo o exemplo dos ingleses na Tasmânia e os franceses na Ilha do Diabo. A população tornou-se assim forçada por colonos e passou grande parte do seu tempo de construção da cidade, com madeira da floresta em torno da prisão. Eles também construíram uma estrada de ferro que agora é um destino turístico conhecido como o Trem do Fim do Mundo (Tren del Fin del Mundo), a estrada de ferro mais austral do mundo.
    Fonte: Wikipédia.

    Além do descrito no Wikipédia acima, Ushuaia era o nosso destino, a nossa razão de termos saído de nossas casas e viajado durante tanto tempo.
    O cenário muda completamente, montanhas começam a aparecer, vegetação densa e verde fazem parte do cenário.

    - Vejam estas árvores mortas á sua direita, alerta o Chico.
    - Quanto estive aqui em 2002 não eram tantas, mas agora vejo que aumentou bastante a área morta da floresta, deste jeito, daqui a pouco vai desaparecer.
    - É um besouro que está matando esta floresta, explica o MacGyver.
    - Eu vi um alerta lá na aduana Argentina, num cartaz.
    - Eles estão combatendo a praga, mas pelo visto, estão perdendo a guerra.

    continua....

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    • sergio pires
      Fazedor de Chuva
      • Aug 2012
      • 125

      #47
      Ushuaia – Duas Rodas e um Sonho
      Cap 29 - Conhecendo Ushuaia


      Ushuaia é uma cidade calma, sem atropelos e o tempo parece passar mais devagar e por ser um ponto de parada dos grandes velejadores, pode-se dizer que a cidade respira aventureiros.
      Some-se a isto as horas a mais que a cidade permanece com luz natural, pois em janeiro, mês que lá estivemos, a noite chega apenas depois das 23:00 horas, e as 04:00 horas da manhã, já é dia de novo.

      Sua arquitetura varia entre construções de madeira, muito comuns naquela região, casas em alvenaria mais antigas e muito bem preservadas, em que moradores ilustres fizeram morada, assim como prédios que deram origem a cidade, como o museu naval e a antiga penitenciária.
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      Hoje, era dia de curtirmos a cidade por inteiro, como turistas mesmo, então, entramos no clima e andamos a pé, bem devagar, observando o movimento, as lojas e os bares.

      UMA VISITA AO MUSEU NAVAL E AO PRESÍDIO
      Instalada na parte alta da cidade, preserva em seu interior algumas alas, exatamente como eram as celas individuais dos presos, os locais de refeição, sala da guarda e a área administrativa.
      É um prédio que chama a atenção por sua arquitetura e a robustez de suas largas paredes.
      A visitação pode ser guiada ou então feita pelo próprio visitante, sem necessidade de muitas explicações, já que há muitas informações disponíveis em painéis espalhados ao longo dos corredores.
      Preferimos a segunda opção, sem guia.
      Visitamos o prédio no verão, á luz do meio dia mas mesmo assim, as celas são frias, muito frias.
      Imagino aquilo no inverno como deveria ter sido á época em que hospedava os criminosos perigosos e reincidentes que eram para lá despachados.
      A fuga, como explicada nos cartazes, era praticamente impossível de êxito, tendo em vista que naquela época não existiam estradas e atravessar a cordilheira, com frio e mata fechada, ninguém conseguia e como a Terra del Fuego é uma grande ilha, e naquela época, deserta, não havia razão para alguém querer sair daquele lugar.
      O condenado era enviado para lá e a única alternativa que tinha, era respeitar as leis impostas no presídio, trabalhar na construção da estrada de ferro, e ajudar na construção da cidade, usando a madeira da própria floresta que cerca a cidade.
      Nas paredes de algumas celas, ainda hoje estão algumas marcas, que foram preservadas.
      E também o regulamento interno, rigoroso, que cada preso tinha de cumprir.
      Havia leis e regras para tudo.
      Não deve ter sido fácil a vida naquele local.
      O tipo do uniforme do preso, amarelo com listras azuis, pode ser comprado nas lojas de suvenirs no centro.
      Na rua principal, bem debaixo da agencia dos correios, um muro pintado retrata os presos sendo levados para o trabalho forçado.


      NAVEGANDO PELO CANAL DE BEAGLE*
      Para o Canal de Beagle, existe uma série de opções de passeio de barco, que duram entre 2 horas até 8 horas. Barcos grandes, e outros menores.
      Os tickets podem ser comprados na hora, nas várias tendas de venda em frente ao porto. Geralmente nos hotéis, eles distribuem um ticket, que dá direito a um bom desconto na hora da compra.

      * O Canal de Beagle é um estreito que separa as ilhas do Arquipélago de Tierra del Fuego, no extremo sul da América do Sul.
      Ele separa a Isla Grande de Tierra del Fuego, a partir das ilhas Nueva, Picton, Navarino, Hoste, Londonderry, Stewart e outras ilhas menores ao sul. Sua porção oriental é parte da fronteira entre Chile e Argentina, mas a parte ocidental pertence ao Chile. O Canal de Beagle tem cerca de 240 quilômetros (130 milhas náuticas; 150 Km) de comprimento e tem cerca de 5 km (3 milhas náuticas; 3 Km) de largura em seu ponto mais estreito.
      A maior cidade do canal é Ushuaia na Argentina, seguido de Puerto Williams, no Chile, dois dos povoados mais autral do mundo.
      O canal foi nomeado depois que o navio HMS Beagle durante sua pesquisa primeiro hidrográfico das costas do sul da América do Sul, que durou de 1826-1830.
      Durante a expedição, sob comando geral do comandante australiano Philip Parker King, capitão do Beagle, Pringle Stokes cometeu suicídio e foi substituído pelo capitão Robert Fitz Roy. O navio repetiu uma segunda viagem do Beagle, sob o comando do capitão FitzRoy, que levou Charles Darwin, dando-lhe oportunidades como um naturalista amador.
      Darwin teve sua primeira visão de geleiras quando chegaram ao canal em 29 de Janeiro de 1833, e escreveu em seu caderno de campo "muitas geleiras berilo azul mais bonito ainda com contraste com a neve."
      Fonte: Wikipédia

      Escolhemos um passeio intermediário, de 5 horas em um catamarã, muito confortável e suficiente para navegar pelo histórico canal e conhecer um pouco da fauna que habita as diversas ilhas espalhadas pelo canal.
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      A divisa de país, ao longo do canal, é feita por bóias flutuantes, colocadas bem ao meio, separando a Argentina com o Chile.
      Quase ao final do canal, avista-se Puerto Willians, uma base militar chilena.
      Soubemos que há planos do governo chileno de em 3 anos, inaugurar a Ruta Austral, tendo como o seu final, a cidade de Puerto Willians.

      Ushuaia poderá perder o título de cidade mais austral do mundo, visto que Puerto Willians está a uns 10 km mais ao sul.
      Isto se hoje a vila militar crescer e se tornar uma cidade e a Ruta Austral chilena for inaugurada, como previsto.

      O mais bonito do passeio, sem duvida é o regresso a Ushuaia, onde a visão deslumbrante da enseada, tendo ao fundo as montanhas brancas e a cidade abaixo é de tirar o fôlego e podemos constatar o significado da palavra Ushuaia, que é: “Baia que adentra em direção ao Por do Sol”

      Poder ver e conferir a mesma visão que Charles Darwin teve em 1833, é de fato algo incrível e maravilhoso.

      UM PASSEIO PELO CENTRO
      A San Martin é a rua principal no centro e abriga muitas lojinhas que vendem roupas, lembranças e acessórios, em um comércio bem típico
      Também destacamos os excelentes restaurantes, que servem o famoso “cordeiro patagônico”, assado ao melhor estilo dos antigos colonizadores, realmente um prato delicioso e que não deixamos de conhecer.
      Também a culinária especializada em frutos do mar foi visitada por parte do nosso grupo e mereceu os melhores elogios.

      O VOO PANORÂMICO
      Um passeio aéreo é uma boa opção para conhecer melhor a baía, com uma visão privilegiada lá do alto.
      O aeroclube de Ushuaia fica bem em frente á cidade, e é banhada pelo canal de Beagle. Era o antigo aeroporto da cidade e onde se pode negociar e fechar o pacote turístico.
      Na volta do vôo que fizeram, o Chico e Lele conseguiram com o administrador local uma permissão especial para tirarmos uma foto com as motos posicionadas na cabeceira da pista de decolagem.
      Ficaram lindíssimas as fotos, com as motos perfiladas sobre a pista e a cidade de Ushuaia, como painel de fundo.
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      O TELEFÉRICO
      O teleférico leva o turista até o Glaciar Martial* a 1.050 m de altura, e lá em cima, se pode conferir uma vista privilegiada da cidade e da baía.

      *O Glaciar Martial está localizada a 1.050 metros acima do nível do mar e é a fonte de água potável a mais importante de Ushuaia. Seu nome foi homenagem ao navegador Luis Fernando Marcial, chefe da expedição francesa em 1883, que chegou na área para fins científicos
      Fonte: Internet

      Se tiver disposição para caminhar um pouco depois do ponto de desembarque, pode-se tocar a neve acumulada ainda do inverno.
      Esta opção foi feita pelo Chico e Lele, e também pelo Alfredo e Ivan.
      Mas é bom levar um bom agasalho, pois o frio lá em cima é de matar, mesmo no verão.
      O Chico foi com roupa mais leve e quase congelou.



      TREM DO FIN DEL MUNDO.
      O Trem do Fim do Mundo, operado pela Ferrocarril Austral Fueguino, foi construído pelos presidiários quando lá viviam, e hoje transporta muitos turistas morro acima, com diversas paradas e pontos de observação ao longo do trecho e tem o “mote” de ser a linha férrea mais austral do mundo. O passeio demora 2 horas.
      Novamente, Chico e Lele ao regressarem, conheceram o administrador e propuseram algo inédito: fotografar locomotivas e motos, lado a lado.
      E o dono do local topou, e colocou todo o staff para preparar o local.
      Mas tudo tinha de ser feito no espaço de tempo entre um trem e outro.
      E lá fomos todos ao local na hora marcada.
      Difícil acesso, pois tivemos que colocar as motos nas plataformas de embarque, subindo por uma rampa lateral, apertada, mas assim mesmo, 5 motos foram posicionadas (Chico, Lele, Toninho, MacGyver e Joaquim) e muitas fotos batidas com toda equipe de apoio do Ferrocarril, incluindo maquinistas, pessoal da administração e os mecânicos.
      Trocamos de lugar com eles no comando das locomotivas e eles, sentaram nas nossas motos.
      A alegria de cada um, estampada no rosto, foi a lembrança que trouxemos daquele local.
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      CORREIO DO FIN DEL MUNDO
      A Bahia Encenada vale a pena ser visitada.
      Um lindo lago ás margens do canal de Beagle, mais ao sul, e onde se encontra uma agencia dos Correios Argentinos.
      É a agencia mais austral do mundo, e deve ser mesmo.
      Levamos os nossos passaportes e lá, ganhamos um carimbo especial marcando nossa presença.
      Pode-se enviar dali um postal.
      Eu mandei um para minha família, que só chegou uma semana depois que havia retornado para casa.
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      Ushuaia tem muito a ser visto e visitado, mas tínhamos apenas 2 dias livres, então fizemos os pontos principais e valeu a pena.

      Agora, faltava visitar Lapataia, o Fim do Mundo, o fim da Ruta 3, nosso objetivo final.

      Uma surpresa estava me aguardando, e eu também tinha uma surpresa guardada para meus amigos companheiros de viagem.
      Última edição por sergio pires; 28-12-12, 17:08.

      Comentário

      • sergio pires
        Fazedor de Chuva
        • Aug 2012
        • 125

        #48
        Ushuaia – Duas Rodas e um Sonho
        Cap 30 – Enfim, o fim do mundo


        Saímos cedinho do hotel com destino a Bahia Lapataia*, que situa-se apenas 27 km mais ao sul de Ushuaia.

        * Bahia Lapataia é uma baía localizada no Canal de Beagle no Parque Nacional da Terra do Fogo, Distrito de Tierra del Fuego, Argentina. Ali é o final da Rota Nacional N ° 3, na Argentina.
        Fonte: Wikipédia

        Havia chovido de madrugada e o tempo apresentava-se bastante frio e fechado, com anúncio de garoa, temperatura de 6o. C.

        Pilotamos bem devagar, e passamos ao longo da avenida que margeia o Canal de Beagle e que converge mais a frente, com a Ruta 3. Neste ponto da ruta, termina o asfalto e começa o rípio, indo assim até Bahia Lapataia, onde termina.

        Com a chuva e a garoa que recém havia caído, a estrada se tornou mais perigosa e escorregadia, principalmente nos locais em que as arvores impediam a entrada da luz do sol.

        A fila de motos esticou um pouco, com alguns andando mais á frente e outros mais para trás.

        - Cada um vai na velocidade que quiser, vamos curtir o passeio e as paisagens, sugeriu o Chico.
        - Não tem erro, bastando seguir em frente até o final da ruta.
        - Cuidado com a pista molhada, é muito escorregadia, principalmente nos lugares de sombra.

        E fomos indo devagar, apreciando os picos nevados á direita, os relances do canal de Beagle, que podia ser visto através da vegetação à esquerda, mas sem nos descuidar da pista de ripio molhada, pois ninguém queria comprar um terreno ali, não ali no fim do mundo.

        A primeira surpresa

        Muito próximo da chegada do final da Ruta 3, com a fila já bem esticada, me encontrava sozinho, em um trecho maravilhoso da estrada.
        No meu lado direito, um riacho de águas transparentes, vindas das montanhas geladas.
        No meu lado esquerdo, a vista das ilhas do canal de Beagle.
        À minha frente, o esplendor de montanhas, com seus picos brancos cobertos e bases verde escuro.
        Parei a moto, desliguei o motor e fiquei observando toda aquela beleza á minha volta.
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        Ouvia somente o barulho ao longe dos motores das motos dos amigos mais á frente, e nada mais.
        A não ser o som da água, do vento, da paz.
        Então, naquela imensidão de floresta, rios e cordilheiras cobertas de neve, avistei ao longe uma gaivota, voando alto, mas em minha direção.
        De repente, abriu as asas, deu um vôo rasante, passou por mim e me direcionou o olhar, como que me mandando uma mensagem.
        Na mesma velocidade que desceu, subiu novamente e voou em direção ao mar.
        Naquele momento, tive certeza absoluta que era a minha querida Nona que descia do céu e veio me visitar.

        A Nona, que durante toda minha infância e grande parte de minha vida foi minha grande incentivadora, a pessoa que acreditou em mim e foi fundamental para minha formação e por quem tenho um carinho imenso.
        Que instante mágico foi aquele, onde me lembrando dela, me lembrei de toda a minha vida, e de minha família.
        Lembrei do meu começo pobre, das lutas estudantis, da luta para me formar, da luta da vida.
        Me lembrei da minha querida Xu, como começamos, como evoluímos, e como nos amamos tanto.
        Lembrei do meu filho e da minha filha e de tudo o que temos e vivemos, das alegrias e também o quanto temos a viver pela frente.
        Não estava ali buscando nada, pois eu já tenho tudo, pensei.
        De minha nona querida, muitas saudades senti naquele momento e ainda pude ver, lá ao longe, a gaivota voando, feliz, rumo ao desconhecido do mar, do Canal de Beagle.

        Foi para mim, o momento mais emocionante de toda esta viagem, e só por ter sentido toda aquela emoção em um rastro de tempo, já tinha valido a pena todo o esforço enfrentado para estar ali.

        Dei a partida na moto, e segui em frente.
        Uma curva a mais e uma pequena reta e ao fundo e a chegada ao fim.
        Com 12 lascas de madeira cravadas no chão, pintadas de preto e amarelo, a marca do final da Ruta 3.
        Ao fundo, a placa que eu tinha visitado tantas vezes em fotos de viajantes que por lá passaram.
        A placa que marcava o final da nossa viagem de ida, nosso objetivo final, bem ali na nossa frente:

        “Parque Nacional
        Tierra del Fuego
        BAHIA LAPATAIA
        República Argentina
        Aqui finaliza La Ruta Nac No. 3
        Buenos Aires 3.079 km
        Alaska 17.848 km”
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        Tiramos fotos, muitas fotos, em pé e sentado nas motos.
        Coincidentemente chegou também a turma do PHD Rocha Jacaré, que viajava desde o Paraná com a família e mais dois amigos e que havíamos os encontrado várias vezes na estrada.

        Mas ali, ainda não era o fim do mundo.
        Caminhando um pouco mais por uma trilha bem pavimentada, a visão exuberante do Canal de Beagle marca o fim da América.
        Depois dali, mar e a Antártica gelada.

        Enfim, o fim do mundo, fim da América, último pedaço de terra desta nossa América sofrida e ali era o ponto final onde pode ser acessada de moto ou de carro.
        Tiramos algumas fotos e gravamos uma mensagem que seria enviada á noite a todas as nossas queridas.


        A segunda surpresa

        De volta ao local onde as motos estavam estacionadas, seria a minha vez de surpreender meus companheiros de viagem.
        Meses antes, durante a preparação da viagem, quando estávamos pensando em roupas, manutenção, roteiros etc, eu pensava em algo que pudesse marcar nossa chegada ao fim do mundo.

        Preparei então, 9 envelopes, cada um contendo um “Taú de São Francisco”, preso a um cordão, cada cordão continha três nós.

        * O TAU é uma cruz com a forma da letra grega TAU (T). Além de ser um símbolo Bíblico é a última letra do alfabeto hebraico e a 19ª do grego, derivado dos Fenícios e correspondente ao "T" em Português.

        O Tau, é a convergência das duas linhas: verticalidade e horizontalidade, significam o encontro entre o Céu e a Terra. Divino e Humano.

        Em 1215 o Papa Inocêncio III prega um novo símbolo cristão e São Francisco, estando presente nesta reunião, assume o Tau como símbolo de sua Ordem Religiosa: a Ordem dos Frades Menores.
        Fonte: Internet

        Chamei a todos para se reunirem em volta de minha moto, abri o maleiro traseiro, e a cada um entreguei o envelope.

        Ao abri-los, expliquei a todos sobre o Tau de São Francisco, e quais eram os significados que eu havia dado àqueles três nós do cordão:

        - O primeiro nó significará: A Humildade.
        - O segundo nó significará: A Paciência.
        - O terceiro nó significará: A Perseverança.

        E então, convidei a todos, para darmos o quarto nó, no cordão do Tau de São Francisco.

        - Este quarto nó que estamos dando agora vai significar: A Amizade.
        - Que possamos nós, sermos eternamente amigos e toda vez que um ou outro tiver dúvida desta amizade, que olhemos para este cordão e lembremos deste quarto nó que demos um dia, neste lugar.

        Meses depois, relembrando esta passagem, o Joaquim enviou num email:

        ... O "Taú de São Francisco" foi o batismo de nossa "Confraria do Fim do Mundo". Se todos nós o respeitarmos, independente de toda a maravilha que foi nossa viagem, teremos construído algo de muito bom e muito sólido!
        Grande abraço,
        Joaquim

        Liguei a moto, olhei uma ultima vez para aquele local.
        Era hora de iniciarmos o retorno.
        Impossível não dizer do sentimento muito bom que sentia, um sentimento de objetivo alcançado.
        Foi muito emocionante ter chego ao fim do mundo.
        Jamais imaginaria que dois acontecimentos pudessem marcar tanto uma viagem como estes narrados neste capítulo.

        Comentário

        • sergio pires
          Fazedor de Chuva
          • Aug 2012
          • 125

          #49
          Ushuaia – Duas Rodas e um Sonho
          Cap 31- A greve na Aduana


          No jantar na noite passada, a opinião de todos é que a viagem até o fim do mundo tinha valido muito a pena.
          Era hora de iniciarmos o regresso para casa, seguindo a programação que havíamos preparado previamente.
          Nossa próxima parada, Punta Arenas a 637 km, para conhecer a cidade e a zona franca lá existente.
          Saímos bem cedo de Ushuaia, depois de dois dias conhecendo a cidade e os principais pontos turísticos.
          Na garagem, ao acomodar as bagagens no tour pack, o MacGyver sentiu uma forte dor na região das costas o que preocupou a todos nós.
          Até aquele momento, nenhum de nós havia sentido qualquer problema relacionado a saúde, nada, então todos ficamos preocupados com o nosso companheiro.
          Subimos para o café e para nossa alegria, foi só um susto, nada que pudesse comprometer nosso retorno e o MacGyver estava inteiro.
          Saímos em formação, com a visão exuberando do mar calmo do canal de Beagle á nossa direita.
          Na subida da cordilheira em direção ao Paso Garibaldi, conversamos pouco, além de ser muito cedo, a temperatura baixava 1o.C a cada 10 km que percorríamos.
          Saímos de Ushuaia com o termômetro da moto marcando 12o.C e ao passar o Paso Garibaldi, meu termômetro marcou 4,5o.C, a menor temperatura de toda a viagem.
          Pelo retrovisor, ia observando aos poucos a cordilheira ficar menor, menor até desaparecer de vez.
          As florestas exuberantes iam dando lugar novamente á vegetação rasteira da patagônia.

          Chegamos na fronteira Argentina, fizemos a aduana de saída e uma notícia nos deixou a todos preocupados.
          Um cartaz fixado no guichê avisava:

          - Aduana Chilena “en paro” até as 24:00 horas.

          Era só o que nos faltava, uma greve na aduana chilena e seríamos obrigados a retornar até Rio Grande, caso não conseguíssemos passagem.

          De novo, o rípio se apresentava a nós, mas já não nos assustava tanto, pois além de nossa “experiência” anterior, os ventos aquela hora da manhã, não soprava tão forte.
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          Rapidamente chegamos a aduana chilena, uma longa fila de carros aguardando antes do portal e o pressentimento de todos é que de fato, eles estavam em greve.
          Paramos as motos, entramos na aduana e uma fila enorme de pessoas dos dois lados, dos que estavam entrando e dos que desejavam sair.
          Nenhuma movimentação nos guichês de atendimento.

          - Vamos ficar aqui, disse o Chico, uma hora eles vão nos atender.

          E ficamos na fila, que não parava de aumentar.

          Nesta movimentação de um lado a outro, preenchendo (de novo), todos aqueles papéis que já relatamos, não percebi que deixara cair meu porta documentos que segurava preso debaixo do braço.
          Dentro dele haviam o passaporte, documento da moto, papeis da aduana argentina e todo meu dinheiro.
          Estava debruçado sobre um balcão, do outro lado preenchendo a documentação quando me dei falta do porta documentos.
          Olhei para traz, e uma simpática velhinha vinha em minha direção, sorriso no rosto e me disse com voz doce:

          - Vi cuando le cayó su cartera.
          - Debe estar lleno de dólares no ¿

          Respondi com um sorriso no rosto, agradecido pela gentileza e pela honestidade dela.
          Se não tivesse me devolvido, teria tido sérios problemas naquele dia.

          De súbito, os fiscais aduaneiros resolveram atender o público que ali esperava, e avisaram que estariam abrindo apenas 30 minutos.

          Correria geral, todos queriam ser atendidos e eram muitas pessoas.
          Nós todos estávamos em uma única fila, mas a morosidade no atendimento era grande e ainda intercalavam um atendimento individual, com atendimento de agentes de viagens, que estavam com ônibus aguardando.
          O pessoal todo passou, apenas faltavam eu e o MacGyver, quando o fiscal pegou meus documentos, botou sob o balcão e me falou:

          - Solo un minuto.
          - Volto en un ratito de tiempo.

          O “ratito de tiempo” dele durou uma hora.
          O pessoal lá fora aguardando, e nós dois ali, primeiros da fila, mas sem saber ao certo se iríamos ou não sermos atendidos e muito menos a que horas isto iria ocorrer.

          Depois, mais tarde, fiquei sabendo que o Chico havia chamado o guarda do portal, e dito a ele que estávamos em 9 motos e que dois companheiros estavam lá dentro aguardando e que de nada adiantou ele liberar 7, se dois ainda permaneciam lá dentro.
          O guarda então foi lá dentro e conversou com o chefe da aduana, que nos atendeu em seguida.

          De novo, o rípio pela frente, mas agora com ventos muito mais fracos.
          Para complicar, só o movimento de carros, ônibus e caminhões era mais intenso, pois além do problema da aduana que liberava “em lotes”, era dia útil e o movimento, principalmente de caminhões, era maior do que quando passamos na ida.

          Vencemos o trecho sem problemas maiores, a não ser a moto do Toninho, em que um parafuso soltou e ele perdeu o pedal das marchas, problema resolvido rapidamente com o kit de ferramentas.
          E a moto do Guanáco, que vazou todo o óleo da suspensão dianteira, mas que conseguiu tocar sem problemas, só andando um pouco mais devagar.

          Chegamos novamente ao Estreito de Magalhães, agora quase sem vento algum, dia claro e pudemos curtir a passagem muito melhor do que na ida e não tivemos qualquer dificuldade em embarcar ou desembarcar.
          Na travessia do estreito, ficamos conhecendo uma professora francesa que viajava sozinha de bicicleta e estava retornando de Ushuaia, com destino a Puerto Montt, no Chile.
          - Como é que pode, uma moça de bicicleta, naquele fim de mundo, sozinha?
          - Nos disse que pedalava até cansar, e aí, armava sua barraca, fazia a comida e dormia.
          - Viajava já há vários dias, e tinha ainda um bom tempo pela frente.

          Vimos, depois no Chile, muita gente fazendo o trecho de bicicleta, seja marido e mulher, ou solitários, a maioria europeus, que escolheram aquela região para passar suas férias.
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ID:	161991
          - Cada um viaja como gosta, pensei.

          Logo após sair da balsa, pegamos a Ruta em direção a Punta Arenas**, no Chile, onde chegamos no final da tarde, já com o vento mais forte.
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Name:	31.3 -  Rumo a Puerto Montt.jpg
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ID:	161992
          *Punta Arenas é uma comuna e cidade portuária do Chile. Está localizada na Península de Brunswick e nas proximidades do Estreito de Magalhães, na Patagônia.
          Fundada há 161 anos, em 18 de dezembro de 1848, 62 quilômetros a norte do antigo povoado de Forte Bulnes.
          Antes da abertura do canal do Panamá em 1914 foi o principal porto na navegação entre os oceanos Pacífico e Atlântico, por sua localização geográfica.
          Punta Arenas possui uma população de 150.826 pessoas (2008). Seus habitantes têm raízes européias, principalmente croatas, espanhóis, Suíços, iugoslavos e galeses, além de alguns moradores de Chiloé que se mudou para o sul de Punta Arenas.
          Fonte: Wikipédia.

          Novamente, uma excelente negociação do hotel, que hospeda um grande cassino, feito pelo Alfredo e Beber, nos garantiu uma excelente noite de sono.
          Amanhã, dia de comprar presentes para as queridas.

          Comentário

          • sergio pires
            Fazedor de Chuva
            • Aug 2012
            • 125

            #50
            Ushuaia – Duas Rodas e um Sonho
            Cap 32 - Um teclado em “Español”


            A zona franca em Punta Arenas abre às 10:00 h da manhã, então marcamos para sair do hotel as 09:30 horas.
            Fizemos algum cambio ali perto mesmo e rumamos para o centro comercial da zona franca, que fica na saída da cidade.
            O plano era ficar nas compras até as 13:30 horas e depois seguir para Puerto Natales*, 247 km ao norte.

            *Puerto Natales é uma cidade da Patagónia Chilena, situada a 247 km a noroeste de Punta Arenas. É a capital da comuna do mesmo nome e da província de Última Esperanza na região de Magalhães e Antárctida Chilena.
            É o principal ponto de entrada para os visitantes do Parque Nacional Torres del Paine e término da linha marítima proveniente de Puerto Montt.

            O Buatim, não via a hora de chegar ás lojinhas e eu não sei até hoje, como conseguiu colocar tantos presentes para a sua querida nas malas da sua moto, sendo que o Ivan dividia espaço com ele.
            A zona franca é bem movimentada e os preços razoáveis.
            Marcamos para sair as 13:30 h e cada um saiu procurando o que gostaria de comprar.
            Eu havia visto o Netbook do Chico e pensei se achasse a um preço razoável, faria negócio.
            Achei e com ótimo preço, comparativamente ao Brasil.

            - Tem uma ótima configuração, diz o MacGyver que me acompanhava.
            - E o preço está muito bom também, melhor até que o preço hoje nos EUA pois estive lá mês passado, e o preço era mais alto, então o preço aqui está muito bom.

            E muito melhor que no Brasil, pensei...

            Entramos na loja, negociamos um desconto adicional e fechei o negócio.

            E sabe com é, quando você acha algo bom e está em um grupo de amigos, vai logo contar a todos eles o seu “achado”.
            Enquanto o funcionário fazia a instalação dos softwares no meu Net, fomos dar uma volta e encontramos o Beber e o Joaquim caminhando juntos.
            Não haviam comprado nada ainda.

            - Joaquim e Beber, comprei um Netbook,
            - Excelente configuração, ótimo preço, ótima marca.

            E o MacGyver, confirmando tudo.

            - Ah é, onde?, de que marca?, vou comprar um pra mim também, diz o Beber.
            - Se for o que você está dizendo, é capaz de eu também comprar um para mim, diz o Joaquim.

            E lá fomos nós, rumo á loja para negociar agora, um “pacote de Netbooks”.

            Pechinchamos mais um pouco e o vendedor fez um desconto melhor e nos deu alguns presentes.
            Pronto, fechamos 3 Nets de uma só vez.
            Nem bem terminamos a negociação, chega o Chico.
            Vendo aquele monte de Nets em cima da mesa, todos sendo configurados com o que havia de mais moderno em termos de softwares, não se agüentou.

            - Ei, também quero um para mim.

            O vendedor abriu um sorriso de orelha a orelha, afinal quando é que venderia 4 Netbook ao mesmo tempo, em menos de meia hora?
            Pagamos no cartão.

            Nesta, chega o Ivan

            - Pessoal, não quero estragar o negócio de vocês, mas geralmente o teclado em espanhol não tem acentuação e algumas letras do alfabeto português.
            - Não sei, vocês viram isto?
            - Veja, não quero atrapalhar, só ajudar.
            - O Ivan, não se preocupe, tudo vai dar certo, eu disse.

            Mas eu disse isto da boca para fora, pois de fato, já estava é preocupado com o que o Ivan havia dito...

            De fato, não tínhamos visto este “detalhe”, mas os quatro aparelhos já estavam pagos, em fase final de configuração e não havia como “cancelar a compra” àquela altura

            Então foi meio que dizer assim:

            - Ô Ivan, seu estraga prazer, vai procurar sarna para se coçar em outro lugar, pois já fizemos caca aqui que chega.
            - E não nos tire nossa alegria e nos faça pensar que compramos um negócio que não vamos usar no Brasil.

            O fato é que o Ivan tinha razão, e o teclado era mesmo em espanhol.

            Algumas teclas não existiam, pontuação nada, não tinha “ç” e para digitar “@”
            tínhamos que usar 3 dedos conjuntamente e digitar ALT + CTL + 62. tudo junto.
            Uma loucura!


            Por hora, estávamos felizes da vida com a nossa compra, eu mais ainda, pois era para minha querida.

            - Nem vou dizer a ela este detalhe, pensava enquanto pilotava a moto.

            O Joaquim me acusou de ter induzido ele a comprar

            - Comprei no impulso.
            - Eu nem estava querendo comprar e foi Pires que me induziu a fazer a compra.
            - Vou colar uma fita crepe no teclado para guardar onde estão os acentos...

            E o Chico, resmungava que foi ludibriado duas vezes, primeiro por nós três e depois pelo vendedor:

            - Como vou dar um presente para minha querida cujo teclado é em espanhol?
            - Ela vai querer ficar com o meu e me obrigar a ficar com este aqui.

            O fato é que nos dias seguintes e até o final da viagem, usamos muito os Netbooks e só nos arrependemos do porque não havíamos comprado antes, antes até de sair de viagem.

            Fomos motivo de muitas risadas por parte do restante do grupo, por nossa compra de aparelho com teclado em espanhol quando assistiam digitarmos a frase, e ficarmos na tentativa e erro, até acertar o sinal correto.

            O problema seria resolvido bem mais tarde, quando chegamos ao Brasil e entregamos na mão de um “especialista”, que baixou um programa e substituiu algumas teclas e hoje, ele está “bem parecido” a um adquirido aqui no Brasil.

            Partimos as 14:00 horas, com meia hora de atraso, e com o Toninho já nervoso e afirmando que atrasamos meia hora a partida.

            Tudo culpa dos Netbooks Espanhóis, visto que o técnico demorou mais tempo do que o previsto para instalar os softwares.

            O trajeto, de 247 km até Pueto Natales seria vencido sem problema algum, não fosse a forte ventania que nos pegou na metade do trajeto em diante.
            Muito forte mesmo e agora, diferentemente dos ventos enfrentados até ali, vinha de todos os lados, com você se sentindo como se estivesse dentro de um liquidificador.
            O capacete parecia que seria arrancado da cabeça, tamanha era a força que o vento exercia sobre ele.
            A moto, não tinha direção alguma, se esperava de um lado, vinha de outro, pela frente, enfim, uma grande dificuldade em pilotar.
            Com um vento forte assim, o consumo da moto sobe muito, e chegamos ao posto de abastecimento na entrada da cidade, no limite do combustível.

            Mas chegamos todos bem, procuramos logo um hotel e nos registramos.
            A noite, jantamos em um restaurante espanhol indicado pelo Lelê, muito bom.
            No dia seguinte, iríamos conhecer o Parque Nacional Torres Del Paine, orgulho do Chile e um dos locais mais lindos da América.
            Desta vez, coube ao Guanáco alugar a van que nos levaria ao passeio, e tudo acertado para a manhã seguinte, sairmos as 08:00 h em ponto.

            Comentário

            • sergio pires
              Fazedor de Chuva
              • Aug 2012
              • 125

              #51
              Ushuaia – Duas Rodas e um Sonho
              Cap 33 - A casa dos Condores


              Amanheceu com muito frio em Puerto Natales com temperatura próxima dos 10o.C, e todos já estavam devidamente preparados e na hora marcada, para saída da viagem de van que faríamos ao Parque Nacional Torres del Paine*.

              * O Parque Nacional Torres del Paine é um parque chileno localizado na Região de Magalhães ao sul da Patagónia chilena.
              É considerado um dos parques mais impressionantes do sul do Chile, e um dos lugares prediletos dos amantes da natureza.
              Fundado como parque no final da década de 1950, foi declarado Reserva da Biosfera pela UNESCO em 1978.
              Tem uma área de aproximadamente 242.000 hectares, na qual se encontra a cadeia montanhosa Del Paine, com as mundialmente famosas Torres del Paine e os não menos conhecidos Cuernos del Paine. Lagos, rios, cascatas e glaciares estão em perfeita harmonia no parque.
              Fonte: Wikipédia

              O trajeto seria de 42 km em pista pavimentada e o restante, aproximadamente 90 km seriam de rípio.
              Andamos alguns km, e uma surpresa muito agradável, pelo encontro de um rebanho de ovelhas, sendo manejadas por 2 pastores e 4 cães que cruzavam a pista e faziam a troca de pastagem.
              Paramos a van e ficamos observando o trabalho conjunto cavalo/homem e cão na condução dos animais.
              Que coisa maravilhosa!
              As ovelhas avançam de forma circular e vão se espalhando com muita facilidade, então, os cachorros ficam atentos a cada uma que se desgarra do rebanho.
              De imediato e com extrema habilidade, o cão reconduz o animal desgarrado junto ás demais.
              O conjunto cavalo/homem praticamente não age neste aspecto, apenas dá a direção a seguir ao rebanho, que os seguem. Cabe aos cães, ordenar o deslocamento.
              Ficamos observando o balé das ovelhas subindo as encostas, os cães a ajudar quem se perde, e tudo isto, bem próximo ao acostamento onde estávamos estacionados.
              Linda paisagem, montanhas ao fundo, imensa planície verde a frente e aquele mar de ovelhas sendo conduzidas pelos pastores e seus cães.
              O pastor e seu rebanho, o homem se esforçando para não perder nenhum membro, e as ovelhas, tendo o líder a seguir.
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ID:	161996
              Dali saímos e nem bem andamos 10 km, e outra surpresa nos aguardava.
              Desta vez, era uma boiada sendo conduzida pela estrada pavimentada, de uma fazenda a outra.
              Da mesma forma, o conjunto formado por homem/cavalo/cão.
              Na união das habilidades, o êxito do trabalho bem executado.

              - É o manejo da pastagem, explica o Toninho.
              - Tem de ser feita periodicamente, pois o pasto precisa de tempo para recuperar-se.
              - Estão mudando de pastagem e são da raça Hereford.

              Impossível contar o numero de animais, mas estimamos em mais de 300 cabeças de gado sendo conduzidas por 3 peões e alguns cães.
              As vacas, a maioria delas com cria pequena, e o mais incrível, cada bezerro chamando a mãe, com um berro.
              Então, imaginem um local isolado, silencioso como aquele, uma planície verde e enorme e aquela imensidão de animais tomando conta da pista, e cada bezerro chamando por sua mãe.

              - Cada vaca reconhece o seu bezerro pelo berro, nos explica o Toninho.

              E a mãe, ao perceber que o bezerro se desgarrava um pouco, imediatamente dava meia volta, se certificava que o mesmo estava perto, para só então seguir em frente.

              Tiramos muitas fotos e ficamos ali pelo menos um 15 minutos assistindo a cena fantástica, enquanto devagarzinho, a van ia abrindo caminho no meio da boiada.
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Name:	33.2 - Boiada Chilena.jpg
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ID:	161998
              Á medida que avançávamos, agora já no rípio, ao longe íamos avistando a cadeia de montanhas chamadas “Torres del Paine”, que fica dentro de um parque nacional.
              O motorista da van nos diz que o dia era especial e iria nos proporcionar lindas imagens.

              - Voces tuvieron la suerte de venir hoy, porque ayer la niebla impidió la vista de la montaña, pero hoy en esta muy buena.

              De fato, o dia estava maravilhoso, céu azul e poucas nuvens o que nos permitia uma visão espetacular da cadeia de montanha que formam o complexo.
              Paramos diversas vezes para tirar fotos e agora já estávamos bem próximos da entrada do parque.
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Name:	33.3 - Casa dos Condores.jpg
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ID:	161999
              Na entrada, cada visitante paga uma taxa de visitação e o condutor do veículo recebe as instruções de procedimento quanto estiver dirigindo no interior do parque.

              O motorista da nossa van nos conta que há 10 anos, um turista Suíço que acampava dentro do parque, ao fazer fogo, não teve o cuidado necessário, e 20% do parque foi destruído por um incêndio.
              O fogo se propagou rapidamente, levado pelos fortes ventos.

              O governo Suíço então, reconhecendo o dano causado por um cidadão daquele país, doou uma soma grande de dinheiro, que foi aplicada na recuperação e replantio das arvores destruídas.
              No trajeto, pudemos ver ainda resquícios do incêndio e também as arvores que foram replantadas.
              Mas ainda alguns anos serão necessários para a recuperação.

              O lugar é maravilhoso, e quanto mais próximo se chega das montanhas, a visão fica realmente espetacular.
              As trilhas por onde se circulam os veículos vão subindo e cercando a cadeia de montanhas e lindas fotos foram feitas de todo o grupo.
              Aos poucos, começamos a avistar no céu, os condores.
              De uma ponta a outra da asa aberta, são 3 metros de envergadura em um vôo maravilhoso, circulando as montanhas num balé inexplicável.
              É o único lugar na America do sul que se pode ver tantos condores juntos, voando em formação.

              - O condor é uma ave que escolhe um único parceiro por toda a vida.
              - Quando o parceiro morre, o que ficou sobe ao pico mais alto, fecha as asas, e se joga no penhasco para seu ultimo vôo.

              A explicação, dada pelo Guanáco, sobre os hábitos deste morador das montanhas geladas do sul do Chile, nos fez os admirar ainda mais.
              O Condor, com suas grandes asas pretas, tendo ao fundo a cadeia de montanhas de Torres del Paine é o símbolo da região de Magalhanes.
              Fantástica viagem, vale a pena ser conhecida por aqueles que querem ao mesmo tempo, contemplar a natureza, o silencio, a paz, a beleza de lagos, montanhas, picos nevados e ainda, poder assistir o vôo majestoso do Condor.
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ID:	162001
              No retorno, uma passagem pela “caverna do Milodon”, animal pré histórico que habitou a região e que vivia em cavernas que hoje são abertas a visitação publica.

              Durante a viagem, havia percebido que o câmbio que fizera ontem á noite com a dona do restaurante havia tido um erro.
              Equivocadamente, a garçonete ao invés de me devolver o equivalente a cem dólares, havia me devolvido o equivalente a cento e cinqüenta dólares.
              Na chegada, fomos devolver a diferença a ela.

              - Pero vino a devolver la diferencia?
              - No me había dado cuenta de que había dado un valor superior.
              - Muchas gracias.

              Aquilo me fez muito bem, pois se não tivesse agido assim, ficaria incomodado durante o resto da viagem.
              Ao devolver o dinheiro para ela, me veio a lembrança a simpática senhora que me devolveu também o meu dinheiro que havia caído ao chão, lá na aduana chilena, dois dias atrás.
              Assim, agimos iguais.


              Jantamos no hotel aquela noite.
              Dia seguinte, estaríamos rumando para El Calafate, e mais uma etapa de nossa viagem.
              Começava a sentir saudades de casa, de minha querida e de meus filhos.

              A contemplação de tudo o que tínhamos visto hoje, um esplendoroso dia, sentia falta de não ter os meus queridos a meu lado.
              E isto, começava a me incomodar e ainda faltavam 8 dias para o retorno para casa.
              Mas, por enquanto, fiquei com aquilo só para mim.

              Comentário

              • sergio pires
                Fazedor de Chuva
                • Aug 2012
                • 125

                #52
                Ushuaia – Duas Rodas e um Sonho
                Cap 34 - O episódio “Barilochegate”


                continuacao....


                Eu fiquei ainda mais chateado do que o próprio Chico, pois tenho grande consideração por ele, e ainda mais nesta viagem, em que cumprimos a promessa feita entre nós de atravessar-mos a cordilheira juntos e ele demonstrava que de fato, ficara muito chateado e magoado comigo.

                No dia seguinte, marcamos para sairmos as 08:00 horas com a van alugada no dia anterior, que já se encontrava a espera na porta do hotel.

                Antes porém, era hora de despedida para o Ivan, que havia programado antecipadamente retornar ao Brasil de avião, à partir de El Calafate.
                Um longo abraço de cada um de nós no Ivan, lhe desejando boa viagem, e nos ficou a nítida impressão de que ele havia adorado a viagem até ali.
                O Buatim, visivelmente emocionado despediu-se do filho, e embarcamos na apertadíssima van para uma viagem de 220 km para conhecer o pico Fritz Roy, o pico mais alto da Argentina, que fica na pequena cidade de El Chalten*.
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ID:	162005
                El Chaltén é a cidade mais recente da Argentina. Fundada em 1985 para manter a soberania da Argentina sobre territórios na disputada fronteira patagônica com o Chile.
                Esta cidade, que no inverno tem 500 habitantes, é um dos principais destinos para montanhistas e amantes do trekking de todo o mundo, na temporada de verão. Eleita a capital do trekking da Argentina, atrai os turistas pelas magníficas montanhas, lagos e glaciares. Porém é ainda mais importante centro de atração de montanhistas. Suas montanhas, desde a década de 1940, atraem os mais destacados praticantes desse esporte, que fascinados por suas paredes de rocha e gelo, vinham para esse ponto da cordilheira Andina sem cidade de apoio próxima.
                As montanhas mais procuradas da região são: o Cerro Fitzroy, ou El Chaltén, que deu o nome à cidade; e o Cerro Torre, considerado por muitos a montanha mais difícil do mundo.
                Fonte: Wikipedia

                Por incrível que possa parecer, este dia foi o pior de todos da viagem, por dois motivos e, os dois motivos, certamente estavam intimamente ligados.

                Primeiro, porque o clima no grupo não estava como antes, e eu me sentia pior ainda por ser o “causador” de tal desconforto.
                O Chico, de fato ficara chateado comigo por não ter sido consultado antes por mim sobre minha vontade de retornar antes para casa, e de ter sido ”informado” da forma como foi.

                Segundo, porque o espaço dentro da van não permitia sequer movimentar as pernas, nos obrigando a parar algumas vezes no caminho para esticá-las.
                O único que se deu bem foi o Toninho, que escolheu o único lugar em que havia espaço para esticar as pernas, alegando que seu joelho estava inchado.
                Não sei não, mas acho que ele se aproveitou da situação do joelho para pegar o melhor lugar na van.

                Chegando a El Chaltén, encontramos uma neblina tão espessa que encobria todo o Cerro Fitz Roy, impedindo completamente qualquer chance de o mesmo ser visto.

                Na pequena cidade, sequer encontramos uma padaria para um café para espantar o frio de rachar que fazia naquele dia.

                Somente duas coisas valeram a pena nesta viagem:
                A primeira foi um filme que fizemos no único orelhão da praça, onde colocamos o Guanáco em pose de galã, falando ao telefone, e nós todos enfileirados, fazendo pose de que não agüentávamos mais esperar ele falar, e o Chico filmando tudo para logo em seguida, postar no twitter.

                A segunda foi a idéia do Lelê em nos reunirmos debaixo de um mural, construído na praça central e, juntamente com mais 4 baianos, que estavam viajando de carro e apareceram na hora e cantamos, juntos, o refrão da musica Melô do Marinheiro, dos Paralamas do Sucesso:

                - Entrei de gaiato no navio
                - Entrei, entrei pelo cano
                - Entrei de gaiato no navio...

                A música, escolhida por ele era alusiva a que havíamos entrado pelo cano viajando até ali, perdendo o dia e ainda tínhamos mais 220 km de retorno.

                A cidade é ainda pequena e uma das mais novas da Argentina, então muita construção sendo feita, ruas abertas e ainda não pavimentadas.
                Fomos visitar uma ponte que ainda não tinha saída do outro lado, e o Toninho batizou a mesma de “A ponte que leva nada a lugar nenhum”.

                - Não é nada disso Toninho, é visão de futuro dos atuais administradores, pois um dia, haverá uma estrada do outro lado do rio, eu disse.

                A cidade é a capital nacional do treking na Argentina e, de fato, vimos muitos jovens com enormes mochilões nas costas, rumando para longas caminhadas em direção aos montes gelados.
                É um programa para jovens, amantes deste tipo de esporte, não para nós cinqüentões e amantes das duas rodas.
                Mas, imagino que em um dia claro, sem neblina, a vista dos picos deve ser muito bonita.

                Na volta, em uma das paradas, o assunto de ontem á noite, voltou a tona.

                - Pires, estamos retornando na van todos juntos, seria uma boa hora para você colocar aquele assunto?
                - O que acha?
                - Que assunto?
                - Esquece, não vou mais tocar no assunto, vamos seguir o projeto original, vamos a Bariloche.
                - Não se fala mais nisso.

                No hotel, antes do jantar, repensei e resolvi conversar separadamente com o Chico e expliquei a ele tudo o que havia acontecido e de nenhuma forma tive a intenção de promover qualquer racha no grupo, e que havia consultado alguns do grupo sobre o que achariam se eu pedisse para abortar o cotovelo que faríamos até Bariloche, pois de fato, eu estava com muitas saudades de casa e dos meus filhos.

                Então, se todos concordassem em abortar este trecho, poderíamos chegar na 6a. feira ou no sábado, o que seria ótimo.

                O Chico me ouviu mas argumentou que o projeto todo havia sido feito e aprovado por todos e que nunca havia desistido de uma viagem antes.
                Que havia divulgado no site do PHD e as pessoas em casa não iam entender o que estava acontecendo.
                E que ficara chateado por não ter sido eu a falar com ele, e sim o Joaquim e ele não esperava esta situação.

                - Pelo menos o Joaquim teve a coragem de me contar.
                - Eu ia falar com todos e também com você Chico, só que o Joaquim falou antes.

                Após o jantar no hotel, coloquei a meu pedido a todos do grupo e minhas razões: saudades de meus filhos e de minha querida.

                - Mas fica claro que, se alguém do grupo não quiser voltar antes e decidir ir via Bariloche, eu retiro o meu pedido e vamos todos juntos.

                Buatim, Beber, Toninho, Joaquim e eu, concordamos em abortar Bariloche.
                E o Joaquim, ainda completou.

                - Chico, o Glaciar Perito Moreno pra mim foi a “cereja do bolo” da nossa viagem. Não temos mais o que acrescentar depois do que vimos hoje.
                - Abortando esta parte de Bariloche, não perderemos nada em qualidade da viagem.

                Lelê, em princípio, optaria por fazer o trecho via Bariloche, no entanto, tomou a palavra e disse:

                - Pessoal, eu não sou de mudar nem de desistir de planos e rotas, nem deixar de alcançar objetivos.
                - Difícil, mas mudanças de planos podem ocorrer e acato decisões, pois eu já abandonei uma vez meu grupo de viagem e causei mal estar na amizade com eles por um bom tempo.
                - E por isso desisto de dizer que mantenho minha intenção de ir até Bariloche mesmo que sozinho, pois ficarei com o grupo sempre, ainda mais sabendo do motivo que é muito forte.
                - Na minha primeira viagem longa, com o Chico e o PHD Della Giustina, recebi a ducha da saudade, da solidão e da tristeza e sucumbindo, me mandei e abandonei os amigos...
                - Compreendo e sei o que se passa com quem faz seu primeiro trajeto longo e internacional, com a solidão e a falta da família sendo companheira mais forte a cada momento que aumenta a distância e por isso desisto do roteiro original e aceito, pela unidade do grupo, esquecer de Bariloche e retornar direto para casa, chegando lá no sábado.

                MacGyver manifestou também a sua vontade de seguir via Bariloche, mas também abriria mão em prol do grupo chegar unido no Brasil.

                O Chico se manifestou por ultimo, como sempre fazia, e disse que ficaria com o que a maioria decidisse, e se aquela era a decisão de todos, então seria aquela.
                Mas dizia isto visivelmente contrariado.

                Agora, seria refazer os mapas, pois o retorno não estava completo nas rotas previamente feitas pelo Chico e alguém teria de fazer direto no GPS.

                Em toda a viagem, seria esta o nosso maior desafio relativo a nossa convivência.
                Até ali, tudo tinha transcorrido em perfeita harmonia e teríamos de ter agora, a mesma habilidade que tivemos para pilotar nossas motos, para acomodar os ânimos e o grupo pudesse voltar novamente a normalidade.

                - Pires, você soltou a rolha da garrafa da champagne, agora ninguém segura.
                - Você abriu a porteira da boiada, como falamos lá na nossa terra.
                - Todos nós queremos voltar antes, estamos com saudades das queridas, da família, só que ninguém fala.
                - Só estávamos esperando alguém soltar a rolha, e este alguém foi você.

                Bem, pensei, aprendi mais uma nesta viagem:

                Na próxima, vou esperar alguém soltar a rolha da garrafa antes, e embarco junto de carona depois.
                Quem mandou eu me apressar?

                Joaquim, Chico e Lelê estudavam as novas rotas para colocação no GPS, tendo em vista a mudança “aprovada”.
                O clima melhorou um pouco depois da reunião, mas não seria naquele jantar, nem naquela noite que voltaríamos a normalidade.
                Última edição por sergio pires; 02-01-13, 15:43.

                Comentário

                • sergio pires
                  Fazedor de Chuva
                  • Aug 2012
                  • 125

                  #53
                  Ushuaia – Duas Rodas e um Sonho
                  Cap 34 - O episódio “Barilochegate”


                  continuacao....

                  Mas para isto, seria necessário mais tempo e chegar ao parque pela manhã.

                  O grupo se separou durante a visitação.

                  O Chico, Lelê e Beber desceram as escadarias para fotografar mais de perto o paredão do glaciar.
                  Eu, Toninho, Buatim, Ivan e MacGyver, ficamos no patamar intermediário, contemplando toda aquela beleza.
                  Joaquim ficou mais acima, no segundo lance de escadas.
                  O Guanáco também escolheu outro caminho.

                  E foi em uma destas paradas, que cumpri uma promessa que fiz a minha filha.
                  Ela esteve visitando a Escócia, e de lá me trouxe uma mini garrafa de whisky e quando me entregou o presente, me falou:

                  - Papai, esta garrafa eu comprei na fabrica, lá na Escócia.
                  - É muito famoso este whisky e também muito caro, por isso, comprei apenas esta garrafa pequena.

                  Antes de sair de viagem, embrulhei a garrafa e a guardei, planejando abrir e tomar justamente quando chegasse ao glaciar Perito Moreno.
                  Levaria para ela a foto, comprovando o belíssimo local que escolhi para tomar o meu presente, e isto certamente a deixaria feliz.

                  Dividimos entre nós o delicioso whisky (pena que a garrafa era pequena) e, logo após, comentei:

                  - Sabe, Buatim, estou com muitas saudades de casa, dos meus filhos e de minha querida e agora, vendo esta beleza bem aqui na nossa frente, sinto mais saudades ainda.
                  - O que você acha se ‘propuséssemos’ ao grupo cortar o trecho de Bariloche e com isto, retornaríamos para casa no sábado, ou mesmo na 6a. feira, ao invés da segunda?
                  - Sou parceiro Sergio, se você propuser isto, eu sou favor.

                  O Toninho ouviu e disse:

                  - Já fui a Bariloche diversas vezes, e se o grupo decidir por cortar o trecho, eu estou dentro.
                  - E também acho que o Joaquim vai querer voltar antes, completou.

                  Nisto, aparece o Beber, subindo as escadas, e comentamos o assunto também com ele:

                  - Olha, certamente sou parceiro, até porque, faremos agora trechos longos em poucos dias, é muito km pela frente.
                  - E depois outra, ficar em Bariloche um dia apenas, é quase nada. Não vai dar para conhecer nada.
                  - Mas como você Pires, não conhece Bariloche, se tiver que ir, tudo bem para mim, assim como se o grupo quiser abortar o trecho e voltar antes, para mim não há problema algum, sou parceiro.
                  - Beber, conhecendo agora a opinião de vocês, hoje á noite depois do jantar, eu vou colocar o assunto a todos na mesa ok?
                  - Só uma coisa, se um membro do grupo fizer questão de ir a Bariloche, vamos todos, pois prometemos que sairíamos e voltaríamos juntos.
                  - Então, caso alguém demonstre a vontade, retirarei o meu pedido.
                  - Ok combinado, você fala no jantar e o que o grupo decidir, está decidido.

                  Então, voltei pensando em como colocar o assunto para os demais no jantar de logo mais á noite.
                  E decidi que falaria exatamente como falei com o Buatim, Beber e Toninho:
                  Que estava com saudades de minha família, e gostaria de propor ao grupo que abortássemos o cotovelo que faríamos a Bariloche.

                  Voltamos ao hotel, e depois de tudo o que tínhamos visto hoje, somados ás maravilhas vistas na viagem toda, a viagem parecia completamente perfeita, completamente satisfeita em todas as nossas expectativas.

                  Mas um imprevisto aconteceria, e este seria o estopim do “Barilochegate”.
                  Para o jantar, o grupo se dividiria em dois e não estaríamos todos juntos numa mesma mesa.
                  Esta divisão se deu porque eu, Lelê e MacGyver resolvemos jantar um cordeiro patagônico em um restaurante muito famoso em El Calafate e tido como um dos melhores da Argentina, e que o Lelê havia conhecido na outra vez que lá esteve, e recomendava muito.

                  Insistimos várias vezes com todos os outros, mas eles preferiram ficar e comer no restaurante do próprio hotel, alegando cansaço e que queriam algo mais leve.

                  Sobre a conversa com o grupo e o pedido de retornar antes, pensei no caminho, indo ao restaurante:

                  - Eu posso falar amanhã, durante a nossa viagem na van, ou então, ainda hoje na volta, quando chegarmos ao hotel, se todos ainda estiveram no restaurante.
                  - Assim, falo com todos juntos.
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                  Nosso jantar foi maravilhoso, um excepcional cordeiro em um lugar especial, bom vinho, tudo perfeito.
                  Voltamos caminhando ao hotel, onde chegamos próximo das 23:30 h e o pessoal ainda estava no restaurante.

                  Assim que entramos, o Toninho se levanta, vem até mim e diz:

                  - Contei para o Joaquim sobre a volta antecipada, e ele já falou com o Chico.
                  - Pires, me desculpe, estou indo dormir.

                  E saiu do restaurante.

                  Logo em seguida o Chico também saiu, sem o habitual cumprimento que nos dava toda noite, antes de irmos dormir.

                  Aconteceu algo neste jantar aqui, pensei.

                  Pegamos uma xícara de chá e fomos sentar no lobby, juntamente com o Joaquim e o Beber, e ouvi deles o que tinha acontecido.

                  - Pires, o Joaquim falou com o Chico que havia “um movimento” para quebrar o grupo e voltar antes e perguntou se ele, Chico, sabia de alguma coisa.

                  Claro, o Chico não sabia de nada, pois ninguém tinha dito nada a ele ainda.

                  - Pires, de fato eu falei mesmo com o Chico, contou o Joaquim.
                  - Comigo não tem mistério nem conversa de bastidores, nem segredinhos, eu vou direto ao assunto.
                  - E como o Toninho comentou comigo a intenção de alguns do grupo de voltar antes, eu no jantar falei com o Chico sim, assumo que falei.
                  - Joaquim, mas como é que você falou com o grupo sem que todos estivessem reunidos?
                  - Você não poderia ter feito isto, com todo respeito que tenho por você, mas acho que você errou.
                  - E outra coisa, o assunto não era seu, seria um “pedido meu” ao grupo e iria colocar do meu jeito, a todos na mesa.
                  - Agora você cortou a frente, falou de maneira a dar a entender que eu estou organizando um "motim” no grupo?
                  - Tenho certeza de que foi isto que o Chico pensou, afirmei.
                  - E vocês conhecem o Chico, se o assunto não for bem tratado, dá confusão.

                  O episódio causou um certo mal estar no grupo, e quem mais ficou chateado foi o Chico, pois afinal, sempre tratamos os assuntos em conjunto e ele ficou magoado comigo achando que eu havia feito as coisas de forma a ele não saber.
                  E não era nada daquilo.

                  Esta viagem não tinha um dono, nunca teve um dono, e isto era fantástico.
                  O dono éramos todos nós, e por isso mesmo, a viagem tinha sido fantástica até ali.
                  Cada um fazendo a sua parte na viagem e um enorme respeito com todos.

                  Quando falei com o Beber, Buatim e Toninho na geleira, foi por acaso de eles estarem ali naquele momento, poderiam ter sido outros.

                  continua.....

                  Comentário

                  • sergio pires
                    Fazedor de Chuva
                    • Aug 2012
                    • 125

                    #54
                    Ushuaia – Duas Rodas e um Sonho
                    Cap 34 - O episódio “Barilochegate”


                    Normalmente, lemos e ouvimos histórias de viagens, onde tudo, “aparentemente” transcorre na mais pura normalidade, onde o que se conta ao final é que “tudo foi fantástico”, "sem nenhum stress”, “tudo maravilhoso”, mas que na maioria dos casos, não reflete a realidade.
                    Os leitores que já viajaram em grupo em viagens de longa distância, sabem do que estamos falando.
                    Acomodar todos os desejos, pensamentos, decisões, não é tarefa fácil. E tem os imprevistos, que teimam em aparecer e que por si só, geram tensão no grupo.

                    A proposta deste nosso livro é contar as coisas boas e ruins que aconteceram em nossa viagem.
                    Contar como tudo ocorreu e como o grupo superou o episódio, entendemos ser nossa obrigação e que isto, ao ser lido por todos aqueles que viajam ou vão viajar em grupo, saibam que, uma viagem perfeita tem momentos bons e ruins.

                    O mais importante de tudo é que ao final da viagem, a amizade e o companheirismo do grupo possa ser ainda mais forte do que era antes da partida.
                    Este foi o nosso caso, sem antes termos passado por um teste de fogo.

                    Passamos a relatar o episódio que o Joaquim batizou de “BARILOCHEGATE”, relatado aqui da maneira mais fiel e transparente, e como os fatos ocorreram.


                    Levantamos bem cedo neste dia, pois tínhamos planejado chegar na hora do almoço em El Calafate, terra do maior glaciar do mundo.
                    Seriam 351 km a partir de Puerto Natales, tudo em pista boa, apenas um pequeno trecho de 14 km de ripio.

                    Os 42 km iniciais do trajeto seriam o mesmo que percorremos no dia anterior quando fomos de van ao Parque Nacional Torres del Paine.

                    O frio na manhã de tempo fechado era intenso e como havia chovido de madrugada, resolvemos todos colocar a capa de chuva, e seguimos a velha regra de melhor sair com muita roupa do que ter de parar no caminho, já gelado, para vestir o complemento.
                    É muito mais fácil tirar a roupa em excesso, do que colocá-las por cima de jaqueta e calça de couro ou cordura e ainda vestindo as botas.
                    É o conhecido vestir-se como uma “cebola”, onde ao longo do caminho, vamos tirando as “cascas”, conforme a temperatura assim o permite.
                    Ajustes do roteiro nos GPS, grupo formado e a tradicional pergunta do Lele:
                    - Joaquim, todos prontos?
                    - Podemos partir?
                    - Pode partir, todos a postos.

                    Eram 07:05 quando saímos da cidade, todos em formação e velocidade moderada.
                    Rapidamente, tomamos o rumo marcado no GPS, seguindo nosso RC Lele.
                    Como sempre, o Joaquim fechando a fila.
                    Pista em concreto, muito boa, movimento zero àquela hora da manhã.
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                    - Lelê, aperta um pouco o ritmo aí na frente, pois seria bom chegarmos a aduana antes das 08:00 h, pois eu acho que eles paralisam o atendimento neste horário, disse o Chico.
                    - Ok Chico, vou ajustar nossa velocidade para 120 km/hora.
                    - Chegaremos a tempo assim. Ok?
                    - Cuidado nas curvas, a pista esta molhada e escorregadia.
                    - Não te esquece do desnível da pista naquela ponte Lelê?

                    O desnível a que o MacGyver se referia era na cabeceira de uma ponte, que passamos no dia anterior de van, e sofremos um tranco, então, o alerta foi dado.

                    - Tem barro nesta curva pessoal, está escorregando muito, diminuam a marcha, alerta o Lelê.
                    - Animais na pista, parando...

                    Como no dia anterior, uma outra boiada no caminho.
                    Mas a pressa desta vez, não nos fez prestar atenção na beleza do trabalho do seu condutor, nem no comportamento dos animais, nem nos cachorros.
                    Hoje, tínhamos de passar rapidamente pelo meio da boiada, e o fizemos quase encostando nossas motos nos bois, empurrando os mesmos contra o barranco para abrir caminho.

                    Como a pressa nos faz perder de ver as boas coisas. Não fosse o dia anterior que por aqui passamos e pudemos observar com calma tanto o manejo da boiada, e do rebanho de ovelhas, não tínhamos tido a oportunidade de ver e aprender tudo o que pudemos.

                    - É da mesma raça de ontem Toninho?
                    - Sim, MacGyver, da raça Hereford.
                    - Inclusive, é a mesma boiada de ontem, me lembro daquela vaca ali.
                    - Memória boa a sua heim MacGyver? Estou impressionado com você.

                    Chegamos na aduana Chilena as 07:45 h e estacionamos as motos.
                    O local estava fechado.
                    Na nossa frente, apenas uma caminhonete com um casal de alemães e seus filhos, que aguardavam em pé, na porta.
                    Um aviso afixado pelo lado de fora:

                    - Aduana em paro 24:00 h – 08:00 h.

                    O aviso era dúbio, pois não se sabia se iriam parar da meia noite até as 08:00 horas, ou ao contrário.
                    Por isso, a dúvida do Chico e a preocupação em chegar antes das 08:00 h faziam todo sentido.

                    Novamente ficamos preocupados em não haver expediente naquele dia, mas logo veio a notícia trazida pelo guarda local de que estariam nos atendendo a partir das 08:00 h, o que de fato ocorreu.

                    Assim que entramos na aduana, 3 ônibus de excursão pararam e o salão ficou lotado de turistas de toda parte do mundo.
                    Na aduana o atendimento é feito em 3 etapas, e para cada uma delas, uma fila diferente.
                    O Guanáco, por ser Chileno pegou um fila diferente de nós estrangeiros, e ao terminar o seu processo, teve de entrar na outra fila, mas aí pegou todos os turistas pela frente, o que significaria que iria demorar pelo menos meia hora ate chegar a sua vez de ser atendido.

                    Então, o grupo se dividiu, ficando o Chico e o Joaquim aguardando o Guanáco e o restante do grupo seguiu para a fronteira da argentina, 10 km a frente, com o RC Lele.
                    Assim que terminamos a aduana argentina, os dois chegaram e logo em seguida, os dois ônibus abarrotados de gente, também chegava.
                    Com a manobra, não perdemos tempo algum.

                    Em uma viagem em grupo, pequenas decisões como esta, trazem um enorme ganho de tempo e nisto os mais experientes da estrada sabem e devem orientar o grupo.

                    Aduana feita, mais 4 km de ripio e pegamos a Ruta 40 *.
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ID:	162007
                    *A Rota 40 é o mais longo percurso na Argentina e um dos maiores do mundo (junto com o E.U. Rota 66 e a estrada de Stuart, na Austrália, sem contar os oficiais Panamerican Highway-), mais de 5, 000 km (3.107 milhas) de comprimento. Na sua extremidade sul tradicional perto da cidade de Río Gallegos que começa no nível do mar, atravessa 20 parques nacionais, 18 dos principais rios, 27 passagens sobre os Andes, e vai até 5.000 m acima do nível do mar no Abra del Acay em Salta.
                    A estrada atravessa as províncias de Santa Cruz, Chubut, Río Negro, Neuquén, Mendoza, San Juan, La Rioja, Catamarca, Tucumán, Salta e Jujuy.
                    Fonte: Wikipedia

                    Este pequeno trecho da Ruta 40 que pegaríamos não representa nem de perto a maravilha e os desafios que esta Ruta oferece em toda a sua extensão.
                    Cortando a Argentina de Norte a Sul, passando por paisagens maravilhosas, saindo do Atlântico até os Andes.
                    Mas só o fato de estar pilotando na Ruta 40, mesmo no asfalto, já foi para mim uma recompensa muito grande.
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Name:	34.8 - Ruta 4o ii.jpg
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ID:	162008
                    Chegamos a cidade de El Calafate, logo depois do meio dia, conforme previsto.
                    Poderíamos ter chego antes, mas os tramites aduaneiros são demorados.
                    A cidade é muito bonita, limpa e lembra muito Gramado e Canela.

                    Rapidamente, o Beber e Buatim saíram a busca de hotel e logo retornaram informando que encontraram um muito bom.
                    A cidade tem muitos hotéis e pousadas, mas estávamos em janeiro, alta estação, então estava lotada de turistas de toda parte do mundo.
                    E todos vem para cá para a visitação do maior glaciar do mundo. O glaciar Perito Moreno*, para onde nos deslocamos de moto, logo depois de efetuar o check-in.

                    *A Geleira ou Glaciar Perito Moreno localiza-se na Argentina e está situada entre os 47º e 51º de latitude sul. Ela se estende desde o Campo de Gelo Patagônico Sul, na fronteira entre Argentina e Chile, até o braço sul do Lago Argentino, possuindo cinco quilômetros de largura e 60 metros de altura. Seu nome é uma homenagem a Francisco Pascasio Moreno, criador da Sociedade Científica Argentina e um renomado pesquisador da região austral daquele país. O glaciar é considerado uma das reservas de água doce mais importantes do mundo.
                    É uma das geleiras mais imponentes e já foi chamada de a "oitava maravilha do mundo", devido à vista que se tem de seu topo. Localizada em uma zona rodeada por bosques e montanhas, está dentro do Parque Nacional Los Glaciares, criado em 1937 na Província de Santa Cruz, localizada ao sul da Argentina. Esse parque, de 724.000 hectares possui um total de 356 geleiras.
                    Fonte: Wikipedia

                    A visão da geleira é simplesmente espetacular!
                    Não há como descrever em palavras a exuberância, a monstruosidade e a beleza de tal lugar.
                    O parque, muito bem montado, ótimo acesso asfaltado e bem administrado tem um amplo estacionamento, onde deixamos as motos.
                    Dali até os pés da geleira, vans fazem o transporte, com o custo já incluído no bilhete de acesso.
                    Se pode chegar bem perto da geleira e observar a sua grandiosidade através de passarelas construídas nas encostas do morro.

                    O sol bate no gelo branco e nas imensas fendas existentes em sua borda, produzindo um efeito colorido sem igual.
                    Um misto de azulado, esverdeado, prateado, rubi misturado com o branco da neve produz efeitos e cores fantásticas.
                    Uma muralha que beira os 70 m de altura, em que, vez em quando, desmoronam pedaços de gelo, que ao cair no lago, produz ondas capazes de virar um barco e produz um barulho igual a um tiro de canhão.
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Name:	34.6 - Perito Moreno .jpg
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ID:	162009
                    É de barco que se consegue chegar mais próximo ainda de suas muralhas, assim como, é possível fazer um “trecking” por cima da geleira.

                    continua....
                    Última edição por sergio pires; 02-01-13, 16:01.

                    Comentário

                    • sergio pires
                      Fazedor de Chuva
                      • Aug 2012
                      • 125

                      #55
                      Ushuaia – Duas Rodas e um Sonho
                      Cap 35 - O Início da Volta para Casa


                      Eram pontualmente 07:00 h quando o comboio estava formado frente ao Hotel em El Calafate, e o RC Lelê anunciou a partida.

                      Dormi e acordei com o episódio “Barilochegate” que ainda ecoava nos meus pensamentos, e sabia que o clima ainda não era o mesmo do vivido até aqui.
                      Mas por outro lado, era visível a alegria de quase todos com o início efetivo da volta para casa.
                      Viajar é bom, voltar para casa, melhor ainda.
                      E hoje, efetivamente, demos a partida para o reencontro com nossas famílias.
                      A temperatura de 7o.C em El Calafate, e assim que passamos o pórtico de entrada da cidade e iniciamos a subida para o altiplano, na mesma velocidade em que subíamos, a temperatura baixava.
                      Chegou a 5o. C quando chegamos ao topo do altiplano e o Toninho anunciava que estava arrependido de não ter colocado a segunda pele, e agora estava com bastante frio, mas que agüentaria até Esperança, onde faríamos o primeiro abastecimento.

                      - Olhem as lebres, á direita, anunciava o MacGyver.
                      - Agora são as emas, olhem quantas temos a esquerda.

                      O MacGyver enxergava tudo, e alguns diziam que ele até enxergava o que não existia.

                      Próximo ao posto de abastecimento, o Lele nos diz pelo rádio:

                      - Queridos amigos e parceiros de viagem.
                      - Aqui vos fala seu Road Captain.
                      - Para lhes anunciar que passarei o comando desta viagem ao Joaquim, á partir do próximo abastecimento.
                      - Quero lhes dizer que foi uma honra ter conduzido o grupo até aqui.
                      - Então, passarei o comando do grupo ao Joaquim, que também nos conduzirá com competência até nosso destino final, nos braços de nossas queridas.
                      - Que o Senhor dos Tempos continue a nos abençoar.
                      - Obrigado a todos.
                      - Vou voltar ao final da fila, para ajudar o Chico naquilo que for possível.

                      A troca do Road Captain havia sido discutida e definida pelo Chico, Joaquim e Lele na noite anterior, dado que o Joaquim vinha o tempo todo como Cerra Fila, onde a velocidade empreendida durante a viagem é muito maior comparativamente aos que viajam mais á frente, aumentando muito o consumo de combustível.

                      Como a moto do Joaquim e Toninho eram as de tanque um pouco menores do que as demais motos, e agora teríamos longas pernas a serem percorridas, significaria que, se eles fossem guindados para frente do comboio, poderia significar ganho de tempo, com menos parada e como o percurso de retorno seria diferente do planejado nas rotas de GPS originais, não poderíamos correr nenhum risco de pane seca.
                      Outro fator que norteou a decisão de troca foi relativo ao desgaste dos pneus, onde as motos do Joaquim e Toninho eram as que apresentavam o maior desgaste e andando lá atrás teriam de imprimir maior velocidade, o que significaria também um consumo maior.

                      O Joaquim tem outro estilo de pilotagem, mais agressivo do que o Lele, e isto percebemos logo no início do deslocamento.
                      Teríamos que nos adaptar ao novo ritmo de viagem.

                      Em determinado ponto neste trecho da estrada, o Chico anuncia pelo rádio que vai parar á direita, em uma estância para abraçar um velho amigo. Junto com ele, ficou o Beber.
                      Seria uma parada para rever um amigo que conheceu na primeira viagem que fez à região e que, ao parar no antigo posto que havia na estância para abastecimento, foi muito bem recebido por ele e sua esposa, e daí, nasceu uma amizade.
                      No ano seguinte, quando o Lelê passou por esta mesma rodovia, o Chico enviou uma foto sua e dele, batida no ano anterior.
                      A foto foi emoldurada e pendurada na parede do estabelecimento, onde permanece até hoje.
                      A oportunidade de parar para dar um abraço no amigo foi um gesto de carinho, e que talvez, nunca mais pudesse ter a oportunidade de fazê-lo.
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Name:	35.2 - Revendo um velho amigo.jpg
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ID:	162011
                      O grupo seguiu em frente, e o RC Joaquim diminuiu um pouco a marcha, para que os que conseguissem nos alcançar, o que aconteceu quilômetros mais á frente.
                      Os km foram sendo vencidos, e a medida em que nos aproximávamos do meio dia, a temperatura subia, assim como os ventos. Novamente os ventos fortes a nos assolar durante o deslocamento.
                      Desta vez, nos jogando para o acostamento da direita, e obrigando a todos, novamente, a inclinar suas motos para não sermos jogado fora da pista.

                      - Chico, na escuta, perguntei?
                      - Sim.
                      - E a nova roupa de Cordura que estreou na viagem, você aprovou, gostou?
                      - Sim, muito boa.
                      - ????

                      Era um teste que eu fazia e pela resposta seca e curta do Chico, percebi que o episódio Barilochegate ainda estava latente.
                      Ao contrário dos demais trechos, o Chico vinha em silencio quase absoluto, se limitando a responder apenas perguntas pontuais de alguns do grupo.
                      Muito diferente do que havia ocorrido na viagem até ali, pois era e sempre foi um dos mais animados.

                      Paramos para reabastecimento em um posto YPF, e o Toninho abaixou-se para verificar o estado dos pneus da sua moto e de todas as demais.

                      - Pessoal, por ordem temos o seguinte:
                      - A moto com pneu mais desgastado é a do Joaquim, seguida da minha, do Sergio, depois o Buatim.
                      - As demais estão com pneu em bom estado, com desgaste menor.
                      - Mas as nossas já começam a preocupar.

                      No deslocamento seguinte, a discussão do porque de um desgaste bem maior nas motos do Toninho e Joaquim e menor nas demais motos, já que todos nós saímos com pneus exatamente iguais e zerados de Blumenau.

                      - Pessoal, eu acho que matei a xarada, diz o Chico.
                      - Ocorre que, o Joaquim e o Toninho, viajaram todo o percurso da ida e até El Calafate no final do comboio onde tiveram de andar em muito maior velocidade do que os demais.
                      - Então, fica comprovado que quanto maior a velocidade, o consumo dos pneus é muito maior.
                      - Mais um motivo para os dois irem na frente, pois pouparão pneus na volta.

                      Se aprende muita coisa numa viagem de longa distancia, e esta do desgaste dos pneus seria mais uma.
                      Não basta apenas um pneu zerado, tem o efeito da velocidade em que, até determinada velocidade, se tem um consumo de pneus, acima desta velocidade, o consumo é muito maior.
                      Assim como o consumo de combustível, o mesmo acontece com pneus em moto.

                      Eram 19:00 h quando chegamos ao mesmo hotel que passamos o réveillon na cidade de Comodoro Rivadávia, depois de percorridos exatos 1.023 km em 12 horas de viagem, na perna mais comprida vencida até aqui na nossa viagem.
                      A temperatura local beirando os 30o C.

                      Depois do jantar, era hora de nos despedirmos do Ricardo, o Guanáco, que no dia seguinte tomaria rumo de Bariloche, para retornar a Santiago do Chile, em um roteiro diferente do nosso.

                      O Ricardo foi uma grata surpresa a todos nós, embora tenha se incorporado ao comboio quanto este já estava em curso, mostrou humildade e alegria contagiante e conquistou a todos no grupo.
                      Amanhã, outro longo percurso nos aguardava, pois queremos dormir em Bahia Blanca.
                      Antes de dormir, rezei para que voltássemos a ter um clima perfeito no grupo.
                      Eu ainda não me sentia confortável com o ocorrido e o Chico ainda não era o mesmo.

                      Comentário

                      • sergio pires
                        Fazedor de Chuva
                        • Aug 2012
                        • 125

                        #56
                        Ushuaia – Duas Rodas e um Sonho
                        Cap 36 - Um encontro que não aconteceu


                        continuacao....

                        Então uma cena diferente pode ser vista do lado direito da rodovia.
                        Click image for larger version

Name:	35.1 - El Gauchito de La Ruta.jpg
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ID:	162012
                        Em praticamente toda a extensão da Ruta 3, de vez em quando avistávamos pequenos altares construídos ás margens da rodovia, sempre com uma pequena estátua de um homem em pé, vestido ao estilo gaúcho, lenço vermelho amarrado no pescoço, e nas mãos, duas boleadeiras.
                        Todos os altares eram rodeados de várias bandeiras e fitas vermelhas, tendo ao centro a bandeira da Argentina.
                        Neste ponto da Ruta 3, avistamos um templo muito maior, com muitas bandeiras e uma estatua em tamanho natural.
                        Era um grande templo em homenagem a El Gauchito Antonio Gil *.
                        No momento que passamos, o vento era tão forte, que pude escutar da rodovia, o barulho do tremular das muitas bandeiras e fitas vermelhas. Uma cena fantástica.

                        * El Gauchito Gil é uma figura religiosa, objeto de devoção popular na Argentina. Sua base histórica está na pessoa do gaúcho Antonio Mamerto Gil Núñez,
                        Nascido perto de Mercedes, na província de Corrientes, por volta de 1840 e foi assassinado em 08 janeiro de 1878.
                        As histórias populares variam, mas, em geral, a lenda, gaúcho Antonio Gil era um trabalhador rural e se apaixonou por uma viúva rica o que lhe valeu o ódio dos irmãos da viúva e do chefe de polícia local, que havia cortejado a mesma mulher. Dado o perigo, Gil deixou a área e se alistou para lutar na Guerra da Tríplice Aliança (1864-1870) contra o Paraguai. Após o retorno, ele foi recrutado para lutar na guerra civil mas Gil desertou.
                        Finalmente capturado, foi pendurado pelo pé em uma árvore, e morreu com um corte na garganta. Antes de morrer, Gil disse ao seu carrasco que deveria rezar em nome de Gil para a vida de seu filho, que estava muito doente. Chegando em casa, o carrasco comprovou que seu filho estava realmente doente, e rezou por Gil e seu filho, milagrosamente, foi curado. O carrasco deu ao corpo de Gil um bom enterro, e as pessoas que acreditaram no milagre resolveram construir um santuário no local de seu túmulo (localizado a cerca de 8 km da cidade de Mercedes) e que recebe centenas de milhares de peregrinos todos os anos, especialmente em 08 de janeiro, aniversário da morte de Gil.
                        O culto do Gauchito Gil se espalhou não só na província de Corrientes, mas também pela província do Chaco, ao norte de Santa Fé, Mendoza, Buenos Aires e até mesmo a Capital Federal.
                        Pode-se distinguir os santuários de Gauchito Gil nas laterais das estradas da Argentina, caracteriza-se por suas bandeiras e fitas vermelhas.
                        Fonte: Wikipédia

                        Ao nos aproximarmos de San Antonio do Oeste, ao longe, vimos uma nuvem branca se deslocando em direção a Ruta 3, vinda das estepes da patagônia.
                        Tratava-se de uma tempestade de areia, que rapidamente se deslocava na nossa direção.
                        Á medida em que nos aproximávamos, o vento ia ficando mais e mais forte e para nossa sorte, o posto de abastecimento já estava próximo.
                        Chegamos ao posto de gasolina, no mesmo local em que encontramos o Ricardo na viagem de ida, a tempestade de areia chegou.
                        Uma nuvem branca de areia tomou conta do posto, dos carros, das motos e da pista, tornando praticamente impossível o deslocamento naquelas condições.
                        Nos protegemos no interior do restaurante de onde praticamente nada podia ser visto a não ser poeira, galhos de árvores sendo arrastados pelo pátio e pessoas correndo na busca de abrigo.
                        Esperamos uma meia hora até a tempestade passar e saímos do posto.
                        Por informação obtida por um viajante que recém chegava, vindo do Norte, ou seja, a mesma direção que iríamos, era que os ventos chegaram a 130 km/h e que deveríamos ter muito cuidado no deslocamento.
                        O homem chegou a recomendar que esperássemos a tormenta passar, mas se ficássemos muito tempo parado no posto, havia o risco de escurecer e pegarmos a pista a noite, coisa que não gostaríamos que ocorresse.
                        Então, o jeito foi sair e torcer para que a tempestade já tivesse arrefecido.
                        Felizmente, a tempestade de areia passou ao nosso estibordo, e não nos pegou de cheio e os ventos mais ao norte, já tinham também se dissipado.
                        Mas fiquei imaginando como seria pilotar uma moto naquela tempestade, e não deve ser nada agradável e sim muito, mas muito perigoso.
                        Se tivéssemos nos atrasado uns 15 ou 20 minutos antes da chegada ao posto, de certeza teríamos pego a tormenta em plena ruta 3.

                        Sofri muito neste trecho, com as lufadas de vento realmente fortes, as mais fortes enfrentadas até então.
                        Passado o susto, voltamos a curtir a paisagem e a pilotar com mais tranqüilidade.
                        E também, voltamos a conversar sobre o casal amigo que estava descendo, rumo ao Ushuaia. Osmar e Teresinha estavam demorando a aparecer.
                        Em determinado ponto da estrada, avistamos um casal de moto, solitários e vestidos de preto, mas impossível saber se eram Osmar e Terezinha.

                        - Lá vem eles, avisa o Buatim.

                        A emoção foi grande no grupo todo ao avistarmos ao longe, o casal se aproximando em nossa direção.
                        Ao se aproximar, a garupa passou tirando fotos do nosso comboio, mas não pararam e não deu para saber se eram mesmo os dois.

                        - Como não pararam, pode ser que não eram eles, concluiu o Buatim.

                        De fato, para nós seria difícil distinguir se eram Osmar e Teresinha, mas eles sim tinham absoluta certeza de que éramos nós, pois conhecem a todos nós e sabiam que estávamos voltando naquele dia.
                        Todos nós queríamos ter parado e dado um abraço no Osmar e Terezinha, e desejado a eles uma boa viagem, mas desejamos isto apenas em pensamento.
                        O ocorrido deixou o Chico mais chateado que ele já estava, pois tem muito apreço por eles e contava com o momento.
                        Mais tarde, por telefone, ficamos sabendo que eram eles mesmos e que não pararam pois o vento era muito forte.
                        Mas acho que daria para terem parado.
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Name:	36.3 - Volta para Casa Ruta.jpg
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ID:	162013
                        Continuamos subindo pela Ruta 3, quando ao longe, avistamos um céu negro, anunciando uma tempestade muito forte, e novamente, próximo de Bahia Blanca e vindo em nossa direção.
                        De novo, um desafio se anunciava, e isto já no final do dia, quando tínhamos pilotado por mais de 10 horas seguidas e termos enfrentado a tempestade de areia e os ventos mais fortes da viagem até aquele ponto.
                        Estávamos de fato, muito exaustos.

                        Mais uma vez, o Senhor dos Tempos pôs sua mão sobre nós, acelerando a tempestade e fazendo a mesma correr na nossa frente, e com isto, nem um pingo de chuva pegamos.

                        Eram 18:30 h quando entramos por uma das várias entradas da cidade, e percebemos que o temporal havia recém passado por ali, pois havia muita água na pista e várias ruas da cidade estavam alagadas.
                        Se tivéssemos chegado quinze minutos antes, com certeza pegaríamos a tormenta de cheio.
                        É incrível o que acontece em uma viagem.
                        De manhã, se tivéssemos nos antecipado 15 minutos, uma tempestade de areia teria nos pego no meio da pista. Agora, 15 minutos de atraso e nos livrou de uma tormenta daquelas.
                        Só viajando mesmo para entender, ou não, o sentido do tempo, o sentido das coisas.
                        Não temos absolutamente controle sobre estas coisas, nunca vamos ter.

                        De novo, me veio a lembrança, a peça solta na moto do RC Joaquim, o que obrigou o grupo a perder não mais do que meia hora quando o Toninho e o Beber consertaram a moto e recolocaram a peça solta.
                        Foi tempo suficiente de atraso para nos livrar da tempestade, mais uma vez, sinal claro de que os pequenos atrasos em uma viagem fazem parte e devemos todos aceitar isto com a maior naturalidade e sempre pensar que um atraso nunca é para o mal, é sempre para o bem.

                        Entramos na rotatória que nos levaria ao centro de Bahia Blanca, e pegamos a mesma completamente alagada, o que obrigou o RC Joaquim a abrir caminho, como um barco.

                        Eu vinha logo atrás dele, e não restava outra coisa a fazer a não ser dirigir a moto exatamente pelo mesmo trajeto que fazia, ato imitado por todos os demais companheiros.
                        A água atingia a altura dos pés, água suja, barrenta, mas nada que nos atrapalhasse.

                        - O Road Captain tem destas coisas.
                        - De vez em quando, é um perfeito “boi de piranha”, brincou um dos amigos.

                        Na chegada ao Hotel, desta vez escolhido pelo Lele e MacGyver, o Chico nos convida para visitar um bar, que seria de propriedade de um motociclista da cidade.

                        Todos nós estávamos muito cansados e a maioria declinou do convite, indo com ele apenas o Lele, Joaquim e MacGyver.

                        Minutos após saírem , retornaram, informando que o bar havia fechado há alguns meses, e se encontrava abandonado.

                        No jantar, a discussão seria se seguiríamos para Mar del Plata, ou direto a Buenos Aires, o que no final, prevaleceu, tendo em vista que Mar del Plata nesta época estaria lotada de veranistas e em Buenos Aires, teríamos um dia inteiro para passeios, troca de pneus, troca de óleo das motos e um merecido descanso.

                        Todos nós reconhecemos o trabalho do RC Joaquim durante este percurso.
                        Um deslocamento longo de mais de 1.000 km, onde o manejo correto do GPS nos poupou muito tempo o que fez com que a viagem fosse conduzida de forma segura e não tão cansativa.

                        A noite, de novo pensei no deslocamento do dia e que o nosso grupo ainda não era o mesmo e achei que estava demorando mais tempo do que imaginava para isto acontecer.

                        Mas á noite, quando encostei a cabeça no travesseiro, muita coisa passa nos pensamentos, muita coisa enfim.
                        Quem sabe amanhã não teremos um novo dia?

                        Comentário

                        • sergio pires
                          Fazedor de Chuva
                          • Aug 2012
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                          #57
                          Ushuaia – Duas Rodas e um Sonho
                          Cap 36 - Um encontro que não aconteceu


                          Novamente um longo percurso hoje pela frente, e para isso, sair cedo seria fundamental.
                          Nosso destino seria Bahia Blanca a pelo menos 1.000 km de Comodoro Rivadávia, onde estávamos.
                          Pontualmente às 07:00 horas o comboio já estava formado na rua em frente ao hotel.
                          Saímos de maneira tranqüila como sempre e logo pegamos o asfalto.
                          A cidade de Comodoro Rivadávia situa-se à beira mar, e há um desnível considerável entre a cidade e o alti-plano, com muitas curvas em subida.
                          Em uma destas curvas, quando já estávamos fora da cidade, o MacGyver mostrou que em termos de qualidade de visão, não tem para ninguém e era com ele mesmo.

                          Ele vinha, neste trecho, logo atrás do RC Joaquim, conseguiu ver uma peça se soltando da moto e rolando pelo asfalto.

                          - Joaquim, você perdeu o pedal da marcha.
                          - Pessoal que vem logo atrás, peguem a peça.
                          - Está no meio da pista da direita.
                          - Ok, já localizei MagGyver, já peguei a peça, diz o Toninho.

                          Um parafuso havia se soltado e o pedal de mudança de marcha do Joaquim caiu e não fosse o MacGyver, ficaria por lá mesmo e causaria desconforto durante a viagem.
                          Ele conseguiria viajar sem esta parte do pedal, pois o mesmo é composto de duas hastes, uma para ser usada com a ponta dos pés, e outra com o calcanhar, nas mudanças de marcha.
                          A parte que se soltou foi a de traz.
                          Não se preocupem, no primeiro posto de abastecimento paramos e eu recoloco a peça.
                          A perda do acessório não atrasou em nada o deslocamento.

                          Mais á frente, o Chico chama pelo rádio:

                          - Temos um encontro pela frente.
                          - O Osmar e Terezinha estão descendo para o Ushuaia, e iriam sair cedo de Bahia Blanca.
                          - A qualquer momento, iremos cruzar com eles e ai, vamos todos parar e dar um abraço neles.
                          - Vai ser muito bacana.

                          O PHD Osmar e a Terezinha são um casal de amigos que sempre viajam juntos e estavam fazendo o mesmo percurso que fizemos rumo ao Ushuaia.
                          Pelo roteiro informado por eles na noite anterior, seria quase que certo que os encontraríamos na Ruta 3, neste percurso de hoje.
                          Passamos todos a ficarmos atentos a qualquer moto com garupa vindo em nossa direção, desde o anúncio do Chico.

                          E subíamos firmes a Ruta 3, numa tocada muito forte e de novo, o vento apareceu com força intensa, de forma anormal até então enfrentada.
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Name:	36.2 - Ruta 3.jpg
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ID:	162014
                          continua....

                          Comentário

                          • sergio pires
                            Fazedor de Chuva
                            • Aug 2012
                            • 125

                            #58
                            Ushuaia – Duas Rodas e um Sonho
                            Cap 37 – Um novo Reinício


                            Com a decisão da noite anterior em seguirmos direto para Buenos Aires, o percurso seria de “apenas” 695 km, pouco se comparado aos dois últimos dias onde percorremos mais de 1.000 km por dia.
                            É incrível o efeito que a distancia produz no viajante de longa distancia.
                            Dois dias seguidos viajando mais de 1.000 km por dia e pilotando mais de 12 horas seguidas.
                            Ao ver o trecho seguinte de 695 km, todos, sem exceção, dissemos “moleza”, serão “só” 695 km.

                            O dia não poderia ter começado melhor.
                            O grupo ainda estava tomando o café da manhã, quando o Chico convocou a todos para uma reunião, ali mesmo, na mesa do café.

                            - Pessoal, eu gostaria de me desculpar com todos vocês.
                            - Ontem á noite, falei com minha querida longamente.
                            - Sabe, as vezes acontecem coisas que nos tiram da realidade.
                            - E eu não sou esta pessoa que tenho sido nos dois últimos dias.
                            - Ontem mesmo, ofendi ao MacGyver, coisa que não é do meu feitio.
                            - Tenho me comportado de uma forma que não condiz comigo e isto não está certo.
                            - Já me desculpei com ele e está tudo bem.
                            - Então, me desculpem meus amigos, e gostaria de recomeçar nossa viagem de retorno a partir deste momento.

                            E eu também aproveitei a oportunidade e falei com todos:

                            - Gostaria também de me desculpar por ter causado qualquer constrangimento acerca do meu pedido de retorno, cortando Bariloche.
                            - Sei que para alguns isto foi ruim, mas entendi que todos optaram por voltar juntos, abrindo mão inclusive de programações feitas.
                            - Ao Chico, que havia divulgado no site do PHD a viagem, sei que causa problemas.
                            - Meu amigo MacGyver, me desculpe pois a mudança forçou o cancelamento do jantar que você iria nos proporcionar onde degustaríamos as Centollas Giganates * que você havia encomendado.
                            - Então, me desculpem mais uma vez.
                            - E Chico, quero lhe dizer o seguinte: Nossa amizade vale muito mais do que tudo isto.
                            *Centollas – É um caranguejo gigante, pescado nas águas geladas do pacifico sul. Um a iguaria saborosa e muito apreciada na Argentina e Chile e também em restaurantes sofisticados no Brasil.
                            Nota do Autor
                            O Buatim completou o momento, quando disse:

                            - Somos amigos, acordamos e dormimos todos estes dias como irmãos, então, continuemos sendo irmãos.
                            - Não somos colegas, somos amigos.
                            - E um amigo, tem uma diferença enorme de um colega.

                            Um longo abraço entre todos nós selou de vez a paz no grupo.

                            O episódio Barilochegate havia, enfim, terminado.

                            1 Nota do Autor:
                            2 Ficamos sabendo, dias mais tarde, que Bariloche havia sofrido uma tempestade muito forte exatamente no dia em que estaríamos chegando, se tivéssemos seguido com o roteiro original, com ventos fortíssimos que passaram dos 140 km/h na estrada e chuvas torrenciais.
                            3 Nunca saberemos se teríamos tido ou não problemas, mas este fato, vindo mais tarde, nos confortou bastante pelo fato de não termos seguido aquele caminho.
                            4 Continuo pensando que, se algo não é para ser, não devemos lutar contra, e em El Calafate, me deu uma vontade grande de voltar para casa, e tive a coragem de dizer ao grupo o meu sentimento, pelo que não me arrependo nem um pouco de tê-lo feito.
                            5 Agradeço mais uma vez a compreensão e o carinho dos meus irmãos de estrada, que mudaram seus planos perante meu pedido. Este ato, nunca vou esquecer.
                            6 Relativo ao jantar com Centolla que citamos acima, o MacGyver havia encomendado 20 kg e os havia guardado em Comodoro Rivadávia para jantarmos no nosso retorno. Com a antecipação da volta, não foi possível comer a iguaria.

                            Pegamos a estrada e já nos primeiros quilômetros, dava para notar que o clima no grupo hoje era completamente diferente se comparado aos dias anteriores.

                            As brincadeiras no rádio voltaram, os comentários e as discussões voltaram com todos participando novamente.
                            Éramos um grupo novamente, um grupo de amigos viajando juntos e voltando do fim do mundo.
                            Que coisa boa !

                            O Chico, o Toninho e o Lelê, em um momento que o Joaquim classificou de “desmunhecamento explícito”, pararam suas motos no acostamento de fronte a uma enorme plantação de girassóis para tirarem lindas fotos, inclusive, invadiram a propriedade, para sacarem fotos junto das flores.
                            Ficaram uma beleza as fotos.
                            Click image for larger version

Name:	37.1 - Os campos de girassois.jpg
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ID:	162015
                            Novamente, cruzamos o Rio Colorado, o divisor de águas das terras secas e improdutivas do sul, com as produtivas e verdes áreas do norte. São as duas Argentinas que conheci nesta viagem.

                            Á medida em que nos aproximávamos de Buenos Aires, o movimento intenso de caminhões, carretas e carros se fazia presente.
                            Cuidado extremo tivemos neste deslocamento e chegamos todos bem, graças ao Senhor dos Tempos.

                            Rumamos direto a estação do Buquebus, para garantir a compra dos tickets de embarque de motos e passageiros, pois amanhã, permaneceríamos em Buenos Aires, mas depois de amanhã, bem cedo, Montevidéo e Brasil.

                            O jantar desta noite foi maravilhoso.
                            Clima festivo, e escolhemos um dos melhores restaurantes de Puerto Madero para comemorar nossa chegada a capital dos porteños, e também a re-união do grupo.
                            De novo, reiniciamos, juntos.
                            Á noite, pensei muito no nó que demos no cordão do Taú de S.Francisco, lá no fim do mundo.
                            Fazia todo sentido e agradeci a Deus por tudo até aqui.

                            Assim como a Fênix, nosso grupo renascia.
                            A Confraria do Fim do Mundo estava de novo afinada, mais afinada do que nunca.
                            Agora, seria curtir o restante da viagem, pois estamos cada vez mais próximos de casa e a saudade aumentando a cada dia.

                            Comentário

                            • sergio pires
                              Fazedor de Chuva
                              • Aug 2012
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                              #59
                              Ushuaia – Duas Rodas e um Sonho
                              Cap 38 - De volta ao Brasil


                              O dia anterior foi todo dedicado aos reparos das motos em Buenos Aires, algumas precisando trocar os pneus, e outras o óleo e alguns apertos, pois a viagem tinha sido extenuante até aqui.
                              Mas todas as motos agüentaram muito bem e não tivemos nenhum problema mecânico, a não ser pequenas ocorrências que não atrasaram nem comprometeram a segurança de nenhum dos companheiros.
                              Eu aproveitei o dia de folga para passear a pé pelo centro velho de Buenos Aires.
                              Que cidade fantástica, seus cafés geralmente com mesas nas calçadas em que as pessoas calmamente tomam um café e lêem o jornal.
                              O dia passou rápido, e á noite, todos nos encontramos no saguão do hotel para combinar o jantar.
                              Saímos juntos a passear pela famosa Calle Florida, uma rua com muito comércio, abarrotada de gente, e ao cair da noite, show de tango ao ar livre são apreciados pelos que ali passam.
                              Curtimos algumas lojas, alguns presentes e nos recolhemos ao hotel.

                              Dia seguinte, saímos cedinho e seguimos em comboio para a estação de embarque do Buquebus.
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Name:	38.2 - Embarque no Buquebus.jpg
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ID:	162016
                              O Buquebus é um transporte muito seguro e moderno entre as capitais Buenos Aires e Montevidéo, e sua estação de embarque em Puerto Madero, muito limpa e organizada, fazendo lembrar das grandes estações de trem da Europa.
                              O barco que faz a travessia é grande e muito confortável, e os veículos viajam no convés, onde competentes fiscais orientam e posicionam os carros de forma a não sobrar quase espaço entre um veículo e outro.

                              As motos ficam estacionadas uma atrás da outra, em uma das laterais devidamente preparada para tal, onde são amarradas uma a uma para não ter risco de caírem durante a travessia do Rio da Prata, que separa a Argentina do Uruguai.
                              E foi neste serviço de amarração das motos, que presenciei uma cena muito engraçada.

                              Todos encostamos as motos, e deixamos as mesmas em primeira marcha conforme solicitado pelo fiscal e uma a uma, eram amarradas por ele.
                              Á medida em que iam ficando prontas, os companheiros iam saindo e subindo ao andar superior.
                              Minha moto e a do Chico eram as ultimas a serem amarradas e o barco estava por partir, quando o fiscal disse, já meio irritado, que conhecia o trabalho que estava realizando e não precisava que ficássemos ali fiscalizando.
                              Nem ligamos para o que ele disse, permanecemos nas motos até ele terminar.
                              Muito irritado a esta altura, falava em voz alta com o outro fiscal que nós dois estávamos ali sem nada para fazer e pensando que ele não sabia o que deveria ser feito.

                              Foi então, que o Chico, calmamente, retirou a camiseta da viagem que vestia e colocou no ombro do fiscal dizendo:

                              - Estávamos esperando que terminasse o serviço para lhe dar este presente.
                              - Não estávamos ali para fiscalizar o seu serviço.

                              O fiscal pegou a camiseta, olhou a mesma e, muito sem jeito, deu um sorriso amarelo.
                              Não sabia onde enfiar a cara, pois nunca esperava aquele gesto do Chico.
                              De fato, nem eu esperava.
                              O Chico, ao sair do hotel, havia vestido uma camiseta por cima da outra, e havia planejado a cena antecipadamente.

                              O sujeito ficou com “cara de vaca laçada” também, pois não sabia se agradecia, ria, ou enfiava a cara dentro de um saco.
                              Ao final, agradeceu muito e vias das dúvidas, foi conferir a amarração em todas as motos, desta vez, sem reclamar de nada.

                              A travessia é rápida e muito confortável.
                              Um free shop a bordo permite compras diversas e vários amigos aproveitaram para comprar mais lembranças para as queridas.

                              Desembarcamos em Montevidéu, dia lindo, muito calor.
                              Procedimentos muito rápidos na alfândega de chegada e já estávamos rodando, pela linda costa rumo a Punta del Leste onde almoçamos e fizemos o roteiro turístico passando por toda a orla marítima.
                              Como não tínhamos tempo, não deu para conhecer nada, mas é uma cidade que sem dúvida alguma, no verão, vale a pena ser visitada.
                              Muito linda e limpa a cidade, que se encontrava cheia de turistas.
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Name:	38.4 - Montevideo.jpg
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ID:	162017
                              Pegamos a ruta, com destino ao Brasil.
                              As 19:30 h chegamos a aduana uruguaia na cidade de Chuy, com ¨y¨.
                              Do lado brasileiro, a nossa Chuí , com ¨i¨, foi alcançada minutos depois.
                              A fronteira dos dois países, assim como em Santana do Livramento e Rivera, é uma rua apenas.
                              Ao atravessá-la, se está no Brasil.
                              È bom entrar no Brasil, um sentimento diferente nos toma, difícil explicar, mas é algo que nos toca, ainda mais depois de vários dias viajando.

                              Abastecemos as motos e parte do grupo foi direto ao hotel.
                              Como eu não conhecia o “marco zero” do nosso país, seria a hora apropriada para uma visita ao local, pois ainda havia luz do dia.
                              O MacGyver se propôs a ir junto, e fomos a procura do local onde nosso Brasil nasce.
                              Um sonho que eu alimentava desde criança, quando olhava os livros de história e geografia, e ficava imaginando como seria aquele local.

                              Informação aqui e ali, e um morador apontou o rumo a seguir.

                              - Sigam em frente por esta rua, atravessem a rodovia, continuem em frente por uma estrada de terra e logo á frente, encontrarão o marco.
                              - Estrada de terra MacGyver, mas será que está certo?
                              - Afinal, é o marco inicial do nosso país.?
                              - Acho que o cara ensinou errado.

                              E lá fomos nós dois, seguindo a orientação.
                              Lugar estranho, muito mato, estrada precária e lá estava ele.
                              O Marco Zero.!Chegamos!
                              Aqui começa o Brasil.
                              Mas que começo de Brasil.....

                              Quando era criança, estudando os livros de geografia, eu imaginava como seria o lugar que o Brasil nascia.
                              E ficava olhando o mapa do Brasil, colocava a ponta do lápis em cima da cidade de Chuí e pensava: nossa, deve ser longe e como deve ser bonito este lugar.
                              O marco inicial do Brasil, que coisa linda deve ser!

                              Que decepção a minha ao chegar ao marco.
                              Um lugar ermo, abandonado, sujo, pichado, mato para todo lado.
                              Uma vergonha para o Brasil deixar aquilo abandonado como está.
                              Que falta de imaginação dos administradores daquela cidade.
                              Que falta de respeito para com o nosso país!
                              Poderiam fazer daquilo um ponto turístico, um lugar limpo, asfaltado, enfim, digno de ser o marco de inicio do nosso Brasil.
                              Poderiam vender pins, bonés, lembranças.
                              Mas não, aquilo é vergonhoso.
                              Tiramos umas fotos rápidas, pois estávamos é com medo de sermos assaltados naquele lugar deserto.
                              Meia volta e rumamos para o hotel.
                              Click image for larger version

Name:	38.6 - Aqui nasce o Brasil.jpg
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ID:	162018
                              Eu, ainda não acreditava no que tinha visto.
                              No hotel, ligação para casa e a notícia de que já estávamos dentro do Brasil.
                              Dia seguinte, Chuí - Porto Alegre, sem antes uma parada obrigatória na imensa planície do Banhado do Tain.
                              Lugar lindo, um santuário de pássaros, animais silvestres e peixes.
                              Click image for larger version

Name:	38.9 - Reserva do Taim.jpg
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ID:	162019
                              - Pessoal, alguém conhece este tipo de cupim neste pasto?
                              - Isto não é cupim MacGyver, isto é um formigueiro, explica o Toninho.
                              - Eles fazem a casa para cima, pois esta região é alagada, por isso, não é sob a terra como normalmente conhecemos.
                              - Vou mandar um material para vocês sobre as formigas, sensacional, vocês vão ver.

                              Paramos para abastecer e o Lele cumpriu a determinação de mudar o visual antes de chegar em casa.
                              Queria por que queria chegar diferente para a sua querida.

                              Quando estávamos em Buenos Aires, procuramos uma “peluqueria” pois ele queria cortar a barba, e retirar o bigode e cavanhaque que o acompanha de longa data.
                              Não achamos nenhuma aberta.

                              Pois não é que naquele posto de beira de estrada tinha um barbeiro!
                              E que lugar arrumado!
                              É ainda daqueles barbeiros a moda antiga, com cadeira reclinável, navalha e tudo.

                              - Lele, tem certeza mesmo que quer cortar a barba?
                              - Olha, a sua querida pode não gostar.
                              - Quem sabe disso sou eu, e eu estou determinado a fazer e vou fazer.
                              - Vocês verão como ficarei lindo.

                              E lá estava o Lele, e mais 7 marmanjos esperando na porta do estabelecimento enquanto o mesmo cumpria com a determinação de parecer mais jovem.
                              Ao sair, olhamos para ele, e disfarçamos.

                              - Lele, você ficou muito feio.
                              - Vai assustar a sua querida.
                              - Melhor você não se olhar no espelho.
                              - Depois eu é que fico com cara de “vaca laçada” né Lelê, não vou nem te dizer com o que você esta parecendo, diz o Toninho, se vingando.

                              Ficamos sabendo, mais tarde, de que ao chegar em casa, a querida não só não gostou, mas pediu que ele deixasse crescer de novo seu inconfundível cavanhaque e bigode.
                              Nós avisamos o Lele antes, ele que não nos ouviu.

                              Chegamos em Porto Alegre próximo das 17:00 horas e rumamos direto para o Hotel que fica ao lado do aeroporto e localizado praticamente na saída para a Free Way, que liga Porto Alegre a Torres e que amanhã cedo iríamos percorrer.
                              Á noite, no jantar de encerramento, a gravação do depoimento de todos no filme que o Alfredo produziu sobre a viagem.
                              Amanhã, bem cedo, nosso ultimo trecho será cumprido e o grupo se dissolverá.
                              Que surpresas poderiam estar reservadas?
                              Esperamos que nada de mal nos aconteça neste último trecho, e que possamos todos chegarmos bem a nossas casas.

                              Dormimos cedo, pois marcamos sair as 06:00 horas para chegarmos ainda com tempo de poder almoçar com nossas famílias.
                              Última edição por sergio pires; 02-01-13, 16:31.

                              Comentário

                              • sergio pires
                                Fazedor de Chuva
                                • Aug 2012
                                • 125

                                #60
                                Ushuaia – Duas Rodas e um Sonho
                                Cap 39 - A Chegada


                                continuacao....

                                Rumo certo, todos juntos, felizes e saindo do transito pesado de Porto Alegre.
                                Viajávamos a boa velocidade e no frescor da manhã.
                                Pouco tempo depois, um maravilhoso nascer do sol pôde ser visto por todos no grupo, com direito a muitas fotos.

                                - Meus amigos, me permitam, mas vou desligar o rádio por alguns instantes.
                                - Ficarei fora do ar, volto logo, avisa o Lelê.

                                No momento, não entendi direito, só depois ele explicou a todos nós.

                                O aviso referia-se a um momento de reflexão e que faz parte da rotina do Lele e que repete em todo retorno para casa, sempre no ultimo trecho.
                                Respeitamos, é claro.

                                - Deixa que eu pago os pedágios, pois já separei o dinheiro, avisei a todos.
                                - Ok Pires, assim que chegar próximo do pedágio, você assume a ponta.

                                Tomamos nosso café da manhã no primeiro abastecimento na estrada do mar já bem próximo a Torres.
                                O Chico queria tomar o café no posto que fica a direita da rodovia, mas o Lele recomendou muito o posto do lado esquerdo.
                                Segundo dizia, tinha um pastel excepcional.
                                Bem, o pastel não comemos, mas o pão com manteiga estava muito saboroso.
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Name:	39.2 - Despedida.jpg
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ID:	162020No nosso segundo abastecimento em Laguna, muitos abraços, despedidas e nossa última foto do grupo reunido.

                                A partir dali o grupo iria se desfazer, num movimento inverso ao do primeiro dia quando fomos nos juntando na estrada.

                                Próximo a Florianópolis, o Chico chama o Lele e diz:

                                - Lelê, peço que assuma a ponta do comboio, por favor.
                                - Todos os que vão ficar em Florianópolis, se posicionem atrás da moto do Lelê.

                                Lelê, Joaquim e Toninho ficariam em Florianópolis.
                                De traz, olhávamos pela ultima vez nesta viagem, o mini comboio de 3 motos a nossa frente.
                                Três grandes amigos, três grandes companheiros.

                                Em sinal de respeito, demos uma distancia um pouco maior do nosso grupo para com eles.
                                Entraram na via de acesso á direita, nós seguimos em frente.
                                Devagarzinho, como que uma faca que corta uma lasca de um tronco, o grupo dos três se afastava á nossa direita.
                                Silencio total nos rádios, ninguém falou nada, nem nada precisava ser dito naquele momento.

                                - Buatim, por favor, assuma o posto de Road Captain.

                                Mais alguns km, em Porto Belo, uma espessa camada de nuvens anunciava que poderia chover.
                                Paramos para colocar as capas, embora achando que era precaução demais, mas achamos melhor não arriscar.
                                Se tem um bom posto para parar e colocar as roupas em segurança, porque é que vamos nos arriscar e ter de parar no acostamento, onde é muito mais perigoso?
                                Então, colocamos as roupas e seguimos em frente.

                                A chuva não veio, mas os prédios altos de Balneário Camboriú surgiram na saída do túnel da BR 101.
                                O Buatim seria o próximo a se encontrar com sua família, rever o seu filho Ivan e que com certeza, os esperavam com grande saudade.
                                Saindo à direita, foi mais um que se separou do grupo.

                                - Beber, por favor, assuma a ponta.

                                Agora éramos apenas 4, eu, Beber, Chico e Macgyver.

                                Seguimos em completo silencio.
                                Saindo a direita da BR 101, passamos sob o viaduto e tomamos o rumo de Blumenau.
                                Mais alguns km, e uma leve garoa veio a nosso encontro.
                                Não chegou a molhar, mas foi o suficiente para me lembrar da história dos Fazedores de Garoa, que contei num dos primeiros capítulos deste livro.

                                Fomos ao Ushuaia, somos agora detentores do título de fazedores de garoa.
                                E a garoa veio a nos encontrar, como um prêmio maior, por tudo o que havíamos vivido e aprendido nestes dias maravilhosos.
                                Não poderia ter sido diferente esta nossa chegada, uma garoa a nos esperar.



                                - Pires, por favor, assuma a ponta.

                                Antes de dobrar á direita, na rua para minha casa, olhei pela última vez pelo retrovisor, os faróis dos 3 últimos companheiros que me seguiam pela avenida.
                                Estava muito feliz, muito emocionado e muito realizado.
                                Dobrei e eles passaram por mim, silencio absoluto, somente o barulho forte dos motores

                                - MacGyver, por favor, assuma a ponta.

                                Foi a ultima frase que ouvi no rádio nesta minha viagem, pois o comboio, agora de apenas 3 motos e em completo silêncio, seguia em frente, para terminar a viagem de vez.

                                Na frente de casa, postados no portão: minha esposa, meu filho, minha filha e meu cachorro Zeus, o mascote da nossa viagem, me aguardavam.
                                A viagem chegava ao fim.


                                Caro Leitor,
                                Muitas vezes, deixamos de fazer uma viagem para encontrar com amigos, visitar um ente querido, visitar alguém que faz tempo que não vemos, realizar um sonho ou mesmo para conhecer um lugar novo e interessante, por distâncias muito menores do que as que percorremos nesta nossa aventura.

                                Então, é hora de não medir a distância entre um ponto e outro. É hora de não pensar no tempo que vai ser gasto, é hora de deixar de olhar para o céu, e ao vê-lo carregado de nuvens negras, desistir de sair com medo da chuva.
                                É hora de não deixar-se vencer pelo medo. É hora de ser ousado.É hora de fazer aquela viagem dos seus sonhos.
                                É hora de convidar a querida, por ela na garupa e viajar, deixar que o sopro divino toque seu rosto.
                                È hora de sentir o cheiro da terra, o gosto da chuva, o calor do sol, o sabor das coisas pequenas.

                                “Ao lá chegar, verás que valeu a pena, e todos aqueles km que pareciam muitos, se tornaram nada e encontrarás muito além do que lá foi buscar.”

                                Não há viagem de motocicleta, seja ela curta ou longa, em que não se aprenda alguma coisa, sem que algo de bom e novo seja acrescido a sua vida.
                                Por isso, somos seres diferenciados, amamos o vento no rosto.

                                Não há nada mais gostoso do que sentir o calor que sobe do asfalto, o frescor da terra molhada e o cheiro da nossa luva de couro.
                                Chega de pensar em distancias, vamos pensar no prazer de viajar.
                                Deus nos deu a vida para ser vivida!

                                Agradeço ao Senhor de Todos os Tempos, o Deus de todos nós, por ter nos proporcionado ter ido tão longe e termos chegado em nossas casas em segurança.
                                Agradeço a Ele também, termos saídos daqui como um grupo de amigos e termos conseguido voltar como irmãos.

                                Que o Taú de São Francisco, possa ser nossa marca, nossa lembrança, nosso diferencial por toda nossa vida.

                                Hoje, passado ja algum tempo da viagem, mas fechando os olhos, e varrendo um canto da minha memória, posso ainda me lembrar e sentir claramente muitas coisas desta viagem.

                                Me lembro muito bem de como tudo aconteceu, e qual era a minha ansiedade naquela manhã fresca e de neblina densa ao amanhecer, antes da partida.
                                Posso sim, ouvir o barulho dos pingos da chuva e o zunir dos ventos fortes, a bater contra meu capacete,
                                O ronco firme e constante do motor a pulsar por de baixo do meu corpo, como se fossemos um só, e de fato, éramos um só,
                                Sentir o aroma dos vinhos e o sabor dos cordeiros, dos assados e pescados que degustamos ao longo do caminho,
                                O grito das crianças nos postos de gasolina, que sorrindo, apontavam a seus pais, com alegria, ao ver as motos pretas chegando.
                                O gosto dos pingos da água salgada trazida á bordo pela força do vento, na travessia emocionante e inesquecível do histórico estreito de Magalhães,
                                O som oco das pedras batendo contra os pneus na travessia do ripio.
                                Posso sim ouvir de novo, o “silêncio do fim do mundo”,
                                Se fechar os olhos, vejo ainda a exuberância da bahia que adentra em direção ao pôr do sol (significado de Ushuaia), enquanto refazíamos o mesmo trajeto por onde chegou a América, ninguém menos que Charles Darwin, embarcado no famoso Beagle, comandado pelo Capitão Fitz Roy.
                                Posso sim, ainda ouvir ao longe, o chamado dos pastores conduzindo um rebanho de ovelhas pelas pradarias do Chile, e o som do estalar das asas dos condores pretos a cruzar o céu azul e branco, na imensidão das montanhas geladas,
                                Posso sim sentir o vento frio emanado dos rios gelados dos glaciares, e ouvir o barulho do gelo se partindo e se chocando com o rio gelado a seus pés.

                                E finalmente, num último e derradeiro esforço, um fio de lembrança ainda me traz aos ouvidos o som das bandeiras vermelhas a tremular pelo vento na beira do asfalto da Ruta 3, num templo erguido em homenagem a El Gauchito Antonio Gil, e em cuja oração, seus devotos de braços estendidos e de olhos bem fechados, rezam com toda força, depositando ali, naquele pedacinho de chão, toda sua esperança e toda a sua fé :

                                Por ser devoto Tuyo te pido un gran favor,
                                por mi, por mi familia y mis amigos:
                                Que intersedas ante Dios,
                                para que bendigas nuestras casas,
                                para que nunca nos falte el pan,
                                que tengamos salud y trabajo,
                                que ilumines nuestro andar,


                                Que ele ilumine o andar de todos nós motociclistas, amantes da liberdade.

                                Blumenau, 26 de abril de 2010

                                Sergio Pires – FC PHD Pires
                                Última edição por sergio pires; 02-01-13, 16:48.

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