Ushuaia - Duas Rodas e Um Sonho

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  • sergio pires
    Fazedor de Chuva
    • Aug 2012
    • 125

    #31
    Ushuaia – Duas Rodas e Um Sonho
    Cap 20 - Os céus do Uruguai


    Após os trâmites de entrada e depois de resolvermos o problema do Toninho, adentramos em território Uruguaio por volta das 13 horas, com céu claro e muito calor.

    Devagarzinho, a paisagem foi se transformando à nossa frente, e uma sensação diferente ia tomando conta de cada um de nós, pois pilotar a moto em território que não o brasileiro, causa em cada piloto, uma sensação indescritível.
    À medida que avançávamos, o que mais nos chamava a atenção era o céu Uruguaio.

    Que maravilhoso!!

    Aos poucos, fomos todos sendo envolvidos por um imenso azul, indescritível e largas planícies a perder de vista. Naquele momento, sabíamos que estávamos iniciando de fato, nossa peregrinação para o Fim do Mundo.

    E o Fim do Mundo começava daquele jeito, um céu maravilhosamente lindo.
    Os rádios, todos eles, permaneciam mudos, como se todos nós tivéssemos entrado em um transe e contemplávamos, cada um a seu jeito, a grandeza e a maravilha que se abria a cada km, a nossa volta.

    Em pouco tempo, não importava para que lado direcionasse o meu olhar, era tudo azul, imenso, profundo, como se estivesse em uma redoma gigantesca de vidro, finamente decorada a nos abraçar e a nos proteger.

    O barulho das 8 motos contrastava com o silencio das longas retas das estradas da Republica Oriental do Uruguai e, aos poucos, ia percebendo que o “elástico da viagem”, começava a se esticar ao me distanciar de minha casa e de meus queridos.

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    O Lelê, nosso Road Captain, com a duríssima missão de nos conduzir com segurança até nosso destino final.
    O Chico viajava logo atrás, no papel de orientador, usando sua longa experiência em viagens.
    No final da fila, nosso queridíssimo Joaquim, com a também duríssima missão de fechar a fila, cuidando da retaguarda do comboio, para que nada de mal pudesse nos acontecer.

    E assim, abençoados por Deus e protegidos por competentes viajantes, o comboio se deslocava rapidamente, cortando as planícies do Uruguai.

    Foi então, que o RC Lelê, com a voz embargada pela emoção que estava sentindo por liderar a expedição, ousou dizer no rádio a todos nós:

    - Obrigado Senhor dos Tempos, por esta visão maravilhosa que estamos tendo,
    - Obrigado por estarmos aqui e obrigado pelo privilégio de estar a frente de todos vocês.
    - É um orgulho para mim estar aqui a frente, liderando este grupo maravilhoso.
    - Que Deus nos acompanhe.

    A viagem ao fim do mundo começava assim, linda, maravilhosamente linda e aos poucos, ia tirando a crosta acumulada das preocupações do nosso dia a dia, que nos veste a todos nós como uma “carcaça” dura.

    O viajar é isto, antes de tudo, uma oportunidade para tirarmos esta “casca” e nos tornarmos nós mesmos, sermos na essência o que sempre fomos, mas que o dia a dia não nos permite demonstrar.

    E você sente muito mais isto estando em cima de uma moto, com o vento ao rosto, o cheiro da terra, o gosto da água, o som do vento, sentindo no guidão a aspereza das rodas tocando o asfalto.
    Você e a moto são neste momento, um só e moto/homem/natureza, unidos e abençoados por uma atmosfera exuberante.
    Isto é, em sua essência, o viajar de moto.

    Chegamos a Paysandu, fronteira com a Argentina e encontramos uma fila enorme de carros e caminhões que aguardavam para a passagem.
    Um sol de rachar também se fazia presente, e resolvemos passar adiante, avançando as motos pelo corredor formado pelos carros e caminhões em uma manobra muito normal no Brasil.
    Como as motos eram todas grandes, passávamos apertado, mas sempre contando com a compreensão dos motoristas.
    Menos a compreensão de um deles.
    Um senhor, de uns 60 anos mais ou menos, carrancudo, abriu a porta do carro e impediu a passagem do comboio.
    O RC Lelê, que seguia á frente, argumentava que estávamos no sol, que iríamos aguardar na sombra mais á frente, tudo isto com educação.
    E nada do senhor abrir passagem.
    Com muito jeito, conseguiu convencê-lo, não depois da própria esposa do senhor sinalizar a ele que não tinha sentido o que ele estava fazendo.

    Na aduana, os procedimentos de praxe, e já estávamos viajando em território argentino.
    Chegamos em Zarate, a 85 km de Buenos Aires, e dois amigos nossos, os PHD’s Gica, brasileiro que vive hoje em Buenos Aires, e Sábio, um argentino, que nos aguardavam, logo após o pedágio para nos guiar dali em diante até o nosso hotel, no centro de Buenos Aires.
    A chegada em Buenos Aires no final de um domingo é muito complicada, trânsito pesado, muitos carros retornando á Capital Federal.
    Mas o comboio, agora com 10 motos se deslocava muito rápido, nas excelentes auto pistas argentinas e rapidamente, nos encontrávamos frente ao Obelisco, marco da cidade e muito próximo do nosso hotel.

    Na recepção preparada pelos amigos Gica e Sábio, um delicioso jantar em um restaurante na capital portenha com direito a sorteio de brindes.
    Um boné e uma camiseta oferecidos pelos amigos e que foram ganhos pelo Toninho e Joaquim, respectivamente.

    O dia de hoje foi espetacular.
    O grupo foi testado pela primeira vez, na aduana, e se mostrou mais unido do que nunca.
    Os céus do Uruguai são fantásticos.
    Os amigos nos receberam e nos deram toda atenção e companheirismo aqui em Bs Aires, nos fazendo sentirmos em nossas próprias casas.

    Agora seria descansar, para amanhã cedo partir rumo a Bahia Blanca, a ruta 3 nos aguarda e todos estamos ansiosos para iniciar a nossa descida.

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    • sergio pires
      Fazedor de Chuva
      • Aug 2012
      • 125

      #32
      Ushuaia – Duas Rodas e Um Sonho
      Cap 21 - A tempestade


      continuacao.....

      Logo após a tempestade, veio o sol e a calmaria voltou na estrada novamente.
      Com ela, as conversas no radio PX voltaram também, agora não para alertar sobre caminhões ou carros, sobre água na pista ou outro perigo.

      E foi assim, que um assunto já esquecido e que tinha sido discutido no rádio PX ainda na saída do Brasil, voltou a ser discutido neste trecho da Ruta 3:

      - O significado da palavra CAPÃO.

      Isto mesmo, “capão”.

      Coincidentemente, neste trecho da Ruta 3, após termos passado pela tormenta, avistamos vários “capões” no caso, de mato, e o assunto voltou a tona.
      Tudo começou quando o Chico perguntou, em algum outro ponto da estrada, lá no Brasil:

      - Alguém aí sabe o significado da palavra Capão?
      - Porque temos Capão da Canoa, Capão Alto, Capão Redondo?
      - Olha Chico, veja bem, aqui no meu Rio Grande, capão é um amontoado de árvores juntas, soltas no meio do campo, responde o Beber.
      - É isso mesmo, lá em São Paulo o significado é este mesmo, um capão é o resto de uma floresta ou capoeira que existia, e que ao ser derrubada para dar lugar ao pasto, o homem preservou um restinho dela. Lá no meu estado, também temos nomes de cidades, como Capão Bonito, respondi eu.

      Já o Toninho, deu outra versão:

      - Pessoal, posso falar?
      - Lá em Mato Grosso, “capão” é quando se “capa” o touro, o cachorro, o porco, para que engorde mais rápido, ou não procrie, então é assim que chamamos.
      - É o animal “capado” entendem?
      - Olhem ali, á direita, aquilo então é um “capão”? Pergunta o Alexandre.
      - Exatamente meu caro, aquilo ali é um “capão” e é assim que o conhecemos, confirmou, confirmando o que eu havia falado.
      - Exatamente Beber, é isto mesmo, aquilo ali são “capões” de floresta, confirmei.

      A verdade é que quando se viaja em um grupo de amigos como o nosso, o estado de espírito de todos é tamanho diante da felicidade em estar ali, viajando de moto, ao lado de pessoas amigas, que qualquer assunto é bom, mesmo que o tema seja desconhecido ou que em qualquer outra roda de conversa, se tornaria sem qualquer interesse, como este do “capão”.
      Ao viajar de moto ocorre uma transformação no seu modo de enxergar as coisas, fazendo com que, um assunto bobo, seja debatido até a exaustão.

      Foi o caso do “capão”, que relatei apenas como exemplo.
      Mas tiveram muitos e muitos outros ao longo da nossa jornada.

      Vamos sentir muitas saudades das longas discussões que fizemos pelo rádio PX durante a nossa expedição.
      Este é apenas um exemplo que lembramos.

      O que se pode observar neste trecho entre Buenos Aires e o Rio Colorado, são imensas fazendas de criação de gado, plantação de girassol, milho, soja e outras variedades a perder de vista.

      E seguíamos felizes pela Ruta 3, bom asfalto, longas retas e longas discussões sobre os mais variados temas.
      Ao final da tarde entramos em Bahia Blanca *, simpática cidade localizada próxima ao litoral argentino.

      * Bahía Blanca é uma cidade da Argentina, na província de Buenos Aires, distante 650 km da Capital Federal. Foi fundada em 11 de abril de 1828. O nome Bahia Blanca tem origem da brancura dos salitres costeiros. É a cidade urbana mais importante do sul argentino e importantíssimo complexo portuário, sendo o porto de grãos mais importante do país. Sua população é de 274.509 habitantes (2001).
      Cidade tipicamente industrial. Abriga muitas indústrias químicas, dentre elas, uma refinária da Petrobrás.
      Fonte: Wikipédia

      Seguindo o Road Captain, rumamos direto ao posto de combustível marcado no GPS para abastecimento das motos e deixá-las prontas para a partida na manhã seguinte.
      Esta dica é de grande valia aos viajantes que nos lêem neste momento:
      Dormir com todas as motos abastecidas para, no dia seguinte, não perder nenhum minuto em abastecimento.
      Parece nada, mas faz enorme diferença na saída do dia seguinte e esta regra seria seguida em todas as nossas paradas.

      O grupo também ia se transformando, e já havia desenvolvido habilidades entre os membros, deixando de ser dependente de um ou dois amigos mais experientes.
      Assim, enquanto uns terminavam o abastecimento, o Beber e o Buatim se encarregavam de procurar e negociar as tarifas dos hotéis, enquanto todos esperavam no posto.

      Assim, evita-se que todos se desloquem no transito mais pesado das cidades e, assim que os dois retornassem com duas ou mais alternativas de tarifas, o grupo escolhia e todos iam juntos ao hotel.
      Coisa linda.

      Eu e o Lelê nos encarregávamos da escolha do restaurante para o jantar, e o Ivan, das dicas de passeio.

      Nos deslocamentos, Lelê como RC, o Chico como apoio, e o Joaquim como Cerra Fila cuidavam do comboio.

      Toninho e MacGyver, não deixavam ninguém com sono no percurso, com suas histórias, desafios de conhecimento e as brincadeiras, tudo pelo rádio.
      Estávamos nos tornando uma equipe.

      Naquela noite, no hall do Hotel, ficamos sabendo por um viajante que aquela tempestade que pegamos no início do caminho, havia horas antes passado próxima dali, e muito mais intensa do que havíamos enfrentado, com ventos fortíssimos, muito mais perigosos.

      Me lembrei das gotas de óleo debaixo da moto, que nos obrigou a fazer o reparo e atrasou nossa partida.
      Se tivéssemos saído mais cedo, teríamos pegado a tempestade muito mais intensa do que pegamos e isto, nos deu um conforto maior ainda.

      Neste dia, um jantar com as excelentes carnes argentinas foi oferecido por mim, já que era a minha primeira viagem internacional de moto.

      O primeiro grande desafio havia sido vencido, enfrentamos o imprevisto em Buenos Aires e a Tempestade no caminho.
      Isto tudo havia servido para uma união ainda maior do grupo, e isto já dava para sentir pelas atitudes e disposição de todos os companheiros.

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      • sergio pires
        Fazedor de Chuva
        • Aug 2012
        • 125

        #33
        Ushuaia – Duas Rodas e Um Sonho
        Cap 21 - A tempestade


        O plano era sair de Buenos Aires * bem cedo, ao amanhecer, a fim de cumprirmos com o trajeto programado para o dia.

        * Buenos Aires ("Bons Ares", em português) é a capital e maior cidade da Argentina, atualmente é a segunda maior área metropolitana da América do Sul, depois de São Paulo. A cidade está localizada na costa oriental do Rio da Prata, na costa sudeste do continente sul-americano. A cidade de Buenos Aires não faz parte da Província de Buenos Aires e nem é sua capital, mas sim, é um distrito federal autônomo. A Grande Buenos Aires é a terceira maior aglomeração urbana da América Latina, com uma população de cerca de 13 milhões de habitantes e considerada uma cidade global.
        Pessoas nascidas em Buenos Aires são chamadas de "porteños".
        Fonte: Wikipédia

        O amanhecer em Buenos Aires é muito lindo, pois a metrópole adormecida começa a acordar devagarzinho, e aos poucos, um barulho aqui, um carro que passa pela rua devagar, o abrir das portas dos cafés e os primeiros raios de sol, invadem as ruas e avenidas.

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        Buenos Aires é uma cidade realmente linda, com suas largas avenidas, seu casario característico, seus cafés, suas praças muito bem cuidadas e suas paixões, qual sejam o tango e o futebol.
        Mas, como em todo lugar, tem também a pobreza, e ela acorda junto com o sol, desocupando as marquises dos prédios e portas das lojas.

        Na calçada frente ao hotel, ainda com o sol nascente, aqueles que trabalharam a noite toda, tomam o rumo de casa para o merecido descanso, enquanto outros, ainda sonolentos, começam a deixar suas casas, cada qual para o seu destino, na dura rotina do trabalho, neste final de 2009.

        Ao chegarmos a garagem onde nossas motos dormiram tranqüilas, constatamos que uma delas apresentava um pequeno vazamento de óleo, que podia ser visto no chão, logo abaixo do motor, prendendo a atenção de todos.

        Nos preparativos da nossa expedição, desde o princípio havíamos definido que em item que envolve segurança, não haveria exceção alguma, e qualquer das motos que apresentasse algum problema, deveria ser tratado da melhor maneira possível.

        Assim sendo, o Gica que veio nos encontrar no hotel para nos levar até a saída da cidade, inicia uma série de telefonemas até encontrar uma oficina especializada para o reparo pois a loja da Harley não abre às segundas feira.
        Em Buenos Aires e principalmente em uma segunda feira, o pessoal começa a trabalhar mais tarde, por volta das 10h é que oficinas especializadas abrem suas portas.
        Depois de certo tempo, enfim achou uma oficina que poderia fazer o reparo e o comboio se deslocou pelo centro da cidade até o bairro de Palermo e lá ficamos aguardando a abertura da oficina.
        Um senhor muito simpático e amante do motociclismo iniciou os reparos na moto que apresentava vazamento e enquanto isso, a turma animada ficou no jardim em frente da oficina, claro, dando boas gargalhadas um com outro.

        Nas conversas com os amigos enquanto o reparo era efetuado, nenhum stress ou menção alguma sobre o atraso, pelo contrário.
        O pensamento era único, este atraso nada mais é do que um redirecionamento do nosso tempo, á medida que, não temos qualquer domínio sobre ele, mas Ele sim tem, e aquilo era tão somente, um ajuste feito por Ele, que nos pouparia de algo pior na frente.
        Se aquilo aconteceu, foi porque tinha de acontecer.

        O problema se resumiu a nada mais do que um aperto mal feito na tampa que protege a caixa de câmbio, e depois do re aperto, tudo resolvido, e o Gica nos guiou até a saída da cidade, se despedindo de todos e nos desejando uma ótima viagem.
        Céu fechado e as roupas de chuva foram retiradas dos bagageiros para a partida definitiva.

        O Chico então, pergunta para mim:

        - Pires, agora o caminho é para baixo, estás pronto?

        A resposta foi um “sim”, mas confesso que deu um frio na espinha ao pensar que, daquele momento em diante, o rumo seria único, rumo sul, rumo ao fim do mundo sem saber o que nos esperava pela frente, pela Ruta 3, que seguiríamos até o seu final.

        O que nos espera?
        Quais desafios encontraremos pelo caminho?
        A resposta não existia, só uma certeza: a companhia dos amigos, a vontade e a
        determinação em chegar ao destino final, e o retorno seguro para casa.
        Então, partimos, Ruta 3, mais de 3.700 km pela frente, rumo ao desconhecido.

        E o primeiro grande desafio não tardou a chegar, pois menos de 60 km depois de Buenos Aires, uma tempestade veio a nosso encontro, e veio forte, muito forte, como poucas que vimos ate hoje.
        Uma verdadeira bomba d´água nos pegou de frente com ventos laterais fortíssimos, muita água, e o transito intenso de caminhões em sentido contrário, aumentavam ainda mais a tensão ao pilotar a moto.

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        Era tanta chuva que não se enxergava praticamente nada a não ser o farol dos carros em sentido contrário, e as lanternas das motos dos amigos que iam a frente.
        Pilotar com chuva é complicado e perigoso, exige a máxima atenção possível do piloto, pneus em bom estado e uma boa proteção para o corpo são essenciais em uma hora destas.
        Neste aspecto, todos estávamos devidamente preparados.
        Menos o Toninho, que não havia colocado a capa de chuva, e foi obrigado a fazer um pit stop em um posto de gasolina para colocar a roupa quente, embora neste momento, já estivesse com até com a alma molhada, de tanta chuva que havia tomado.
        Em seguida, logo a frente, nos alcançaria de novo, daí com toda a roupa vestida.
        Foi um desafio enorme vencido pelo grupo, onde a camaradagem e o espírito de equipe mostravam o seu valor.
        Como o rádio comunicador faz diferença numa viagem em grupo, deveria ser equipamento obrigatório, pois com ele, a segurança aumenta muito quando viajamos em grupo.
        Avisos sobre pista escorregadia, buracos, caminhões em sentido inverso, carro na retaguarda, carro ultrapassando eram dadas a cada instante.
        Estas informações, além das brincadeiras durante o trajeto, nos acompanhariam durante toda a nossa expedição.

        Muita tensão em um longo trecho da rodovia, que tem bom pavimento, mas a chuva era tamanha, que parecia estarmos deslizando sobre um rio negro.
        Vimos que estávamos prestes a vencer a primeira batalha quando horas depois, vimos lá ao longe no horizonte, sinais de que a tempestade estava terminando.
        Passamos por ela, rasgamos ela ao meio com nossas valentes companheiras e o sol mostrou sua beleza, secando a pista e trazendo de novo, a sensação maravilhosa de pilotar uma moto, ao lado de amigos, rumo ao desconhecido.
        Acima de nós, como em São Gabriel, avistamos um bando de pássaros voando rumo sul, saindo da tempestade, assim como nós.
        A natureza é fantástica, pois ao mesmo tempo em que proporciona momentos de tensão e de perigo, também proporciona cenas maravilhosas como aquelas á nossa frente.
        Novamente, podíamos associar um bando de pássaros voando num lindo céu pintado de dourado, com o nosso bando cá embaixo, rodando juntos e comemorando o fim da chuva.
        Ambos rumando juntos, e saindo com vida da tempestade, que ainda podíamos observar pelo retrovisor de nossas motos.
        Por debaixo do meu capacete, pensei:

        - Eles, em busca de um lugar seguro para passar a noite, assim como nós, rumo sul, Ruta 3, pois a noite vai chegar logo e também precisamos chegar a um lugar seguro para descansar nossos corpos.

        continua.......

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        • sergio pires
          Fazedor de Chuva
          • Aug 2012
          • 125

          #34
          Ushuaia – Duas Rodas e um Sonho
          Cap 22- Dois Encontros na Estrada


          Continuacao......

          Havíamos aprendido a controlar o vento e a conviver com ele.
          O que mais nos esperava pela frente?

          O Lelê, que já esteve em viagem na região, não nos deixa muito animados:

          - Pessoal, o vento só vai piorar daqui em diante.
          - O vento que enfrentamos hoje é apenas uma amostra do que vamos ter pela frente.
          - Na minha viagem, um companheiro meu teve de parar diversas vezes pois não agüentava de dor nas costas e nos braços, tal era a força que fazia para controlar as motos.
          - O vento de hoje nem de perto é o que enfrentamos naquela ocasião.

          Ouvi em silencio aquilo, e confesso, fiquei preocupado, pois havia me assustado muito com o que havia passado hoje.
          Minha moto, por ser um pouco mais alta do que as demais e mais carenada, tornava os efeitos do vento mais perigosos ainda.

          E assim, cada um a seu modo, íamos nos acostumando a pilotar de uma maneira completamente irracional no sentido da física, pois como o Joaquim falou no rádio em determinado ponto da estrada:

          - Nunca fiz uma curva para a esquerda, inclinando a moto para a direita, no sentido contrário a curvatura da pista.

          Estes são os ventos da patagônia, dia e noite soprando desde os Andes até o Atlântico e varrendo as planícies vazias da Patagônia.

          E só há uma maneira de enfrentá-lo de moto: Marcha para baixo, rotação para cima, concentração 100% do tempo e rezar para que Deus ajude e proteja até a próxima parada.
          No nosso grupo, todos fizeram isso.
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          Chegamos a Puerto Madryn no final da tarde e desta vez, resolvemos não nos apressar para achar um hotel, pois comprovamos que a pressa é inimiga da perfeição, já que em Bahia Blanca, por culpa da pressa, pagamos caro por um hotel não tão bom, sendo que existiam outras alternativas melhores.

          Paramos logo na entrada em um posto de gasolina YPF para abastecer as motos como de praxe, e enquanto isso, delegamos ao Buatim e ao Ivan a busca da melhor alternativa de hotel.
          Logo apareceram alguns curiosos para tirar fotos das motos ou mesmo para nos desejar “suerte”.

          É incrível como o povo argentino é amigável com os motociclistas, um contraste com o que muitos pensam e relatam.
          Em todas as paradas que fizemos durante a nossa viagem, seja em postos de gasolina, hotéis ou pontos turísticos, em nenhuma delas deixamos de receber atenção e carinho por parte do povo argentino, e tiramos muitas fotos junto com eles.
          Faziam questão de colocar seus filhos em cima da moto, e que fizéssemos parte da foto.
          Adoram o Brasil, e muitos falam com orgulho, que aqui já estiveram.

          Outra característica marcante é a família, sempre unida na viagem.
          Em cidades menores e mais remotas que paramos para abastecer, o posto de gasolina acaba sendo a única atração do local, e é lá que se encontram em finais de semana para apreciar o movimento, aguardando a chegada de viajantes.
          No nosso caso, 9 motos grandes chegando ao posto, era motivo de festa para todos.
          Como bons viajantes, retribuímos sempre com um sorriso ou um agrado.
          Levamos adesivos alusivos à nossa viagem, e distribuíamos a aqueles que nos pediam, geralmente as crianças.

          No posto, enquanto aguardávamos o retorno do Buatim e Ivan, recebemos a visita da polícia local, que apareceram em 2 quadre ciclos, estacionando os mesmos ao lado de nossas motos.
          Rapidamente os cumprimentamos e o Chico, nosso “embaixador para a América Latina”, fez amizade com o chefe deles, contando da nossa viagem e que estaríamos indo em comboio para o hotel, assim que tivéssemos a confirmação.
          Eles não só aguardaram conosco, como se tornaram nossos batedores e lideraram o comboio até o hotel, abrindo passagem pela orla da cidade, sob o olhar curioso das pessoas por onde passávamos.
          Chegando no hotel, o Chico e o Lelê trocaram suas camisetas com os batedores, num sinal de amizade e respeito, que deve ser sempre observado pelos viajantes, deixando sempre uma imagem positiva não só dos motociclistas brasileiros, mas também de nosso país.
          E Buatim e Ivan haviam negociado muito bem desta vez.
          Um hotel 5 estrelas excepcional, localizado de frente para a praia, a um preço muito acessível.
          Ótimo para nós, pois dormiríamos 2 noites e um bom hotel.
          É o remédio ideal para baixar o stress em uma viagem.
          Aos viajantes que nos lêem, uma segunda dica: Procurem sempre um bom hotel para dormir, evite se hospedar em espeluncas, pois o nível de stress tende a subir, pois soma-se o cansaço de um dia inteiro em cima da moto, com um péssimo hotel. É a receita ideal para estragar uma viagem.

          Enquanto fazíamos o check-in, o Buatim acertava o aluguel de uma van com guia, para o passeio que faríamos no dia seguinte a Península Valdés.

          O chileno Ricardo, ainda meio assustado com todo aquele aparato, mas já dava para reparar que fazia esforço em conquistar a amizade do grupo.

          Naquela noite, a programação seria um jantar em um restaurante típico da cidade, e recomendado pelos atendentes do hotel.
          De taxi, chegamos até o local e fui encarregado de ir na frente e preparar as mesas.
          O proprietário, aparentando ser um simpático senhor, me recebeu mas quando percebeu que éramos um grupo maior, alegou que não poderia “mexer” na posição das mesas.

          - Señor, aquí no cambiamos la ubicación de las mesas e tendrán que sentarse por separado o buscar otro restaurante.

          Achei estranha a resposta dele, pois afinal o restaurante ainda estava vazio, mas entendemos e agradecemos com toda educação, e fomos a um outro restaurante, ali perto mesmo, que também tinha a cozinha típica da patagônia.
          E acertamos na escolha!
          Em uma viagem, um bom restaurante deve sempre ser procurado.
          Faz muito bem a alma do viajante cansado, poder saborear uma boa comida, um bom vinho.
          Ainda mais na Argentina!
          Fomos descansar naquela noite pensando no passeio do dia seguinte.
          E foi assim que neste dia tivemos dois encontros inesperados, o primeiro deles com o chileno e o segundo com os ventos da patagônia.
          São estas coisas que marcam uma viagem, o inesperado, aquilo que não foi programado e saber lidar com estas coisas faz a diferença entre uma viagem e outra.
          Muito se aprende com o inesperado.

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          • sergio pires
            Fazedor de Chuva
            • Aug 2012
            • 125

            #35
            Ushuaia – Duas Rodas e um Sonho
            Cap 22- Dois Encontros na Estrada

            continuacao......


            O segundo encontro

            Havíamos lido relatos de viajantes acerca do vento que sopra sem parar nas planícies nuas da patagônia, mas até agora, ainda não tínhamos sido apresentados a ele.
            À medida que nos aproximávamos de Puerto Madryn, eis que os ventos começaram a soprar.
            Vieram calmos, como que avisando devagarzinho da sua chegada, mas á medida em que avançávamos em direção Sul, na mesma proporção ele também aumentava sua força.
            Aos poucos, as motos foram se inclinando, quase que automaticamente para a direita, na direção contrária a que os ventos sopravam.
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            E eles sopram forte, fortíssimos.
            Rajadas, ou “lufadas” intermitentes o jogam fora da pista, ou para dentro da pista contrária.
            A compensação tem de ser feita ou no contra-esterço com o guidão da moto, ou então na inclinação da moto.
            A aceleração muda completamente. Marcha para baixo, aumento da aceleração e conseqüentemente da rotação do motor é a dica para não cair, ou não ser levado pelo vento para o acostamento ou para dentro da pista contrária.
            Um risco enorme ao pilotar nas pradarias da Patagônia.
            O nosso RC Lelê, foi batizado de “boi de piranha”, pois indo à frente era o primeiro a sofrer o impacto das rajadas invisíveis do vento e, pelo rádio, ia relatando aos demais onde estavam os pontos críticos:

            - Uma lufada muito forte nesta curva, tomem cuidado...
            - Em cima da ponte, vento fortíssimo...
            - Aqui em cima do morro, na curva, vento muito, mas muito forte...

            E assim o comboio seguia, e nós que vínhamos atrás do Road Captain já entravamos na curva preparados para a pancada que iríamos receber em nossas motos.
            Outra dica era pilotar com o olho no companheiro logo a frente, e ao ver a moto inclinar-se mais fortemente, era ficar esperando a sua vez, o que na certa ocorria.

            As ultrapassagens pelos pesados caminhões baús, que são muitos naquela região, eram um desafio a parte, pois quando iniciada a ultrapassagem, o vento está contra, e você, com a moto inclinada, compensando a sua força.
            Assim que se aproxima do caminhão, com o vácuo formado pelo veículo, o vento some, pois o caminhão bloqueia completamente sua passagem e você então, tem de voltar a moto a posição vertical, senão, é puxado para debaixo do veículo.
            È como se o caminhão “sugasse” você para debaixo dele.
            O problema é logo á frente, quando se sai da proteção fornecida pelo veículo e dá de cara novamente com o vento, que agora, além de sua força, ainda tem o deslocamento e turbulência do ar produzido pelo enorme veículo.
            Ele te dá uma pancada tão forte que o capacete parece querer voar da cabeça.
            Você tem de sair da proteção do caminhão inclinando ao máximo a moto, para poder compensar a força contrária do vento, que vai te acertar a alguns metros após o veículo.
            Se inclinar muito a moto antes de terminar a ultrapassagem, corre o risco de bater na frente do caminhão, e se inclinar pouco, o vento vai te jogar na pista contrária ou até no acostamento do lado oposto.
            Então, não resta outra coisa a não ser colocar a faca entre os dentes, calcular certinho cada ultrapassagem, marcha para baixo antes de entrar na turbulência do veículo, acelerar forte e esperar a pancada do vento e compensar na inclinação da moto antes de sair do veículo.
            E foi assim, aprendendo e com alguns sustos, que percorremos praticamente metade do percurso até o Ushuaia, tanto na ida como na volta.

            O pneu da moto, por andar tanto tempo inclinada, desgasta de um lado só, e como as retas são intermináveis, não há como compensar este desgaste.
            Viajar com pneu meia vida, nem pensar.

            E foi numa destas rajadas de vento, que a sua força arrancou uma das minhas malas amarradas ao meu bagageiro traseiro, jogando-a para debaixo da moto vindo a se prender no espaço entre a roda traseira e o para lamas.
            Com o atrito do pneu traseiro, a mesma pegou fogo e queimou tudo o que havia dentro dela.

            No momento, senti apenas um solavanco na moto, mas nada que pudesse alertar sobre o ocorrido, até porque o vento bate tão forte que produz efeito similar, então não notei o que havia acontecido.
            Não ouvi nenhum barulho pois você não ouve nada além do zunido que o vento faz em seu capacete.
            O Buatim vinha imediatamente atrás de mim, mas como a pilotagem nesta região exige concentração 100% do tempo, não notou o que havia acontecido com minha moto.
            Senti um forte cheiro de queimado no ar, e comecei a procurar algo de errado em minha moto, porém, nada avistava.
            Observei os indicadores do painel e nada errado apontava.

            Pergunto no rádio:

            - Alguém está sentindo um cheiro de queimado?

            O Toninho, que estava no final do comboio confirma:

            - Sim, também estou sentindo o mesmo cheiro.

            Menos mal, pensei , significava que o cheiro está no ar e não é da minha moto.
            Mas estava enganado, e mais uma vez, a mão Divina me ajudou.

            Por sorte, a parada de abastecimento estava prevista para poucos km á frente do ocorrido e quando parei no posto, o Chico olhou por traz da minha moto, pôs as duas mãos a cabeça e gritou:

            - Meu Deus do céu Pires, o que é isto?

            Desci assustado, e olhei incrédulo por de traz da moto.
            Por debaixo da minha moto, um enrolado de restos de cordura queimados pelo atrito do pneu, uma bolsa derretida pelo contato da mala com o escape, e um alivio enorme ao ver tudo aquilo ali, a ponto de entrar por entre o eixo e a roda e nada ter acontecido comigo, graças a Deus.
            Não foi por descuido, pois eu havia amarrado bem firme a mala por cima do bagageiro traseiro.
            A força do vento é desproporcional, e arrebentou as amarras e quase me causou um acidente muito grave.

            O vento nos acompanharia dali em diante até o fim do mundo, e nos acompanharia na volta também.
            Ainda vamos falar dele mais a frente, pois imaginávamos que havíamos passado pelo pior, mas o pior ainda estaria por vir.

            continua.......
            continua......

            Comentário

            • sergio pires
              Fazedor de Chuva
              • Aug 2012
              • 125

              #36
              Ushuaia – Duas Rodas e um Sonho
              Cap 22- Dois Encontros na Estrada

              Motos prontas e partimos ao nascer do sol rumo a Puerto Madryn *, onde havíamos programado um merecido dia de descanso. Seriam pouco mais de 660 km a serem percorridos neste dia.

              * Puerto Madryn (em galês, Porth Madryn) é uma cidade na província de Chubut, na Patagônia argentina. É a cidade chefe do Departamento de Viedma, e tem cerca de 58.000 habitantes.
              A cidade foi fundada em 28 de Julho de 1865, quando 150 imigrantes galeses que chegaram no clipper Mimosa. O povoado cresceu como resultado da construção da Central Ferroviária de Chubutos. É um centro importante para os turistas que visitam os atrativos naturais da Península Valdés e do litoral.
              Fonte: Wikipédia.

              De manhã bem cedo nos primeiros quilômetros de estrada, todos tinham o que vou chamar aqui de “seu momento de solidão”.
              Logo cedo, ainda estamos meio que dormindo e as conversas no rádio são mais espaçadas e os assuntos demoravam a chegar.
              Uns preferem ouvir suas músicas preferidas e com elas, o viajar em silêncio, e os pensamentos, muitas vezes, vagam para bem longe dali.
              Penso que esta é a verdadeira paz, tão procurada e sonhada por muitos e que quando estamos em cima de uma moto em viagem, cada um sonha, traz as lembranças do passado, e ao mesmo tempo, planeja o futuro.
              Isto é o que diferencia uma viagem de moto de outra de avião ou carro.
              Não são iguais, nunca serão iguais.
              Viajar de moto é, sem duvida alguma, um prazer muito grande.
              O cheiro no ar, o sentir da atmosfera que o envolve, o sol e o vento.
              O som suave do vento a cortar o capacete, o ronco forte do motor, as vibrações que você sente ao pilotar o traz uma grande paz de espírito.
              Viajar assim é um prazer enorme, e quem viaja de moto, sabe o que estamos falando e com certeza, já sentiu também esta sensação.
              Para aqueles que ainda não sentiram, ainda é tempo de ver, ouvir e sentir a emoção de viajar em completa harmonia com a natureza.
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              Esta rotina diária é extremamente gostosa de ser sentida e curtida numa viagem longa, e é uma das coisas que certamente, todos nós sentiremos muitas saudades.


              O Primeiro Encontro

              O episódio do auto-convite feito pelo chileno Ricardo via email, querendo se juntar ao grupo as vésperas de nossa partida e narrado há alguns capítulos atrás, ficou pendente e neste trajeto, entre Bahia Blanca e Puerto Madryn, voltamos novamente ao assunto, já que algumas surpresas nos aguardavam neste trecho.
              Como já haviam passado alguns dias do ocorrido, e havíamos seguido o conselho do Joaquim, não dando nenhuma resposta, nem sim nem não, mantendo um silencio “sepulcral” quanto ao seu pedido, saímos de viagem sem saber ao certo se o Ricardo iria ou não se encontrar com o grupo no caminho.
              Eu nem sequer me lembrava mais do assunto, imaginando que como ele não se manifestou mais, e nem recebeu de nossa parte a confirmação, o assunto estaria encerrado.
              Assim como eu, acho que o grupo também não se lembrava mais do caso.

              No trajeto estavam previstos 3 abastecimentos, gravados na rota do GPS.
              O primeiro abastecimento fizemos em Rio Colorado*, logo após passarmos pelo majestoso rio, que literalmente separa a Argentina em duas partes.

              O rio colorado (em espanhol: Río Colorado) é um dos principais rios da Argentina, que localiza-se na América do Sul.
              Seu comprimento e de 1.114 km, a área da bacia e de aproximadamente 350.000, a foz é o Oceano Atlântico. A altitude da sua nascente é de 3.000 metros, nos picos gelados dos Andes.
              Fonte: Wikipédia

              Até ali, havíamos verificado vegetação intensa, grandes áreas produtivas, criações de gado e muita riqueza, o que confere com a força da Argentina na área da Pecuária e Agricultura.
              Porém, após o Rio Colorado, a Patagônia, que aos poucos vai se transformando em uma imensidão de terras vazias, uma vegetação cada vez mais pobre e regiões sem vida aparente, e esta característica de vegetação e deserto, aumenta gradativamente, quanto mais para o sul se avança.

              O segundo abastecimento estava previsto para o posto YPF em San Antonio do Oeste, numa perna de 232 km depois de Rio Colorado.
              À 5 km antes da chegada no posto YPF marcado para o abastecimento, o Joaquim avisa pelo rádio:

              - Fiquei sem combustível e estou encostando a moto.
              - Podem seguir em frente com o Lelè, que eu e o Toninho ficaremos para dar assistência a ele, responde o Chico.

              Inexplicavelmente a moto do Joaquim havia consumido mais combustível do que o previsto e a apenas 5 km do posto de abastecimento previsto, ficou na estrada.
              Mantendo a regra do grupo que, sempre que alguém parasse na estrada, deveriam parar 3 companheiros sendo: O cerra Fila e o que estiver imediatamente à frente do cerra fila.
              Esta regra de ficar pelo menos 3, é muito importante, pois se um tiver de ir buscar ajuda, sempre dois ficam na estrada, garantindo a segurança e nunca deixando apenas um companheiro e sua moto.

              Naquele momento, pararam o Chico e o Toninho, que imediatamente foi buscar combustível, enquanto que o Chico ficou fazendo companhia ao Joaquim.


              O restante do grupo seguiu em frente com o RC até o posto de gasolina YPF, 5 km à frente, e providenciavam seus abastecimentos, enquanto aguardavam a qualquer momento, a chegada dos três que ficaram para trás, pois vimos que o Toninho já havia voltado com gasolina para reabastecer a moto do Joaquim.

              Neste posto, estava previsto também o nosso lanche, então naturalmente, cada um após o abastecimento, se dirigiu para dentro do restaurante, a fim de poder lanchar e tomar uma água ou refrigerante.

              De repente, do nada, quem aparece?
              O chileno Ricardo, todo sorridente e dá um abraço no Lelê e diz que chegou há mais de um dia e imediatamente, pergunta pelo Chico.

              O Lelê fala com ele meio de esguelha pois sabia do problema da incorporação dele ao grupo e aguarda acontecimentos, quando então, já no meio do lanche que estava sendo degustado por todos, o Ricardo, que já havia conversado com o Chico chega ao Lelê e diz :

              - Vocês demoraram muito!
              - Eu já estou aqui bastante tempo e preciso da tua ajuda, pois estou com problemas sérios no pneu traseiro da minha moto.

              O Lelê meio escamoteado, sem poder se manifestar sobre a vinda de mais uma pessoa ao grupo, então disse a ele que em Puerto Madryn poderia haver no comércio local ou então em Comodoro Rivadávia.
              Lá com certeza haveria pneu para aquisição, mas que deveria fazer contato imediatamente porque no dia 31 de Dezembro o comercio fecharia e nós somente chegaríamos lá de tarde.

              Eu estava lanchando junto com o Buatim e Ivan, quando vi a cena do chileno se aproximando, e como havia, naquele mesmo posto, um outro motociclista estacionando a moto, pensei logo:

              - É o começo do fim.
              - O chileno não só veio se juntar a nós, como trouxe um amigo junto!
              - Alfredo, isto não vai dar certo.

              E pior ainda, pensei:

              - Além de se juntar a nós sem ser convidado, ainda nos traz um problema no primeiro minuto de conversa, pois o desafortunado saiu do Chile com pneu careca e agora, com o pneu na lona, transfere o problema para nós?

              Era tudo o que não queríamos até então.

              O Joaquim então entra na conversa.

              - Olha pessoal, não podemos impedir o Chileno de andar junto com o grupo, afinal de contas, a estrada é livre.
              - Eu alertei o Chico sobre a colocação do nosso roteiro no site.
              - Vamos deixar acompanhar o grupo e ver o que acontece.
              - Se for um chato e percebermos que vai estragar o nosso grupo, colocamos ele para correr.

              O outro motociclista parado, não estava com ele, e tinha outro destino.

              - Menos mal, pensei, pelo menos veio sozinho.

              E assim, entramos novamente na Ruta 3, agora o comboio composto por 9 motos, tendo o chileno como novo “incorporado”, ou intruso no nosso grupo original.
              Sua moto, uma Fat Boy azul, bonita moto, mas muito barulhenta.

              Pensei:

              - Nem bem entramos na estrada e já estou implicando até com o barulho da moto deste chileno.
              - Tenho que me controlar.

              Não achei correta aquela minha atitude, e prometi a mim mesmo, que não faria nenhum pré-julgamento antes de conhecê-lo melhor, o que não quer dizer que eu concordava com a forma que ele se incorporou ao grupo.
              Mas como nada poderia fazer a aquela altura, resolvi relaxar.
              Mas estava tão boa a viagem daquele jeito, com aquele grupo maravilhoso, uma harmonia total, que parecíamos que éramos um só, e agora, temos um elemento estranho.
              Queiramos nós ou não, teremos que acomodar novamente o grupo para que o mesmo não se desfaça por nada.

              Como a moto dele não tinha rádio, ficamos muito á vontade para cutucar o Chico quanto da sua incorporação ao grupo, pois ao que tudo indicava, o Chico sabia que ele iria se encontrar conosco ali naquele posto, e isto foi motivo de muitas brincadeiras ao longo de vários km.
              De fato, acho que o Chico sabia, e não nos antecipou a notícia, para não deixar o grupo tenso, mas no fundo no fundo, ele desconfiava que o chileno estaria lá e nada poderia fazer para impedi-lo, e nem poderia.

              - Joaquim?
              - Fala Lelê.
              - Como está o chileno ai atrás?
              - Está acompanhando o grupo até que bem
              - A moto dele é barulhenta, mas está acompanhando o nosso ritmo.

              E assim, o chileno se “juntou” a nosso grupo, meio que “sem querer querendo também”, e ninguém ali iria expulsá-lo, afinal de contas, a estrada é de todos.

              continua....
              Arquivos Anexos
              Última edição por sergio pires; 28-12-12, 15:59.

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              • sergio pires
                Fazedor de Chuva
                • Aug 2012
                • 125

                #37
                Ushuaia – Duas Rodas e um Sonho
                Cap 23 - Um Pingüim de Boné


                Levantamos cedo depois de uma noite muito bem dormida
                Estávamos inteiros e prontos para enfrentar a temperatura, por volta dos 6 graus.
                Todos com máquinas fotográficas em punho e o destino era 140 km que seriam percorridos de Van, rumo norte, em estrada de rípio, para visitar a Península Valdés.


                A PENÍNSULA VALDÉS

                A Península Valdés é uma parte da Patagônia Argentina que tem uma superfície de aproximadamente 4.000 km² de áreas de falésias e enseadas. Essa região abriga uma grande variedade de espécies animais e conserva um ecossistema bastante peculiar, especialmente com espécies marinhas e aves de migração.
                A Península Valdés é Patrimônio Mundial desde 1999.
                (fonte: Wikipédia)

                Muito organizado o local, e já na entrada onde se compram os tickets, um museu completo conta a história da península, bem como os animais que lá habitam.

                Na pingüineira, pudemos chegar observar bem de perto dos ninhos dos pingüins* espécie magalhanes, que procriam em tocas cavadas na encosta do mar, e conhecer um pouco de sua rotina diária, bem como seus hábitos, ouvindo a narração dos guias locais.

                * O pinguim é uma ave da família Spheniscidae, não voadora, característica do hemisfério Sul, em especial na Antárctida e ilhas dos mares austrais, chegado à Terra do Fogo, Ilhas Malvinas e África do Sul, entre outros.
                O pinguim é uma ave marinha e excelente nadadora. Chega a nadar com uma velocidade de até 45 km/h e passa a maior parte do tempo na água.
                Pinguins são muito adaptados à vida marinha. As asas vestigiais são inúteis para vôo no ar, na água são muito ágeis. Na terra, os pinguins usam a cauda e asas para manter o equilíbrio na postura erecta.

                Possuem uma camada isolante que ajuda a conservar o calor corporal na água gelada antártica. Eles podem ingerir água salgada porque as glândulas supraorbitais filtram o excesso de sal da corrente sanguínea. O sal é excretado em um fluido concentrado pelas passagens nasais.
                Há espécies de pinguins cujos pares reprodutores acasalam para toda a vida enquanto que outros fazem-no apenas durante uma época de reprodução. Normalmente, os progenitores cooperam nos cuidados com os ovos e com os juvenis.
                A forma do ninho varia, segundo a espécie de pinguim: alguns cavam uma pequena fossa, outros constroem o ninho com pedras e outros utilizam uma dobra de pele que possuem ventralmente para cobrir o ovo. Normalmente, o macho fica com o ovo e mantém-no quente, e a fêmea dirige-se para o mar com vista a encontrar alimento. Quando no seu regresso, o filhote terá alimento e então os papéis invertem-se: a fêmea fica em terra e o macho vai à procura de alimento.
                (fonte: Wikipédia)

                Em um dos pontos de observação, com o vento sempre a nos acompanhar, uma rajada forte levou o boné dos 105 anos da Harley que eu usava, e que havia ganhado de presente do Chico anos atrás, para o meio dos ninhos dos pingüins.
                Tinha grande valor aquele boné para mim.

                Como as placas diziam claramente para nos manter atrás das cercas e não invadir a área de procriação, não invadi a área, embora vontade não me faltava.
                Restou-me apenas olhar o boné preto, a poucos metros da cerca, cercado de pingüins por todo lado.

                A guia me explicou que os pingüins iriam carregar o boné para dentro do ninho, e certamente um pingüim iria nascer dentro dele, o que me confortou um pouco, embora não me sai da cabeça que ao cair da noite, quando todos os visitantes fossem embora, certamente o guarda daquele local iria se apropriar do meu boné.

                O Joaquim, á noite, emitiria um alerta no site:

                - Se alguém encontrasse um pinguin usando um boné preto da Harley, que o devolvesse ao Pires.

                Visitamos também na mesma península, a Caleta Valdés, uma área mais aberta, onde pudemos apreciar os leões marinhos tomando sol na praia e vários filhotes recém nascidos.
                O local também é conhecido pela concentração de baleias, que procuram a península até o final da primavera. No entanto, não avistamos nenhuma delas devido á época. Um guia local nos disse que dois dias antes, um casal ainda podia ser visto nadando nas águas calmas da península.
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                Um almoço, em um restaurante típico localizado na própria península, onde apreciamos um cordeiro patagônico, encerrou nosso dia turístico.
                Aprendemos muito sobre a vida naquele local e a importância da preservação de espécies.
                Aos viajantes que por lá passam, vale a pena reservar um dia inteiro para conhecer a Península Valdés, patrimônio mundial desde 1999. Ver os animais em seu habitat natural vivendo com os mesmos hábitos de séculos atrás, é uma experiência cultural muito interessante.
                Em resumo, o dia havia sido excelente, pois embora eu tenha perdido o meu boné de estimação, mas a parada havia sido programada na hora certa, já que ficar um dia sem pilotar a moto, depois de 4 dias seguidos pilotando era recomendável.

                O chileno Ricardo se incorporou e se integrou muito bem ao grupo e na viagem de van, serviu de intérprete e passou a participar com o grupo de tudo que havia.
                Com certa humildade, respeitou o grupo já formado, e aos poucos, foi ganhando a simpatia de todos nós.
                Alegre, participativo e muito falador, ganhou nossa simpatia de vez quando cantou, na ida para a Península, o Hino Nacional Brasileiro.

                - Eu sou brasileiro, vivi no Brasil por 11 anos, e tenho muitas lembranças de sua terra.
                - Fui até casado com uma brasileira.

                Ao final daquele dia, havia arrumado apelido para cada um de nós, e segundo ele dizia, era um bom observador.

                - O Chico seria o “Velho Zorro”.
                - O Joaquim seria o “Sarchento” Garcia*, pelo seu “porte físico” e por viver perseguindo o Zorro.
                *estou escrevendo como ele pronunciava, visto que não conseguia pronunciar “Sargento”.
                - O Lelê seria primeiro a Madre Superióra, pois era nosso Road Captain e o que ele mandava, a turma obedecia. Mas depois, mudou para Zangado.
                - O Beber seria o Meretríssimo, pois errou o português, ao invés de chamá-lo de Meritíssimo
                - O MacGyver seria o Mulecão, pois ao visitar os pingüins na Península , e vendo que um deles não se mexia, resolveu jogar uma pedra no coitado, que continuou ali imóvel, como se fosse feito de gesso, igual aos daqueles que colocamos em cima da geladeira. Por esta razão, ganhou o apelido de Mulecão.
                - O Buatim e Ivan – Primeiro, seriam o Tico e Teco, em alusão ao desenho animado e depois mudou para Fusca e Fusquinha, por serem revendedores da marca.
                - O Toninho, seria o Rei do Gado, por razões obvias. Sempre perguntava ao Toninho quantas cabeças de gado ele tinha no pasto, o que o Toninho sempre lhe dava uma resposta atravessada e mal humorada.
                - E eu, seria o Zé Boné, e não preciso explicar o porque.

                Amanhã, motos na estrada novamente, pois a Ruta 3 nos espera e temos de chegar a Comodoro Rivadávia, nossa próxima parada e cidade que escolhemos para passar o réveillon.
                Será o primeiro réveillon que todos nós passaremos longe da família.

                Comentário

                • sergio pires
                  Fazedor de Chuva
                  • Aug 2012
                  • 125

                  #38
                  Ushuaia – Duas Rodas e um Sonho
                  Cap 24 - Os Guanácos


                  Saímos de Puerto Madryn as 8:00 horas em ponto, dez graus de temperatura e tempo claro, ainda sem vento, para percorrermos pouco mais de 440 km até a charmosa Comodoro Rivadávia *, avançando ao sul, pela Ruta 3.
                  Em resumo, seria uma viagem curta.

                  *Comodoro Rivadavia é a cidade mais populosa da província de Chubut, Argentina, com cerca de 125.000 hb., contudo não é a capital da mesma, sendo esta a pequena Rawson. É uma cidade seca, perto do meridiano 45°; é localizada na Baía de São Jorge. Foi fundada em 1901, prosperou em 1907 com a descoberta de petróleo (é a capital argentina do petróleo). Recebeu imigrantes boêres, galeses (estes dois em maior quantidade que os outros), espanhóis, portugueses, búlgaros, chilenos, bolivianos, paraguaios e italianos. Localiza-se no golfo de São Jorge. A província de Chubut localiza-se na Patagônia juntamente com Rio Negro, Neuquén, Terra do Fogo, Antártica e Ilhas do Atlântico Sul e Santa Cruz; é a terceira cidade mais ao sul da Argentina.
                  Fonte: Wikipédia.

                  A Patagónia é uma região natural no extremo sul do continente americano que abarca a parte sul do Chile e da Argentina, incluindo os chamados Andes patagónicos.
                  A região do extremo sul do continente americano, conhecida pelos locais como Região de Magalhães, compreende o sul da Argentina e o sul do Chile.
                  A região mais meridional do continente é conhecida como Terra do Fogo (Tierra del Fuego). Nessa região está localizada a cidade mais austral do planeta, Ushuaia, conhecida como "a terra do fim do mundo".
                  Fonte: Wikipédia

                  Para nossa surpresa, o vento não veio com a mesma intensidade de ontem, e pudemos pilotar com mais calma enquanto apreciávamos as belas imagens da paisagem da patagônia.
                  A Ruta 3, neste trecho tem retas intermináveis.

                  O Toninho marcou no odômetro da moto, uma reta com total de 96 km sem uma curva sequer.
                  Se não houvessem as conversas animadas, certamente dormiríamos em cima das motos.
                  Ao longo da rodovia, nos dois lados da pista, uma cerca baixa de arame, acompanha a pista em toda a sua extensão e protege a saída de animais que pastam na imensidão de vegetação rasteira, que segundo o Toninho é muito pobre em termos de qualidade de pastagem, onde pode-se observar muitas ovelhas, além de emas e outros animais menores, como lebres.

                  De repente, nosso RC Lelê lá na frente, emite um alerta:

                  -Cuidado, Guanácos ao lado da pista, reduzam a velocidade.
                  Guanácos?
                  Que bicho seria este?
                  Click image for larger version

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                  O guanaco assim como a lhama, é um mamífero ruminante da América do Sul, da família dos camelídeos. Entretanto este animal tem pelagem mais curta, pode passar quatro dias sem água e vive em grandes alturas, próximas aos 4.000 metros. Por isso vive na América do Sul.
                  (fonte: Wikipédia)

                  E eles apareceram aos montes ao lado da Ruta 3 á partir daquele ponto, oferecendo enorme perigo aos motoristas e muito mais a nós, motociclistas.

                  O Toninho avisa pelo rádio:

                  - Eles vivem em bando, e o maior perigo é quando o bando está repartido, metade de um lado da rodovia, metade do outro lado.
                  - Neste momento, há um perigo eminente de guanacos atravessarem a rodovia para se juntarem ao bando do outro lado.
                  - Se existir apenas um guanáco de um lado e o bando do outro lado, é certo que ele vai atravessar a rodovia.

                  Mais uma vez, a importância do rádio PX em nossa viagem.
                  A partir do primeiro aviso, atenção total na rodovia e nos alertas dados pelo rádio pelos que iam à frente do comboio.

                  - Bando de Guanácos à esquerda...
                  - Guanácos a nossa direita...
                  - Guanácos atravessando a pista...
                  O MacGyver, apelidado de “olhos de águia”, avistava e alertava o grupo não só dos guanácos, mas também de ovelhas, pássaros, lebres e outros animais que enxergava ao longo da rodovia.
                  De fato, em alguns alertas pudemos ver os bichos, mas em alguns, só mesmo o MacGyver enxergou, o que nos levou a suspeita de que poderiam não estar ali, mas ele jurava pelo rádio que os havia avistado.

                  Em um destes alertas, o fato se consumou, e um guanáco que ameaçou correr para um lado da rodovia, e de repente, mudou de direção e veio em direção á pista correndo e cortando a frente da moto do Lelê, que levou um grande susto e passou por grande perigo.
                  O bicho atravessou a apenas alguns metros da moto do Lelê, pulou a cerca do outro lado, e se juntou ao bando, exatamente como o Toninho havia previsto.

                  Os inúmeros animais mortos na beira do asfalto denunciavam que as cercas baixas não conseguem segurar este tipo de animal, que tem enorme facilidade em saltar alturas e invadem a rodovia, vindo a colidir contra carros e caminhões.
                  Cansamos de contar as carcaças destes animais neste percurso entre Puerto Madryn e Comodoro Rivadávia.

                  Mas, nem todos foram atropelados, vimos também animais mortos presos ás cercas de arame. Ao tentar pular a cerca, ficaram presos e morreram ali mesmo.

                  Então, consideramos que os guanacos soltos na pista oferecem um risco grande de acidente, principalmente aos motociclistas que por ali circulam e todo cuidado é necessário para evitar uma colisão, que por certo, é fatal para os dois lados.

                  - Pessoal?
                  - Fala Joaquim.
                  - Precisamos arrumar um apelido para o Ricardo.
                  - Ele já apelidou todos nós, mas ele continua sem apelido.
                  - Que tal “El lugo”, afinal de contas, tem um filho em cada lugar? Sugere o Beber.
                  - Que nada, isto vai encher a bola dele, temos de achar um que o incomode, responde Toninho.

                  E assim, depois de muita discussão no rádio, a sugestão veio do Joaquim.

                  - Pessoal, que tal Guanáco?
                  - Guanáco? Como assim Joaquim?
                  - Ué, ele não surgiu do nada, e pulou na nossa frente na estrada sem ser convidado?
                  - O Guanáco é que faz isto o tempo todo, surge do nada, corta a nossa frente sem avisar.

                  Sugestão aceita por todos.
                  E começamos a chamá-lo de Guanáco, o que provocou a reação e a ira do chileno.

                  - Vejam pessoal, eu apelidei todos vocês com “apelidos carinhosos”, mas este apelido que “voceis arrumarom” para mim, é muito “pechorativo”.
                  - Pejorativo, como assim Ricardo?
                  - É que no Peru e mesmo na Argentina, ser chamado de Guanáco é um sinal de que a pessoa é suja, que cospe no chão.
                  - Ah, então é pejorativo, heim Ricardo?
                  - Sim, não pode não.
                  - Hum.
                  - Pois agora vai ser este mesmo o seu apelido: Guanáco.
                  - Aquele que surge do nada e corta a frente dos outros na estrada sem ser convidado.

                  Aos poucos ele aceitou e assimilou o apelido.

                  Felizmente, passamos pelo pior trecho, dividindo a pista com centenas de animais, mas graças ao bom Deus, apenas com alguns sustos e chegamos a Comodoro Rivadávia logo após o almoço.

                  Na entrada da cidade, fomos recebidos pelo PHD Cesarito, um amigo do grupo que vive em Comorodo Rivadávia, e fez questão de nos escoltar até o hotel, previamente reservado.

                  Motos abastecidas e guardadas na garagem do hotel, agora era hora de preparar a ceia de réveillon, que desta vez seria bem diferente para todos nós, visto que estávamos longe da nossa família, de nossos filhos, de nossas esposas.

                  Ao nosso lado, a companhia de amigos, que a esta altura já podíamos chamar de irmãos.

                  Comentário

                  • Dolor
                    Fazedor de Chuva

                    • Mar 2011
                    • 3250

                    #39
                    FC PHD Sérgio, muito agradável a leitura da viagem de vocês e para quem está se preparando para o Fim do Mundo, praticamente não precisará de mais nada.

                    Depois na continuação vou pedir, se possível, os hotéis e restaurantes utilizados, com os respectivos preços, se os tiveres, para ir montando um guia para os FC em vias de descerem a terra.

                    Já tenho alguns e o pensamento seria para breve, fazer a apresentação no O Sonho, de um roteiro incluindo além destas informações, algumas atrações e check list mencionando entre outras necessidades, o seguro carta verde, seguro de saúde e também a checagem dos documentos e suas validades.

                    Finalmente, estamos viajando no "mesmo dia", com a diferença do intervalo de três anos.

                    Bela coincidência.

                    Abraços
                    Dolor
                    Última edição por Dolor; 28-12-12, 16:25.

                    Comentário

                    • sergio pires
                      Fazedor de Chuva
                      • Aug 2012
                      • 125

                      #40
                      Ushuaia – Duas Rodas e um Sonho
                      Cap 25 - Festa de Réveillon


                      O hotel em que estávamos hospedados em Comodoro Rivadávia havia programado uma festa de réveillon para hóspedes e convidados que já haviam reservado antes.
                      O problema era o custo da festa, que achamos caro demais para o tempo que iríamos permanecer, visto que no dia seguinte, sairíamos cedo.

                      Ao contrário das cidades litorâneas brasileiras, nesta parte da argentina, ninguém sai ás ruas ou vai á praia para a virada do ano.
                      Também, com aquele vento frio...

                      O Cesarito nos esclarece:

                      - As reuniões são feitas nas próprias casas, com a presença de parentes e amigos mais chegados, que se reúnem para uma ceia.
                      - Comemoramos em família.

                      De fato, nem parecia dia 31 de dezembro na cidade, haja vista que ao final da tarde, o comércio permanecia aberto normalmente, não se via aglutinação de pessoas, e os bares e restaurantes, todos eles, fecharam as portas após as 15 horas.
                      Exceto um deles, que iria permanecer aberto, mas quando ficamos sabendo já era tarde demais, pois estava superlotado e só aceitava reservas para depois das 2 da madrugada e não estávamos dispostos a ficar acordado até aquela hora para uma ceia, sendo que no dia seguinte, a Ruta 3 nos aguardava.
                      O jeito seria improvisar.

                      Ninguém no lounge do hotel entendeu direito, mas fizemos a nossa festa.
                      Ficou a meu cargo a contratação da comida na lanchonete do hotel, que nos preparou deliciosos sanduiches de presunto, queijo, vinhos e champagnes.
                      E lá estávamos nós, cantando juntos “Adeus ano velho, Feliz ano novo”, as 23 horas, hora local, meia noite no Brasil.
                      Entre nós, a alegria de ali estar junto aos amigos, e ao mesmo tempo, tristes e saudosos por não estarmos juntos de nossas famílias, nossos filhos e nossas queridas.
                      Para todos nós, este era o primeiro réveillon que passávamos longe da família e isto não era nada normal.
                      Ouvir a voz das queridas pelo telefone era, naquele momento, nosso único alento.

                      Pelo telefone do Toninho, chega a seguinte mensagem, que foi lida a todos nós:

                      De: Lourdes <jl.coelho@terra.com.br>
                      Data: 31 de dezembro de 2009 23:15:02

                      Assunto: Que venha 2010!!!

                      Efetivamente nada muda em nossas vidas do dia 31 para o dia 1.
                      Mesmo assim, ainda acho o ano novo um momento importante, pois olhamos internamente e nos concentramos em promessas pessoais (ser mais firme, passar mais tempo com a família, se dedicar mais aos amigos, viajar mais, ler mais...).
                      Quantas vezes fazemos isso ao longo do ano?

                      Pois é, então desejo que o reveillon funcione como um banho.
                      Uma oportunidade de continuar com as coisas boas construídas e deixar que o resto escorra pelo ralo.

                      Vamos pensar sobre isso: o que levar para 2010 e o que esquecer?
                      Afinal, sem esse movimento nada acontece em nossas vidas.
                      Pois a vida é como uma roda. Só é valorizada em movimento.

                      Beijos e Feliz 2010.
                      Lourdes

                      Dormimos cedo neste primeiro dia de Janeiro de 2010.
                      O réveillon, não teve assim aquele gosto de réveillon, por mais que tenhamos nos esforçado.
                      A ausência da família, esposa e filhos, foi sentida por todos nós.

                      Na madrugada, alguns fogos de artifício estouraram no centro da cidade, e alguns carros arriscaram um “buzinaço” na rua principal, em frente ao hotel.
                      Mas nada que lembrasse as festas que estávamos acostumados a ver aqui no Brasil.

                      - São os amigos e parentes que terminaram a ceia de fim de ano e retornavam para casa, pensei.

                      Amanhã, novo ano, 2010, novo dia, e a Ruta 3 nos espera até Rio Gallegos, o penultimo passo antes de chegarmos ao fim do mundo.
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                      Comentário

                      • sergio pires
                        Fazedor de Chuva
                        • Aug 2012
                        • 125

                        #41
                        Ushuaia – Duas Rodas e um Sonho
                        Cap 26 - O Km 2010


                        Saímos de Comodoro Rivadávia no dia 1o. de Janeiro de 2010 e o trecho seria de pouco mais de 780 km até Rio Gallegos, penúltima etapa antes do ataque final a Ushuaia.
                        Nos parecia um dia normal e não dia de ano.
                        Talvez pelo réveillon da noite passada, para todos nós, ainda meio estranho.

                        A estrada continuava a mesma, longas e intermináveis retas a perder de vista, pouco movimento, a visão da patagônia nua com suas estepes de capim ralo e quase sem nenhum sinal de vida, a não ser de tempos em tempos, alguns grupos de guanácos espalhados pela planície e os avisos no rádio dados pelo MacGyver, afirmando ter visto uma lebre ou uma ema.

                        O vento continuava a soprar sem cessar todo o tempo, e com força o suficiente para nos jogar de um lado a outro da pista, o que torna a viagem muito desgastante para o piloto
                        Aos poucos, íamos nos acostumando com a forma de pilotagem, ou seja, moto inclinada para a direita, vento a empurrar para a esquerda.
                        Andamos tantos km nesta posição inclinada, que nossos pneus desgastaram-se de um lado só.
                        Ainda bem que na volta, a inclinação seria do outro lado e equalizaria o desgaste.

                        O ronco dos motores, sempre o mesmo e constante, sempre na mesma marcha, nos proporcionava tempo suficiente para cada um dos viajantes ouvir suas músicas prediletas, meditar e contemplar a beleza do céu e a imensidão da patagônia e fazer uma auto-análise do que se passou, dos desafios do ano vindouro, enfim, passar uma régua na vida pessoal de cada um.

                        Uma viagem assim faz bem para a alma de qualquer pessoa, pois proporciona momentos de pura contemplação e, na solidão, você pode pensar um pouco em toda sua vida, fazer uma retrospectiva, refazer planos e voltar renovado.
                        Todos nós fizemos isto ao longo desta viagem.

                        O silêncio só era quebrado pelo rádio PX, onde a turma continuava muito animada e os assuntos surgiam nas mais diversas modalidades, e sempre aparecendo alguém conhecedor de determinado tema.
                        Assim, um assunto meramente comum, virava uma discussão calorosa com troca de opiniões que durava horas e isto, ajudava, e muito, a passar o tempo e quando menos se esperava, o Joaquim enviava a mensagem:

                        - Faltam menos de 50 km para o próximo abastecimento.
                        - A velocidade média subiu, para 96 km/hora, excelente média.

                        As pernas muitas vezes de 250 km a 280 km que realizávamos tinham sua monotonia quebrada justamente por estas conversas e discussões, isto sem falar, nos apelidos e nas brincadeiras saudáveis, feitas um com o outro.

                        Aprende-se muito quando se viaja com um grupo seleto como o que viajamos nesta nossa expedição. Quando se utiliza o radio PX então, a viagem é completamente diferente, muito mais proveitosa e gostosa.

                        Tivemos aula de pilotagem e formação de grupo, ministrada pelo Chico, com direito a prova e demonstração ao vivo, na pista.
                        Aulas de criação de gado e cultivo do solo, ministrada pelo Toninho.
                        Inúmeras discussões sobre o GPS, entre o Chico e o Joaquim, um querendo saber mais do que o outro, e o MacGyver, que não usa, não tem e não gosta de GPS, mas gosta de dar suas opiniões a respeito.
                        Mensagens de Incentivo ao grupo, eram enviadas da moto do Lelê, nosso Road Captain, que ia lá na frente.
                        Tivemos até um tribunal de júri, convocado para julgar o caso dos convites ao Joaquim e Lelê feitos pelo Chico. Este julgamento inédito foi realizado em movimento durante mais de 150 km.
                        O julgamento foi conduzido pelo Beber, tendo como advogado o Ivan, e como réus o Chico e Joaquim, tendo o Lelê como testemunha e que terminou pela sentença impugnada pelo advogado, que alegou estarmos em terras internacionais.

                        O Toninho, com suas perguntas acerca de conhecimentos gerais, indo desde física quântica, até a teoria da reprodução das pulgas. De tudo, ele entendia um pouco.
                        O Buatim, dando aulas de motores de carros e sobre viscosidade de óleo.
                        O Lelê, falando do seu Avaí FC, que chamava de Avaizinho, time da capital Florianópolis, do qual é torcedor fanático.
                        A temperatura ambiente era informada de tempos em tempos por mim já que minha moto tinha, ao que parece, um termômetro mais ajustado que as demais.
                        A distancia percorrida, distancia total, altitude, distancia até o próximo abastecimento eram fornecidas pelo Joaquim, que além de piloto de moto, é piloto de avião e conhecedor de GPS.
                        Até agora, não sabemos como ele consegue pilotar e operar o GPS ao mesmo tempo.
                        As fotos em movimento eram feitas pelo Chico, que desenvolveu uma habilidade de conduzir a moto com a mão esquerda no guidão direito, e usa a mão direita para sacar as fotos com perfeição.
                        Não adiantava o grupo alertar os dois que estes procedimentos não eram seguros. O fato é que naquela imensidão, transito quase zero, o risco sem dúvida é menor. Já em cidade ou estrada movimentada, o perigo sem duvida aumenta.
                        Á medida que avançávamos, pudemos observar as marcações dos km em ambos os lados da Ruta 3, e em determinado momento, o Chico deu o alerta:

                        - Pessoal, estamos no km 1.950, isto significa que daqui a 60 km, estaremos passando pela placa km 2010.
                        - Vamos parar para bater uma foto e produzir um cartão de ano novo?
                        Idéia imediatamente aceita por todos e a partir dali, começamos a observar cada placa de marcação de km na rodovia, que na Argentina é feita de km em km, e nos dois sentidos da rodovia.
                        Para quem desce, no sentido Buenos Aires – Ushuaia, os km vão diminuindo, e o contrário para quem sobe em sentido inverso.

                        - A placa vai estar do lado esquerdo nosso diz o Chico, já que no lado direito
                        e na direção que estamos indo, a marcação é dos números ímpares.
                        - Lele, vê se não passa o ponto da placa, alerta o Chico, que neste momento, fazia o trabalho de ajuda junto ao serra fila Joaquim.
                        - Pode deixar amigo, estou de olho já há alguns km atrás.

                        Estacionamos as motos a beira do acostamento de terra e descemos das motos. 9 amigos amontoados em volta da placa do km 2010 da Ruta 3, olhando fixamente para a máquina fotográfica que o Chico havia, com muito esforço, posicionado sobre 2 pedras, e que o vento forte, insistia em derrubá-la e nós todos, torcendo para ela não cair.

                        O meu pensamento, enquanto aguardava o disparo da foto no automático da maquina fotográfica apoiada sobre aquelas 2 pedras, foi o seguinte:

                        - Neste momento, em todo o mundo, quem estaria no dia 1o. de Janeiro de 2010, num deserto, andando de moto, e tirando uma foto ao lado de uma placa, marcando km 2010?.
                        - Com absoluta certeza, ninguém.
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Name:	26.1 -  O Km 2010.jpg
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ID:	160352
                        Por isso, considero a foto que batemos no km 2010, um dos grandes momentos desta nossa incrível viagem ao fim do mundo.
                        Uma foto memorável e que será guardada por todos nós com muito carinho e recordação.
                        Depois de muitos cliques, seguimos em frente.

                        Motos abastecidas na entrada de Rio Gallegos *, e rumamos para o centro da cidade, na busca de hotel, novamente um ótimo hotel com tarifas muito bem negociado pelo Beber e Buatim.

                        *Rio Gallegos é a capital da província argentina de Santa Cruz. O município possui quase oitenta mil habitantes e foi fundado em 19 de dezembro de 1885, distante cerca de 2800 quilômetros de Buenos Aires.
                        Conhecida como a "cidade dos ventos" devido as freqüentes massas polares oriundas da ntártica que passam pela cidade que apresenta relevo plano e seco. Última grande cidade argentina antes do Estreito de Magalhães no Chile, dista 64 quilômetros do Paso de Integración Austral que é o complexo fronteiriço da Argentina com o Chile que possibilita o acesso por via de balsa ao arquipélago da Terra do Fogo assim como está a cerca de 670 quilômetros de Ushuaia, capital da Província da Terra do Fogo e cidade mais austral do mundo e também a 350 quilômetros de Punta Arenas, no Chile.”
                        Fonte: Wikipédia

                        Dormimos pensando no dia de amanhã, ultima etapa até Ushuaia, onde teremos pela frente a travessia do Estreito de Magalhães, 4 aduanas, e o tão temido rípio, talvez este o maior desafio desta nossa viagem.
                        Vamos ver como nos sairemos...

                        Comentário

                        • sergio pires
                          Fazedor de Chuva
                          • Aug 2012
                          • 125

                          #42
                          Ushuaia – Duas Rodas e um Sonho
                          Cap 27 - O Rípio


                          continuacao.....

                          Rajadas fortes de vento pegaram a todos nós, poeira, pedras, as “costelas de vaca”, que ao passar sobre as mesmas, parecia que minha moto iria desintegrar-se.
                          O Beber, em determinado ponto, preparou-se para receber a rajada de vento pela direita.
                          De súbito, o vento mudou de direção e veio no outro lado.
                          Pelo rádio, ouvimos o relato deste momento:

                          - Do Joaquim: Beber, estou logo atrás de você e vi que você se preparou para o vento da direita, mas ele veio da esquerda. Quase te derrubou.
                          - Exatamente meu caro Joaquim, esperava ele empurrar para a esquerda, mas veio ao contrário, por pouco não fui ao chão.
                          - Mas tudo bem, estou bem.

                          O MacGyver, que seguia logo atrás do Buatim/Ivan, também relatou mais tarde ao grupo, que o vento, em determinado ponto da estrada, pegou as duas motos juntas, e as levou de um lado a outro da estrada.

                          - Quando estávamos praticamente caindo contra o barranco, o vento deu uma trégua, e conseguimos manobrar e trazer de volta ao trilho.

                          Andar no trilho é a receita para enfrentar o rípio, usando o tipo de moto que usamos, ou seja, o modelo Touring.
                          Existem dois trilhos que são formados pelos pneus dos veículos que trafegam. Entre eles e nas laterais, as pedras são soltas e passar por ali, é meia queda na certa.

                          Ao cruzar com veículos em sentido contrário então, um suplício pois não havia espaço suficiente em piso firme para entrar com a moto e, geralmente, eram veículos grandes como ônibus e caminhões.
                          Ainda bem que pudemos contar com a educação de alguns deles, que diminuíam a marcha, e deixavam passar sem muito problema.

                          Aos poucos, fomos nos acostumando com a dança das motos e fomos nos adaptando ao rípio.

                          Em determinado momento, o Chico ficou para trás para auxiliar os que vinham mais distanciados das motos da frente e, para retomar a dianteira novamente, teve de imprimir maior velocidade e quando nos ultrapassou, pude perceber que desenvolvia uma velocidade consideravelmente maior do que a minha e andava sem problema algum.
                          Mais tarde, enquanto aguardava os trâmites aduaneiros na fronteira, voltei ao assunto e perguntei sobre o trecho, e ele me relatou o seguinte:

                          - O maior risco de queda no rípio é o medo.
                          - Quando se pilota com medo, não se pilota de maneira solta, se pilota com os braços duros e geralmente, a tendência é de diminuir a velocidade. No rípio quanto mais devagar se anda, maiores são as chances de queda.
                          - Quando se anda no ripio a 40 ou 50km/hora, a moto dança muito mais do que a 60 ou 80 km/hora.
                          - Então, se você conseguir se lembrar, os trechos em que melhor andou no rípio foram exatamente aqueles em que a sua velocidade era maior, talvez 60 ou 70 km/hora.
                          - Nos locais em que diminui a sua velocidade a 40 ou 50 km/hora, você deve ter sofrido mais.

                          A média de velocidade que conseguimos imprimir neste trecho foi de 50 km/hora, considerada boa por ser a primeira vez que andamos neste tipo de terreno, mas a ponderação do Chico parecia fazer todo sentido.
                          O medo nos leva a pilotar mais duros e quase automaticamente, nos faz diminuir a velocidade, aumentando as chances de queda quando o piso é composto de pedras e terra solta como é o caso do rípio.

                          Depois de 120 km de luta, chegamos a Aduana Chilena, em San Sebastiam sãos e salvos, orgulhosos por termos vencido o maior desafio da viagem até aqui e sem quedas.

                          Aqui, diferente da aduana anterior, elas não funcionam juntas, primeiro se passa pela aduana Chilena para os procedimentos de saída do país, e só 13 km à frente, a aduana Argentina para a entrada.
                          Os tramites aduaneiros, os de sempre, carimbos, filas, burocracia.
                          Na saída da aduana, o Beber ao manobrar a moto na saída do estacionamento, que é de terra batida e tem um desnível antes de entrar na estrada, pegou uma lufada de vento lateral fortíssimo, e sua moto foi jogada ao chão.
                          Ele não chegou a cair, só a moto e nada de mais grave aconteceu.

                          Rumamos para a aduana Argentina, num trecho que batizei com o nome de “a terra de ninguém” (explico logo abaixo), e ainda no rípio.
                          Faltando poucos metros para chegada na aduana, cometi o erro fatal: sair do trilho principal.
                          Motivo porque sai do trilho?
                          Eu estava em baixa velocidade naquele momento, a moto pegou pedras soltas na roda de traz e, como estava devagar, não houve como consertar a jogada que ela deu para a direita, e a moto perdeu a direção na roda da frente.
                          E o ripio, não perdoa erros.
                          Como saí do trilho formado pelos carros, fui obrigado a atravessar de um trilho a outro, e a moto se desgovernou completamente.
                          Entrei de lado, e quase caindo, em um “mata burros” feito de trilhos de trem, muito comuns na região.
                          Dei de topo, com a roda da frente, num trilho mais alto do mata burros.
                          Ouvi um barulho seco, de metal contra metal e um impacto seco nos braços.

                          - Quebrei a moto, pensei.
                          - Acabou minha viagem...

                          O impacto foi tão forte que os dois retrovisores da minha moto, que são presos com anéis de pressão muito parecidos aos de carro, se soltaram e caíram.
                          De imediato, avisei pelo PX ao RC Lele do ocorrido, e imediatamente paramos o comboio.

                          Desci da moto assustado e imediatamente fui examinar a roda dianteira, pois achava que poderia ter se partido, tamanho o impacto da batida, e em seguida deitei na frente da moto, para examinar a suspensão dianteira.
                          Felizmente, foi só um susto e nada de grave aconteceu com a moto.
                          Recoloquei os espelhos no encaixe e seguimos em frente.
                          Não imaginava que a suspensão dianteira da minha moto fosse tão resistente...

                          Enquanto atravessávamos esta faixa de 13 km que separam as duas aduanas, fiquei pensando na situação “legal” que nos encontrávamos, e vou explicar em seguida:

                          Após passar pela aduana Chilena, se anda 3 km em território chileno, sem visto, já que acabara de fazer a “saída do Chile”, até encontrar uma placa que indica o limite de território com a Argentina.
                          Ao passarmos esta placa, anda-se mais 10 km em solo Argentino até chegar a aduana, e também sem visto, agora o de “entrada na Argentina”

                          - Significa que estamos completamente ilegais nesta faixa de terra e, por isso, vou batizá-la de “a terra de ninguém”.
                          - Então, quem por ali passar, assim como nós, vai poder dizer que já pilotou a moto “na terra de ninguém”.

                          Entramos porta adentro da aduana Argentina, os procedimentos de sempre, a mesma burocracia.
                          O barulho dos carimbos ecoando pelo salão e em alguns minutos estávamos novamente autorizados a andar em território Argentino.

                          - Ufa! ainda bem, pensei.
                          - Agora estou legalizado.

                          Logo após a aduana, novamente encontramos o asfalto e foi a melhor coisa do dia até ali, agora, era preparar os corações para a chegada.

                          Muitos motociclistas que por lá passam todo ano, acabam “comprando um pedaço de terreno na patagônia”, o que na linguagem motociclista significa, ganhou o chão, caiu.
                          Nossa turma não caiu e saiu ilesa, passamos pelo teste de fogo.
                          Resultado de um trabalho em equipe, onde os mais experientes orientaram os menos e estes, puderam usar toda habilidade na pilotagem de suas possantes.
                          A dica de não andar tão devagar no ripio faz todo sentido, e pode ser observada pelos viajantes, assim como a máxima de ir no seu limite, também é válida.
                          A variável vento, sem dúvida é um complicador enorme na escolha certa e cabe a cada um, saber exatamente como deverá proceder.
                          Temos história de viajantes que lá chegaram, andaram alguns km no rípio e, resolveram dar meia volta pra casa.
                          Temos também história de outros que, resolveram parar a moto no meio do nada, sentar na beira do barranco, e esperar o vento passar.

                          A patagônia é lugar de gente de coragem, de gente preparada e que aceite os desafios conforme eles vão aparecendo, e de alguma maneira, se adapte a ele, conforme as suas próprias limitações.
                          Mesmo que para isto, se avalie que o melhor é dar meia volta.

                          O importante, sempre, é chegar em casa bem.

                          Estávamos a 290 km do destino final, Ushuaia, o fim do mundo, e o nosso RC Lelê, envia a seguinte mensagem no radio PX:

                          - Gostaria de dar os parabéns a todos vocês pela conduta exemplar no rípio.
                          - Que lindo percurso... quanto perigo... quanta preocupação... quanto carinho e amizade entre todos nós...
                          - Desprendimento, preocupação mútua com todos, compreensão, aceitação... vamos curtir bem.
                          - Coisa mais linda de ver todos pilotando com extrema maestria.
                          E dizer a todos vocês que o pior já passou, agora preparem seus corações para a maravilha que vai sendo aos poucos, descortinada a frente de seus olhos daqui para a frente.
                          - Pessoal, estamos próximos do destino final, Ushuaia, vamos manter a concentração e curtir muito as maravilhas que virão pela frente.
                          - Parabéns a todos nós.

                          Aliviados, seguimos pilotando nossas motos, felizes da vida por termos vencido os desafios do dia.
                          Era esperar para ver mais á frente, o que o Lelê havia nos anunciado...

                          Comentário

                          • sergio pires
                            Fazedor de Chuva
                            • Aug 2012
                            • 125

                            #43
                            Ushuaia – Duas Rodas e um Sonho
                            Cap 27 - O Rípio
                            continuacao.....

                            O ferry, que faz a travessia do canal numa extensão de 4,8 km, se aproximou do ponto de atracação e lentamente fez a manobra final.
                            Não existe porto ou cais, a balsa encosta no barranco, baixam-se duas enormes pontes móveis que se apóiam sobre o concreto da pista, e por ali descem, primeiro os caminhões e carros para depois, ser dada a ordem de embarque dos que estão aguardando.
                            As motos são as ultimas a embarcarem.

                            Click image for larger version

Name:	27.1 -  Estreito Magalhaes.jpg
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ID:	160354
                            Para mim, seria até agora, o momento mais tenso de toda a viagem sem nenhuma dúvida, e passo a relatar como foi esta passagem:
                            Os ventos eram fortíssimos, intercalando lufadas tão violentas, que mal conseguia me manter de pé e vinham de sudoeste para quem vai embarcar, ou seja, ao entrar no ancoradouro e alinhar a moto na plataforma para subir a rampa de acesso, o vento me pegaria de lado, a praticamente 90o, e com toda lateral carenada da moto exposta à sua força.
                            Se a moto viesse a escapar da rampa, na subida, cairia direto para dentro do mar gelado.
                            Pedi uma dica ao Chico em como fazer para subir a rampa, o qual me orientou:

                            - Escolha uma das rampas, aponte a roda da frente para ela e não olhe para baixo, fixe o olhar para frente, dentro da balsa e acelere firme. Não olhe para a plataforma, se olhar você cai.

                            Segui a orientação dele, engatei a primeira marcha, confirmei várias vezes se havia engatado a marcha correta, apontei a moto na plataforma direita e acelerei, segurando as manoplas com toda força possível.
                            Assim que iniciei a manobra, levei uma lufada de vento que me jogou para a plataforma da esquerda, totalmente fora do rumo e do foco inicial, e pior, em direção ao mar.
                            Quando a moto foi arremessada para a rampa da esquerda, manobrei rapidamente, equilibrei e acelerei novamente, passando no limite entre a plataforma e o mar, e quando me vi, já estava dentro da balsa, agora protegido do vento pelas laterais do barco.
                            Um sufoco danado, e meu coração parecendo querer sair pela boca.
                            Não sei até agora como subi naquela rampa sem cair e sem ser jogado ao mar.

                            O capitão do navio nos informa que, naquele momento, os ventos sopravam de sudoeste a 65 nós, ou 120 km/hora, e durante toda a travessia do canal, que dura 20 a 25 minutos mais ou menos, tivemos que ficar ao lado de nossas motos segurando-as firmemente, para não tombarem, tamanho era o balanço da balsa de um lado a outro, forçada pelas ondas e pela ventania.
                            O mesmo grupo de 3 motos, em que 2 delas haviam sido derrubadas pelo vento ainda em terra, deixou as motos sem cuidado, e, novamente, uma delas caiu sobre outra, obrigando grande esforço e ajuda para colocá-la em pé novamente.

                            Mas ainda não estava terminado o meu sofrimento, pois tinha o desembarque logo a frente, e, exatamente igual na entrada, os ventos a 90o. piso irregular, pedras e subida forte antes da estrada.
                            Da mesma forma, primeira marcha, mãos firmes na manopla e saí acelerando na espera da lufada de vento que viria logo após sair da zona protegida pelas paredes de aço da balsa.
                            Optei novamente em descer pela plataforma da direita.
                            Foi tão forte a rajada que recebi ao sair da balsa que me tirou completamente do rumo e novamente, me jogou para a rampa da esquerda.
                            Só que desta vez, não houve como manobrar e a moto caiu no vão entre as duas plataformas.
                            A roda da frente escapou da rampa, caindo numa fenda entre o barco e o barranco.
                            A roda de traz passou inteira sobre o buraco, desgovernando a moto completamente.
                            O vento forte continuou jogando a moto para a esquerda, e agora, contra a coluna de carros que aguardavam para o embarque.
                            Com enorme esforço, consegui controlar a moto e contando com a máxima força no contra esterço, e inclinando ao máximo o corpo para a direita, consegui sair daquela situação e colocar a moto nivelada, agora já na pista de comcreto.
                            Do outro lado, só pude ver os motoristas dos carros se encolhendo para o lado do carona, tentando se proteger da eminente batida de minha moto contra os carros.

                            O Joaquim relata mais tarde que não sabe até agora, como não bateu nos carros, em situação idêntica a minha.
                            O Alfredo, com o Ivan na garupa, a mesma coisa.
                            O Beber, também relata que passou com as rodas totalmente fora das rampas e não sabe como não caiu.
                            O Lele descreve assim, sua saída da balsa:

                            - Saímos da Balsa que nem uns foguetes, empurrados por uma ventania que conforme informações do Comandante, chegava aos 120 km por hora.
                            Ao descer dela para terra firme, fomos empurrados para a esquerda, em cima de carros parados que esperavam para entrarem nela e cruzarem o Estreito e por pouco alguns de nós não caíram ou bateram neles.
                            Foi muito ruim e difícil este momento!
                            Forte... muito forte a ventania.

                            Enfim, todos nós passamos por momentos muito difíceis na entrada e saída da balsa e o silencio no radio PX após a travessia, era sinal de que todos estávamos em estado de tensão enorme.

                            Ficamos sabendo depois, pelo PHD Jacare Rocha que a nossa travessia teria sido a ultima naquela manhã e o ferry só voltou a operar novamente, à noite, quando o vento se acalmou.
                            Então, sorte nossa que passamos na ultima viagem, evitando assim, atraso de praticamente um dia em nossa viagem.

                            Tocamos até Cerro Sombrero e abastecemos as motos até o limite máximo dos tanques no único posto existente, pois iríamos cruzar um longo trecho sem abastecimentos e rodando em estrada de chão, chamada de RIPIO.
                            Ao pagar a conta, um susto.
                            Como estávamos na Argentina, vínhamos pagando a gasolina ao preço próximo convertido de R$ 1,00, mas no Chile, a gasolina é muito mais cara, e naquele posto isolado, por ser o único posto existente, o preço cobrado era mais caro ainda, acho que pelo menos, 4 vezes mais caro do que vínhamos pagando até então.
                            Como não há outra opção, o negócio foi pagar, e agradecer por existir aquele posto ali.
                            Comprovado ali duas coisas: gasolina na Argentina é boa e barata, e que a concorrência faz falta, mesmo naquele fim de mundo.

                            A travessia do rípio foi arrepiante!
                            Seriam 136 km de estrada de chão batido, entre Cerro Sombrero e San Sebástian, a serem vencidos com muito vento e muitas pedras soltas.
                            Pela informação do frentista do posto, o melhor caminho a seguir seria direção a Onaissim, dobrando a esquerda em direção a San Sebástian.
                            Nossas motos, tipo turismo, são adequadas a um bom asfalto, mas não indicadas para aquele tipo de piso, onde as motos tipo big trail são as mais utilizadas.
                            Seria um teste tanto para os pilotos, como para as nossas poderosas.
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                            Começamos devagar, com o RC Chico na frente, puxando a turma no inicio, mas em seguida, pedindo ao RC Lelê que assumisse o posto, pois iria dar segurança e auxílio de alguma forma para quem necessitasse ou ficasse para trás, e também auxiliar o Joaquim no final da fila.
                            Era nítida a preocupação do Chico com o grupo, pois de todo o trajeto, sem dúvida o rípio era o que mais o preocupava.

                            Do grupo, exceto o Chico, o Lelê e o MacGyver, ninguém de nós havia pilotado antes no ripio e, portanto, seria o nosso batismo.

                            O MacGyver relata que há muitos anos atrás, em uma tentativa de chegar ao Ushuaia de moto, utilizando a Ruta 40 (La Ruta Mística), caiu algumas vezes em trechos sem asfalto, e foi obrigado a desistir antes de chegar ao trecho que iríamos fazer agora.

                            O Lelê, na passagem por nós para assumir o posto, trazia uma palavra de incentivo e segurança, orientando que cada um atingisse os limites que a sua confiança permitisse, não as ultrapassando e procurando manter marchas de força por causa de lufadas de ventos fortes que iriam acontecer.

                            - Mantenham sempre a trilha da direita da nossa mão... evitem a contra-mão... não fiquem muito junto uns dos outros...

                            E fomos tocando com a segurança necessária e que tínhamos.

                            Na frente, constantemente ouvíamos o alerta do RC Lelê pelo PX:

                            - Subida íngreme com curva acentuada
                            - Cuidado fortes ventos de esquerda na entrada da curva
                            - Ventos laterais modificados em ambos os lados
                            - Cuidado ventania forte...

                            Numa curva ao dizer isto bem forte para nos alertar vimos o nosso RC Lelê e seu imediato Chico, pegarem um vento muito forte na lateral direita numa curva em subida também para a direita e serem jogados do canto direito da trilha para a esquerda da estrada, quase os tirando dela, que lhes causaria estragos pois tinha um desnível bem elevado na esquerda, num barranco, com muitas pedras soltas... que sensação de perigo...

                            Porém, graças ao nosso grande protetor, Senhor dos Universos, que nos acompanha desde o início da nossa jornada, com maestria e demonstrando bom conhecimento os nossos dois amigos conseguiram segurar suas motos bem na beirinha da estrada, fazendo-as voltarem para a trilha planejada.
                            Foi um verdadeiro sufoco para eles e para nós, que víamos o que estava acontecendo.

                            Neste mesmo instante o Lelê entra no rádio e nos alerta para o máximo cuidado pois na curva seguinte, o vento está muito, muito forte e leva a gente para a esquerda...

                            - Entrem em marcha baixa e acelerando para manter a trilha... mantenham força... cuidado extremo!

                            E com os corações aos pulos, entramos no local com a maior precaução e cuidado, enfrentando realmente a força de um vento muito forte, que nos assustou.

                            A extensão da estrada é boa, bem compactada, porém o problema seguiu sendo o vento durante o tempo todo.
                            Quando vinha por trás enchia a gente de poeira, quando de lado, jogava a moto contra o barranco.
                            A diferença era que, no asfalto mesmo jogando para outro lado da rodovia, aplicando o contra esterço, a moto voltava, e ali não, não havia como aplicar contra esterço pois o piso escorregadio o jogaria é no chão.

                            continua......

                            Comentário

                            • sergio pires
                              Fazedor de Chuva
                              • Aug 2012
                              • 125

                              #44
                              Ushuaia – Duas Rodas e um Sonho
                              Cap 27 - O Rípio


                              Eram 7:30 h da manhã do dia 02 de Janeiro de 2010, quando o Cerra Filas Joaquim, deu a ordem de partida ao RC Lelê, anunciando que o comboio estava formado e todos estavam a postos e prontos para a partida rumo ao fim do mundo.

                              - Joaquim, tudo pronto?
                              - Podemos partir?
                              - Todos aqui e a postos, pode partir.

                              Este era um procedimento padrão definido para a viagem do nosso grupo.
                              Nada de cada um sair por si e nos encontramos lá na frente.
                              E isto é válido não só na partida de manhã, mas uma regra adotada durante todas as partidas em nossa viagem.
                              Fossem em saídas dos postos de gasolina após os abastecimentos ou de manhã dos hotéis, ou mesmo em um ponto onde parávamos para bater fotos, era sempre o cerra filas quem dava a ordem de partida e isto, depois que o ultimo piloto posicionasse sua moto para partir.

                              Esta é mais uma dica importante que passo a quem viaja em grupo: manter a unidade do grupo nas saídas, principalmente nas cidades.
                              Em um piscar de olhos, de moto se vai longe, e se algum membro fica para trás logo na saída, uma perda de tempo enorme vai ser gasto pelo grupo até achá-lo novamente, e sem dúvida, gera stress.
                              O mesmo procedimento deve ser adotado nos semáforos, quando se anda dentro de cidades.
                              Nem sempre o “trem” todo consegue passar no sinal verde.
                              O procedimento correto quando parte do grupo fica preso no semáforo, é parar logo a frente, e esperar o grupo de trás se juntar.
                              Seguindo esta regra simples, muitos desgastes desnecessários são evitados nas viagens em grupo.

                              Porém no caso das saídas, deve haver a compreensão de todos, que é o respeito aos horários.
                              Não há nada pior do que um membro do grupo que não cumpre o horário estabelecido para saída, num claro desrespeito aos colegas que viajam junto com ele, e não há nada pior do que estar em cima da moto aguardando o atrasado chegar.
                              Isto é uma das coisas mais irritantes quando se viaja em grupo, a falta de respeito com horários.
                              Durante nossa viagem, não houve nenhum dia sequer que algum membro do grupo tenha se atrasado e perdido o horário combinado para a saída.
                              Discutíamos na noite anterior e estabelecíamos em conjunto o horário da saída, que era regido de acordo com a quilometragem prevista para o dia seguinte.
                              Nas pernas mais curtas, entre 400 a 600 km, saíamos as 08:00 h em ponto dos hotéis, e nas pernas mais longas, o horário de saída era entre 06:00 h ou 07:00 h.

                              O aviso era dado pelo Road Captain, após obter o consenso do grupo, na noite anterior, logo após o jantar.

                              - Pessoal, então está definido, amanhã café as 06:30 h, horário de partida 07:00 h, com a “moto pronta, piloto em cima da moto”

                              E, como sempre, a moto abastecida na noite anterior.

                              Nos postos de abastecimento, a mesma conduta: respeito ao grupo e nada de ficar atrasando a saída e resolver comer aquele lanche, quando todos já estão prontos para sair.
                              Esta regra estabelecida no início e a conduta e consciência de cada um de nós, contribuiu em muito no desenrolar da viagem e foi um diferencial muito positivo em nossa expedição.

                              O RC Lelê, como fazia todos os dias antes da partida, nos enviou a seguinte mensagem antes da partida naquela manhã, enquanto saíamos do hotel em Rio Gallegos:

                              - Meus irmãos, chegamos até aqui e agora partimos para a última etapa, antes de Ushuaia.
                              - Hoje, enfrentaremos o maior desafio de nossa viagem, que será o rípio.
                              - Esta noite choveu muito, e eu temia pelo dia de hoje, no entanto, o Senhor dos Tempos nos premiou com um dia maravilhoso como este, dia ensolarado, sem chuvas.
                              - Que o Senhor dos Tempos continue a nos abençoar.
                              - Uma boa viagem a todos nós.

                              A temperatura, de 6 graus não refletia a sensação térmica provocada pelo forte vento logo cedo em Rio Gallegos confirmando a fama de “cidade dos ventos”.
                              Deveriam existir termômetros que medissem não só a temperatura ambiente, mas a sensação térmica também, já que esta é aquela que sentimos na pele, pensei.

                              Eu estava muito bem preparado, com roupas adequadas ao frio, como segunda pele vestida por baixo, luvas e meias especiais, muito conforto.
                              Segue aqui outra dica aos leitores viajantes que pretendem realizar uma viagem longa, cujo clima não seja amigável:

                              Equipem-se com o que há de melhor em termos de roupas individuais e de proteção contra chuva e frio.
                              Hoje em dia, com o avanço da tecnologia, há no mercado excelentes marcas de roupas especiais para serem usadas no frio ou chuva e isto faz enorme diferença quando se viaja para regiões onde o clima é inóspito.
                              Ficar doente no meio de uma viagem por estar mal preparado não deve fazer parte do planejamento de nenhum viajante.
                              Muito menos viajar com o “peito aberto ao vento”, numa região fria ou chuvosa. É pedir para adoecer e estragar a própria viagem e depois, ninguém gosta de estragar a sua própria viagem e muito menos a de seus companheiros, por imprudência ou espírito de bravura.
                              Outra dica: saia de manhã bem agasalhado, pois é muito mais fácil e rápido parar para retirar o excesso de roupa do que parar para colocar mais roupa, e explico.
                              Quando se está em regiões de clima frio, todos os hotéis tem a calefação ligada constantemente, e isto dá a falsa impressão de calor e, induz o viajante a sair com pouca roupa, achando que lá fora faz calor.
                              Afirmo isto, pois com o nosso grupo aconteceu o fato.
                              Logo após a partida, o viajante percebe que fez besteira, pois o frio é intenso e começa a castigar e causar extremo desconforto, seja no corpo, seja nas mãos, seja nos pés.
                              Acontece que o “trem” está andando e as roupas de frio, devidamente guardadas nas maletas, o que significa que, parar na estrada para colocar a roupa de frio vai demorar muito, e atrasar todo o comboio.
                              O viajante então opta por tocar até o primeiro abastecimento, para daí refazer o erro cometido de manhã.
                              Ocorre que este primeiro reabastecimento pode demorar horas a chegar, e o corpo já foi atingido pelo frio.
                              Esta dica acho importante ficar registrada.

                              Partimos, e a primeira parada, foi na aduana Argentina/Chilena, que funcionam num mesmo prédio e onde realizamos os procedimentos de saída da Argentina e entrada no Chile.
                              Quanta burocracia!
                              Uma infinidade de formulários tem de ser preenchidos.
                              Carimbos devem ser tomados em três ou quatro postos de atendimento, onde a vontade do atendente conflita com a ansiedade e a pressa do viajante.
                              Eles nem olham nada, carimbam quase que mecanicamente as folhas, não se importando em nada com o que está escrito.
                              A pergunta é: O que fazem depois com tanto papel?

                              As filas são enormes de turistas aguardando um simples carimbo.
                              Para nós, que estávamos com a moto então, a burocracia foi maior ainda, pois além dos documentos pessoais, há de preencher a entrada temporária do veículo no país, mais carimbos, mais filas.
                              É um atraso enorme quando comparado, por exemplo, com a União Européia, onde as fronteiras são praticamente abertas, e a burocracia, não existe.
                              Me parece que vai demorar um pouco até que isto melhore aqui na América, pois não se percebe nenhuma vontade por parte dos países integrantes do MERCOSUL, incluindo o Brasil, em facilitar a vida de turistas, que trazem a riqueza para a região e que necessitam adentrar nos países vizinhos.
                              Mereceriam no mínimo, mais respeito quanto a isto.

                              Depois de muitos formulários, carimbos e uma boa dose de paciência, saímos da Aduana, e já em território Chileno, chegamos até o Estreito de Magalhães * a fim de pegar o Ferry Boat e efetuar a travessia no famoso canal, que une os oceanos Atlântico e Pacífico.

                              *O Estreito de Magalhães é uma passagem navegável de aproximadamente 600 km imediatamente ao sul da América do Sul. Situa-se entre o continente e a Terra do Fogo e o cabo Horn ao sul. O estreito é a maior e mais importante passagem natural entre os oceanos Atlântico e Pacífico.
                              O navegador português Fernão de Magalhães foi o primeiro europeu a navegar pelo estreito em 1520, durante sua viagem de circum-navegação. Como Magalhães entrou no estreito dia 1 de novembro, ele foi chamado inicialmente de Estreito de Todos os Santos.
                              O Chile tomou posse do estreito em 23 de março de 1843, e em 1881 o território foi dividido entre a Argentina (província da Terra do Fogo) e o Chile (província da Terra do Fogo).
                              O estreito ainda é conhecido pela dificuldade de navegação, devido ao clima inospitaleiro e à sua pequena largura, mesmo assim, antes da criação do Canal do Panamá, o estreito de Magalhães era a única passagem utilizada para atravessar do Atlântico ao Pacífico evitando assim o tempestuoso cabo Horn.

                              O estreito foi atravessado, entre outros, por Francis Drake e Charles Darwin. Os caçadores de ouro durante a corrida pelo ouro na Califórnia em 1849 também usaram essa rota.
                              Fonte: Wikipédia

                              A fama do clima no Estreito de Magalhães ser inospitaleiro pôde ser comprovada neste dia.
                              Ao nos aproximarmos do local de atracação da balsa, ventos fortíssimos sopravam sem cessar, com lufadas que jogavam com força as motos de um lado e de outro e era praticamente impossível parar em pé.
                              Enorme risco das motos caírem, mesmo que paradas e apoiadas.
                              Ao estacionarmos as motos, o Chico orienta a todos nós:

                              - Deixem as motos engatadas na 1a. marcha, e de costas para o vento, pois caso contrário, elas vão cair.

                              Logo á frente, estavam estacionadas 3 motos de outro grupo, e duas delas foram arremessadas ao chão pela força do vento.

                              continua.....

                              Comentário

                              • sergio pires
                                Fazedor de Chuva
                                • Aug 2012
                                • 125

                                #45
                                Ushuaia – Duas Rodas e um Sonho
                                Cap 28 - Chegando a Ushuaia


                                continuacao....

                                Vimos uma imensidão de floresta, composta por árvores grandes, metade morta, metade viva.

                                - Como pode um pequeno inseto fazer tanto estrago, pensei.

                                Mas o fato é que uma praga está tomando conta da floresta, e os galhos secos, emergindo na terra como que pedindo socorro ao céu, numa visão surreal de um lugar tão lindo.

                                Já passavam das 16 horas e estávamos tranqüilos quanto ao tempo, pois sabíamos que a estrada dali para frente é toda pavimentada e de excelente qualidade e que o anoitecer no Ushuaia se daria lá pelas 22:00 horas, então, nada de pressa.

                                Não tínhamos que nos preocupar com a noite, e também porque, faltavam apenas 103 km após o ultimo abastecimento efetuado em Tulhuin, quando o Lele, comenta com o Chico:

                                - Chico, lembra desta estrada como era antes?
                                - Sim Lele, tudo rípio quando eu vim aqui em 2002.
                                - Era rípio e muito pior do que o trecho que passamos, Chico.
                                - Olha agora que maravilha, tudo asfalto.
                                - As dificuldades eram maiores Lele, daqui a pouco eles asfaltam tudo, e acaba o charme de chegar aqui e enfrentar o ripio.
                                - Pessoal, estamos a 100 km do nosso destino, do nosso sonho, diz o Road Captain Lele.
                                - Daqui para frente, vocês verão paisagens lindíssimas.
                                - Mantenham a concentração, não vamos relaxar ainda, pois não atingimos o nosso objetivo.
                                - Vou diminuir a nossa velocidade de cruzeiro para 80 a 100 km/hora para possibilitar que todos possamos curtir esta maravilha que se descortinará a frente de nossos olhos, nos próximos km.

                                E quanto mais próximos estávamos do nosso objetivo final, parecia que uma aura tomava conta do grupo.
                                Esta sensação, só de moto pode-se sentir na sua plenitude.
                                Jamais estando fechado no interior de um carro, seríamos envolvidos e tocados pela natureza daquela forma, isto só mesmo quando estamos em cima de uma moto.
                                Sentir este prazer é algo indescritível e tentarei traduzir ao leitor, o que se passou naqueles km finais.
                                O céu, era de um azul intenso, parecia ter sido pintado por um artista, nas formações de nuvens que nos cobriam.
                                Aos poucos, os contornos e os picos nevados da cordilheira á nossa frente, pode ser visto no horizonte.
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Name:	28.1 - Chegando Ushuaia.jpg
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ID:	160355
                                A temperatura por volta dos 11o C, já não era mais sentida, apenas a sensação de prazer por poder estar chegando.
                                Estávamos a 60 km do destino quando começamos a margear um lago maravilhoso, chamado “Lago Escondido”*.

                                Lago Escondido é um lago no departamento de Ushuaia, na província de Tierra del Fuego, Argentina e está localizado a 57 km ao norte de Ushuaia.
                                O Lago Escondido é cercado por florestas e montanhas íngremes. O lago tende a mudar de cor dependendo da luz solar.
                                Fonte: Wikipédia.

                                Um espetáculo de luz e cor, entre o céu e a água, podia ser vista por todos nós.
                                Á medida em que avançávamos com as motos, serpenteando as curvas ás suas margens, a cor da água se alterava, de um verde esmeralda brilhante, a um azul anil profundo.
                                No céu, as cores das nuvens provocadas pelo reflexo da luz do sol que já tomava o lugar com destino ao poente, dava uma visão espetacular de tudo aquilo, como que em um equilíbrio perfeito.
                                Não tenham dúvida que uma alegria imensa tomou conta de nossos corações.
                                Ninguém dizia nada, apenas curtíamos aquele momento, em silêncio total.
                                Não me contive, e falei a todos os amigos, pelo rádio PX:

                                - Gostaria de dizer a todos da alegria que sinto em estar aqui, neste momento, com todos vocês.
                                - Imagino que cada um de nós esteja pensando em algo bom neste momento, e com certeza, em nossa família, nos nossos filhos e nas nossas queridas.
                                - Estou relembrando agora, o início do nosso projeto, dos emails que cada um de vocês enviou a mim.
                                - Me lembro perfeitamente do email do Joaquim, onde dedica esta viagem a seu pai, e que quando voltar, quer abraçá-lo bem forte e dizer a ele com todo carinho: Não falei pai, que tudo ir dar certo?
                                - Do email do Toninho, relatando a dificuldade em por no papel todas as suas expectativas e que queria provar que sim, ele podia tornar este sonho realidade.
                                - Do Lelê, que queria reencontrar as belas paisagens, procurar a paz e a satisfação pessoal, liberar sorrisos e mais uma vez, poder dizer que a vida vale a pena, e deve ser vivida intensa e plenamente.
                                - Do MacGyver, que se inspirou no poeta Horacio Braun para dizer da importância da busca da felicidade.
                                - Do Beber, que agora deve estar pensando em sua querida e nos seus queridos filhos, tão distantes daqui.
                                - Do Buatim, que entre todos nós, deve ser o mais feliz, pois está com o seu filho Ivan na garupa, dividindo com ele este momento de intensa felicidade.
                                - E ao meu amigo Chico, que um dia prometeu a mim que atravessaríamos a cordilheira juntos, e daqui a pouco, vamos realizar este sonho.
                                - O meu muito obrigado Chico, e saiba não vou me esquecer disto jamais.

                                Foram momentos de intensa alegria e emoção e, sim, todos nós choramos por debaixo do capacete á medida em que avançávamos, devagar, apreciando aquela imensidão de beleza sem igual.

                                - Pires, parabenizo você pois foi o único que teve a coragem de expressar sua emoção neste momento.
                                - Acho que falou por todos nós, diz o Joaquim.
                                E continuamos, agora subindo e serpenteando a cordilheira rumo ao “Paso Garibaldi”.*

                                * Paso Garibaldi é um ponto de parada obrigatória para quem segue para o Ushuaia. Situa-se no meio da cordilheira e marca o “paso” ou passagem. Tem um mirante, com uma vista privilegiada do Lago Escondido. Depois dele, começa a descida para Ushuaia
                                Nota do Autor

                                Estacionamos as motos ao longo do acostamento de pedras soltas no Paso Garibaldi.
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Name:	28.3 - Chegando Ushuaia.jpg
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ID:	160356
                                Descemos das motos e ainda atabalhoados com tamanha beleza que tínhamos a frente, começamos a fotografar por todos os lados.
                                Á esquerda, a visão da cordilheira com todo o seu esplendor, e seus picos cobertos de branco pela neve eterna.
                                A Frente, a visão fantástica do Lago Escondido e suas cores exuberantes.
                                A direita, os paredões de pedra que foram cortados para dar passagem a rodovia.

                                Tiramos muitas fotos e também fomos muito fotografados por um grupo de turistas que estavam no mesmo local.
                                Na saída, o Chico ordena ao grupo:

                                - Ei pessoal, vamos sair e fazer a formação, para que eu possa fotografar o grupo, tendo como fundo, as cordilheiras.
                                - Um a um, intercalado em cada lado da pista.
                                - Vão ficar lindas estas fotos.
                                Click image for larger version

Name:	28.4 - Passo Garibaldi.jpg
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ID:	160357

                                A partir daquele ponto, mais alguns km adiante e iniciamos a descida.
                                Pista sinuosa, mas bem conservada.

                                O MacGyver, em determinado ponto, alerta pelo PX:

                                - Ei pessoal, vamos mais devagar, para curtirmos melhor esta visão fantástica.

                                Estávamos já indo devagar, mas a vontade do grupo em chegar era grande.
                                Ao final da reta, o portal da cidade de Ushuaia, a nos esperar.


                                “USHUAIA”

                                “Bienvenidos a la ciudad más austral del mundo”

                                “Welcome to the southernmost city in the world”


                                Paramos e nos abraçamos por havermos chegado ao nosso destino.
                                O encontro com outro grupo de motociclistas que viajaram desde Rio do Sul também foi celebrado e, juntos, abrindo uma bandeira do Brasil que eles carregavam, tiramos fotos e marcamos nossa passagem pelo portal.

                                Rumamos devagarzinho até o posto de combustível no centro da cidade, localizado bem ao lado do porto e de frente para o Canal de Beagle, abastecemos as motos e eu, Buatim e Ivan fomos negociar o hotel.

                                Jantamos todos muito felizes naquela noite, brindamos nossa chegada e fizemos os planos para os próximos 2 dias que iríamos permanecer na cidade.

                                - Ainda não chegamos ao nosso destino final, lembra o Chico.
                                - Nosso destino final é Lapataia, onde de fato é o fim do mundo.
                                - Iremos lá depois de amanhã.

                                O dia seguinte seria para levantarmos mais tarde, sem pressa, e curtir a cidade.
                                O Chico e o Lele iriam fazer o passeio de trem e o teleférico, pois não conheciam ainda.
                                O resto do grupo escolheu navegar pelo Canal de Beagle e conhecer o centro da cidade.

                                - Temos também de conhecer as lojinhas.
                                - E fazer compras para a querida.

                                Este foi o Buatim, que de todos, foi o que mais presentes comprou para a sua querida.
                                Mas todos nós lembramos delas, e não deixaríamos de levar uma lembrança também.

                                Da janela do quarto, podíamos ver, bem de frente o esplendor do Canal de Beagle, ainda iluminado por um céu claro, as 11:30 h da noite.
                                Dormimos todos muito felizes naquela noite.
                                Última edição por sergio pires; 28-12-12, 16:58.

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