GCFC ARTUR ALBUQUERQUE - Ushuaia até Prudhoe Bay

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  • Dolor
    Fazedor de Chuva

    • Mar 2011
    • 3250

    #31
    Diário de Bordo PHD Alaska: Ciudad de Panama - 12/09
    – Bogota (Translado Aéreo) – Acordei cedo e lancei os posts no Blog. Às 09:30 h, surgiu uma carona que seria para o Terminal de Cargas, onde eu iria despachar a Electra, mas acabou me levando por engano para o Terminal de Passageiros. Aproveitei e fui logo a oficina da Avianca. Mediante a reserva e
    a eficiência da Minha Paixão, pude pagar a passagem com o VISA, ficando com mais grana no bolso e menos preocupações. Em seguida, fui ao Terminal de Carga para fazer a entrega da Electra.
    A funcionária da Air Cargo Pack tirou cópias dos meus documentos, assinei alguns papéis,
    entreguei-lhe o dinheiro.
    Disse que ela mesma faria a aduana de saída, me entregando o documento e as
    orientações para eu pegar a Electra, em Bogota. Listo! Foi tudo eficiente e bem rápido.
    Então, pude ir para o terminal de passageiros, a fim de aguardar o meu vôo. Às 18:00 h estava
    decolando de Ciudad de Panamá e às 19:30 h, seguindo para o hotel, em Bogota. No
    aeroporto, perguntei a um pseudo agente de viagens se o hotel American Dream era perto.

    Disse que era bem longe e me sugeriu outro hotel, próximo ao aeroporto, para onde noutro dia eu deveria voltar.
    Fiquei no Hotel Travel Empresarial e me dei mal, pois era caro por ser muito ruim.

    Depois de instalado e planejado o dia seguinte, fui dar uma olhada nas mensagens do Blog,
    que eu não fazia ideia de como são uma injeção de ânimo e conforto para o viajante,
    principalmente, se estiver solo.
    E a mensagem do amigo Affonso Gofeto trazia um dos textos,
    que admirei na juventude e que acompanhou grande parte de minha
    carreira militar, estampado em um quadro, que eu colocava na parede de todas as salas de chefias que eu assumia: “É bem melhor arriscar coisas grandiosas, alcançar triunfo e glória, mesmo expondo-se
    a derrota, do que formar fila com os pobres de espírito, que nem gozam muito e nem sofrem muito,
    porque vivem nessa penumbra cinzenta que não conhece vitória nem derrota.” (Theodore Roosevelt).”
    Lhe respondi, agradecendo por trazer-me a memória esse pensamento motivador para enfrentamento de riscos.
    Mas, na realidade, há muito tempo deixei de buscar triunfos e glórias. Porém,
    continuava não suportando a penumbra cinzenta. E me sentia acomodado nela, há muito tempo.
    Então, a Viagem de Motocicleta ao Alaska, está sendo a minha experiência grandiosa,
    porque além de estar realizando meu sonho de liberdade, estou tendo o privilégio de
    ter tempo e oportunidade para ponderar a minha vida e olhar para mim mesmo,
    concluindo que as pessoas que amo, minha família e meus amigos, são o que há de
    mais importantes para mim. E tendo o privilégio de ser amado por elas, não há
    como ser pobre de espírito ou estar vivendo em uma penumbra cinzenta. Precisei me
    afastar do meu mundo por algum tempo para compreender a dimensão da importância
    dele para mim. Além disso, as bem-vindas agruras da viagem – com o ápice na Guatemala,
    que me exacerbou o medo e o extinto de sobrevivência – me mostraram como eu sou
    impotente, frágil e pequenino. Mas, me ajudaram a desbastar a pedra bruta que
    sou, me ensinando mais humildade e eliminando mais do orgulho e da arrogância que
    persistem em mim. E, com toda certeza, graças a proteção do Grande Arquiteto do
    Universo foram superadas.
    Última edição por Dolor; 22-09-11, 09:59.

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    • Dolor
      Fazedor de Chuva

      • Mar 2011
      • 3250

      #32
      Diário de Bordo PHD Alaska: Bogotá – Armenia - 13/09/2011
      (Parcial = 302 Km / Total = 39.263 Km) – Ás 09:00h, já
      estava no escritório da Air Cargo Pack,
      no mesmo lugar, onde eu e o Roberto entregamos as motos, quando seguíamos no
      rumo norte. Um funcionário foi comigo para agilizar a aduana, que confirmou os 90 dias que a imigração (aeroporto) me deu, liberando a Permissão de Trânsito de Veículo, sem qualquer problema.
      Às 12:30 h, já estava na pista, no rumo da cidade de Soacha. Boas estradas sem problema de gasolina.
      Após Girardot, começa La Linea. Tive a sensação de ter percorrido quase 100 km de serra íngreme,
      em bom pavimento com poucas falhas, em uma sequência infinita de curvas de todo tipo,
      disputando espaço com os caminhões.

      Nas muitas curvas fechadas, é comum os grandes caminhões ocuparem também a
      contramão. A solução foi sempre entrar na curva devagar, bem aberto, próximo ao
      “meio-fio”. O visual da serra é muito bonito e o perigo é grande e constante. A
      velocidade média nesta etapa não passou de 60 km/h. Como em toda viagem de moto,
      foi extremamente essencial habilidade e muita atenção. Chegando a Armênia, pedi informação e recebi a o
      apoio de um policial motociclista, que me levou até o hotel. Cidade tranquila. Me
      hospedei próximo a estrada. O jovem filho da administradora do hotel foi muito
      gentil comigo. Ele e sua esposa me acompanharam em um lanche no centro da
      cidade. Mais tarde, me ocupo com o próximo passo de amanhã (Google Maps) e o
      registro da memória da viagem para o livro (Blog). No quarto, quando faço minha
      oração de agradecimento e relaxo para dormir, já me sinto bem mais leve e a solidão
      começa a perder intensidade, porque já estou me sentindo bem mais perto de casa.
      Última edição por Dolor; 22-09-11, 14:53.

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      • Dolor
        Fazedor de Chuva

        • Mar 2011
        • 3250

        #33
        Diário de Bordo PHD Alaska: Armenia – Pasto - 14/09/2011
        (Parcial = 590 Km / Total = 39.853 Km) – Às 06:00 h, o tempo
        estava bem nublado e o frio não atravessava a capa de chuva. Viagem tranquila,
        em baixa velocidade, percorrendo uma boa estrada que contornava, subia e descia
        montanhas. Nas várias retenções dos postos de vigilância policial, levantava a
        queixeira do capacete, mostrava um sorriso encantador e dizia “Buenos dias!” ou “Buenas tardes!”. E creio que
        o meu respeitável bigode prateado os convencia a mandarem-me seguir em frente –
        se eu fosse velho, seria branco; mas, como sou apenas antigo, é cor da prata. Nas
        rápidas paradas, era possível conversar com pessoas simpáticas, que afirmavam
        não terem mais problemas com as FARCS
        - que estavam restritas a alguns lugares nas encostas dos Andes e fronteiras
        com Equador e Venezuela – porque o Exército
        mantinha militares estrategicamente distribuídos em muitos lugares e em pontos
        chaves das estradas. Nessa perna da viagem, através de altas montanhas, passei rente
        a abismos imensos, que dão vertigem ao serem fixados. Infelizmente, não havia
        como diminuir a velocidade e nem local para parar, a fim de poder fotografar.
        Em todos os percursos, havia gente uniformizada cuidando da carretera.
        E em todos os grupos de manutenção espalhados pela estrada,
        muitos de seus integrantes possuíam motocicletas (125CC / $2.000.000,00 Pesos).

        A Colombia me impressionou muito bem pelo que vi na estrada, como foi na Costa Rica.
        Baseado em minhas experiências, acho que de certa forma todas as grandes cidades são
        parecidas, para encenarem um moderno país, principalmente, para os turistas,
        que são trazidos com hotel, transporte e lazer, previamente programados. Para mim,
        as estradas é que dizem a verdade.
        Se há manutenção das rodovias, se há esmero na apresentação das margens das
        estradas, se há muitas plantações, se as pessoas mantem jardins em suas modestas
        casas, se há muitas crianças uniformizadas indo para a escola, se não há muita miséria
        à beira da estrada é porque o dinheiro público está sendo bem empregado.
        Não há como fingir que está tudo bem com o
        povo ou disfarçar a sua realidade, nos muitos quilômetros de estrada.
        Cheguei à tarde, a Pasto.

        Como tive dificuldade de encontrar hotel, a beira da Rodovia Panamericana, pedi
        informação em uma oficina e um motociclista me levou a um bom hotel com
        estacionamento, mas que não aceitava cartão de crédito. Barato e confortável. À
        noite, deu para suportar bem os 12ºC. Me recuperando da extrema perda de energia,
        estou ficando mais forte. Porém, mais uma noite fui dormir abraçado com a saudade.

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        • Dolor
          Fazedor de Chuva

          • Mar 2011
          • 3250

          #34
          Diário de Bordo PHD Alaska: Pasto – Quito - 15/09/2011
          (Parcial = 358 Km / Total = 40.211 Km) – Como de costumo, às
          06:30 h já estava na estrada. Chuva e frio me acompanhou por toda a serra. A
          superfície da Colombia parece uma grande superfície de terra eriçada. Por onde
          estou passando, por toda parte somente se vê montanhas escarpadas e abismos
          colossais. A estrada é boa, com poucas “armadilhas” e há sempre postos de
          gasolina. Fiz a entrada e a saída na fronteira, rapidamente e sem problemas.

          Como combinado através de e.mail, encontrei
          com o PHD Lutz e PHD Vinny em uma gasolinera, logo após o pedágio de El Calderon, antes de entrar na
          cidade e me kevaram até o hotel. Entrar e sair de uma grande cidade, geralmente, é um estressante problema e sem a ajuda dos amigos seria muito difícil, porque Quito é uma cidade moderna e bonita,
          porém tem poucas placas indicativas de direção. Então, o estrangeiro se perde,
          facilmente. À noite, fui levado pelo PHD
          Vinny e sua esposa Sonia para
          uma confraternização no apartamento do Lutz
          e Susana, regada a um ótimo vinho,
          embutidos e pães finos da panaderia alemana Brot Corp,
          de propriedade dos amigos anfitriões.
          Foi uma inesquecível e deliciosa noite, na companhia dos amigos. Aos queridos
          amigos de Quito, muito obrigado pelo apoio e pela excelente companhia. Mais
          tarde, cheguei no hotel e o vinho não me permitiu trabalhar, pois já caí na cama, dormindo.

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          • Dolor
            Fazedor de Chuva

            • Mar 2011
            • 3250

            #35
            Diário de Bordo PHD 16/09/2011
            Alaska: Quito – Manhã de Sol brilhante, eliminando toda a nevoa congelante da noite passada, de 10ºC.

            Quando fui tomar café, a gerente Verônica do Hotel Suites Gonzales Suarez (sgshotel@uio.satnet.net)
            , após me informar que outros viajeros motociclistas mediante reserva teriam um desconto especial,
            me avisou que a minha hospedagem de duas noites já tinha sido paga por um amigo de olhos claros
            e logo deduzi que o Lutz teria passado no hotel, antes de ir para o trabalho. Quando lhe perguntei se
            realmente teria sido ele, me disse que aceitasse a gentileza de amigo como
            colaboração para o pleno sucesso da expedição.

            Mais tarde, o Vinny me conduziu à oficina Clínica de Motos (Eddy Urgiles – 099712 230) para que fosse realizado o serviço de solda na ponteira esquerda do escapamento da Electra, além de trocar filtro e óleo do
            motor. Deixei a Electra sob os cuidados do Eddy e fui com o Vinny subir no
            Teleférico para apreciar o panorama da cidade de Quito, vista da montanha próxima ao vulcão Pechincha.

            Em seguida, fomos encontrar o Lutz e a Susana e almoçamos hamburguesas, na área de alimentação de um grande
            shopping center, em uma área muito bonita da cidade, que não deve a locais semelhantes de grandes capitais.

            Lutz e Susana já moraram no Rio de Janeiro, quando participávamos juntos dos hallies e passeios do HOG.
            O Vinny possui uma H-D Heritage e é um amigo que apoia todos os harleyros viajeros
            que passam pelo Equador. Após o almoço, fomos pegar a Electra. Pela segunda
            vez, na Clínica de Motos, o serviço foi perfeito – escape bem soldado e instalado,
            óleo e filtro trocados e outros detalhamentos mais. A Clínica de Motos é uma oficina multi marcas com serviço de alta
            qualidade e preço justo, que atende com prioridade a qualquer viajero que esteja em trânsito com sua
            moto pelo Equador e com tranquilidade, posso recomendar. À noite, me despedi do
            Vinny, que tinha que arrumar a bagagem para o passeio de moto que iria fazer
            com seus amigos, no dia seguinte e fui jantar com os amigos Lutz e Suzana. Muito
            obrigado aos amigos de Quito pelo tempo e carinho a mim dedicados, em minhas
            duas passagens pelo Equador. Tudo ficou mais fácil e agradável com a companhia
            de vocês. Agora, a Electra já está pronta para enfrentar as longas estradas
            através do deserto, nesta próxima etapa, no Peru.

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            • Dolor
              Fazedor de Chuva

              • Mar 2011
              • 3250

              #36
              Diário de Bordo PHD Alaska: Quito – Zorritos - 17/09/2011
              (Parcial = 694 Km / Total = 40.915 Km) – Às 06:00 h, manhã
              bem fria, o Lutz já estava no portão do meu hotel, conforme combinado. Porém
              sem a sua KTM, pois havia dado pane na bateria. A ideia inicial era me
              acompanhar em um bom percurso do meu trajeto. Mas, de carro, me levaria apenas até
              a Pan-americana Sur, na saída da cidade. Minha ideia era pernoitar logo depois
              de Tumbes, em Mancora, o paraíso do Surf,
              no Peru. Mas, o Lutz me convenceu a pousar em Zorritos, porque além de ser uma praia também bonita e por ser menos
              badalada, a hospedagem seria mais barata. Depois de agradecer ao amigo por tudo,
              dei partida na Electra e segui para a estrada. Passei por Ambato e como tinha muita estrada pela frente e tempo curto, não
              foi possível parar para dar um abraço nos Irmãos
              Boada, que me receberam tão bem, quando eu fazia a minha passagem para o
              Norte, na companhia do meu irmão Robertinho. Mesmo com a continuidade da
              indicação de pane elétrica (luz ABS acesa), o motor funcionava normalmente. Após
              Rio Bamba, reduzi a marcha para
              subir a grande serra de Chimborazo,
              que leva a estrada além dos 3.000 m de altitude. O motor rugia forte nas
              reduzidas para entrar nas curvas muito fechadas. O tempo nublado baixa mais a
              temperatura e as nuvens às vezes cobrem a estrada. Casas muito humildes
              predominam na região dos Puruhaes. O tempo passa e as curvas fechadas e o
              tráfego pesado de caminhões lentos não me permitem avançar mais rápido. O
              termômetro da Electra volta a marcar 40ºF, como era no Alaska. Frio demais. Foram
              390 km de serras nas primeiras 6 horas. Depois de Laranjal, já na baixada, eram as pequenas cidades e o trânsito caótico
              e lento, que empacavam o ritmo da viagem . Já começava a ficar preocupado em
              chegar tarde demais no destino e contar com a sorte para encontrar hotel com
              garage fechada. O tempo passou e logo cheguei a fronteira, com a nova aduana
              conjugada Equador e Peru. Ainda bem que os trâmites de entrada e saída foram
              simples e rápidos. Não houve dificuldade para achar posto de gasolina e a
              estrada é muito boa. Em pouco mais de uma hora, passei por Tumbes e cheguei a Zorritos,
              que ladeia um curto pedaço da Pan-americana, beirando o Pacífico. Povoado
              modesto. Mas, a área turística tem uns poucos bons hotéis, a beira mar. O
              primeiro que sondei era caro demais. Percorri toda a faixa turística e acabei
              voltando ao mesmo hotel, onde um senhor me indicou uma opção ao lado, a Hospedage Blue Points, onde o gerente
              Sr. Elvis Cristóbal (resbluepoints@hotmail.com),
              ao saber da minha viagem, me fez um preço especial. Além disso, arrumou um
              lugar protegido para a Electra e me colocou em um apartamento de frente para o
              mar. Depois de comer um peixe frito delicioso, como a primeira refeição do dia,
              resolvi deixar o trabalho para amanhã e como não consegui conversar com a minha
              mulher através do Skype, fui dormir ouvindo o som prazeroso das ondas do mar.

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              • Dolor
                Fazedor de Chuva

                • Mar 2011
                • 3250

                #37
                Diário de Bordo PHD Alaska: Zorritos – 18/09/2011
                Após uma noite de sono reparador, acordei cedo e comecei a reformular o meu
                roteiro para definir em quais cidades iria pernoitar. No Peru, a exemplo de
                outros países, escolher bem as cidades é um detalhe fundamental. Devido a dificuldade
                de trânsito e a insegurança nas periferias, as informações na estrada
                recomendam ficar longe das cidades grandes. Mas, nas pequenas, nem sempre vamos
                encontrar o que precisamos, tal como quarto limpo, água quente, Wi-Fi e garage
                fechada. Por isso é importante sempre ter informação prévia. Assim, após
                resolver o roteiro, iria fazer os textos para atualizar o Blog. Trabalhei um
                pouco das 6 h até as 8 h. Então, faltou luz. A previsão de retorno da energia
                era para 6 da tarde. Para não perder o dia, fui dar um passeio na praia. Mas,
                voltei logo para o hotel, porque já estou cansado de caminhar sozinho. Minha
                mulher e meus filhos fazem muita falta. Assim como os meus amigos, também. Como
                não havia nada para fazer, depois de almoçar peixe fresco, fui dormir. Quando a
                luz chegou, me dediquei ao roteiro para definir os pernoites. Conversei com o Johnny Boy pelo Skype e ele me sugeriu usar o Ruta 0, que já inclui algumas
                informações sobre o Peru. Como devo entrar no Brasil por Foz do Iguaçu, chegarei ao Rio
                de Janeiro, pela Dutra, no dia 01Out
                (Sábado). Depois de um dia inteiro de vida mansa e uma soneca à tarde,
                devido ao corpo estar desacostumado com a moleza, fiquei acordado até de
                madrugada e foi uma luta para dormir. Creio que a preocupação com a falta de
                recursos para resolver qualquer problema que paralise a Electra, também tem
                ajudado a me manter tenso e acordado.

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                • Dolor
                  Fazedor de Chuva

                  • Mar 2011
                  • 3250

                  #38
                  Diário de Bordo PHD Alaska: Zorritos – 19/09/2011
                  Trujillo (Parcial = 710 Km / Total = 41.625 Km) – Parti junto com o
                  nascer do Sol. Sentindo um frio suportável, peguei a estrada, que segue
                  costeando o mar. Depois, adentra o deserto, onde o frio continua. Pequenas e pobres
                  cidades, que ficam às margens da estrada pontuam o grande deserto. O sol aparece
                  e continua frio. A navegação é feita através das raras placas que indicam as
                  próximas cidades e às vezes também as distâncias. Mas, as distâncias informadas
                  nem sempre correspondem a realidade. Mesmo no Ruta 0, a distâncias têm sido bem defasadas. Vento forte e constante
                  vindo do Pacífico, mantem a Electra inclinada. Vagas de areia correm sobre a
                  pista, lembrando pequenas ondas do mar. Procuro livrar as áreas onde a areia é
                  mais compacta, a fim de poupar o filtro de ar. Para transitar nas cidades,
                  voltei a ligar o navegador Garmin,
                  mesmo sem o mapa local instalado, porque além de informar a altitude, funciona
                  como bússola, dando a direção e o sentido do deslocamento. Assim, posso confirmar
                  as informações de rumo, também dentro das cidades. Para me animar mais um
                  pouco, a bateria da Electra está
                  começando a ratear. Até agora, no Peru, boas estradas e sem problema de
                  abastecimento. Às 16:00 h já estava no centro de Trujillo, procurando hotel. Pedi informação ao gerente de um posto
                  de gasolina e em poucos minutos já estava estacionando a Electra na garage do
                  hotel. A monotonia de se trancar no quarto sozinho todo o dia é dura e esperar cada
                  noite passar, exige cada vez mais esforço para suportar as dúvidas de cada amanhã.

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                  • Dolor
                    Fazedor de Chuva

                    • Mar 2011
                    • 3250

                    #39
                    Diário de Bordo PHD Alaska: Trujillo – Lima
                    (Parcial = 592 Km / Total = 42.217 Km) –

                    Mal se sai da cidade e a estrada logo adentra o deserto. Mesmo com sol, fazia frio. E quando
                    o tempo fica nublado, mais frio ainda. O dia de viagem tem começado com longas
                    retas e o vento forte sempre soprando sem parar.

                    Quando surge alguma construção
                    ao longe, na estrada, pode apostar que são casebres, mostrando a pobreza comum
                    às regiões do Peru. Mas, o povo se distingue pela cordialidade e pela
                    dignidade, porque não vi nenhum peruano a esmolar ou a tentar arrancar-lhe una plata, com aconteceu em vários
                    países por onde passei. Na estrada, mesmo quando parava nas choupanas
                    que funcionavam como bar, sempre me senti seguro porque me trataram com
                    cordialidade e sempre foram solícitos em conversar e me fornecer qualquer
                    informação. Na passagem pelo Peru, o único inconveniente tem sido o
                    recorrente achaque da Policia Carretera. No meio, na entrada e na saída de cada
                    cidade, mesmo em um mínimo povoado, há sempre policiais à espreita e por isso é
                    primordial se estar na velocidade indicada. E o assedio às vezes é agressivo e
                    se repete constantemente, na maioria das cidades. E pode ocorrer, até em algum
                    cruzamento no meio do deserto. A incidência é tamanha, que até prejudica muito
                    o ritmo da viagem. Sempre venho usando o mesmo recurso de sorrir e me
                    identificar como militar, o que tem dado certo. Alguns pedem minha identidade e
                    nada mais. Até que hoje, fui abordado por um tenente da Policia Carretera, que me pediu o SOAT – Seguro Obrigatório de
                    Acidente de Trânsito. O baixinho, atarracado e agressivo não me deixava falar.
                    Entre cada frase, dava uma cusparada para o lado. Depois de ler a lei para mim,
                    disse que eu seria multado e minha moto, apreendida. Depois da encenação passou
                    a situação para um sargento, mais sociável, que provavelmente era incumbido de
                    negociar o valor financeiro da liberação. Ou seja, um cria a dificuldade e o
                    outro vende a facilidade. Mas, a encenação foi tal que resolvi entregar os
                    poucos soles que eu tinha na carteira e o sargento rapidamente os colocou no
                    bolso. Avisei que não tinha mais dinheiro e que não queria ser parado
                    novamente, até Lima onde compraria o seguro. Em seguida, lhe mostrei a minha
                    identidade militar e lhe informei que era coronel da Força Aérea Brasileira e
                    que estava indo para Lima visitar
                    uns amigos oficiais das Forças Armadas Peruanas, e que se não fosse possível resolvermos
                    ali, provavelmente eles teriam uma melhor solução. O sargento arregalou os
                    olhos e me pediu licença para chamar o tenente. O tenente voltou, cuspindo mais
                    ainda e me pedido mil desculpas pelo mal entendido e queria devolver o
                    dinheiro. Argumentei que não queria de volta, que aceitassem como uma
                    contribuição. Perguntou se eu iria Embaixada ou Consulado e lhe respondi que
                    não. Implorou muito para eu não comentar nada com os meus amigos, porque ele
                    poderia ser muito prejudicado, se eles não entendessem que “ele estava apenas
                    cumprindo o que manda a lei”. Depois que eu lhe garanti que não comentaria
                    nada, me deu as boas vindas ao Peru e me liberou sem pedir mais nada. Depois
                    desse episódio, não fui importunado por mais nenhum policial, o resto do dia de
                    vuagem. Mas, já levava comigo mais uma preocupação: resolver o SOAT, na
                    primeira oportunidade. Mais do que tudo, a estrada tem servido para me acalmar.
                    Boa parte do tempo, a Panamericana segue paralela ao mar. Chama atenção a
                    preponderância da quantidade de casebres, que fica a beira mar. Não há casas de
                    luxo ou estrutura para explorar o turismo. A aparência reinante é de desolação.
                    Tinha planejado pernoitar antes de Lima.

                    Mas, com dificuldade de achar alguma placa, quando dei opor mim, a carretera panamericana já estava adentrando
                    de Lima. Então decidi ficar no primeiro hotel que aparecesse às margens da
                    estrada. Logo, do lado direito, avistei o hotel Ritz. No mesmo quarteirão há uma
                    casa de câmbio, onde me informaram que eu poderia comprar o SOAT no banco de La Nacion. Fui ao banco e me informaram
                    que SOAT para estrangeiro somente na seguradora La Positiva, que fica no centro da cidade, através de um trânsito,
                    que até os taxistas refugam a corrida para evitar. Como estava cansado, resolvi
                    deixar para o outro dia, enquanto ponderava se devia ou não pagar $500 Soles
                    com validade para 1 ano, que seria usado apenas por 3 dias. No hotel, o sinal
                    de Internet estava ruim e não havia como postar as fotos. Escrevi um pouco e a estafa, mais pelo estresse da policia do que pela estrada, me “apagou”.

                    Comentário

                    • Dolor
                      Fazedor de Chuva

                      • Mar 2011
                      • 3250

                      #40
                      GCFC Artur, bom saber que já estás chegando em casa!
                      Infelizmente, as minhas experiências, principalmente no norte do Peru, com a "policia de carreteras", foram muito ruins, porque a atitude corrupta desses policiais, envergonha a hospitalidade e o carinho com que o povo peruano recebe os seus turistas, especialmente os motociclistas.
                      A "policia de carreteras" tira dos motociclistas o prazer de pilotar pelo Peru porque é uma verdadeira "neura" a convivência com estes bandidos fardados!
                      Todas as vezes andei pelo território peruano, fui extorquido.
                      No relato do GCFC O Velho Doido, do dia 24-05-2011, aqui no Forum, tem uma declaração feita por ele, que retrata tudo isto que vivemos no território peruano, especialmente no meu caso, no norte de Lima.
                      Abs
                      Dolor

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                      • Dolor
                        Fazedor de Chuva

                        • Mar 2011
                        • 3250

                        #41
                        Diário de Bordo PHD Alaska: Lima – Nazca
                        (Parcial = 460 Km / Total = 42.677 Km) – Acordei cedo com a
                        decisão de fazer o seguro, a fim de obedecer a lei e evitar maiores
                        aborrecimentos. Deixei tudo na Electra pronto para a partida, me agasalhei
                        contra o frio e consegui uma taxi para me levar a seguradora. La
                        Positiva é toda um prédio imponente, no centro da cidade. Enquanto
                        aguardava a minha vez de ser atendido, sentada ao meu lado, a funcionária Katia Castillo, que me perguntou se eu
                        era do grupo da Harley, comentou que o diretor geral da seguradora também era e
                        gentilmente, resolveu me ajudar. Me acompanhou no meu atendimento e ainda
                        conseguiu uma autorização especial da diretoria para que o meu seguro cobrisse
                        apenas 3 meses, a um custo proporcionalmente menor. Agradeci muito a mais esse
                        anjo pela ajuda e com a apólice na mão, corri para pegar um taxi. Por causa do
                        trânsito congestionado, nenhum queria me levar. Até que consegui um taxi bem
                        velho e o motorista de idade avançada que por enxergar pouco, logo me avisou que
                        andava muito devagar. Mas, foi um papo divertido durante toda a corrida até ao
                        hotel. Muito simpático, não se cansava de elogiar os jogadores brasileiros, que
                        conhecia bem mais do que eu. Tenho dado sorte em encontrar mais pessoas boas do
                        que ruins, e o saldo positivo da interação com o bem, me dá uma carga extra de
                        energia positiva para suportar as situações difíceis e ruins, que tem surgido
                        pela frente. Com o tempo nublado e muito frio, peguei a autopista Cerro Azul,
                        que está um perfeito tapete e muito bem balizada. Como sempre, a pobreza acompanha
                        as boas estradas do Peru, mesmo costeando o mar. Em uma das cidades, pergunto
                        ao guarda a direção para a Pan-americana
                        Sur, ele me mostra e fala que há dois motociclistas brasileiros, 5 minutos
                        na minha frente. Agradeço e parto atrás da minha gente. Os alcanço rápido e
                        quando me aproximo, a placa da moto me diz que são bolivianos. Com grandes
                        sacos pendurados, um de cada lado da moto, seguiam devagar. Cumprimento a ambos
                        e sigo em frente. A partir de Pisco,
                        começa o calor. Passo pela estrutura rudimentar que é um observatório das Linhas de Nasca, à beira da estrada. Depois de costear o mar e adentrar o deserto,
                        passo por Napa, que fica no alto da
                        serra, onde há postos de gasolina, muitas curvas e abismos de assustar. Nos
                        pedágios, motos não pagam e a Policia Carretera,
                        como nas cidades, está lá. Desde o episódio de ontem, quando fazem sinal para
                        eu parar e me identificam, mandam rapidamente eu continuar. Tudo indica que eles
                        têm um eficiente canal de comunicação nacional. Em cada parada para abastecimento,
                        é uma grande alegria quando aceitam tarjeta
                        de credito e tenho procurado não desligar o motor, porque algumas vezes há
                        dificuldade para ligar novamente. Parece que a bateria está nas últimas. Mas,
                        nada até agora tem me impedido de continuar no rumo de casa. Assim, desde o México, cada chegada a um bom hotel é uma vitória. Apesar de um motoboy “muito gentil” tentar me leva para outro hotel, consegui chegar ao Alegria; ambiente de turistas e exploradores. Um bom lugar para relaxar.

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                        • Renan Xavier
                          Fazedor de Chuva
                          • Jul 2011
                          • 404

                          #42
                          Diário de Bordo PHD Alaska: Nazca – Moquegua

                          (Parcial = 733 Km / Total = 43.410 Km) – Tomei um café da manhã agradável, em um ambiente repleto de turistas alemães. Sentei na sela do meu cavalo e galopei para a estrada. O céu estava sem nuvens e a minha expectativa era de calor. Ledo engano. Quando adentrei o deserto, estava bem frio e a minha camisa começou a gelar. Desisti de esperar que o Sol me aquecesse e parei para vestir o casaco de couro e trocar as luvas. Com o motor ligado para não arriscar uma nova partida, a fim de poupar a bateria já enfraquecida, fiquei alguns minutos contemplando o deserto. A planície se perdia no horizonte e todo aquele mundo inerte parecia jazer imóvel há uma eternidade. Sublimando os poucos transeuntes e a estrada, apenas o vento quebrava o silêncio milenar e perturbava a paz.

                          Acariciava aquela imponente terra adormecida, ousando agitar a sua imensa cabeleira de areias. Segui em frente, devagar para continuar em sintonia com aquela serenidade. Mais adiante, percebo que no horizonte se descortinou uma extensa neblina, que aos poucos foi apagando o Sol. A 600 m de altitude, ficou mais frio ainda. A cena seguinte ficou por conta das montanhas.

                          O motor da Electra rugia sereno, como se nada pudesse impedi-lo de avançar e a vibração deste som me dava uma imensa energia adicional.

                          Na estrada, em movimento, parecia que nenhum mal nos poderia alcançar. Começamos a subir. Curvas e mais curvas contornando a lateral da cordilheira. Ao lado, abismos profundos que mal eu ousava olhar. Como meninas curiosas, as grandes montanhas de areia, vinham do deserto aproximando-se da praia só para ver de perto a beleza do mar. E a estrada, num rasgo de ousadia, passava abusada
                          sobre os seus pés. A impressão que se tem é de que basta qualquer tremorzinho ou um vento mais forte para a estrada se apagar. No Peru como na Colombia, há muita gente cuidando da estrada, por onde deve correr o principal fluxo de mercadorias e de esperança de progresso para todo lugar. Com raríssimas placas indicativas de cidades e de distância, a solução e perguntar às raras pessoas que surgem na estrada e confirmar o sentido da direção na bússola do GPS para não errar.

                          Com a satisfação de não ter sido parado por ninguém, chego cedo a Arequipa, onde tinha planejado pernoitar. Sem a perturbação da Policia Carretera, fica mais fácil decidir seguir em frente. Após mais ou menos 13 horas de estrada, chego a Moquegua com o Sol abaixo da linha do horizonte, com o marcador de combustível mostrando a preocupante palavra “Lo”. Consigo um posto que aceita a tarjeta e acho o Hotel Colonial.

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                          • Dolor
                            Fazedor de Chuva

                            • Mar 2011
                            • 3250

                            #43
                            Diário de Bordo PHD Alaska: 23/09/2011 Moquegua – Tocopilla (Parcial = 780 Km / Total = 44.190 Km) –
                            Quando o lugar é desagradável, não me animo nem a esperar o café da manhã, que geralmente será a única refeição do dia. Pois, só vou comer alguma coisa à noite, depois de chegar.
                            Peguei a estrada e em pouco tempo, já estava na última cidade – Tacna – antes da fronteira,
                            onde tenho procurado queimar todo o saldo da moeda local em gasolina. Mas, no Peru, essa regra não foi cumprida porque a policia carretera já tinha se encarregado de incendiar a minha carteira. Na fronteira, a imigração e a alfândega foram bem rápidas, em ambos os países, e logo voltei a estrada. Muito frio e
                            fortes ventos laterais, que podem nos derrubar. Principalmente, se estiver
                            pilotando somente com uma das mãos para poder tirar fotografias. No Chile, o
                            pavimento e o balizamento das pistas são excelentes. Mas, tive que passar por 3 desvios, de matar. Cada um com mais ou
                            menos 10 km, sobre pedras, areia e barro. Contornando as montanhas, volta e
                            meia tangenciava precipícios. Desde Arica, sem posto de serviços, com a gasolina
                            no fim da reserva, cheguei a Iquique,
                            às margens do pacífico, onde pretendia pernoitar. Mas, como ainda estava cedo,
                            perguntei a gerente do posto se estava boa a estrada Costanera, que segue para
                            o sul, beirando o mar. Enchi o tanque, usando a tarjeta e acelerei com o Sol já baixando a minha direita. Esperava
                            que antes dele se esconder no horizonte, chegaria a Tocopilla. Já sonhava com um bom bife e quem sabe, meia garrafa de
                            vinho chileno para comemorar a superação de tantas dificuldades. A estrada segue
                            entre as montanhas e o mar. Paisagem deslumbrante. Mais a frente, surgiu um
                            posto de aduana e tive que parar para me identificar. Enquanto esperava,
                            conversei com dois caras que estavam em uma camionete vermelha, que a trabalho
                            seguiam para além do meu destino. Combinei que seguiria a camionete vermelha porque
                            não conhecia a estrada. Meus planos começaram a desandar porque apareceu no
                            horizonte uma grande nuvem, escondendo o Sol. A friagem crescente possibilitava
                            que a maresia molhasse a pista. Com o início da escuridão, toda beleza da costa
                            já não me dava as boas-vindas e até assustava um pouco. A estrada estava vazia,
                            a caminhonete corria e eu atrás dela. Nas curvas, eu reduzia e ficava para trás
                            e nas retas me aproximava dela. Foi uma série de pequenas doses de adrenalina. Ainda
                            não era noite, quando chegamos a Tocopilla. E os companheiros da caminhonete
                            vermelha me levaram até a rua onde estão os hotéis e seguiram seu caminho. Para
                            minha surpresa, nem hotel e nem
                            restaurante aceitam cartão de crédito e se der sorte de conseguir trocar dólar, somente se a cédula for nova. Então,
                            decepcionado, pois ainda não tinha o que comemorar, fui ao posto de gasolina, e
                            jantei um sanduiche de jamon y queso com
                            coca-cola.

                            Comentário

                            • Dolor
                              Fazedor de Chuva

                              • Mar 2011
                              • 3250

                              #44
                              Diário de Bordo PHD Alaska: Tocopilla – Salta - 24/09/2011
                              (Parcial = 867 Km / Total = 45.057 Km) – Na primeira
                              partida do motor, pela manhã, quando coloco a Electra na vertical e recolho o
                              descanso lateral, aciono o botão de start
                              e ela pega de primeira é sempre uma grande felicidade, pois fortalece a
                              esperança de que na estrada transcorrerá tudo bem. Parti cedo com a idéia de
                              pernoitar em San Pedro de Atacama. O
                              deserto estava frio e a estrada, como de costumo, perfeita e livre. Percorri
                              menos de 300 km e cheguei ao meio dia em San Pedro. A cidade estava cheia de
                              turistas e os hotéis, ocupados. Segui para o posto de fronteira, fiz a
                              imigração e a aduana de saída do Chile e rumei para umas das passagens que
                              atravessar a Cordilheira dos Andes,
                              chamada Paso de Jama. Agora, com a ideia de dormir em San Salvador de Jujuy, na Argentina. Nas
                              viagens de moto, principalmente se for solo,
                              ter a capacidade e realizar o preparo antecipado para poder flexibilizar o
                              planejamento é fundamental, pois as variáveis são muitas e nem sempre previsíveis.
                              Duzentos quilômetros depois, subindo a Cordilheira, chego ao posto de fronteira,
                              aduana e imigração, da Argentina, a 4.400 m de altitude, onde encontrei com 3
                              motociclistas argentinos com suas motocicletas BMW. Conversamos um pouco sobre
                              a minha viagem e fomos juntos até o posto de gasolina da YPF, onde aceitam tarjeta. Enquanto eles lanchavam, me
                              despedi e um deles fez questão de se levantar, me dar um forte abraço e dizer
                              próximo ao meu ouvido: Suerte! Hermano. A espontaneidade do
                              irmão argentino me emocionou, pois pelo abraço percebi a solidariedade, o
                              respeito e a admiração pela magnitude da minha viagem. Parti sozinho, porque o
                              ritmo deles seria bem mais rápido do que o meu. E assim, continuaria de
                              qualquer jeito, solo. A paisagem na
                              Cordilheira é fenomenal. Com um céu pleno de um azul infinito, o Sol aquecia e
                              iluminava até a minha alma, que estava repleta de felicidade. Então, pensei na minha
                              esposa, Claudia: como ela adoraria estar ali, compartilhando toda aquela
                              experiência comigo. Percebi como um privilégio estar pilotando a minha Electra
                              naquele lugar. Ninguém a minha volta. Estava preste a entra naquele imenso caldeirão formado por aquelas montanhas
                              descomunais. Era como se o mundo estivesse mostrando toda aquela beleza somente
                              para mim. Depois de uma grande reta, a
                              estrada começa subir mais, até atingir a primeira borda norte do caldeirão, a 4.850 m de altitude, onde o gelo se
                              mantem, mesmo no verão. O frio é tanto que dificulta até tirar fotografias. Mantenho-me
                              atento as indicações do Mal da Altitude
                              e me previno praticando a hiperventilação.
                              Mesmo assim, sinto uma estranha euforia, que me faz rir de felicidade ao me
                              sentir privilegiado por estar pilotando a minha Harley, mais próximo do espaço
                              infinito. Num rasgo de imaginação, percebo, às margens da estrada, os
                              soldadinhos de gelo enfileirados, como se estivem prestando continência para o
                              viajante solitário; que como velho soldado, não resistiu a responder a honrosa saudação.
                              Era melhor sair logo dali, antes que resolvesse parar para conversar com eles. Atingido
                              o topo, começa a descida para o fundo do caldeirão,
                              quando se vislumbra um grande planalto, com altitude média de 4.500 m, totalmente
                              cercado pelas montanhas. Estrada perfeita, bem balizada, longas retas e curvas
                              de alta velocidade. O motor da Harley girava a 3.500 RPM sem esforço, como se a
                              Electra estivesse planando no ar. Olho para a esquerda e percebo que os picos
                              da Cordilheira parecem estar na altura do meu ombro. Incrível! Depois de
                              percorrer o fundo do caldeirão, começa a subida na borda sul, que atinge 4.700
                              m de altitude. Descendo a cordilheira, alguns declives acentuados e curvas
                              fechadas de mais e areia com seixos na estrada, onde o perigo está à espreita.
                              Seguindo em frente, surge a bela cidade turística de Purmamarca. Impressionante a paisagem e suas montanhas com várias
                              cores e tons. Percorrendo boas estradas, sem ser incomodado por ninguém, cheguei
                              a San Salvador de Jujuy. Ainda
                              estava claro e me imaginava bem perto de Salta.
                              Já sonhava com o salto do dia seguinte, que me levaria até o Brasil. Então, achei
                              um posto de gasolina que aceitava cartão e segui
                              em frente. Junto com a noite, cheguei a Salta e entrei no primeiro hotel que
                              apareceu junto a estrada. Mesmo sendo interior, na Argentina é possível se sentir
                              mais tranquilo.

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                              • Dolor
                                Fazedor de Chuva

                                • Mar 2011
                                • 3250

                                #45
                                Diário de Bordo PHD Alaska: Salta – 25/09/2011
                                Presidencia Roque Saens Peña (Parcial = 844 Km / Total = 45.901 Km) –
                                Após um bom café da manhã, parti sem conseguir trocar dólar pela moeda local.
                                Ir ao centro da cidade procurar casa de câmbio, nem pensar. Estava ávido para
                                pegar logo a estrada, no rumo de casa. Até agora, tinha conseguido pagar as
                                despesas com tarjeta de credito ou dólar
                                e esperava que continuasse assim. Boa estrada pedagiada, onde motos não pagam
                                tarifa, como no Peru. Mesmo avisado pelo amigo PHD Chico, me estressou o primeiro grande choque: estava faltando
                                gasolina na região. Aconselharam-me a
                                seguir para a cidadezinha de Las Lajitas,
                                que seria uma rota alternativa pelo norte. Não consegui chegar com a gasolina
                                que tinha no tanque e apelei para o galão de reserva, que tenho trazido
                                amarrado na pedaleira do carona. O primeiro posto que encontrei aceitava tarjeta de credito. Mas, não tinha
                                gasolina. Então veio o segundo grande choque: os raros postos que tinham gasolina,
                                não aceitavam tarjeta ou dólar. Já
                                próximo ao desespero, finalmente consegui abastecer. Para prosseguir, recebi
                                uma indicação errada e rumei para El Galpon,
                                desperdiçando a preciosa gasolina. Seguia com o Sol a pino por uma estrada sem
                                placas indicativas de cidades, quando notei que a bússola do GPS mostrava um
                                rumo incompatível. Então, entrei em uma fazenda para obter alguma informação. Realmente,
                                estava na direção correta, porém, no sentido contrário. Voltei vários
                                quilômetros e segui para Joaquim V.
                                Gonzales. Várias vezes, não consegui abastecer por falta de gasolina ou por
                                não aceitarem tarjeta ou dólar. Admitiam
                                apenas o pagamento em efetivo. Apelei
                                outra vez para o galão de reserva de combustível e cheguei a Monte Quemado. No único posto YPF, tinha
                                gasolina e não aceitavam tarjeta ou
                                dólar. E eu estava a zero de combustível. Já preparava o meu espírito para
                                pernoitar na cidade e ir ao banco, na segunda-feira, sacar pesos ou trocar dólares,
                                quando se aproximou um motociclista de camisa branca, o Mariano Ferreira, que se propôs a me guiar até ao caxero (caixa automático do banco) para
                                sacar alguns pesos. Tentei várias vezes e o resultado sempre negativo,
                                afirmando que eu não tinha saldo. Por fim, o Mariano me levou ao amigo “quase
                                brasileiro” Omar dos Santos, que morou
                                no sul da Argentina, junto a fronteira com o Brasil. Muito generoso, até me
                                ofereceu hospedagem em sua casa. Como lhe disse que não podia aceitar, porque
                                estava com pouco tempo para concluir a viagem tempo, me trocou duzentos
                                dólares. Assim, graças a solidariedade do Mariano e do Omar, pude seguir
                                viagem. Mais dois anjos do bem, infiltrados na humanidade, me ajudaram na
                                estrada. Consegui partir de Monte Quemado às quatro horas da tarde. Pista excelente, porém infestada de animais. Manete
                                à pleno, acima de 3.000 giros, próximo ao limite da velocidade da estrada, passei
                                por Pampa del Infierno e cheguei a Presidencia Roque Saens Peña, ainda sob
                                o Sol da tarde. Parei no posto para abastecer. Não aceitavam tarjeta. Mas, me
                                informaram como chegar ao Hotel Aconcágua, onde costumam hospedarem-se os PHD. No
                                hotel. aceitaram o pagamento em dólar e como eu iria ficar por duas noites para
                                poder descansar e escrever, já estava na hora de livrar a roupa da sujeira da
                                estrada. Irmãos argentinos Osmar e Mariano, muito obrigado.

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