Alasca 2010

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  • Dolor
    Fazedor de Chuva

    • Mar 2011
    • 3250

    #16
    Dawson Creek a Whitehorse

    Quinta-feira 22/Jul, a Sábado 24/Jul (55º ao 57º dias de viagem)


    E para começar bem o dia, nada como um breakfast típico canadense. E para tanto, o nosso colega Jairo nos levou ao Tim Horton’s. Trata-se de uma rede canadense de fastfood, especializada em lanches, aberta 24 horas por dia. Apesar de ser bastante cedo, nos deparamos com grande fila de pessoas querendo saborear os quitutes oferecidos. Logo pensamos: se tem movimento, deve ser bom. E é mesmo. O lema da rede é “always fresh” (sempre fresco). As comidas sempre com jeito de que acabaram de sair do forno. Uma verdadeira delícia.

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    Fato curioso que temos observado, por aqui quase não se vê polícia. Nem nas ruas das cidades, nem nas rodovias. Explica-nos Jairo, que o índice de criminalidade é baixo, o nível de educação é alto, o trânsito é disciplinado, por isso, poucos policiais.

    Em Chetwind, chama a atenção, a grande quantidade de esculturas expostas ao longo da rodovia, que corta a cidade. São estátuas feitas em madeira, por índios, retratando figuras humanas e animais.

    Ao final da tarde, chegamos a Dawson Creed, onde está localizado o marco inicial (Mile 0) da Alaska Higway. Dali até Fairbanks, são 2.233km.

    Conferiremos.

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    Depois de Fort Nelson, ainda na rodovia 97N, fomos apresentados ao “loose gravel”. São pequenas pedras soltas sobre o pavimento. Um veneno para as motos, pois tornam a pista muito escorregadia. E se estendem por vários quilômetros. E não foi só isso! Também nesse trecho, obras na pista. E algumas curiosidades foram notadas.

    Nosso dia de viagem termina em um simpático hotel, na milha 462 da Alaska Higway, no município Muncho Lake, na Beautiful British Columbia. É o Northern Rockies Lodge, novinho em folha, construído com toras de madeira deitadas, em autêntico estilo nórdico. E em torno de um vinho produzido em Ontário, estamos agora a planejar onde e quando faremos a próxima revisão em nossas motos. Temos duas opções: em Whitehorse, ainda no Canadá, ou em Anchorage, lá no Alaska.

    Meu voto vai para...

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    A cada curva da Alaska Hwy, uma nova surpresa: paisagens maravilhosas se alternam transformando a viagem em puro prazer. É bom lembrar que um motociclista tem 180º de visão, ou seja, além de manter o olhar firme em frente, fixo na estrada por onde passará, sua visão periférica enxerga tudo o que está nas duas margens. Acho que esta é uma das razões que leva as pessoas a gostarem de motos. Mas, e as paisagens? Nos dois lados da estrada, sempre floresta de pinus a perder de vista, somente interrompida por lagos ou rios. Ao longe, montanhas cobertas de vegetação ou rocha pura, manchadas com o branco da neve, formando um todo muito harmonioso.

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    Subitamente a contemplação é interrompida. Um enorme bisão pasta tranquilamente, logo ali, a poucos metros da estrada. O enorme animal parece não notar nossa presença. Nem mesmo o poderoso ronco das cinco motos o assusta. Fotos tomadas, segue o trem, para logo à frente, outro mais, e mais outro, e depois uma manada deles. Todos muito calmos, parecem mais preocupados em escolher e saborear as folhas mais tenras e frescas do capim umedecidas pelo orvalho da manhã, do que com a movimentação daqueles 6 ET, vestidos de preto, que procuram os melhores ângulos para fotografar.

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    Em Watson Lake, um compromisso: fixar as nossas placas no Sign Post Forrest, ao lado de dezenas de milhares de placas fixadas por viajantes do mundo todo, que por ali passaram. Essa tradição começou em 1942, durante a construção da Alaska Hwy, com os engenheiros do exército dos Estados Unidos, que colocaram em um poste, placas com direção e distância de várias cidades do Canadá, dos Estados Unidos, e do mundo todo.

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    Chegando em Whitehorse, a capital do estado do Yukon, outra surpresa: o barco SS Klondike, totalmente restaurado, e instalado em terra firme, hoje é um museu que retrata o período em que este meio de transporte foi o responsável pela movimentação de cargas e pessoas, através do rio Yukon.

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    • Dolor
      Fazedor de Chuva

      • Mar 2011
      • 3250

      #17
      Chegamos ao Alaska

      Domingo 25/Jul, a Terça-feira 27/Jul (58º ao 60º dias de viagem)

      Deixamos Whitehorse com a temperatura beirando 5º C, porém com sol brilhando em um imenso céu azul. Prenúncio de um bom dia de viagem.

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      A paisagem continua deslumbrante. Agora aparece ao longe, bem à nossa frente, imensa cordilheira com os picos nevados. Muito mais neve do que nas montanhas até então vistas. A rodovia nos leva em direção a ela. A preocupação com o frio aumenta. O zum-zum-zum pelo rádio é imediato. Vamos parar e colocar mais roupa, diz alguém preocupado. Vamos aguardar, foi a resposta. E como que atendendo ao pedido de todos nós, a Alaska Hwy suavemente se inclina para a direita, deixando as imponentes montanhas geladas à nossa esquerda, e mergulha num vale de planícies sem fim.
      Agora a atração está à nossa direita. É o Kluane Lake, de águas muito azuis, que rouba a cena. Localizado na cidade de Destruction Bay, tem mais de cem quilômetros de extensão, obrigando a rodovia a descrever uma enorme curva, para poder continuar seu rumo em direção ao Alasca.

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      Depois de Beaver Creek, a estrada se torna irreconhecível. Volta a apresentar muitos trechos com "loose gravel", trechos em terra onde o pavimento há muito se acabou, e, de grande perigo para motos, grande extensão com depressões longitudinais na pista. O pior trecho de toda a viagem, que só melhora, depois de entrar no Alasca.
      Enfim chegamos ao Alasca, com 58 dias de viagem. Já são quase dois meses que estamos na estrada, e só temos a agradecer, por tudo o que nos aconteceu até aqui. Nenhum acidente.

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      E para não perder o costume, mais uma fronteira para cruzarmos: do Canadá para os Estados Unidos, já que o Alasca é um dos cinqüenta estados norteamericanos. E tudo aconteceu conforme esperado. Sem burocracia, sem fotocópias, sem propinas, sem tramitadores. Bastou apresentar o passaporte, responder a uma pergunta básica (guns?) e pronto. É só seguir. Sequer pediram os documentos das motos!

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      Importante destacar a atenção que é dada ao turista, em todas as cidades do Yukon por onde passamos, e agora em Tok, no Alasca. Existem postos de atendimento, estrategicamente localizados na entrada das cidades, com funcionários atenciosos e dispostos a ajudar, e farto material de divulgação.

      Em Tok ficamos hospedados no Snowshoe Motel. Simples e aconchegante.

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      Por aqui o dia está amanhecendo por volta de 4 horas da manhã, e anoitecendo perto da meia noite.
      Hoje viajamos em direção ao sul, para Anchorage, onde existe revenda Harley, para fazer revisão nas motos. E, mais uma vez, a paisagem nos surpreende. Agora, a cadeia montanhosa apresenta picos mais altos, e com maior cobertura de neve.

      A temperatura sempre em torno de 40 a 50º F. E de repente aparece o primeiro Glaciar, o School. Bonito, bem distante, parece formar uma estrada de vidro a unir duas montanhas. A rodovia segue se afastando dele, para, logo em seguida, dar de frente com o Glaciar View, logo ali, bem pertinho, como um rio de gelo correndo paralelo à estrada.

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      E nosso dia não poderia terminar melhor: já em Anchorage, fomos lanchar no MacDonalds, e para nossa surpresa, a gerente local, Elaine, é brasileira, de João Pessoa, na Paraíba.

      Conforme programado, o dia de hoje foi dedicado à revisão das motos, essas heroínas que estão nos levando a concretizar o nosso sonho de aventureiros. Revisão de rotina, conforme programado pelo fabricante.

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      Enquanto isso aproveitamos o dia de folga para um tour aéreo pela região. Fomos de hidroplano, muito comum aqui na região. Num primeiro momento, sobrevoamos região muito plana, coberta de vegetação rasteira, e alagada. Ali observamos vários caribus, ursos pardos, ursos marrons. Todos pareciam não se importar com a proximidade do avião.
      Dali partimos para o ponto alto do passeio. Sobrevoar o Glacier Triumphet. Majestoso. Um verdadeiro mar de gelo a escorrer da montanha. E para completar, um pouso no Lake Coal, um pequeno lago de águas muito limpas e azuladas, perdido em meio a milhares de outros existentes no Alaska.

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      Impressionante também, é a facilidade com que o pequeno hidroavião decola e pousa. Acho que necessita pouco mais de duzentos metros e pronto.

      Já está no ar, ou na água.

      Com toda segurança.

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      • Dolor
        Fazedor de Chuva

        • Mar 2011
        • 3250

        #18
        Fairbanks e Coldfoot

        Quarta-feira 28/Jul, e 29/Jul (61º e 62º dia de viagem)


        Com as motos totalmente revisadas, deixamos Anchorage em direção a Fairbanks pela AK 3. Exceto em alguns trechos com obras, o pavimento da rodovia em bom estado permitiu uma viagem muito tranqüila, apesar da chuva que nos acompanhou por muitos quilômetros.

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        Inclusive chovia muito quando passamos pela região do monte Mckinley, o que nos impediu de admirarmos a beleza desse colosso com mais de vinte mil pés de altitude, ponto culminante da América do Norte.
        Em Denali, nos deparamos com um verdadeiro Oasis. A pequena cidade tem uma grande concentração de lojas e hotéis. É ponto de partida para as excursões que visitam o Parque Denali, e para os alpinistas que buscam escalar o McKinley. As lojas parecem formar uma cidadezinha do velho oeste americano. Todas dispostas lado a lado às margens da rodovia, são unidas por passeio com piso e teto construídos em madeira. Tem até uma loja HD! E o seu simpático proprietário nos recebeu com o melhor dos sorrisos.

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        Em Fairbanks fomos direto à loja HD, ponto de encontro dos motociclistas que vêm a essa região. Loja bonita, espaçosa, gente simpática, grande oferta de produtos. E atendem e vendem produtos de várias marcas de motocicletas. E o mais importante: conversamos com motociclistas que acabaram de chegar de Prudhoe Bay, onde foram com Harleys. Deles recebemos os melhores elogios pela nossa viagem até aqui, e principalmente, muito nos incentivaram a irmos até o nosso objetivo final.

        Agora estamos todos aqui reunidos, na cozinha do acolhedor Blue Roof Bed & Breakfast (conceito cama e café da manhã), onde nos hospedamos, após termos sido recebidos pelo seu proprietário.

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        O dia de hoje começou bem para nós, no Blue Roof Bed & Breakfast. Bem cedo, Joe (o proprietário) nos aguardava com o breakfast feito por ele mesmo, e, segundo ele, especialmente preparado para motociclistas. Então, ao ataque! Numa pequena frigideira, Joe preparava deliciosas panquecas, acompanhadas de generosas fatias de bacon e hamburguers. Na mesa da cozinha, os hóspedes iam se aproximando, good morning, sentando, conversando, comendo, e logo era uma miscelânea de línguas, mas todos se entendendo, mais por mímica do que por vocabulário.

        Doravante, sempre que possível, vamos procurar mais esse tipo de hospedagem, pois o custo benefício é grande. De quebra, deixamos reservado três quartos para a volta, e mais, com ele deixamos os nossos pertences que não precisaríamos para a ida até Prudhoe Bay, aliviando assim, o peso em nossas motos. Houve quem levasse apenas a roupa do corpo e a nécessaire. E o notebook, naturalmente.

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        O trecho planejado para hoje, até Coldfoot, em torno de 400 Km, segundo informações, era todo em asfalto. Entretanto, a partir de Livengood, em muitos longos trechos, o asfalto sumia, dando lugar a estrada de terra batida. Esses trechos sem asfalto estavam muito bem conservados, permitindo velocidades de até 100 km/h.

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        O Abastecimento neste trecho é feito no Yukon River Camp, 221 km depois de Fairbanks. O local é bastante simples, mas dispõe de hotel e restaurante, onde degustamos uma excelente sopa de salmão.

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        Durante anos a professora Terezinha ensinou aos seus alunos nas aulas de Geografia, a localização exata das linhas imaginárias que dividem a Terra: o Equador, os trópicos de Câncer e de Capricórnio, e os Círculos Polares. Agora, à medida que avançávamos em direção ao norte, da garupa ela acompanha pelo GPS a aproximação do Circulo Polar Ártico. As letras miúdas informam que estamos na latitude 66º 20´. Agora falta pouco. Ele está logo aí na frente, na latitude 66º 33´, avisa ela, já bastante emocionada. E pronto, ali está. Uma bela placa de madeira à beira da rodovia informa que exatamente naquele ponto passa o Círculo Polar Ártico.

        Quem diria professora Terezinha, que um dia você iria cruzar essa marca, em moto!

        Quanta honra, quanto orgulho, quanta emoção.

        Parabéns, você é uma vencedora.

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        Na metade da tarde, chegamos Coldfoot. Quase íamos passando sem perceber. A cidade é muito pequena. Na verdade, é um acampamento, com abastecimento de combustíveis, um hotel, e um restaurante. Algumas milhas à frente, em Wisemann, existem dois hotéis, que descobrimos mais tarde, já estarem lotados. É para lá que íamos, deixando para trás, o abastecimento, importantíssimo, porque é o único até Prudhoe Bay. Inclusive, para garantir, levaremos alguns galões extras, já que o próximo abastecimento estará no limite de autonomia das motos. E aqui aproveitamos para pernoitar no Slatter Creek Inn, típico hotel de acampamento, sem luxo, mas com o conforto necessário, a um preço “salgado”: USD$200,00 por apartamento. E no restaurante, um jantar especial, do tipo “all you can eat”, por USD$19,90. No cardápio, além de saladas, arroz, batatas, salmão e pernil suíno, e para sobremesa, deliciosa torta de amoras e peras.

        Talvez um dos melhores jantares da viagem.

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        • Dolor
          Fazedor de Chuva

          • Mar 2011
          • 3250

          #19
          GCFC Osmar, que maravilha voltar a viajar através dos teus relatos e sentimentos.

          Aproveito para pedir uma atenção especial dos leitores para o adesivo que está colocado nos pés das letras A e M, da placa da JA Mes W Dalton Highway, mesmo que incivilizadamente colocada, demarca o território como dos Fazedores de Chuva.

          "Qualquer um pode fazer, porém, poucos o fazem..."

          Diz o slogan dos Fazedores de Chuva.

          Aprocheguem-se Fazedores!

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          • Dolor
            Fazedor de Chuva

            • Mar 2011
            • 3250

            #20
            Deadhorse

            Sexta-feira 30/Jul (63º dia de viagem)


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            Desde a nossa chegada a Coldfoot, ontem à tarde, ouvimos diversos comentários a respeito da estrada até Prudhoe Bay, do péssimo estado em que ela se encontrava devido a fortes chuvas, e, pior, que as Harleys não passariam.

            Um verdadeiro terror.

            E isto vinha principalmente de motociclistas que passaram, em suas bigtrails. Ouvíamos cada um deles atentamente, fazíamos perguntas, ficávamos a imaginar o que realmente nos aguardava.

            Dormimos abraçados com a incerteza do próximo dia.

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            Mas, durante a noite, o amigo travesseiro aconselhou: “Sigam! Vão conferir!

            Afinal, vocês vieram de tão longe, e não vão desistir agora, vão?”

            Amanheceu (se é que anoiteceu!) com tempo firme. Só um espesso nevoeiro cobria os morros vizinhos. Aqui e acolá já se via sinais do sol conseguindo furar o escudo formado pelas nuvens.

            Bom sinal.

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            Após dois meses de viagem, não precisamos de muita conversa para tomar uma decisão. Bastou olharmos uns para os outros, e num instante já estávamos prontos, decididos a enfrentar o último trecho a nos separar de Prudhoe Bay. Os cinco possantes motores roncaram e partimos. Os tanques foram enchidos até a boca, com a moto em pé (bem na vertical) para caber mais combustível, e ainda, alguns galões sobressalentes para enfrentarmos algum imprevisto, e ganhamos a estrada.

            A rodovia AK-11, ou Dalton Highway, está em obras, em toda a sua extensão.

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            E o terror dos motociclistas é a dupla, patrola e caminhão da água.

            A primeira aplaina a estrada, deixando atrás de si, muita terra fofa. E o segundo, joga água, para que, com o movimento dos caminhões, compacte o piso.

            Só que, enquanto não passarem os caminhões, e aquela água não secar, fica um lamaçal só.

            Não há moto que resista.

            É queda na certa.

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            Nestes 390 Km que separam Coldfoot de Deadhorse, a rodovia está em boas condições, permitindo velocidades de até 100 km/hora, com toda segurança. Após Happy Valley, que alegria. Asfalto, o velho e bom asfalto, e por 45 Km.

            À medida que avançávamos em direção ao Oceano Ártico, a paisagem ia mudando. Os bosques de pinheiros deram lugar a extensa pradaria coberta por capim. As montanhas sumiram. Muito longe, no horizonte, o céu azul e a terra se encontravam. Nenhum sinal de chuva. Agora nada mais era capaz de nos deter. Deadhorse estava bem ali, quase podíamos tocá-la com as mãos.

            Às quatro da tarde, estacionamos as Motos em frente ao Artic Caribou Inn, em Deadhorse, depois de rodar 24.238 quilômetros.

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            Amanhã iremos a Prudhoe Bay, de ônibus, pois não é permitida a entrada de veículos particulares. Somente excursões organizadas.

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            • Dolor
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              • Mar 2011
              • 3250

              #21
              Prudhoe Bay

              Sábado 31/Jul (64º dia de viagem)


              Impossível não falar sobre o hotel que estamos hospedados em Deadhorse: o Artic Caribou Inn. Como todas as construções daqui, são compostas de vários conteiners ligados entre si, formando extensos corredores, em várias alas. Os apartamentos são pequenos, porém muito confortáveis. Tudo climatizado. A diária custa 190 dólares para duas pessoas, pensão completa: “all you can eat”. E a comida é da mais alta qualidade. Frutas frescas, saladas verdes, várias opções de carnes, sempre servidos em um bufê muito bem arrumado. Refrigerantes e sucos à vontade, o dia todo, que você mesmo se serve, na máquina. Eu chamaria isto de um verdadeiro centro de engorda. Precisamos “vazar” daqui, sob pena de sobrecarregarmos as motos na volta.

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              Conforme previsto, hoje fomos conhecer Prudhoe Bay. A segurança é rigorosa. Veículos particulares são barrados. Somente podem circular por lá, os veículos das empreiteiras, e o ônibus do hotel que nos leva. O nosso guia, que é também o motorista, explica tudo detalhadamente. Em inglês. Nada compreendo. O MacGyver, nosso intérprete, traduz os tópicos mais importantes. Prudhoe Bay é uma base produtora de petróleo. Não tem moradores fixos. O regime de trabalho é de duas semanas aqui, e duas em casa. Os operários vão e vêm, sempre de avião.

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              Rápida parada do ônibus, e nos é dada a rara oportunidade de termos contato com as águas do Oceano Glacial Ártico. Momento único que é festejado por todos. Alguns até ensaiam um mergulho, porém, mais parece uma cerimônia de “lava-pés”. Não tinha gelo boiando na água, mas estava um frio de rachar.

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              Final de tarde, necessitamos aprontar nossas motos para a longa jornada de volta. Estão cobertas de lama. Uma delas, quase perdendo o suporte da sinaleira traseira; outra quebrou os dois suportes do morcego; outra perdeu a mola do pezinho, e outra rompeu os dois suportes das malas laterais.

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              Os tanques estão vazios. Faremos o possível para que todas cheguem a Fairbanks, a mais próxima oficina HD, a 880 km daqui.

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                Fazedor de Chuva

                • Mar 2011
                • 3250

                #22
                Começando o retorno

                Domingo, 1º/Ago, a Terça-feira, 3/Ago (65º ao 67º dia de viagem)

                Iniciamos nossa jornada de volta para casa, bem cedo, depois de um reforçado breakfast, e uma visita à loja de conveniências do hotel, onde cada um preparou o seu “catanho”, à base de sucos, salgadinhos, frutas secas, biscoitos e barras de cereal. Detalhe: tudo incluso no preço da diária.

                E a rodovia. Como estará a rodovia até Fairbanks? Essa era a grande indagação entre nós. Ninguém tinha a resposta. A expectativa era grande. Não choveu nos dois últimos dias. Bom sinal. A torcida para que não chovesse no dia de hoje era grande. E nossas preces foram ouvidas, e atendidas. E mais que isso. Hoje é domingo, e nesse dia, os trabalhos de manutenção na rodovia são suspensos, exceto nas partes críticas. Isso significa que não encontraríamos aquela temível dupla, caminhão d´água & patrola, o grande terror dos motociclistas.

                No geral, a estrada estava boa, e cobrimos o percurso de 912 quilômetros em 12 horas e trinta minutos.
                O hotel que ficamos em Fairbanks (Blue Roof Bed & Breakfast) nos proporcionou a rara oportunidade de fazermos uma refeição do tipo “caseira”. Gentilmente nos cederam a churrasqueira a gás para assarmos o nosso próprio churrasco. No supermercado mais próximo e compramos os ingredientes necessários: salsichas, hamburgers (daqueles bem grandes, suculentos), pães, e cerveja. Bud Light, naturalmente.

                Na manhã seguinte, enquanto uncle Joe preparava nosso breakfast, uma importante reunião entre os expedicionários: nossas motos necessitavam urgentemente de lavação (estavam cobertas de lama do Alaska) e inspeção mecânica (luzes, filtros, freios). A oficina Harley em Fairbanks não trabalharia naquele dia, segunda-feira. Então precisávamos tomar uma decisão: aguardarmos até amanhã para fazer esses serviços, ou tocarmos até Whitehorse, cidade mais próxima em nosso roteiro que tem oficina Harley. Conscientes de que nossas motos necessitavam urgentemente de inspeção técnica sobre as condições de viagem, decidimos seguir. Seriam 949 quilômetros, pelo trecho em que o asfalto apresentava as piores condições que enfrentamos até aqui: muito loose gravel (pedriscos sobre o asfalto), ondulações longitudinais, e grandes trechos em obras.

                Na saída de Fairbanks, um instante de encantamento e magia, onde voltamos a ser crianças. Em North Pole, visitamos a Casa do Papai Noel.
                Depois de algumas horas de viagem, a fronteira com o Canadá. Agora vamos para a aduana. Por aqui existe uma particularidade. Ao contrário das complicadas aduanas, onde, ao cruzar uma fronteira, é necessário “fazer” duas aduanas: uma de saída e outra de entrada, aqui só se faz uma. A de entrada. Então, tínhamos pela frente a aduana do Canadá. E para surpresa nossa, a funcionária que nos atendeu, falando em bom português, nos deu as boas vindas. Uau! Como é bom compreender todas as perguntas que nos fazem. E responder, e ser entendido. Explicou ela, que é nascida no Canadá, filha de portugueses. Que gosta quando tem a oportunidade de conversar com alguém, na língua de seus pais. Ficaríamos mais tempo conversando com ela, porém ela precisava trabalhar, e nós, seguir nossa viagem.

                Neste trecho de estrada, nos chamou a atenção, a grande quantidade de ciclistas viajando. Sós, ou em duplas, bicicletas cheias de alforjes, pacientemente eles vencem grandes distâncias. Haja resistência.
                E em Destruction Bay, às margens do Kluane Lake, lá está aquele carro de polícia, vigilante. É visível de longe. Instintivamente, todos diminuem a velocidade. Também pudera, a polícia está logo ali. Mas para surpresa geral, não passa de uma placa, em forma de carro. Carro de polícia. Mesmo quem conhece, quem já passou por ali várias vezes, fica na dúvida e diminui a velocidade. Vai que tiraram a placa e é polícia de verdade!

                Chegamos a Whitehorse bastante tarde, e dedicamos o dia seguinte a cuidar das motos, e nos preparar para um passeio de trem a Skagway, para amanhã.

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                Alaska Highway

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                Parada para descanso...

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                Chegando ao Canadá - Yukon Territory

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                Electra com reboque, verdadeira febre dos viajeros

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                Whitehorse - registrando a viagem

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                • Dolor
                  Fazedor de Chuva

                  • Mar 2011
                  • 3250

                  #23
                  Skagway
                  Quarta-feira, 4/Ago (68º dia de viagem)


                  Um trem como nenhum outro...
                  Um trem nascido durante a Fiebre de Oro de Klondike e construído, apesar de todos os obstáculos, para levar a esperançados buscadores de minas, a seus sonhos de ouro.

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                  Hoje, cem anos depois, a White Pass & Yukon Route, ou simplesmente WP&YR, leva uma classe diferente de exploradores: aqueles em busca de grandes aventuras e de cenários que só pode oferecer a Última Frontera.

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                  Enquanto ouvimos o suave tac-tac ao longo das ladeiras de puro granito, e do silvo do apito do trem que cruza por abismos de profundos precipícios, pensamos naqueles famosos e destemidos aventureiros que fizeram essa viagem a pé, e damos graças à nossa boa fortuna por estarmos acomodados em tão confortável assento no vagão do trem.

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                  Para um dia de hoje, um passeio especial: de trem, até Skagway, no Alaska, às margens do Oceano Pacífico. Folga para nossas valentes motos.

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                  Um ônibus nos leva, de Whitehorse até Fraser, já na Columbia Britânica. Lá embarcamos no famoso trem. Serão 27 milhas através de montanhas com picos nevados, pontes, túneis, precipícios, ferrovia literalmente pendurada em paredões de pedra, até Skagway, às margens do Pacífico, cidade pertencente ao Alaska.

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                  Essa ferrovia foi construída para levar o ouro encontrado nas montanhas, até o porto em Skagway, e dali para o mundo. Retratos dessa época são vistos em toda parte. Nas casas antigas e conservadas até hoje, nos bares, saloons e a grande quantidade de joalherias.

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                  A cidade é pequena. Sua população é de 750 habitantes. Em 1898 chegava a 10.000. Entretanto, diariamente a cidade é invadida por milhares de turistas, que chegam de trem, de carro, de ônibus, ou de navio. No píer, quase dentro da cidade, contamos quatro transatlânticos atracados.

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                  E todos lotados de turistas ávidos na compra de lembranças.

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                  • Dolor
                    Fazedor de Chuva

                    • Mar 2011
                    • 3250

                    #24
                    Billings
                    Domingo, 8/Ago (72º dia de viagem)


                    A caminho de Fort Nelson, a rodovia cruza por imensa floresta de pinus, conhecidos por taigas, vegetação característica de áreas próximas ao Círculo Polar. São dias e dias inteiros, viajando dentro dessa vegetação. E para complicar, hoje tivemos um incêndio na mata. Longe da estrada, mas o suficiente para bloquear algumas rodovias, devido à intensidade da fumaça. Felizmente, por onde passamos, estava liberado o trânsito. Mas a visibilidade era pouca.

                    E de repente, um bisão solitário à beira da estrada. Algumas fotos e... espere, logo mais à frente, vários, dezenas deles, uma manada inteira tomando conta da estrada, das laterais, trânsito parado, fotos, suspiros. Ninguém buzina. Todos aguardam pacientemente, que os bichos liberem o trânsito. Mas eles não têm pressa. É terreno deles. Os invasores que aguardem. E o maior deles, o que parecia ser o grande chefe, tomava conta do asfalto. Parado bem no meio, ocupando toda a pista, olhava para um lado e para outro, e parecia dizer “daqui não saio, daqui ninguém me tira!” Desligamos os motores das motos para não assustar os bichos. Só então nos demos conta de que estávamos à mercê deles. E se de repente um deles resolvesse investir contra nós? Quem estava de carro, estava protegido. Nós não. Éramos alvos fáceis. Instintivamente, ligamos os motores e para nosso alívio, o poderoso bisão cedeu lado.

                    Ufa!

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                    Mais à frente, foi a vez dos caribus aparecerem. Muito ariscos e rápidos, não posam para fotos. Num piscar de olhos, somem na floresta.

                    E os ursos? Os amigos ursos ainda não deram o ar da graça. Estão em dívida conosco.

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                    Completando a jornada, chegamos a Forte Nelson. Finalmente. Foram quase mil quilômetros rodados hoje. Boa tocada!
                    Fizemos uma pequena alteração no roteiro, e iremos direto a Billings, Montana, nos Estados Unidos. Durante o trajeto, a chuva foi uma ameaça constante. Negras e carregadas nuvens sempre pairando à nossa frente. Porém, todos unidos numa corrente de pensamento positivo, e a estrada caprichosamente mudava de direção, levando-nos para longe do aguaceiro.

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                    Isso até parece estranho, mas às vezes, um verdadeiro Fazedor de Chuva se empenha ao máximo para que a chuva não venha estragar o passeio.

                    Temos observado também, grande mudança na paisagem. Deixamos para trás as florestas de pinus do Alasca e do Canadá, as espetaculares Montanhas Rochosas da região de Jasper e Banff, e agora rodamos por uma planície sem fim, de terras cultiváveis e de criação de gado em gigantescas fazendas, iguaizinhas àquelas que estamos acostumados ver em filmes.
                    Em Billings, fomos recebidos pelo simpático casal Magnus e Carole, e seu filho Nicolas, brasileiros que aí residem e que nos acolheram em sua casa.

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                    Ponte no Canadá

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                    Que belo bife!

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                    Monte Kitchner

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                    Passagem para animais silvestres

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                    Na loja HD em Billings
                    Última edição por Dolor; 22-09-12, 11:49.

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                    • Dolor
                      Fazedor de Chuva

                      • Mar 2011
                      • 3250

                      #25
                      Yellowstone Park
                      Terça-feira, 10/Ago (74º dia de viagem)


                      Saímos de Billings em direção ao Yellowstone Park. Nossa primeira parada foi na simpaticíssima cidade de Red Lodge.

                      Pequena, bem ao estilo velho oeste, com muitos bares, saloons e lojas de artesanatos. Tem até uma lojinha HD!

                      Prosseguindo viagem, teríamos que cruzar o Beartooth Pass. A pequena estrada atravessa por região montanhosa, atingindo 10.947 pés de altitude. Já que iríamos tão alto, pensei em aproveitar a ocasião para ter uma conversinha com o grande mestre fazedor de chuvas, obter algumas dicas, aprimorar meus conhecimentos.

                      Péssima idéia. Acho que ele não gostou nada da minha intenção.

                      Ficou furioso. Num instante espessa nuvem negra cobriu o céu, raios, trovões, relâmpagos, e chuva. Muita chuva. E não foi só isso! A temperatura caiu para baixo de 30º F. Tremíamos qual varas verdes. E nada é tão ruim, que não possa ficar pior. Pois ficou. Granizo. Começou a cair granizo. Em grande quantidade. As pedrinhas de gelo batiam na bolha da moto e ficam grudadas. O trânsito seguia lento, muito lento, pois era grande o perigo de gelo na pista. E o frio cada vez apertando mais.

                      Que sufoco!

                      A chegada em Cooke City foi um alivio. Tirar aquelas roupas molhadas, tomar uma ducha quentinha, vestir roupas secas, beber um café fumegante, era tudo o que queríamos. A cidade é pequena, só tem uma rua e alguns poucos motéis, e nessa época, o movimento de motociclistas por aqui é muito grande, pois é caminho entre o Yellowstone Park e Sturgis, onde está acontecendo o grande encontro anual. E pelo mesmo motivo, muitos pararam por aqui para pernoite. Nos motéis que íamos encontrando, via-se a placa avisando “NO VACANCY”. Mas, no final, tudo se resolve. Conseguimos encontrar um que ainda dispunha de dois apartamentos. Hoosier´s Motel. Beleza. É tudo o que queremos. Nem perguntamos se tinha internet (não tinha), quanto custa, etc. Ficamos com eles.

                      Fomos atendidos por uma simpática senhora, miudinha, de cabelos bem branquinhos, fala macia, e muito atenciosa. Depois que preenchemos nossas fichas, ela nos presenteou com o mais inusitado dos presentes: para cada um, um balde com duas toalhas e um disco de madeira, de aprox. 10 cm de diâmetro, por 1 cm de espessura (um grande Sonrisal). “Para limpar as motos”, disse ela, num inglês fácil de entender, “e o disco de madeira é para apoiar o pezinho das motos, pois o piso do estacionamento é de pedras soltas”.

                      Queria ter visto minha cara nesse momento. Deveria ser uma mistura de espanto, estupefação, surpresa, alegria, admiração, e vai por aí afora. Depois de tudo o que passamos, encontrar um anjo, que nos acolhe, e se preocupa com nossas Harleys, é muito mais do que desejamos.

                      Com um belo sol da manhã, fomos para Yellowstone. Muitos bisões, manadas com 10, 100 ou mais animais. Todos muito calmos, pastando tranquilamente, sem se preocupar com os visitantes e suas máquinas fotográficas. Nada de ursos. Soubemos que recentemente uma ursa atacou um acampamento, matando uma pessoa e ferindo outras. Que por conta disso, ela será sacrificada, pois pode querer atacar humanos novamente. E seus filhotes, que a tudo assistiram, serão recolhidos a um zoológico, para evitar que tentem repetir o ataque da mãe.

                      Muitos geisers formando belas esculturas no chão, em formas e cores diferentes. E a imperdível visita ao canyon que deu nome ao parque, com imensos paredões amarelos.
                      Saindo do parque, passamos por Cody, cidade origem do famoso Bufalo Bill, e fomos dormir em Buffalo.

                      Dia seguinte, viemos até Gillette, onde estamos aguardando nossas motos serem revisadas. Loja HD grande, com bem montada oficina, e estrutura para os clientes ficarem aguardando o conserto das motos. Com café, donuts, sorvete, água, e muita, mas muita mordomia.

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                      Red Lodge

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                      Beartooth Pass

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                      Yellowstone National Park

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                      Yellowstone - North Rim - Inspiration Point

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                      • Dolor
                        Fazedor de Chuva

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                        • 3250

                        #26
                        Sturgis
                        Quinta-feira, 12/Ago (76º dia de viagem)


                        Desde que saímos de Billings, temos notado intenso movimento de motocicletas, notadamente Harleys, nas estradas por onde passamos. E esse movimento vai aumentando à medida em que nos aproximamos de Sturgis, onde está acontecendo 70º Sturgis Motorcycle Rally.

                        Já nas cercanias da cidade, têm-se a impressão de que todos os motociclistas do mundo estão por ali, tamanha é a quantidade de motos trafegando em ambas as direções.
                        Ao se entrar na cidade, só se vê motocicletas. Estacionadas uma ao lado da outra, por quadras e quadras a fio. Um verdadeiro mar de motos.

                        Impressionante!

                        Fomos dormir em Rapid City. Os hotéis, em altíssima temporada, estão com os preços lá em cima. Fazer o quê?
                        Próxima etapa, visitar o Monte Rushmore, que tem esculpido em seu topo, as faces dos ex-presidentes George Washington, Abraham Lincoln, Tomas Jefferson e Benjamin Franklin.

                        Grande obra.

                        Com muita dificuldade, encontramos vaga em um hotel em Keystone (Estão todos lotados, por conta do encontro em Sturgis). Trocamos nossas pesadas roupas de viagem, usadas até aqui, por jeans e camisetas. Empacotamos essas roupas de frio, e fomos aos correios remetê-las para o Brasil. Conseguimos.

                        Espero que cheguem!

                        Agora estamos iguais a todos os motociclistas daqui: rodando sem capacete. A sensação é de muita liberdade. Puro prazer.
                        Assim fomos explorar a região conhecida como “The Black Hills & Badlands”. Nossa primeira parada foi em Hill City. Cidade pequena, tipo cenário do faroeste, com rua central completamente tomada por motocicletas. E para nossa surpresa, encontramos cinco brasileiros, nossos amigos, conhecidos de outras jornadas: Jacaré, de Guarapuava/PR; Marcos, de Francisco Beltrão/PR; Álvaro e Capitão Caverna, de Curitiba/PR; e André, de Florianópolis.
                        Vinham de Salt Lake City e iam para Sturgis participar do encontro.

                        Próxima parada, no Crazy Horse Memorial. Ainda em construção, trata-se da figura do grande chefe indígena montado em um fogoso corcel, sendo esculpida em uma montanha de granito. Sem dúvida, uma obra audaciosa.

                        Já quase escurecendo, visitamos Custer City. Rua principal completamente tomada por motocicletas, bares e saloons lotados, muita gente desfilando, com motos e roupas extravagantes.

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                        Na oficina HD em Gillete

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                        Tenda do HOG em Sturgis


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                        Ponte de madeira - Keystone

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                        Monte Rushmore

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                        Hill City

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                        Com amigos paranaenses, em Hill City

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                        Crazy Horse

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                          • 3250

                          #27
                          Salt Lake City e Niagara Falls
                          Terça-feira, 24/Ago (88º dia de viagem)


                          Por sugestão dos nossos amigos brasileiros que encontramos em Hill City, resolvemos dar uma esticadinha até Cheyenne, a capital do estado de Dakota do Sul.

                          E continuamos até Salt Lake City, Utah.

                          Amanhã vamos ao "dealer" checar o pneu traseiro. Ontem quando vínhamos, senti-o meio baixo. Estava só com 25 libras. Também pudera. Já está com mais de 20.000 km rodados. Coloquei-o em Léon, no México. Valentão, hein! Foi até o Alasca e acho que ainda tem borracha para mais alguns quilômetros. Mas vou checar.

                          De Salt Lake fomos a Grand Junction, Aspen, Denver e Fort Morgan, no Colorado, e continuamos rumando para o Leste, em direção às Cataratas do Niágara. Com pneu traseiro novinho e tudo o mais.

                          Beleza.

                          Ontem viajamos por uma estrada muito bonita, sempre por dentro de intermináveis canyons, passando por Price, Green River, no Utah, e entramos no Colorado em Grand Junction. Cidade bonita, mas de hotéis muito caros. Escapamos e formos dormir na vizinha Clifton. Prá variar, pegamos uma chuva torrencial. Verdadeiro diluvio. Aquilo sim é que era chuva. Fiquei até com uma pontinha de inveja do fazedor dela.

                          Muita competência.

                          Hoje conhecemos Aspen, famosa estação de esqui, e depois cruzamos o Independence Pass, a 12.083 pés de altitude. Belas paisagens.
                          Prá finalizar, uma palavrinha sobre Ft. Morgan: localizada numa planície sem fim, a cidade cheira a dinheiro. É que, bem pertinho daqui, tem uma fazenda (enorme, grande como nunca vi) de criação de gado confinado, e o vento se encarrega do resto.

                          Nossa idéia para hoje era avançar bastante. Por isso, levantamos bem cedo. Oito horas da matina e já estávamos em pé. Um pouco mal humorados, naturalmente. Odiamos levantar cedo.
                          Em tempo recorde nós aprontamos e, pontualmente, nove e meia estávamos na estrada.

                          Primeira parada em North Platte, já no Nebraska, para visitar o museu do Buffalo Bill, e lembrar, com muito carinho, os bons tempos da infância, dos gibis do faroeste, e deste personagem que, sem dúvida, era um dos mais famosos.
                          Em Grand Island deixamos a I-80 (Hwy) para seguir por estradas secundárias, que nos levarão ao mesmo destino: Omaha.

                          A paisagem é mais bonita, e os hotéis mais baratos. Prova disso, estamos em Columbus, hospedados no Super 8, a US$47,00. Muita mordomia, quase de graça.

                          Por falar em paisagem, Nebraska é um estado com agricultura altamente mecanizada, destacando-se imensas plantações de milho, em forma de círculos, irrigada por grandes peões, de até 500 metros.

                          Retornamos ao Canadá.

                          Estamos indo em direção a Niagara Falls. Sábado acendeu a luz do ABS. A roda dianteira freia legal. Algo diferente na roda traseira. Evito usar o freio de pedal. Chovia bastante.
                          Então a solução foi parar, dormir, e torcer para que no dia seguinte, a tal luz não acendesse.
                          O domingo amanheceu sem chuva. Mas a luz acendeu novamente. Acho melhor procurar uma oficina Harley. Tem uma em Blenheim, 50 km a frente. Toca prá lá.

                          Estava fechada.

                          Tem outra em London, 100 km mais. Vamos para lá.

                          A meio caminho, para nossa alegria, o ronco do motor foi se tornando mais forte, digo, mais alto, mais esquisito, bastante indesejável. O escapamento se partiu. Arame daqui, alicate dali, chave de fenda d'acolá, e pronto. Dá prá chegar até a oficina, sem muito escândalo.

                          Em London, a loja da Harley estava aberta. Ufa! Só para venda. Ahhhh!
                          Fomos atendidos pelo Rick, que prontamente foi até a moto, e viu nosso problema. Num instante já estava com prancheta na mão, abrindo uma ordem de serviço.
                          E mais. Moto na oficina (primeira na fila para amanhã) transferimos nossa bagagem para seu carro, e ele gentilmente nos levou a um hotel.
                          E não foi só isso! Procurou o hotel melhor custo/beneficio nas proximidades, pechinchou e a diária de $79 baixou para $59.

                          Beleza!

                          Hoje pela manhã fui atendido pela "service manager" Lori Burke. Com muita paciência me explicou o que foi feito. O cano da descarga foi soldado, porque eles não dispõem em estoque do modelo (trata-se de item especial para exportação), e a luz do ABS necessita trocar o sensor. Também não tem em estoque. Fizeram o pedido. Chegará amanhã. Mas para me liberar hoje, sacam de outra.

                          E a conta? Nada. Tudo por conta da garantia. Maravilha!

                          Moto pronta, lá fomos nós, faceiros da vida, em direção a Niagara Falls, sempre pela Rodovia 3, uma Scenic Route, que margeia o lago Eire. Maravilha de estrada.
                          Hoje pela manhã visitamos as Cataratas do Niagara. Muito bonitas, principalmente quando vistas do Canadá. Não cruzamos a fronteira. No lado canadense, a cidade tem muita estrutura para atender a grande quantidade de turistas que visita a região.

                          Cumprida essa etapa, tocamos em frente, agora margeando o lago Ontário. Passamos por muitas cidades interessantes: Hamilton, Toronto, Oshawa, Bellevile, e agora estamos em Kingston.
                          Amanhã pretendemos continuar margeando o Rio St. Lawrence até Quebec, passando pela região conhecida por Mil Ilhas.

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                          Cheyenne

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                          Salt Lake City

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                          Parece que vai chover!

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                          Independence Pass

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                          Consertando o escapamento partido

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                          Niagara Falls, vistas do Canadá

                          Comentário

                          • Dolor
                            Fazedor de Chuva

                            • Mar 2011
                            • 3250

                            #28
                            Québec e North Conway
                            Sexta-feira, 27/Ago (91º dia de viagem)


                            Estamos quase chegando a Québec, capital do Estado do mesmo nome, no Canadá. Faltam só uns 50 quilometrinhos. Conseguimos finalmente cruzar o Estado de Ontário. Parecia que nunca acabava! Mas por outro lado, nem sentimos o tempo passar, tal a beleza da estrada. O tempo todo viajando por entre jardins muito floridos que enfeitam as casas que margeiam a estrada, aqui conhecida com 1000 Islands Parkway.

                            Meu problema com a lingua inglesa, agora, finalmente foi resolvido. Isto é, foi substituído por outro maior ainda: aqui só se fala francês! Muito estranho, neste país ter duas línguas oficiais, inglês e francês. No oeste, só se fala inglês. E aqui, só francês. E a sensação é de que por aqui, o pessoal faz questão de não entender inglês.

                            Complicado!

                            Mas por outro lado, quanto à alimentação, não temos problemas. Temos várias opções: Tem a rede Tim Horton’s para o breakfast, depois tem o Tim Horton’s para o almoço, o TH para o lanche das 4, e prá variar, TH para o jantar. Loucura, loucura.

                            Hoje retornamos aos Estados Unidos, depois de uma agradável visita à cidade de Québec, e à revenda Harley local. Gente muito atenciosa, nos receberam com largo sorriso, fotos, lembranças e até algumas dicas sobre a língua francesa, na qual, aliás, já me considero quase fluente. Quase sei falar, quase sei escrever, quase consigo entender.

                            Visita aos principais pontos turísticos da cidade, principalmente ao castelo de Fairmont-Château Frontenac. Muito bonito e com vista maravilhosa do rio Saint Lawrence.
                            Agora estamos alojados em um simpático motel de beira de estrada (quase do tipo daquele do filme Psicose), na cidade de Rumford.

                            O tac-tac provocado pelas rodas de um trem são para mim, o melhor sonífero. Durmo como uma pedra quando estou viajando num trem. Chego a sonhar. Mas hoje, enquanto viajávamos (na verdade, um pequeno passeio de uma hora) num confortável vagão do CONWAY SCENIC RAILROAD, e o sono não chegava, me deliciei lembrando do passeio que fizéramos pela manhã, ao topo do Monte Washington. Não é muito alto, quase dois mil metros, e a gente vai lá em cima, de moto, por uma estradinha estreita, cheia de curvas, sem guardrail, e com muita adrenalina.

                            De repente, o asfalto acaba.
                            - Olha o loose gravel aí gente!

                            Lá de cima a paisagem é de tirar o fôlego, ainda mais que a intensa nuvem que encobria o topo do morro quando chegamos, se dissipou, deixando à mostra, 360 graus de puro verde.

                            Temos viajado sempre que possível pelas chamadas “scenic routes”, identificadas nos mapas do “Touring Handbook” por uma linha hachurada em verde. São estradas de pouco movimento de caminhões, muitas motos, automóveis e RV (traillers) e cortam por regiões de belas paisagens, pequenas cidades, e com velocidade limitada a 50 milhas por hora. Portanto, se está com pressa de chegar, não deve viajar nelas. Nem de moto.

                            Vá de avião.

                            No início da tarde chegamos a North Conway. Fomos direto ao dealer HD e agendamos revisão dos 40 mil para amanhã.

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                            HD Prémont, em Québec

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                            Castelo Prémont, em Québec


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                            Ponte de acesso a Québec


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                            Em algum lugar do Maine...

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                            No topo do Monte Washingt

                            Comentário

                            • Dolor
                              Fazedor de Chuva

                              • Mar 2011
                              • 3250

                              #29
                              Bennington/VT a Elberton/GA

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                              Em North Conway fizemos pelo menos dois grandes amigos.

                              Um deles foi o Marcos, brasileiro que mora e trabalha nos Estados Unidos. Encontramos-nos no hotel, e depois de longo papo para matar as saudades da pátria amada, ele nos acompanha até o dealer - WHITE MOUNAIN HARLEY - e nos presta um grande favor, servindo de intérprete nas conversas com o mecânico que fará a revisão na moto.

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                              Com Marcos (de azul) e os mecânicos da HD/North Conway

                              Na oficina somos recebidos pelo chefe Alfred Snow (outro grande amigo) e equipe. Gente do mais alto gabarito e seriedade no que fazem. Na hora exata agendada, iniciam o trabalho. Em duas horinhas, estou pronto para partir.
                              Nosso destino agora é York, na Pennsylvania, onde, por sugestão do nosso amigo Magnus, de Billings, faremos um tour pela fábrica da Harley naquela cidade, na próxima segunda-feira.

                              Hoje vamos pernoitar em Bennington, no Vermont. Cidade pequena, mas como todas, muito bem arrumadinha, limpa, casas com jardins, e gente pacata.
                              E andamos na linha. Na linha de produção das motocicletas Harley-Davidson, na fábrica em York, Pennsylvania, onde são fabricadas as Electras e os triciclos.
                              Fomos recebidos e conduzidos na visita, por Larry, um simpático senhor, com mais de quarenta anos de serviços dedicados à marca. Sabe tudo de Harley. E pela maneira como ele conduziu nossa visita, percebe-se claramente tratar-se de um grande vibrador, por motocicletas, e pela marca.
                              Às vezes precisava pedir para ele não correr tanto, digo, falar tão rápido, porque não queria perder nenhum detalhe, e meu inglês...

                              Aqui as motos são fabricadas e montadas. Vimos, por exemplo, uma barra de ferro ser transformada em um pezinho para descanso da moto. Vimos uma chapa, digo duas chapas serem transformadas em um tanque. Outra chapa em um paralamas. Vimos o início de uma linha de montagem, quando o quadro recebe o motor e prossegue pendurado na esteira, recebendo partes e peças aplicadas por mãos ágeis e precisas, até que finalmente, duas horas depois, lá está ela, prontinha e acabada, para fazer a felicidade de mais um entusiasta.

                              À tarde fomos para Gettysburg, pequena cidade a oeste de York, onde em julho de 1863, aconteceu uma das mais sangrentas batalhas da Guerra Civil Americana, com 51.000 baixas.
                              A cidade é pura história, e é invadida diariamente por milhares de turistas ávidos em conhecer os detalhes daquela guerra.
                              A visita ao campo de batalha é a principal atração. Está à disposição dos turistas o “Autotur”. Com um mapa e um folheto explicativo (disponível em espanhol), é possível percorrer o campo de batalha no próprio carro, digo, na própria moto. Basta seguir as placas indicativas. A rota contempla dos três dias de batalha, em ordem cronológica. São 24 milhas de muita história, relatos, e monumentos em homenagem aos que tombaram.
                              Continuando nosso tour pela história desse país, visitamos o forte Ligonier, na cidade do mesmo nome, ainda na Pennsylvania.

                              Esse forte foi fundado em 1758 durante o conflito que se chamou “Guerra dos Sete Anos” e é preservado intacto até hoje, em todos os seus detalhes.
                              No local, fomos recebidos por Jeffrey W. Graham, Capitão do Royal American Regiment, que pacientemente nos explicou detalhes do funcionamento do forte: estratégias de defesa, logística, localização.
                              Continuando nosso roteiro em direção ao oeste, passamos por Pittsburgh, conhecida como a Cidade do Aço. Também pudera. Gigantescas siderúrgicas são vistas por todos os lados. Algumas já fechadas.

                              De quebra, ainda rodamos boa parte da viagem numa belíssima “Scenic Route” entre East Liverpool e New Philadelphia/Dover (estas duas cidades são praticamente juntas), onde mais uma vez pudemos observar extensas fazendas de criação de gado, e de plantação de soja, localizadas nas margens da estrada. As casas à beira da estrada, nessas rotas, são muito bem conservadas, rodeadas de grandes extensões de grama verdinha muito bem cuidada, e floridos jardins.

                              Hoje mudamos de direção. Vamos para Knoxville, no Tennessee, e continuar a viagem de volta ao Brasil. Então toca para o sul!
                              Logo cedo, nos deparamos com uma cena inusitada. Numa cidade chamada Berlin, usos e costumes diferentes. Pessoas vestidas à moda antiga, usando carroças e charretes, pareciam fazer o seu trabalho normal, do dia a dia. A localidade é habitada pelos Amish. São pessoas que levam uma vida bastante simples, usam roupas simples, e relutam em adotar as conveniências da vida moderna, como o automóvel, a televisão, o telefone. Lá não tem MacDonald´s.
                              Ao final da tarde, cruzamos a ponte sobre o rio Ohio, e entramos no Kentucky. Estamos em Maysville.

                              Nestes dias de viagem por estradas do interior dos Estados Unidos, dois fatos nos têm chamado atenção, além da beleza das paisagens:
                              - na maioria das casas, simples ou sofisticadas, Bandeira Nacional hasteada.
                              - mesmo nas menores cidades, as escolas são enormes, prédios novos, amplos pátios, estacionamentos lotados, grande movimento de ônibus escolares (aqueles amarelos, cheios de luzes).

                              Me parece que nesse país, efetivamente se dá muito valor ao civismo, ao patriotismo, e à educação.
                              Ontem fiquei sem inernet, por conta de um problema ocorrido no hotel onde ficamos, em Williamsburgo. Menos mal. Problemas no equipamento deles, e não no meu netbook. Ainda bem!

                              A princípio fiquei meio perdido, sem saber o que fazer, porque, como é de costume, ao chegar no hotel, passo a um breve relato do acontecido durante o dia. Ontem isso não foi possível. E isso me fez pensar, o quanto somos dependentes da tecnologia, de como eram bons os tempos sem internet, sem celular, sem Xerox, sem fax, sem televisão, sem moto... opps, sem moto não!

                              No Tennessee aproveitamos para conhecer o Parque Daniel Boone National Forest. Bonito parque, em homenagem a este grande indigenista americano.
                              Cedinho entramos no Tennessee. No centro de recepção aos turistas, fomos muitíssimo bem atendidos por duas simpáticas senhoras, que não pouparam esforços para entender meu “fluente” inglês. Municiaram-nos com vasto material de divulgação do Estado, mapas, folderes e dicas. Notei nelas sinal de surpresa, quando pedi onde é a fabrica do uísque Jack Daniels. Mais mapas, folderes, e, que pena, a destilaria está localizada na cidade de Lynchburg, no extremo oeste do estado, bastante fora do nosso roteiro. Fica para a próxima.

                              Passamos Knoxville e chegamos em Maryville, na loja HD Smoky Mountain, onde fomos atendidos pela Rebeca, falando o bom e velho espanhol. Maravilha! Mais mapas, folderes, e em detalhes, os passeios pelo “The Tail of Dragon”, pela “Cherohala Skyway”, e pelo “Great Smoky Mountains National Park”.

                              Fizemos um dos passeios mais procurados pelos motociclistas norteamericanos: visitamos o “Great Smoky Mountains National Park”. Estradas muito bem conservadas circundam esse grupo de montanhas (que fazem parte dos Montes Apalaches), são repletas de curvas, muita emoção, e belíssimas paisagens.

                              Subimos (de moto, naturalmente) até o Clingman´s Dome, que é o ponto culminante da região, com 6.643 pés, donde é possível avistar pontos até 100 milhas de distância.
                              Essa é a região onde viviam os índios Cherokee. É grande a oferta de artesanatos confeccionados pelos descendentes deles.
                              Na extremidade oeste do parque está o trecho da US Highway 129 conhecido com “The Dragon”, com 318 curvas em apenas 11 milhas de estrada.

                              Destaque para a cidade de Pigeon Forge. Pequena, mas muito movimentada, com dezenas de atrações para todas as idades para distrair a grande quantidade de visitantes que a procuram. Seria algo semelhante à nossa Gramado.
                              Ao final da tarde chegamos a Elberton, na Georgia, onde participamos de um jantar especial, num restaurante mexicano, com cardápio mexicano naturalmente, onde não faltaram as famosas tostadas, quesadilhas, frijoles e carnitas, temperados com uma pitada de salsa picante.

                              O jantar foi em comemoração aos nossos 40 anos de casamento.

                              Era domingo, 5 de setembro, e estávamos no centésimo dia de viagem.

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                              Casa típica às margens de uma Scenic Route, em Vermont





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                              Com Lary, guia na fábrica HD em York

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                              Scenic Route, na Pennsylvania

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                              School bus pára, trânsito também pára.

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                              Clingman´s Dome, Great Smoky Mountains/TN.

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                              Jantar comemorativo dos 40 anos, Elberton/GA

                              Comentário

                              • Dolor
                                Fazedor de Chuva

                                • Mar 2011
                                • 3250

                                #30
                                Jacksonville, Key West, Laredo, México DF

                                De Elberton fomos a Jacksonville, Flórida, passando por Augusta e Savanah, e daí a Kay West.
                                Uma das rodovias mais vigiadas pela polícia, controlando a velocidade dos veículos, é a que liga Miami a Key West. Também pudera. É uma estrada simples, com muito movimento, e quando não é ponte, está atravessando região povoada. Ela liga várias ilhas, até a mais extrema, Key West, onde estão também, a milha zero, e o ponto mais ao sul dos Estados Unidos.

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                                Mas a região é muito bonita, repleta de hotéis, restaurantes e um sem número de atrações para satisfazer e deleitar a enxurrada de turistas que a procura. Sem dúvida, um lugar para visitar com bastante tempo para poder aproveitar tudo o que ela oferece.

                                Deixando Key West, retornamos a Miami, e na loja HD Peterson conhecemos o Marcão e sua esposa Mirta e o Laranjeira (brasileiros que moram e trabalham em Miami). Eles estavam ali nos esperando! Fantástico! Aí é que comecei a ligar os fatos. O Laranjeira é o homem do Neverflat, e o Marcão importa peças de motos para o Brasil.

                                Dali fomos para a casa do Laranjeira, em Boca Raton, onde tivemos o privilégio de conhecer sua querida Heloisa, que mui gentilmente nos receberam e nos hospedaram em sua casa. Ficamos por três noites.
                                Um churrasco na casa do Marcão, para marcar (parece redundância) o momento. Picanha, linguicinha, cerveja gelada, e um delicioso feijão preto especialmente preparado para nós, pela Mirta.

                                De babar!

                                Prosseguindo nossa viagem de retorno, de Boca Raton fomos a Pensacola, e daí a Houston e Laredo, no Texas.
                                Chuva. Muita chuva. Verdadeiro dilúvio foi o que enfrentamos hoje na estrada. Mas conseguimos chegar a Houston, no Texas. Agora já estamos bastante próximos da fronteira com o México, que pretendemos cruzar amanhã. Ainda não definimos por onde, mas será em qualquer ponto em direção a Léon, onde os nossos amigos Manuel e Sandra nos aguardam.

                                O trecho de estrada percorrido hoje é um tanto curioso. Em 870 quilômetros, a I-10 passa por cinco Estados (Flórida, Alabama, Mississipi, Louisiania e Texas), e muitas pontes. São quilômetros e quilômetros delas, sobre rios, lagos, e principalmente, sobre um interminável terreno alagado, algo semelhante ao nosso pantanal, na extensa região formada pela foz do rio Mississipi, que fica ao nível do mar.

                                Enquanto venciamos os últimos quilômetros que faltam para entrarmos no México, deslizando suavemente pela Interstate 35, que liga San Antonio a Laredo, no Texas, lembrei de como foi marcante a nossa estadia em Boca Raton, na Flórida. A recepção que tivemos foi muito calorosa, graças à hospitalidade dos amigos Laranjeira e sua querida Heloisa, e do Marco e sua querida Mirta.

                                Essa rodovia com intermináveis retas corta extensa planície, que fica bem frontal ao Golfo do México, e bastante vulnerável a fenômenos climáticos como furacões e tornados. Em caso de ocorrência, existem rotas de evacuação que conduzirão os transeuntes a abrigos.

                                À medida que nos aproximamos da fronteira, é notório o aumento da vigilância policial sobre a rodovia, por terra e por ar.
                                Uma rápida parada na loja da Harley em busca de alguma oferta imperdível, e em seguida nos enfiamos num hotel para prepararmos o roteiro de amanhã, pois pretendemos chegar a León.

                                Nossa entrada no México foi tranqüila. Num instante já fazíamos os trâmites de entrada. Simples e sem filas. Também não necessitamos fazer novamente o “Permisso de Importacion Temporal de Vehiculos”. Esse documento fizemos em Tapachula, em 23 de junho, quando entramos no México, na ida, tem validade por um ano, e nos custou USD$35,52. Ainda bem que o guardamos.

                                Agora a orientação é nos afastarmos da região de fronteira o mais rápido possível, tendo em vista os recentes conflitos ocorridos por ali. Seguimos em direção a Monterrey, depois Saltillo, até León, sempre que possível, utilizando as pistas por aqui conhecidas por cuotas. Como já informamos antes, são estradas construídas com capital privado, mantidas em excelentes condições, onde se paga pedágio. O valor do pedágio não é barato, mas em compensação, ganha-se em segurança, rapidez e economia de combustível e pneus.

                                Mas também existem as carreteras libres. São as estradas tradicionais, mantidas pelo governo, com os velhos problemas de sempre: lombadas, curvas, trechos mal conversados, intenso movimento de caminhões, atravessam povoados, etc. Em alguns trechos que fizemos por essas estradas, pudemos observar um fato, no mínimo curioso: placas informavam que é delito comprar espécies em extinção, e bem embaixo delas, dezenas de barracos improvisados expunham, oferecendo para venda, couro de cobras e de outros animais da região.

                                Ofereciam animais vivos, também.

                                Ao final da tarde, chegada a León onde já nos aguardavam nossos amigos Manuel e sua querida Sandra. E pela terceira vez nesta viagem, nos receberam em sua residência.
                                Deixamos nossas bagagens na casa deles e corremos levar nossas motos para o dealer local, para revisão e troca de pneus, que eles farão amanhã.
                                Em León participamos de uma autêntica festa mexicana. O México todo está em festa, comemorando duzentos anos de independência. Uma semana inteira de festas. Nossos amigos Manuel e Sandra nos levaram a uma festa organizada por amigos, onde os participantes levavam suas próprias comidas e bebidas. Não tinha muita gente, talvez umas cinqüenta pessoas, todos conhecidos entre si, e muito animados. A comida eram deliciosas tortilhas e tostadas, com os mais variados acompanhamentos, e tacos. Para beber, tequila. Pura, ou misturada com refrigerante de limão.

                                As pessoas, principalmente as mulheres, estavam vestidas com alguma peça de roupa nas cores da bandeira mexicana: verde, vermelho e branco. Afinal, todos estavam ali para comemorar dois séculos de independência.
                                Animando a festa, a mais autêntica e tradicional música mexicana, que os participantes acompanhavam cantando a plenos pulmões, de peito estufado. Algumas delas nós até conhecíamos parte da letra, e ousávamos cantar juntos.
                                Lá ficamos até tarde. Tão tarde, que atrasou nossa saída na manhã seguinte. Pretendíamos sair cedo para chegar a Poza Rica, já na costa atlântica, muito próximo a El Tajin.

                                Era quase meio dia quando finalmente acionamos os motores das motos. E aí apareceu o primeiro problema. Óleo embaixo da minha moto. Caramba, não pode! Ela veio da revisão dos 48 mil quilômetros ontem à tarde. Isso não pode estar acontecendo. Mas estava.

                                Levamos as motos ao “dealer” em León, na terça-feira à tarde, para a revisão normal feita a cada oito mil quilômetros, e troca dos pneus. Não apresentavam nenhum problema. Então porque agora uma delas começa a pingar óleo? O que fizeram (ou não fizeram) naquela oficina?

                                Mas finalmente estamos na estrada.

                                Mais à frente, outra novidade. O escapamento direito estava solto.
                                Arame, alicate, e pronto. O escapamento está suficientemente preso para chegar até a oficina mais próxima, que fica na cidade do México. Estávamos evitando passar por lá, devido ao intenso trânsito nessa cidade. Mas não temos outra saída. Toca para lá.

                                Manuel que nos monitora pelo Spot, percebeu nossa mudança de rumo, e nos envia mensagem dizendo que um furacão está se dirigindo para a região onde íamos.

                                Era quinta-feira, 16 de setembro, e estávamos no 111º dia de viagem.

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                                Com os amigos Laranjeira e Ig

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                                Amigo Marcos, preparando aquela picanha...

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                                Mirta preocupada com o jantar

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                                Com Helô e Laranjeira, no Sea Aquarium, em Miami

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                                Entrando no México, por Nuevo Laredo

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