1 - Hemisfério Sul - Terra do Fogo, Argentina
Parte I
Chegou, em fim, o momento muito especial, de abrir mais um tópico aqui no TFC. Dessa vez, para o Desafio do Grande Cacique Fazedor de Neve.
Algumas provocações subliminares contribuíram para essa decisão... Hehehe
E, para relatar esse desafio inédito, faz-se necessário voltar um pouco ao tempo. No ano de 2011, eu e o Brother Edson Steglich iniciamos uma grande aventura, com alguns objetivos públicos e outros nem tanto...
Partimos de Santa Maria, RS, com destino ao Alaska, USA, onde tentaríamos chegar até Prudhoe Bay, junto ao Oceano Ártico, sendo esse o foco principal, e, se possível, percorrer toda a Route 66.
Um dos objetivos não compartilhados na época, foi se conseguíssemos chegar a Prudhoe Bay, no Alaska, partiríamos de lá com destino a Ushuaia, extremo Sul da Argentina, sem escala no Brasil. O segundo objetivo não revelado foi a realização da travessia dos USA, partindo da costa leste, para alcançar Prudhoe Bay, na costa oeste.
Assim, contornamos todo o Golfo do México, desde Cancún até Key West, na Flórida, de onde partimos dia 15/06/2011, para cortar os USA e chegar a Prudhoe Bay, Alaska, dia 10/07/2011, completando o desafio Coast to Coast Challenge, em menos de 30 dias, de Key West, FL até Prudhoe Bay, Alaska.
Com o objetivo alcançado, era o momento de começarmos o retorno, que seria sem escala, esticando até Ushuaia, antes de chegarmos a Santa Maria, RS.
Partimos de Prudhoe Bay, no dia 11/07/2011, com chuva.
No curso da viagem, quando estávamos realizando a travessia da Route 66, partindo do Pier Santa Mônica, em Los Angeles, começamos a trocar ideia que seria bacana se conseguíssemos chegar a Santa Maria, durante o evento do Mercocycle, que é promovido e realizado todos os anos pela Associação Motociclística Gaudérios do Asfalto - AMGA, em Santa Maria.
Quando estávamos no Estado de Utah, comecei a fazer algumas projeções e cálculos, e verifiquei que teríamos de sacrificar alguma parte do roteiro. Ao chegarmos ao Estado de Oklahoma, decidimos ir até Ushuaia, deixando a Route 66 para outro momento. Viramos para o Sul, em direção ao Texas, para atravessar a fronteira com o México, por Laredo.
Nós já havíamos ido até Ushuaia duas vezes, em 2004 e 2008, mas essa seria nossa grande jornada, Alaska a Ushuaia.
A família e os amigos só ficaram sabendo que desceríamos até Ushuaia quando seguimos em frente na Ruta 5, Panamericana, ao passarmos pela região do Atacama, Norte do Chile. Foi um momento de alegria e tristeza, mas o espírito aventureiro surgiu e decidiu.
Esse é o recorte dessa grande aventura, que acabaria proporcionando nossa chegada à Terra do Fogo, Ushuaia, Argentina, no período hábil para esse desafio do GCFN.
Após descermos praticamente toda a Ruta 5, no Chile, viramos para a esquerda após Temuco, passando por Pucón, para chegar à Argentina, pelo Paso Mamuil Malal, e nos depararmos com o Vulcão Lanín, magnificamente coberto de branco. Espetacular!
Depois, foi chegar até a Ruta 40 e seguir até pouco adiante de Gobernador Costa, onde pegamos a Ruta 26, que nos levou até Comodoro Rivadavia, na Ruta 3, que nos esperava para nos acompanhar até o nosso destino no extremo sul da Patagônia.
O frio já nos fazia rodar em velocidade moderada, além de termos de aumentar as camadas de roupas internas.
As retas infindáveis davam o tom do cenário dos campos típicos e gelados da Patagônia, com destaque para os guanacos, que, como sentinela daquelas paragens, se posicionavam nos pontos mais elevados, atentos a todos os movimentos de intrusos e alguns insanos. Momentos de contemplar e fotografar os belos cenários.
Já, na travessia do Estreito de Magalhães, se pôde sentir o maior rigor da temperatura. Decidimos nos refugiar do frio na Hosteria Tunkelén, em Cerro Sombreiro. Sempre muito aconchegante.
Ao amanhecer, já sentimos a baixa temperatura pelo acúmulo de gelo na moto, que ficara sem abrigo. Depois foi enfrentar a ruta de rípio no Chile, pois no subir e descer das muitas colinas, ao longo do caminho, o frio me castigava de forma insuportável nas mãos e pés. Por várias vezes, tive de parar para aquecer as mãos no motor da moto ou aquecer com água quente nas estações de serviços.
As paisagens eram estupendas! Os tropeiros conduzindo centenas e centenas de ovelhas pelas rutas e campos, cenas que amenizavam as dores impostas pelo frio impiedoso, confortando a alma e alegrando nosso pensamento, no isolamento voluntário do capacete, naquela inóspita Tierra del Fuego. Cheguei a pensar que seria mais apropriado chamar de Tierra de Hielo.
Ao avançarmos pela Ruta 3, já em território argentino novamente, chegando a cerca de Tolhuin, fomos abençoados com um visual magnifico. É onde a Cordilheira dos Andes faz a curva para se aproximar do Atlântico. Ela se mostrava completamente branca, impondo-nos momentos de medo, preocupação e cautela para enfrentar o Paso Garibaldi, ponto mais alto, onde a temperatura congelante me fez padecer de frio, como o morador de rua padece nas noites frias de inverno.
Ao mergulhar pelo interior das montanhas brancas, assustadoras, face à minha pequenez e fragilidade física, deparo-me com os campos, outrora fotografados em tons verde e amarelo, completamente brancos, parecendo um campo de gelo. Magnífico!
Fui tomado por uma sensação, de certo modo, dicotômica, de euforia e de medo. Euforia, por estar ali, naquele momento, em um cenário impressionante e belíssimo. Medo, pois já não tinha mais tato nos dedos das mãos. Estavam congelados.
E, no dia 27 de setembro de 2011, foi o calor humano da recepção fraterna e carinhosa de amigos que cultivamos em Ushuaia, que nos aguardavam no pórtico de entrada da cidade, um dos marcos mundialmente conhecido, com um providencial café quente e biscoito, que chegamos para concluir a travessia da Terra do Fogo.
Foi uma chegada e uma conquista inesquecíveis, não pelo feito, mas pela alegria e conforto de termos amigos distantes vibrando, de ver nos olhos e sentir seus corações em compasso acelerado, em sintonia com nossos sentimentos. A verdadeira união de irmãos de alma.
(Continua...)
Registros fotográficos:


Parte I
Chegou, em fim, o momento muito especial, de abrir mais um tópico aqui no TFC. Dessa vez, para o Desafio do Grande Cacique Fazedor de Neve.
Algumas provocações subliminares contribuíram para essa decisão... Hehehe
E, para relatar esse desafio inédito, faz-se necessário voltar um pouco ao tempo. No ano de 2011, eu e o Brother Edson Steglich iniciamos uma grande aventura, com alguns objetivos públicos e outros nem tanto...
Partimos de Santa Maria, RS, com destino ao Alaska, USA, onde tentaríamos chegar até Prudhoe Bay, junto ao Oceano Ártico, sendo esse o foco principal, e, se possível, percorrer toda a Route 66.
Um dos objetivos não compartilhados na época, foi se conseguíssemos chegar a Prudhoe Bay, no Alaska, partiríamos de lá com destino a Ushuaia, extremo Sul da Argentina, sem escala no Brasil. O segundo objetivo não revelado foi a realização da travessia dos USA, partindo da costa leste, para alcançar Prudhoe Bay, na costa oeste.
Assim, contornamos todo o Golfo do México, desde Cancún até Key West, na Flórida, de onde partimos dia 15/06/2011, para cortar os USA e chegar a Prudhoe Bay, Alaska, dia 10/07/2011, completando o desafio Coast to Coast Challenge, em menos de 30 dias, de Key West, FL até Prudhoe Bay, Alaska.
Com o objetivo alcançado, era o momento de começarmos o retorno, que seria sem escala, esticando até Ushuaia, antes de chegarmos a Santa Maria, RS.
Partimos de Prudhoe Bay, no dia 11/07/2011, com chuva.
No curso da viagem, quando estávamos realizando a travessia da Route 66, partindo do Pier Santa Mônica, em Los Angeles, começamos a trocar ideia que seria bacana se conseguíssemos chegar a Santa Maria, durante o evento do Mercocycle, que é promovido e realizado todos os anos pela Associação Motociclística Gaudérios do Asfalto - AMGA, em Santa Maria.
Quando estávamos no Estado de Utah, comecei a fazer algumas projeções e cálculos, e verifiquei que teríamos de sacrificar alguma parte do roteiro. Ao chegarmos ao Estado de Oklahoma, decidimos ir até Ushuaia, deixando a Route 66 para outro momento. Viramos para o Sul, em direção ao Texas, para atravessar a fronteira com o México, por Laredo.
Nós já havíamos ido até Ushuaia duas vezes, em 2004 e 2008, mas essa seria nossa grande jornada, Alaska a Ushuaia.
A família e os amigos só ficaram sabendo que desceríamos até Ushuaia quando seguimos em frente na Ruta 5, Panamericana, ao passarmos pela região do Atacama, Norte do Chile. Foi um momento de alegria e tristeza, mas o espírito aventureiro surgiu e decidiu.
Esse é o recorte dessa grande aventura, que acabaria proporcionando nossa chegada à Terra do Fogo, Ushuaia, Argentina, no período hábil para esse desafio do GCFN.
Após descermos praticamente toda a Ruta 5, no Chile, viramos para a esquerda após Temuco, passando por Pucón, para chegar à Argentina, pelo Paso Mamuil Malal, e nos depararmos com o Vulcão Lanín, magnificamente coberto de branco. Espetacular!
Depois, foi chegar até a Ruta 40 e seguir até pouco adiante de Gobernador Costa, onde pegamos a Ruta 26, que nos levou até Comodoro Rivadavia, na Ruta 3, que nos esperava para nos acompanhar até o nosso destino no extremo sul da Patagônia.
O frio já nos fazia rodar em velocidade moderada, além de termos de aumentar as camadas de roupas internas.
As retas infindáveis davam o tom do cenário dos campos típicos e gelados da Patagônia, com destaque para os guanacos, que, como sentinela daquelas paragens, se posicionavam nos pontos mais elevados, atentos a todos os movimentos de intrusos e alguns insanos. Momentos de contemplar e fotografar os belos cenários.
Já, na travessia do Estreito de Magalhães, se pôde sentir o maior rigor da temperatura. Decidimos nos refugiar do frio na Hosteria Tunkelén, em Cerro Sombreiro. Sempre muito aconchegante.
Ao amanhecer, já sentimos a baixa temperatura pelo acúmulo de gelo na moto, que ficara sem abrigo. Depois foi enfrentar a ruta de rípio no Chile, pois no subir e descer das muitas colinas, ao longo do caminho, o frio me castigava de forma insuportável nas mãos e pés. Por várias vezes, tive de parar para aquecer as mãos no motor da moto ou aquecer com água quente nas estações de serviços.
As paisagens eram estupendas! Os tropeiros conduzindo centenas e centenas de ovelhas pelas rutas e campos, cenas que amenizavam as dores impostas pelo frio impiedoso, confortando a alma e alegrando nosso pensamento, no isolamento voluntário do capacete, naquela inóspita Tierra del Fuego. Cheguei a pensar que seria mais apropriado chamar de Tierra de Hielo.
Ao avançarmos pela Ruta 3, já em território argentino novamente, chegando a cerca de Tolhuin, fomos abençoados com um visual magnifico. É onde a Cordilheira dos Andes faz a curva para se aproximar do Atlântico. Ela se mostrava completamente branca, impondo-nos momentos de medo, preocupação e cautela para enfrentar o Paso Garibaldi, ponto mais alto, onde a temperatura congelante me fez padecer de frio, como o morador de rua padece nas noites frias de inverno.
Ao mergulhar pelo interior das montanhas brancas, assustadoras, face à minha pequenez e fragilidade física, deparo-me com os campos, outrora fotografados em tons verde e amarelo, completamente brancos, parecendo um campo de gelo. Magnífico!
Fui tomado por uma sensação, de certo modo, dicotômica, de euforia e de medo. Euforia, por estar ali, naquele momento, em um cenário impressionante e belíssimo. Medo, pois já não tinha mais tato nos dedos das mãos. Estavam congelados.
E, no dia 27 de setembro de 2011, foi o calor humano da recepção fraterna e carinhosa de amigos que cultivamos em Ushuaia, que nos aguardavam no pórtico de entrada da cidade, um dos marcos mundialmente conhecido, com um providencial café quente e biscoito, que chegamos para concluir a travessia da Terra do Fogo.
Foi uma chegada e uma conquista inesquecíveis, não pelo feito, mas pela alegria e conforto de termos amigos distantes vibrando, de ver nos olhos e sentir seus corações em compasso acelerado, em sintonia com nossos sentimentos. A verdadeira união de irmãos de alma.
(Continua...)
Registros fotográficos:











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