Do Oiapoque ao Chuí. Mesmo! Rodando mais de 26.000 km com uma Honda CG 125 e passando por todas as capitais, o casal Sérgio e Leka fizeram um aventura bem brasileira.
"Com um grito sufocado, tentava avisar a Leka da onça que se aproximava. No escuro, via a sombra se aproximando lentamente da minha esposa. Tentei uma reação... Acordei do pesadelo. Abri os olhos e vi a Leka assustada do meu lado, tentando me acalmar". Nossa "cama" era o km 432 na BR 319 em plena Floresta Amazônica. Estávamos realizando nosso "pequeno passeio" de 65 dias e mais de 26.000 km passando em todas as capitais brasileiras.
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O início
Realmente o difícil é sair e colocar a moto para rodar. Não existe distância, desde que o desejo de superar os quilômetros seja maior que o medo. Além das preocupações, ainda agüentamos as gozações dos amigos: "De moto e ainda de 125 cc, vocês vão é morrer nestas estradas!"
Apesar disso, eu (Sérgio Vieira Quadra, 28 anos) e Alexsandra Evangelista Quadra, 25 anos, minha querida Leka, nos despedimos dos parentes e amigos e saímos de Serra (ES) para dar uma "volta pelo Brasil".
Montamos em nossa Honda CG 125 ano 2000, chamada carinhosamente de "Invocada", e fomos atrás das emoções de uma viagem como essa. Conhecer lugares, fazer amigos e também levar alguns sustos.
Ou até mesmo rever lugares, como Governador Valadares (MG), nossa cidade natal, e amigos como Augusto e Vera do Moto Clube Zangões, da também cidade mineira de Curvelo, onde pernoitamos no início da aventura.
De lá passamos em Belo Horizonte (MG) e fomos dormir no Par-que Nacional da Serra da Canastra, onde conhecemos a cachoeira Casca D'anta e a nascente do rio São Francisco.
Fizemos amigos. A caminho de Caldas Novas (GO), por exemplo, encontramos o casal Rodolfo e Conceição, ambos na casa dos 80 anos. Eles rodam o Brasil de trailer e têm boas histórias e um café quente para quem estiver a fim de ouvir os "causos".
Num tapa
Só tínhamos visitado duas capitais e ainda havia muitas. Goiânia (GO) e Brasília (DF) ganhamos num "tapa" e partimos rapidamente para o Parque Nacional das Chapada dos Veadeiros, no norte de Goiás. Depois fomos para Palmas, capital do Tocantins. Uma cidade muito grande mas com pouca gente. De lá fomos para a Bahia e chegamos a Barreiras. Na estrada uma cena nos causou tristeza: crianças tapavam buracos em troca de moedas.
Rumo ao nordeste
Fomos então à maravilhosa Chapada Diamantina. Infelizmente, o tempo foi pouco para conhecer bem esse paraíso. Ainda voltaremos lá.
Rodamos pelo litoral, até atingir Ilhéus. Seguimos rapidamente para Salvador. A capital baiana é bem agitada, sendo um charme visitar o Pelourinho e comer acarajé.
As outras capitais do nordeste iam surgindo: Aracaju (SE), Maceió (AL) ... que mar bonito! Em Recife, Olinda e Caruaru, no Pernambuco, o forró rolava solto, um ritmo que continua em Campina Grande e João Pessoa, na Paraíba. Lá o sol nasce primeiro.
Ainda passamos por Natal - RN,Fortaleza (CE), e seguimos para Teresina (PI). Nem dormimos na capital piauiense, atravessamos o rio Parnaíba, que divide os dois estados, e pernoitamos no Maranhão. Depois fomos para São Luís, a linda capital maranhense.
Toca o barco
Indo para Belém, muitas estradas ruins. Na capital do Pará, pegamos então um barco que, em dois dias e meio, nos levaria para Macapá (AP). O barco é um outro mundo. Há muita gente boa, mas também muitos "espertos" querendo tirar vantagem.
Da capital Macapá fomos ao Oiapoque (AP). Um total de 590km sendo 420km de terra, com 62 pontes e um cascalho perigoso para motos. Tranqüilo na ida, mas na volta uma tortura. As câmaras de ar rasgadas, os remendos no fim e um rasgo no pneu. Aí, o jeito foi recorrer ao capim socado no pneu que funcionou até passar um caminhão e nos resgatar do pesadelo.
De volta a Macapá fomos convencidos a pagar a passagem direto para -Manaus (AM), trocando de barco em Santarém (PÁ). Foi aí que o bicho pegou! Ficamos a mercê da dona do barco, que não se preocupou com nossa situação. Ela nos deixou um dia em Santarém, até nos transferir de barco. Na outra embarcação, o Globo do Mar, fo-ram mais dois dias de rio Amazonas até o encontro das águas com o Rio Negro.
É ruim não ser dono do seu caminho, dependendo de outros para seguir adiante. Saiu caro andar de barco nesta região, é preciso pagar para carregar e descarregar a moto várias vezes. Quando chegamos a Manaus, muita alegria por sermos novamente donos de nosso destino. Ficamos meio perdidos, mas logo encontramos o amigo Durval que nos deu muita força.
Fomos para Boa Vista (RIO, pela BR-174. De lá para Santa Elena de Uairén na Venezuela, onde o litro da gasolina custa apenas R$ 0,50. Na volta para Manaus tiramos fotos na linha do Equador e na reserva indígena Waimiri Atroari
Sem água, desidratação, esse era meu quadro quando retornamos a Manaus, Então, o Durval, que é médico, providenciou soro e vitaminas. No dia seguinte, ja estava eu e a Leka, com o pessoal do Moto Clube Almas Livres e Mercenários encarando uma peixada de Tucunaré. Nesta noite, nos despedimos e, no dia seguinte, fomos para Porto Velho (RO) pela BR-319 ou o que restou dela.
Acordei decidido. Enchi quatro galões de gasolina e partimos com o tempo nublado depois de um dia chuvoso. Enfrentamos bons e maus pedaços de estradas, três balsas, 19 pontes e um tombo..Rodamos apenas 250 km e dormimos em uma torre da Embratel (o que e proibido) onde a tranqüilidade foi garantida com fogos de artifícios que levamos para espantar bichos. No dia seguinte foram mais de 120 km e, para piorar, a Leka ainda sentia dores de estomago. Ate que, depois de três dias no meio do nada, tudo melhorou pois chegamos a Humaitá, ainda no Amazonas. Saímos de Humaitá e fomos para Porto Velho, onde nos foi concedida uma cortesia em um excelente Hotel. Depois de dar uma geral na moto seguimos para o Acre para visitar a capital, Rio Branco.
Já voltando
Indo para o Mato Grosso, dormimos num posto de gasolina longe de tudo, onde fomos discretos para garantir nossa segurança. Depois de chegar a capital Cuiabá, fomos direto para a Chapada dos Guimarães. Um lugar maravilhoso, impossível de descrever em poucas linhas.
Continuamos seguindo as intermináveis retas ate Campo Grande (MS), de onde demos uma esticada para a Bolívia passando por Corumbá., ainda no Mato Grosso do Sul. De lá fomos para Bonito, que é realmente bonito, mas muito caro.
Cruzamos o Estado de São Paulo e rodamos ate Foz do Iguaçu, já no Paraná. Que lugar incrível, as Cataratas do Iguaçu é uma das coisas mais lindas que já vi.
Nos Estados do Sul, encontramos muitos moto clubes que nos ajudaram. Passamos por Bagé, onde os Falcões Solidários fizeram jus ao nome. Apresentaram-nos a cidade, passamos o Natal com eles e ainda nos alojaram. Pessoas das quais sentimos saudades, antes mesmo de sair de sua cidade, em busca da última fronteira para nós, o Chuí.
Estávamos "perto" de casa, e talvez por isso o tempo voou e nem, vi muita graça nas capitais que passávamos: Porto Alegre, Florianópolis, Curitiba, São Paulo e Rio de Janeiro ficaram para trás rapidamente.
Na verdade, não gosto de capitais mesmo, são sempre estressantes e perigosas. As cidades pequenas são mais calmas e acolhedoras, deixando sempre a vontade de voltar. Depois de mais de dois meses e 26.000km percorridos voltamos para Serra, no Espírito Santo.
No fim disso tudo, estávamos realizados e unidos. Hoje em dia olhamos um para o outro e sabemos a cumplicidade existente entre nós e que agora podemos acreditar na máxima: "o impossível é o que ninguém fez, até que alguém o faça".


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