Motopangea - De Foz a Havana a la Che

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  • Renan Xavier
    Fazedor de Chuva
    • Jul 2011
    • 404

    #1

    Motopangea - De Foz a Havana a la Che

    5 dias navegando - Voltaremos dia 3
    Dia 28 de janeiro



    - Estamos navegando pela costa do Panamá numa pequena embarcação que vai parando para fazer entregas de mercadorias em pequenos povoados. No dia 2 de fevereiro desembarcaremos em Cartí onde já se tem Estrada para Cidade do Panamá;

    - Chegaremos a Cidade do Panamá dia 3 de fevereiro, em tese;

    - Teremos aproximadamente 8 dias para cruzar 8 países. Missão difícil, devido ao tempo e dinheiro. Assim, a possibilidade de pegar (só nós, sem as motos) um voo no meio do caminho para Cuba é grande;

    - Desembarcar as motos em Cuba no dia 12 de fevereiro, para acompanharmos a abertura do congresso dia 13, com elas, é quase impossível, mas temos uma esperança;

    - Só após o congresso, programaremos nossa volta ao Brasil. Agradecemos a todos que acreditaram e acreditam no projeto que é o MOTOPANGEA;

    - No dia 3 de fevereiro voltaremos a realizar postagens;

    Saudações latinoamericanas,
    Alexandre Martins, Ary Neto e Renan Peixoto
    Última edição por Renan Xavier; 30-01-12, 09:50.
  • Renan Xavier
    Fazedor de Chuva
    • Jul 2011
    • 404

    #2
    Vamos contar alguns trechos anteriores também para que se entenda o percurso e a trajetória...

    ---

    Dia 27 JAN - Puerto Obaldia (Panama)
    Passamos a manhã apreensivos, à espera de melhores informações sobre a embarcação grande que chegou a Puerto Obaldia.

    Após o almoço, uma conversa com o capitão do barco esclarece: sim, vai a Carti, sai num sábado, depois de ábado, depois de 5 dias está lá.

    Nosso dilema inconteste: o tempo, a grana. Soma-se a isso o efeito collateral que a maresia poderá causar no organism do Ary. Sob pressão da decisão, indecesições, brigas, confrontos, entre nós, entre nós e a burocracia local, entre nós e os administradores do barco.

    Solução: dois vão de barco com as motos, um vai de voô. Ia. Voos só em fevereiro. Vão os 3, mas incluir o terceiro custou 25 dólares. 450 dólares para levar todos. Não, é muito, não temos, dissemos. 400 o preço final: 250 agora e o restante quando pudermos sacar.

    À família, amigos e pessoas próximas um até logo breve, não se preocupem, estamos bem. Daqui a pouco voltamos ao blog.

    A você que não nos conhece pessoalmente ou que chegou ao blog agora, aprecie nesse tempo nossas postagens anteriores.

    Alexandre Martins

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    • Renan Xavier
      Fazedor de Chuva
      • Jul 2011
      • 404

      #3
      Dias 23 e 24 de janeiro - Parados (s)em Turbo - do site

      Novamente os acontecimentos serão relatados sob a perspectiva de cada um de nós. Nos desculpem pela falta de fotos, correção ortográfica (problemas com tempo e teclados) e também pelo longo texto, que foge ao que é típico dos blogs. No entando, não era possível economizar palavras para expor nossas impressões no que diz respeito ao que somos, o que vimos, de onde viemos e pra onde vamos.

      [Ary] Acordamos cedo, contudo, dormimos bem. Uma combinação rara nessa viagem. A saga do dia era conseguir uma embarcação para Collón, no Panamá. De preferência uma que pudesse transportar ao mesmo tempo nós e as motos. Tarefa dificil, pois esbarra em autorizações, bem como, em trâmites de imigração. Vamos ao porto, quem sabe faz a hora, nao espera acontecer. Iamos e voltávamos num estreito de terra oprimido pelos barracos de madeira, sem rede de esgoto de um lado, e do outro, um braço estático, sujo e com mal odor do mar, abrigo de embarcações velhas, grandes e pequenas, cheias de bananas, madeiras, caixas, enfim, de tudo. Em contraste dessa descrição, circulavam por estes barcos, por estes barracos e pelo estreito de terra um povo de pele bem escura e sorriso bem iluminado. Carregando coisas, cozinhando em pequenas barracas, pilotando motos e conversando em grupos. Muita energia, informação, calor e trânsito... tudo ao mesmo tempo. É o porto de Turbo. Imergimos naquele espaço e começamos a estreitar as relações, perguntávamos, conversávamos, repetíamos os procedimentos do dia anterior. Não veio nenhuma informação otimista, nítida, esclarecedora, pelo contrário, tudo muito enrolado, complicado, nebuloso. Aquele universo que costuma conspirar a nosso favor estava de folga. Ali nada se encaminhou e nós fomos ao encontro de Téo, o contato que já tínhamos. Chegamos no ponto de encontro e esperamos sua chegada. Durante a espera, uma rápida movimentação para providenciar o café da manhã. Téo chega e dá início a uma reunião que relata preços altos e prazos longos. Chegar no Panamá dia 31 de janeiro, no caso do translado não ter nenhuma implicação, já nos colocaria numa posição difícil para cumprir a meta de chegar a Cuba a tempo do congresso. Saímos dali e demos início a uma reunião só nossa, com nossos planos, dramas e dilemas.

      [Alexandre] Ter dormido às 8h da noite ontem foi a chave para, apesar de cedo, eu ter acordado refeito e bem disposto no dia 23. O sol, que já é forte logo nas primeiras horas, trouxe-nos a esperança de que a conversa com Teo pudesse ser a solução para o nosso impasse. Entretanto, o que ele trazia, com serenidade e razao, soava-nos como complicadores sérios às bases da nossa saga. Pensando na dificuldade que tivemos de encontrar barcos alternativos, quando de nossas andanças pelo porto no dia anterior, sabíamos que nossa maior chance estava naquilo que o Teo podia nos oferecer. E isso nos dividiu, uma vez mais. Estávamos em Turbo mais ou menos na data esperada, mas nossa permanência nessa cidade, embora bela e particular, poderia comprometer seriamente nossos compromissos. De forma geral, as embarcaçoes existentes no local ou fazem muito o trajeto até Carpuganá, ainda na Colômbia, ou vão de ilha em ilha fazendo descargas, coisa de 8 dias, até um porto antes de Colón. A primeira opção nos era muita arriscada, pois na sequencia teríamos de conseguir outro barco até Porto Obaldia e, de lá, ainda outro mais até Colón. A segunda opção era inviável pelo tempo. Muita gente, no porto, no dia anterior, tinha nos orientado, tentado nos ajudar, explicado, feito a gente ir, voltar, então já tínhamos uma ideia de como mais ou menos as coisas funcionavam. E a fala do Teo era clara: talvez o barco chegue hoje à noite, talvez descarregue amanhã, talvez parta depois de amanhã. Talvez.

      [Renan] Turbo um lugar raro, um porto que e a esperanca de um povo , dali sai o sustento das familias , oque nao e tarefa facil porque as possibilidades de trabalho sao poucas e requer muita coragem . Coragem e nao necessidade , porque so por necessidade um ser humano nao carregaria toras de madeira de quase cem quilos embaixo de um sol de quarenta graus ,isso e vontade de viver , so por necessidade seria mais facil se acomodar e morrer de fome. ‘’Fe em Deus e nas criancas da favela’’, fe em Deus , porque acredito na sua justica e nas criancas das porque e a representacao de um povo a margem de tudo que e oprimido e injusticado e mesmo assim nao perde o brilho do olhar a sinceridade e a bondade . A revolucao so sera feita quando concientizar os marginalizados porque eles tem coragem e esses nada temem, aprenderam a viver na selva e matar um leao por dia para levar o pao para os seus filhos.

      Talves mostro um pouco de uma revolta social e a visão destorcida que tenho da política e da educação, nao acredito em mascarados de terno e gravata com belo discurso , acredito no trabalhador com feridas nas maos e perseverante que acorda na madruga para mais uma batalha ,‘’guerreiro’’.

      Voltando a nossa ida pra Cuba , cheguei a concordar com a possibilidade de irmos pela Venezuela, mas com uma condicao de que ao termino do congresso eu voltaria de moto pelo Mexico fazendo o caminho contrario ate Panama , so que nao teve boa aceitacao e me dei conta que nao seria bom dividir o grupo e desfazer a ‘’integracao’’ , concordamos em continuar com os planos iniciais e se houver outro atraso que comprometerse a data da chegada em Havana, sairiamos de onte estivermos na America Central.

      [Ary] O que fazer: correr o risco do atraso e manter no trajeto a América Central? Deixar as motos e ir só na base da mochila? Mudar os planos e ir pela Venezuela que sairia mais barato e menos burocrático? Qual dessas escolhas colocam mais ou menos em risco o projeto? O mais importante é chegar em Cuba com as motos, chegar em Cuba, continuar o trajeto até o último minuto, sendo a superação dos obstáculos mais importante que a própria meta? Discutimos várias possibilidades, vários posicionamentos. As prioridades demonstram não ser tão homogêneas. Diante disso, chegamos a decidir que o grupo iria se separar: Renan e Alexandre iriam pela América Central e eu iria para a Venezuela até Caracas, para de lá partir pra Cuba. Uma decisão sem brigas ou estresses. Todos estavam contemplados e continuavam com sua meta de chegar a Cuba.

      Se não tivéssemos o prazo, se não tivéssemos envolvido tantas pessoas no MOTOPANGEA, com certeza a decisão seria mais fácil. Mas agora levamos na consciência as palavras de apoio, a ajuda fornecida por aqueles que estão no Brasil, como também pelos que encontramos pelo caminho. O mundo estava pesado pra carregar. As inúmeras vielas de Turbo representavam uma antítese de movimento e estagnação. Um bom momento para irmos à internet, navegar de forma ilimitada, ou melhor, navegar até acabar a cota de gastos do dia.

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      • Renan Xavier
        Fazedor de Chuva
        • Jul 2011
        • 404

        #4
        Dias 23 e 24 de janeiro - Parados (s)em Turbo - do site

        [Alexandre] As visões diferentes foram surgindo, embora todos realmente considerando a perspectiva do outro. Quando nasceu a possibilidade de uma moto ir para Venezuela e outra para a América Central, tendi para a segunda alternativa, que me parecia mais difícil, certamente, mas era a mais coerente em relação, segundo eu mesmo, ao nosso projeto inicial e em relação a esse movimento constante de enfrentamente de dificuldades que temos vivido. Havendo uma divisão das duas motos, eu continuaria, portanto, na garupa do Renan, rumo a America Central. E assim, divididos e perdidos, fomos tentar achar alguma solução na net.

        [Renan] Quando conheci o Ary no iniciu de 2011, o convidei a fazer uma viagem de moto ate o Mexico era uma viagem de lazer em primeiro lugar , mas depois da primeira imprensao que tive na mobilizacao das pessoas em ver algo diferente e uma viagem de aprendizado pratico, meu foco nao seria o mesmo, ‘’ yo no soy yo , no o mismo de antes’’ , agora temos uma necessidade e um comprometimento com as pessoas que nos ajudam e isso fara com que esse sentimento de solidariedade nao morra e quando voltarmos possamos ser um agente em nossa sociedade . As pessoas que nos ajudam , quero conhecelas e poder apertar suas maos e agradece-las olhando nos olhos , muito obrigado porque esse projeto nao existiria sem voces.

        [Ary] Na internet nos deparamos com novas contribuições, incluindo uma do amigo motociclista Valdir, que hoje mora no Estado da Paraíba e que em 2015 e 2016 fará uma viagem de moto por todo o continente americano. Também recebemos uma contribuição do amigo Milton, de Foz do Iguaçu, contato do Moto Grupo Lobos Missioneiros. Muito obrigado camaradas que, mesmo não nos conhecendo pessoalmente, acreditaram em nós e em nosso projeto. Cabe dizer que na contribuição de Valdir estava discriminada sua utilização, no caso, a travessia para o Panamá. Assim, isso implicava na minha decisão de ir pela Venezuela. Mais uma vez, os 3 seguiriam juntos e por um mesmo caminho. Além dos emails respondidos, também conseguimos fazer um teste em nosso blog – transmitimos ao vivo por uns 15 minutos. Todavia, o chat da plataforma de transmissão (ustream) não estava disponível, assim, as pessoas nos enviavam perguntas e dizeres via facebook. Foi divertido! E também, mais uma possibilidade de comunicação.

        [Ary] Sobraram 14 pesos e o almoço para 3 custaria 19. Tudo bem, nada que mais uma barganha não resolva. No entanto, teríamos que cambiar mais uma quantia em dólar... ao contrário de todo o apoio que tivemos no trajeto colombiano, aqui nos sentimos só. Sozinhos e parados.

        [Alexandre] Depois de tanto trânsito, tanta ação e tanto movimento a espera impunha agora uma pausa, um descanso tenso, uma inércia entediante. Mirávamos o Sul e víamos passar Argentina, Chile, Peru, Equador e Colombia. Estávamos prestes a deixar a parte setentrional do continente, mas sem tanta convicção de quando estar na parte central. As notícias que vinham pela net nos acalmavam, pois, com as doações que estavam surgindo, pelo menos teríamos a chance de tentar ir pela America Central. Um salve muito especial ao Valdir e ao Milton! Obrigado, camaradas! Cem anos antes talvez não encontrássemos tanta dificuldade de acesso à regiao central da América. Panamá era também Colômbia. Pena termos vindo um pouquinho tarde.

        [Renan] bacana poder ‘’falar’’ com os amigos, saber que estam torcendo pelo motopangea , valeu galera tamos juntos...

        [Ary] O acordo seria ir pela América Central, mas partir para Havana assim que chegasse a data de congresso. Acordo firmado. Para brindá-lo procuramos a praia. Quarenta minutos de caminhada e o Atlântico mostra sua cara, nos dá um oi. Praia mesmo não havia, a faixa de areia era muito tímida, na maioria das vezes inexistente. Um dia cheio, sobretudo, de pensamentos. Quanto mais cedo dormisse, mais cedo chegaria um novo dia, uma nova esperança. E assim foi.

        Dia 24 é um novo dia, com uma história velha. No porto, as mesmas informações truncadas. De novo, apenas o contato com um brasileiro que saiu do Brasil aos 14 anos e que mora na Colômbia outros 14. Gustavo é seu nome, um cara simpático, que encontrou na gente sua raíz, seu passado... parecia satisfeito ao caminhar com 3 brasileiros em meio a multidão. Eram 4 brasileiros. Caminhávamos e Gustavo ia parando e trocando ideia com os barcos, ganhamos um apoio, mas por enquanto nenhum acordo firmado.

        [Alexandre] O dia 24 chegou quente, preocupante. Saímos caminhando pelo porto e, em mais um desses acasos com os quais temos topado, trombamos com o Gustavo, que também é chamado de Brasil ou de Ronaldinho Gaúcho. Achamos que ele resolveria nossa situação, mas, apesar de todo o seu empenho, acabamos o dia de novo de mãos abanando. Ligamos para o Téo, que pediu para ligarmos amanhã á noite. Almoçamos macarrão feito pela Dona Maria. Com a noite chegando, eu e Carioca fomos tentar colher informações na base naval de Turbo, saber se de repente algum navio militar poderia nos dar uma ‘carona’. O militar nos explicou muita coisa, entre elas que era impossível esse trajeto via marinha colombiana, já que ela nao teria autorização para entrar em territorio panamenho. Voltei e deixei o sono me levar, enquanto o Carioca saiu para estourar o dedo numa pelada defutebol.

        [Renan] andavamos pelas ruas bera mar com ‘’meirmao’’ brasileiro , Gustavo, maluco gente fina que fez de tudo pra nos ajudar , mas infelizmente nao conseguiu um transporte maritimo ate Panama.

        [Ary] Fomos no encalço de Téo, seria melhor fechar acordo com ele e só chegar no dia 31 no Panamá, do que continuar no incerto. Tiro n’água, pois Téo não estava e também não deixou ninguém cuidando de seu escritório. Enquanto os meninos ficaram lá, esperando-o, voltei para nossa casa temporária, que parece muito com a vila do Chavez, onde os quartos se organizam num quadrangular, formando um pátio ao centro, contendo inclusive um poço e um barril. Poucos minutos passados e D. Maria me bate a porta e diz – Pague o aluguel (ou algo assim). Disse que cambiaríamos o dinheiro e já efetuaríamos o pagamento do dia. Dona Maria é uma mulher firme, de gênio forte, mas gente boa... até preparou um macarrão pra gente, que já vínhamos carregando desde Pachacamac. Valeu a pena.

        Alexandre e Renan retornam e almoçam. Juntei umas moedas e fui para uma horinha de internet. Neste tempo, leio várias mensagens da motocilista Andressa (que sempre nos acompanha e ajuda, uma vez que, já fez esse trajeto um ano antes) dizendo várias coisas, mas duas que nos impactaram mais: a boa que seria a possibilidade de ir de El Salvador para Cuba, visto que a primeira dama é brasileira e costuma apoiar esse tipo de projeto, a outra e má consiste no ingresso a Nicaraguá, onde cada um teria que pagar 200 dólares.

        Quanta informação, quanta coisa a se pensar. Alexandre e Renan foram na base naval da cidade tentar alguma coisa. Permaneci no quarto 16, pensando e escrevendo. Na volta deles, sem grandes novidades, continuamos a conversar sobre o que fazer... as divergências continuam. Mais uma coisa é comum a todos, ninguém mais aguenta ficar parado. Nos acostumamos ao movimento, ao dinâmico, ao transitório. Mais um dia em Turbo, menos um dia para chegar a Cuba.

        [Renan] A base naval so nos informou oque eu ja sabia e disse que nao pode nos oferecer nenhuma ajuda, pois apenas tomam conta da costa , nao tem embarcacoes que vai pro outro lado , beleza noticia ruim , mas bola pra frente . Falando em bola vi uma molecada que jogava futebol e pensei a me juntar a eles , deixei o Ale ‘’em casa’’ e voltei para o campo , joguei mais de uma hora e me integrei bem ao time, que bom ja estava com falta disso.

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        • Renan Xavier
          Fazedor de Chuva
          • Jul 2011
          • 404

          #5
          Do Início... (Matéria do ClickFOZ)

          ...

          Estudantes da UNILA encaram o desafio de percorrer dez mil quilômetros com duas motos 125 cc


          Foto: Garon Piceli

          Em fevereiro vai acontecer em Cuba um congresso estudantil e três universitários da UNILA resolveram participar do evento, mas o percurso escolhido para chegar até lá não será convencional, deixaram de lado o conforto e a praticidade dos vôos comerciais e vão encarar o desafio de moto. Serão 10 mil quilômetros percorridos em aproximadamente dois meses.

          Alexandre Martins, Ary Neto e Renan Peixoto têm em comum, além de estudarem na mesa universidade, a paixão por motocicletas. Antes de se conhecerem cada um já tinha tido sua própria aventura sob duas rodas, e após meses de conversa resolveram encarar um desafio juntos.

          Os três venderam itens pessoais, trabalharam em vários empregos alternativos para juntar dinheiro para a viagem, Ary Neto, por exemplo, passou um tempo vendendo alfajor, enquanto Renan Peixoto trabalhou cortando grama. Alexandre chegou a vender um carro. Finalmente conseguiram o dinheiro para as motos.

          Na verdade, conseguiram R$5 mil para comprar duas motos. Foi o dono da revenda João Motoca que colaborou com esta parte da viagem, ele vendeu duas motos que custavam R$3.300 cada por R$5 mil as duas. De acordo com Peixoto “ele disse que gostaria de ver as motos viajando”.

          Muitas pessoas acreditaram no projeto e ajudaram de alguma forma, os estudantes montaram um blog para divulgar a viagem e detalhar cada processo, estadia, alimentação, documentação, combustível, está tudo documentado no blog. Inclusive uma prestação de contas de todas as pessoas que colaboraram e como eles usaram ou vão usar o dinheiro arrecadado.

          Além das doações feitas diretamente, eles também estão contando, mais uma vez, com a ajuda da internet, através da Vaquinha Online, basta acessar o blog (http://motopangea.blogspot.com) e ter mais informações sobre as contas bancárias para depósitos.

          “Se a gente for pensar em voltar o projeto é muito grande, temos o dinheiro pra ir, e depois a gente vê como vai fazer”, afirmou Ary Neto. Para toda a viagem eles precisam de R$14 mil, até agora conseguiram R$9 mil e deste R$5 mil foi usado para comprar as motos. O restante eles precisarão para se alimentar e abastecer durante o percurso.

          As motos de 125 cilindradas não são apropriadas para viagens longas, por isso, o percurso será feito dia sim, dia não. Por dia eles pretendem percorrer de 220 a 520 km. No total serão 10 mil quilômetros em 60 dias. Eles vão passar pela Argentina, Chile, Equador, Colômbia, Panamá, Costa Rica, Nicarágua, El Salvador, México e finalmente Cuba.

          Como o objetivo final da viagem é participar de um congresso estudantil em Havana, os estudantes tentaram pedir ajuda da UNILA para arcar com o valor das inscrições, mas de acordo com eles, não foram atendidos.

          Alexandre Martins, 33, é de Rio Preto, SP e estuda Relações internacionais, Ary Neto tem 27 anos, é de Santo André, SP, estuda Antropologia, Renan Peixoto, 21, é de São Gonçalo, RJ e estuda Desenvolvimento Agrário. Para saber mais e colaborar com a viagem basta acessar o blog MotoPangea (http://motopangea.blogspot.com).

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          • Renan Xavier
            Fazedor de Chuva
            • Jul 2011
            • 404

            #6
            Primeiro dia - 15/12 - San Ignacio



            Partimos hoje por volta do meio-dia de Foz do Iguaçu, carimbamos o passaporte na saída do Brasil e registramos na fronteira argentina de Puerto Iguazu nossa entrada no país. Nosso passo inicial foi providenciar a 'Carta Verde', já que fazê-la do lado brasileiro custa quase seis vezes mais caro. Em seguida, almoçamos um alternativo pão com queijo e suco sabores pêssego e multifrutas, saboreados sem auxílio de copos e talheres. Enquanto nos alimentávamos improvisadamente sobre a calçada da rua Bonpland, quase fomos autuados por um guarda argentino que nos orientou a não deixar as motocicletas muito perto da esquina. Pegamos a estrada. Após cerca de 160km, abastecemos a primeira vez em Puerto Liberdad e 40km depois fomos parados por uma comitiva do exército argentino, que nos liberou rapidamente, embora não botando muita fé que pudéssemos chegar a Cuba de motoca 125cc. A foto abaixo é do fato.



            Na segunda parada somente tomamos um café argentino, que não é muito forte, mas ajudou a minimizar o sono vespertino que nos acometeu. No YPF, onde fizemos o 'café da tarde', encontramos três motoqueiros argentinos, de Córdoba, que também estão rodando pela América, embora em outra direção. Por eles, ficamos sabendo de um maluco que foi da Argentina ao México de biz. Ficamos, então, bem tranquilos com nossa empreitada. Eis nossos mais recentes colegas:




            Alguns perrengues com a moto apareceram, mas temos no grupo um mecânico de prima que logo resolveu os problemas de vazamento de óleo de uma moto e de falhas de aceleração da outra. Entre uma parada e outra, chegamos à noitinha em San Ignácio, onde nos dirigimos diretamente a um restaurante para pedir que ligassem no celular do nosso contato na cidade. Entretanto, até o momento desta postagem, o contato com nosso anfitrião voluntário ainda não tinha obtido êxito, então viemos para uma Lan postar esse comentário e tentar localizar o tal Marcelo Sanches, nosso amigo desconhecido. Na impossibilidade de encontrá-lo, já estamos prontos para acionar nosso plano B, que é o de pedir estada no corpo de bombeiros ou em alguma igreja. Um grande SALVE aos nossos familiares, namoradas, namorados, amantes, tico-ticos no fubá, amigos, inimigos e conhecidos. Estamos todos bem. Cansados deste primeiro dia, mas bem. Beijos a todos. Alexandre, Ary e Renan.



            Redigido pelo Alexandre em Motopangea.

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            • Renan Xavier
              Fazedor de Chuva
              • Jul 2011
              • 404

              #7
              Resistencia e Resistência, a segunda acentuada
              17 de dezembro de 2011

              Após um périplo atrás de nosso contato em San Ignacio, conseguimos enfim conversar com Marcelo Sanches e descobrimos que ele está viajando para Posadas, 60km de onde estamos. O jeito foi pedir ajuda a Deus: fomos à paróquia da cidade e depois de muito buzinarmos, batermos palma e gritarmos, conseguimos conversar com o padre Ernesto que após uma longa argumentação de nossa parte autorizou-nos a dormir no saguão da paróquia. Lugar rústico, mas o suficiente para esta primeira noite. Sem banho e degustando apenas algumas amêndoas como janta e ceia, adormecemos. Um salve ao padre Ernesto. Obrigado pela estada desta noite, Ernestos à parte.



              Acordamos às 8h00min, fizemos a higiene matinal, tomamos nossa café da manhã regado a algumas castanhas do pará, carregamos um freezer para o padre Ernesto, agradecemos a estadia na paróquia e fomos direto à oficina Willis, do amigo argento-germânico Guillermo Schlender. Depois de 2 horas de tratamento intensivo, as motocas foram retomadas com a saúde supostamente perfeita. É preciso registrar um salve especial a todos da oficina e um ainda mais especialíssimo ao Guillermo, que autorizou o mecânico Leo a dar uma geral nas nossas motocicletas. Depois, com a ajuda de Matias, um camarada gente boa que conhecemos na oficina, chegamos às ruínas jesuíticas de San Ignacio, onde não entramos pois o ingresso individual custa 40 pesos, valor que temos de direcionar para o combustível, alimentação e prováveis hospedagens pagas. Chamou-nos a atenção a curiosa presença de possivelmente povos guaranis à porta do parque, pedindo moedas a turistas que justamente vêm apreciar uma edificação erguida exatamente para a catequização deste povo originário. É o presente em irônica e triste tensão com o passado, separados por ingressos de 40 pesos.



              Após, pegamos a estrada para em seguida ficar alguns bons minutos parados em uma fila de abastecimento no posto YPF e novamente partimos. A gasolina aditiva desta bandeira causou melhora no desempenho da Pamamá e Panamina, como carinhosamente resolvemos chamar as motocas que nos levarão a Cuba. Próximo do crepúsculo, com o estômago urrando, paramos à beira da estrada, onde o Carioca, passando óleo de peroba na cara, foi pedir a alguma alma caridosa pão e leite. Na primeira casa conseguiu o pão, na segunda o leite e - mais – um pote de doce de leite (argentino!), com o que nos regalamos. A solidariedade é um gesto? Está na cultura? É humana? Nacionalidade certamente não tem. Algumas culturas podem desenvolvê-la mais outras menos, mas pareceu-nos que diante do pedido sincero, há oferecimentos em retorno tanto quanto sinceros. Um salve aos nossos patrocinadores anônimos desta nossa janta de hoje. Depois de muito rodar, chegamos a Corrientes, bela e grande cidade, conectada com sua vizinha, Resistencia, por meio de uma quilométrica ponte aos nossos olhos mais ainda bonita pelo fato de termos sido brindados com a chegada à noite, o que favoreceu a apreciação da iluminação longilínia. Desta vez sem nenhuma dificuldade fomos recebidos pela Vanessa e sua filhinha, Morena, nossas anfitriãs nesta pujante cidade cujo nome é até agora e deverá ser até o fim da viagem a síntese de nossa saga: Resistência.

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              • Renan Xavier
                Fazedor de Chuva
                • Jul 2011
                • 404

                #8
                17.12.2011 – Pampa del lnfierno

                Despertamos por volta das 10h. Após dois dias, foi possível tomar um banho decente aqui na residência da Vanessa, em Resistencia. Conseguimos também atualizar nosso blog usando a internet sem fio da vizinhança à livre disposição no local. Um salve para a Vanessa, pela hospedagem de hoje e pela net. Muito obrigado!



                Fomos procurar uma quitanda para fazermos um desjejum frugal. Uma placa anunciava bananas por 0,99 pesos o quilo, mas no ato da compra percebemos que por este preço só levaríamos as podres. Então, com 10 pesos, garantimos nosso café da manhã e almoço: três bananas para cada um mais uma maça e meia. O Renan arrumou uma treta com um senhor argentino depois de ter jogado casca de banana no vaso de planta em frente da loja dele, mas não acabou em nada. Por 20 pesos, compramos uma vela de reserva caso a da Pamamá ou a da Panamina miem no caminho. E deixamos Resistencia.

                A rotina de parar, abastecer, parar, descansar, parar, cochilar, parar, conversar, parar, pedir água, parar, pedir comida é uma constante para quem viaja nas condições em que estamos. A região plana do chaco argentino somada com o sol fumegante da tarde é uma combinação perfeita para a proliferação do sono. Por isso, temos parado muito. E nessas paradas temos contemplado belas paisagens que passariam despercebidas se vistas na absurda velocidade média de 70km de nossas motocas.




                Almoçamos uma doação de pão com carne acompanhada de refri sabor Pomelo. Um salve a Maria, do Bar Comedor, pelo alimento e ao caminhoneiro amigo que doou o refri. Mais estrada intercalada com mais descanso para os pés, que formigam, para as costas, que arquejam, para os olhos, que ardem. À tarde, parada para água e integração rápida com a comunidade local.

                O fim do dia foi chegando e fomos brindados com abundantes paisagens de plantações de girassol, à la Van Gogh. Paramos para contemplações. Interessante ver o sol se pondo e as plantas, dando-lhe as costas, curvarem-se insinuando ao mesmo tempo reverência pelo astro maior e indignação pela sua saída, como crianças bravas fazendo birra diante da saída dos pais ao trabalho.

                À noitinha, chegamos a Pampa del Infierno, que de inferno só tem mesmo o clima quente, daí o nome. O povo é fenomenalmente solidário, ou pelo menos foi com a gente. O Renan conseguiu para nossa janta pão com mortadela (muita!) num lugar e leite em outro. Sentamos no banco de uma simpática praça e comemos no Inferno o pão que o diabo não amassou. Em seguida, procuramos a igreja da cidade infernal para angariar nossa hospedagem. O padre estava viajando e chegaria tarde, conforme um grupo de garotos soube por celular e nos informou. Ficamos de bobeira em frente à igreja, aguardando a chegada do beato. Foi quando apareceu o amigo Jorge, que nos informou de um encontro de motoqueiros que haverá amanhã aqui na região do Inferno. Depois de fotos e conversas trocadas, Jorge conseguiu para nós uma hospedagem num hotel abandonado, além de ter arrumado 100 pesos para a janta que já tínhamos feito. A grana será usada para a gasosa (temos 240 pesos, metade do que nossas motocas consumirão para sair da Argentina). Terceiro dia completado.

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                • Renan Xavier
                  Fazedor de Chuva
                  • Jul 2011
                  • 404

                  #9
                  18.12.2012 – Motos tunadas

                  Nosso quarto dia começou tarde, pois na noite anterior decidimos calibrar nosso roteiro em virtude do gesto e do convite do amigo Jorge. Assim, pudemos nos dar ao luxo de repousarmos até o avançado da manhã, já que optamos em acompanhar o Jorge e sua equipe no encontro de carros e motos tunadas na cidade vizinha, Concepcion del Bermejo. O Renan foi o primeiro a acordar e logo em seguida saiu a garimpar nosso café da manhã, que resultou num pão grande, e só. Quando retornou, confraternizamos o alimento. Temos até agora contrariado o dito de que não só de pão vive o homem. Ficamos de bobeira até por volta das 13h, quando o Jorge veio ao local onde nos hospedamos e nos levou até a casa dele. Lá conhecemos seu pai, com quem conversamos por mais de uma hora, quando fomos premiados com um almoço de sultão: dois ovos fritos, batata frita, uma bisteca cabulosa, pão à vontade, refri e, *******!, até uma Brahma. Que bueno! Um salve para Jorge e sua família. Salve Jorge! Evoé! Viva a integração!

                  Na parte da tarde, acompanhamos a preparação das motos com as quais a equipe do Jorge participará do encontro dos motoqueiros. Passamos umas boas duas horas conhecendo as motocas e trocando ideia com toda a galera. Gente boa da porra esse pessoal! Para somar com o Pomelo de ontem, uma outra novidade gustativa em nosso paladar: coca-cola com fresnet, uma bebiba italiana um tantinho amarga que além de tudo ainda facilita a digestão.



                  O Carioca se esbaldou andando de bike pequena e motoca grande dos donos da casa. Depois, fomos ao evento das motos tunadas, onde inserimos nossas 125cc no meio da equipe no Jorge. Após muito som e muito titum-titum pra lá e pra cá, resolvemos partir. Às 20h deixávamos Concepcion del Bermejo a caminho de Taco Pozo, distante 250km. Às duas da manhã chegamos, depois de uns perrengues com a bateria descarregada da moto do Renan e depois de termos supostamente ouvido ursos quando paramos para dar um tranco na moto sem bateria. Em Taco Pozo tivemos de usar pela primeira vez a barraca salvadora do Renan: dormimos na praça da cidade, após tentativas frustradas de hospedagem grátis. Angariamos mais uns pães e, antes de dormir, um guarda local colheu nossos números de passaportes para averiguações. Seu guarda, eu não sou vagabundo, eu não sou delinquente, sou um viajante carante, eu dormi na praçaaaa!!!



                  Se fôssemos uma equipe médica, o Ary seria o responsável pelo pré-cirúrgico, o Renan pelo cirúrgico e Eu – Alexandre – pelo pós-cirúrgico. O primeiro é detalhista, organizado e estratégico, bolou todo nosso projeto e elaborou toda a rota. Sem ele, dificilmente sairia este projeto. Seria Ary o cirurgião que calcularia toda as operações e, além disso, também faria a própria cirurgia, assim como pilota uma das motocas, além de ter feito todo o plano da viagem. O segundo é o homem da ação, da prática e da solução. Temos chamado o Renan de santo desatador de nós, embora o danado também seja um atador de nós de mão cheia, incumbindo-se sempre de fixar nossa mochila na garupa da Pamamá. Seria Renan o cirurgião que de fato interpõe sua mão na carne corpórea, acompanhado sempre do Ary, pilotos cúmplices. O terceiro, eu, sou o homem da reflexão, do devaneio e da metafísica, sou o que acompanha tudo para depois tentar uma tradução linguística. Na cirurgia, eu ficaria como suporte dos dois, entregando instrumentos para que a cirurgia tivesse sucesso. De vez em quando, ouso mexer um pouco no corpo anestesiado. Encarrego-me pela elaboração de relatório sobre o sucesso ou insucesso das cirurgias. O bom de tudo é que nessa tríade de vocações e habilidades diferentes formamos uma pirâmide sólida que funciona bem somente se junta e em harmonia, apesar das tretas frequentes.

                  Rumo a Purmamarca.

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                  • Renan Xavier
                    Fazedor de Chuva
                    • Jul 2011
                    • 404

                    #10
                    AGORA ! 06 de fevereiro


                    Olá amigos!

                    Farei uma nota rápida, visto que agora será impossível contar com detalhes tudo o que ocorreu nos últimos dez dias. O mais importante é ESTAMOS BEM. Chegamos em Panamá City, todavia, sem as motos... ficaram na selva, encalhadas, mas isso é uma longa história que vamos contar muito em breve.

                    Agora que chegamos num porto seguro, vamos ler todas as mensagens, falar com nossa família e dar seguimento no projeto.

                    Agrademos a todos! Fiquem tranquilos.

                    Saudações libertárias,
                    Ary Neto

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                    • Renan Xavier
                      Fazedor de Chuva
                      • Jul 2011
                      • 404

                      #11
                      Dias 25 e 26 de janeiro - Enfim saímos de Turbo, rumo ao Panamá

                      Segue o relato desses dois dias que ainda estávamos devendo. O dia 27 já foi relatado. Em breve de 28 a hoje, dia 5 de fevereiro. Caramba! Estamos atrasados. Culpa do Panamá que possibilita acesso wifi às pessoas que estão caminhando pela selva.

                      25 de janeiro foi pra gente uma quarta-feira modorrenta, lenta, passamos o dia todo dentro do quarto, a maior parte do tempo em silêncio, sonolentos, e uma outra pequena parte continuando a cogitar como sairíamos de Turbo. Alimentamo-nos basicamente de banana, aveia, pão e leite. No apertado quadrilátero de nosso quarto, íamos ruminando ausências, saudades e possibilidades. Ritmado com o movimento lento que a trituração seca da banana com aveia impunha aos dentes, eu tentava também digerir toda a afetação presente e futura que essa viagem me causava. Certas escolhas anulam outras. Esta era uma lição antiga, mas certeira. O grau de interferência e intersecção que os lugares por onde passamos e as pessoas com quem cruzamos tiveram sobre mim, sobre nós, ainda não podia ser mensurado, apesar de toda a minha tentativa de forçar um distanciamento, para, naquele momento, extrair uma avaliação racional desta viagem. Da mesma maneira, as exclusões que a decisão de partir implicou também me chegavam nebulosas, sem a clareza do que tais perdas significavam exatamente. As duas coisas me doíam, de qualquer forma. Um homem todo dia se vê diante da paradoxal escolha entre ficar ou partir, entre permanecer inteiro ou se partir, entre ser ou não ser, entre voar ou mergulhar, entre querer ou beber, entre sonhar ou parar, entre andar ou dormir. Independentemente da escolha que cada um faça para si, que é sempre a melhor, há que se ter sempre em mente a necessidade da coragem pela escolha da própria felicidade ou infelicidade. Nossa solidão a três trazia à tona devaneios pseudo-filosóficos como esses. E às vezes, juntos, ousávamos expôr com mais profundidade esses pensamentos-sentimentos, normalmente responsáveis por um cada vez maior amadurecimento de nossa amizade tão compacta no tempo e agora tão alargada no espaço. Sim, esta era também uma viagem em direção a nós mesmos. O que cada dois do trio podia ajudar o terceiro a pensar sobre si mesmo parecia-me possível somente na experiência interna de um núcleo familiar. E nós, sem consaguinidade, nesse movimento coletivo, íamos compondo, externamente, uma viagem geográfica, física, sobretudo visual, e internamente, uma outra, metafísica, filosófica, sobretudo psicológica.



                      À tardinha, eu e Renan resolvemos especular informações no porto, cansados todos que estávamos de esperar a chegada de notícias. Daqui, dali, sempre as mesmas coisas. Retomando uma ideia inicial, indagamos ir para Capurganá primeiro. Já noite, obtivemos informação de que uma lancha sairia nesta direção às 5h da manhã do dia seguinte. E poderia levar as motos. Tínhamos de estar ali de madrugada para as negociações do momento. Voltamos para a residência da D. Maria e conversamos com Ary, que tinha feito algumas atualizações na net. Resolvemos tomar uma breja para amenizar um pouco o clima que aquela decisão parecia exigir. Duas pequenas, eu. Uma, o Ary. Um Malte, energético, para o Renan, que não bebe, e outro para o Ary. Pronto, chega de bebida. Os pontos de vista foram colocados. Mais filosofia barata na mesa. Eu insistia em discutir incômodo existencial; para Renan isso era coisa de quem não tinha o que fazer; Ary defendia a vida como a fuga da dor e a busca do prazer. E um assunto puxava outro e íamos falando de religião, de política, de sociedade, de alegria e de dor, e de amor, tudo misturado, numa profusão que mais revelava uma sessão terapêutica coletiva do que propriamente um papo de boteco, se bem que estávamos ali com o dinheiro e o tempo contados, não sendo, portanto, um papo de boteco normal. Enganamos o tempo, e o sono, afinal, chegou cedo. No fim das contas, resolvemos pelo menos ir ao porto às cinco da manhã, com as bagagens todas arrumadas, e analisar a situação.

                      Às 4h20min do dia 26.01 o celular nos acordou. Cinco e meia estávamos no porto. Negocia, renegocia, tenta, chora e vamos os três mais as duas motos por 250 dólares. No caminho, muito solavanco, os mesmos sobe-e-desce das motos nos morros, só que agora curtos e molhados, a imensidão curvilínea e traiçoeira do mar à frente, feito boca gigante pronta para nos tragar. Medo? Eu, um pouco sim. Não sou do litoral, o mar me chega mais estranho ainda que o sólido chão do deserto à noite. Para Carioca tudo pareceu familar. Ary ficou apreensivo, mas aproveitou acho que mais que eu. Os trancos do barco afetaram drasticamente as motos, o guidão de uma entortou, o báu quebrou, lanternas foram pro saco, o sal escorria no corpo metálico das máquinas. Com uma mescla de apreensão e diversão, foi assim que desembacamos em Capurganá, ajudados pelos locais, que depois exigiram sua gorjeta.

                      No belo povoado, penúltimo da Colômbia antes do Panamá, demos saída do país no setor de migração e quase que de imediato conseguimos uma outra lancha para nos levar a Porto Obaldia. Acertado o preco, 80 dólares por todos, partimos para mais uma experiência no mar, um pouco revolto, segundo falas dos populares. Pouco depois da hora do almoço, desembarcávamos em Obaldia, uma espécie de ilha protegida 24h pelo exército panamenho. A saída das motos foi evento à parte; limito-me a dizer que elas acabaram molhando os pés e as mãos na prainha onde as descemos no Panamá. Fiscalizações, duana, migração. Depois dos trâmites, a consciência da realidade. Um grupo esperava um barco fazia já 8 dias. Vôos não havia. O preço para sair de lancha, para uma pessoa, era de 100 dólares. Nós tínhamos 300. E tínhamos que levar nossas motocas juntas. No local não há lugar para sacar grana. O que fazer? Aguardar. Comer pão com uns restos de dólares que o Renan nem sabia que tinha. E esperar. O Ary foi cochilar. O Renan nadar. Depois de um tempo tentando dormir, resolvi também jogar sal e água no corpo, para tirar um pouco da urucubaca. Coisa de meia hora. Depois, até o dia virar noite fiquei ali, estatelado feito um camaleão, esperando o sol alterar a cor molhada das minhas roupas e da minha pele. Nas cercas de três ou quatro horas que fiquei ali, mais questionamentos pueris, como criança insistentemente indagando os pais sobre a espetacularidade de tudo. Olhando para frente eu via a linha do horizonte e, para além dela, intermediada por uma densa camada de névoa, eu via a silhueta de montes, que mais me pareciam portais de entrada para um universo místico do qual eu descria em absoluto. Da minha esquerda vinha, nos intervalos em que nuvens mais escuras não se interpunham ao sol, um calor suave da brasa acesa no céu. E era bonito ver o calor e a luz se acabarem com a nuvem escura tampando o sol. E mais bonito ainda apreciar a saída lenta da mancha preta da mira da bola de fogo; o efeito na água era ímpar: era um líquido inflamável jogado sobre o mar, aceso a partir da serra longe e fazendo um caminho rápido até o ponto em que eu estava sentado; à proporção que a nuvem saia do olho do sol, a água salgada pareceia incendiar-se do mais longe para o mais perto de mim; a água dava vida ao raios solares; sobre ela e com ela os raios bailavam uma dessas danças mais belas se desempenhadas por casais; e os raios solares esticavam seus longos braços até as mãos se encaixarem com os dedos esguios das ondas salgadas e, aí, juntos, inflamavam-se, e saiam da serra e vinham até a mim, beijavam-me, e ficavam aí, dançando suave, até a próxima nuvem aparecer. Do meu lado direito, era a cauda branca do vestido matrimonial do mar que eu via e ouvia chicotear nas pedras. Era um chicotear de quem teria posto o alvo do chicote na ponta de um rochedo e que, apesar de saber da impossibilidade de derrubá-lo, jamais desistia de tentá-lo. Era a arrebentação. Ao contrário de uma mesa de bar, o convite do mar é sempre para pensamentos circulares, que vão indo e vindo num espiral sem fim até que se esgotem por si mesmos ou se esvaiam no estado contemplativo e nirvânico em que normalmente nos encontramos quando sozinhos, diante daquele mundaréu de água. E eu pensava obsessivamente na vida, na morte e no amor. Mas isso não é assunto para desenvolver nesse blog. De vez em quando, parado, olhando aquela aguaceira interminável, eu também pensava que talvez pudesse ter sido um momento como esse em que eu me encontrava que por ventura tenha vindo a gerar à gênese portuguesa e espanhola em meter-se no mar. Tendo diante de si o desconhecido liquido pela frente e o conhecido sólido para trás, parece-me certo pelo que uma alma inquietante do século dezesseis teria optado. E também me parece uma realidade que o mesmo dilema ainda permanece no século 21. Entretanto, temos preferido olhar para trás, contentes com a solidez do caminho já percorrido.

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                      • Renan Xavier
                        Fazedor de Chuva
                        • Jul 2011
                        • 404

                        #12
                        Dia 28 - Içar velas marujos!



                        Dia 28 seria o dia da espera, visto que a embarcação que nos tiraria dali partiria apenas na manhã seguinte. Seria mais um dia com habilidosos gastos - poucos dólares deveriam alimentar três. Seria mais um dia para vencer o desafio que era encontrar um lugar para cagar (pensei numa palavra rebuscada, mas do que vale uma cagada com requinte?). Seria mais um dia para fazer o tempo passar ou deitar e esperar que ele passasse sozinho.

                        Buscar água para beber; água para escovar os dentes; comprar o pão, digo pan, e também o leite. Procedimentos que exigiam uma caminhada por duas pequenas quadras, ou seja, cinquenta por cento do vilarejo. Estávamos nos adaptando ao lugar e o lugar se adaptando a gente. Éramos os brasileiros que viajavam em duas pequenas motos e que precariamente se instalaram naquele quiosque desativado e que esperavam um barco, esperavam o barco.

                        Renan já tinha pescado e estava assando seu peixe. Teve melhor sorte neste dia, visto que um urubu tinha comido o peixe pescado no dia anterior. Alexandre leu e depois ficou duas horas se banhando no mar... só parou pois um soldado disse que seu tempo tinha se esgotado... vai entender. Fiz um pouco de cada e ainda sobrou tempo para conversar com o alemão que acabara de chegar e que também viajava numa moto 125cc, comprada no Paraguay durante sua passagem pelo país. Era uma manhã tranquila, estávamos em paz. Recuperados, apesar das cicatrizes, da turbulência de preocupação dos últimos dias. Chegamos até a fazer uma filmagem e a postar um texto que justificava o sumiço próximo que teríamos.

                        Todo carnaval tem seu fim e aquela recém tranquilidade conquistada acaba no momento em que o capitão do “nosso” barco passa por nós e diz que estão partindo. A adrenalina vai a mil e começamos a guardar as coisas – uma missão fácil. Difícil seria conseguir um bote para levar as motos até o barco, que ficava ancorado a cem metros da praia. O capitão disse que não tinha bote e que nós que teríamos que resolver isso. Os militares nem se importaram com a situação e ignoraram nosso insistente pedido de ajuda – não não não. O barco já estava quase partindo; se perdessemos a oportunidade, só dali a dez dias ou mais; perderíamos o congresso e não teríamos dinheiro pra pagar outra embarcação, visto que gastaríamos uma parte com comida durante a espera. Que drama... porque tudo tinha que ser tão difícil.





                        Havia uma pessoa com um bote particular que acabara de chegar. Pedimos a ele, dissemos que pagaríamos. O homem negou por várias vezes, não sabemos o porquê, afinal, dinheiro é dinheiro, ainda mais ali na região dos piratas (do Caribe, aliás). Por fim, o dono do bote, sob pressão de amigos seus que se mobilizaram diante de nossa aflição, foi convencido a nos levar. Colocamos as motos no bote, atrapalhados pelas ondas, pelos chinelos arrebentados... segue o trajeto curto até o barco. Como diria uma amiga nossa “cena do loko”. Quatro pessoas e duas motos no bote; encostamos no barco e a tripulação jogou uma corda e demos início a tarefa nada segura que seria subir as motos no barco. Subiram. Claro, uma seta aqui, uma lanterna ali... detalhes que ficam pelo caminho. Voltamos para pegar as mochilas e, por fim, partimos. Toca o pandeiro e bora pra Cuba. Dez minutos de alegria que duram até a chegada do enjoo.

                        Nesse primeiro dia no barco, navegamos pouco, cerca de três horas. Ancoramos. De nós três, Renan foi o único que se aventurou a ir ao continente para tomar banho num rio. Pulou do barco e foi nadando. Os tripulantes acharam estranho, disseram que tinha tiburon. Gritamos para Renan e o avisamos da possibilidade de perigo... ele continuou nadando e depois pegou carona num bote. O jantar foi arroz e sardinha. Ah, arroz, que saudade... chega de pão. Começa a noite e as várias redes para dormir dão o ar da graça no barco. Uma para cada. Uma para cada tripulante. Tudo bem... a gente se vira... o que vale é estar de volta à “pista”.

                        Saudações libertárias,
                        Ary Neto

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                        • Renan Xavier
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                          • 404

                          #13
                          Dia 29 - Segundo dia no barco - Cruzando Panamá/Colômbia

                          Dormir no barco não foi nada romântico ou exótico. O dia amanhece e nada de partir com a chegada do sol, como pensamos. Ficamos ali por horas. Ancorados, entediamos. O café da manhã é plata... aquilo que parece com banana, mas tem gosto de batata. Depois de muito tempo, partimos. Alexandre não sofreu muito com o gingado do barco; eu fiquei encolhido no centro da embarcação e enganei o mal-estar; e Renan, tadinho, sofreu. Mas uma hora chegou a bendita pausa do almoço e Renan pode saborear a comida por duas vezes, na entrada e poucos minutos depois, quando o barco retoma o balanço. Chama o Huck.



                          Olhávamos pra um lado, para o outro, tentando encontrar o compartimente secreto que seria o banheiro. Não encontramos. Depois de um tempo descobrimos como se fazia... imaginem? Pela tarde desembarcamos numa ilha que parecia estar estruturada por palha. Um visual que lembra as Islas flutuantes de Puño. Enfim, essa era a ilha de Caledoña, povoada por Kunas (pesquise sobre). O visual das vestimentes nos chamavam a atenção. Chegamos na terra dos outros... ou foram os outros que chegaram na terra dos Kunas? Perspectiva é tudo.

                          Na ilha foi possível tomar banho e esbanjar três dólares na compra de biscoitos. O luxo do dia. Depois montamos a barraca no teto do barco, assim seria possível esticar as pernas para dormir. O único cuidado necessário era deixar sempre um dentro da barraca, caso contrário, o forte vento a jogaria longe. Termina o segundo dia no barco. Não sabíamos que a maior das turbulências ainda estava por vir.

                          Saudações libertárias,
                          Ary Neto

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                            • Jul 2011
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                            #14
                            Dia 30 marcou o fim de um ciclo em nossa saga. Despertamos sobre o barco, sob a barraca. Uma noite movimentada por sonhos e tapas de vento que ameaçavam lançar ao mar o nosso teto. O café da manhã foi a tal da platano frita, somada a fatias daqueles presuntos enlatados, também fritos. Nutritivo e gorduroso. O barco se manteve ancorado, nada de seguir adiante. Enquanto nossa intenção era se movimentar, a do capitão do barco era justamente o contrário: era parar e negociar.



                            Depois de rabiscar um pouco de papel com uma criança que estava a bordo, resolvi sair do barco e ir à terra firme verificar o que Renan e Alexandre faziam. O primeiro, atleta, liberava sua endorfina jogando bola com a criançada. Ao lado, naquela extensa cabana comunitária que eu entendo como maloca, acontecia uma celebração – chegava ao mundo, ao povoado dos kunas, uma nova pessoa, era o nascimento de uma linda menina. Quase chegando na tal da maloca, vejo Alexandre saindo, vejo Alexandre sorrindo. Feliz pela celebração, pelas conversas que lá rolavam e também pela ingestão de uma bebida, a chicha, feita a partir da fermentação de cana e plata (ou era cana e cacau? Ou era cana e milho?). Em poucos segundos pensei e pensei no que fazer. Nunca bebemos muito, uma pelo dinheiro e outra pela estrada. Mas ali, nenhum dos dois fatores era problema, logo, convidei Alexandre a voltar na celebração, eu também queria ver, eu também queria beber.

                            Muito interessante. O local era grande, relativamente escuro para um dia ensolarado, cheio de gente ao redor, fazendo que a parte central ficasse livre para circulação. Algumas mulheres dançavam e dois dos homens enchiam as cuias da chicha e levavam para as pessoas beberem, uma a uma, cuia a cuia. Exótico? Só para quem quer achar exótico “olha que legal, olha o que os índios fazem?!”. Alexandre e eu conversávamos com dois dos kunas, que foram bons anfitriões e falaram muito de seus costumes com a gente. Enquanto isso, a forte bebida começava a causar efeito. Não só na gente. O ato de vomitar parecia ser normal, principalmente nas pessoas de mais idade. Viravam a cabeça para o lado, vomitavam (praticamente só a bebida) e voltavam a conversar como se nada tivesse acontecido. Já dentre as mulheres, o comum era que quando uma caísse sob o efeito da embriagues, as demais a carregavam para fora da maloca até a sua respectiva cabana (penso eu, pois não segui ninguém).

                            Saturado de chicha, me juntei a Renan e parte da tripulação na próxima atividade. Nadar do outro lado da ilha, onde a água do mar era transparente e o visual paradisíaco. Mergulhei. Saltei. E no meio dos saltos girei. A informação era que o barco não seguiria viagem aquele dia. No entanto, houve uma retificação, nova ordem e todos sobem à embarcação. Seguir viagem. Navegamos por poucas horas e ancoramos numa nova ilha. Almoço regado a arroz e frango ensopado – muito bom. O cozinheiro era uma marujo venezuelano que trabalhava no barco para pagar sua viagem.

                            Após o almoço, ficamos por ali, próximos ao barco, naquele micro porto da ilha. Renan conheceu um palhaço chileno (ou chileno palhaço) e com ele jogava bola com as crianças da ilha. Outro ilha povoada por Kunas. Fiquei por ali, indo e vindo. Alexandre também. Até que num momento Alexandre e Renan param para conversar... me aproximo... converso também. O assunto era tudo aquilo que estava acontecendo. Aquela incerteza do barco: a cada hora uma nova informação surgia e cada uma dessas novas informações diziam que demoraríamos mais dias para chegar. Estávamos aflitos, entediados, enjoados, preocupados com a data do congresso. Contexto perfeito para uma discussão imperfeita, na qual cada um começou a colocar seu ponto de vista, sua percepção. Assim, cada um agia como se fosse o detentor da razão. Já a razão, penso que nem naquela roda de conversa estava. Farpas e ofensas foram tecidas. Falarei por mim: eu pequei, eu xinguei, eu me afastei. Tive meus motivos? Difícil dizer... vejo que as pessoas, diante de seus conflitos, sempre se consideram vítimas. Já não quero isso pra mim... sou cúmplice de uma humanidade fudida. Enfim, cada um foi para um canto.

                            Não muito tempo depois, Renan me conta sua nova descoberta: Juan (o chileno), que viajava a dedo e pretendia chegar ao México, ali na ilha teria acordado com um kuna a travessia a pé por um caminho na selva. O kuna o guiaria, o serviço custaria 15 dólares e em um dia chegariam a estrada, ou seja, não seria preciso ficar mais 4 ou 5 dias no mar, era só ir pela selva e voltar a pista. E moto, passa nesse caminho? Acho que sim disse Juan? Passa sim disse Pano Itailikiller Gonçalves, o Kuna - Cobrarei 15 dólares por cada um. Renan considerou a possibilidade. Falou comigo. Ao ouvir a proposta, aceitei. Assim, fomos falar com Alexandre para perguntar sua opinião. Rapidamente falamos, mas sua resposta foi não, Alexandre estava fora, não só daquela proposta, mas da viagem, do projeto, foi sua decisão. O motivo: creio que um acúmulo de acontecimentos onde a última discussão foi determinante. O clima ficou tenso. Não quis discutir sobre o assunto e deixei Renan conversando com Alexandre... como já sabem, não teve jeito. Alexandre não seguiu com a gente, permaneceu no barco a fim de chegar até a Cidade do Panamá e, de lá, retornar ao Brasil. Foi isso que aconteceu no dia 30 de janeiro. Erramos? Nos equivocamos? Nos faltou sabedoria, compreensão e compaixão? E quem lê este blog: pensou, escreveu que nos faltou união, cumplicidade, força?... Pensou, elaborou seu julgamento?... Pensou, se decepcionou, nos crucificou? … Difícil escrever sobre isso, confesso. É difícil ter que encarar todos estes obstáculos e ainda compartilhar tudo por meio do blog. Enfim, essa foi nossa proposta, compartilhar a experiência, a tentativa. Seria pretensão demais crer que tudo sairia perfeito, até porque estes 3 que vocês acompanham não são perfeitos... nunca foram.

                            Descemos as motos do barco. Na ilha viramos atração, por onde andávamos éramos seguidos por umas 15 crianças. As motos eram nossas naves espaciais e nós os alienígenas. Nos despedimos de Alexandre, levamos as motos até a cabana do guia Pano e lá dormimos. No dia seguinte iríamos a selva, no dia seguinte iríamos encarar aquilo que mudaria nossas vidas.

                            Saudações libertárias,
                            Ary Neto

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                            • Renan Xavier
                              Fazedor de Chuva
                              • Jul 2011
                              • 404

                              #15
                              Dia 31 - Primeiro dia na selva e último dia das motos

                              Dormir na rede, acordar numa cabana. Outra experiência no mínimo interessante. Agradável se considerar o visual, a brisa fresca, a ideia de aventura. Desagradável, pelo menos para mim, diante da ansiedade, diante da espera pela próxima missão. Despertei a mim e a Renan – vamos! Arrumamos as mochilas e partimos no encalço de um fio condutor para poder carregar a bateria da Panamina utilizando a bateria da Pamama.

                              Em meio aos procedimentos, víamos os inúmeros meninos brincando de luta. O pau comia solto. Já eu, sentado, com a boca escancarada cheia de dentes, observava também Renan arrumando as coisas no baú. Tive um mal pressentimento. Questionei Renan - Essa ideia de atalho pela selva é uma boa mesmo? Agora já era, estamos aqui, responde meu camarada de São Gonçalo. Pouco depois, um kuna mais velho se aproxima e pergunta o que vamos fazer. Ao respondermos, seus olhos se expandem e ele diz que não, que não dá, pois em alguns lugares o rio estava batendo no peito. Questionamos o nosso guia, que contra-atacou – disse que era possível sim, que estávamos numa época de poucas chuvas. Enfim, mesmo preocupados, partimos.



                              Colocamos as motos na canoa, assim, Renan, Juan (o mochileiro, palhaço, chileno), as duas motos, o kuna Silver e eu partimos. Bem devagar para não virar no mar. Depois de um tempo, mais próximo à selva, adentramos num estreio rio, de água quase parada. Margem direita e esquerda, ambas fechadas, uma espécie de mangue. Silver, sempre calado, nos guiava pelas curvas. O visual começava a ficar mais belo. A água já não estava tão suja e algumas palmeiras davam o ar da graça. Chegamos numa clareira onde foi possível retirar as motos. Nesse momento a canoa quase vira, Renan cai e a moto cai sobre ele. Quase! A moto estava assegurada, já Renan, molhado e com a orelha ralada. Chegamos. Terra firme. Outra canoa chegava praticamente ao mesmo tempo. Era o kuna Pano e sua família.

                              Fizemos a ponte elétrica entre as motos e pudemos ouvir seus motores concomitamente. Batemos uma foto com a filhinha de Pano e demos início a tarefa que seria cruzar aquela parte da selva de Darien. Enquanto Silver, Pano e Juan caminhavam a pé, Renan e eu íamos nas motos. A trilha era estreita, mas nos primeiros 5 minutos foi possível pilotar com certa tranquilidade, depois começaram os obstáculos: as raízes das árvores, as grandes raízes das árvores, bem como, o barro, fruto da mata fechada que não permitia que a terra secasse. Muito difícil. Quem ia a pé, estava mais rápido do que nós. Pingávamos suor de tanto esforço. Chegou o momento de cruzar o primeiro córrego. Uma vala com mais de dois metros de profundidade e também de largura. O nível da água era de meio metro. E o tronco que servia como ponte estava instalado a um metro abaixo do nosso nível, ou seja, para passar era preciso descer a moto, passar pelo tronco e subir a moto. Tudo sem poder errar 10 centímetros, tudo sem poder parar. Caso contrário, a moto iria cair, o piloto iria cair. A moto iria quebrar, o piloto iria quebrar. Uma chance para cada moto. Gostaria de ter filmado, mas tanto a filmadora como a máquina fotográfica já não tinham bateria (ficamos muitos dias sem energia elétrica). A proeza aconteceu. Renan conseguiu, desceu, acelerou e do outro lado subiu derrapando, enquanto todos olhavam apreensivos. Recebeu os parabéns, pela habilidade e pela coragem. Eu pilotei a moto por vários países, assim como Renan, mas aquilo não era pra mim... Renan fez a travessia das duas motos. Demoramos muito para pensar numa forma e passar pelo córrego, o que nos fez perguntar ao Pano - Tem muito disso aí pra frente? O sim da resposta ecoou em nossas cabeças. Era o famoso “fu-deu”.



                              Continuamos e nessa continuidade fomos caindo nas derrapadas da moto. Levantávamos. Cada vez mais cansados, cada vez mais sujos. As mochilas caiam, prendíamos de novo. Era algo deprimente. Creio que Renan pensava o mesmo que eu, na ***** que tínhamos entrado. Mas só pensávamos, pois ambos gastavam suas energias tentando seguir, tentando incentivar o outro. Até que Pano nos diz que, na velocidade que estávamos, chegaríamos em quatro dias. Foi como receber um tapa na cara. Era o momento de parar e pensar.

                              Começamos a cogitar as possibilidades que, a grosso modo, eram 3: voltar, continuar e continuar sem as motos. Mas voltar como? Se a família de Pano tinha levado as duas canoas... e se esperássemos outra canoa vir nos resgatar e nos levar de volta a ilha de Mulatupo, como sairíamos de lá depois? Pois nosso barco já tinha partido e nosso dinheiro acabado, não tínhamos nem para comer, além disso, trata-se de um lugar sem polícia, órgão do governo, estrada pra pedir carona, nada... é uma ilha e pra sair de lá, só com grana... e mesmo conseguindo algo, um acordo com pagamento posterior, quanto tempo isso iria demorar? Talvez mais de uma semana. Possibilidade 2: continuar com as motos. Missão (até ali) quase impossível, nossas motos não eram próprias para aquele tipo de terreno, nossas energias pra levantar nós e as motos a cada 3 minutos também não suportariam 4 dias seguidos, isso se não piorasse (algo que iria acontecer, mas ainda não sabíamos). Enfim, disse a Renan algo que sabia que ele não queria ouvir – Vamos deixar as motos! Para ser mais exato, minhas palavras foram “Renan, eu estive junto contigo até agora, quando você optou por vir de barco, fui junto, quando optou por levar a moto por Capurganá e Puerto Obaldia, fui junto. Mas agora brother, não dá. Não dá pra continuar com as motos e eu não vou deixar de ir no congresso em Havana por causa delas. Vou deixar a moto.”. Renan sonhava em chegar com a moto pelo menos até o México, até Cancun, sabia que pra ele, deixar as motos seria ainda mais sofrido do que pra mim. Todavia, Renan compreendeu muito bem minha decisão e disse que tentaria mais um pouco com a moto e que se nos atrasasse um minuto que seja, também a deixaria. Foi isso que aconteceu, pilotou por mais 50 metros e a moto atolou novamente. Fim da linha para a Pamama e Panamina.

                              Perguntamos a Pano quando tempo demoraríamos para chegar até o povoado de Mortí. Pano disse que no dia seguinte, a tarde, chegaríamos lá. Tirei a chave da ignição e joguei nas mãos do Kuna – Toma, é sua, mas você tem que deixar a moto aqui mesmo e nos levar pra lá, pois não podemos perder mais tempo. Combinado, disse o kuna, que ficou com as motos e mais um baú cheio de cacarecos. Naquele momento não sei o que o deixou mais feliz, se a moto ou um condicionador de cabelos cuja fragrância o encantou. Renan repetiu a ato de entregar a chave, um momento difícil pra gente, o MOTOPangea parecia estar ruindo. O mundo ruía. Chegamos num momento crítico, influenciado pelo acaso, pelas condições que iniciamos o projeto e pelas decisões que fomos tomando ao longo do caminho. Chegamos ali. Éramos 5... em pouco tempo, passamos a ser apenas 2. Bati a última foto de Renan e a Panamina atolada. Fim da bateria. O kuna camuflou as motos na selva para buscá-las posteriormente. Seguimos. Sem olhar para trás.

                              Conforme caminhávamos pela selva de mata fechada e escura, onde a trilha era desobstruída pelo facão de Pano, pensávamos como uma moto passaria por ali? Não se tratava de algo difícil, mas impossível. Sabemos que motos não são a especialidade dos kunas, mas será que Pano acreditava mesmo que tal façanha era possível? Começamos a fazer aquilo que não gostamos, que é desconfiar de alguém. A caminhada durou todo o dia, passamos por rios e por obstáculos que exigiam agachar, pular, esguiar, equilibrar. O corpo e o psicológico estavam sendo exigidos intensamente. Não falávamos muito, apenas vivíamos a nova realidade. Caminhar na selva, ouvir os bichos, comer banana, espantar os mosquitos, molhar os pés, canelas, tênis e calças nas travessias de rio.

                              No fim da tarde estávamos exaustos. Por hoje é só, disse Pano. Aqui acamparemos e amanhã seguimos viagem até Mortí. Renan, Juan e eu começamos a trocar algumas palavras, visto que durante a caminhada não sobrava energia e fôlego para conversas. Acampamos à beira do rio. Tomamos banho, colocamos roupas secas. Silver fez a fogueira, colocou o arroz no fogo. A noite deu os primeiros sinais e já estávamos dentro da barraca, fechada com tela para não entrar mosquitos. Demoraríamos ainda uma hora para dormir, tempo usado para refletir sobre o que passou e o que ainda iria passar...

                              Saudações libertárias,
                              Ary Neto

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