O viajante solitário Eldinei Viana muito nos deixou em sua passagem. Falecido neste ano, experimentava como poucos o gosto pela aventura. Deixou uma série de relatos e roteiros em seu site, que honrosamente publicaremos trechos, aproveitando sua experiência com a poeira e com as estradas. Neste relato, ele refaz o trajeto de Bernardo de Irigoyen, na província de Missões, na Argentina, divisa com Paraná e Santa Catarina, até Santiago, capital chilena. A aventura é narrada com todos os tons. Há corrupção, cansaço, novos amigos e novas impressões.

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Eram mais ou menos 11h, da manhã quando eu já estava na fronteira com Bernardo de Irigoyen, já na Argentina, na fronteira com os estados de Santa Catarina e Paraná. O primeiro dia para mim é sempre o mais cansativo, pois eu sempre vou até Resistência-AR entrando em Bernardo de Irigoyen (Missiones, Argentina) e indo pela Ruta 12 para fugir da polícia corrupta da Ruta 14.
Na estrada, de uma parte em diante, muitas motos do Brasil. A maioria em grupos ou pelo menos em dupla. Mas encontrei alguns 'solitários' como eu também. Nem é preciso dizer que a cada moto que passava eu buzinava, abanava, plantava bananeiras, etc :-)
Resistencia - AR
Em Resistência-AR achei, quase sem querer, o hotel que eu fiquei quando fui para Ushuaia-AR (na ida). Covadonga Hotel, fica na Avenida Guemes, um hotel bom para os padrões da cidade, com ar condicionado, garagem, internet wi-fi, um bom quarto, enfim, uma ótima relação custo X benefício. Paguei cerca de AR$ 150,00 para um quarto. Se contarmos que o peso estava cotado em R$ 0,47 então não ficou tão caro.
Esse hotel é um ponto de parada de muitos irmãos motociclistas, pois apenas na noite que fiquei lá tinham mais umas 5 motos brasileiras estacionadas. Para mim, vai ser meu ponto de parada daqui para frente, pois já fiquei em outros hotéis em Resistência-AR que não são de se indicar para ninguém :-)
Bom, continuei indo de Resistência em direção a Paraná, para depois pegar a Ruta 19 e seguir até Córdoba. Até Paraná nenhum problema. Depois, na Ruta 19, passei em uma pequena cidade que não lembro o nome e nem quero lembrar. Lá tinha uma polícia 'municipal'. Foi lá que eu descobri que 'los hermanos' tem um talento nato para o teatro.
Continuo minha viagem pela Ruta 19 e encontro o trecho onde existe a maior concentração de mariposas (borboletas) por metro quadrado. Eram milhares, senão milhões delas. E dizem que é sempre assim. Elas morriam na carenagem da moto, na bolha, no capacete, na roupa... eu pensei que era um esquadrão 'kamikaze' de borboletas :-)
E no posto onde parei para abastecer e lavar a viseira, os carros que chegavam tinham a frente completamente cheia de borboletas mortas. Incrível. Nesse mesmo posto me informaram que é um trecho que sempre tem borboletas (pelo menos no verão). Eu nunca tinha visto tantas assim, nunca.
De longe vejo uma moto com baús laterais, baú traseiro, placa branca e com garupa. Penso "É um brasileiro, vou chegar perto". Quando me aproximo vejo que é uma moto do Chile, uma Fazer 600 S com alforges laterais e baú traseiro. Na garupa uma mulher. Passo por eles, buzino, continuo. Depois eles me passam, a garupa tira fotos (da minha moto, claro hehehehe), acenamos, etc. E assim ficamos por um tempo, ora eu passava por eles, ora eles me passavam. Até chegarmos em um pedágio onde, mesmo em cima da moto, pergunto de onde eles são. Santiago, eles respondem. Pergunto para onde vão. Córdoba eles me dizem. Pergunto se eles conheciam algum hotel legal em Córdoba. Me dizem que não, que vão tentar achar um pelo GPS e me pedem se quero ir junto com eles. Eu topo.
Juntos achamos um hotel, combinamos de sair jantar e ali começou a nascer uma amizade. E mais importante, ali constatei que nossa 'irmandade' motociclista existe não só no Brasil, mas em qualquer lugar, em qualquer país. Se você estiver com uma moto, você sempre vai ter amigos em qualquer lugar.
CÓRDOBA - AR
De Córdoba meu roteiro previa ir até Villa Carlos Paz, uma pequena cidade que fica 'ao redor' de um lago (aqui chamamos de alagado, pois é formado por uma barragem). Na minha cabeça, eu pensava que iria encontrar uma cidade pequena, velha, feia... que grata surpresa eu tive ao chegar lá.
Primeiro porque era verão e a cidade estava lotada, com muita gente, e segundo porque a cidade é, na minha opinião, uma "Punta de Leste" argentina (guardadas as devidas proporções, claro). Ou seja, uma cidade bonita, com belos prédios, muitos restaurantes, muitos hotéis, muito bem frequentada. E muita gente bonita por todos os lados (não, eu não olhei para os lados, foi um amigo que me contou sobre isso hehehehe)
Sigo para Mina Clavero pelo dito "Camino de Las Altas Cumbres". Eu já passei por várias estradas bonitas e altas, com belas paisagens e lugares onde você tem vontade de ficar parado, apenas admirando. Mas essa estrada é muito interessante. Você chega a mais de 2.100m de altitude, com um visual lindo, com muitas curvas e muitos locais assim, onde a vontade é apenas ficar parado, olhando, admirando. Sabe aquelas estradas que você tem vontade de andar a 60 Km/h somente para curtir a paisagem ? Pois é, essa é uma delas.
E para minha sorte naquele dia tinha sol e nuvens. Então a paisagem ficava ainda mais interessante. Mas, nem só de estrada vive o viajante :-)
MINA CLAVERO - AR
Chego em Mina Clavero e noto que é uma cidade bem diferente de Villa Carlos Paz. Sem querer ofender nenhum 'hermano argentino', a minha impressão foi de que Villa Carlos Paz é para gente mais, digamos, 'bem de vida'. E Mina Clavero seria um balneário mais popular.
Mas nem por isso deixa de ser interessante. Para você ter uma idéia de como é, um rio corta a cidade... rio baixo, estreito, pequeno. E do lado do rio tem... areia. Isso mesmo, como aquela região é tudo meio deserto, do lado do rio tem areia que forma uma... praia. Acertou, forma uma praia. E a cidade é 'ao redor' desse rio.
De Mina Clavero a idéia era seguir direto até Mendoza, pois seriam pouco mais de 460 Km (a maioria pela Ruta 20 e depois pela Ruta 142).
Depois de conhecer o 'Dique de La Viña', uma 'barragem/represa' com mais de 100m de altura - e claro, tirar várias fotos - segui direto. O que eu não contava é que uma grande parte desse trecho é deserto. Não um deserto igual ao Deserto do Atacama. Esse tinha vegetação, aquelas cheias de espinho, cactos, um calor em torno de 42 graus e, principalmente, passava ninguém a cada 30 minutos :-)
SAN JUAN
Dormi em San Juan num hotel legalzinho e no outro dia cedo rumei para Mendoza. Mendoza é muito bonita. Muitas vinicolas (dizem que tem mais de 1.200 mas apenas umas 60 são abertas à visitação pública.

MENDOZA
Fiquei em Mendoza 3 dias. Visitei vinícolas, shoppings, mercados, e tirei um dia para ir até Uspallata, Los Penitentes e até os pés do Aconcágua. Sim, eu iria passar por esse caminho no outro dia, indo para Santiago. Mas como soube que o Raly Dakar iria largar no outro dia de Uspallata, quis aproveitar e visitar tudo um dia antes, para no outro apenas ver a largada do Raly e rumar para Santiago.
SANTIAGO
Uma cidade com 6 milhões de habitantes e sem muitos atrativos turísticos (comparando com outras, claro). Fiquei num hotel que recomendo à todos - segundo o recepcionista, de cada 3 hóspedes, 2 são brasileiros hehehehe - o Maria Angola, que fica no bairro Providência, um bairro grande, com vários restaurantes, bares, etc e muito calmo. O hotel fica ao lado e na frente de postos dos 'Carabineiros del Chile'.
RETORNO
Saio de Santiago e a volta é sempre chata. Pelo menos quando você volta pelo mesmo caminho. De Santiago-CH até Pato Branco-PR, pelo caminho que eu viria, são em torno de uns 2.500 km. Pensei "Vou fazer 1.250 num dia e 1.250 no outro, aí não me demoro". Só não contei com 5 paradas ainda no Chile, antes da fronteira. Estavam arrumando as estradas.

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Eram mais ou menos 11h, da manhã quando eu já estava na fronteira com Bernardo de Irigoyen, já na Argentina, na fronteira com os estados de Santa Catarina e Paraná. O primeiro dia para mim é sempre o mais cansativo, pois eu sempre vou até Resistência-AR entrando em Bernardo de Irigoyen (Missiones, Argentina) e indo pela Ruta 12 para fugir da polícia corrupta da Ruta 14.
Na estrada, de uma parte em diante, muitas motos do Brasil. A maioria em grupos ou pelo menos em dupla. Mas encontrei alguns 'solitários' como eu também. Nem é preciso dizer que a cada moto que passava eu buzinava, abanava, plantava bananeiras, etc :-)
Resistencia - AR
Em Resistência-AR achei, quase sem querer, o hotel que eu fiquei quando fui para Ushuaia-AR (na ida). Covadonga Hotel, fica na Avenida Guemes, um hotel bom para os padrões da cidade, com ar condicionado, garagem, internet wi-fi, um bom quarto, enfim, uma ótima relação custo X benefício. Paguei cerca de AR$ 150,00 para um quarto. Se contarmos que o peso estava cotado em R$ 0,47 então não ficou tão caro.
Esse hotel é um ponto de parada de muitos irmãos motociclistas, pois apenas na noite que fiquei lá tinham mais umas 5 motos brasileiras estacionadas. Para mim, vai ser meu ponto de parada daqui para frente, pois já fiquei em outros hotéis em Resistência-AR que não são de se indicar para ninguém :-)
Bom, continuei indo de Resistência em direção a Paraná, para depois pegar a Ruta 19 e seguir até Córdoba. Até Paraná nenhum problema. Depois, na Ruta 19, passei em uma pequena cidade que não lembro o nome e nem quero lembrar. Lá tinha uma polícia 'municipal'. Foi lá que eu descobri que 'los hermanos' tem um talento nato para o teatro.
Continuo minha viagem pela Ruta 19 e encontro o trecho onde existe a maior concentração de mariposas (borboletas) por metro quadrado. Eram milhares, senão milhões delas. E dizem que é sempre assim. Elas morriam na carenagem da moto, na bolha, no capacete, na roupa... eu pensei que era um esquadrão 'kamikaze' de borboletas :-)
E no posto onde parei para abastecer e lavar a viseira, os carros que chegavam tinham a frente completamente cheia de borboletas mortas. Incrível. Nesse mesmo posto me informaram que é um trecho que sempre tem borboletas (pelo menos no verão). Eu nunca tinha visto tantas assim, nunca.
De longe vejo uma moto com baús laterais, baú traseiro, placa branca e com garupa. Penso "É um brasileiro, vou chegar perto". Quando me aproximo vejo que é uma moto do Chile, uma Fazer 600 S com alforges laterais e baú traseiro. Na garupa uma mulher. Passo por eles, buzino, continuo. Depois eles me passam, a garupa tira fotos (da minha moto, claro hehehehe), acenamos, etc. E assim ficamos por um tempo, ora eu passava por eles, ora eles me passavam. Até chegarmos em um pedágio onde, mesmo em cima da moto, pergunto de onde eles são. Santiago, eles respondem. Pergunto para onde vão. Córdoba eles me dizem. Pergunto se eles conheciam algum hotel legal em Córdoba. Me dizem que não, que vão tentar achar um pelo GPS e me pedem se quero ir junto com eles. Eu topo.
Juntos achamos um hotel, combinamos de sair jantar e ali começou a nascer uma amizade. E mais importante, ali constatei que nossa 'irmandade' motociclista existe não só no Brasil, mas em qualquer lugar, em qualquer país. Se você estiver com uma moto, você sempre vai ter amigos em qualquer lugar.
CÓRDOBA - AR
De Córdoba meu roteiro previa ir até Villa Carlos Paz, uma pequena cidade que fica 'ao redor' de um lago (aqui chamamos de alagado, pois é formado por uma barragem). Na minha cabeça, eu pensava que iria encontrar uma cidade pequena, velha, feia... que grata surpresa eu tive ao chegar lá.
Primeiro porque era verão e a cidade estava lotada, com muita gente, e segundo porque a cidade é, na minha opinião, uma "Punta de Leste" argentina (guardadas as devidas proporções, claro). Ou seja, uma cidade bonita, com belos prédios, muitos restaurantes, muitos hotéis, muito bem frequentada. E muita gente bonita por todos os lados (não, eu não olhei para os lados, foi um amigo que me contou sobre isso hehehehe)
Sigo para Mina Clavero pelo dito "Camino de Las Altas Cumbres". Eu já passei por várias estradas bonitas e altas, com belas paisagens e lugares onde você tem vontade de ficar parado, apenas admirando. Mas essa estrada é muito interessante. Você chega a mais de 2.100m de altitude, com um visual lindo, com muitas curvas e muitos locais assim, onde a vontade é apenas ficar parado, olhando, admirando. Sabe aquelas estradas que você tem vontade de andar a 60 Km/h somente para curtir a paisagem ? Pois é, essa é uma delas.
E para minha sorte naquele dia tinha sol e nuvens. Então a paisagem ficava ainda mais interessante. Mas, nem só de estrada vive o viajante :-)
MINA CLAVERO - AR
Chego em Mina Clavero e noto que é uma cidade bem diferente de Villa Carlos Paz. Sem querer ofender nenhum 'hermano argentino', a minha impressão foi de que Villa Carlos Paz é para gente mais, digamos, 'bem de vida'. E Mina Clavero seria um balneário mais popular.
Mas nem por isso deixa de ser interessante. Para você ter uma idéia de como é, um rio corta a cidade... rio baixo, estreito, pequeno. E do lado do rio tem... areia. Isso mesmo, como aquela região é tudo meio deserto, do lado do rio tem areia que forma uma... praia. Acertou, forma uma praia. E a cidade é 'ao redor' desse rio.
De Mina Clavero a idéia era seguir direto até Mendoza, pois seriam pouco mais de 460 Km (a maioria pela Ruta 20 e depois pela Ruta 142).
Depois de conhecer o 'Dique de La Viña', uma 'barragem/represa' com mais de 100m de altura - e claro, tirar várias fotos - segui direto. O que eu não contava é que uma grande parte desse trecho é deserto. Não um deserto igual ao Deserto do Atacama. Esse tinha vegetação, aquelas cheias de espinho, cactos, um calor em torno de 42 graus e, principalmente, passava ninguém a cada 30 minutos :-)
SAN JUAN
Dormi em San Juan num hotel legalzinho e no outro dia cedo rumei para Mendoza. Mendoza é muito bonita. Muitas vinicolas (dizem que tem mais de 1.200 mas apenas umas 60 são abertas à visitação pública.

MENDOZA
Fiquei em Mendoza 3 dias. Visitei vinícolas, shoppings, mercados, e tirei um dia para ir até Uspallata, Los Penitentes e até os pés do Aconcágua. Sim, eu iria passar por esse caminho no outro dia, indo para Santiago. Mas como soube que o Raly Dakar iria largar no outro dia de Uspallata, quis aproveitar e visitar tudo um dia antes, para no outro apenas ver a largada do Raly e rumar para Santiago.
SANTIAGO
Uma cidade com 6 milhões de habitantes e sem muitos atrativos turísticos (comparando com outras, claro). Fiquei num hotel que recomendo à todos - segundo o recepcionista, de cada 3 hóspedes, 2 são brasileiros hehehehe - o Maria Angola, que fica no bairro Providência, um bairro grande, com vários restaurantes, bares, etc e muito calmo. O hotel fica ao lado e na frente de postos dos 'Carabineiros del Chile'.
RETORNO
Saio de Santiago e a volta é sempre chata. Pelo menos quando você volta pelo mesmo caminho. De Santiago-CH até Pato Branco-PR, pelo caminho que eu viria, são em torno de uns 2.500 km. Pensei "Vou fazer 1.250 num dia e 1.250 no outro, aí não me demoro". Só não contei com 5 paradas ainda no Chile, antes da fronteira. Estavam arrumando as estradas.








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