Um português, uma mexicana e uma Kombi azul

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  • karine
    Fazedor de Chuva
    • Jul 2012
    • 1595

    #31
    De San Blás até Cartagena

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    Chegara a hora de despedir-nos do Panamá e, além disso, sabíamos que iríamos ter de separar-nos da Amália Frida de novo. A impenetrabilidade do Tapón de Darién em conjunto com a presença das FARC e outros grupos guerrilheiros nesta selva pantanosa fazem com que não exista nenhuma estrada que ligue o país istmeño com a Colômbia.

    Então, lá conseguimos um companheiro para a Amália e, depois de todas as formalidades, embarcámo-la saudosamente num contentor para Cartagena de Indias.

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ID:	192908
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    Agora faltávamos nós. A opção mais comum é sem dúvida ir de avião, mas ouvimos falar de uns veleiros que saiam do Panamá em direcção à Colômbia e não pudemos resistir à aventura. Não podiamos ter feito melhor opção.

    Somente a experiência de navegar durante 5 dias é desde logo algo transcendental mas poder aliar a isso o prazer de visitar o arquipélago de San Blás, terra do império Kuna, torna tudo ainda mais especial.

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ID:	192909
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    O governo do Panamá permite ao povo Kuna dirigir esta terra de maneira independente e, apesar, dos seus poucos bens materiais se resumirem praticamente a cocos e areia branca, os kunas mantém-se arreigados à sua tradição e não permitem a intrusão de estranhos nas suas terras. Assim sendo, este pequeno paraíso encontra-se totalmente virgem. Não há nenhum hotel em nenhumas das ilhas e as únicas construções resumem-se a algumas cabanas de madeira e colmo.OLYMPUS DIGITAL CAMERA

    Velejar por esta parte do mar das caraíbas faz-nos recuar no tempo. O sorriso timido das mulheres e crianças ou dos pescadores que nas suas pequenas canoas se aproximam do nosso barco a oferecer peixe ou cocos quase nos permitem vislumbrar uma imagem muito parecida ao que terão vivido os marinheiros da Pinta ou do Santa Maria, 5 séculos atrás. Não ter de partilhar o barco com demasiada gente é algo que depende do capitán do navio e da sorte. Nós tivemos a sorte de viajar no maior veleiro da região e, mesmo assim, somente levar 13 passageiros que ainda por cima se revelaram sujeitos extraordinários. Desde a África do Sul ao Canadá, da Austrália à Suiça, do Equador aos Estados Unidos e, claro, não esquecendo a representação Luso-Azteca e da tripulação Austríaca e Colombiana, juntou-se nesta pequena casca de noz uma pequena representação de Babel, pelo que motivos de conversa e curiosidade não faltaram.

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    De repente parecia que nos conhecíamos toda a vida. Rum local, umas cervejas bem frescas e um vinho tinto sob um céu imensamente estrelado podem levar a este tipo de coisas. Destino final dos marinheiros: Cartagena de Indias – a nossa porta para toda a América do Sul e para tudo o que ainda teríamos para percorrer, mas isso serão outras tantas histórias.

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    • karine
      Fazedor de Chuva
      • Jul 2012
      • 1595

      #32
      Cartagena de Indias

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      Se as rugas das suas enormes muralhas encerram em si a história dos piratas e corsários que assolaram estas costas, dentro destes muros conserva-se um traço colonial de cores tão exuberantes como nunca haviamos visto anteriormente.

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      Passear por estas ruas e vielas, varandas e recantos, sobretudo ao entardecer criam uma aura inesquecível que nenhum fotografia ou aguarela poderão alguma vez representar de maneira fiel. Os raios dourados do Sol aquecem as paredes que de tanta cor parecem fervilhar elas próprias de vida. À noite o traje é de gala e a cidade espelha um ar misterioso envolvido por uma brisa quente e suave que nos embala através dos mistérios da urbe antiga.

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      Mas se a beleza da cidade parece insuperável, as suas gentes são ainda melhor cartão de visita.

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      Pois, se em cada esquina há um postal, em cada coração há um sorriso.

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      • karine
        Fazedor de Chuva
        • Jul 2012
        • 1595

        #33
        Medellin

        Quando saímos de Cartagena sabíamos que estávamos prestes a despedir-nos do Oceano Atlântico que só voltaremos a ver quando chegarmos à Argentina. Tomamos caminho em direcção a Taganga, uma lindíssima baía de pescadores onde passamos a noite. No caminho, atravessamos Barranquilla e Santa Marta, mas sem detenernos, mas antes passamos no Vulcão de Lodo onde tivemos uma experiência divertidíssima e supostamente altamente saudável. Entrar numa poça de lodo numa espécie de vulcão sem fundo foi bastante divertido e sobretudo diferente.

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        No dia seguinte, acampamos no Parque Nacional Tayrona. Por coincidência, voltamos a reencontrar a Tina e o Herbie, um casal de suíços que nos acompanhou no veleiro desde o Panamá. Certamente, nas próximas semanas estas coincidências voltarão a dar-se e os destinos de alguns destes novos amigos irão ainda cruzar-se connosco novamente.

        Tayrona é um lugar místico, onde a selva encontra o oceano Uma reserva natural dominada pela presença da Serra Nevada (a mais alta serra do mundo junto ao mar) que espreita por entre as nuvens para alegrar-se com o azul profundo do seu tão querido Atlântico.

        Despreocupadamente decidimos “conquistar” o parque e, de repente, encontra-mo-nos no meio de uma caminhada de mais de 10 horas que nos deixaria algumas marcas, nomeadamente algumas bolhas e feridas, mas que no final valeram a pena, sobretudo pela beleza natural do percurso e pelo sentimento de ter logrado tamanha façanha. A verdade é que se soubéssemos no que nos íamos meter, o mais provável é que não o tivessemos feito, mas ainda bem que o fizemos.

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        Fonte: 1000destinos.wordpress

        O próximo destino: Medellin. 800 quilómetros que venceríamos em 2 dias e 2 noites. A distância, mas sobretudo a altitude fizeram a Amália sofrer um pouquinho. Por exemplo, subir 2500 metros em pouco mais de 15 quilómetros é bastante exigente, mas Frida comportou-se à altura e mais uma vez nos permitiu chegar sãos e salvos ao destino.

        Na terra do mais famoso narcotraficante do mundo, voltaríamos a encontrar mais 5 dos nossos companheiros de barco. Eramos já 7, de novo reunidos e foi óptimo poder reviver algumas das histórias vividas a bordo… memórias tão próximas, mas ao mesmo tempo já tão distantes.

        Apesar de ser incontornável na história da cidade, devido sobretudo a todas as histórias fantásticas à volta da sua personagem, que incluem o seu zoo particular (a Colômbia é o único país não Africano com hipopótamos selvagens) ou da história de quando se ofereceu para pagar a dívida externa do país, Medellin é muito mais que somente a terra de Pablo Escobar.

        A capital da Antioquia é uma cidade a fervilhar de movimento. A Plaza Botero com mais de uma dezena de obras que o artista ofereceu à cidade é a pedra toque para uma dinâmica cultural bastante agradável. Aqui morreu Carlos Gardel, pelo que a marca indelével do tango também não passa despercebida e, para complementar esta sensação tivemos a oportunidade de assistir à peça “Um tango por um poema” que, depois da visita à Casa Gardeliana, completou um dia dedicado à musica porteña e acabou por ser um aperitivo delicioso para o que nos esperará quando chegarmos a Buenos Aires.

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        Fonte: 1000destinos.wordpress

        Curiosamente, depará-mo-nos também com uma versão ímpar de Pedro Páramo, uma obra de Juan Rulfo (escritor mexicano) e, num teatro onde não cabiam mais de 30 pessoas pudemos assistir a esta peça que obviamente recomendamos: “Los silêncios de Bahareque” . Uma peça que talvez merecesse mais protagonismo e um anfiteatro maior, mas que talvez perdesse o seu intimismo se isso acontecesse. E, a cereja no topo do bolo é que ambas as peças eram de entrada gratuita.

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        Nada melhor que usar o metro para visitar esta urbe. Por somente um dólar e, com uma rede que a atravessa de uma ponta à outra e que inclui 2 teleféricos, é, sem dúvida, a maneira mais simpática e prática de conhecer a cidade, passando pelas suas entranhas ou subindo até ao topo das suas colinas.

        A Zona Rosa foi o local escolhido para ir de “fiesta” e provar a famosa aguardiente antioquiana… para quem gosta de anis, talvez goste desta bebida, a mim fez-me recordar algumas Queima das Fitas ou algumas noites passadas à porta do Saloon, na Ribeira do Porto… certamente alguns de vocês sabem do que estou a falar “Não bebo mais traçadinho”

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        Fonte: 1000destinos.wordpress

        Dançar um pouco de salsa, ver alguma música ao vivo, na rua ou num ou outro bar e passear-se pelos inúmeros bares, restaurantes e discotecas que povoam este bairro, deixaram recordações bastante alegres de uma noite bem passada. Além disso, muita gente ficou com recordações da Sol, pois ela fez questão de fazer parte de todas as fotos que alguém tomou nessa noite.

        Para dormir escolhemos o BlackSheep, um hostal na zona de Poblado, cujo dono, um Neozelandez chamado Kelvin, nos permitiu estacionar à sua porta e usar todas as suas instalações, pelo que dormimos literalmente na rua.

        Baptizamos Medellin como a cidade Vermelha, pois é impressionante com todas as casas e edifícios, salvo raras excepções são exactamente da mesma cor: cor de tijolo. Excepto alguns edifícios modernos e as antigas propriedades do barão do Cartel de Medellin que construiu os seus edifícios da cor do seu produto mais famoso, todos os demais, desde as casas mais humildes dos subúrbios até às mansões mais sumptuosas são feitas de tijolo e assim ficam, sem qualquer outra pintura que possa perturbar esta harmonia argilosa.

        Segue-se a capital. Mas Bogotá está a mais de 500 quilómetros e as montanhas serão de novo a nossa companhia pelo que pelo caminho certamente conheceremos alguns “pueblitos”, mas logo lhes partilharemos convosco todas as imagens e histórias de mais este passeio.

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        • karine
          Fazedor de Chuva
          • Jul 2012
          • 1595

          #34
          Depois de tantos meses de calor, por vezes sufocante, chegar a Bogota foi, literalmente uma lufada de ar fresco. Já tínhamos saudades do frio e nada melhor do que o fresquinho de uma cidade a 2600m de altitude, devidamente decorada com milhões de luzes de Natal para nos encher de nostalgia.

          A cidade de Bogotá, uma das maiores do Continente, é uma cidade muito verde, com árvores e parques por todo lado, mas é também uma cidade assolada pelo inferno do tráfico.

          Nós andámos sobretudo a pé, de bicicleta e de Transmilenio (a rede de transporte público da cidade) e tem sido, sem dúvida a melhor maneira de conhecer a cidade Uma visita à Candelária, o bairro no centro histórico é uma experiência fascinante. A visita guiada que a Secretaria de Turismo da cidade oferece sem qualquer custo é altamente recomendável. Cada esquina tem uma história, infelizmente a maior parte relacionada com confrontos, manifestações e rebeliões que contadas agora apenas relatam a estoicidade dos seus heróis, mas que em dado momento foram a causa de muito sofrimento e sangue derramado.

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          Fonte: 1000destinos.wordpress

          Pudemos conhecer a famosa história do Floreiro que deu origem ao grito da independência, mas também a morte de Eliecer Gaitán e o Bogotazo, onde o povo se rebelou e arrasou a cidade, cujo confronto mais importante levou à destruição total do primeiro Palácio de Justiça da cidade. O actual Palácio é já o 3º que a cidade conhece, depois da destruição dos 2 primeiros.

          O Museu do Ouro é também um ponto essencial da cidade. Os ourives pre-colombinos deixaram um legado impressionante e a sua arte de trabalhar o ouro é intemporal e impressiona pela qualidade do trabalho executado.

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          Fonte: 1000destinos.wordpress

          Estar em Bogotá e não visitar o Museu Botero é imperdoável. Além das suas obras, Botero doou à cidade toda a sua colecção pessoal, onde se incluem vários quadros e esculturas de Dali, Picaso, Renoir, Degas ou Miró, com a única condição que a entrada ao museu fosse grátis para todos os visitantes. Ao lado, a Casa da Moeda oferece uma retrospectiva à origem e desenvolvimento das moedas e notas do país ao longo dos tempos. No final não se esqueçam de pedir ao guarda que está à porta “un recuerdo” e ele muito amavelmente lhes oferecerá uma moeda de souvenir. Ou seja, além da entrada grátis, ainda temos direito a uma prenda no final.

          A volta pelo Centro não podia ter terminado melhor. Uma visita ao interior do Palácio Municipal recebeu-nos com uma exposição temporal sobre Gabriel Garcia Marquez, comemorando os 30 anos do seu Prémio Nobel, incluindo uma representação de um dos seus contos.

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          Fonte: 1000destinos.wordpress

          Mas esta cidade não é só cultura e história. Os rolos (habitantes de Bogotá) são conhecidos pela festa ou como eles lhes chamam, A Rumbia. E que melhor local para passar uma noite divertidíssima que no Andres Carne de Res. Um restaurante que se encontra nos arredores da capital e que de restaurante rapidamente se transforma em bar e discoteca. Um cenário tão confuso que não é possível decifrar o tema, mas em que surpreendentemente tudo se parece conjugar para transformar-se no lugar perfeito para que toda gente se desiniba e possa bailar durante horas a fio. E, só para terem ideia do tamanho da coisa, imaginem que o local é atravessado literalmente por 2 estradas e o menu mais parece um livro de desenhos animados com mais de 30 páginas.

          Não podíamos terminar o texto sem agradecer ao Rui que nos recebeu em sua casa e com quem passamos uns belos serões e nos guiou até alguns sítios míticos da cidade.

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